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O sangue

Chapter 10: CAPITULO V
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About This Book

This work delves into themes of passion, betrayal, and the complexities of human relationships, exploring the emotional turmoil and moral dilemmas faced by its characters. It presents a narrative that intertwines personal struggles with societal expectations, reflecting on the nature of love and sacrifice. The text is structured to evoke deep emotional responses, using vivid imagery and introspective passages to engage the reader in the characters' inner lives. Through its exploration of these themes, the work offers a poignant commentary on the human condition.

CAPITULO V

Argumento

Innocencio espreita e apanha a menina. Diz-se o que era o babeiro do amor. Cacareja elle uma risada sinistra. Como o cavallo do elegante collaborou no amor subitamente accendido no peito de Innocencio. Terrores de Thomazia. Custodia dá-lhe espirito, promettendo tolher a lingua do joven. Quem era João José da Costa Guimarães. Como ella alimpou os olhos enxutos e logrou segunda vez Gervasio. Intervem Custodia no lance solemne de se estar Innocencio roendo as unhas sem acabar de resolver-se a casar. Cita um apophtegma do boticario. É mal recebida a authoridade metrica no auditorio. Recolhe-se Gervasio e mais o filho a um armazem de geropiga, onde lhe diz o que melhor se verá adiante. Como um homem precisa ser mais entendido que o burro de Buridan.

Innocencio não enguliu, como elle dizia, o maranhão: riu-se da boa fé paternal e espantou-se da astucia da rapariga.

Por volta das quatro horas da tarde, estava elle, á porta da rua, fogueando o seu charuto, ás escondidas do pae, e resfolegando soffrego as fumaças, com a voluptuosidade de rapaz que fuma ás furtadellas. N’este comenos, passou, em upas e corcovos de fogoso ginete, o enviado de S. Gonçalo, com os olhos disfarçados no parapeito da janella onde Thomazia costumava sair já nada esquiva. Innocencio retraíu-se para o escuro do pateo, e deu tento de rangerem em cima as portadas da janella. Espreitou de esconso o cavalleiro, e viu-o meio-voltado sobre o sellim, com esbelto meneio, revirar um olho á janella e surrir, correndo pelo bigode um lenço branco. O lenço branco, n’aquelle tempo, era ainda o babeiro do tenro amor, a bandeira do coração em batalha de ternos dardos.

Passou o galhardo picador, e Innocencio, pulando ao meio da rua, deu de cara com Thomazia ainda embevecida na figuração ideal do gentil rapaz, com os olhos postos no cunhal da casa onde se lhe desfizera a visão.

O filho de Gervasio cacarejou uma risada rispida e melodramatica como de actor garraio. A orfã olhou despavorida, e viu Innocencio a trincar o charuto, debaixo da aba do chapéo carregado sobre o nariz, coruscando-lhe das pupilas umas áscuas de raiva não vulgar.

Fez pé atraz a menina, e sumiu-se com o seu pejo e medo. Innocencio voltou para o pateo, acendeu outro charuto, e começou a passear freneticamente no lagêdo, scismando sem atinar com o alvitre mais adequado á sua refervente indignação.

Estranhava-se o rapaz! Poucas horas antes, a quasi certeza de que Thomazia escrevia a outro, levemente lhe agastára a vaidade; e agora, o vêl-a acudir ao reclamo do mais famigerado galã do Porto, e o cuidar que era aquelle o encuberto amor da rapariga, isto sómente lhe atanazava o peito de raladores ciumes! Comparava-se com o outro em gentileza e agrados. Raivava convicto da sua inferioridade; porque o seu rival cavalgava guapamente, era bem parecido, galeava pelos figurinos, tinha uns ares soberbos de quem despreza invejosos, entrava na roda dos provincianos fidalgos, e, de mais a mais, rico.

Vejam de que paixão ruim nasceu o amor de Innocencio! Foi a inveja que lh’o esporeou! Isto não admira. Não é bem sujo e fetido o adubo em que se aquece a raiz de um assetinado lirio? De detritos podres não surdem e avoejam insectos de azas iriadas de ouro e azul?

A orfã agachou-se a tremer á beira de Custodia e disse-lhe anciada:

—O Innocencio viu-me na janella... Agora ahi vem elle acusar-me ao padrinho... Que ha de ser de mim, Custodinha?

