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Os Bravos do Mindello / Romance Historico cover

Os Bravos do Mindello / Romance Historico

Chapter 14: XII
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About This Book

A narrativa mistura cenas domésticas e episódios militares numa comunidade insular, alternando a intimidade de manhãs com familiares e amantes — João, a tia Pulcheria e outras — com o rumor da guerra e a chegada de navios. Descrição vívida de rotinas rurais, da pesca e do porto convive com preocupações políticas e relatos de batalhas e retiradas ligados à luta entre facções. Estruturalmente combina episódios corriqueiros, discursos sobre o destino coletivo e sequências históricas que situam conflitos, viagens e lealdades em fluxo.

Da rainha e da carta o pendão
Já nos mares se vê tremular,
Nobre esforço que a honra dirige,
Vae de Lysia a desgraça acabar.

D'entre a noite no carcere horrendo,
Resurgidos ao dia fatal,
Inda vertem heroes portuguêses
No patibulo o sangue leal.

Nas entranhas da escura masmorra
Onde reina da morte o terror,
Outros mil inda esperam constantes
Igual sorte c'o mesmo valor.

Mesta Lysia em gemidos implora
Que as algemas lhes vamos quebrar;
Já nas praias as mães lagrimosas
Pelos filhos se escutam bradar.

A cada quadra repetia-se o estribilho:

Foge, foge, ó tyranno e não tentes
Ferreo sceptro mais tempo suster;
Que nas aras da patria juramos
Viver livres, ou livres morrer.

Como um signal de que o ceu respondia ao appello do hymno

Nossos votos são carta e rainha;
Nosso guia quem ambas nos deu;
Defendemos a causa do mundo;
É por nós a justiça do ceu.

appareceu azul o sol, velado por tons de anil, pondo em tudo reflexos ceruleos, casando se ás côres da nova bandeira azul e branca, as côres do laço liberal de Vinte, o branco da espuma da onda, o puro azul do ceu de Portugal.

Fez-se ao largo temerariamente, em velhos transportes comboiados por uma esquadrilha, esse punhado de homens, cerca de sete mil e quinhentos, o numero que a tradicção para sempre fixou, n'uma commovida gratidão.

Realisava-se emfim o longo sonho do exilio, e, ao saltarem no Mindello, prostravam-se os expatriados, beijando o querido solo, cujas poças de sangue reflectiam as rubras tintas d'uma nova aurora.

Apertando convulsos as armas fraticidas, com que eram forçados a apoiar os gritos de liberdade, os votos de egualdade e fraternisação, pediam novas forças a essa terra que ainda defenderiam cobrindo-a com o retalho do seu corpo, osculando a na crispação da ultima agonia; sentiam-se felizes ao tocarem-a, embora para morrerem n'ella, ameaçados por oitenta mil soldados, e pelo fanatismo catholico mantido por frades e jesuitas entre as populações a libertar.

Na patria ensanguentada, apunhalada pelos pés das forcas, oscilavam garrotados, como pendulos sinistros, marcando á tyrannia a hora fatal.

XII

Observava Maria através das grades.

Iam as ruas d'Evora coalhadas de soldados miguelistas, e ao convento chegavam novas da retirada de Santarem.

—É o fim da guerra, descança—dizia-lhe uma freira de meia edade, amarela de cera, vislumbres de juventude no olhar vivo, que tambem observava para fóra.

—De quantas batalhas o tem dito—respondeu Maria com desanimo.

E lançou um olhar de desesperança á fria cella, nua, sem conforto, á cama, á arca, a essa cruz negra que era o sêllo do captiveiro.

—A guerra prolongar-se-ha como os pesadêlos que me endoidecem n'este carcere.

—Para que has de descoroçoar?

Ouvia-a, muito abatida, sem desfitar os bandos.

—O peior está passado—continuou a freira.

E n'um suspiro:

—És nova, tens vida para tudo.

—Ha quanto tempo que m'o diz!

—Desde que viestes.

—Não podia ser mais feliz, encontrando tão bom coração.

—Podias, se me tivesses conhecido mais cedo. Aconselhar-te-ia de outra forma, e decerto não estarias aqui.

—Agora não tem remedio!

Continuavam a olhar para fóra.

