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Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 cover

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01

Chapter 39: VI
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About This Book

A curated volume gathers previously published essays and shorter pieces, revised and reorganized, that engage a broad range of public and intellectual matters. The author outlines motives for compilation and reflects on how ideas and style change over time, describing the editorial labor of correction and the role of aging and rural solitude in prompting a return to writing. The contributions mix energetic conviction with reflective temper, offering commentary on social, cultural, and historical questions, and are arranged into thematic groups intended to trace the author's sustained participation in intellectual debates over many years.

A das cidades arrojou o seu facho sobre os campos, e os campos ficaram em um momento áridos e ermos.

E a outra sacudiu o seu sobre as duas cidades, e subito no logar onde ellas foram estavam dous montões de ruínas.

Depois, combatendo por largo tempo e atassalhadas de golpes, cahiram e renderam os espiritos.

Então as lagrymas me offuscaram os olhos; porque bem entendia o que significava a visão.

Mas enxugando-os, tornei a lançá-los para o logar da peleja.

E vi uma solidão safara e negra, sobre a qual a perder de vista para todos os lados alvejavam milhares de ossadas.

E em cima dellas estavam assentados dous espectros gigantes. Chamavam-se
Assolação e Silencio.

XIV

Era uma noite serena, e, ao clarão da lua, a sombra de templo antigo estirava-se no terreiro contiguo.

Os sinos dormiam nos campanarios das torres erguidas, e tudo estava calado no ambito do monumento religioso, herdado aos homens impios deste seculo pelos homens crentes dos tempos que foram.

Atravez das esguias e ponte-agudas janellas da igreja transverberava na praça a luz amortecida das alampadas penduradas ante as capellas desertas.

Era a hora em que se passam cousas mysteriosas por adros e cemiterios, e em que vagueiam pela terra os mortos condemnados a assim cumprirem com sua justiça.

N'um angulo do terreiro estava eu. Não sabía que mão me tinha para alli arrastado; mas era a mão de Deus.

Ao longo de uma rua que naquelle logar desembocava vinha ondeiando um turbilhão negro, cujo rugido era semelhante ao rugido do pinhal da montanha em noite tempestuosa.

E parecia aquelle grande vulto um fragmento do cahos, a quem, de todos os elementos de harmonia e de ordem, só o Creador concedera o movimento.

E chegou o tumulto diante da igreja e espraiou-se por toda a praça, e houve profundo silencio.

E um homem alevantou a voz no meio do tropel, que pendia de seus labios, e disse:

«Vós sacudistes o jugo dos poderosos, e o nome de rei e o titulo de nobre são palavras sem significação na linguagem de nação regenerada.

O povo que jazia no lodaçal alevantou-se como gigante de prodigiosa altura, e estendendo os braços, estreitou os palacios dos abastados e dos potentados: os pannos dos muros vacillaram nos seus fundamentos de marmore e de granito, e começaram de desmoronar-se e baqueiaram por terra.

E o gigante popular riu-se e assentou-se em cima de montões de ruinas.
Foi este dia dia de sempiterna gloria.

Mas os monumentos da credulidade e do fanatismo de nossos paes ainda assoberbam a cidade dos homens livres. A hypocrisia abriga-se á sombra dos altares e invoca, talvez contra nós, um Deus que não existe.

O unico Deus de corações generosos é a liberdade. Quando cumpre, o altar della é o cadafalso: o seu sacerdote o algoz: o seu culto verter o sangue dos tyrannos.

A religião que tem por fundamento a humildade e a abnegação de si é a religião dos servos.

É por isso que nossos paes foram servos.

Amaldicçoemos, pois, o nome dos que nos geraram e derribemos a obra da superstição.

E cada um daquelles precítos amaldicçoou seu pae. Os cabellos erriçaram-se-me de horror.

Então a turba arrojou-se ao portal do templo, e os largos ferros dos machados scintillavam erguidos e faziam estourar as portas. Pelas naves da igreja retumbava um gemido longo e sonoro.

E o terreiro ficou esgotado dessas ondas de povo, vertidas pelo ádito da velha cathedral dentro de seu amplo recincto.

Como os vermes se arrastam vagueiando pelos membros do cadaver, assim os homens do sacrilegio se espalharam, arremessando-se aos altares e a todos os logares onde reluzia a prata ou o ouro.

E cuspindo sobre a hostia do Cordeiro, pisavam-na aos pés e motejavam do
Crucificado.

E despido o templo das riquezas alli depositadas em testemunho da piedade de seculos, os impios saíram delle carregados de despojos.

Depois, accendendo fachos, lançaram-lhe fogo por todos os angulos, e breve as chammas se ergueram ao céu com espantoso ruido.

O estalido das pedras que se desconjunctavam, e o fragor das abobadas desabando, e o estridor do incendio, que trepava em espiraes pelas columnas e se estendia em lençoes vermelhos, lambendo a face dos muros, e o ultimo gemido dos orgãos era a orchestra deste sarau popular.

E a plebe folgava de roda, e embriagava-se, passando de mão em mão as taças do vinho espumoso, e tecendo danças com as mais vis prostitutas.

Tal foi o sonho do futuro que o Senhor me enviou n'uma noite de agonia.

XV

O anjo das predicções mudou então na minha alma a scena do porvir.

Á mesma hora, á mesma luz da lua, estava eu no logar onde vira o povo quebrar as portas do sanctuario; onde vira os homens dissolutos transpor a ultima barreira que os separava dos tigres, e lançar de si o ultimo signal que os distinguia dos espiritos das trevas.

Dos fustes truncados das columnas do templo pendiam hervas bravias, e nos muros semi-rotos enlaçava-se a héra.

Nos campanarios afumados pelo incendio haviam as aves nocturnas construído os seus ninhos: ao cahir das trevas, em vez dos sons religiosos dos sinos, despenhavam-se lá dos cimos das torres os pios melancholicos da poupa solitaria.

E no meio do terreiro surgia o que quer que era negro e que não se assemelhava a nenhuma obra da natureza, a nenhuma obra das mãos do homem feita para o uso da vida.

Approximei-me. Era o patibulo.

Um vulto humano pendia do alto delle e volteiava para um e outro lado á mercê da brisa da noite.

E tinha as faces disformes e os olhos espantados, e da bôca meia aberta gotejava-lhe a espaços o sangue.

Eu estava com os olhos cravados nelle, e não os podia despregar do homem do patibulo.

E involuntariamente cahi de joelhos: as preces pelo morto íam-me a romper dos labios. Sentia ardente a fronte e batia-me o pulso rapido e com força.

Á primeira palavra de oração que proferi, um estremeção agitou o cadaver do justiçado.

E sem mecher os beiços murmurou sons inarticulados: depois proferiu algumas palavras: a sua voz era a de um ventriloquo.

Cala-te!—disse o cadaver.—A eternidade é já minha. Deus riscou-me do livro da vida: maldicto seja o seu nome!

Fartei-me de crimes na terra: por isso fui condemnado.

A minha existencia foi como um halito de pulmoens ralados: a minha voz nunca ensinou senão a destruição.

Hypocrita da liberdade, pregoei a anarchia e a licença, como os hypocritas da religião pregoam a intolerancia e o exterminio.

