VII
Frei Januario, dormida a sua regalada sésta, dispoz-se a fazer horas para a ceia, indo communicar ao fidalgo a grande nova das disposições de espirito, suspeitas e subversivas, em que encontrou o filho mais velho.
Ainda D. Luiz meditava nas mudanças que ia soffrer o regimen economico da casa e nas mais ou menos provaveis consequencias d'ellas, quando a voz fanhosa do padre procurador se fez ouvir á porta, articulando o costumado—licet?—E sem esperar resposta o padre frei Januario foi entrando.
—Ainda ás escuras, snr. D. Luiz?!
—Nem sempre temos para nos alumiar luzes tão bellas como esta; respondeu o fidalgo, designando o luar que já lhe inundava o quarto.
—Quer não; isto de luar não é lá das melhores coisas e depois o ar da noite…
—A noite está que parece de maio.
—Sim? mas sempre os vapores dos campos… Eu acho mais prudente accender luz e fechar as janellas.
—Não me opponho, frei Januario, até porque temos que fallar.
—Sim? Tambem tenho que communicar a v. exc.ª
—Pois, muito bem. Vamos a isso.
Fecharam-se as janellas, vieram as luzes e dispoz-se tudo para a conferencia.
D. Luiz exigiu que frei Januario fallasse primeiro.
—Visto isso, principiarei, e o que sinto é que seja para dar a v. exc.ª noticias assustadoras—preludiou o egresso.
—Assustadoras! Que é a final? Alguma insolente exigencia de credor.
—Nada, nada; a coisa é outra. Tracta-se do filho de v. exc.ª
—De Mauricio? Que fez elle?
—Não, senhor; não é do snr. D. Mauricio, que eu fallo.
—Então? É de Jorge?
—Justamente. Eu conto a v. exc.ª
E frei Januario principiou a expôr ao fidalgo os pormenores da discussão que tivera com Jorge ao jantar e a commental-a com reflexões proprias. Horas antes, esta communicação teria talvez produzido o effeito estupendo, que o egresso calculára; mas a prévia entrevista de D. Luiz com os filhos tirára toda a importancia á revelação. D. Luiz apenas franziu o sobrolho á parte mais demagogica das doutrinas do filho, mas esse mesmo signal de desgosto foi passageiro, e quando o procurador acabou a sua estirada confidencia, em vez da indignação e do espanto, com que esperava vêl-a acolhida, apenas escutou estas simples palavras, pronunciadas com a maior fleugma:
—E então que pensa d'isso, frei Januario?
Lá de si para si o padre replicou á pergunta com a sua expressão favorita de desapontamento—Lérias!—mas em voz alta não foi tão expressivo, e respondeu em phrase mais parlamentar:
—O que penso? Que hei de eu pensar? E v. exc.ª o que pensa? Eu por mim penso que anda aqui febre liberal; o veneno já está no sangue. Tão certo! Aquillo dá logo signal de si. Em elles principiando a cantar-me ladainhas a S. Trabalho, eu digo logo com os meus botões: «Pois sim, sim, estás arranjadinho.» O snr. D. Jorge conversou por ahi com algum mação. Quem sabe? Alguns d'esses engenheiros que estão na estalagem do Manco. Isto de engenheiros é gente que se não confessa; ou então são coisas do hortelão, que eu não seja quem sou se ainda não ha de dar que fallar n'esta casa; mas o certo é que lhe metteram na cabeça essas caraminholas e se v. exc.ª não olha por isso, eu lhe protesto que dão com o rapaz mação, o que é uma pena, porque é um bom rapazinho. Mas quando elles me vem com as nobrezas do trabalho aos contos, torço-lhe logo o nariz.
—Parece-me que d'esta vez são sem fundamento os seus receios, frei Januario. A final, pondo de parte alguma expressão menos sensata, e que o verdor dos annos desculpa, as ideias do rapaz são razoaveis.
—Razoaveis?
—Pois porque não? Que quer elle? Occupar em alguma coisa o tempo, que perde na ociosidade. Está cançado da vida de rapaz. É natural e é louvavel. E em que quer elle empregal-o? No que ámanhã será constrangido a fazer, com peior resultado; no que eu devêra ter feito na idade d'elle; em trabalhar, em gerir os bens da sua casa. Mais vale então que principie já, frei Januario, sob a guia dos seus conselhos, do que tarde, ás cegas e sem uma pessoa de confiança a encaminhal-o.
—Pois é verdade, mas…
—Elle fallou-me n'isso ha pouco.
—Ah! pois sempre fez o que disse?!
—Fez, sim, e fez bem. Achei que o rapaz tinha pensado maduramente no caso e dei-lhe a permissão que elle pediu. Era até o que eu tinha para dizer-lhe.
—Então, visto isso, de hoje em diante?…
—De hoje em diante, Jorge se entenderá comsigo. O frei Januario precisa de descançar tambem.
—Eu ainda não estou cançado—resmungou o padre.
—Espero que dará a meu filho todos os esclarecimentos de que elle precise e todos os conselhos da sua muita experiencia.
—Não seja essa a duvida; mas, na verdade…
O relogio do corredor, batendo nove horas, cortou inesperadamente a phrase ao egresso.