—Admira-me não avistar o pae.

—Não deve ter muita vontade de ver-te, nem suppõe que terás grande gosto em o encontrar—disse a freira com amargura.

—O mal que elle me tem feito!—murmurou Maria.

—Conheço muito bem o senhor meu primo! Era outro que tal o senhor meu pae, Deus lhe perdôe. Tinham mulheres e filhas por escravas, e serviam-se d'estas prisões para se desfazerem das filhas segundas, para imporem casamentos ás morgadas como nós. Infelizes tempos! Desgraçadas que somos!

Fixou Maria novos grupos, e perguntou:

—Se o pae continua a acompanhar D. Miguel, como desde que saiu desesperado d'aqui, deve ter vindo com elle.

—Sim. Ha de estar na cidade.

—Só se lhe succedeu alguma coisa...

—Quanto a isso está descançada. O infante viu a guerra de longe, não é como o senhor D. Pedro, que acode ás baterias debaixo de fogo, aponta as peças como um artilheiro, e apparece no ardôr da peleja a animar os seus.

—A não ser da vez que foi ao Porto para incitar o cerco...

—Que por signal andou abandalhando-se em Braga, com mulheres de má nota, fazendo flostrias a cavallo para lhes agradar, emquanto que outros morriam pela sua teimosia de ter cadeias atulhadas de innocentes, e conventos cheios de desgraçadas como nós.

Na preocupação da rua, Maria respondeu:

—Então é porque não quer ser visto.

—Sabe os sentimentos que inspira.

E encarando com ella.

—Não é por lhe querer bem que pensas n'elle, não é verdade?

Maria titubeou:

—Apesar de me pretender enterrar em vida, apesar do que fez á mãe...

—Se elle tivesse vergonha nem voltava a esta terra, onde veiu deixar os ossos da desgraçada. Soube-se dos seus maus tratos, e todos lh'o levaram a mal, acredita. Olha que muitos que se dizem realistas, e o applaudem e a outros que taes, é só por medo d'essas viboras, que se vingam nos inermes, e fogem a sete pés dos que estão armados.

Maria abraçou-se a ella, chorando:

—Perdôe-me, D. Anna, mas como lhe hei de querer, se me tem tratado cruelmente, se torturou a desgraçadinha, se lançou João no horrôr da guerra...

—Deixa-o, filha, não penses mais n'elle. É como se tivesse morrido. E pede a Deus que ainda lhe possas pagar em caridade, nos seus ultimos dias, que os ha de ter bem negros!

—O mal que lhe desejo me venha a mim.

—Elle não pensa mais em ti, descança. Ha que tempos não me escreve, não me força a responder-lhe n'essas cartas em que te dou a caminho da profissão, n'uma vida de penitencia.

—Tem sido tão bôa para mim.

—O que mais me custa, Maria, é conter-me, lançar ao papel essas mentiras, em vez de lhe dizer as duras verdades que merece!

—Ninguem o convence.

—E elle tirava-te logo d'aqui.

—Se suspeitasse o que a tia tem sido para mim!

—Não ha remedio senão dissimular, que felizmente ha de ser por pouco tempo.

—Agradeço lhe a bôa intenção, D. Anna, mas já não espero ver fim a isto.

—Pois não vês que a falta das cartas em que elle teimava para que professasses, não querendo que um dia viesses a casar, mostra que já não tem cabeça para nada? Sempre que os liberaes ganhavam um palmo de terreno, apertava-me elle para que te lançassem o habito. Agora não tuge nem muge. Que mais queres?

—Talvez desconfie da sua amizade por mim.

—Como? se só tu a conheces, e não ha muito tempo, porque ao principio fui para ti o que tinha sido para todas, retrahida, reservada! Quando me encerraram aqui, os escandalos com que enxovalham a casa de Deus, que, como tens visto, serve para as mais torpes devassidões, não me desmoralisaram como ao geral das que cá veem parar. Fizeram-me conservar á parte, sem me prestar a ditos e mexericos, sem beberetes na cella ou na grade, sem dar confiança a nenhuma. Segui sempre com sympathia os liberaes, porque bem sabia que elles libertariam as pobres enclausuradas. Mas não me manifestei aqui dentro, porque de nada servia, como as freiras constitucionaes postas a pão e agua no carcere, forçadas a penitencias vergonhosas diante d'essa communidade de descaradas, transferidas para longe dos seus. Calei-me sempre, mas trago no exercito libertador soldados armados e pagos por mim, por via de encubertos liberaes d'esta terra que fazem o mesmo, a occultas, para que não os roubem e assassinem.

