WeRead Powered by ReaderPub
Os contos do tio Joaquim cover

Os contos do tio Joaquim

Chapter 8: IV Os domingos de fóra da terra
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A suite of twelve short stories presents scenes from provincial Portuguese village life, told in an economical, conversational voice that captures local speech and customs. Episodes range from domestic sketches and humorous neighborly conflicts to reflections on faith, mortality, legal quarrels and small romantic tensions, sketching vivid characters — elders, farmers, priests and town eccentrics — whose gestures and habits reveal community values. The collection balances gentle satire with moral feeling, using clear, immediate description and anecdotal structure to render everyday moments with warmth and comic precision.

IV
Os domingos de fóra da terra

Era n’um domingo de novembro. A agua tinha caido a cantaros todo o santo dia, e a chuva fôra tanta, que diziam pelos sitios: já os cães a bebem em pé.

Grande parte dos trabalhadores da quinta, em que eu vivia, tinha saido depois do jantar, embrulhados uns em mantas, outros em gabões e gabinardos em direcção á quinta do tio Joaquim de Mattos, acreditado pelo bom vinho que vendia, e pelos bons piteos que lá, de quando em quando, arranjava a sr.ª Josepha, sua respeitavel sobrinha, desenxovalhada moça e uma das mulheres com menos papas na lingua d’aquelles arredores.

De tempos a tempos apparecia pela adega do sr. Mattos, Deus lhe falle n’alma, pois era um honrado homem, um ensebado baralho, que cortava a monotonia de um sempiterno jogo de bola, e entretinha quando o tempo estava de peior catadura, os afreguezados frequentadores. Outras vezes tambem um ou outro especulador lisboeta arribava áquellas paragens com esperanças de armar trapaças e jogatinas, e esse então premunia-se antecipadamente com uns dados, de lizura problematica, ou com algumas cartas de egualdade controversa, que manejadas habilmente lhe serviam de traiçoeira isca para os agourentados vintens dos pobres maltezes.

Mas, verdade verdade, era uma excepção da regra. O dono da casa obstava quanto podia a estes desvios: e já experimentado nas consequencias, tratava de pôr cobro a semelhantes armadilhas.

O domingo, porém, a que nos referimos era um dos taes dias aziagos. Os lisboetas, as cartas e os dados tinham trabalhado muito, acompanhados, já se vê, de um numero infinito de quartilhos de vinho, que n’uma roda viva passavam do balcão para a mesa do jogo, e d’esta para o poder da tia Josepha, que já não tinha mãos a medir.

Em medidas effectivamente passara ella o tempo todo; mas nem todas eguaes, porque, por amor do proximo já se entende, quando os via mais carregados alliviava-lhes a mão, e esvasiava-lhes os copos; até que por fim de contas, quasi que, em vista da exiguidade da dóse, mal se poderia reconhecer quanto tinham pedido.

Mas decretos da Providencia, que sempre são de immenso alcance, disfarçados mesmo nas tibornias da tia Josepha! Se não se compadecesse tanto dos miseros bebedores, em que estado não ficariam elles, que mesmo assim, quasi sempre, ao sair, não sabiam quem era o cura da sua freguezia!

Os nossos amigos trabalhadores, que não queriam passar por homens de ficar atraz em coisas d’aquellas, entraram na quinta, á volta da adega do tio Mattos, que era uma lastima vêl-os. Uns a cair, outros cheios de escalavradellas, e todos elles sem real da feria da semana.

Começaram beberricando para não fazer desfeita aos lá da cidade que os tinham convidado; pouco a pouco foram chegando-se para o jogo, ao principio sómente para vêr, depois para jogar. Emfim quando não cabiam em si de contentes, porque iam de cima e tinham alguns vintens diante de si, viram n’um relance de fortuna varrer-se-lhes tudo da frente, á maneira de comoro de vallado feito de terra solta, e que uma cheia leva no enxurro.

D’aqui os ralhos e as desordens; apoz as descomposturas, as vias de facto, e quem sabe, se não lhe acudissem, onde a coisa iria parar.