Fui eu o que nas trevas preparei a discordia dos homens livres; que suscitei o primeiro dia de furor popular.

Colloquei em frente dos amotinados alguns mancebos, em cujo seio havia fragmentos de virtude, mas cuja ambição era cega.

Porque bem sabia eu que a plebe immoral anniquilaria todos os que não fossem tão dissolutos como ella.

Deixei na arena dos bandos civis todos os meus émulos, e abandonei o paiz que de futuro devia ser minha prêa.

Quando voltei, o povo tinha feito pedaços os seus idolos de um dia, e havia-os sumido debaixo dos pés das turbas.

Era então que começava o meu imperio. Ai dos que eu tinha arrolado no livro da morte! Nenhum ficou sobre a terra.

Milhares deixaram a cabeça debaixo do cutelo do algoz: milhares volteiaram no cadafalso por noites de luar, como agora eu volteio.

E este baraço que ora me sobreleva do chão ainda o achei aquecido do collo da minha ultima victima.

Fartei a sede de vingança e de sangue que mirrava o meu coração, e morri seguro de que deixava atraz de mim a campa cerrada em cima de todos os virtuosos.

O tyranno do céu folgue embora em me ver no inferno: ao menos pude apagar o seu nome na terra que me deu o berço.

Um brado meu desmoronou os templos: o sacerdocio desappareceu; a oração calou para todo o sempre.

Agora tambem eu passei; porque na senda do crime o povo com uma passada vence o caminho de um seculo, e eu era apenas um homem.

Os que empolgaram o poder, que me foi arrancado, não os tinha ainda conhecido, porque se arrastavam hontem em regiões obscuras; aliás ter-me-hiam precedido em descer aos abysmos.

Aqui, dando um longo gemido, o suppliciado calou; os olhos fecharam-se-lhe, e a cabeça pendeu-lhe para o peito.

Emquanto falara, bem conheci quem era; mas o Senhor me ordenou não revelasse o seu nome.

XVI

O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

Era por noite fria de inverno: n'uma quadra desadornada de palacio meio arruinado jazia um homem em pobrissima enxerga.

No seu rosto estava pintada a doença e a fome, as bagas do suor da morte transudavam-lhe da fronte, e dos olhos fugia-lhe a lagryma extrema do moribundo.

Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio; e o homem tremia, e os dentes batiam-lhe uns contra os outros.

E no seu delirio o misero soltava palavras cortadas.—Agua! agua!—dizia; porque a sede lhe roía as entranhas. E não havia quem lhe desse um pucaro de agua.

Tribunos da plebe, dae-me um pouco de pão. Ah! bem negro que seja! que tambem eu sou do povo.—E lançava os olhos para os seus farrapos.

Fui nobre e rico; mas esquecei-vos disso! Perdoae-me, porque nada me resta: tão pobre sou como o mais humilde mendigo, que d'antes estendia a mão para o ultimo dos meus servos.

E o homem sorria, e o seu riso significava a desesperação da sua alma.

Depois olhou para um crucifixo que estava encostado á parede, e estendeu para lá os braços.

Mas não havia quem lhe unisse ao peito a imagem do Salvador: não havia um sacerdote que lhe desse o extremo vale.

Então deixou descahir os braços, fechou os olhos, e morreu. Sobre o cadaver ir-lhe-ha amontoando o tempo as ruinas dos paços que lhe herdaram seus paes.

E será esta a campa republicana do homem que foi nobre e abastado.

XVII

O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

Era o dia da lucta das facções: era um dia de ampla carnificina.

E o demonio do meio-dia pairava sobre a cidade do sangue, e blasphemava do Senhor.

O povo corria furioso e tumultuava; e os tiros e golpes soavam pelas praças, pelas ruas e pelas encruzilhadas.

O gemer dos feridos, as pragas dos vencidos, e as ameaças dos vencedores conglobavam-se em rumor semelhante ao arquejar de volcão.

As portas dos edificios estouravam pelos gonzos e fechaduras, e a plebe clamorosa entrava de tropel até o mais recondito das habitações.

E o ulular das mulheres, e o vagido dos infantes e o chôro dos velhos rompiam por entre o clamor da matança.

Mas a lascivia e o punhal breve punham o sello do silencio nas frontes de inteiras famílias.

No recontro das diversas parcialidades os irmãos assassinavam os irmãos, os filhos assassinavam os paes.

Porque á voz das sedições, o povo tinha quebrado, depois dos laços sociaes, os vinculos da natureza.

E o roubo, a dissolução, a morte e o incendio estavam assentados nos quatro angulos de uma cidade outrora populosa e rica.

Estas eram as divindades que adorava a plebe nos dias da licença e do furor.

XVIII

O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

Nas abas de uma serra das provincias do norte ainda as casinhas de pequena aldeia alvejavam certa manhã ao despontar o sol.

E nas assomadas dos montes, e nos comoros dos outeiros ondeiavam os cimos dos pinhaes agitados pela viração matutina.

A aldeia e os campos que a rodeiavam eram, no meio deste paiz assolado, como o vulto da esperança erguido sobre a lousa do sepulchro.

E os habitantes pacificos do valle não sabiam que as tempestades politicas trovejavam além das suas montanhas.

Mas nesse dia souberam-no para morrerem. O raio da furia popular fulminou-lhes a destruição.

Bandos de soldados negrejavam em ondas descendo para a planicie; e os primeiros raios do sol espelhavam-se nas suas armas.

E seguiu-se mais uma scena de carnificina, como tantas que eu tinha visto em meus sonhos do futuro. O ultimo abrigo da felicidade neste mal-aventurado paiz foi reduzido a cinzas.

Os velhos morriam abraçados aos troncos dos carvalhos e castanheiros, seus veneraveis amigos da infancia, que tinham testemunhado a ventura de seis gerações inteiras.

Os moços cahiam combatendo pela salvação dos paes, das esposas e dos filhos; mas, inexpertos nas armas, levemente eram vencidos da soldadesca feroz.

Na ermida do presbyterio buscaram as mulheres indefensas guarida contra os assassinos; porque as desgraçadas não sabiam que a religião tinha fugido desta terra dos crimes.

Alli, ante o altar do Senhor, foram vilipendiadas e saciaram a bruteza dos filhos da dissolução.

E no dia seguinte, nos soutos e nos pinhaes da encosta ouvia-se tão somente o murmurio das ramas; e no meio do valle fumegava um monte de cinzas.

XIX

O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

N'uma vasta sala estavam congregados muitos homens de aspecto feroz e em cujos olhos faiscavam as coleras immensas dos bandos civis.

Chamavam-se estes homens os legisladores, os eleitos do povo.

Vans denominações eram essas: a lei residia na vontade mudavel da plebe; e elles eram em grande parte mandados para aquelle recincto pela parcialidade que então triumphava.

De roda, em balcoens erguidos, agitava-se a plebe tumultuosa.

Alli se lavravam os decretos de exterminio: e era, ouvindo-os, que as turbas victoriavam os homens do sangue.

Mas, se aos labios de algum assomava uma palavra de humanidade, e se ousava proferi-la inteira, os gritos de traição e de morte recalcavam-lhe das faces para o coração esse impensado impeto de piedade.

