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O vinho do Porto: processo de uma bestialidade ingleza / exposição a Thomaz Ribeiro cover

O vinho do Porto: processo de uma bestialidade ingleza / exposição a Thomaz Ribeiro

Chapter 4: THOMAZ RIBEIRO
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About This Book

This work critiques the English perception of Port wine, presenting a satirical examination of its alleged toxicity as claimed by a British author. It discusses the historical significance of Port wine in British society, highlighting its consumption by notable figures and contrasting it with the negative portrayal in English literature. The author argues against the accusations of adulteration and toxicity, attributing the criticisms to cultural misunderstandings and biases. Through humor and irony, the text explores themes of national identity, the relationship between England and Portugal, and the complexities of wine production, ultimately defending the quality and heritage of Port wine.

The Project Gutenberg eBook of O vinho do Porto: processo de uma bestialidade ingleza

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Title: O vinho do Porto: processo de uma bestialidade ingleza

Author: Camilo Castelo Branco

Release date: February 26, 2008 [eBook #24691]

Language: Portuguese

Credits: Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O VINHO DO PORTO: PROCESSO DE UMA BESTIALIDADE INGLEZA ***

O vinho do Porto

Porto—Imprensa Moderna

CAMILLO CASTELLO BRANCO


O vinho do Porto

PROCESSO D'UMA BESTIALIDADE INGLEZA

EXPOSIÇÃO A

THOMAZ RIBEIRO


2.ª EDIÇÃO




PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, Editores
1903
Propriedade absoluta dos editores
Reproducção Interdicta

a Thomaz Ribeiro

Como sei que o teu amor ás perfidas trêtas e manhas da Inglaterra não é dos mais acrizolados, venho offerecer ao teu sorriso um specimen de bestialidade ingleza.






Ha trinta e cinco annos que um bretão anonymo lavrou na Westminster Review a condemnação do vinho do Porto como deleterio e empeçonhado por acetato de chumbo e outros toxicos anglicidas. O homem, pelas rábidas violencias do estylo, parece ter redigido a calumnia depois de jantar, n'uma exaltação capitosa do tannino do alvarilhão que elle confundiu com as afflicções dos venenos metallicos. Relembra lamentosamente, com a lagrima das bebedeiras ternas, o seculo dezoito, em que o genuino licor do Porto era um repuxo de vida que irrigára a preciosa existencia de grandes personagens da Gran-Bretanha. Recorda Pitt e Dundas, Sheridan e Fox, famigerados absorventes do nosso vinho. Diz que Lord Eldon e Lord Stowel, graças infinitas ao Porto, reverdejaram e floriram em velhos; e Sir William Grant, já decrepito, bebia duas garrafas de Porto a cada repasto, para conservar crystallinamente a limpidez das suas faculdades mentaes e a rija musculatura de todos os seus membros já locomotores, já apprehensores, e o resto. Lamenta que Pitt, debil de compleição, com o uso immoderado d'este tonico, e em resultado de plethoras frequentes combatidas com ammoniaco e sulfato de magnezia, vivesse dez annos menos do que viveria, se possuisse o incombustivel estomago curtido do veneravel Lord Dundas.

Succedeu, porém, ao collaborador da Westminster Review achar-se dyspeptico, com azías, relaxes intestinaes, eructações cloacinas, e o craneo sempre flammejante como suja poncheira, com o encephalo em combustão de cognac e casquinha de limão—isto depois de saturações copiosas dos vinhos adulterados do Porto—uma mixordia negra, diz elle afflicto; mas não sabe decidir de prompto se a degeneração está na raça saxonia, se no vinho portuguez. Pelo menos e provisoriamente considera-se envenenado, o bruto.

Pois o veneno que lograr infiltrar-se nas mucosas inglezas deve ter a potencia esphacelante da Agua Tufana dos Borgias. Em Inglaterra os porcos engordam na ceva do arsenico. Que fibras de raça aquella! É que a carne d'um bretão diverge muito da carnadura da restante Europa. O anthropologo Topinard observou que a mortandade nos hospitaes inglezes, em seguimento ás operações cirurgicas, era muito menor que a dos hospitaes francezes. O sabio Velpeau, consultado pela Academia de Medicina, respondeu que la chair anglaise et la chair française n'etaient la même. E não dá a razão da differença, por que a não sabia o grande biologo. Eu, na observancia do dictame do Espirito Santo, pela bocca do Ecclesiastico—«não escondas a tua sabedoria» illucidarei o snr. Velpeau. A razão, a scientifica é esta: emborcações de bebidas acidas, e mórmente de cerveja, combatem, como coadjuvantes do acido phenico, a gangrena; ora, o inglez, abeberado de cerveja, é refractario á podridão dos hospitaes. Como se vê, d'esta causal tão obvia um anthropologo é capaz de espremer assumpto para volumes recheados de coisas abstrusas sobre ethnographia, climatologia, morphologia, mezologia, o diabo.

Além da cerveja, a fibrina do porco, saturado de arsenico, entretecida na fibrina do inglez seu compatriota, faz d'elle um Mithridates para os saes de chumbo diluidos no vinho do Porto. O inglez não póde morrer por ingestão alcoolica. Se quer suicidar-se com instrumento liquido, tem de asfixiar-se, afogar-se no tunel como o lendario Lord. Elle é immortal, absorvendo; e só póde morrer—absorvido. Estranho animal! E é senhor das aguas e das melhores garrafeiras! O destino, pela tuba sonorosa de Camões, disse ao inglez:

Entre no reino d'agua o rei do vinho.

                                  (LUS. c. VI.)

Que litros de Porto envenenado se calculam efficazes para degenerar um bretão até á dyspepsia e ás agonias da morte?