Pelos modos a ceia ia tardando.
—Com licença—disse elle, levantando-se—eu vou vêr como correm as coisas na cozinha.
Mas nos corredores murmurava comsigo, em tom aforismatico:
—Não tem que vêr. Filho mação, pae idiota… casa perdida.
Como frei Januario suspeitasse que ia encontrar o cozinheiro menos attento no desempenho dos seus gravissimos deveres, dirigiu-se, pé ante pé, á cozinha, a fim de surprendêl-o em flagrante.
Ao avisinhar-se deu-lhe maior rebate ás suspeitas um acalorado travar de vozes, que de lá vinha.
Espreitou. A criadagem estava em congresso; orava o hortelão, o inimigo irreconciliavel do padre; escutavam-n'o os outros boquiabertos, e mais attento do que nenhum, o cozinheiro, que sentado em um banco baixo, com uma perna atravessada sobre a outra e as mãos a segurarem o joelho, nem ouvia o chiar das caçarolas, nem se lembrava da ceia.
O padre fumou com a descoberta.
O hortelão dizia:
—Foi então que o imperador… oh aquillo é que era um homem!… foi então que elle fez aquella falla que lá está toda na memoria do Mindello, que foi onde nós desembarcamos, no dia 8 de julho de 1832, alli pela tardinha.
E o hortelão, tomando uns ares solemnes e endireitando o corpo, começou recitando oratoriamente:
—«Soldados! Aquellas praias são as do malfadado Portugal; alli, vossos paes, mães, filhos, esposas, parentes e amigos, suspiram pela vossa vinda e confiam…
Era demais para a magnanimidade de frei Januario. A proclamação de D. Pedro desafinava-lhe os nervos, sempre que a ouvia; o que não era poucas vezes, graças ao enthusiasmo do hortelão. Cedendo pois ao seu animo indignado, o padre rompeu pela cozinha dentro, exclamando:
—Então que pouca vergonha é esta? O fidalgo á espera da ceia, e esta sucia de mandriões aqui postos a ouvir as patranhas d'aquelle senhor!
Os criados surprendidos ergueram-se em alvoroço e tomaram os seus postos. O hortelão reagiu, como era seu costume.
—Patranhas? Isso lá mais de vagar. Isto vi e ouvi eu, como o vejo e ouço a vocemecê, e muito me honro em dizêl-o. Patranhas! Quem quizer, póde lêr tudo isso nas gazêtas e muitas coisas mais. Eu fui soldado do imperador e…
—Está bom, está bom: pouco fallatorio. Você o que é, é hortelão; e o logar dos hortelões não é na cozinha.
—Lá se vamos a isso, tambem o do capellão não é ao pé das panellas, e comtudo vocemecê póde dizer-se que não tem outro posto, onde esteja mais firme.
—Tenha cuidado com a lingua; olhe que um dia a paciencia esgota-se e depois não se queixe.
—Não se metta o snr. padre commigo, se não quer ouvir. Olhe que eu fui soldado, e não é um frade que me leva a melhor. A vontade que elles nos teem sei eu, que ainda me lembra de ver arder por os quatro cantos o convento de S. Francisco, na noite de 24 para 25 de julho, e por pouco que não morriam queimados todos os meus camaradas de caçadores 5. Hein? que diz vocemecê áquella caridade?
—Você não se quer calar? Eu direi ao snr. D. Luiz as conversas que você tem aqui na cozinha e a maneira por que falla da religião e da igreja.
—Quem fallou em tal? Eu em quem fallo é nos frades, que é coisa differente.
A desavença terminou com a subita sahida do padre, que perdia as estribeiras n'estas luctas. A criadagem ficou rindo d'elle pelas costas, e o hortelão passou a contar por miudo como tinha sido o caso do incendio do convento dos Franciscanos.
O padre, na presença do fidalgo, encetou a sua millionesima queixa contra o jardineiro, e acabou por dar o millionesimo conselho da sua immediata demissão. O fidalgo ouviu-o pela millionesima vez com o silencio do costume.
D'ahi a momentos estava o procurador aplacado…, porque ceiava.
Á ceia assistia o fidalgo e os seus dois filhos.
Ninguem fallou durante a refeição nocturna. O padre estava amuado, D. Luiz pensativo, Jorge e Mauricio trocando olhares de intelligencia sobre o aspecto carrancudo do padre.
Ao erguer-se da mesa, D. Luiz disse para o filho mais velho:
—O snr. frei Januario já está informado do que hoje se combinou. Ámanhã elle que tenha a bondade de te dar os conselhos precisos.
E depois de uma sêca «boa noite», D. Luiz sahiu da sala.
Os filhos levantaram-se para tambem se retirarem.
Jorge interrogou o padre:
—A que horas quer que o procure ámanhã, snr. frei Januario?
—A que horas?… Ah!… sim… isso… eu sei?… A coisa não é de pressa… Se não fôr ámanhã…
—Ha de ser ámanhã—atalhou Jorge.
—Ha de ser! Essa é boa! Sabe lá da minha vida? Ha de ser! Tem graça.
—Não lhe tirarei muito tempo. Socegue. Quero só que me passe os livros e os papeis.