Fazer-lhes prégações n’aquellas alturas era o mesmo que chover no molhado. O tio Joaquim, que não era de hoje nem de hontem, conheceu logo que perdia o seu tempo; deu-lhes de mão n’aquella noite, e no dia seguinte ás horas do costume contou-lhes pouco mais ou menos o que se segue:

Poucas coisas ha que tanto custem, para nós, que toda a semana andâmos agarrados ao cabo da enxada ou rabiça do arado, como é entreter os domingos e dias santos, que o Senhor nos manda para descanço do corpo e recobro de forças.

Depois da missa fica um por ahi além de horas, que é preciso matar sem quebra do temor de Deus, nem offensa do proximo; mas como nem todos sabem o que hão de fazer, acontece quasi sempre, que as perdem, e as perdem muito para mal.

As velhas onzeneiras, que almejam pelos domingos para bisbilhotarem as vidas alheias e darem cresta ás colmêas dos outros, dizem que se deve descançar do trabalho, e passam-n’os na ociosidade, que de todos os vicios é o peior; os mal comportados destinam-n’os para as tabernas, do que conseguem, além de ficar moidos e ralados, sem poder fazer obra que se veja nos dias mais proximos, fazerem-se brutos de todo ao cabo de pouco tempo.

E dizem que descançam! Qual descanço nem meio descanço! Como se o homem não fosse como a terra, e como esta precisasse estar em pouzio para melhor produzir!

Muda-se a sementeira como se deve variar o trabalho, e o melhor descanço não é aquelle que consiste em não fazer nada; ou então, o que é peior ainda, em armar disturbios e levantar rixas.

Tres rapazes conheci eu, não ha muitos annos, cada um dos quaes tinha o seu modo particular de entreter os dias de festa, cada um dos quaes tambem escolheu fructos correspondentes ao grão que lançára á terra.

Variavam tanto nos costumes e systemas, como se apartavam nas feições, e como se vieram a differençar tambem no destino que levaram.

Tinham nascido na mesma terra, e, bem moços ainda, tinham vindo procurar trabalho á mesma fazenda; porque, acostumados a viverem juntos desde pequenos, não se podiam separar nem á mão de Deus Padre.

Roberto, o mais velho de todos, era feio de cara e de peior catadura. Zangava-se por dez réis de coisa nenhuma, e quando estava zangado dava por paus e por pedras. Tinha tanto de robusto, como de mau, e só respeitava, de toda a gente, os seus dois companheiros, Pedro e Anastacio. O primeiro d’estes fazia tanta differença de Roberto, como o dia da noite. Franzino e delgado, parecia que o menor sopro o deitava a terra, e lembrava mais um alfinete de toucar do que um trabalhador de enxada. Comedido e de bons termos para todos, em pouco tempo ficou sendo o ai Jesus da fazenda, onde morriam por elle.

Anastacio, o ultimo em que lhes fallei, era, por assim dizer, como uma ponte entre os dois. Fazia lembrar o outono entre o verão e o inverno. Se era desembaraçado e lesto como Roberto, era bom como Pedro, estimava um e outro devéras: mas se não podia levar a bem os arremessos e maus modos de Roberto, não gostava tambem muito de tanto de não presta, de que estava cheio o outro seu companheiro. Não lh’o deitava á cara para não o envergonhar; mas muitas vezes lh’o ouvi dizer:

—Não se ha de fazer nunca d’ali coisa que tenha geito, parece um Sant’Antoninho onde te porei; nasceu mais para fiar n’uma roca do que para puxar ao trabalho com substancia. Não é culpa sua, isso é verdade, mas por mais que me digam, aquillo foi erro da natureza.

Em pouco tempo teve cada um uma occupação adequada ás suas posses. Pedro, que mais não podia, foi encarregado de guardar um rebanho de ovelhas e cabras, que tinha mais de duzentas cabeças; Roberto tomou conta da abegoaria e das cocheiras; Anastacio ficou de rancho na malta, entre os trabalhadores de enxada.

Como é bem de vêr, o peior dos tres começou a fazer das suas: trabalhava de má vontade, embebedava-se, e tratava do gado á moda de mil demonios.