—Não, que a menina negue—acudiu a velha destemida.—Negue, que eu vou responsal-a, e tolhel-o a elle, que hade querer fallar e não poder.

A serva de Deus recolheu-se, apanhou entre os joelhos a cara, e quedou-se orando n’aquella postura pouco reverenciosa e quasi indecente.

No entanto, a rapariga, offegante de medo, subia e descia de mansinho as escadas que levavam da agua-furtada, onde era o quarto da velha, ao segundo andar. De cada vez que voltava, ia á beira de Custodia, e segredava-lhe:

—Não ouço nada.

—Deixe-me cá...—resmuneou a creatura, que continuava de bôrco os seus arranjos com os espiritos superiores.

Corrido um quarto de hora sem que Innocencio fizesse rumor, a velha alçou a cabeça, e disse com modesto aprumo:

—Está tolhido! Os meus santos não se cançam de ouvir a peccadora. Devo uma novena ao meu padre Santo Antonio.

Acabadas de proferir estas palavras, reboou desde o patamar do escriptorio a vozeira de Gervasio José, chamando Thomazia.

Estremeceu a menina; e a velha ficou por momentos descrida de ter bem tolhido a lingua de Innocencio.

—Ai! e agora?!—exclamava Thomazia.

—Vá lá, vá lá; faça-se de novas, e negue, que eu cá fico a rezar... E não se me ponha lá a choramingar... ouviu? Noivo tem a menina...

—Então, digo-lhe ao padrinho que tenho noivo?... acho que o melhor é ser verdadeira, não é, Custodia?...

—Não diga nada por ora, que em fim...

Gervasio vinha já subindo as escaleiras, quando a moça descia com a mais serena compostura de semblante, dizendo:

—Aqui vou, meu padrinho...

—A senhora não ouviu chamal-a ha pedaço?—perguntou desabridamente o velho.

—Não ouvi...

—Essa é boa! onde estava vocemecê?

—Na trapeira a dar agua aos manjaricões.

Hum...—regougou Gervasio, medindo-a com olhar carrancudo.

—O padrinho está zangado?—atalhou affavelmente Thomazia.

—Venha cá ao meu escriptorio: temos que fallar...—E accrescentou abaixando a voz:—Estou pasmado...

—De que, meu padrinho?!

Entraram no escriptorio. Thomazia viu as costas de Innocencio que estava olhando para o saguão atravez da vidraça.

—Com que então...—disse Gervasio, bamboando a cabeça—com que então...

A moça esperava o resto, serenamente encarada, com as mãos nos bolcinhos do avental.

—Afinal de contas...—proseguiu o entalado velho, saltando do exordio ao final de contas.—Que me dizes tu a isto, Thomazia?...

—A isto quê, meu padrinho?! Eu não sei por que vocemecê me está tratando assim...

—Não sabes?!—bradou Gervasio—não sabes?... Com que então... aquella carta era para o meu filho?... era para o meu filho que tu estavas escrevendo a cartinha, sim?

—Era, sim, senhor.

—Não minta!—entreveio Innocencio; rodando sobre os engonços dos calcanhares com a presteza de um manequim. Não minta! A senhora não foi, ha bocado, á janella, quando passava a cavallo o João José da Costa Guimarães?

—Quem é esse?—acudiu a menina com assombrada innocencia—eu conheço lá o Guimarães!...

—Não conhece aquelle rapaz que ia a surrir-se para cima, e a assoar-se a um lenço branco?—replicou o moço—Não sabe quem é o Costa Guimarães?!... Ora adeus!...

—Eu tinha aberto a janella—voltou Thomazia triste, mas socegada—porque... estive por traz dos vidros a ver se...—E suspendendo-se por dois segundos, continuou com mais calor.—Eu direi a meu padrinho o que estava fazendo, e a razão por que fui á janella.

—Então, diz lá...—sobreveio Gervasio.

—Hade ser só a meu padrinho...

—Vae lá p’ra cima, Innocencio—disse o pae ao rapaz.

Saiu Innocencio com os olhos abatidos e as mãos nos bolços da judia. Levava ares de tolo, e todavia doia-lhe o coração deveras. Gervasio fez um gesto de cara para deante e cabeça para traz, significando á menina que fallasse.