Neste dia pelejavam as parcialidades nas ruas para decidir quem tinha direito de commetter mais crimes: era dia de abundante colheita para o sepulchro e para o inferno.

Mas ao recincto, outrora chamado o sanctuario das leis, não chegava o clamor do combate: porque ahi a discordia excitava alaridos e, sacudindo o seu facho, encendia os animos de uns contra outros, Luctavam tambem as parcialidades lá dentro.

Na praça publica a victoria convertia a final o que naquella assembléa se chamava minoria facciosa em irresistivel maioria. A plebe soberana annunciou-o aos legisladores, fazendo estourar a golpes de machado as portas da immensa quadra, onde o vozeiar não era de ardentes debates, mas sim de pugilato infrene. A turba-rei precipitou-se como torrente: o tumulto ondeiou pela sala espaçosa, e houve um momento de ancia e de silencio.

Então os punhaes reluziram erguidos e desceram com força; e os gritos e as pragas e as blasphemias misturaram-se com o estertor dos moribundos.

E a plebe nos balcoens batia as palmas, e dizia entre risadas:—viva!

Tal foi a ultima scena de meus sonhos; e nada mais me revelou o Senhor.

XX

O Filho do Homem comprazia-se em ensinar a sabedoria por meio de parabolas: na parabola está a philosophia do povo.

Um agricultor possuia certo campo que não produzia senão fructos enfezados; porque o solo se havia tornado sáfaro por falta de cultura durante largos annos.

Porém ainda, aqui e acolá, pela extensão da veiga, vecejavam algumas arvores e cepas de boas castas, e que só de maltractadas pareciam bravias.

E este agricultor morreu, deixando o campo de seus paes a tres filhos que tinha; e estes tractaram entre si ácerca do que deviam fazer da herança paterna.

E o mais velho disse:—Respeitemos a memoria de nossos antepassados, e deixemos aos que de nós vierem o campo que herdámos do mesmo modo que o recebemos:

Porque se não diga que menoscabamos a prudencia dos velhos e que pretendemos ser mais avisados do que foi nosso pae.

Elle viveu, posto que pobre, tranquillo: vívamos como elle viveu.

E disse o segundo-genito:—Veneranda é a memoria dos que nos geraram: comtudo tambem se deve acatar a razão, que nos foi dada por Deus.

Conservemos todas as obras do tempo passado; mas melhoremos tudo o que nellas houver ruim.

Ahi estão arvores uteis no meio da nossa herdade: não as derribemos, porque o fazê-lo, além de impiedade, fora rematada loucura.

Porém roteemos os bréjos e sarçaes, adubemos a terra, e procuremos fazer novos plantios adequados á qualidade do solo.

E disse o irmão mais novo:—Que nos importa os que passaram, ou que temos nós com o que elles fizeram?

Nossos paes viveram nas trevas da ignorancia; e por isso todas as suas obras são loucura e vaidade.

A luz e a sciencia só veio ao mundo em nossos dias, e só a propria sabedoria póde fazer-nos felizes.

Comecemos pois por arrancar deste agro todos os vestigios de antiga cultivação: não verdeça nelle nem uma unica planta.

E depois buscaremos arvores extranhas de fructos saborosos e sementes uteis, e a nossa herdade causará inveja a todos os vizinhos.

Cada um dos irmãos estava firme em seu proposito, e os servos e os familiares bandeiaram-se em tres partidos.

E luctaram uns com os outros, e triumphou a opinião do mais velho.

E o campo mal cultivado, cada vez produzia menos, e a fome veio assentar-se no limiar da porta dos tres irmãos.

O que vendo o segundo-genito, disse aos do seu bando:

Força é que tiremos o poder das mãos dos que nos governam, aliás morreremos todos á pura mingua.

E assim o fizeram; e, posto que a lucta fosse longa e encarniçada, venceram; porque a razão estava da sua parte, e Deus os abençoava.

Então começaram a trabalhar: alimparam as arvores dos ramos seccos e exuberantes; adubaram os campos e prados, e arrancaram as moutas e as plantas nocivas.

E lançaram boas sementes á terra, e quando a seara foi crescendo, começaram de mondar-lhe o joio e as outras hervas damninhas.

Promettia naquelle anno ser excellente a colheita, e no coração dos familiares renascia já a esperança.

Mas o irmão mais novo, possuido do espirito de destruição, colligou-se com os criados devassos e que aborreciam o trabalho continuo a que eram forçados.

E fizeram uma união contra o segundo-genito e tiraram-lhe o mando, valendo-se de muitos clientes do primogenito, os quaes, por via da dissensão entre os dous mais novos, esperavam triumphasse o mais velho.

Lançaram-se então ao campo, destruiram a sementeira, cortaram as arvores, e passaram a charrua por cima dos campos arrelvados.

E buscaram sementes exquisitas e arvores exoticas, e atiraram á terra desalinhadamente com tudo isso, e depois adormeceram.

As arvores, porém, seccaram logo, e as sementes, apenas rebentaram, morreram; porque os imprudentes não haviam estudado nem a natureza do clima, nem as propriedades do solo, nem as regras de agricultar.

E a familia inteira no fim do anno tinha perecido de fome.

XXI

Na terra de Cethim houve um rei que era bom e cheio de liberalidade e valor.

E cançado de reinar, disse em certo dia a seu filho, que ainda era muito moço:

Pesam-me já demais a coroa e o sceptro, e os esplendores do throno não me deslumbram. Vem, e assenta-te nelle.

E o filho obedeceu, e começou de reger os povos por certas leis estabelecidas por seu pae, o qual foi viver em regiões longínquas.

Mas um tyranno alevantou-se com o reino, e o moço principe errou largo tempo por extranhos paizes com os poucos seguidores de sua má ventura.

E o bom rei que descera do throno correu a restituir ao filho a herança que lhe legara.

E a sua espada foi como a de Gedeão; o seu braço come o dos Machabeus.

Então o principe desterrado voltou á patria, reassumiu o sceptro que lhe fora roubado, e a lei e a justiça recobraram o antigo vigor.

Depois o rei virtuoso morreu de puras fadigas, e foi dormir com seus paes: sobre a sua memoria desceram não só as bençãos dos seus soldados, mas tambem as de todos os amigos da justiça e da paz.

Nas trevas, porém, homens corrompidos começavam a tramar dissensões civis; porque pretendiam que os bons soffressem, depois da tyrannia de um unico mau, a tyrannia de muitos homens ruins.

E estes mysterios da corrupção vieram a lume, e a plebe disse um dia ao principe e aos cidadãos pacificos:—A força está em nós, e a força é o direito: obedecei-nos pois, aliás um descerá do throno, outros serão reduzidos a pó.

E tudo calou diante da plebe; porque era verdade que ella tinha a força.

Os nobres, os prudentes, e os homens bons cubriram-se de dó, e no gesto lia-se-lhes a amargura do coração.

Mas o moço rei a quem os turbulentos fingiam acatar, porque descera até elles, mostrou-se contente do seu damno, e engolfou-se nas delicias de que o rodeiaram os algozes da patria.

Foi então que se apagou em todos os animos honestos o ultimo raio de esperança.