O mais fraquito, bem ao contrario, começou a fazer as vontades aos patrões e a cair lhes em graça.

Tanto fez, tanto fez, que o filho da casa pegou a ensinar-lhe a lêr, coisa porque elle morria havia muito tempo, e em que entretinha os domingos, passando os dias de semana, em quanto o gado pastava, a estudar as lições e a puxar por si; o Anastacio que não podia aturar a lettra de imprensa, nem, segundo dizia, tinha cabeça para aprender, começou a fazer economias para, logo que podesse, tratar de casar com uma rapariga da sua terra, com quem estava justo desde pequeno.

Emquanto uns iam para as tabernas e Pedro dava lição, elle, que não queria gastar o dinheiro em extravagancias, nem atormentar a cabeça com aquellas tontices dos livros, procurou vêr se aprendia algum officio ou arte, em que se entretivesse, e em que passasse o tempo com toda a economia.

—Porque não estudas tu aos domingos tambem? perguntava eu muitas vezes a Roberto.

—Ora, porque não nasci para sachristão, nem para besta de carga. Enfados bastam os da obrigação, que já não são poucos, quanto mais il-os eu buscar agora por minhas mãos. Sempre ouvi dizer que era preceito guardar os domingos e festas de guarda, e que trabalhar n’estes dias era peccado.

Estavam as coisas n’estas alturas, quando tive de ir á minha terra, recolher uma herançasita que houvera, e demorar-me por lá algum tempo para pôr as minhas coisas a direito; quando voltei nenhum d’elles já estava na mesma quinta.

Seis annos depois em dia de festa de Corpo de Deus, fui a Lisboa vêr a procissão e visitar de caminho uns parentes, que ali tinha,—já lá estão na terra da verdade, pobre gente!—Deus os tenha á sua vista.

Passava pela rua dos Bacalhoeiros quando ouvi que de uma tenda me chamavam pelo meu nome. Vejam qual não seria a minha admiração, quando dei com duas caras conhecidas, que me faziam muita festa, e que eram nem mais nem menos do que os nossos amigos Pedro e Anastacio.

Nem pareciam os mesmos, nos termos e nos trajes lembravam pessoas da cidade, mas no coração eram sempre os pobres e bons trabalhadores.

—Ora o tio Joaquim por estes sitios, me disseram, e sem nos conhecer!

—É verdade, rapazes, quem era capaz de pensar, que havia agora de vir topar com vocês, assim tão enfeitados e garridos. Com mil demonios, se me não chamassem, não era eu que os descobria.

—Mas nós não esquecemos os amigos velhos, e logo que o vimos, não quizemos passar sem o abraçar.

—Bem apertado e do coração. Mas pelo que vejo a fortuna fez das suas, e lembrou-se de vossês.

—É como diz; alguma felicidade tivemos. Mas não ha de ficar á porta da rua, entra e vem conversar um poucochinho comnosco, não é assim?

Fiz-lhes a vontade, e pelo que me contaram vim a saber o que lhes tinha acontecido, e que foi o seguinte:

Cada um d’elles tinha seguido o seu modo de vida, conforme se ageitava melhor. Pedro estudando nos livros, Anastacio trabalhando nas horas de descanso, para juntar algum dinheiro.

Metteu-se-lhe na cabeça aprender um officio e a troco de alguns serviços feitos ao mestre Antunes, tanoeiro, alcançou que lhe ensinasse o seu modo de vida, em que, com a vontade que tinha, chegou a ser um bom official.

Já avesava um par de vintens, quando se descobriram essas terras lá da California, onde segundo diziam os papeis, havia mais oiro em pó, do que milho em celleiro rico nos annos de fartura.

Os homens de ganhar começaram a mudar de rumo e a procurar fortuna por essas terras. Desinquietaram-n’o; mas elle, despresando o ditado: «muda de terra, mudarás de fortuna» como se ia dando bem por onde estava, resolveu-se a ficar.

Ora, não sei se sabem, que apesar de haver dinheiro a rôdo pela tal California, não havia de comer, nem de beber, e qualquer coisa, que por lá se precisava, era comprada a peso de oiro. Fazia frio de cair o nariz, a aguardente e o figo, era—de mais a mim, mais a mim—e os tanoeiros por conseguinte não tinham occasião de dobrar canella.

