| Quel
rapaz. Quel rapariga. Quels (ou quel) rapaz. Quels (ou quel) raparigas. |
Aquelle
rapaz. Aquella rapariga. Aquelles rapazes. Aquellas raparigas. |
O interrogativo é: quen, qui, ou quê-nhê, quem.
Eis o quadro dos pronomes pessoaes.
| Singular: | En,
in, mi -n Bu (abó) Di bó -bo Ê -l nhô êl, -le |
eu -me tu de ti -te elle lhe lhe (vos) o |
Plural: | Nós,
nu -no Nhô, nhôs nhô Ês -ls |
nós -nos vós vos elles lhes |
| Quên
qui dan (dâ-n)
el. Quên qui dá-bo el. Quên qui dá-nhô el. Quên qui dá-no el. Quên qui dá nhô el. Quên qui dals (da-ls) el. Bu tâ entendêle. En tâ jural. |
Quem
m'a deu. Quem t'a deu. Quem lh'a deu. Quem nol'a deu. Quem vol'a deu. Quem lh'a deu. Tu entendel-o. Eu o juro. |
Bu (vós) tendo usurpado o logar de tu, não ha pronome da segunda pessoa do plural; o pronomen reverentiae é substituido por nhô==senhor, nhâ==senhora. Nhô tomou o signal do plural: ô nh'amigos, nhôs al judan fazê ês cuza, ó meus amigos, vós haveis de me ajudar a fazer esta cousa.
O pronome da segunda pessoa do singular diz-se bó quando é precedido de proposição: di bó, de ti.
Nas ilhas de Barlavento ha bucê, bucês, bocê, bocês em logar de bó, abó e nhô.
Os seguintes exemplos mostram as fórmas dos possessivos ou seus equivalentes:
| Nha
caballo. Nha caballos. Nha egua. Nha eguas. Ês caballo ê di men. Ês caballos ê di men. Ês egua ê di men. Ês eguas é di men. |
O
meu cavallo. Os meus cavallos. A minha egua. As minhas eguas. Este cavallo é meu. Estes cavallos são meus. Esta egua é minha. Estas eguas são minhas. |
| Bu
cavallo. Bu cavallos. Bu egua. Bu eguas. Ês caballo ê di bó. Ês egua ê di bó. |
O
teu cavallo. Os teus cavallos. A tua egua. As tuas eguas. Este cavallo é teu. Esta egua é tua. |
| Si
caballo, sês
caballo. Caballo di nhô ou nhâ. Ês caballo ê di nhô. |
O
seu cavallo, o cavallo d'elle. O seu (vosso) cavallo. Este cavallo é vosso, seu. |
| Nós
boi. Nós báca. Ês boi ou ês báca ê di nós. |
O
nosso boi. A nossa vaca. Este boi ou esta vaca é vosso, vossa. |
| Si
caballo, sês
caballo. Ês caballo ê di sês, d'êls ou d'ês. |
O
seu cavallo (d'elles). Este cavallo é seu (d'elles). |
4. Verbo. Esta parte da grammatica do creolo de Santo Antão apresenta uma riqueza muito maior que em geral os outros dialectos similhantes. Não é difficil explicar este facto: o contacto persistente entre a população que falla o dialecto e os que fallam o portuguez puro tende naturalmente a fazer penetrar no creolo maior numero de fórmas portuguezas. Vimos já o que se dava com as fórmas do plural. Damos os paradigmas da conjugação e faremos depois algumas observações sobre elles.