—Eu, padrinho, estava atraz das vidraças a ver se o Innocencio saía. Quasi sempre o vou espreitar de modo que elle o não saiba, para que não pense que eu lhe quero bem por que elle é rico. Hoje estava eu á espera que saisse; esperei, esperei muito tempo; e cuidando que elle estava á porta da rua a olhar para a Maraquinhas Gomes, abri a janella, quando ia a passar o tal homem a cavallo, que eu não sei se é Guimarães, se que diacho é. Vae n’isto, o Innocencinho foi p’ro meio da rua, e poz-se a olhar para mim muito carrancudo. Eu pensava que a zanga d’elle era por eu o andar espreitando; e vae elle de que se hade lembrar? vem dizer ao padrinho que eu estava a namorar o outro. Coisa assim!...

Thomazia tirou um lencinho da algibeira, e levou-o aos olhos para que Gervasio lh’os não visse enxutos.

A cara do velho alargou-se dilatada pelo calorico da alegria; é preciso a fisica para explicar os movimentos das caras onde não ha metafisica nenhuma. Tem não sei que aspeito alvar o contentamento das almas boas. O de Gervasio José de Barros jubilava tão grandemente e tão convencido da innocencia da afilhada, que não se satisfez com menos de abraçar a orfã e exclamar:

—Ó menina, perdôa ao meu filho, que é um asno!... Anda aquelle bólas com a cabeça tão desarranjada, que se tu lhe não dás juizo com o casamento, eu qualquer hora pego d’elle e mando-o comer no Brazil o pão que o diabo amaçou. Mas o que o Innocencio quer, filha, é que tu gostes d’elle, e mal sabe o patarata que tu lhe queres tanto... Gostas do meu filho, deveras, rapariga?

—Sim... eu...; mas... elle... como é rico, e tem muito quem o queira... e eu sou pobre... por isso...

—Asneiras, menina, asneiras! Quem é rico sou eu, não é elle, entendes, Thomazia? Eu é que tenho alguma coisa, riqueza não digo, por que ha quem tenha mais; mas ganhado com mais honra, não. Ora agora, o meu filho por emquanto é tão rico como tu; e ao futuro, se me andar fóra dos eixos, póde ficar a ver o sete-estrello, entendes?... Eu já te disse que...

—Mas se elle casar com outra menina rica...—interrompeu Thomazia.

—E d’ahi?

—Não lhe faltarão senhoras do agrado do padrinho...

—Não me dês leis, menina. O que me convem sei eu... Não quero cá a menina rica... Quero-te a ti, por que te estimo como filha; quasi me nasceste nos braços; e prometti á alma de teu pae olhar tanto por ti, como se fosses irmã do meu Innocencio. São dois filhos que eu tenho. Se elle te não quizesse, Thomazia, sabes o que acontecia? pelo menos metade do que eu tenho havia de ser teu; isso lá nem a justiça nem o bersabú t’o tiravam. Se elle casar comtigo, como de feito, fica-vos tudo; não tendes partilhas que fazer, e fica-vos bastante, graças a Deus, e louvores a quem m’o deixou sem pragas de orfãos e viuvas.

Thomazia não se enterneceu até ás lagrimas; mas ficou tanto ou quanto commovida por sentimento de gratidão ao amor paternal do velho. Figurou-se-lhe ver a imagem do pae, ainda não delida totalmente da sua memoria, arguindo-lhe com severidade a perfidia com que respondia á generosa alma do seu bemfeitor. Sem intervenção do venerando fantasma de seu pae, sobrava para magoal-a a vergonha espontanea que sobreleva os malissimos instinctos.

O regosijado Gervasio José saiu ao pateo e chamou o filho, e a mulher, e as irmãs, sentindo não ser usual invocar os visinhos para quinhoarem da alegria de um coração bonissimo. Innocencio foi o ultimo que desceu.