—Os livros!… e os papeis… Mas para que?
—Porque d'ámanhã em diante tomo conta d'elles.
—Eu não me entendo com criancices. Na verdade o snr. D. Luiz fez-me o que eu nunca esperei d'elle. É bem custoso receber tal paga no fim de tantos annos de serviço! E então que patetices! Attender aos caprichos de uma criança em coisas tão sérias como estas! E sabe que mais, snr. Jorge? Eu não tenho vagar nem paciencia para me pôr agora a ensinar meninos.
Mauricio ia a responder, talvez com aspereza, mas Jorge atalhou-o, dizendo:
—Mas quem lhe falla em ensinar? Quem lhe pede lição ou conselho?
—Então para que me procura ámanhã?
—Para que me dê os livros e mais documentos relativos á gerencia da casa, e me preste os esclarecimentos que eu lhe pedir. Não são perguntas de discipulo…
—Percebo o que quer dizer na sua, são de juiz.
—Não. Quem o suppõe réo? Não, senhor. É apenas uma curta conferencia, como o trocar da senha entre a guarda que se rende.
—Então o snr. Jorge está seriamente resolvido a tomar conta d'isto?
—Muito sériamente.
—Sim, senhores. Ha de ser bonito! Mas isto é até um caso de consciencia, e eu não sei se devo…
—Aplaque os seus escrupulos, frei Januario. A responsabilidade de um procurador expira no dia em que a procuração lhe é retirada pelo constituinte. Até ámanhã. Não se esqueça de me apresentar todos os livros da sua escripturação.
—E elle ahi torna! Ora que scisma! Eu sei lá de livros e de escripturação, homem? É boa! Isto não é nenhum armazem.
—Então geria de cabeça, frei Januario?—perguntou Mauricio, rindo.
—Geria, como entendia. Tomo os apontamentos precisos, mas lá de parlapatices e espalhafatos é que nunca fui.
—Bem; ámanhã examinaremos esses apontamentos; boa noite, frei
Januario—concluiu Jorge.
—Snr. frei Januario, muito boa noite—secundou zombeteiramente
Mauricio.
—Ide com nossa Senhora—murmurou o padre irritado.
Os dois rapazes sahiram, rindo dos amuos do egresso.
Este ficou só, e encetando um habitual complemento da sua substanciosa ceia, ia resmungando:
—Forte pancada a d'esta gente! Olhem agora o criançola… E como elle falla?! Parece já um senhor que todo lo manda! Os livros! Era o que me faltava! era ter livros para assentar contas com rendeiros e dividas da casa. Bem digo eu! Mas deixa estar que eu curo-o da mania de metter o nariz n'estas coisas. Dou-lhe uma esfrega ámanhã. Em elle vendo como a casa está embrulhada, perde logo o furor com que está de a administrar. Sempre lhe hei de fazer uma tal barafunda de papelada, que o rapazinho ha de ir dizer ao papá que não quer saber de contas. Ora deixa estar! Muito me hei de rir. Quando elle principiar a vêr o sarilho, em que isto tudo está mettido, que nem eu sei já como sahir d'elle, então é que ha de dar vivas, e gritar «aqui d'el-rei.» Ora deixa estar.
E o padre ria, ria de boa feição, ao pensar no logro que havia de pregar a Jorge, ria e comia o bom do homem, que era um gosto vêl-o.
Depois foi deitar-se, e o somno de uma certa classe de bemaventurados baixou-lhe sobre as palpebras, suave e restaurador.
Jorge não dormiu, como o padre; velou até alta noite, lendo, calculando, combinando planos economicos. Mauricio tambem dormiu pouco; pensou igualmente no futuro, na revolução que ia operar-se na sua vida, mas de um modo vago, sem ter ainda um plano formado, nem trabalhar para isso. As mais variadas e brilhantes imagens passavam-lhe pela phantasia, sem que se fixasse uma só d'ellas. Era um succeder de ideias tão rapido, que parecia estonteal-o, como o illusorio movimento das margens perturba o viajante novel arrebatado no convez velocissimo d'um barco a vapor.
No dia seguinte teve logar a solemne conferencia do padre e de Jorge.
Frei Januario tentou realisar a traça que com applauso proprio delineára na vespera. Desdobrou em cima da mesa toda a papelada, amontuou, sem classificação nem escolha, procurações, recibos, contas, contractos de arrendamento, titulos de propriedades, escriptos de quitação com a fazenda, e outros varios documentos, com intuito de assoberbar a inexperiencia de Jorge e castigar-lhe as aspirações ambiciosas.
Depois de ter assim patenteado aquelle cahos aos olhos do seu proposto successor, o padre, encostando os braços á banca, apoiou o queixo entre as mãos, posição em que a bôca repuxada lhe tomava um geito de caricatura eminentemente comico, e ficou á espera do resultado das suas manhas com um sorriso de malicia e triumpho.
Jorge porém não desanimou. Com um rapido lançar de olhos julgava da importancia dos papeis, que successivamente examinava, e assim os punha de lado para segundo exame ou os guardava como vistos.
Dentro em pouco tempo entrou a ordem no cahos, e Jorge passou a mais minuciosa revista.