Ser (sér)
Indicativo
| Presente | Perfeito composto | ||
| Mi
ê Bu, abo ou abo bu ê Êl ê Nós, nos nu ê Ês ê |
Eu
sou Tu és Elle é Nós somos Elles são |
Eu
ten
sido Bu ten sido Êl, ê ten sido Nos, nu, ten sido Ês tên sido |
Eu
tenho sido Tu tens sido Elle tem sido Nós temos sido Elles têem sido |
| Imperfeito e perfeito | Futuro | ||
| Mi
era Bu etc. era Êl era Nós era Ês era |
Eu
era Tu eras Elle era Nós eramos Elles eram |
En
al
ser Bu al ser Êl al ser Nu al ser Ês al ser |
Eu
serei Tu serás Elle será Nós seremos Elles serão |
Condicional
| En
tâ
sérba Bu tâ serba Ê tâ sérba Nu tâ sérba Ês tên de ser |
Eu
seria Tu serias Elle seria Nós seriamos Elles seriam |
Subjunctivo
| Presente | Imperfeito | ||
| En
ser Bu ser Ê ser Nu ser Ês ser |
Eu
seja Tu sejas Elle seja Nós sejamos Elles sejam |
Mi
era Bu era Êl, ê era Nu era Ês era |
Eu
fosse Tu fosses Elle fosse Nós fossemos Elles fossem |
Futuro composto
| In
ten de
ser Bu ten de ser El, ê ten de ser Nos, nu ten de ser Ês ten de ser. |
Eu
tiver de ser Tu tiveres de ser Elle tiver de ser Nós tivermos de ser Elles tiverem de ser |
Imperativo
| Ser | Sê tu | Nhu ser | Sede vós |
Haver
Este verbo é quasi exclusivamente empregado para a expressão do futuro como auxiliar, portanto no presente do indicativo.
A fórma al provém de ha-de, por apocope e mudança de d em l.
O verbo dêbê é empregado como auxiliar, substituindo al. Na cidade da Praia diz-se hôbe (oubi) tempo, tên habido, mas essas fórmas não se acham ainda no creolo rachado.
Ten (ter)
No presente do indicativo tên para todas as pessoas no paradigma escripto pelo nosso informador; mas nas cartas 2.ª e 3.ª ha tênê como fórma fundamental, servindo pois para o presente só com os pronomes e figurando nos tempos compostos, como ser no paradigma acima.
O imperfeito e o perfeito do indicativo tem tenba, tinha, para todas as pessoas; o imperativo tên. Emprega-se o participio tido.
Stá (estar)
No presente do indicativo sta ou star para todas as pessoas; no imperfeito staba, no perfeito stêbe, ou no creolo rachado staba, como no imperfeito. Os tempos periphrasticos conformam-se ao paradigma de ser. Emprega-se o participio stado.
Verbos não auxiliares
O presente em regra é expresso por tâ (-stá) com o infinito, para todas as pessoas exemplos: en tâ jurâ, eu juro, bô tâ flâ, vós dizeis; mas occorre tambem como presente a simples fórma do infinito: nhu sabê, vós sabeis. Algumas fórmas do presente portuguez, principalmente da terceira pessoa, occorrem, sem variação, com o auxiliar tâ ou isoladas, exprimindo o presente: en tâ bai, eu vou; êl tâ lêba, elle leva; en péga, eu agarro; en tâ biro, eu volto; in xinto, eu me sento.
Ha fórmas do preterito como fazeba, fazia, baba, ia (sobre o presente bai).
O perfeito parece ser expresso pelo infinito, como recebê, fugî (elle fugiu), xinti, matá, entendê, nas cartas acima.
O imperativo é expresso pelo infinito: esquecê, esquece, esquecei; judá, ajuda, ajudae. Occorrem algumas fórmas particulares como ben, vem, vinde.
Ha participios em ado como usado, enfadado, em edo como screbedo, escripto, em ido (normal?).
Os tempos periphrasticos seguem o paradigma de ser (auxiliar com a fórma principal, infinito presente ou participio passado).
Algumas vezes o futuro é identico ao presente: en tâ mandá, mandarei; bô tâ flal, dir-lhe-has.
Observações lexiologicas
A etymologia dos vocabulos creolos é geralmente transparente nos specimens que publicâmos; notâmos apenas particularmente os seguintes, comquanto outros chamem tambem a attenção:
Câ, não; origem incerta.
Mâ, mê, que; provirá da conjugação adversativa mas?
Mantenha em mantenha chéo, significando muitas recommendações; originou-se este emprego evidentemente da formula antiga de saudar: Deus te mantenha.
Pamóde, porque; provém da formula por amor de, por mór de, muito usada em portuguez, significando por causa de. No dialecto de Macau usa-se no mesmo sentido a variante phonetica prómódi.
Papiá, fallar; flâ toma o sentido de dizer.
Sâ em nhu sâ tâ passado como tem passado, e sâ tâ dal, lhe tem dado, etc., é obscuro para nós.