—Pois tem feito isso?

—Tenho. Mas ai de mim se o suspeitassem!

—Ah! D. Anna, que tem sido a minha verdadeira mãe!

—Não quiz que soffresses o que eu soffri. E tenho o gosto de te haver salvo de vez. Sem mim, ao teu genio assomado, caías nos enganos que te armaram, professavas, e adeus para sempre.

—E se elle morrer, faço-o, tia!

—Está a acabar a guerra, foste feliz!

—Quantas vezes o tenho acreditado, e quantas a realidade me entristeceu!

Recordou a sua longa espectativa, passando por alternativas dolorosas, ora esperando João no dia seguinte, ora julgando nunca mais o vêr.

Acompanhara-o em espirito, no desembarque no Mindello, e tivera a mesma desillusão que elles, ao appellarem para os manifestos, na repugnancia de derramar sangue, contando mais com a adhesão em massa do que com a dolorosa guerra civil.

Exultára na recepção do Porto, a cidade em delirio, damas de azul e branco, lançando mais flores a esses queridos soldados, por entre a tempestade dos vivas aos libertadores.

Mas em breve tornaram-se em lagrimas os risos, em crepes os laços bicolores, em chuva de granadas as de rosas, e em bravas vivandeiras as donzellas, que os realistas offereciam em pasto á soldadesca, como premio do assalto.

Como desejaria estar entre ellas, correr animosa ás trincheiras, servir polvora e bala aos luctadores, accudir aos feridos, estar ao lado de João quando o trouxeram n'uma maca, exangue!

Logo sobre as noticias da entrada triumphal viera a sangueira, a chacina dos combates, investidas ferozes contra o Porto, e a cidade em risco de invasão, laços constitucionaes deitados fóra, gente prestes a fugir pela barra, militares rapando os guerreiros bigodes.

Tão pouco estavel era ainda a causa, que d'um momento para o outro se receiava a prisão, o supplicio; e os que, como João, luctavam, tinham agora a dupla certeza da morte, ou no campo, ou na forca.

Que desditosa influencia a sua n'esse rapaz, arrancado ao socego da terra, ao conforto da casa, para dormir ao relento, passar a fome do cerco, tremer inquieto sob esse maldito bombardeamento, usado pelos miguelistas em requintes de tortura, em tiros descompassados, para maior sobresalto, á hora do jantar para tirar o socego da meza, em pontaria aos hospitaes para augmentar o horror.

Tremia aos symptomas do cannibalismo da lucta, o prazer do pormenor em que um general communicava terem ficado os bravos officiaes do Batalhão Sagrado com as cabeças abertas de meio a meio, pelos celebres dragões de Chaves que depois se passaram para os liberaes; o auto de fé planeado pelos frades de S. Francisco, deitando fogo ao convento para queimarem o batalhão de caçadores 5, quando os soldados dormiam fatigados da batalha de Ponte Ferreira!

Para a fazerem professar, no interesse do dote, na avidez de dadivas do morgado, no odio ao noivo liberal, aggravavam-lhe as freiras as más novas, dando os constitucionaes como perdidos, e mostrando o evidente castigo do ceu na morte de certos voluntarios academicos, a quem attribuiam profanações no convento de Santo Antonio do Livramento, de Angra, accusando-os, como outr'ora aos Templarios e aos Judeus, de fazerem alvo da imagem do santo no nicho da frontaria.

A todos os momentos receiava a noticia de que João morrera, e um dia as freiras, qual mais havia de arreliar «a do malhado», foram dar-lhe hypocritas condolencias porque elle recolhera ao hospital, gravemente ferido n'uma d'essas teimosas sortidas que dizimavam a guarnição.

Tivera-o por morto, como lhe insinuavam, negando frouxamente, mas falando-lhe das consolações que a egreja reservava a todas as dôres, insistindo em que se votasse ao divino esposo, já que tão misericordiosamente a libertára dos laços do mundo.