Frei Januario já se sentia um tanto incommodado com o andamento que ia vendo ás coisas, e insensivelmente foi tomando uma posição mais discreta e fugiu-lhe do rosto o ar malicioso com que até alli observára Jorge.
O peior não tinha principiado ainda.
Jorge acompanhou o segundo exame, a que procedeu sobre os papeis de importancia, de uma serie de perguntas, que embaraçaram sobre maneira o padre. Reconheceu então que o filho de D. Luiz não era a criança que elle suppozera, que via mais claro n'aquelles negocios do que elle proprio, com toda a sua experiencia, e que a conferencia, na qual esperava dar uma memoranda lição ao impertinente discipulo, podia muito bem terminar com notavel desvantagem do mestre.
Ao principio do fogo cerrado de questões e objecções, o padre tentou entrincheirar-se atraz de evasivas, tractando o caso jovialmente, mas teve de abandonar essa tactica, diante do tom e aspecto de seriedade varonil, com que Jorge lhe insinuou:
—Snr. frei Januario, eu não vim aqui para brincar, nem o assumpto da nossa conversação é digno d'essas jovialidades. Sou um dos futuros herdeiros d'esta casa e quero saber como ella tem sido administrada até agora.
O padre experimentou a arma da dignidade offendida.
—Então quer dizer que desconfia de mim?… e instaura-me um processo?
—Peço-lhe por favor que não venha com isso outra vez. Ninguem o accusa, já lh'o disse. Peco-lhe só esclarecimentos sobre o passado, para poder caminhar para diante.
Frei Januario acabou por se convencer de que não havia fugir á sabbatina. Não lhe foi suave tarefa aquella.
Jorge pela primeira vez lhe fazia vêr os erros de officio que elle commettêra, a imprudencia com que dirigira certos negocios, o desleixo em que deixára outros, a illegalidade de certos actos, os riscos em que puzera parte dos bens da casa. O padre suava, torcia-se, esfregava a testa, entrava em explicações confusas d'onde com muito custo sahia, titubiava, gemia, protestava, limpava os oculos, chamava em seu auxilio céos e terra; mas tudo era inutil poeira de encontro á paciencia e fleugma com que Jorge o interrogava ou lhe fazia qualquer observação que, sem ser formulada como censura, feria no vivo a susceptibilidade do padre. Em uma palavra, o resultado da conferencia foi exactamente o opposto ao que frei Januario prognosticára. Quem d'elle sahiu atordoado, desgostoso e disposto devéras a não querer saber mais da administração da casa, foi o padre e não o rapaz.
Frei Januario viu com espanto esboroar-se o edificio da sua experiencia, em cuja solidez elle proprio tinha a ingenuidade de acreditar, ao simples sôpro de uma criança. A impressão que lhe ficou d'este apertado inquerito foi tal, que o pobre homem passou a sentir um entranhado mêdo de Jorge, e a empallidecer só com a lembrança de uma scena como aquella.
Sempre que Jorge lhe dirigia a palavra d'ahi por diante, já o padre previa com terror uma interpellação e ficava nervoso! Muito mais se D. Luiz estivesse presente.
Assim pois, graças a estes mêdos, frei Januario em vez de tornar-se vigilante em relação aos actos de Jorge, tractou de evital-o tanto, quanto podia.
O desgraçado persuadira-se de que tinha commettido tantas faltas na sua administração, que o seu desejo era vêr passar já sobre ellas muitos annos para desvanecer-lhes os vestigios.
Jorge ficou pois completamente á vontade. D. Luiz, interrogando o capellão, ouvira d'elle que Jorge estava habilitadissimo para administrar a sua casa. Foi quanto bastou ao fidalgo para confiar cegamente no filho e para annuir sem exame a todos os seus projectos, como por tantos annos fizera aos do padre.
Portanto, sem desconfiança de pessoa alguma, pôde Jorge combinar com Thomé, em entrevistas nocturnas na Herdade, o seu plano de administração. Thomé era n'estas coisas um prudente e avisado conselheiro. Estudaram ambos a maneira de remediar muitas faltas commettidas, entraram em correspondencia com o advogado do fazendeiro, por causa de uma velha e importante demanda da casa; Jorge visitou todas as suas terras, celebrou novos e mais vantajosos arrendamentos sempre que pôde, e para estes primeiros actos levantou em segredo parte do emprestimo agenciado por meio do capital e do credito de Thomé da Povoa.
Causou espanto na terra a revolução administrativa da Casa Mourisca. Os que mantinham vistas interesseiras sobre os bens do fidalgo e que, movidos por ellas entravam em transacções com a casa, conceberam ao principio lisongeiras esperanças, vendo que tinham a tractar com um moço inexperiente. Cêdo porém se desenganaram, encontrando-o sempre cauteloso e perspicaz, graças á intelligencia propria e aos conselhos do previdente Thomé, que entrava em tudo sem ser visto nem suspeitado sequer.
As entrevistas de Jorge e do fazendeiro tinham sempre logar de noite, como já dissemos.
Jorge sahia de casa quando já todos dormiam menos Mauricio, unico que se recolhia ainda mais tarde e que nem sequer sabia das sortidas do irmão.