Sábe (de saber) serve para exprimir que uma cousa é agradavel; câ sábe, que é desagradavel; ês cumida ê sâbe, esta comida é agradavel, sabe bem; quel home tên ar sábe, aquelle homem ter ar agradavel; algumas vezes póde traduzir-se por bem. Fede exprime o contrario: chêrá féde, cheirar mal; fazêl féde, offendel-o.
Tioque, até que; oque (oc), oqu'ês, quando.
Nomes hypocoristicos ou nomes de casa
| Baca. | Lourenço. | Jéjé. | José. |
| Balanta. | Valentim. | Faia. | Raphael. |
| Banda. | Domingos. | Fan. | Estephania. |
| Barujo. | Vicente. | Fina. | Josephina. |
| Beba. | Genoveva. | Fita. | Antonio. |
| Bebé. | Bernabé. | Fonfon. | Affonso. |
| Beto. | Alberto. | Fronha. | Luiza. |
| Beto. | Roberto. | Gena. | Eugenia. |
| Bibina. | Balbina. | Gruida. | Margarida. |
| Bina. | Etelvina. | Ia. | Maria. |
| Bocha. | Ambrosio. | Lela. | Magdalena. |
| Bomba. Bombina. |
Anna. | Lelencha. | Florencia. |
| Caella. | Michaela. | Lelencho. | Florencio. |
| Caixa. | Nicolau. | Lena. | Helena. |
| Cote. | Torquato. | Lorma. | Jeronymo. |
| Chalino. | Marcellino. | Lota. | Izabel. |
| Chamara. | Maximiana. | Maja. | Luiz. |
| Chamaro. | Maximiano. | Mana. | Germana. |
| Chana. | Sebastiana. | Mano. | Germano. |
| Chana. | Luciana. | Maral. | Pedro. |
| Chanchane. | Alexandre. | Mongido. | Hermenegildo. |
| Chéché. | José. | Motas. | Thimotheo. |
| Chella. | Marcella. | Munda. | Raymundo. |
| Chello. | Marcello. | Nhaba. | Filippe. |
| Chencho. | Innocencio. | Nico. | Manuel. |
| Chicha. | Narcisa. | Oiro. | Miguel. |
| Chichi. | Cecilia. | Pelico. | Polycarpo. |
| Chica. | Francisca. | Penha. | Gregorio. |
| Chico. | Francisco. | Pomba. | Ignez. |
| Chimí. | Cazimiro. | Potâ. | Hippolyto. |
| China. | Filippe. | Queta. | Henriqueta. |
| Choga. | Chrysostomo. | Quinquina. | Joaquina. |
| Choncha. | Sebastião. | Ramal. | Antonio. |
| Chubanta. | Martha. | Roda. | Andreza. |
| Chumpa. | Paula. | Ronda. | Agostinho. |
| Cobra. | Francisco. | Supro. | Cypriano. |
| Coco. | Simoa. | Tancha. Tantancha. |
Constança. |
| Coima. | Paulo. | Tantana. | Victoriana. |
| Colaça. | Nicolaça. | Tantano. | Victoriano. |
| Cuna. | Joaquina. | Tatacha. | Anastacia. |
| Dada. | Felicidade. | Tatacho. | Anastacio. |
| Damás. | Damasio. | Tetêa. | Dorothea. |
| Delba. | Amaro. | Têtês. | Matheus. |
| Dico. | Frederico. | Tilia. | Mathilde. |
| Didi. | Claudina. | Tinho. | Martinho. |
| Dindino. | Bernardino. | Tino. | Faustino. |
| Dique. | Henrique. | Tintim. | Valentim. |
| Doca. | Theodora. | Tintina. | Catharina. |
| Doco. | Theodoro. | Tólo. | Bartholomeu. |
| Doli. | Isidoro. | Touco. | Victor. |
| Doria. | André. | Tuda. | Gertrudes. |
| Dunda. | Domingos. |
Ás formações hypocoristicas que têem limitadissima extensão em Portugal, abriu-se um campo novo nos dialectos fóra da Europa; algumas d'essas fórmas vieram de lá para a metropole, como Juca, Nhónhô, etc.