*

N'esta conjunctura, um possuidor de legitimo Douro convidou o intoxicado a beber o elixir fornecido por um commerciante britannico estabelecido no Porto. O negociante fornecedor era o Forrester que desappareceu d'este alfôbre de charlatães forasteiros, de um modo tragico, ha vinte e trez annos. Logo te contarei essa catastrophe, meu amigo.

A sensação intima que o hospede recebeu nas suas entranhas foi uma novidade, uma deleitação de refrigerio em todas as membranas desde o céo da bocca até ao cego e visinhança onde elle sentia os ardores da zona torrida. Emborrachou-se como era de esperar, e seria iniquidade censurar-lh'o; mas o seu cerebro de illuminado espelhava agora as visualidades ethereas, irisadas, do americano Poë. Nem já o ventre lhe rugia como se lá tivesse uma besta-fera embetesgada n'uma latrina, nem elle nauseado recorria ás titilações na glote para golphar o acetato de chumbo. O possuidor da garrafeira, para o convencer de que o salvára da morte propinada pelo vinho homicida do Porto, mostrou-lhe dois opusculos inglezes recentemente publicados. Um era de J. James Forrester, e intitulava-se A Word of truth Port wine. O outro, por Whittaker, em reforço ao de Forrester, chamava-se Strictures on a «Word of truth on Port wine». London, 1848.

Forrester, no seu folheto, desbaratava o valor do vinho do Porto, increpando os lavradores de não differençarem, no fabrico, as temperaturas humida, fria, secca e quente; que empregavam promiscuamente toda a casta de uva, adulterando-a com ingredientes adequados ao paladar inglez, mas corrosivos. Na operação do lagar, accusa o lavrador de retardar a fermentação, vasando em cada pipa de môsto entre dose e vinte e quatro gallões de agua-ardente. Que, passados dois mezes, a mixordia era córada com baga, mediante uns saccos de linhagem que espremiam sobre o vinho, e depois atiravam o residuo ao tunel. Em seguida, novo despejo de agua-ardente, e dois mezes de descanço. Esta beberagem enviada para o Porto era novamente «beneficiada» com o veneno alcoolico; e, nove mezes depois, ao sahir para Inglaterra, como golpe de misericordia, nova infusão. De modo que o vinho entrava no estomago inconsciente do Reino-Unido á razão de vinte e seis gallões de agua-ardente por pipa. Depois, descreve o que seja geropiga, e como ella entra n'estes horrendos mysterios da Brinvilliers. Esta geropiga, como logo direi, fermentou a bestialidade ingleza que passou victoriosamente na Europa em 1849.

Rematada a lista das falsificações, fraudes e ladroeiras dos lavradores e negociantes portuguezes, Forrester exclama: «Quem assim deteriora o vinho é, a meu vêr, mais criminoso que um ladrão vulgar»; e conclue o seu opusculo n'estes termos: «Os consummidores inglezes devem dar a Portugal uma lição prática, demonstrando que, se a esse paiz convém desfazer-se da sua agua-ardente, que não é nos vinhos do Porto que nos deve impingil-a; por que nós, em Inglaterra, podemos comprar baga e melaço por preços muito mais em conta do que Portugal nos incampa o seu licor de que esses ingredientes formam o principal.»

*

Parecia natural e patriota coisa que os negociantes e agricultores de vinho accusassem este detrahidor á animadversão publica, e que a imprensa do baluarte da liberdade o cobrisse de injurias, e algum viticultor mal humorado de bengaladas. Não, meu querido Thomaz Ribeiro. A sua casa luxuosa na Ramada-Alta era o confluente dos próceres portuenses e da provincia vinicola. Titulares, desembargadores-conselheiros, ministros de estado honorarios, os maiores proprietarios do Douro, e poetas arcadicos de pacotilha, que faziam dithyrambos ao jantar:

Evohé.

Padre Lyêo!

Sabohé,

Grão Bassarêo!

Ainda se usavam, na bonacheira dos velhos, estas rancidas semsaborias remoçadas por uma copiosa tintura de bastardo.

Ali concorria o desembargador Fortunato Leite cheirando os vinhos que já não podia deglutir e arrotando pelo nariz sobre os calices. Ao pé d'elle estava o visconde de Veiros, o Mello das Aguas-ferreas, expondo a dois morgados de Riba-Douro a sua erudição em genealogia, uma sciencia em que se distinguem muitos parvos, se tem memoria. O ministro de estado honorario, João Elias, alambasava-se em pudding que comia com a faca. O Affonso Botelho, de Passos, d'uma gentilhommerie transmontana, paparrêta, rorejando as phrases e os circumstantes com uma salivação caudal expedida d'entre os dentes illegitimos, como do crivo de um borrifador. Elle chamára patife a Forrester em 1845, no Periodico dos Pobres, e acclamava-o então nos brindes o anjo tutelar do Douro que lhe comprava as colheitas a elle Affonso. Avultava o velho Manoel Browne, dominando a vozeria com as suas gargalhadas estridentes e honradas. O typico Gonçalo de Barros, a correcção no despejo, negociante de vinho, de casamentos proprios e alheios, de tudo que é negociavel, com mais farças e melodramas e tragedias na sua vida que o Archivo do extincto theatro do Salitre; insinuando-se com incomparaveis negaças de artista nos corações dos amigos e sahindo pelas algibeiras quando achava estas avenidas aéreas de mais e metalisadas de menos. Elle foi, não obstante, um tracista infausto, por haver nascido em um meio estreito de mais para o largo bracejar das suas faculdades mercantis. Seria o mais sagaz negociante encyclopedico da monarchia, se os seus parceiros em veniagas não fossem tambem os negociantes mais sagazes da mesma monarchia, todos conjurados em desabarem do seu legendario ponto d'alta honra a Praça do Porto. E a Praça sempre impavida em meio do fracassar das ruinas, como o homem justo de Horacio, metaphoricamente fallando—Impavidum, etc. Via-se o Eduardo Moser, então visconde embrionario, a esperteza do alho e a finura do coral feita homem; manancial de salvaterios commerciaes, agricolas, industriaes, esterilisados pela inveja e pela ignorancia dos seus auditorios; raro dom prelucido de profecia, mas condemnado, como Cassandra, a não ser acreditado. Seria capaz de inventar a Methaphysica commercial, levando á transcendencia o phenomeno do Cambio. Usa do telescopio de Herschell para vêr o Porto nas dimensões da Philadelfia. Ás vezes, cuida que vai scismando em emprezas arrojadas ao longo de Regent Street, e encontra-se na rua dos Caldeireiros entre uma loja de funis e uma tenda de tamancos. Vive miraculosamente no meio dos seus collegas da rua dos Inglezes e Cima do Muro como Daniel no fôjo dos leões. De resto, com uma estatura franzina, e menos de mediana, tem um temperamento de dynamite. Quando lhe é forçoso cascar um sôco em um homem alto (e eu já vi) cresce um covado pela medida velha. Tem a elasticidade do Relatorio e do boxing. Produz uns Relatorios colossaes que, se lhe puxassem tanto pelo corpo como pelo espirito, s. exc.ª seria o visconde mais corpulento da sua freguezia. Não obstante, e fallando por figura, elle hade ser sempre o gigante do Relatorio correcto, que fará alguma vez impacientar o ouvinte futilmente leviano, mas nunca fará gemer a Razão filha de Deus, nem a Grammatica filha do Lobato.