Thomé da Povoa esperava-o na Herdade, onde o rapaz entrava com o mesmo mysterio, e ás vezes prolongavam-se até altas horas estes conciliabulos economicos.
N'elles, ambos aprendiam. Thomé abria a Jorge os thesoiros da sua muita experiencia, e esclarecia-o com os conselhos dictados por um são juizo e uma natural lucidez. Jorge, que já enriquecêra a sua bibliotheca de novos livros e de periodicos de agricultura e de economia rural, fallava a Thomé dos progressos e melhoramentos agricolas dos paizes estrangeiros, e eram para vêr a attenção e o enthusiasmo com que o lavrador o escutava. Com o animo arrojado e despido do cego e supersticioso amor pelas praticas velhas, Thomé tomava nota de muitas d'essas innovações, para as experimentar, praticando-as nas suas proprias terras. Que bellos e grandiosos projectos de futura realisação não planeavam elles, inspirados das maravilhas obtidas pela agricultura nos paizes mais adiantados, onde é exercida por homens intelligentes e instruidos!
Passado pouco tempo Jorge gozava já na aldeia de uma fama de fino administrador, que lhe grangeou os respeitos de todos os habitantes.
Para esta boa fama concorreu uma circumstancia preparada ainda pelos ressentimentos de frei Januario.
Depois de destituido, e ainda para mais derrotado pelo estreito inquerito de Jorge, e antes que conseguisse dominar completamente o seu despeito, tentára o padre levantar ao rapaz uma nova difficuldade.
Com esse intento convocou um dia todos os criados da casa e da lavoura, que viviam das soldadas do fidalgo, ou melhor na esperança d'ellas, e depois de os ter juntos, deu-lhes velhacamente a noticia de que, tendo sido dispensado pelo snr. D. Luiz de continuar a gerir os negocios da casa, não era d'ahi por diante responsavel pelo pagamento das soldadas atrazadas nem das futuras; que esses negocios estavam agora ao cargo do snr. D. Jorge e que se entendessem com elle, por quanto da sua parte lavava as mãos de tudo.
A estas palavras, levantou-se murmuração entre alguns criados, que não tinham grande confiança no novo gerente e que reclamavam do padre o pagamento das soldadas vencidas, dizendo que era elle o responsavel por esses pagamentos, visto serem do tempo da sua administração.
—Não quero saber de contos—insistia o padre.—Por feliz me dou eu em me terem tirado dos hombros esta canceira. Os outros que se avenham como puderem.
A celeuma continuava, apesar da contrariedade do hortelão, que declarou que pela sua parte estava satisfeito com a mudança, porque o snr. Jorge era um rapaz de juizo e de brios, e, melhor do que ninguem, homem para cumprir a sua palavra.
Estavam as coisas n'estes termos, quando um facto imprevisto as modificou.
Foi o apparecimento de Jorge.
A scena passára-se em uma sala contigua á do cartorio da casa, onde desde pela manhã Jorge se encerrára a examinar uns papeis de importancia. O padre suppunha-o fóra, e por isso promovêra aquella reunião, prestes a tornar-se tumultuosa. Assim pôde Jorge ouvir tudo.
Percebeu a necessidade de fazer cessar aquella scena escandalosa, e terminal-a airosamente, embora á custa de algum sacrificio. N'esta resolução levantou-se e abriu de par em par a porta pela qual communicavam as duas salas.
Assim que o viram, os criados emmudeceram. O padre julgou-se perdido.
Jorge dirigiu-se placidamente áquelles.
—Quando o snr. frei Januario lhes disse que me procurassem para serem pagos do que se lhes deve, era melhor que o fizessem logo, e não levantassem esse clamôr proprio de uma feira. Entrem, que eu aqui estou para lhes fazer contas.
E a um gesto imperioso de Jorge, os criados entraram timidos no gabinete, occultando-se uns com os outros.
—Entre tambem, frei Januario—disse Jorge ao padre, que procurava retirar-se sorrateiramente da sala.
O padre teve de obedecer, a seu pesar.
Jorge sentou-se á mesa e principiou a interrogar os criados, um por um, sobre a quantia que se lhes devia, e pagando-lh'a integralmente, depois de obtida a informação.
Assim os correu e satisfez a todos, á excepção do hortelão, que o estava a observar calado e com os olhos humidos.
Jorge voltou-se para elle e disse-lhe:
—Estou que te fazia offensa, se te pagasse ao mesmo tempo que a estes desconfiados. Tu és dos que esperam com esta garantia.
E estendeu-lhe a mão francamente aberta.
O hortelão quasi se precipitou para ella e apertou-a commovido nas suas.
—Ó snr. Jorge! A maior paga que me póde dar é… não me pagar nunca.
Movidos por esta scena, os outros criados vieram depositar na mesa outra vez o dinheiro recebido.
—Lá por isso… nós tambem esperamos…
Jorge restituiu-lhes o dinheiro.
—Não é necessario… Levem-n'o.
