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Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I cover

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Chapter 61: DECIMA
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About This Book

A edição reúne uma ampla coletânea de poesias do poeta barroco, abrangendo composições sacras, jocosas e satíricas, e incorpora uma biografia atribuída a Manuel Pereira Rebello. O texto provém de edição crítica baseada em múltiplos manuscritos e impressos, com comentários sobre variantes textuais e decisões editoriais, incluindo a supressão de trechos obscenos indicada por sinais. A introdução detalha proveniências de códices e antecedentes de publicações parciais, e o corpo do volume organiza e anota os poemas para orientar a leitura e o estudo das diferentes tendências temáticas do autor.

CHEGANDO O MARQUEZ DAS MINAS

A GOVERNAR O ESTADO COM O CONDE DO PRADO SEU FILHO, TRACTOU LOGO DE ALLIVAR OS MAGNATES DA BAHIA, CHAMANDO-OS DO DESTERRO EM QUE PADECIAM, AMEDRONTADOS DO SEU ANTECESSOR PELA MORTE QUE OUTROS DERAM AO ALCAIDE MÓR FRANCISCO TELLES, E POR ACÇÃO DE GRAÇAS LHE FEZ O SECRETARIO DE ESTADO BERNARDO VIEIRA RAVASCO ESTA DECIMA, QUE O POETA GLOZOU COM OS PRIMORES COSTUMADOS METAPHORICAMENTE

DECIMA

De flores e pedras finas
Floresce e enriquece o Estado,
Floresce sim pelo Prado,
E enriquece pelas Minas[7]:
As aves que peregrinas
Aos montes se retiraram,
Nesta manhã já cantaram
Com tão doce melodia,
Que a noite se tornou dia
Porque as penas se acabaram.

[7] Refere-se ao conde do Prado e ao marquez das Minas.

GLOZA

Já da primavera entrou
A alegre serenidade,
Com que toda a tempestade
Do triste inverno acabou:
Já Saturno declinou
Nas operações malignas:
Com influencias benignas
Jupiter predominante
Nos promette anno abundante
De flores e pedras finas.
Si d’estes aspectos taes
Bem se calcula a figura,
Teremos grande fartura,
Não ha de haver fome mais:
Mostras temos e signaes
De um tempo muito abastado:
Porque bem considerado
D’elle tem o proprio effeito,
Já vemos que a seu respeito
Floresce e enriquece o Estado.
Para ser enriquecido
Este Estado e florescente,
Temos a causa patente
No planeta referido:
Não se equivoque o sentido
No effeito aqui declarado,
Porque sendo bem notado,
O Estado (como parece)
Si pelo mais não floresce
Floresce sim pelo Prado.
Pelo Prado flôr á flôr
Se vai a terra esmaltando,
Com que o clima está mostrando
Temperamento melhor:
Do luminar superior
Por taes influencias dignas,
Sendo as pedras o boninas
Da terra unicos primores,
Pois se esmalta pelas flores
E enriquece pelas Minas.
Na terra já se experimentam
Virações tão temperadas,
Que as aves exterminadas
Tornar aos ninhos intentam:
Já não sentem, não lamentam
Tempestuosas ruinas;
Pois com salvas matutinas
Se mostram tão prasenteiras,
Que mais parecem caseiras
As aves que peregrinas.
Sua peregrinação
Influxo foi de Saturno,
Planeta sempre nocturno,
E muito importuno então:
Todas nessa conjuncção
Si os doces ninhos deixaram,
E tanto se receiaram
Do nocivo temporal,
Que escolhendo o menor mal
Aos montes se retiraram.
Porém tanto que sentiram
Haver no tempo mudança
Sem receio e sem tardança
Aos ninhos se reduziram:
Outros ares advertiram,
Outra clemencia notaram,
Com que alegres publicaram
Dos astros os movimentos,
E com festivos accentos
Nesta manhã já cantaram.
Cantaram para mostrar
Com repetidas cadencias
Singulares excellencias
De um planeta singular:
Tal doçura no cantar
Não se ouviu nesta Bahia,
Ouvindo-se na harmonia
Modulações tão suaves,
Que nunca cantaram aves
Com tão doce melodia.
Cada qual com voz sonora
Nos mottetes que cantaram,
Por mil modos explicaram
De todo o Estado a melhora:
Cada instante e cada hora
A musica mais se ouvia,
No Prado resplandecia
Por modo maravilhoso
Um lustre tão luminoso,
Que a noite se tornou dia.
Entre as aves modulantes,
Que este nosso paiz tem,
Todas cantaram o bem
De que são participantes:
Dos males que foram antes
Todas tambem se queixaram;
Assim que todas mostraram
Com alegrias notorias
Que começaram as glorias
Porque as penas se acabaram.