Confluia a todos os jantares assignalados o arcediago Cunha Reis, um velho palaciano de Braga, adiposo, apesar de ressicado interiormente por diversas ingratas materialistas que elle idolatrava com psycologismo incomprehendido, mas consentaneo á sua idade séria. Sentindo-se fatigado e algido da viagem por sobre o dezerto glacial da velhice, foi ao convento da Falperra, onde morava um egresso, fez confissão geral e deixou o coração penitente aos pés da Virgem. Depois, renunciando o coração, nenhum esteio amparador do gôsto de viver lhe ficou. Fechou-se no seu quarto, e, sósinho, morreu de uma congestão de saudade da sua juventude que fôra um manso idyllio de Gessner com ligeiras intermittencias febrís de Saint-Preux. Este adoravel cavalleiro-professo chamava-me filho; e, se ouvia fallar de amores, chorava, dissimulando as lagrimas com um sorriso ironico da sua fragilidade serôdia.

Era certo o João Nogueira Gandra que recitava sonetos de improviso com quinze dias de lima e de contagem pelos dedos, sob a torrente da inspiração. O visconde d'Azevedo lia poemas de sua lavra engenhosa em fórma graphica de copos e garrafas, cheias de versos de varios metros e de larachas honestas. O Lopes de Vasconcellos, um gordo, governador civil, ouvindo os poemas bacchicos, dava na barriga palmadas sonoras, intelligentes, rindo muito, e—que a poesia era aquillo, uma coisa com pilheria, porque versos de choradeira não os podia tragar,—affirmava, alludindo ao episodio da Ignez de Castro, do Camões, recitado por João Thomaz Quillinan com uma sentimentalidade plangente e languida, toda feita de moscatel de 1830. Em cavaqueira sábia e transcendente, o abbade de Macieira, pregador régio, um Massillon á altura do paiz, concordando com o theologista visconde de Azevedo, asseverava que Virgilio prophetisára o advento do divino Messias; e os dois, com as pitadas engatilhadas aos narizes rubros, recitavam alternadamente, com emphase:

VISCONDE

Ultima Cummœi venit jam carminis setas
Magnus ab integro sæclorum nascitur ordo.

ABBADE

Jam nova progenies cœlo dimititur alto
Tu modo nascenti puero...

O Quillinan, um atheu esclarecido, escutava-os; e, sublinhando o sorriso heretico, perguntava se o nascenti puero virgiliano não seria o filho de Asinio Pollião, herdeiro de Augusto, protector do poeta da Eneida. Os theologos affirmavam que não, sibilando o seu meio-grosso, reserva do mestre da fabrica.

Concorriam tambem os irmãos do D. Jeronymo bispo do Porto, dois velhos casquilhos, vegetalisados em dois pimentões ao toast, sempre á cata d'umas Suzanas pouco ariscas, Suzanas da barcaça do João Coelho a 8 vinténs por banho—e mordiscavam com as suas dentaduras de gutta-percha varios pomos sorvados e nada prohibidos. Fallavam de amores sardanapalescos com o medico Assis, um frascario de muita experiencia que lhes recommendava bifes na grelha e parcimonia, sopas de vinho com canella e alguma pudicicia. Eram a justificação de Lafontaine:

...dans les mouvements de leurs tendres ardeurs,
Les bêtes ne sont pas si bêtes que l'on pense.

Era tambem infallivel nos lautos banquetes do Forrester o Custodio Pinheiro, visconde de Villa Verde, a contar ao João Elias que a sua esposa, cosinhava uns ricos fósferinhos (fofinhos) para o chá; mas que elle já não podia cear senão chá preto com fateias. Defronte, o visconde de Alpendurada, presidente da camara, promettia a um jornalista, se os eleitores o conservassem á testa do municipio, dotar o Porto com o embellesamento das latrinas theodoras (inodoras). Um folhetinista d'aquelle tempo, o creador do espirito nas gazetas portuenses, Evaristo Basto, dizia-lhe que seria melhor, em vez de dotar o Porto com latrinas theodoras, o embellesasse antes com algumas donzellas do mesmo nome. Estes dois viscondes, aliás bons homens e creadores de linhagens de boa medrança, vão já tão longe que, quando me lembram, chego a confundil-os com os primordios das castas nobres, tal qual como se elles, senhores feudaes, tivessem ido á conquista do santo sepulchro com os Godofredos e os Tancredos.