Tomára então a tia, para com a abbadessa e as mais ferozes madres, o compromisso de a decidir, e, recolhendo se a catechisal-a, abrira-se com ella.

Começára por uma reprehensão, em que o olhar brilhára apaixonado, e o rosto pallido, enrugado, se fôra animando gradualmente, até dar longes de outros tempos, da juventude impetuosa e ardente, do momento em que amára e fôra amada, em que se tornára mulher e devia ser mãe.

—Que mal que fizeste em resistir! Como desperdiçaste a mocidade. Em nome d'umas formulas vasias sacrificou-te, e a elle, o teu orgulho! E se te morrer? Que recordação te fica para evocares o breve tempo que não volta mais?

Insistira, ao vêl-a debulhar-se em lagrimas:

—Chora, desabafa, que deves sentir um mortal remorso; chora as duas vidas que despedaçaste, e convence-te de que nunca o amaste, porque o verdadeiro amor não raciocina, porque é a suprema lei da vida, tudo se lhe amolda, e elle não!

—Que hei-de fazer agora, senão professar—bradava ella, arrepelando-se.

—O teu orgulho ainda! Cala-te, vaidosa, que darias mais uma pessima freira. Vive para elle, é o teu dever.

—Para elle? E se morreu?

—Vive para a memoria d'elle, mas nunca a dentro d'um mosteiro, porque deves lembrar o mal que d'estas casas te adveiu.

—Então que hei-de fazer?

—Porque não pensaste em fugir d'aqui, em ires acudir-lhe, pôr-te á sua cabeceira, tratal-o, acarinhal-o, cerrar-lhe os olhos se Deus o levar, como fazem as fortes mulheres que estão velando o leito d'outros feridos, as que não desampararam os maridos na retirada e na emigração?

E como ella a olhasse como pasmada:

—É que ha mulheres, e mulheres; e as mais felizes, como tu, pelo amor que lhes dedicam, são afinal as que menos o merecem!

—Tenha dó de mim, não me trate d'essa fórma!—supplicava ella.

Então compadecera-se D. Anna, e pedira-lhe, mudando de tom:

—Não tornas mais a falar em profissão, haja o que houver?

—Não, não torno.

—Pois bem. Ouve-me agora serenamente. Que te disseram d'elle? Que estava ferido? Pois bem, ha-de curar-se, e eu tenho maneira de saber exactamente o seu estado, mas não dês credito senão ao que eu te disser, e cala-te com isto.

Depois, n'um enthusiasmo que contrastava com a estudada placidez usual:

—Que elle viva ou morra, os liberaes hão de triumphar, pois ao que se tem soffrido não é possivel vencel-os, pelo desespero com que se batem. Os conventos acabaram, e temos de saír todas d'estes logares de maldição. Mas os votos ninguem os tira, os padres não casarão as que os tiverem. E aquellas que perderem a mocidade, já nada do mundo lh'a póde restituir!

Então afogaram-a as lagrimas, e revelou-se tal qual era:

—Tambem me contrariaram um amor. Fugi com o meu noivo, mataram-m'o, mas tenho vivido desde então evocando as horas em que me pertenceu. E esse amor foi o meu culto aqui dentro, a minha religião, porque a outra perdi-a pouco a pouco, ao vêr da parte de dentro os ministros do Senhor e as suas esposas, os que communicam com Deus, os intermediarios da sua graça, do seu perdão!

Conseguiu D. Anna saber d'elle, e pôl-os em relações. Melhorára depressa, era já alferes, e a Torre e Espada assignalara-lhe a ferida.

Depois tivera-o a dois passos, na divisão do duque da Terceira que atravessou n'um relampago do Algarve a Lisboa, levando adiante de si os miguelistas, que fugiram espavoridos d'esses dois mil homens, incitando em desforra as populações a tratarem-os como lobos.

E o fanatismo catholico dos soldados e das tropas apunhalou no Algarve, queimou vivos e arrastou á cauda dos cavallos os prisioneiros liberaes; martyrisou em Beja portadores de ordens; queimou dois constitucionaes forçando as irmãs a assistirem á execução; despedaçou á machadada trinta e cinco presos politicos no castello de Extremôz, incluindo uma creança de seis annos!