É difficil e em parte impossivel achar as relações que existem entre algumas d'essas fórmas hypocoristicas de Santo Antão e as usuaes correspondentes; para algumas não haverá até talvez relação etymologica; mas a difficuldade provém principalmente do pequeno numero das fórmas que conhecemos, que não nos permittem reconhecer todas as variedades dos processos, a que devem a existencia. As fórmas difficeis de reduzir ou irreductiveis, em a nossa lista são: Baca, Banda, Barujo, Bomba (e Bombina), Caixa, China, Choga, Choncha, Chubanta, Chumpa, Cobra, Coco, Coima, Delba, Doria, Dunda, Faia, Fita, Fronha, Lota, Maja, Maral, Nhabo, Oiro, Pelico, Pomba, Potâ, Ramal, Roda, Ronda, Touco (32 fórmas). As outras fórmas hypocoristicas de Santo Antão provém das usuaes correspondentes por processos de formação em geral perfeitamente regulares. O processo mais geral é o da simples apherese de todos os elementos que precedem a syllaba accentuada; essa alteração raramente é a unica que se dá: quasi sempre se complica com outras. Em poucos casos a apherese deixa de fazer desapparecer todas as syllabas que precedem a accentuada (vid. infra Mongido e Chamaro).
Formação por apherese
A. Simples apherese.
| Caela | de | Michaela. | Mano | de | Germano |
| Colaça | » | Nicolaça. | Queta | » | Henriqueta. |
| Fina | » | Josephina. | Tinho | » | Martinho. |
| Lena | » | Helena. | Tino | » | Faustino. |
Em:
| Ia | de | Maria |
a apherese estendeu-se á consoante inicial da syllaba accentuada.
B. Apherese complicada com outros phenomenos phoneticos.
1) Modificações nas vogaes finaes:
| Cate | de | Tor-quato. | Mota-s | de | Ti-motheo. |
| Dada | » | Felici-dade. | Munda | » | Raymundo. |
| Gena | » | Eu-genia. |
2) Apocope:
| Fan | de | Este-phania |
3) Apocope com retracção do accento:
| Tólo | de | Bartholo-meu |
4) Alteração da vogal accentuada:
| Cuna | de | *Quina | de | Joa-quina. |
5) Quéda de r da syllaba accentuada, com ou sem modificação das vogaes finaes:
| Beto | de | *Berto | de | Al-berto. |
| Beto | » | *Berto | » | Ro-berto. |
| Dico | » | *Drico | » | Fre-drico, Frederico. |
| Guida | » | *Grida | » | Mar-grida, Margarida. |
| Tuda | » | *Trudes | » | Ger-trudes. |
6) Modificações nas consoantes das syllabas conservadas:
a) v em b.
| Beba | de | *Veva | de | Genoveva. |
| Bina | » | *Vina | » | Etel-vina. |
b) s, z (ç, s) em ch:
| Chicha | de | *Cisa | de | Nar-cisa. |
| Chello | » | *Cello | » | Mar-cello. |
| Tancha | » | *Tança | » | Cons-tança. |
c) ci, si, ti em ch:
| Bocha | de | *Brosio | de | Am-brosio. |
| Chana | » | *Ciana | » | Lu-ciana. |
| Chencho | » | *Cencio | » | Inno-cencio. |
| Chana | » | *Tiana | » | Sebas-tiana. |
Em Bocha houve quéda de r como em Beto, Tuda, etc., mudança de o em a como em Munda.
d) Mudança de ç em ch com alteração n'uma vogal protonica:
| Chalino | de | *Cellino | de | Mar-cellino. |
e) Mudança de ç em ch e desapparecimento d'uma consoante:
| Chico | de | *Cisco | de | Francisco. |
Facico é a pronuncia pathologica do nome Francisco.
f) Alterações diversas regulares de consoantes (complicadas n'alguns casos com modificações vocalicas).