—Venham cá!—exclamou o velho com as bochechas rosadas e cheias de riso.—Anda cá tu, meu filho, que és um lorpazito como eu fui quando amava tua mãe, e como hão de ser teus filhos e netos até ao fim do mundo peronia secla seclorium. Ouve lá, menino. Olha que a Thomazia foi á janella para te ver; e tu, que trazes a cabeça lá por cascos de rôlhas, cuidaste que ella ia ver o outro. Menina, conta ahi tu como foi a coisa a este teu noivo, que está ali com um nariz de palmo a olhar p’ró chão e com a vista de esguelha! Não me estejas a olhar-me p’rá pequena com esse olhar de porco, Innocencio! Vaes mal com esse sistema... Pagar amor com ingratidão nem os cães. Menina, diz ahi tu como foi que...

Thomazinha, sem erguer o collo da pudica inclinação em que o tinha, murmurou mui constrangida:

—Já contei ao padrinho... Se elle não quer acreditar, deixal-o. O que eu faço d’aqui em deante é não tornar á janella, e acabam-se as desconfianças...

—Como as desconfianças se acabam sei eu,—emendou D. Thomazia.—O que se hade fazer ao tarde faça-se ao cedo.

—Dizes bem, mulher!—obtemperou o marido.—Hade isto ficar decidido aqui hoje.—E voltado solemnemente ao filho, continuou:—Innocencio, queres receber por tua esposa esta menina?

Deteve o rapaz a resposta, roendo a unha do dedo pollegar, e revirando de soslaio os olhos a Thomazia.

—Então?—bradou o pae—comes os dedos ou respondes?

—Ella que diga...—murmurou Innocencio, passando a roer nas unhas da outra mão.

—Afilhada!—apostrofou o velho guardando os mesmos tom e postura graves.—Queres casar com meu filho?

A menina corria a orla do avental retorcendo as franjas de retroz uma por uma com os seus alvissimos dedos.

—Responde, Thomazia!—tornou Gervasio dando aos hombros com impaciencia.

—O padrinho bem sabe a minha vontade... Eu estou por tudo... mas...

—Mas quê...—abreviou o velho desconfiado das reticencias.

—Se elle me não ama depois... O padrinho bem sabe que o Innocencinho nunca me disse se eu queria casar com elle... Tem lá outros namoros de meninas ricas... e eu sou uma pobre orfã... Se depois se arrepender...

—Que dizes áquillo, Innocencio?—tornou Gervasio.

—Eu...

—Sim, tu! pois com quem diabo fallo eu!

—Ó Gervasio!—atalhou a irmã Sebastiana—não tens precisão de fallar no porco-sujo!...

—Pois que querem vocês?—explicou o velho.—Um homem perde a paciencia! Está ali aquelle focinhudo a roer os cascos, e não acaba de desembuchar o que lá tem dentro!

—Responde a teu pae, menino!—interpoz-se D. Thomazia.—Ou sim, ou não. Contra vontade não quero que te cases...

—Isso é assim!—atalhou um novo personagem n’esta poetica e fidelissima scena de familia.

Era a senhora Custodia da Porciuncula que assomava no limiar do escriptorio com as calmandulas enroscadas no pulso.

—Peço licença... Ninguem me cá chamou; os meus santos é que me trouxeram...—disse ella.

Abriram-lhe passagem com agradavel sombra as trez senhoras em quanto a menina desabafava o animo, encarando na sua confidente.

—A senhora D. Thomazia tem razão—proseguiu Custodia, inclinando profundamente a cabeça deante da consorte de Gervasio.—Casar, se o coração não puxa, é mau arranjo. Sempre me ha de lembrar o verso em que o boticario dizia:

Menina, casar sem gosto
Por fazer vontade alheia
É cair no inferno em vida,
Remar contra a maré cheia.

Innocencio careteou uma visagem de anojado do tom enfatico e talvez ridiculo com que a senhora Custodia usava citar os aforismos liricos do boticario. A velha deu tento do desdem do moço, e calou-se de subito, relançando-lhe a vista azedada.

—Deixemo-nos agora lá do verso do boticario—disse o pae de Innocencio egualando-se ao filho no descaroado desamor a poetas, mormente quando se discutia uma coisa séria. Não venha cá a Custodia dar sentenças, que o negocio hade arranjar-se sem o seu voto, se Deus quizer...

—Senhor Gervasio—replicou a velha—se Deus quizer, sim; mas se Deus não quizer, não...

—Deixa fallar a mulhersinha, Gervasio,—interveio a esposa,—deixa-a fallar, que é mulher experimentada.