XXII

Havia naquelle tempo em Cethim um propheta, em cuja boca posera Deus o verbo da eterna verdade.

E este propheta entrou um dia nos paços do principe e disse-lhe:

Mancebo inconsiderado, emquanto folgas e ris, vai desconjunctar-se debaixo de teus pés o throno que te herdaram teus paes.

Lembra-te de que subiste a elle por cima das ossadas de vinte mil dos teus amigos, regadas pelas lagrymas de cem mil familias.

E não te esqueças de que entre esses ossos jaziam os de teu pae: não maldigas com tuas obras a sua memoria; porque elle foi justificado diante do Senhor.

Crês tu que os homens do nada te perdoarão o teres nascido do sangue dos reis? Enganas-te! Crime para elles é este que nunca te será relevado.

O sorriso que na tua presença lhes aclara o torvo das faces, não o creias de amor: repara, e verás que é o riso infernal do desprezo.

Os filhos da abjecção queriam igualar-se comtigo; não, sendo elles quem subisse, mas sendo tu quem descesse.

As taboas da lei foram feitas pedaços; se o vê-las partidas te apraz ou disso não curas, antes de o patenteiar cumpria-te restituir-nos as vidas e o sangue de nossos irmãos.

Este paiz soffreu tudo por guardar o pacto que jurou, e que também tu juraste: que direito é o teu para approvares que esse pacto seja rasgado? Porque não padecerias alguma cousa a bem dos que tanto padeceram por ti?

Crês, porventura, que é bello e generoso assentares-te em um throno que a relé do povo conspurcou de lodo e de infamia?

A plebe era forte: embora. Mais forte era o tyranno de outrora, e baqueiou por terra.

Devias deixar aos maus a consummação do seu crime e não o sanctificares tu.

Devias confiar na Providencia, e arrojar de ti o manto de ignominia que sobre os hombros te lançavam.

Devias conservar sem mancha o teu nome, porque está ligado ao do que te deu o ser, e este será glorioso até o termo dos séculos.

Nós iremos ajoelhar juncto ao sepulchro de teu pae, e ás cinzas do rei virtuoso pediremos a justiça que não encontramos na face da terra.

Oh, que se fosse possivel alevantar-se elle em pé sobre a campa, um seu olhar te encheria de remorsos; um brado seu fulminaria os perversos!

Taes foram as palavras que o propheta de Cethim disse ao principe mancebo: o que depois aconteceu não o sei eu narrar.

E este é um fragmento da historia de eras que passaram ha muito.

XXIII

A justiça de Deus é grande: maior a sua misericordia.

Para o que se arrepende mana do seio do Senhor fonte perenne de perdão, e as preces do contrito sobem ligeiras até os degraus de seu throno. Depois dos dias de afflicção, elle envia o consolo e quebra em pedaços o vaso da sua colera.

Povo, que vagueias desenfreiado pelas sendas da morte, converte-te á vida, converte-te ao Deus de teus paes.

Elle não se esquecerá dos netos desses fortes que espalharam a luz do seu Verbo entre os mais remotos barbaros, e os teus erros serão esquecidos.

Nossos avós souberam ser livres sem ser licenciosos; souberam ser grandes sem crimes: eterna é a sua gloria.

Ousariamos nós irmos ajunctar-nos com elles no repouso do tumulo carregados das maldicções do Altissimo, e sepultando comnosco a herança do nome português cuberta da execração do universo?

Lembrae-vos de que as cinzas dos cavalleiros de João primeiro; dos valentes de Ceuta, de Tangere e de Arzila, dos conquistadores do Oriente, estão envoltas na terra que pisaes.

E onde quer que ponhaes os pés levantará o passado um grito de reprehensão contra a depravação do seculo actual.

Formosa e pura é a luz do sol neste amoroso clima do occidente: não queiraes convertê-la no facho avermelhado e sinistro que fulgura por cavernas de salteadores e de assassinos.

Unamo-nos, pois, como irmãos, e abraçando-nos uns com outros, cáiam algumas lagrymas de reconciliação sobre esta terra tão regada de lagrymas de amargura; tão ensopada no sangue do fratricidio.

Refloreçamos entre nós a paz e a amizade: tenhamos um nome só, o de portugueses, um só bando, o da patria.

Ainda algum dia estes rogos do propheta serão ouvidos: mas quando, é um segredo de Deus.

A VOZ DO PROPHETA

SEGUNDA SERIE

Iniquitas surrexit in virga impietatis; non ex eis, et non ex populo, neque ex sonitu eorum, et non erit requies in eis.

EZECHIEL, VII-11.

I

Lisboa, cidade de marmore, rainha do oceano, tu és a mais formosa entre as cidades do mundo.

A brisa que varre os teus outeiros é pura como o céu azul, que se espelha no teu amplo porto, semelhante a grande mar.

Trinta seculos tem surgido depois que tu surgiste, e sorvendo milhares de existencias cahiram todos no abysmo do passado.

E tu os has visto nascer e morrer; e sorriste-te, porque julgavas que a vida te estava travada com a vida do universo.

Escondendo nas trevas dos tempos remotissimos a tua origem, dizias ás demais cidades da Europa:—Sou vossa irmã mais velha.

Nobre e rica outrora, quando o Oriente e a Africa te mandavam o ouro das suas veias, os extranhos vinham assentar-se-te ao pé dos muros e abastecer-se com as migalhas cahidas das mesas dos teus banquetes.

Cada um dos teus velhos palacios abrigou já os ultimos dias de um grande capitão; em cada pedra dos teus templos ha uma recordação das virtudes passadas; em muitas lousas de sepulturas nomes que não morrerão.

Nas eras de tua gloria, os monarchas dos ultimos confins da terra se haviam por honrados com chamar irmãos a teus filhos; e filhos teus davam e tiravam coroas.

As tuas armadas aravam as campinas do oceano, e neste nem uma vaga deixou de gemer debaixo das naus do Tejo.

Para as frotas da nova Tyro, os golpes de machado resoavam ao mesmo tempo nos bosques da Europa e da Africa, do Oriente e do Novo-Mundo: os lenhos do Indostão cosidos com os da Nigricia fluctuavam por mares distantes, e sobre elles se hasteiava um signal de terror para o orbe: era o pendão das Quinas.

Então, oh cidade do Tejo, reinavas tu e eras forte, mais do que Roma ou Carthago; mas o imperio e a força vinham-te das virtudes de teus filhos, dos homens a quem sem pudor chamamos nossos avós.

Vivificavam-te o seio um sem numero de bem nascidos espiritos, e eras seminario feracissimo de corações generosos.

Porém, que te resta hoje do antigo esplendor, da gloria de tantos seculos? Um echo do passado nas paginas da historia, o sol puro da tua primavera, os restos dos paços e templos que os terremotos te não consumiram, e o grande vulto das aguas do amplo ádito do Tejo.