Elles, emfim, riam-se uns dos outros, e o José Borges, hoje visconde do seu Castello, ria-se de todos com um sorriso solertemente cortezão.

O Forrester, muito fôfo e empantufado, com as suas fanfarronias poseuses, marrafa frizada e gravata branca assás conhecida, e mais os bofes anilados da camisa, nas illustrações da burguezia dos romances de Dickens, batia no peito enchumassado e na testa com as pontas dos dedos; e, com a cara açafroada em arreboes do Paraizo e das adegas do Pinhão, apontava, soluçante, para uma primorosa tela de Roquemont—o retrato de sua defunta esposa que o contemplava do céo em moldura de talha dourada; e elle amava tanto aquella vera effigie, testemunha de suas lagrimas, que a trocou, e mais outros bonecos de barro por vinhos de Antonio Bernardo Ferreira. Bem bom negocio para o inglez—está claro.

Ora estes commensaes de Forrester, quasi todos vinhateiros, ignoravam, excepto dous ou trez, a lingua ingleza e desconheciam portanto o descredito com que o amphitrião mareára os seus vinhos no mercado de Londres; mas o governo, que possuia idiomas como um Calepino, pegou de uma corôa de barão e pôl-a na cabeça de J. James—barão de Forrester. E, se não morre tão cedo, e faz nova edição das calumnias contra a mais rica e ameaçada industria portugueza—uma segunda edição peorada e mais incorrecta—o governo luso fazia-o visconde, não é verdade? A pergunta não é feita ao ministro do reino de 1883: é ao Thomaz Ribeiro que em 1849 entrava na adolescencia.1

*

Para corroborar o Forrester e açular as iras contra o vinho do Porto, o outro pamphletista, Whittaker, invoca a opinião unanime dos medicos inglezes que reputam o vinho procedente de Portugal uma peste para o estomago e para o figado; por quanto o summo da uva é quasi uma idea abstracta na moxinifada de aguardente, baga, melaço e jeropiga. Elle não escreve sem desculpavel horror a palavra jeropiga.

Porquê? Vaes agora entrar no segredo da bestialidade ingleza, meu amigo.

Foi assim.

James Forrester, tão respeitador dos vinhos portuguezes como da nossa orthographia, tinha escripto «Jeropiga» com J. Parece que d'esta bagatella não devia surdir grande equivoco na percepção do pensamento; porém, succede que a palavra com G ou com J dá duas significações de coisas e serventias, e entradas e sahidas muito diversas. Whittaker, para saber radicalmente o que era Jeropiga, abriu o Diccionario portuguez de Constancio, e encontrou: jeropiga, Ajuda, clyster, bebida medicinal.

Tremulo de indignação e livido de nôjo, brada o inglez: «Esta ultima expressão (bebida medicinal) é o mesmo que mézinha; quanto ás duas primeiras (ajuda, clyster) são a mesma coisa, tem o mesmo sentido, e dispenso-me de as traduzir. Que bellas coisas a gente bebe!»

Ó Thomaz Ribeiro, quem não sentiria vontade de mandar o inglez beber outras?

Mas o peor da passagem foi que a droga do clyster diluida no vinho do Porto fez abalo intestinal no mercado de Londres. Raro seria o consummidor de vinhos portuguezes que não levasse as mãos convulsas á região hypogastrica, com ptyalismo e vomitos. O artigo foi logo trasladado a francez, em Bruxellas, na Revue Britannique ou choix d'articles traduits des meilleurs écrits périodiques de la Grande-Bretagne (1849). Em Paris foi commentada desabridamente, com chalaças, a porca e pelintra fraude lusitana em um artigo da Revue Œnologique. Portugal, á conta do execravel jota de Sir James Forrester, foi considerado um paiz de immunda selvageria que, ministrando clysteres pela bocca, tornava communs de duas entradas as suas mézinhas. Triste!

A honra e a limpeza de Portugal seriam desaffrontadas, se Forrester, Whittaker e os seus traductores ignaros procurassem Geropiga, com G, no Constancio ou no Moraes, jeropiga (esclarece o segundo), liquor feito de mosto de vinho, sobrecarregado de aguardente, que se usa no Douro para tempero de vinhos. E accrescenta: jeropiga, differe.

*

O aleivoso clyster que, provavelmente, ainda hoje traz impressionados e receosos os espiritos e os baixos ventres dos nossos fieis alliados, conspurca bastante a memoria do barão de Forrester. Foi este inglez quem, empunhando a seringa da calumnia involuntaria por insufficiencia de orthographia, deu essa antecipada ajuda ao sinistro destino que já então vaticinava a catastrophe do paiz vinicola. Avoluma-se, porém, o delicto do barão quando é notorio que elle deixou correr o aleive bestial do seu patricio, e não acudiu a corrigir o erro e as sujas consequencias e derivações que Sir Whittaker tirou do drastico jota. Se elle fôsse um ignorante honesto, sahiria a protestar que a geropiga, não sendo clyster alimentario, nem medicamentoso, nem narcotico, nem laxante, nunca tentou usurpar as virtudes emolientes e diluentes das malvas, nem do laudano de Sydenham, e muito menos da jalapa e da mamona. Quanto ao mechanismo de ingerir a geropiga no corpo humano, deveria ter explicado que funcciona por meio de taça, calice, copo, garrafa, pichel, cabaça, cangirão, caneca, e tambem borracha, mas sem canudo recto ou curvo; e, para destruir pela raiz a calumnia, deveria jurar pela sua honra que nenhum portuguez, quando absorve geropiga, faz uso do Clyso-bomba de Darbo, ou do irrigador Eguisier; sendo certo que, na ingestão de tal liquido, se dá sempre a completa ausencia de canudos, bombas, torneiras, embolos e engrenagens que desandam e esguicham. A geropiga bebe-se, engole-se, escorrupicha-se; mas não se seringa jámais. Que o saiba a Inglaterra. A não ser na perfida Albion, em parte alguma do velho e novo mundo o vinho do Porto incutiu suspeitas de penetrar nas entranhas humanas por um impulso ascensional, com intenções dissolventes ou refrigerantes. Os nossos irmãos transatlanticos, afeiçoados patrioticamente ao vinho do Porto, jámais o infiltraram na sua economia intima sob a hypothese pharmaceutica de que elle contenha anda-açu, cayapó, tayuyá ou a purga de João Paes.