E depois acrescentou:
—As circumstancias actuaes da nossa casa obrigam-nos a fazer mudanças no serviço. Temos de reduzir o numero dos criados de dentro e augmentar os de lavoura. Por isso, vossês quatro, Francisco, Lourenço, Pedro e Romão, podem procurar outra casa. Para nos servir bastam os outros dois. Vossês, os de lavoura, ficam, se quizerem, e se tiverem parentes que pretendam empregar-se aqui no mesmo serviço, mandem-nos ter commigo. E agora podem ir.
O tom em que foram ditas estas palavras excluia qualquer observação.
Sahiram todos.
—Frei Januario—acrescentou Jorge, dirigindo-se ao padre, que estava meio aparvalhado—podia fazer-me saber mais delicadamente esta divida de casa. Apesar d'isso agradeço-lhe o ensejo que me deu de a pagar!
O padre resmungou não sei o quê, e sahiu cada vez com mais medo de
Jorge.
—Onde foi o diabo buscar já tanto dinheiro?—pensava elle.—Não póde deixar de ser da maçonaria.
O hortelão ficou só com Jorge.
O pobre homem estava enthusiasmado com a honrosa distincção que recebêra, e para manifestar o seu enthusiasmo passou a contar a Jorge como é que se tinha dado o ataque do monte das Antas.
Esta scena, divulgada em pouco tempo, concorreu, como dissemos, para augmentar os creditos de Jorge em toda a aldeia.
VIII
Succederam muitos dias sem que na vida dos differentes personagens, que já temos apresentado ao leitor, occorressem incidentes dignos de menção.
Mauricio permanecia na aldeia, e vivia n'ella a mesma vida que até alli, porque não se obtivera ainda da prima baroneza a resposta á carta de D. Luiz.
Apesar da energia com que vimos aquelle rapaz abraçar os nobres projectos do irmão, exige a verdade que se diga que elle soffria com demasiada resignação as delongas da empreza, na parte que lhe dizia respeito, e continuava a distrahir-se como d'antes em passeios, caçadas e aventuras galantes. Estava-lhe isto no caracter.
Jorge, esse deitára-se de corpo e alma ao trabalho. Estudava no gabinete, discutia nas conferencias com Thomé, e principiára já a realisar reformas e melhoramentos, promettedores de vantagens futuras.
Os capitaes agenciados pelo fazendeiro haviam já permittido libertar a casa de muita usura e encetar em uma das melhores propriedades do antigo morgado trabalhos agricolas mais activos e methodicos; viam-se já por lá as enxadas e os arados revolverem a terra e desarreigarem as hervas estereis; já se podava e enxertava nas vinhas e pomares quasi bravios, aproveitavam-se as aguas, fertilisava-se o solo, sentia-se renascer aquella natureza amortecida, como se entrasse na convalescença de uma longa enfermidade.
Frei Januario presenciava aquelles prodigios com espanto e despeito, murmurando dos gastos loucos, em que o rapaz se mettia.
—Muito havemos de rir a final—dizia elle.—Entradas de leão; agora as sahidas…
Não communicava porém as suas reflexões ao fidalgo, porque tinha mêdo de
Jorge.
D. Luiz, que em um dos passeios que costumava dar a cavallo, acompanhado de escudeiro, á distancia marcada pela velha pragmatica, teve occasião de observar esses melhoramentos, sentiu um intimo prazer, sabendo que aquella fazenda era agricultada por conta da casa. O fidalgo não procurou informar-se dos meios pelos quaes Jorge chegára a realisar o milagre. Cresceu a confiança no filho e de olhos fechados entregou-se a ella.
Não pararam aqui os trabalhos de Jorge. A casa, como já dissemos, luctava, havia muito tempo, com um importante litigio, que podia decidir do destino de quasi metade dos seus bens. Esta demanda, complicada e de uma marcha morosissima, tomára ultimamente uma feição pouco favoravel aos fidalgos da Casa Mourisca.
Frei Januario já prevenira D. Luiz de que a considerasse perdida.
Jorge, na revista a que procedeu nos archivos de familia, encontrou documentos, a seu vêr importantes e até alli não aproveitados, por incuria do padre-capellão. Mostrou-os a Thomé, que experiente n'estes negocios como um verdadeiro lavrador do Minho, confirmou a valia do achado, e ambos resolveram remettêl-os a um novo advogado, a quem se entregou a direcção do litigio.
Haviam pois sido bem encetados os trabalhos de Jorge. Longe ia ainda o seu pensamento da realisação completa. O que havia por fazer era muito mais do que o que estava feito, mas os principios animavam.
Por este tempo porém sobreveio um acontecimento, que algum tanto transtornou a face d'estes negocios.
Recebeu-se na Herdade uma carta de Bertha.
Preciso é porém dizermos algumas palavras a respeito de Bertha, antes de a introduzirmos em scena; porque a leitora suspeita já que vae chegar a final a heroina da historia; e a ausencia d'ella em sete capitulos inteiros talvez não tenha já sido pouco estranhada.
Bertha, segundo atraz fica dito, era a filha mais velha de Thomé.
Nascida na época em que o fazendeiro não era ainda o homem abastado em que depois se tornou, procuraram-lhe os paes bons padrinhos, para assegurarem o futuro da pequena.