II

Mas este echo da historia, que devia ser para ti como um grito de remorso, não ha ouvidos que o escutem, e soa em vão e morre no meio do vozeiar descomposto da plebe:

Mas este céu puro que te cobre, e que testemunhará no grande dia as virtudes de nossos maiores, testificará também perante o Senhor a tua corrupção actual:

Mas este porto, que a liberdade regrada de tres annos começava a povoar de entenas, torná-lo-ha o reinado da licença tão ermo como os extremos dos mares gelados:

Mas pelos palacios de marmore já não retumba a voz dos heroes, e os templos estão desertos: só por lupanares e praças sussurra o clamor dos populares, ou entoando os canticos das orgias, ou tumultuando em assuadas e preparando o dia em que satisfaçam a sede do roubo e do assassinio.

Viuva prostituida, os vicios corromperam-te a seiva da vida, e a gangrena e os herpes corroem-te os membros, que ainda vestes de trajos louçãos, mas onde a morte se encarnou ha muito.

Formosa ainda no aspecto, assemelhas-te ao sepulchro do evangelho, alvo e polido no exterior, mas cheio de podridão e negrura.

Nova Jerusalém, a dextra do Senhor vergou pesando-te os crimes e, como a antiga, saberás se por ventura são asperas as angustias que o Omnipotente manda aos povos no dia da sua justiça.

Rapida é a carreira do malvado pelos atalhos do crime: porque esses atalhos levam, de despenhadeiro em despenhadeiro, ao abysmo da perdição.

Breve empallidece o outono as folhas das arvores; breve as desprende dos troncos; breve as espalha e some, arrebatando-as sobre as azas dos ventos.

Esse curto praso bastou ao povo para esgotar os thesouros da misericordia divina, que os erros e culpas de seculos não haviam podido empobrecer.

Os feitos portentosos de dous annos de combates civis foram amaldicçoados pelo povo em uma noite de sedição, e a arvore da liberdade cerceiada juncto da terra.

E as esperanças de salvação e de felicidade passaram como o sonho matutino que se desvanece ao alteiar do sol.

III

Como a antiga Jerusalém se afundou em mar de crimes, assim a moderna Sião, a grande cidade do occidente, se mergulhou em torrente de perversidades.

E a maldicção celeste que sumiu aquella d'entre as nações pesará ainda mais rijamente sobre a desgraçada Lisboa, sobre esta caverna de vicios e de desenfreiamento.

Á roda dos muros de Solima apinhavam-se os cavalleiros de Babilonia, e as tendas de Nabuchodonosor estavam assentadas ao pé da torrente de Cedron.

E as catapultas arrojavam pedras sobre os eirados do templo, no cimo do Moria: os arietes batiam os baluartes, que vacillavam até os fundamentos, e o granizo das settas sibilava, passando por entre as mal defendidas ameias.

E ao longe scintillavam os ferros das lanças e o bronze dos elmos e dos cossoletes, e ouvia-se o nitrir dos cavallos.

Surgira o dia extremo para a cidade das maravilhas, para a reproba Solima. E d'alli a um anno, sobre as ruinas della estava assentado um velho.

Era o propheta de Anathot, que, em cima da ossada dos palacios e do templo, entoava uma elegia tremenda, a elegia da sua nação.

IV

Tambem o dia em que, entre os vestigios da cidade maldicta, algum vate levante um grito de agonia, um grito de desesperança, não tardará a chegar.

Porque Deus ergueu-se no seu furor, e mandou descer sobre este paiz o anjo do exterminio.

Mais cruel será o teu castigo, oh terra do meu berço, do que o de Jerusalém: porque ella pereceu a mãos de extranhos, e seus filhos morreram defendendo os lares paternos.

Mas a ti é um matricidio popular, é a febre ardente das sedições que te vae arremessar ao sepulchro.

Os teus muros converter-se-hão em circo: pelas praças e ruas pelejar-se-hão pelejas como de gladiadores, combates como de mastins e feras.

Porque o temor de Deus saiu do coração do povo, e entraram nelle todas as raivas do inferno.

Aspero é para o que morre assassinado não poder clamar ao céu justiça contra o seu matador.

E neste mau caso cahirá o povo; porque serão as suas proprias mãos que lhe rasgarão as entranhas: será elle quem lavre a sua sentença de morte.

Elle se amaldicçoará a si, e o remorso e a desesperação de toda a humana piedade lhe dobrarão as agonias do passamento.

V

Os que pelejaram contra os tyrannos purpurados mal sabiam que lhes quebravam o sceptro de ferro, para metter a espada da assolação na dextra de tyrannos cobertos de vermes e farrapos.

Mal pensavam que uma raça corrupta não conhece outra estrada senão a da servidão ou a da licenciosidade.

A nação, esmagada pelos reis, tinha muito tempo gemido debaixo da propria miseria.

Mas surgiu um principe que deu a liberdade ao povo e que veio morrer para lh'a restituir, quando elle vilmente a deixou baqueiar por terra.

E estes homens, que pouco antes haviam dobrado o joelho perante o despotismo, mostraram-se tão orgulhosos e insolentes, quanto, até então haviam sido abjectos e timidos.

E n'uma orgia popular fizeram resoar gritos insultuosos nos ouvidos daquelle que duas vezes os libertara, e invocaram-lhe a morte. Nesse momento longe estavam os seus soldados, e muitos delles arquejavam moribundos no campo onde se pelejou a ultima batalha da patria.

Em verdade vos digo que tal crime é dos que Deus não perdoa; porque a ingratidão é a mais horrenda de todas as perversões humanas.

Elles apressaram o repouso do tumulo para o salvador da republica: mas o nome de parricidas será o que sobre a jazida lhes escreverá a historia.

VI

O sonho da liberdade, o sonho da minha juventude, esta fonte da poesia e de acções generosas, converteu-se para mim n'um pesadello cansado.

Digno era o povo de compaixão quando estava em ferros, e por bom feito se tinha entre as almas puras o affrontar-se o homem com a morte pela salvação dos seus semelhantes:

Porque, subindo ao patibulo ou expirando entre o estrondo das armas, a voz da consciencia assegurava ao que fenecia as lagrymas e as bençãos dos vindouros, e que algum dia cyprestes se plantariam na terra que lhe bebesse o sangue.

Mas isto era crer na virtude popular: era apenas um sonho, e a consciencia mentia.

A corrupção estava no amago das existencias. A arvore da vida social carcomiu-a a servidão. Cumpria que as tempestades politicas a derribassem; que os vermes da sociedade lhe roessem e desfizessem os troncos.

E estes vermes são as turmas de uma plebe invejosa, que incessantemente trabalham na grande obra da publica destruição.

Almas virtuosas, que nos paizes ainda escravos preparaes no silencio a queda dos tyrannos, não apresseis o grande dia da emancipação popular.

Porque nesse mesmo momento sereis amaldicçoados pelos que salvastes, e cubertos de escarneos e de injurias, sabereis que a plebe lança em poucos mezes mais crimes na balança da eterna justiça do que os tyrannos ahi hão lançado por seculos.

VII

Certo dia, o conde de Avranches entrava nos paços de Affonso quinto, e os cortesãos calumniavam sem pudor o bom duque de Coimbra, o salvador da republica.

E o conde disse-lhes:—mentis, como desleaes; e aos melhores tres de vós prova-lo-hei á lança e á espada: innocente e justo é o mui nobre filho de meu senhor e rei, Dom João de excellente memoria.

E ninguem ousou responder ao velho cavalleiro da Garrotéa; porque bem sabiam que a sua consciencia era pura e o seu montante pesado.

