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Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I cover

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Chapter 11: SATYRICAS
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About This Book

A edição reúne uma ampla coletânea de poesias do poeta barroco, abrangendo composições sacras, jocosas e satíricas, e incorpora uma biografia atribuída a Manuel Pereira Rebello. O texto provém de edição crítica baseada em múltiplos manuscritos e impressos, com comentários sobre variantes textuais e decisões editoriais, incluindo a supressão de trechos obscenos indicada por sinais. A introdução detalha proveniências de códices e antecedentes de publicações parciais, e o corpo do volume organiza e anota os poemas para orientar a leitura e o estudo das diferentes tendências temáticas do autor.

SATYRICAS

OBRAS POETICAS
DE
GREGORIO DE MATTOS GUERRA


AOS VICIOS
TERCETOS

Eu sou aquelle que os passados annos
Cantei na minha lyra maldizente
Torpezas do Brazil, vicios e enganos.
E bem que os descantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lyra
O mesmo assumpto em plectro differente.
Já sinto que me inflamma e que me inspira
Thalia, que anjo é da minha guarda
Des’ que Apollo mandou que me assistira.
Arda Bayona, e todo o mundo arda,
Que a quem de profissão falta á verdade
Nunca a dominga das verdades tarda.
Nenhum tempo exceptua a christandade
Ao pobre pegureiro do Parnaso
Para fallar em sua liberdade.
A narração ha de egualar ao caso,
E si talvez ao caso não eguala,
Não tenho por poeta o que é Pegaso.
De que póde servir calar quem cala?
Nunca se ha de fallar o que se sente?!
Sempre se ha de sentir o que se falla.
Qual homem póde haver tão paciente,
Que, vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire e não lamente?
Isto faz a discreta phantasia:
Discorre em um e outro desconcerto,
Condemna o roubo, increpa a hypocrisia.
O nescio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada approva.
Diz logo prudentaço e repousado:
—Fulano é um satyrico, é um louco,
De lingua má, de coração damnado.
Nescio, si d’isso entendes nada ou pouco,
Como mofas com riso e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco.
Si souberas fallar, tambem falláras,
Tambem satyrisáras, si souberas,
E si fôras poeta, poetisáras.
A ignorancia dos homens d’estas eras
Sizudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
Ha bons, por não poder ser insolentes,
Outros ha comedidos de medrosos,
Não mordem outros não—por não ter dentes.
Quantos ha que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receiosos?
Uma só natureza nos foi dada;
Não creou Deus os naturaes diversos;
Um só Adão creou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vicio e a virtude,
De que uns são comensaes, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
Calem-se os mais, chiton, e haja saude.