Thomé obteve do fidalgo da Casa Mourisca a condescendencia de acompanhar a criança á pia baptismal; Luiza, pela sua parte, solicitou e conseguiu identico favor de uma senhora do Porto, para casa de quem ella por muito tempo lavára, quando n'esse mister occupava a sua robusta juventude.
A roda da fortuna, por uma das suas muito sabidas revoluções, alterou a posição relativa de toda esta gente, durante o decurso dos primeiros annos de Bertha.
Já sabemos como, em virtude d'esta revolução, Thomé subiu gradual e incessantemente, emquanto D. Luiz descia. O mesmo que a este ultimo succedeu á tal senhora, cuja indole bondosa e timida não soube oppôr estorvos ás prodigalidades de um irmão perdulario; vendo-se em consequencia d'isso obrigada a sahir do Porto, onde vendeu tudo o que tinha, para ir para Lisboa educar meninas.
A primeira discipula que teve foi Bertha. Os paes sentiam ambições por a filha e queriam dar-lhe a educação de uma senhora, aproveitando e cultivando n'ella as boas disposições que já adquirira na convivencia com os pequenos da Casa Mourisca, onde era recebida com affecto. Além d'isso, outra e mais generosa intenção levou-os a darem aquelle passo. Queriam concorrer para alliviar o infortunio da infeliz senhora, que sempre na opulencia os auxiliára e estimára. Possuiam porém bastante delicadeza para lhe offerecerem soccorros, sem um pretexto a coloril-os. Pediram-lhe pois que tomasse conta da educação de Bertha, e assim, além da mezada do costume, tinham o ensejo de fazerem valiosos presentes á mestra, que percebia e apreciava com lagrimas a generosidade d'aquelle proceder.
Foi assim Bertha mandada educar para Lisboa, o que não provocou escassos commentarios na aldeia, onde se disse que o Thomé da Herdade se afidalgava, e que já não queria ter filhos lavradores.
O senhor da Casa Mourisca não viu tambem com bons olhos aquelle passo de Thomé, cujo engrandecimento havia já muito tempo que principiára a incommodal-o.
Bertha, que fôra até então a companheira de brinquedos dos meninos da Casa Mourisca e de Beatriz, a pallida e meiga criança, que temos visto viver ainda na memoria de quantos a amaram, deixou a aldeia uma madrugada com lagrimas e soluços.
Desde então conservou-se em Lisboa, onde só o pae a foi vêr, por duas vezes, deixando-a inteiramente entregue aos cuidados da senhora, que lhe ganhára affeição, cada vez mais funda.
Bertha crescêra; as graças infantis foram a pouco e pouco perdendo n'ella aquellas illuminadas cores com que nos alegram e, diluindo-se nas mysteriosas sombras de uma juventude de mulher, sombras que não empanam a belleza, antes lhe dão mais e mais seductor relêvo. Bertha não era já a criança que sahira da aldeia, sem um pensamento que retivesse, sem um sorriso que encobrisse, sem um olhar que se desviasse pensativo ou timido, sem uma dôr que se não manifestasse em lagrimas; era já a virgem de dezoito annos, sob a influencia da vida nascente do coração, e portanto sujeita a todas as subtis impressões, dominada por todos os impulsos contradictorios e por todas as indefinidas aspirações d'aquella quadra magica.
A vida das cidades, sem lhe dar a morbida languidez, que tão sem razão anda confundida com a elegancia, apurára-lhe a delicadeza feminina, desenvolvêra-lhe a sensibilidade para os affectos e a intelligencia para os prazeres do espirito.
Mas o que em Bertha sobre tudo havia mais digno de referir-se aqui, por ser menos commum phenomeno do que esses que descrevemos, era a permanencia de uma razão clara no meio dos attractivos e seducções, com que a phantasia tantas vezes, em circumstancias taes, a offusca. Gozava, mas sem embriaguez; sentia, mas sem arroubamentos; e, apreciando as prendas de educação que ia adquirindo, nunca perdia de vista a modestia do seu nascimento e a modestia do futuro que naturalmente devia ser o seu. Se tinha sonhos de juventude… e quem os não tem n'aquella idade? sabia que sonhava e não se distrahia a procurar no mundo real as visões, que n'elles lhe appareciam.
A lembrança da sua origem modesta não a fazia melancolica, mas prudente. Não era aquella ideia uma sombra negra, que não lhe deixava vêr a luz; simplesmente um como crystal córado, que lhe permittia fital-a, sem mêdo de offuscação e cegueira.
Assim, no meio das suas effusões, das suas melancolias e até dos seus pequenos caprichos de rapariga, Bertha nunca deixava de ser uma rapariga de juizo.
A educação de collegio não produzira n'ella a adocicada pedantaria de algumas meninas da moda. Nas cartas, que escrevia aos paes, nunca se lia uma phrase que elles não entendessem, uma palavra que os embaraçasse e lhes fizesse sentir a inferioridade da sua educação. Revelava-se n'isto um natural instincto de delicadeza, que Thomé, por um instincto analogo, sabia apreciar.
Sentia que Bertha nunca se envergonharia de chamar a elle pae e mãe á boa Luiza, e esta convicção não o deixava arrepender de a haver educado com esmero. Pobre do homem se esses cuidados lhe tivessem alienado os affectos da rapariga!
