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Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I cover

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Chapter 32: MILAGRES DO BRAZIL AO PADRE LOURENÇO RIBEIRO, HOMEM PARDO QUE FOI VIGARIO DA FREGUEZIA DE PASSÉ
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About This Book

A edição reúne uma ampla coletânea de poesias do poeta barroco, abrangendo composições sacras, jocosas e satíricas, e incorpora uma biografia atribuída a Manuel Pereira Rebello. O texto provém de edição crítica baseada em múltiplos manuscritos e impressos, com comentários sobre variantes textuais e decisões editoriais, incluindo a supressão de trechos obscenos indicada por sinais. A introdução detalha proveniências de códices e antecedentes de publicações parciais, e o corpo do volume organiza e anota os poemas para orientar a leitura e o estudo das diferentes tendências temáticas do autor.

MILAGRES DO BRAZIL
AO PADRE LOURENÇO RIBEIRO, HOMEM PARDO QUE FOI VIGARIO DA FREGUEZIA DE PASSÉ

Lourenço Ribeiro, clerigo e prégador, natural da Bahia, e, segundo se rosnava, mulato, dava-se muito a compor trovas, que cantava nas sociedades ao som da cythara: este homem teve a indiscrição de mofar e desdenhar publicamente dos versos de Gregorio de Mattos. Chegou isto aos ouvidos do poeta, que offendido da fatuidade do cabrito, resolveu logo tirar a desforra, o que fez na seguinte satyra, á qual deu o titulo acima.

Um branco muito encolhido,
Um mulato muito ousado,
Um branco todo coitado,
Um canaz todo atrevido;
O saber muito abatido,
A ignorancia e ignorante
Muito ufana e mui farfante,
Sem pena ou contradicção:
Milagres do Brazil são.
Que um cão revestido em padre.
Por culpa da Sancta Sé,
Seja tão ousado que
Contra um branco honrado ladre;
E que ésta ousadia quadre
Ao bispo, ao governador,
Ao cortezão, ao senhor,
Tendo naus e maranhão:
Milagres do Brazil são.
Si este tal podengo asneiro
O pae o esvanece já,
A mãe lhe lembro que está
Roendo em um tamoeiro:
Que importa um branco cueiro,
Si o .. é tão denegrido;
Mas si no mixto sentido
Se lhe esconde a negridão,
Milagres do Brazil são.
Prega o perro frandulario,
E como a licença o cega,
Cuida que em pulpito prega,
E ladra em um campanario:
Vão ouvi-lo de ordinario
Tios e tias do Congo,
E si, suando o mondongo,
Elles só o gabo lhe dão,
Milagres do Brazil são.
Que ha de prégar o cachorro,
Sendo uma vil creatura,
Que não sabe de escriptura
Mais que aquella que o pôz forro?
Quem lhe dá ajuda e soccorro
São quatro sermões antigos,
Que lhe vão dando os amigos;
E si amigos tem um cão,
Milagres do Brazil são.
Um cão é o timbre maior
Da ordem predicatoria,
Mas não acho em toda a historia
Que um cão fosse prégador,
Si nunca falta um senhor,
Que lhe alcance esta licença
De Lourenço por Lourença,
Que as pardas tudo farão,
Milagres do Brazil são.
Té em versos quer dar pennada,
E porque o genio desbroche,
Como é cão, a troche moche
Mette a unha e dá dentada:
O perro não sabe nada,
E si com pouca vergonha
Tudo abate, porque sonha
Que sabe alguma questão,
Milagres do Brazil são.
Do perro affirmam doutores
Que fez uma apologia
Ao Mestre da theologia,
Outra ao Sol dos prégadores:
Si da lua aos resplendores
Late um cão a noite inteira,
E ella, seguindo a carreira,
Luz com mais ostentação,
Milagres do Brazil são.
Que vos direi do mulato,
Que vos não tenha já dicto,
Si será amanhãa delicto
Fallar d’elle sem recato?
Não faltará um mentecapto,
Que como villão de encerro
Sinta que dêm no seu perro,
E se ponha como um cão:
Milagres do Brazil são.
Imaginais que o insensato
Do canzarrão falla tanto
Porque sabe tanto ou quanto?
Não, sinão por ser mulato;
Ter sangue de carrapato,
Seu estoraque de Congo,
Cheirar-lhe a roupa a mondongo,
É cifra de perfeição:
Milagres do Brazil são.