Atravessára Telles Jordão o Tejo para fulminar os liberaes, como esmagava os presos de S. Julião da Barra, mas ao vêl-os armados, decididos, o valentão que esbofeteava os miseros encarcerados, lhes sujava a comida e os obrigava a rezar o Terço, fugiu covardemente, até que o alcançaram em Cacilhas, vingando os camaradas torturados.

E fugiram de Lisboa os miguelistas que ainda na vespera, em requintes de barbaridade, tinham enforcado um liberal, para o impedirem de gosar o triumpho dos seus, já na Outra Banda; que haviam ensanguentado a cidade em barbaras repressões.

Mas nem d'essa vez findára a guerra!

Os miguelistas, que haviam recusado salvar a esquadra, aprisionada no Tejo pelos franceses, dando em troca a liberdade aos afflictos prisioneiros voltaram á carga e encheram de cadaveres, de ruinas, os arredores da capital.

Saldanha descercára Lisboa, e D. Pedro, em homenagem, mandou collocar no pedestal da estatua de D. José o medalhão do avô, o marquez de Pombal, que os jesuitas haviam arrancado. E assim a epopeia liberal, ligada á obra de Vinte, á tentativa patriotica de 1817, mostrou se o logico desenvolvimento da obra de Pombal, que se desenvolvia, alargando a todas as ordens religiosas, fautôras do retrocesso, incitadoras dos morticinios, a extincção dos jesuitas.

Arrastara-se a lucta sanguinaria, e de retirada em retirada tinham vindo parar ali as forças, ainda importantes, que os mais teimosos pretendiam levar ao campo, a uma derradeira tentativa.

Olhavam Maria e D. Anna os grupos de soldados, querendo lêr-lhes no rosto as decisões d'essa hora suprema, em que as divisões de Saldanha e Terceira avançavam contra Evora para os esmagar, ou reduzir á rendição.

De dentro chegavam-lhes successivas noticias, andavam já em negociações, decidira capitular o conselho de guerra, e estava assignada a paz.

Ouviram ao longe o hymno constitucional, confirmando a noticia, e ao som da musica, ao ruido atroador dos vivas que se approximavam, desappareceram, cabisbaixos, os soldados de D. Miguel, e a rua ficou deserta, emquanto ao longe avançava a onda libertadora.

—E João viria com esses?—exclamava Maria, em lagrimas de jubilo, abraçada á freira.

Ganhára o enthusiasmo a cidade opprimida, dos carceres do convento irrompiam freiras desgrenhadas a saudarem das grades a victoria.

Chamaram Maria ao parlatorio, e as duas mulheres desceram logo.

Em vez de João, esperava-as o morgado.

Por excepção não se embriágara, na dôr do derruir das ultimas esperanças, e parecia ebrio, cambaleando, pallido, coberto de suor frio, o olhar pasmado, as palpebres cerrando-se a meudo.

Custava-lhe a encarar a luz, como se o deslumbrasse a evidencia do triumpho.

Depois de saudar ligeiramente a prima, dirigiu-se á filha:

—Menina, prepare-se para me acompanhar.

Maria recuou attónita. Dava-se o que receiára. Tentava o pae reapossar-se d'ella.

—Aonde, senhor?—perguntou afflicta.

Fazendo-se forte no ultimo poder que lhe restava, retorquiu o morgado:

—Não aprendeu a ser obediente? Pois ainda está em edade de se tornar bem ensinada. Obedeça-me!

D. Anna falou n'uma voz grave:

—Senhor, não lhe basta o mal que tem causado? Não se dá por satisfeito?

Descarregou Martinho Vasques a colera que para ellas reservara, reduzido á impotencia pela convenção de Evora Monte:

—Que significam essas palavras, prima?

—Que felizmente já posso desabafar e dizer-lhe tudo o que sinto, sem receio de que Maria soffra por minha causa.

—A prima sempre foi uma doida!—explodiu elle—Vejo que fiz mal em confiar-lhe minha filha. Mas estou a tempo de emendar o erro.

E voltando-se para Maria:

—Porque espera? Não ouviu o que lhe mandei?

—Escusa exaltar-se, senhor—respondeu a freira—Esta menina está sob a guarda do mosteiro, e só póde saír por ordem superior.

