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O sangue

Chapter 22: CAPITULO XVII
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About This Book

This work delves into themes of passion, betrayal, and the complexities of human relationships, exploring the emotional turmoil and moral dilemmas faced by its characters. It presents a narrative that intertwines personal struggles with societal expectations, reflecting on the nature of love and sacrifice. The text is structured to evoke deep emotional responses, using vivid imagery and introspective passages to engage the reader in the characters' inner lives. Through its exploration of these themes, the work offers a poignant commentary on the human condition.

CAPITULO XVII

Argumento

Apanha a franceza um murro portuguez de lei. O esmurraçador vae comprar leques, e quando volta não acha a creatura socada. Dão-lhe uma carta, em que elle aprende miudezas do fenomeno da gestação, em que o pae o considera agente de primeira ordem. Fervem-lhe os miolos, e corre a vingar-se: Adoece no Havre de febre cerebral, e está perigoso. Chegam noticias ao Porto. Scenas pateticas. Thomazia, no auge da atarantação, perde os sentidos, e dá á luz um menino de oito mezes, em resultado do susto, que costuma aperfeiçoar obstetricamente e fenomenalmente estas coisas. Dois infernos ambos elles mais peores, como dizia o negro dos dois senhores que tinha tido.

Quinze dias corridos, um viajante inglez que estadeava equipagens e librés, viu a franceza no theatro Scala de Milão, e perguntou entre dois bocejos quem era aquella creatura de olhos piscos e sobrancelha negra.

Deteve-se a resposta em quanto os informadores desvelados andaram escudrinhando nos hoteis a procedencia da ditosa que se endeusára a um raio visual do ricasso bretão.

Innocencio dera trez vezes de olhos com o binoculo do inglez apontado ao seu camarote, e raciocinou que não era elle de si objecto para attenções tão pertinazes. Antes do acto 3.º convidou a franceza a sair; mas a rebelde rejeitou o convite, desculpando-se com o amor da musica. Ia cantar a Ferlotti a romanza da Favorita: Ó mio Fernando. O galã portuense trincou o beiço com desamor e raiva tal, que apertaria mais brando o dente iracundo no coração de Jacqueline.

Concluida a opera, sairam amuados e desavieram-se em casa pela primeira vez. A franceza descomediu-se em remoques e desabrimentos. Innocencio amava das entranhas aquella mulher que lh’as cancerára. Do muito amar ao injuriar por ciumes, medeia meio passo: o bater está linhas adeante. A franceza apanhou um revez de mão portuense que corresponde ao murro de um ciclope. Empinou-se a parisiense deante do homem da rua das Cangostas, e disse-lhe:

—Ámanhã pagarei as despezas que fizer n’este hotel.

Innocencio caiu em si, e logo em joelhos, exclamando:

—Tem piedade de mim, que estou doido de ciumes. Amo-te! amo-te! Ouve-me, Jacqueline! se me não ouves, mato-te e mato-me!

Esta concisão denotava tenções sinistras. A franceza teve-lhe medo, e aquietou-o. Mas não chorou, como as mulheres ultrajadas, quando perdoam. Devia de ter levado outros murros aquella dama, ou a traça da vingança estava armada.

Quando Innocencio foi para o almoço com a alma e estomago livres de peso, já a risonha e indulgente commensal tinha um misterioso annuncio da criada que a servia. Fallára-lhe de um conde de certo condado inglez, que se pronunciava com cinco ff, incompativeis com a doce lingua millaneza. E mais nada podera dizer-lhe.

Innocencio não se desabeirou n’aquelle dia da franceza. Agora a estava elle amando em tresdobro. Dizia-lhe coisas que não pareciam suas. Passava de tolo a eloquente, como se Amor e Minerva, n’aquelle dia, se revezassem a senhorear-lhe o espirito que até então andára sempre nas divindades da ralé celestial.

E ella voltava-lhe em surrisos as caricias, e dissimulava o enojo impaciente com as momices do coração magoado.

Sobre tarde, Innocencio deteve-se com o mestre de dança, e Jacqueline com a criada.

Coração, figados, baço, e tudo de Innocencio funccionava normalmente no dia seguinte.