Nicolau Tolentino, no soneto realista dedicado á conjugicida Isabel Clesse,—soneto pouco digno de entrar no seio das familias, e quasi indecente como obra de mestre de Rhetorica—deixou, em dois versos, bem definido o methodo de matar clystermente:

Que novo invento é este de impiedade
Que extirpar gente vem pela trazeira!

Elle, como se vê, designa com rigor topographicamente anatomico a parte vulneravel. Essa inversão do processo homicida, isto é, o clyster bebido, apenas seria explicavel e até plausivel, se os catholicos lavradores do Douro, quando punham no vinho a substancia irritante da ajuda, tivessem d'ôlho acabar com os hereges inglezes, seguindo o conselho do poeta no mesmo soneto:

Se tens desejos d'estas obras pias,
Vae fazer aos hereges esta esmola,
Serás a extirpação das heresias!

Se Forrester, consultando este expositor, e mais o Diccionario sobre Geropiga, e as praticas desobstruentes dos esponjosos desembargadores avinhados seus comensaes, houvesse atirado aos quatro ventos da Europa estas leaes explicações, teria lubricado o ventre da sua alma perante a justiça divina com esse mesmo clyster que lhe peorou as condições excrementiciaes.

*

A morte desastrosa do barão de Forrester, em 12 de maio de 1861, é uma das mais notaveis vinganças que o rio Douro tem exercido sobre os detractores dos seus vinhos. A familia Ferreirinha da Regoa, composta de D. Antonia Adelaide, de seu marido Silva Torres, o millionario, digno de o ser pela bizarria das suas generosidades, de sua filha e genro, condes da Azambuja, tinham ido, rio acima, á sua celebrada quinta do Vesuvio, e convidaram o barão de Forrester a passar uma semana em sua companhia. No dia 12, um alegre domingo, sahiram todos do Vesuvio, na intenção de jantarem na Regoa. O Douro tinha engrossado com a chuva de dois dias, e a rapidez da corrente era caudalosa. Aproando ao ponto do Cachão, formidavel sorvedouro em que a onda referve e redemoinha vertiginosamente, o barco fez um corcovo, estalou, abriu de golpe e mergulhou no declive da catadupa. O barão soffrêra a pancada do mastro quando se lançava á corrente, nadando. Ainda fez algum esforço por apégar á margem; mas, fatigado de bracejar no têzo da corrente ou aturdido pelo golpe, estrebuchou alguns segundos de agonia e desappareceu. Salvaram-se os outros, não todos, com a protecção de uns barcos que ahi estavam para recolher o despojo de outro naufragio de um transporte de cereaes. Livrou-se Torres, o futuro par do reino, agarrado a um barril de azeite, até que o recolheram a um dos barcos. D. Antonia e o conde de Azambuja aferraram-se ás dragas do barco. A condessa foi salva por um marinheiro. Um juiz de direito, Aragão Mascarenhas, agarrou-se á vára do barco rijamente, qual o temos sempre visto filado á vara da Justiça, em naufragio de trapaças. Mas nem todos sahiram com vida. Um creado de Torres foi logo tragado pela cachoeira; e, abraçada com a vella, já quando se lhe estendia um braço redemptor, afogou-se uma creatura a quem os noticiaristas não deram a minima importancia.

Pois foi uma pêrda insubstituivel. Era a Gertrudes, um thesouro de joias culinarias que a voragem enguliu. Foi esta mulher uma alma transmigrada das refinadas civilisações pagans, a metempsycose de algum genio do lar que presidira ás ucharias da Roma dos Cezares. Foi a cozinheira primacial do Porto, onde residia. Tinha sido chamada por D. Antonia Ferreira para dirigir os jantares dados ao barão de Forrester, no Vesuvio.

Ali acabou. O rôlo de uma onda regeitou-a morta contra um lapêdo carcomido de cavernas sonoras a gottejar o lodo da babugem.

*

Devo a esta creatura o gaudio ineffavel de me sentir viver nas palpitações de uma felicidade edenica desde os vinte e tres annos de idade até esta decrepitude verdejante de bucolicos musgos. Mal me lembra que pequeno serviço eu fizera ao marido d'ella, um bravo e envelhecido alferes de veteranos que se reformára em 1835 por impedido de servir, crivado de ferimentos graves em algumas batalhas do cêrco. Agora me recordo: o alferes estava servindo em um dos antigos telegrafos de paineis, no pincaro de qualquer serra muito agreste, e gemia o seu rheumatismo seis mezes e saudades da mulher o resto do anno. Consegui que o deixassem viver com a sua Gertrudes, que o não acompanhára ás solidões dos telegrafos de taboinhas por não prescindir do grande estipendio como directora de cozinha nas lautas Lupercaes politicas, por esse tempo, frequentes no Porto.

