WeRead Powered by ReaderPub
Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I cover

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Chapter 39: AO CONFESSOR DO ARCEBISPO D. FREI JOÃO DA MADRE DE DEUS
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A edição reúne uma ampla coletânea de poesias do poeta barroco, abrangendo composições sacras, jocosas e satíricas, e incorpora uma biografia atribuída a Manuel Pereira Rebello. O texto provém de edição crítica baseada em múltiplos manuscritos e impressos, com comentários sobre variantes textuais e decisões editoriais, incluindo a supressão de trechos obscenos indicada por sinais. A introdução detalha proveniências de códices e antecedentes de publicações parciais, e o corpo do volume organiza e anota os poemas para orientar a leitura e o estudo das diferentes tendências temáticas do autor.

AO CONFESSOR
DO ARCEBISPO D. FREI JOÃO DA MADRE DE DEUS

Eu, que me não sei calar,
Mas antes tenho por mingua,
Não purgar-se qualquer lingua,
A risco de arrebentar:
Vos quero, amigo, contar
(Pois sois o meu secretario)
Um successo extraordinario,
Um caso tremendo e atroz:
Porém fique aqui entre nós.
Do confessor jesuita,
Que ao ladrão do confessado
Não só absolve o peccado,
Mas os fructos lhe alcovita:
Do precursor da visita,
Que na vanguarda marchando,
Vai pedindo e vai tirando,
O demo ha de ser algoz:
Porém fique aqui entre nós.
O ladronaço em rigor
Não tem para que dizer
Furtos, que antes de os fazer
Já os sabe o confessor:
Cala-os, para ouvir melhor,
Pois, com officio alternado,
Confessor e confessado
Alli se barbeam sós:
Porém fique aqui entre nós.
Aqui o ladrão se consente
Sem castigo e com escusa,
Porque do mesmo se accusa
O confessor delinquente:
Ambos alternadamente,
Um a outro e outro a um,
O peccado, que é commum,
Confessa em commua voz:
Porém fique aqui entre nós.
Um e outro, á mór cautela,
Vem a ser neste incidente
Confessor e penitente;
Porém fique ella por ella.
O demo em tanta mazella
Diz: faço, porque façais;
Absolvo, porque absolvais;
Pacto inopinado poz:
Porém fique aqui entre nós.
Não se dá a este ladrão
Penitencia em caso algum;
E sómente em um jejum
Se tira a consolação:
Elle estará como um cão
De levar a bofetada;
Mas na cara ladrilhada
Emenda o pejo não poz:
Porém fique aqui entre nós.
Mechanica disciplina
Vem a impor por derradeiro
O confessor marceneiro
Ao peccador carapina:
E como qualquer se inclina
A furtar e mais furtar,
Se conjura a escavacar
As bolças co’ um par de enxós:
Porém fique aqui entre nós.
O tal confessor me abysma,
Que revele, e não se offenda,
Que um frade sagrado venda
O sagrado oleo da Chrisma.
Por dinheiro a gente chrisma,
E por cera, havendo queixa,
Que nem a da orelha deixa
Onde chrismando a mão poz:
Porém fique aqui entre nós.
Que em toda a franciscania
Não achasse um mau ladrão,
Que lhe ouvisse a confissão,
Mais que um padre da Apanhia!
Nisto, amigo, ha sympathia;
E é que lhe veiu a pêllo
Que um vá atando no orello
O que o outro mette no coz:
Porém fique aqui entre nós.
Que tanta culpa mortal
Se absolva? eu perco o tino;
Pois absolve um theatino
Peccados de pedra e cal:
Quem em vida monacal
Quer dar á filha um debate
Condemnando em dote ou date,
Vem a dar-lhe o pão e a noz:
Porém fique aqui entre nós.
As freiras com sanctas sêdes
Saem condemnadas em pedra,
Quando o ladronaço medra,
Roubando pedra e paredes.
Vós, amigo, que isto vêdes,
Deveis a Deus graças dar
Por nos fazer secular,
E não zote de albernoz:
Porém fique aqui entre nós.