A franceza pediu-lhe um leque de sandalo. Saiu o jubiloso amante a comprar leques de varios feitios.

Voltou com o folego apressurado. Entrou á ante-camara do seu quarto. Não viu o seu enlevo d’olhos. Procurou-a entre os cortinados do leito. Foi á sala do piano. Interrogou os criados. Ninguem lhe daria novas, se a criada do toucador da madame Barros, lhe não dissesse:

—Madame saiu, levou seus bahús, e deixou esta carta para vossa excellencia.

A carta, envolucro de outra, dizia:

Sem tempo para mais, adeus. Murros vá dal-os em sua mulher. E é tempo de ir. A carta inclusa dá-lhe uma noticia que o deve apressar a ir receber nos braços o pimpolho. Se é verdade o que me disse da sua casta união, tanto peor para o senhor. Lá se avenham.—Jacqueline B. de Rastignac.

Leu Innocencio a carta do pae, que resava assim:

«Vou-te dar uma grande alegria. Como dizes que vaes para Veneza, mando-te para lá esta carta, por via do vice-consul italiano. Saberás que tua mulher nos deu o maior cuidado, e pensámos que ella tinha grande mal interior; por que andava muito amarella e chupada da cara que parecia uma castanha sêcca. A gente perguntava-lhe o que ella tinha, e nada de novo. Queixava-se de enxaquecas, e comia como um passarinho. Depois passou-lhe aquelle fastio e pegou a comer melhor, mas andava triste como a noite, sempre a matutar e a chorar pelos cantos. Até que um dia, tua mãe veio ter comigo e disse-me:—Ó Gervasio, eu desconfio que ella não sabe o que tem; mas olha que o meu olho não mente: a rapariga traz menino na géra. Repara-lhe p’ráquelles encontros!—Tu que me dizes, mulher? Isso era uma felicidade para todos! O Innocencio se souber isso vem logo p’ra casa, não te parece?

«Vae ella, depois, foi ter-se com tua mulher, é disse-lhe a sua desconfiança. Tua esposa começou a negar, e dar as suas razões; mas tua mãe protestou que não se enganava, e para o que mandou chamar o mestre da escola de cirurgia, o Sinval, que a examinou e disse que estava de cinco ou seis mezes. De cinco lhe disse eu que não podia ser, porque tu tinhas ido para o Pará ha seis. Então é de seis, disse elle; mas digam-lhe que não ande tão espartilhada.

«A gente ficou alegre como tu podes imaginar; mas ella sempre triste, que não te digo nada!! Acho que está com medo de morrer, e não ha forças que lhe dêem animo. De maneira, que cá pelas nossas contas d’aqui a quatro mezes deve apparecer o que fôr: oxalá que seja um rapazito.

«Terás tu a má condição de não vir para a tua casa antes d’esse tempo? Falta-me ver isso, meu filho!!!!! Não dês que fallar ao mundo n’este caso, que é de ficar mal para todo o sempre um homem. Logo que esta recebas, deixa-te de pagodes, e vem a toda a pressa para lhe dar animo; que ella está como uma tumba. Pede-te tua mãe que compres por lá um enxoval rico por conta d’ella; porque já sabes que os padrinhos somos nós, etc., etc.»

Quando chegou por aqui, Innocencio mal enxergava os caracteres. Zumbiam-lhe vespas na cabeça, ferroando-lhe os miolos. Lavaredas internas queimavam-n’o desde o diafrágma até aos beiços. O tremor das pernas fêl-o sentar-se de pancada n’uma voltaire, como se o derrubassem com uma catapulta jogada ao peito. Cravára no tecto os olhos betados de sangue. Nem amor nem odio á franceza lhe braseava o espirito extraviado. Varrêra-se-lhe de todo da lembrança a mulher a quem, horas antes, promettêra a mão de marido, se um dia enviuvasse, e lhe ella guardasse lealdade. Não a via sequer em imagem; mas, se a visse, tangivel, laceravel e capaz de afogar-se no proprio sangue, iria espedaçal-a a dentadas: porque a infame lhe retardára apunhalar a adultera.