Comia-se então muitissimo no Baluarte por excellencia. Ministro ou general que chegasse a fazer ou desfazer revoltas, cabecilha eleitoral que viesse arregimentar as suas hostes, enchendo-lhes a consciencia de liberalismo e carneiro guisado com batatas, era contar com opiparas comezanas em que os cabralistas levavam enorme vantagem na profusão. Os homens de Setembro, os patulêas, em 1849, distinguiam-se na frugalidade. Os irmãos Passos alimentavam rusticamente os seus organismos plebeus, de Cincinnatos, endurecidos na educação do toicinho e das feculas de Bouças. Os seus correligionarios andavam ainda na aprendisagem de comer, e ameaçavam a magra meza do orçamento para praticarem. Ainda não tinha surgido de vez o Apicio de todos os paladares, o Rodrigo da Fonseca Magalhães, com as suas raposías, o qual, entendendo com Aristoteles que o homem é um animal essencialmente politico, inaugurou o elasterio membranoso de todos os esôphagos, sob o especioso lemma de homogeneidade de principios, pela fusão de todos em uma só consciencia que vinha a ser nenhuma propriamente dita, ou o relaxamento de todas as consciencias n'um estomago commum de duas ou trez politicas. E assim conseguiu que todos os candidatos á panella do Estado esmoessem o corneo bôlo indigesto das suas Bernardas no largo e fundo estomago da alma, mentis nostrae stomachum, como disse S. Pedro Damião, profetisando a physiologia do espirito politico do seculo XIX (opusc. 12. c, 38. mihi.)

Gertrudes não tinha mãos a medir, se vinha ao Porto um ministro de obras publicas que deitasse passeio até á Foz e outro passeio até Leixões, tracejando barras com a badine nos páramos do Azul. Então, a classe argentea, uma casta que se investira no patriciado pelo jús da moeda falsa, da escravatura, do contrabando, e talvez do clyster no vinho do Porto, se esse escandalo coubesse no possivel—os philistinos, uma fidalguia com a raiz da arvore de geração na Noruega, á americana—the codfich's aristocracy—senhores de navios e balcões unctuosos de substancias alimenticias adulteradas, andavam á compíta, a vêr qual havia de espiritualisar mais os ventriculos encephalicos do ministro, ingerindo-lhe altas dózes de phosphoro por intermedio dos rodovalhos celebrados nos triclinios dos Cressus e Lucullos das Congostas, Rebolleira e alfurjas circumjacentes. As barras da Foz e Leixões ahi se ostentam uns primores d'arte hydrographica attestando que os ministros segregaram perfeitamente o phosphoro, o rodovalho—comeram o peixe e mais a isca. Os amphitriões, esses representam o anzol do anexim; mas, norteando a outras regiões, revelaram uma phantazia oriental, malabar, nos jogos de Bancos.

PARENTHESIS
O AUCTOR (á parte)

No Porto ha um grupo invulneravel de negociantes que preservam incontaminadas as tradições da probidade antiga. São esses os mais expostos ao azar de partirem os braços, se tentarem encravar as engrenagens dissolventes. Não ha fortuna grangeada com honra que ouse atravessar sem mêdo as maltas dos salteadores que sahem ás encruzilhadas da politica, se não topam viandantes incautos nas incruzilhadas do negocio.

Se a estocada dos melindres resvalou no arnez d'esta satisfação dada aos homens de bem, fecha-se o parenthesis.

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—Que ha de novo, madame Brillat-Savarin?

Esqueceu-me prevenir-te, Thomaz Ribeiro, de que eu chamava madame Brillat-Savarin á Gertrudes. Custava muito aos melindres estheticos do meu espirito caprichoso em onomastica chamar-lhe Gertrudes, um nome de que resa o Agiologio, é certo, mas não sôa lyricamente a orelhas classicas nem romanticas. Auctorisado com as minhas faculdades poeticamente episcopaes de chrismar, chamára-lhe Gertruria. Ella, porém, não comprehendendo a delicadeza do imperfeito anagramma, tomava-o como galhofa. Depois, fiz-lhe entender, que os seus talentos a nivellavam com um auctor de fama universal nas delicias do paladar, e por isso me deixasse dar-lhe a ella, feminisando-o, esse nome glorioso e novo no mais descurado ramo das artes uteis entre os portuguezes, incultos hottentotes quanto á culinaria, nutrindo-se com um menu fort chiche, pouco avantajado á cosinha dos epicos Affonsos que não conheceram os alimentos nervosos, e devoravam, para acerar o musculo, javalis inteiros na braza como os esquimós comem os ursos e os kangurus. E Gertrudes consentiu que eu, maridando-a espiritualmente com o immortal regalão da França, lhe chamasse madame Brillat-Savarin.

Contava-me ella então os jantares que dirigira, a pedido de quem e para quem, com interessantes pormenores, miudezas, bisbilhotices, ridicularias da vida intima. Dest'arte, estava eu em dia com o evolucionismo politico, com a sociologia, com a ethnographia, com as crizes catemeniaes da carta constitucional, com o fomento das obras publicas, especialmente barras de Leixões e Foz. Emfim, eu sabia tudo, sem resalva das abominações procedentes do fogão; e os deuses me são testemunhas de que eu em cento e tantos volumes de analyse de ruins costumes nunca fiz máo uso dos segredos de Gertruria, quanto a uns pasteis de lagostins e mexilhões que ella cosinhava, a pedido de varias familias, para entreterem sempre accêso o fogo da amisade—o fogo sagrado das vestaes, segundo a lei Pápia.

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Agora te vou contar como ella me salvou aos vinte e tres annos.