—Reclamo-a eu, seu pae, com o mesmo direito com que a entreguei.

—Mas felizmente os seus já não governam, e agora já não se entregam victimas aos algozes.

—Tia!—interveiu Maria—pelo amor de Deus não o offenda. Bem lhe basta o seu desgosto.

—Ainda não estás pervertida, filha. Pois bem, vamos, que a dignidade do teu nome impõe-te o dever de seguires teu pae, embora vencido.

—É tarde, pae!

—Que significa isso!

—Já me sacrifiquei bastante. Não posso mais.

—Então recusas te a acompanhar-me?

—O senhor já nada representa para ella. Não quiz sepultal-a viva n'uma tumba? Faça de contas que a matou, como á mãe, e retire-se. Quem procede como o senhor, perde o direito a ser tratado como pae. E vá esconder-se, para não passar pela vergonha de ter a sorte que merece.

Tiniram esporas na portaria, arrastaram-se espadas, e passos d'homem subiram a escada do locutorio.

Era João.

Tendo ouvido as ultimas palavras, dirigiu-se respeitoso ao morgado:

—Senhor, tanto reconheço os seus sagrados direitos, que peço respeitosamente a v. ex.a a mão de sua filha.

Elle recuou um passo:

—Vem zombar dos meus cabellos brancos?

Levou a mão ao lado, para arrancar da espada, mas deixou pender os braços, desanimado.

—Quebrei-a na esquina da rua a minha velha companheira para não a entregar aos seus. Estou desarmado. Póde insultar-me!

Tinham as duas mulheres abandonado a grade e, correndo á sala das visitas, metiam-se de permeio.

João respondeu commovido:

—Senhor, acolhemos a todos com o perdão, abrimos os braços aos camaradas a quem a sorte das armas foi adversa, e n'esta hora solemne não ha logar para rancores. Fraternisam os filhos da mesma terra. Pois perdôe-nos tambem v. ex.a, e a nossa alegria lhe fará esquecer os seus desgostos.

Dava as mãos a Maria, devorando-lhe com os olhos o rosto muito branco, onde as olheiras pareciam mais fundas, e a dentro d'ellas maiores os bellos olhos claros, que a melancolia enriquecera de ternura.

Embevecia-se ella no tostado rosto de João, envolto na fina barba, bebendo a vida n'esse firme olhar que adquirira lampejos de energia varonil.

—O vosso perdão não passa de uma caridade de phariseus!—atirára-lhe o morgado em resposta.

Debalde procurava D. Anna convencel-o, emquanto João e Maria se contemplavam, anciosos por se abraçarem.

Ainda ella teve coração para sentir o desespero do pae:

—Fique comnosco, senhor! Na nossa ventura ha logar para si.

—Não! Não!—retorquiu teimoso o velho—Já não tenho filha, já não tenho familia! O meu logar é junto do principe proscripto.

Revia D. Miguel na commoção da retirada, abotoado na sobrecasaca azul, de chapéu á Napoleão; dando a mão a beijar ao povo fanatisado, com cuja ignorancia se identificava, merecendo o mesmo perdão pela inconsciencia em que viviam; alheio ás transformações do tempo, contando ainda com o milagre; victima tambem, elle o chefe dos algozes, victima da mãe quo o incitára, do anterior estado social que o educára, o tornára a sua bandeira, o seu symbolo, e agora o arrastava comsigo.

João tambem lhe pediu.

—Não! Não!—insistia o morgado—Somos o passado, que não transige! Tambem ha de chegar o nosso dia, e S. Miguel Archanjo ha de voltar! Adeus, filha desventurada. O meu logar é junto d'elle.

Ainda correram á janella.

Afastava-se aniquilado, braços pendentes, sem o bordão que lhe dava o ar magestoso, sem a espada a que se apoiava, desempenando-se; irreconciliavel como o passado que ia afogar na sombra do tumulo a sua amarga desesperança.


—Só tu me restas, João!—e Maria deitou-se-lhe ao pescoço.

—Ha quanto tempo que podia ser!—queixou-se elle, ainda cioso da felicidade esperdiçada.

—Não te amava tanto como agora! Sinto-o hoje, porque só sabe amar quem soffreu muito!

FIM

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