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Orpheu Nº2 / Revista Trimestral de Literatura

Chapter 58: LISBOA
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About This Book

This issue assembles experimental poetry, short prose, critical notes, and visual art from Portuguese modernists, with contributions by Fernando Pessoa, Mário de Sá‑Carneiro, Álvaro de Campos, Santa Rita Pintor and others. It juxtaposes bold futurist aesthetics and programmatic declarations with lyrical and interseccionist verse, including a long maritime ode and a vertiginous prose fragment, while editorial pages explain the review's aims and forthcoming events. Four reproduced hors‑texte plates underscore the avant‑garde program, and publication details, subscription terms, and advertisements frame the number as both an artistic manifesto and a practical vehicle for a new literary movement.

LUÍS DE MONTALVÔR

*NARCISO*

POEMA

a Fernando Pessôa.

*NARCISO*

Erram no oiro da tarde as sombras de estas ninfas!

E até onde irá o aroma dos seus gestos que sei tentam prender meus olhos que, funestos, sonham um esplendor fatal de pedrarias?

Tarde de tentação! Que estranhas melodias inquietam o ceo de um rumor ignorado? Seringe! Tua flauta arrosa de encantado e sangue de Ilusão esta tarde em demencia que a legenda recorda; e da immortal essencia do sonho esta hora antiga exhuma o velho idilio.

Ha mãos de festa e sonho em meu deserto exilio!

A Beleza é pra mim, ó ninfas! o segredo com que Deus me vestiu de Lindo!… Ai, tenho medo de morrer o que sou ás mãos desse desejo das ninfas; mas está a sombra que não vejo depois e antes de mim e, se afundo o olhar na ancia de me ver, só me vejo ao collo da Distancia! Deixai dormir um pouco o ceo nos olhos meus, eu não os quero abrir antes que os feche,—Deus!—

Ninfas! vós penteais o pavor á janella da minha alma atravez a hora sombria e bella. Corôas não serão sobre mim as de flôres que desfolhais, mas brancos braços de amôres que abrem nocturnamente e num paiz sem dia…

Sois o sonho de mim ao collo da Alegria!
Vossa presença põe o medo em meu destino.

As taças que entornais do aroma sibillino da seducção, de tédio enchem o que me déste, ó Deus! Gela meu ser ao sorriso terrest'e das virgens, que reflecte a tarde a rescender do olor de Pan! … E o olhar dóe por no o esconder do ceo; pois para toda a alma dormir, do bello, o serafico azul é como um pezadêlo!

Porêm como fugir ao sonho que me faz como estrangeiro em mim; do bello azul, voraz a bôca triste, sem côr e de humanas dôres— como se triunfal e de palidas flôres da noite, fôssem de um sonho, na hora escultado?

Captivo em mim sou como o dragão que, inviolado, bebe a scintillação da s'nora claridade do cabello sinistro, onde a luz arde e invade de metalico hallor o nixo onde se acoite…

Vossos cabellos ai! chovem como oiro, á noite! como fios de horror da teia do mistério…

Do cabello, o esplendor do oiro esteril, é aério c'mo de arachnideo sonho ou de siderio tecto cinzelado no olhar—um reflexo de insecto— no frio vôo num ar de somno e oiro e luto…

Avalanches de tédio em seu cabello escuto!…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Fixo a carne, spectral, como ante inerte frizo de sombras, a nudez, linha esquecida em riso sobre chammas, cruel,—Joia dos calafrios!— Um horror de ónix néva entre os meus dedos frios!

Contemplo o meu destino em mim.
                                Ninfas, adeus!
Meus gestos irreaes tem seculos de Deus!
Na paisagem do ser corre um rio sem fim:
Os meus gestos são como a outra margem de mim…
Cai alma no jardim dos meus sonhos funestos.
É sempre noite lá no fundo dos meus gestos
onde espreita Deus: ha luar nas minhas mãos…
As mãos abanam no ar os nossos gestos vãos,
—mundos de sonolencia ardendo em reliquarios:
Joias celestes, vós, meus gestos solitarios!