Assimilação de ld em ll (l):
| Tilia | de | *Tilde | de | Ma-thilde. |
Assimilação de ld em d:
| Mongido (Mengido) | de | *Menegildo | de | Hermenegildo. |
r em l, n em r:
| Lorma | de | *Ron(y)mo | de | Je-ronymo. |
r em l:
| Doli | de | *Doro | de | Isi-doro. |
r em d:
| Dique | de | *Rique | de | Henrique |
n em r:
| Chamáro | de | *Chimiano | de | Ma-ximiano. |
n em l:
| Lela | de | *Lena | de | Magda-lena. |
g) Alteração consonantal irregular:
| Doca | de | *Dora | de | Theo-dora. |
h) Alteração da consoante da syllaba accentuada com apocope de syllaba:
| Chimí | de | *Zimí | de | Ca-zimiro. |
C. Apherese e reduplicação:
1) Sem apocope:
| a) | Bibina | de | *Bina | de | Bal-bina. |
| Chanchane | » | *Chane (Chandre) | » | Alexandre. | |
| Dindino | » | *Dino | » | Bernar-dino. | |
| Lelencho | » | *Lencho (Rencho) | » | Flo-rencio. | |
| Tantancha | » | *Tancha | » | Constança. | |
| Tatacho | » | *Tacho | » | Anas-tacio. | |
| Tetea | » | *Tea | » | Doro-thea. | |
| Tetés | » | *Tés (Teus) | » | Ma-theus. | |
| b) | Bebé | » | *Bé | » | Berna-bé. |
| Chéché | » | *Ché | » | José. | |
| Jéjé | » | *Jé | » | José. | |
| Quimquim | » | *Quim | » | Joa-quim. | |
| Tintim | » | *Tim | » | Valen-tim. |
2) Com apocope:
| Didi | de | *Di (Dina) | de | Clau-dina. |
| Fonfon | » | *Fon (Fonso) | » | A-fonso. |
| Chichi | » | *Chi (Chilia) | » | Ce-cilia. |
Chichi póde explicar-se tambem por apocope.
3) Com syncope:
| Tantano | de | Tano (Trano, Triano, Toriano) | de | Vic-toriano. |
| Tintina | » | Tina (Trina, Tarina) | » | Ca-tharina. |
Formação por apocope (sem apherese)
A. Sem retracção do accento:
| Balánta | de | Valentim. |
| Pelíco | » | Policarpo. |
| Supro | » | Cypriano. |
Algumas das fórmas difficeis de explicar resultam sem duvida, em parte, de uma complicação de processos; Potâ, por exemplo, provém, de Hypolito por apherese de Hy, syncope de l com contracção de vogaes e protracção do accento, mas esta fórma permanece isolada. A derivação póde tambem, como n'outras linguas, ter representado algum papel (Lota==Izabelota).
Os processos de formação que acabâmos de expor não têem nada de especial: encontram-se com simples variantes n'um grande numero de linguas antigas e modernas, falladas a distancias consideraveis, pertencendo a grupos radicalmente distinctos.
Mr. Robert Mowat consagrou ás fórmas hypocoristicas um estudo muito interessante, De la déformation dans les noms propres, publicado primeiramente em Mémoires de la société de linguistique de Paris, e depois na brochura Noms propres anciens et modernes (Paris, 8.º, 1869), p. 41-59. Um grande numero de fórmas hypocoristicas germanicas acha-se estudada na obra especial de Franz Stark, Die Kosenamen der Germanen (Wien, 1868, 8.º), em August Fick, Die Göttinger Familiennamen (Programma do Gymnasium and Realschule erster Ordnung zu Göttingen. Göttingen, 1875, 4.º), em Ludwig Steub, Die Oberdeutschen Familienamen (München, 1870, 8.º peq.) Nos Studien zur romanischen Wortschöpfung von Carolina Michaëlis ha uma collecção interessante de fórmas hypocoristicas romanicas (p. 70 ss). São essas as obras que temos á mão sobre o assumpto, mas ha outras que d'elle se occupam, como a de August Fick, Griechische Eigennamen. Vamos extrahir d'essas obras alguns exemplos que provam a existencia de leis geraes nas formações hypocoristicas.
Na Biblia Aram (Gen. 22, 21) e Ram (Job. 32, 2) designam o mesmo personagem; o mesmo se dá com Jaziel (Chr. I, 15, 20) e Aziel (Chr. I, 15, 18). Mowat, que cita esses exemplos, approxima Lazaro (Evangelho de S. João e de S. Lucas) de Eleazaro (Livro dos Machabeos) e adduz o copta Chael (cp. Caella por Michaela no creolo de Santo Antão), o phenicio Karthalon por Melkarthalon, Stembal por Manastambal (segundo Gesenius).