Apunhalal-a, sim! esta era a idéa que lhe revia sangue nos olhos e rangia nos dentes.

Levantou-se de golpe como tigre assaltado de surpreza. Correu ao quarto, chamou criados, emmalou e alugou carruagem com frequentes mudas para França.

Quando chegou a Pariz, doze dias depois, entrou na via-ferrea para o Havre, pressurando-se em ir a tempo de embarcar no «paquebot» que navegava para Portugal. Porém, quando chegou, ao fim de cinco dias de insomnias, de fraqueza á mingua de alimento, de sobre-excitação febril, e impaciencia devorante, caiu de todo quebrado e incapaz de se mover do hotel até ao navio. O medico examinou-o e saiu esperançado da cura, obstando-lhe ao intento de se fazer levar para bordo em braços.

Obedeceu o enfermo, e pediu que lhe enviassem para o pae esta breve carta: Ha poucos dias que recebi a que me escreveu para Londres, dando-me parte dos prazeres que lá tem. Não me demorei onde estava; mas cheguei tão doente ao Havre, que fico na cama. Dezoito dias mais tardar é o que poderei estar por aqui. Lá vou tambem dar um terno abraço em minha mulher. Não posso mais. Seu filho muito do coração, Innocencio.

O barco havia saído quando o doente se arrepelava, exclamando:

—Eu dava dez contos por áquella carta!... Estou doido! Que asneira eu fiz! Agora foge ella á minha vingança em lendo a carta! Que inferno este!...

E, bramindo, sacudia a roupa, e saltava do leito, afugentando o enfermeiro que imaginava tel-as com um mentecapto. Venciam-n’o com força e carinhos. Levavam-n’o ao leito. Ministravam-lhe os remedios. Todavia, as febres exasperavam-se, e os simptomas do tifo não se escondiam aos olhos do medico, salvo se os da congestão cerebral se offereciam mais caracteristicos.

Sigamos a carta que lhe acerbou as angustias. Qualquer que fosse o motivo das delongas na participação do representante portuguez em Pariz, aconteceu que o ministro dos estrangeiros mandava transmittir para o Porto o aviso de viver o filho de Gervasio José de Barros, ao mesmo passo que o velho era surpreendido pela carta do filho.

Pobre pae! quando reconheceu a letra, expediu grandes gritos cortados pela suffocação da alegria e perdeu os sentidos, casquinando umas esfusiadas de riso nervoso.

As senhoras vieram assim encontral-o nos ultimos degráos, amparado nos braços do criado. Vinha entre ellas tambem Thomazia, secretamente e a um tempo abalada de prazer e de medo, cuidando que eram de agonia aquelles gritos.

Gervasio sentiu desabafar-se-lhe o alento, assim que ouviu aproximarem-se almas com quem podesse repartir do peso esmagador do seu jubilo.

—Está vivo nosso filho!—bradou elle.—Está vivo teu marido, afilhada! Aqui está uma carta! aqui está! vêde-a! Graças, meu Deus, graças!

—Graças, meu Deus!—conclamaram as trez senhoras e os trez velhos ajoelhando todos no degráo.

Thomazia, porém, permanecia quêda, empedrada, livida, esgaseando os olhos turvos. Assim se esteve n’aquelle alheamento, olhando tudo sem ver mais que a figuração do marido, por espaço bastante notavel, que todos levantaram para ella os olhos perplexos. N’este conflicto, faltavam-lhe os joelhos, entrou em convulsões, e, soltando um gemido, caiu nos braços da sogra e do padrinho, que a viam cambalear.

—Olhem o que faz a alegria!—clamou o velho.—Levem-n’a para cima, coitadinha! levem-n’a com geito, que isto passa logo... Eu vou ler a carta para vossês todos ouvirem ao pé da cama da nossa pobre filha.

—O peior é se este sobresalto lhe faz mal á creancinha!—disse D. Thomazia.

—Não hade fazer, se Deus quizer!—contrariou Gervasio, seguindo o grupo em cujo centro ia a esposa sem sentidos, amparada nos braços de todos.