Em 1849, a invasão subita de uma anemia vampirisou-me o pouco sangue desoxigenado, desfibrinado, e me poz os ossos em decomposição gelatinosa, a ponto de me deixar em uma ressicação óssea; e, se eu ia durando, é porque já me não restava carne em que se aferrasse a garra adunca da dura Parca de então, ou da «sinistra rameira» como ultimamente lhe chamam os vates.

Gertruria, desde que eu fui á cama, visitava-me a miudo no Hotel-Francez, na rua da Fabrica, um velho palacio que tinha ao rés da rua a officina e escriptorio do Nacional, redigido pelo professor egresso Antonio Alves Martins, Almeida e Brito, Damazio, Parada Leitão, Nogueira Soares, Evaristo Basto, Lobo Gavião, Eu tinha a meu cargo a secção das frioleiras. O meu chorado amigo bispo de Vizeu exterminára-me do districto sério do jornal, quando descobriu que os meus artigos-de-fundo eram commentarios perpetuos e paraphrases miguelistas ao Rei-chegou, escriptas un peu à la diable. E, na verdade, Thomaz Ribeiro, eu, áquelle tempo, sentia pelos monarchas absolutos tamanho affecto quanto é o odio que hoje professo á canalha absoluta. Um dos meus collegas do andar-nobre d'aquelle edificio de papel ordinario da Abelheira, Sebastião d'Almeida e Brito, dous annos antes, sendo ministro da Junta Suprema do Porto, quando viu a relé armada, urrando morras aos cabralistas proprietarios, enfardelou a sua bagagem para emigrar para Tuy. Alguns dos outros meus collegas nada enfardelaram, porque pouco mais tinham que estylo, um glossario de phrases redondas e polidas como bolas de strychnina contra o conde de Thomar; alguns cabeçalhos de proclamações ao Povo chamando-lhe rei coroado de espinhos; a tragedia de Jesus, o calvario, a esponja, etc., a proposito de um patriota eximio a quem os caceteiros chamôrros amolgaram duas costellas; varios threnos gemebundos sobre a patria agonisante de Viriato, da Brites d'Aljubarrota, de João Pinto Ribeiro e Fernandes Thomaz; e, afóra isto que é de facil transporte para quem emigra, todos tinham palpitantes anhelos na carta de conselho, nas dragonas de general, na escrivaninha de direito, no baculo prelaticio, etc. Pois todos aproaram e abicaram á terra da promissão: só eu fiquei um perpetuo cultor da secção das frioleiras. Nem sequer já possuo uma e unica distincção que tinha, por que ha muitos annos se dissolveu, sem ser dissoluta, a Philarmonica da Rua das Hortas de que fui socio; de maneira que hade ser muito difficil provar-se perante a posteridadade perplexa, a minha identidade de portuguez do seculo decimo nono por falta de um habito de Christo. Nem um habito de Christo até á data d'esta! Que este suspiro te não chegue á alma como um remorso, ó Thomaz Ribeiro, ex-ministro do reino, ex-claviculario do cofre das Graças régias! Ah! não. Eu sei que me consideras sobejamente afidalgado com as caricias das outras Graças parnasianas, filhas de Jupiter e de Venus, tres tarascas incortiçadas, flatulentas, com hysterismos senis, fistulas e dôres osteócopas, repercussões de antigas lubricidades, em saturnaes de batuques compassados por cithara e arrabil com os lascivos Aonios e Melybeus nos outeiros monasticos, nas academias, e nos natalicios das Marcias e Francelias. Sim: nós cá vamos vivendo, ellas e eu, n'um soccorro mutuo de cataplasmas de linhaça, de rapé e chás de tilia.

Tudo mais acabou. O palacio ardeu; os meus mestres e camaradas do Nacional morreram todos; e este arcaboiço, que resta e conserva o nome que eu tinha então, devem-o á Gertrudes a litteratura nacional e as dezenas de boticas que eu tenho consummido, como um suicida recatado que não quer escandalos.

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Foi assim que ella me salvou... Mas receio enfastiar-te, meu amigo, sem chegar a sensibilisar-te. O exterminio da Rhetorica foi uma calamidade para os que pretendem commover. A gente, dantes, conhecia umas figuras de eloquencia que puxavam arithmeticamente um certo numero de lagrimas das coisas, lacrimae rerum, aos olhos das pessoas. Se a glandula do liquido sentimento não se abria ao toque da metaphora, era seguro fender-se golpeada pela penetrante hyperbole. Hoje em dia já se não chora senão com uma ophtalmia. De mais a mais, os artistas superiores no officio de escrever, alveneis do templo da Memoria, Vitruvios e Possidonios do eterno Pantheon, com pouca argamassa de phrases, ageitavam uns rendilhados nichos de immortalidade para os seus amigos, em quanto eu, cabouqueiro de obra grossa, terei de ser enfadonhamente palavroso para esquadriar uma lousa, brunil-a, gravar-lhe um vale de saudade agradecida, e assentai-a sobre uma campa... Uma campa! Não a teve a pobre Gertrudes. Lá se desfez na leiva barrenta de qualquer adro desconhecido d'aquellas desoladas charnecas do Douro.

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Assistira, um dia, Gertrudes ao meu jantar e viu que eu me confrangia enjoado pelo espectaculo repulsivo de meia franga recozida e um caldo branco em que boiavam uns olhos amarellos da enxundia do oveiro da ave. Ella cheirou de longe o caldo fumegante, e disse com engulho:

—Captiva! isto nem com fome de cão se podia tragar!

Que o medico me não deixava comer outra coisa,—balbuciei tão extenuado e offegante que me parecia despegar-se o ultimo colchete da existencia n'um esvahir de desmaio.

—Sinto-me morrer...—murmurei flebilmente.

—E morre decerto!—confirmou ella com sinistra solemnidade—morre, se não mudar de comida. Quer que eu o ponha rijo? Diga á dona da hospedaria que a sua enfermeira e cozinheira sou eu.