No grego o processo da apherese é raro; exemplo:
| Κλητος | por | Ανάκλητος |
A apherese com derivação observa-se em:
| Στασοῦλα | de | 'Ανα-στασίη | , | suf. οῦλα |
| Σταθακης | de | Εὐ-στάθυος | , | suf. ακη |
Na mencionada lingua ao contrario o processo da apocope é frequente, sendo as terminações supprimidas substituidas constantemente por a final ᾶς; exemplos:
| 'Αλεξᾶς | de | 'Αλέξανδρος | 'Αλεξᾶς | de | 'Αλέξανδρος |
| 'Αρτεμᾶς | » | Αρτεμίδωρος | Μηνᾶς | » | Μηνόδωρος |
| Επαφρᾶς | » | Επαφρόδειτος | Νικανδᾶς | » |
Νικανδρίδας |
| Ζηνᾶς | » | Ζηνόδωρος | Ολυμπᾶς | » | Ολυμπιόδωρος |
| Κλεόπας | » | Κλεόπατρος | Παρμενᾶς | » |
Παρμενίδης ou Παρμενίσκος |
| Κλεοφᾶς | » | Κλεόφαντος | |||
| Λουκᾶς | » | Λουκανός | Σιλᾶς | » |
Σιλουανός |
O inglez, com a sua tendencia para accentuar a syllaba inicial, emprega de preferencia a apocope nas formações hypocoristicas; essa apocope é complicada com outros factos phoneticos, de que mencionaremos alguns.
1. Apocope simples:
| Chris | de | Chrístian | de | Christiánus. |
| Clem | » | Clemént | » | Cleméntius. |
| Dan | » | Dániel | » | Daniél. |
| Tom | » | Thómas | » | Thomás (Θωμάς). |
| Greg | » | Grégory | » | Gregórius. |
2. Apocope e adjuncção de um s:
a) Sem assimilação de consoantes:
| Cutts | de | Cuth-bert. |
| Edes | » | Ed-ward. |
b) Com assimilação de consoantes:
| Watts | de | Walter | , | Gibbs | de | Gilbert. |
Comp. creolo Motas de Timotheo.
3. Apocope com mudança de r em d:
| Dick | de | Richard | , | Dobbs | de | Robert. |
Comp. creolo Dique de Henrique.
Nos seguintes nomes germanicos medievaes desappareceu ou a primeira ou a segunda parte:
| Faro | por | Burgundofaro. | Bruna | por | Brunihildís. |
| Giso | » | Wartgis. | Euva | » | Evarix. |
| Offa | » | Ceolwulf. | Hrode | » |
Hruodolf. |
| Prandus | » | Rotprandus. | Sunna | » | Suanilda. |
| Uffo | » | Liudulfus. | Tado | » | Tadelbertus. |
A suppressão de uma parte do nome foi seguida ou acompanhada, como se vê, de outras modificações, comparaveis em parte ás que observámos nas fórmas hypocoristicas do creolo de Cabo Verde.
O processo de addição de suffixos diminutivos ás fórmas mutiladas tem grande extensão nas linguas germanicas. Exemplos:
| Godi-ko | de | *Gode | por | Gode-fredus. |
| Ghise-ke | » | *Gise | » | Gise-lbertus. |
| Ghere-ke | » | *Ghere | » | Gere-hardus. |
| Albi-so | » | *Albe | » | Albe-ricus. |
| Gisle-zo | » | *Gisel | » | Gisel-bertus. |
| Berti-nus | » | *Bert | » | Bert-randus. |
| Feli-nus | » | *Fel | » | Fel-mirus. |
Escolhemos agora alguns exemplos da lista das fórmas hypocoristicas francezas dadas por Mowat:
| Bastien | de | Sebastien. | Guste | de | Auguste. |
| Billon | » | Barbillon. | Livet | » | Olivet. |
| Briel | » | Gabriel. | Mancet | » |
Clémencet. |
| Brois | » | Ambrois, Ambroise. | Mas | » | Thomas. |
| Colas | » | Nicolas. | Maury | » | Amaury. |
| Cot | » | Jacot. | Nardon | » | Bernardon. |
| Delle | » | Adèle. | Pin | » | Chopin. |
| Fan | » | Stephan. | Pold | » | Léopold. |
| Fonce, Fons | » | Alphonse. | Randal | » | Durandal. |
| Gelle | » | Angèle. | Sandre | » | Alexandre. |
| Gory | » | Grégory. | Thézard | » | Balthazar. |
| Hippeau | » | Philippeau. | Vestris | » | Silvestre. |
Estes exemplos bastam para mostrar que as fórmas hypocoristicas creolas são o resultado da acção de leis geraes.