Por mim divaga o ceo. E morre um diadêma á minha fronte triste e pensativa, emblêma da alma palida como um velho pálio ou ouro… Comtudo que torpor me encosta ao sorvedouro c'mo esfinge que se inclina ao abysmo e debruça, a mirar a alma, irmã de um sonho que soluça? É que um gesto sem nome em minha alma se aclara, e no Jardim de Deus sou a ideia mais rara!

Meus gestos vão como esta agua sempre correndo pra a foz do nada; encosto a minha alma, tremendo, á voz da agua—cristal sonoro do alhear-me!—

No novelo de mim a minha ancia a enredar-me.

Ó agua sempre triste em seu ir pela parte da terra que é livida e c'mo alma que se farte de sonhos! Não será a minha sombra ausente um ar vosso—ou serei a imagem da corrente?

Quem descesse o mistério e visse a semelhança nesse intimo torpor das cousas, onde cansa essa fuga do tempo em sombra reflectida… Eu nunca terei dois gestos irmãos na vida, e se olhasse pra traz t'ria medo de mim… (Inter-lunio de nós no sonho d'alêm-fim…)

O que me reflectir roubará meu segredo.
O tempo escorre por nós como alguem com medo
por sobre um muro… Crio olhos de ser distante…
Na alma porei as mãos como por um quadrante…
As mãos são tempo… e tudo é um somno de si…

Miro-me, e não serei a sombra onde me ví?…

Ó espelho sem hora! Ó agua em somno, lustral, —espelho horizontal de tédio c'mo um canal sem ter fundo nem fim. Meu perfil sua dôr! Só me reflicto e não me vejo no torpor da agua que abana o tempo… ai, o tempo é a voz com que se acorda o medo—escultura de nós na distancia… Em rumor, na agua, vago demencia e durmo de Beleza ao collo da Aparencia, que foge como esta agua e este tempo a correr… Marulhar de mim no fundo do meu ser… Só as mãos sabem ter o ar de sonhos contin'os…

Ai! Se o olhar cai nas mãos, desenham-se destinos
como arabescos…
                Abro os braços, mas em vão,
e ergo-me de mim com vestes de comoção!

Resta-me contemplar pela noite que inundo de mim, pendido sobre a aparencia do mundo. Minha sombra exilada esculto-a na doçura!

Perturbo-me de Deus nos braços da Ternura!

Sinto que a minha voz já atravessou Deus!…
Cresço sobre mim, ó noite em delirio!
                                        Adeus!
Imagem de ser bello ás mãos da minha infancia.

Sou echo de rumor quebrado na distancia.

Alma da noite antiga incendiada a lavores!

LUÍS DE MONTALVÔR.

[Nota do Transcritor: Aqui surge a fotogravação de Hors Texte de Santa Rita Pintor.]

*SANTA RITA PINTOR.* PARIS ANNO 1912.

Decomposição dynamica de uma mesa—estylo do movimento.

(INTERSECCIONISMO PLASTICO.)

*CHUVA OBLÍQUA*

POEMAS INTERSECCIONISTAS

DE
FERNANDO PESSOA

*Chuva obliqua*

*I*

Atravessa esta paysagem o meu sonho d'um porto infinito
E a côr das flôres é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do caes arrastando nas aguas por sombra
Os vultos ao sol d'aquellas arvores antigas…

O porto que sonho é sombrio e pallido
E esta paysagem é cheia de sol d'este lado…
Mas no meu espirito o sol d'este dia é porto sombrio
E os navios que sahem do porto são estas arvores ao sol…

Liberto em duplo, abandonei-me da paysagem abaixo…
O vulto do caes é a estrada nitida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das arvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cahir amarras na agua pelas folhas uma a uma dentro…

Não sei quem me sonho…
Súbito toda a agua do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paysagem toda, renque de arvores, estrada a arder em aquelle porto,
E a sombra d'uma náu mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu vêr esta paysagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma…

*II*

Illumina-se a egreja por dentro da chuva d'este dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…