Defumaram-n’a com alfazema e ungiram-lhe as fontes de vinagre. Descerrou as palpebras de sobre os espantados olhos. Viu muita gente a rir-se e a chorar de alegria, e já o sogro com a carta aberta, dizendo:

—Escuta lá, filha, escuta o que diz o teu homem. Diz pouco por que está doentinho; mas é bastante para ficarmos doidos de alegria. Ouve, menina.

Leu. Thomazia fazia ranjer o leito com as tremuras.

—Vês?—proseguiu Gervasio.—Olha como elle está contente, menina!

—Mas está doentinho!—accudiu a mãe.—Queira Deus que a doença seja leve.

—Hade ser, se Deus quizer!

—Ó manas—tornou D. Thomazia—vamos já pedir a Nosso Senhor que lhe dê saude. Vinde para o oratorio.

—Eu não posso ir...—murmurou a esposa de Innocencio, erguendo custosamente a cabeça.

—Pois não venhas, filha, não. Aqui fica teu pae a conversar comtigo emquanto nós vamos resar. Cá pediremos tambem em teu nome, Thomazinha; e mais tu podes resar d’ahi tambem, que Deus Nosso Senhor está em toda a parte onde se procura.

—Ó rapariga!—continuou Gervasio, assim que as senhoras sairam—a nós a alegria deu-nos de bota abaixo! Eu tambem perdi a tramontana; e, se lá não está o gallego, dou com a cabeça no corrimão, que a parto! Não que elle!... Ó menina, eu parece que estou areado do juizo! Pois inda torno a ver meu filho!... Que me dizes?

—Deus o queira...—murmurou Thomazia, dizendo no fundo do seu coração: «Matai-me, Senhor, matai-me, e condemnai-me ao inferno para sempre!»

—Tu estás a modo de triste, afilhada!—sobreveio o velho.—Que tens tu que estás chorando agora?

—Chorando?—disse ella apalpando os olhos—é verdade... não sei por que choro... é alegria... pois que hade ser, meu padrinho?... é alegria...

—Ah! lá isso entendo eu! Olha, queres tu ver que tambem me rebentam as lagrimas?

De feito, Gervasio chorava e alimpava os olhos ao punho da japona, dizendo entre frouxos de riso:

—Deixal-as cair, que são as ultimas... Não torno a chorar na minha vida. Venha meu filho, veja eu o meu netinho, e depois não ha mais nada p’ra mim n’este mundo. Já cá deixo gente que farte para fazer honra á minha memoria.

N’este momento, sacudiu-se em convulsas contorções D. Thomazia, e vibrou um prolongado gemido.

—Que tens, menina?!—clamou alvoroçado o sogro.

—Ai!—repetiu ella gemebunda, estendendo os braços e batendo os dentes.

Gervasio foi chamar a mulher aceleradamente gritando que Thomazinha estava muito mal. Acudiu a senhora com as cunhadas, e observou ao marido, em termos caseiros, que o sobresalto da noticia poderia antecipar a hora que não obedece sempre ao ciclo das nove luas.

Foi chamado o facultativo de maior nome em obstetetrica, ladeado de duas famigeradas comadres.

D. Thomazia diagnosticára magistralmente o incommodo, segundo concordou com o facultativo e as previstas assistentes.

Apoz trez horas de gritos alternados com desmaios, viu Gervasio sair sua mulher com um menino recemnascido nos braços.

—Nasceu de oito mezes!—dizia a radiosa velha.—Está vingado e perfeitinho!

O velho encarou na creança muito de perto; mas não ousou pôr-lhe os beiços cubiçosos, receioso de lhe magoar as carnes tenrinhas.

Ao mesmo tempo, no segundo andar da casa do marceneiro, Nicoláo d’Almeida, já informado de que se esperava Innocencio, e de que o medico e parteiras tinham sido chamados á pressa, imitava na irrequietação, no desesperar-se, nos exteriores de uma ancia insoffrida, as torturas por que tinha passado em Milão o marido de Thomazia.

As agonias eram diversas; e todavia não sabemos decidir em qual das duas almas podia caber mais um gume de ferro. O marido arfava no anceio de a matar. O amante na impossibilidade de a salvar, cuidando que ella ia morrer. Quem optaria de prompto pelo mais suave d’estes dois infernos?