Não esperou resposta e sahiu. Pouco depois, voltou muito afreimada, tirou a mantilha de sarja, mudou de calçado para não fazer bulha com os tacões das botinhas, cingiu um lenço na fronte recolhendo os bandós, atou um avental de riscadinho na cintura e foi para a cozinha. Quando entrou com uma caçoula coberta, o perfume vaporado do rebordo da tampa abriu subitamente no meu olfacto uma fonte de vida, uma sensação entre espiritual e nazal, um quasi extasis, como a evidencia da immortalidade do eu. Arranjou a meza de leito com o talher, afofou-me as travesseirinhas nas costas angulosas, escadeadas como um pedaço de velho cancêllo desengonçado, a cahir das dobradiças despregadas,—e passou para uma travessa o acepipe fumegante. Eram duas mãos de boi guizadas, loiras, de uma unctuosidade oleosa que punha caricias ferozes nos dentes, e aguçava na abobada palatina as cobiças dantescas do faminto Ugolino e de um professor portuguez de instrucção primaria. Devorei uma das mãos, sopeteando no molho pedaços de pão que engulia inteiros, soffregamente, n'uma intallação.

—Poderei comer a outra mão, snr.ª Gertrudinhas? perguntei esperando em anciosa incerteza a resposta duvidosa.

—Se tem vontade, coma. Que sente lá por dentro?

—Fome, snr.ª Gertrudes, fome!

—Então coma; a natureza que lh'o pede, é por que não lhe faz mal.

E não fez. Fumei um charuto que até áquelle momento me nauzeára. Pedi café e cana de Paraty. Estive quasi a pedir as calças para me levantar.

—Nada de boticadas! intimou ella; e, pegando em dous frascos de pilulas de ferro de Blaud e de Vallet, e de meia garrafa de vinho quinado despejou tudo na primeira vasilha concava que se offereceu á sua indignação.—Fóra com a porcaria!—bradava gesticulando, com a cólera scientifica e a justiça indefectivel de um medico homeopata.

No dia seguinte deu-me de jantar troixas de recheio, bifes de presunto de Melgaço e meio melão. O medico assistente, o João Ferreira, grande clinico, veio á tarde, e poz-se a farejar.—Que lhe cheirava a melão! se eu praticára a loucura de comer melão?!—A Gertrudes acudiu á minha perplexidade:—que fôra ella quem o comêra; que eu, coitadinho, estava a caldos e aza de franga, uma desgraça!

O doutor tomou-me o pulso, e fez um gesto de satisfação tranquillisadora:—que eu estava melhor quanto ao pulso, um pouco rapido, mas regular; auscultou-me a região precordial; já mal percebeu o ruido de folle; porém, continuava a fariscar o melão, desconfiado, chegando o seu descompassado nariz absorvente ao meu perfido halito, quando me auscultava as arterias carotidas.

Á noite, visitou-me outro medico, interessado na minha cura duvidosa, como amigo. Era Camara Sinval, lente da Escóla Medico-Cirurgica, um que prégava, não por hypocrisia, mas por paixão desvairada da Arte dos Vieira e Bourdaloue, sermões ultramontanos empavezados de sapiencias academicas com grandes empolas de latim pagão. Nunca me receitava. Para as insomnias mandava-me lêr philosophos e poetas epicos. Disse-me que, na sua clinica, empregava primeiro as epopeas desde a Iliada até á Henriqueida; e, em ultimo recurso, os systemas philosophicos desde Platão até Victor Cousin. Que tivera—contava—um doente de insomnia rebelde que resistira singularmente ao 1.º e parte do 2.º Canto dos Luziadas; mas, perdidas as esperanças de anesthesia, lhe lêra duas paginas de Kant, e o enfermo ficára sopitado n'um lethargo de Epimenides. Aconselhou-me a Homeopathia, medicina inoffensiva e de vantagem para fantasistas supersticiosos. Apenas lhe achava o defeito de ter entre os seus medicamentos uma Eufrazia e uma Ignacia; por que, se tivesse tambem uma Athanasia, seriam as trez Parcas com pseudonymos lethaes. Entretanto, achou-me espantosamente melhor. Não acreditava. Queria saber o que eu tinha tomado. Referi-lhe a verdade—as mãos de boi, os bifes de presunto, as troixas, o melão, a Providencia, sobre tudo a Providencia na pessoa de Gertrudes.

—É uma grande clinica a Gertrudes, disse elle; mas, se ella ámanhã lhe der lampreia, congro de caldeirada, timbal de camarões ou sallada de pepino, aconselho-lhe que se abstenha. A morte pela fome e a morte pelo enfartamento andam sempre de braço dado.

—Mas, se a natureza pede...—atalhei plagiando Gertrudes.

—Nada de pantheismo. A natureza compõe-se de dois elementos em proporções desiguaes: Deus como um, e Diabo como trez. Sou manicheu. Apenas concedo ao Bem a quarta parte de acção na regedoria do universo. O Diabo é quem faz os venenos dos vegetaes e dos mineraes, o frio que gela o sangue e o calor que abraza o cerebro, e a hydrophobia, e o raio e os terramotos, e a cholera asiatica, os miasmas homicidas dos pantanos e cavernas, e, sobre todos os flagellos, o homem que, fornecendo uma pequena parte de si, uma costella, produziu essa pessima coisa—a mulher. Não se fie na natureza, e muito menos na humana, por que essa é a mais corruptivel, e a mais fetida quando apodrece de todo. Por emquanto vá comendo as mãos de vacca; mas fique por ahi que não vá metter os pés pelas mãos.

Isto, com embrechados de latim de Horacio e da Biblia, abalou-me quanto á dieta.