—Será, será; o diabo o negue...—acudiu o burguez maliciando o dito casto da mulher.

—Anjo bento!—murmurou a senhora D. Florencia—ahi vens tu outra vez com o cão tinhoso!

—Sabeis vós que mais?—redarguiu Gervasio—ide á fava! Estou a mandal-as todas p’ra riba, e fico sósinho com os pequenos... Que estás ahi a resmungar, Custodia?... Diz lá o que quizeres... Achas que a filha de teus amos vae mal casada com o meu filho?

—É consoante, senhor Gervasio. Se elles gostam um do outro, muito que bem; se não gostam, tanto faz ser rica como pobre; contentes é que elles hão de viver, quando eu fôr rainha. Não é isto nem aquillo... Estes meninos, cá segundo entendo, não estão talhados p’ra se casarem. O senhor Innocencinho não gosta da senhora D. Thomazinha.

—Quem t’o disse?!—bradou Gervasio.

—Ora, quem m’o disse! Basta vêl-o. Se elle gostasse d’ella, estava aqui agora aquella menina á espera que elle se resolva? Então já lh’o elle tinha dito, e acabavam estas caramunhas de parte a parte... Emfim, senhor Gervasio, queira perdoar o meu atrevimento, mas a minha opinião é que os deixe estar solteiros. O seu filho não lhe faltam noivas; e á menina, se Deus quizer, não lhe hão de faltar noivos. O melhor dote que ella pode ter é a sua virtude e a carinha de santa que tem.

Gervasio roçava as costas das mãos uma na outra e bufava, voltando a parte posterior de sua pessoa á sã filosofia de Custodia. As trez senhoras, convictas de que a velha era servida de favores do alto e sempre mais ou menos inspirada, attentavam religiosamente no que ella dizia. A menina desafogava-se da oppressão, respirando pelo desabafo da criada. Innocencio guardava um silencio que tanto podia considerar-se summo siso como supina toleima.

Quebrados os impetos da colera, Gervasio José abriu uma porta de entrada para um armazem de geropigas, e disse ao filho:

—Anda comigo, rapaz.

Entrados ao armazem, fechou o velho a porta, e rompeu assim de vizeira com Innocencio:

—Queres casar ou não? Gostas da rapariga ou não gostas? Diz lá o que quizeres, que eu não t’o levo a mal. Se vês que te não agrada o casamento, dil-o p’r ahi á bocca cheia. Cá ás costas não quero culpas. Queres a moça ou não queres?

N’este lance, o rapaz viu trez bonitas raparigas: uma era a visinha Mariquinhas Gomes, que tocava piano; outra, era a Felismina da rua das Flores, que lhe tinha dado amendoas, na Misericordia, em quinta feira santa, ao pé da pia; a terceira era a Rosinha da Praça Nova, que lhe pisára um pé, estando elle a jogar o quino em casa da mesma menina, a mais presada das trez. Por tanto eram trez provas de ternura que lhe lancetavam o coração n’aquelle momento. Trez meninas, aliás quatro com Thomazia, que lhe embaraçavam a escolha, obrigando-o a ter mais engenho que o pensador e historico burro de Buridan.

N’esta oscillação, demorou-se o que bastou para o pae concluir assim terminantemente:

—Está visto... Não queres a rapariga... Acabou-se; não fallemos mais n’isto. Vamos embora.

—Olhe cá, meu pae...—susteve Innocencio.

—Que é?

—Eu queria dizer-lhe uma coisa...

—Então?

—Peço quinze dias de espera.

—P’ra quê? P’ra te decidires? Deixemo-nos de historias. Se o coração t’o não pede, acabou-se. Tanto faz scismar no caso como estar a dormir. Arrumou-se a pendencia. Nada perdido. Vou tratar de casar a pequena com um dos meus sobrinhos de Villa-Flor. O que eu não quero é têl-a solteira em casa; que isto de mulheres, ás duas por trez, desandam, e ninguem tem mão n’ellas. Acabou-se. Vamos embora.

A determinação de Gervasio era sincera. Póde ser que um misterioso relampago, n’aquella hora, lhe aclarasse, em confuso, o porvir desditoso de tal enlace. O certo é que a vontade de unir o filho á orfã se lhe varreu de todo.