Alegra-me ouvir a chuva porque ella é o templo estar acceso,
E as vidraças da egreja vistas de fóra são o som da chuva ouvido por dentro…

O esplendôr do altar-mór é o eu não poder quasi vêr os montes
Atravez da chuva que é ouro tão solemne na toalha do altar…
Sôa o canto do côro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a agua no facto de haver côro…

A missa é um automovel que passa
Atravez dos fieis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
Subito vento sacode em esplendôr maior
A festa da cathedral e o ruido da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre agua perder-se ao longe
Com o som de rodas de automovel…

E apagam-se as luzes da egreja
Na chuva que cessa…

*III*

A Grande Esphynge do Egypto sonha por este papel dentro…
Escrevo—e ella apparece-me atravez da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pyramides…

Escrevo—perturbo-me de vêr o bico da minha penna
Ser o perfil do rei Cheops…
De repente paro…
Escureceu tudo… Caio por um abysmo feito de tempo…
Estou soterrado sob as pyramides a escrever versos á luz clara d'este candieiro
E todo o Egypto me esmaga de alto atravez dos traços que faço com a penna…
Ouço a Esphynge rir por dentro
O som da minha penna a correr no papel…
Atravessa o eu não poder vel-a uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do tecto que fica por detraz de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre elle e a penna que escreve
Jaz o cadaver do rei Cheops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal diffusa
Entre mim e o que eu penso…

Funeraes do rei Cheops em ouro velho e Mim!…

*IV*

Que pandeiretas o silencio d'este quarto!…
As paredes estão na Andaluzia…
Ha danças sensuaes no brilho fixo da luz…

De repente todo o espaço pára…,
Pára, escorrega, desembrulha-se…,
E num canto do tecto, muito mais longe do que elle está,
Abrem mãos brancas janellas secretas
E ha ramos de violetas cahindo
De haver uma noite de primavera lá fóra
Sobre o eu estar de olhos fechados…

*V*

Lá fora vae um redemoinho de sol os cavallos do carroussel…
Arvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim…
Noite absoluta na feira illuminada, luar no dia de sol lá fóra,
E as luzes todas da feira fazem ruido dos muros do quintal…
Ranchos de raparigas de bilha á cabeça
Que passam lá fóra, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois…
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das arvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Apparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam á cabeça,
E toda esta paysagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruidos e luzes é o chão d'este dia de sol…

De repente alguem sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cahe
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar…
Pó de ouro branco e negro sobre os meus dedos…
As minhas mãos são os passos d'aquella rapariga que abandona a feira,
Sósinha e contente como o dia de hoje…

*VI*

O maestro sacode a batuta,
E languida e triste a musica rompe…

Lembra-me a minha infancia, aquelle dia
Em que eu brincava ao pé d'um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha d'um lado
O deslisar d'um cão verde, e do outro lado
Um cavallo azul a correr com um jockey amarello…

Prosegue a musica, e eis na minha infancia
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vae e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavallo azul com um jockey amarello…

Todo o theatro é o meu quintal, a minha infancia
Está em todos os logares, e a bola vem a tocar musica
Uma musica triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarello.
(Tão rapida gira a bola entre mim e os musicos…)

Atiro-a de encontro á minha infancia e ella
Atravessa o theatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarello e um cão verde
E um cavallo azul que apparece por cima do muro
Do meu quintal… E a musica atira com bolas
Á minha infancia… E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavallos azues e jockeys amarellos…

Todo o theatro é um muro branco de musica
Por onde um cão verde corre atraz da minha saudade
Da minha infancia, cavallo azul com um jockey amarello…

E d'um lado para o outro, da direita para a esquerda,
D'onde ha arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orchestras a tocar musica,
Para onde ha filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memorias da minha infancia…

E a musica cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavallo azul, o maestro, jockey amarello tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga d'um muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desapparece pelas costas abaixo…

8 de Março de 1914.

FERNANDO PESSÔA.

Preço 30 centavos

LISBOA

TIPOGRAPHIA DO COMERCIO
Rua da Oliveira, ao Carmo, 10

TELEFONE 2724