D'ahi a alguns dias elle provou o dicto. Na batalha de Alfarrobeira, sobre um montão de cadaveres, cahiu defendendo a innocencia e bom nome do seu desventurado amigo.

Onde estavam os do valente capitão da nova Diu, do rei soldado da patria, quando o vulgacho no meio da praça publica, assentado no seu lodaçal mandava derrocar as leis, as recordações e a gloria d'uma nação inteira?

Onde estavam os amigos de D. Pedro, quando a memoria do grande homem era amaldicçoada na condemnação da sua obra; quando sobre as suas cinzas a dissolução cuspia escarneos; quando a liberdade morria ás mãos da licença popular?

Quem se ergueu, seguro em boa consciencia, para lançar a luva em defesa da justiça, e dizer ás turbas:—sois desleaes e mentis?

Ninguem! Todas as espadas ficaram embainhadas. Em Portugal já não ha um cavalleiro. Na batalha de Alfarrobeira morreu o conde de Avranches, e a sua espada foi sepultada com elle.

VIII

Quando os reis se assentavam em thronos de ferro; quando a lisonja os rodeiava de prestigios, e o terror estava assentado ás portas dos seus palacios, era bello e generoso affrontar-se o homem com a tyrannia e menoscabar as dores dos supplicios.

Então era ousado o propheta, quando, nos paços de Balthasar, lia nos muros, escriptas pela mão de Deus, palavras de condemnação.

Eram sublimes os martyres, quando perante os cesares davam testemunho do evangelho, e escarnecendo dos apparelhos de morte, se deitavam tranquillamente sobre a cruz da agonia.

Era bello ouvir o poeta de Florença trovejar contra a prostituta Roma, denunciar ao mundo a corrupção e os crimes dos pontifices do Tibre, e comer no desterro um pão eivado de lagrymas e esmolado por estranhos.

Era bello, quando nós, assentados sobre os gelos do Norte, saudavamos do desterro a terra que nos deu o berço, e vinhamos, fracos pelo numero, mas fortes de coração, lançar as nossas baionetas na balança da Providencia, onde a tyrannia tinha tambem lançado as suas.

Tudo isto era bello e generoso; porque então os pequenos gemiam oppressos debaixo dos pés dos grandes, e ao homem justo incumbia fazer resoar na terra a voz da eterna justiça, o grito da liberdade.

Mas hoje que a plebe reina e, como ampla voragem, ameaça tragar a virtude, a liberdade, a justiça e todas as recordações sanctas do passado, para o homem de boa consciencia sê-lo-ha, tambem, o morrer.

Sê-lo-ha o bradar no meio das turbas, e derramar sobre ellas a condemnação, que Deus confiou em todos os seculos aos labios do innocente e virtuoso.

Sê-lo-ha chegar aos tribunos populares, apontar-lhes para o céu, e apresentar a cabeça ao cutello dos lictores.

IX

Povo, hoje és tu quem impera, e absoluto é o teu poder; porque te dizes unica fonte delle.

Toma, pois, em tuas mãos a vara do magistrado, e assenta-te uma vez mais no teu throno, amassado com sangue e pó.

Vem assentar-te, e julga-nos, a nós, que tu maldizes, e aos tribunos, aos instigadores de tumultos, que cobres de amor e de bençãos.

Porque isto diz o Senhor Deus: se a plebe julgar com justiça, a plebe ainda será salva.

Desça o terror da tua vingança sobre o coração do que te houver offendido; volvam-se no pó as frontes onde tu achares estampado o ferrete do crime.

Recorre as acções da nossa vida, recorre as obras passadas das vidas dos teus tribunos, e por preço do perdão de Deus, julga-nos com justiça.

Quando tu jazias na servidão, e os grilhões, encarnando-se-te nos pés e nos pulsos, te roçavam pelos ossos, peleijavamos nós por te salvar; derramavamos o nosso sangue por ti.

Por ti viamos o irmão e o amigo morder o pó dos campos de batalha, e calavamos; sentiamo-nos descahir de fome, e não soltavamos um queixume.

Porque guardavamos os ais para o silencio das trevas. Soldados da patria, ousariamos acaso queixar-nos diante da luz do sol?

E elles, que faziam, emquanto as nossas noites eram veladas debaixo de um céu de ferro e de fogo, emquanto os nossos dias se consumiam entre o sibilar dos pelouros?

Elles? Nos lupanares e tabernas de paizes extranhos, folgavam nos banquetes da embriaguez; reclinavam-se no leito da prostituição.

Elles? Cubriam-nos de insultos, chamavam loucura e vaidade á nossa nobre ousadia, e riam-se do juramento que faziamos de morrer ou dar a liberdade a nossos irmãos.

Elles? Buscavam por todas as vias semeiar a zizania e os odios, damnar a nossa causa sancta, e fazer-nos perecer debaixo das ruinas de uma cidade illustre.

Eis o que elles fizeram em proveito da patria. No meio do foro, diante de teu tribunal terrivel, descubra quem o ousar o peito, e mostre e conte as cicatrizes das feridas que recebeu pela salvação da republica.

Um só delles as mostrará; porque esse foi valente e amigo da virtude.
Anjo de luz, porque te despenhaste no abysmo?

A historia escrevia o teu nome na pagina das bênçãos: tu mesmo o riscaste e o foste escrever na pagina das maldicções………………. …………………………………………………………….. ……………………………………………………………..

X

Porém, debalde invocariamos justiça perante o tribunal popular; porque o povo é abastado de injustiça e ingratidão.

Os que estão cubertos de cicatrizes, os que foram longamente saciados de angustias por salvá-lo seriam condemnados, e os tribunos, os concitadores da anarchia, cujas obras unicas tem sido conduzir a patria ao abysmo da perdição, seriam absolvidos, seriam abençoados.

Embora: a nossa consciencia está tranquilla, e no grande dia é Deus quem a todos nos julgará.

Houve um propheta outrora em Israel, e chamava-se o Filho do Homem.

E este propheta amava os humildes e os pobres, e reprehendia os poderosos.

E condemnava os hypocritas da religião, e por isso era abominado pelos grandes e pelos sacerdotes.

Mas respeitava as leis, e ensinava a obediencia: mandava que se pagasse o tributo das duas drachmas do templo, e o tributo de Cesar.

E affeiava aos populares os seus vicios e abominações; e por isso era tambem malquisto da gentalha.

E, condemnado á morte pelos poderosos, o povo, a quem tinha trazido a luz e a vida eterna, o povo, que elle tanto amava, cubria-o de opprobrios.

E podendo salvá-lo do supplicio, antepunha-lhe um grande criminoso, e clamava aos algozes:—Pregae-o na cruz, e cáia o seu sangue sobre a nossa cabeça e sobre a cabeça de nossos filhos.

E este propheta era o Messias, era o redemptor do genero humano, era o filho de Deus.

Consolem-se, pois, aquelles que sobre os hombros tomaram o odio dos tyrannos por amor do povo, e a quem o povo paga com injurias e pragas.

Como Jesu-Christo, os hypocritas e os oppressores das nações abominam-nos: como a Jesu-Christo, o vulgacho cobre-nos de affrontas, e pede para nós aos seus tribunos a condemnação e o supplicio.