Anastacio, que já sabia do officio ás direitas, deitou-se á obra, empatou em madeira os pintos que juntára, e conseguiu montar uma tanoaria em grande, que em pouco tempo se afreguezou pelos bons modos do dono e bom preço das obras.

Quando o encontrei em Lisboa, acabava de casar com a promettida desposada, que trouxera da terra. A sua loja, que era uma das melhores da cidade, gosava de excellentes creditos: e o negocio corria o melhor possivel.

Pedro tambem tinha caminhado e muito; mas por estrada diversa. Pouco a pouco fôra lendo cada vez melhor, e escrevendo de fórma que levava as lampas ao mestre-escola do logar; parecia um treslado a lettra do rapaz.

O dono da quinta, a quem elle caira em graça pelos seus termos comedidos e vontade de saber, tirou-o d’aquelle labutar e mandou-o para uma mercearia sua em Lisboa, a servir de caixeiro. Era o que elle queria e em que melhor calhava, tanto que em pouco tempo se fez um merceeiro de enche-mão.

O patrão trazia-o nas palminhas, e dizia á bocca cheia: que não tivera nunca outro, que lhe chegasse tanto ás medidas.

Nem só o sr. José Esteves era d’esta opinião: a senhora sua filha, que se derretia para o rapasito, achava ao pae carradas de razão e fazia-se com terra de lhe chamar seu marido. Atrever-se a pedil-a, não era o Pedro capaz d’isso; mas o pae da rapariga, que deu na ferida, e que não era de soberbas, antes pelo contrario muito dado e maneiro, reconheceu que lhe convinha para genro um bom rapaz socegado e amigo de dar ordem á sua vida, e em poucos tempos tratou de os pôr a caminho do setimo sacramento.

Tambem vivia de grande quando lhe fallei, e a loja onde estavamos era do sogro; ou d’elle, que vinha a dar na mesma coisa.

Tinham acabado de me contar as suas historias, e ia-lhes perguntar, que norte tinha tomado Roberto, quando ao chegarmos á porta para vêr a gente que passava para a procissão, desembocaram de uma d’aquellas ruas uns poucos de grilhetas, que de barril ás costas, desciam lá das bandas do Castello e iam para o chafariz de Dentro. Não tive que perguntar, porque reconheci-o logo entre elles quando passaram diante da porta.

Vim depois a saber por que fôra ali parar. O vinho, e as patuscadas dos domingos, tinham sido a causa d’aquella desgraça.

Não deitava Nosso Senhor um dia santo a esta terra, que elle não fosse para a taberna, e que não sahisse de lá a não ser em miseravel estado. Em breve pozeram-no fóra do trabalho, porque não dava conta de si, nem se podia olhar para elle, de desmaselado que andava. Vendo-se sem trabalho, e sem ninguem o querer, ajuntou-se a uns poucos de vadios da terra, que passavam pelas peores firmas do logar.

Ao principio eram comesainas e bebedices: depois como não havia dinheiro, nem gente que lhes fiasse, nem vontade de trabalhar, começaram a pregar calotes, a commetter roubos, e quem sabe se mortes tambem.

Ao menos assim por lá se rosnava, e bem se diz: que n’estas coisas: «voz do povo, é voz de Deus.»

Um dia a justiça, que andava com os olhos n’elles, deitou-lhes a unha. Um dos que resistiu foi Roberto, e ao fugir á prisão, feriu de morte um dos cabos, que o queriam prender.

Foi condemnado ás galés por toda a vida: e a cumprir esta sentença o vi eu em Lisboa, no tal dia de festa do Corpo de Deus.

Agora vocês lá rapazes, que perceberam aonde eu ia dar na minha: pensem na historia que lhes contei, e vejam de que modo deverão passar melhor os domingos e dias santos.

Os bons dos maltezes não deram resposta ao narrador n’essa occasião; os resultados futuros deixaram vêr, porém, que as palavras do conto do tio Joaquim, não tinham sido deitadas ao vento.