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Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I cover

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Chapter 77: DESCREVE O RICO FEITIO DE UM CELEBRE GREGORIO DE NEGREIROS EM QUE VARIAS VEZES FALLA, MOÇO COM QUEM GRACEJAVA COM DIVERTIMENTO NAQUELLE SITIO
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About This Book

A edição reúne uma ampla coletânea de poesias do poeta barroco, abrangendo composições sacras, jocosas e satíricas, e incorpora uma biografia atribuída a Manuel Pereira Rebello. O texto provém de edição crítica baseada em múltiplos manuscritos e impressos, com comentários sobre variantes textuais e decisões editoriais, incluindo a supressão de trechos obscenos indicada por sinais. A introdução detalha proveniências de códices e antecedentes de publicações parciais, e o corpo do volume organiza e anota os poemas para orientar a leitura e o estudo das diferentes tendências temáticas do autor.

DESCREVE
O RICO FEITIO DE UM CELEBRE GREGORIO DE NEGREIROS EM QUE VARIAS VEZES FALLA, MOÇO COM QUEM GRACEJAVA COM DIVERTIMENTO NAQUELLE SITIO

ROMANCE

Eu vos retrato Gregorio,
Desde a cabeça á tamanca,
Co’ um pincel esfarrapado
Numa pobrissima tabua.
Tão pobre é nossa gadelha,
Que nem de lendias é farta,
E inda que cheia de aneis,
São aneis de piassaba.
Vossa cara é tão estreita,
Tão faminta e apertada,
Que dá inveja aos Buçacos,
E que entender ás Thebaidas.
Tende dois dedos de testa
Porque da frente á fachada
Quiz Deus e a vossa miseria
Que não chegue á pollegada.
Os olhos dois ermitães,
Que em uma lobrega estancia
Sempre fazem penitencia
Nas grutas da vossa cara.
Dois arcos quizeram ser
As sobrancelhas, mas para
Os dois arcos se acabarem
Até de pello houve falta.
Vosso pae vos amassou,
Porém com miseria tanta,
Que tremeu a natureza
Que algum membro vos faltára.
Deu-vos tão curto o nariz,
Que parece uma migalha,
E no tempo dos defluxos
Para assoar-vos não basta.
Vós devieis de ser feito
No tempo em que a lua se acha
Pobrissima já de luz,
Correndo á minguante quarta.
Pareceis homem meminho,
Como o meminho da palma,
O mais pequeno na rua,
E o mais pobresinho em casa.
Vamos aos vossos vestidos,
E peguemos na casaca,
Com tento, porque sem tento
A leva qualquer palavra.
Anda tão rota, senhor,
Que tenho por coisa clara
Que no Tribunal da Rota
De Roma está sentenciada.
A vossa grande pobreza
Para perpetua lembrança
Dedico á de Manuel Trapo,
Que foi no mundo affamada.