E que nos cumpre fazer para seguirmos em tudo o exemplo do Justo assassinado, do Deus que nos deixou na terra o consolo e a esperança?

Pedir morrendo ao Eterno Pae o perdão de nossos perseguidores e, como o divino Mestre, lançar á conta da ignorancia as culpas de corações corruptos.

Imitando o Salvador na cruz, seja um pensamento de benção o nosso pensamento extremo; porque o derradeiro suspiro do christão deve ser um murmurio de affecto grande para os que o amaram, mas ainda maior para os que o odeiaram e perseguiram.

XI

E ainda uma vez, filhos da perdição, ainda uma vez vos falarei em nome do Senhor nosso Deus.

Que foi o que fizestes assassinando as esperanças da salvação publica, derribando a sancta tradição da patria?

Até no crime fostes apoucados. Porque não se ergue um de vós, perverso, mas sublime, como o archanjo das trevas, e diz:—fui eu o concitador do motim popular, fui eu o primeiro que clamei «quebrem-se as taboas da lei?»

Louvaes a sedição, chamaes-lhe obra illustre, e nenhum de vós acceita a gloria de ser o bem-feitor do seu paiz?

Quando combatiamos pela liberdade gravavamos os proprios nomes em nossas armas, e o inimigo que ousasse vê-las de perto, ahi os lería inteiros.

Não combatiamos nas trevas; e os nossos capitães diziam ao mundo:—Vede:—e mostravam a face diante da luz do sol.

Hypocritas, que enganaes o povo, credes porventura que tambem enganareis o Senhor e que, semelhantes á prostituta que engeita o fructo de seu crime, engeitareis diante delle a obra da vossa iniquidade?

Não! Lá se levantarão os nossos e os vossos filhos, para quem preparaes berço de miseria, vida de amargura e morte de desesperação.

E elles testemunharão contra vós na presença do Altissimo: e haverá ahi choro e ranger de dentes.

XII

Ambiciosos, que desvairaes o povo, o Senhor leu no fundo dos vossos corações e revelou-me o que ahi está escripto!

A cubiça do mando e do ouro é o vosso amor de patria; a vossa ancia de liberdade a sêde de tyrannia.

Merecedores de jazer perpetuamente na escuridade, e ermos de virtude e de sabedoria, não podendo fulgir com luz celestial, tentastes romper as trevas de vossos caminhos com o clarão torvo do inferno.

E a serpente vos emprestou a sua vã sciencia, as suas corruptoras palavras, e alumiados por fulgor de morte, alguns vos creram illustrados pela luz que mana do throno de Deus.

Mas os que foram enganados vos amaldicçoarão no dia em que patenteardes a hediondez das vossas intenções, e o Pae de misericordia lhes perdoará um erro de intelligencia.

Eis o que diz o Senhor:—Vós sois os assassinos da republica, mas debaixo das suas ruinas ficarão tambem esmagadas as vossas frontes, e os vossos membros quebrantados e sumidos.

Tambem vós tereis quem maldizer na hora do passamento: os dias futuros justificarão o Verbo de Deus.

XIII

Os soldados que arrastavam o Justo ao Golgotha, quando o povo de
Jerusalém pedia o sangue innocente, poseram sobre a cabeça do Filho do
Homem a inscripção—Este é Jesus rei dos Judeus.

Porque o povo não sabe commetter um crime, sem, afora o crime, blasphemar e escarnecer da virtude.

Assim os tribunos da plebe, depois de rasgarem o pacto social, disseram por irrisão:—Reuna-se o conselho dos anciãos, dos sabios e dos prudentes, e façam-se leis para o regimento da republica.

Como se não houvesse ahi lei; como se os eleitos do povo não tivessem sido expulsos pela relé e separados uns dos outros.

Então os malfeitores rodeiaram a urna onde d'antes os cidadãos podiam livres lançar o voto da sua consciencia.

E todos os bons se afastaram dessa urna; porque a mão do crime a tinha collocado no templo, e á roda della sómente sussurravam ameaças de morte.

E por isso os nomes que d'alli sairam foram nomes opprobriosos ou desconhecidos, e como extranhos no meio de nós.

Um erro trouxe outro erro, e o punhal passou da praça para o templo, e houve ahi mysterios das trevas, mysterios de perversidade.

E homens imberbes, ignorantes e ignobeis ir-se-hão assentar no conselho dos legisladores, no logar destinado para os velhos, para os sabios e para os homens virtuosos.

Mas a plebe ahi estará também, com seu gesto hediondo, como um espectro de terror, como a imagem do supplicio nos ultimos dias de um criminoso depois da sua condemnação.

Ella ahi estará; e o seu grito será mais alto que o das consciencias, se é que podem consciencias falar no conselho de homens corruptos.

Ella ahi estará; e as leis serão feitas por ella; porque errados vão os que pensam que o povo larga jámais o poder que a imprudencia ou a maldade lhe depositaram nas mãos.

Homens a quem a dissolução social vestiu a toga de senadores, para debaixo da campa levareis nas frontes duplicado o ferrete da infamia e do aviltamento.

Nellas vo-lo escreveu uma eleição fraudulenta, em que votou o punhal do assassinio e o obulo da embriaguez, preço porque a plebe vendeu aos tribunos o exercicio de um direito que não era seu e que ella tinha roubado por noites de sedição.

E nellas vo-lo estampará tambem o grito insultuoso do vulgacho que vos ergueu do pó para sanctificardes a sua rebellião, para serdes cumplices nos seus decretos de morte, e para depois vos quebrar em pedaços, como um vaso fragil quando se torna inutil.

XIV

De fel e de trabalho me cercou o Senhor. Esta é uma das suas visões, que elle me enviou em espirito.

N'um campo extensissimo estava eu, e cerrava-se-me o coração, como traspassado do frio do terror. Era ao cahir das trevas.

Havia por ahi sepulchros, mas sepulchros semelhantes a dorsos de montanhas: havia por ahi cyprestes, mas cyprestes seculares como o universo, e cujos cimos avultavam como a espessura de um bosque primitivo.

O sitio em que eu estava era o cemiterio das nações e dos seculos.

Sobre muitos desses tumulos espantosos já tinha cahido a campa; já o musgo e as sarças lhes dissimulavam as juncturas, e o estellio e o áspide passavam por cima, rangendo como as folhas seccas.

Outros havia lá que ainda estavam abertos, e tinham as lousas erguidas sobre uma das bordas, juncto da qual um anjo derramava lagrymas. Jaziam nestes muitos seculos de nações modernas.

Algumas sepulturas ahi estavam inteiramente descubertas e ainda alvejantes, como collocadas de pouco em meio do campo sancto: nem lousas estavam ao pé dellas.

Mas ao longe ouvia-se como o gemido de eixos que vergavam e de homens que altercavam e que pareciam trabalhar em uma obra de Deus.

E este gemido era semelhante ao do oceano revolto, e o borborinho soava como o clamor de milhões de vozes.

Na frente de cada um dos jazigos estava escripta a historia do povo ou do seculo que lá repousava ou que lá devia cahir.

E algumas destas inscripções eram antigas e meio gastadas, e de roda tinham esculpidos symbolos de gentilidade.

Apenas sobre uma dellas estava gravado o nome de Jehovah; mas fechavam a campa sete sellos, cuja lenda era:—até a consummação dos seculos.

E mais alguns monumentos ahi se erguiam, já cubertos com a lousa final: e em cima delles estava plantada a cruz, e a inscripção acabada.

Juncto destes ajoelhei e derramei lagrymas: eram sepulchros das raças que educara o evangelho: dormiam lá irmãos meus.

E os reinos e as republicas da idade media eram os que nesse logar estavam sepultados: áquelles tinham-nos anniquilado loucuras e tyranias de reis; a estas a licença e a corrupção popular.

XV

Lá estava tambem o monumento da nossa patria.

E nelle repousavam os cadaveres de muitos seculos.

E a historia de cada um destes lia-se na face da pedra, escripta pela mão do archanjo que velava o sepulchro e que forcejava por suster a campa, que já pendia, como para os encubrir á luz.

E esta era a lenda sepulchral:

Deus escolheu para si a nação do extremo occidente, e a benção do
Altissimo desceu sobre o berço della.

E passou glorioso o primeiro seculo da sua existência, rico de combates e victorias: elle herdou ao seguinte a cruz plantada nos coruchéus dos alcorões, e uma raça valente e virtuosa, que defendesse a terra conquistada.

«De incremento e prosperidade foi o segundo seculo; e posto que ahi houvesse dias de turbação, o povo cresceu; porque o Senhor o abençoava.

E na terceira era soou em paiz extranho uma voz que falava de servidão. O povo português lançou mão da espada e da lança, e em vinte combates provou a sua independencia, e que o Deus dos exercitos fora o Deus de seus paes.

E na quarta era chegou a idade viril da republica: a sua estatura assemelhava-se á de um gigante, os seus braços aos de um athleta.

E na quinta ella estendeu a mão para o oriente, e aferrando centenares de povos, metteu-os debaixo dos pés.

Então commetteram-se crimes, a corrupção estendeu-se, e a face do Senhor turbou-se.

Aqui na inscripção seguia apenas um nome de poeta, o depois uma longa beta negra. Esta significava que de infamia e servidão fora a sexta idade da republica.

E a lenda tumular proseguia:

Surgiu um dia o povo, e quebrando os grilhões que tyrannos estranhos lhe haviam lançado, açacalou de novo a sua espada esquecida, e combateu quasi um seculo.

E recobrou a independencia, senão a liberdade.

D'aqui ávante, falava o letreiro de existencias e de largos annos; mas de existencias sem gloria, e de annos semelhantes apenas á decrepitude de homem que foi robusto.

E havia ahi guerras e victorias e leis: mas as victorias coroavam o general e não o soldado, porque o soldado era servo: as leis eram talvez justas, mas desciam do throno dos reis sem a sancção popular, e o povo dobrava o joelho.

E isto era impio. O servo que acceita sê-lo é só meio-christão. Do evangelho deriva a liberdade, como condição impreterivel do homem, responsavel por seus actos perante Deus. A liberdade póde rasgar-se do evangelho; não separar-se delle.

Depois lia-se o nome de um rei; e este nome era grande e honrado, como os dos antigos reis portugueses, e a sua historia estava escripta no monumento da eternidade. Após esta, seguiam-se algumas palavras de esperança.

E d'alli por diante a pedra estava em branco; porque a oitava era da republica ainda não tinha adormecido juncto do umbral do passado.

XVI

E eu meditava em silencio, e o meditar era amargo para o meu coração.

Subito senti um ruido remoto, semelhante ao ruido de bosque sacudido pelo vento e granizo.

E divisei por entre os cyprestes um vulto, que se approximava da clareira onde estava a sepultura, e as suas passadas, posto que apressadas, soavam como se fossem de pés de bronze.

E chegou. Fitando os olhos no vulto, descortinei uma figura humana de desmesurada altura.

A sua cabeça tinha muitas faces e muitos olhos: do tronco saía-lhe uma grande multidão de braços.

E com todas as suas linguas proferia palavras immundas e blasphemas, e maldizia a religião e a justiça.

E vinha salpicado de sangue.

E parou diante do monumento.

Ficou immovel por algum tempo; depois, como excitado por um accesso de raiva infernal, procurava aluir o sepulchro.

Mas a immutabilidade do passado era a immutabilidade delle. Tinha-o posto alli a mão de Deus.

Então o vulto começou a raspar a inscripção, mas as letras cada vez mais se avivavam. Lá do intimo soou um longo gemido.

E o vulto soltou uma praga tremenda, e transpoz a borda do sepulchro; e estava em pé dentro delle.

E começou a afundar-se nas trevas; e estendendo os braços, os braços lhe ficavam hirtos.

E nos olhos, que até alli chammejavam furor, já fluctuavam lagrymas de homem que morre.

E descia, e descia!

E quando a fronte lhe topetava com a borda, a campa escapou das mãos do anjo, que trabalhava por sustê-la, e cahiu dando um som profundo.

E a face do sepulchro, abaixo da inscripção, tingiu-se de negro até o rez da terra.

E as ultimas palavras, palavras de esperança, converteram-se em outras tão horríveis, que a minha lingua não ousa proferi-las.

E a visão desappareceu.

XVII

Reprobo sería aquelle que, vendendo seu pae por preço de opprobrio, o entregasse á servidão de extranhos.

Reprobo, mil vezes réprobo, sería tal homem; porque este crime fôra mil vezes mais negro do que o parricidio.

Quem, por noite tempestuosa, o acolheria debaixo de tecto hospitaleiro?
Quem, vendo-o mirrado de sêde, lhe offereceria um pucaro de agua?

Ninguem: porque o seu hálito inficionaria o ar que respirasse: os seus labios empestariam o vaso por onde bebesse.

No seu leito de morte, que sacerdote ousaria dizer-lhe:—Eu te absolvo em nome do Deus que perdoa? Nenhum: e o que o dissesse mentir-lhe-hia; porque nos thesouros da piedade divina não ha resgate para semelhante divida.

Mas que é este crime, comparado ao daquelle que vende a patria? Esse, não vende o progenitor sómente: vende a familia, os ossos de avós, a fonte do baptismo, a cruz do cemiterio; vende as saudades, os affectos e as esperanças de todos os seus irmãos.

E todavia, nos conciliabulos dos tribunos proclama-se que no anniquilamento está o segredo da nossa futura grandeza. Rebeldes de sete seculos, seremos applaudidos e respeitados no mundo, quando, de joelhos perante os nossos orgulhosos senhores, fizermos penitencia do glorioso delicto de mais de vinte gerações de antepassados!

São homens destes que as turbas insensatas victoreiam!

Cegou Deus a intelligencia do povo, porque o quer perder; porque o afastou de sob as azas da sua Providencia amorosa.

E por isso a visão do sepulchro me foi mandada, e vi cerrar-se a campa da eternidade em cima da derradeira epocha da monarchia de Valdevez, de Aljubarrota, e de Montes-Claros.

XVIII

Povo desvairado, doe-te de ti proprio. Sabes, acaso, a quem os homens das trevas pretendem submetter-te e a teus filhos e netos?