As cartas de Bertha eram escriptas de fórma, que não sómente aos paes agradavam, mas a quantos as liam.
Thomé mostrara-as a Jorge, e este não pôde deixar de apreciar a redacção singela e despretenciosa em que parecia reflectir-se a candura e pureza d'aquelle caracter de mulher. Havia n'ellas uma maneira de pensar tão acertada, vistas tão despidas de preconceitos, tanto sentimento revelado com tanta sobriedade de phrases sentimentaes, que são o maior achaque nas cartas de mulher; transpareciam tão distinctamente os suaves e generosos instinctos da sua alma feminina, que o espirito de Jorge sympathisou naturalmente com aquelle outro espirito que, n'essas ligeiras manifestações, se revelava tão irmão seu.
A pouco e pouco uma d'estas sympathias, que ás vezes se originam no coração, lentas, brandas, ignoradas, sem a agudeza das paixões, despertadas por um ente, de quem apenas se conhece o nome, ou quando muito uma feição, um acto da vida, um pensamento, insinuou-se no coração de Jorge. Era um sentimento, que não o inquietava ao principio, nem lhe perturbava o espirito, por isso não se acautelou d'elle; deixou-se repassar d'aquelle grato influxo, sem se lembrar sequer de lhe estudar a natureza, e muito menos de suspeitar-lhe os perigos.
Um dia mostrou-lhe Thomé o retrato da filha. Jorge encontrou n'elle as feições que conhecêra infantis, animadas agora pela vida da adolescencia. Pareceu-lhe não haver contradicção entre aquella physionomia e o caracter que suppozera a Bertha; e a imagem da rapariga começou a apparecer-lhe com insistencia nos seus devaneios de rapaz.
Jorge então assustou-se. Sentia pela primeira vez alguma coisa em si, de que a razão lhe não dava boas contas. Pareceu-lhe ser aquillo uma fraqueza, indigna do seu caracter serio, e resolveu pois vencêl-a.
Desde esse momento principiou uma estranha lucta n'aquella alma, sem que apparecessem fóra vestigios que a denunciassem. Sentia um inexprimivel prazer ao ouvir fallar de Bertha; e por isso mesmo fugia aos ensejos de experimental-o. Esta contenção forçada acabou por produzir no espirito de Jorge um effeito singular; foi um grau de irritação, revelado em uma especie de hostilidade para com Bertha, cuja imagem viera perturbar-lhe a limpidez de coração, que tivera até alli, e fazer-lhe pela primeira vez vacillar a razão, que todos n'elle admiravam. Era o caso de poder dizer-se, em estylo de conceitos: «queria-lhe mal por lhe querer bem.» Receiava-se d'ella, e fazia o possivel para desvanecer a impressão por que se sentia dominado.
Taes são as indicações que julgamos dever dar a respeito de Bertha, antes de narrarmos o effeito da carta, que d'ella se recebeu na Herdade.
Esta não era uma simples carta de cumprimentos ou d'aquellas, em que a filha se estendia em longas conversas com o pae, contando-lhe por miudo os singelos episodios da sua vida de rapariga. D'esta vez havia n'ella uma nova importante e que ia modificar o plano de vida da familia.
A senhora, em casa de quem Bertha se educava, havia repentinamente fallecido.
Bertha escrevia assim ao pae:
«Meu querido pae.
«Escrevo-lhe a chorar e com o coração a partir-se-me de dôr. A minha madrinha falleceu esta madrugada. Ainda hontem à noite esteve a conversar e a rir comnosco, e tinhamos até combinado para hoje um passeio a Cintra! De madrugada foram acordar-me a toda a pressa para ir ter com a senhora, que estava mal. Cheguei para a vêr expirar; custou-lhe já a dar-me um beijo e a despedir-se de mim. Imagine como estou! Nós todas ficamos como loucas! Ainda isto me parece um sonho! Veja que malfadada senhora! Agora que principiava a viver outra vez mais feliz!… Peço-lhe que me diga o que devo fazer n'este caso. Eu sei que o pae já uma vez fallou em mandar-me para outro colegio, se por acaso me faltasse a minha madrinha. Deixe-me porém lembrar-lhe algumas coisas, e depois decida. Eu não quero dizer que tenha uma educação perfeita; mas, como não conto, nem desejo, viver nas salas d'aqui, posso bem passar sem esses apuros, que para isso me seriam precisos. Muito tem já o pae feito por mim; é preciso agora olhar por meus irmãos, e alguns estão em idade em que ainda podem agradecer-me alguns serviços, que eu ahi consiga fazer-lhes. Mande-me ir. A mãe deve ter muito trabalho em olhar por tudo em casa. É tempo que eu a ajude em alguma coisa. Aos dezoito annos é uma vergonha não o fazer. É uma parte da minha educação que posso concluir ahi e que me será bem necessaria. Demais confesso-lhe que, depois da morte de minha madrinha, havia de custar-me a continuar em Lisboa. Peço-lhe pois que me deixe ir viver comsigo e matar as saudades, que já tenho de todos e de tudo.
Muitas lembranças á mãe, muitos beijos aos pequenos.
Sua filha, que espera muito cêdo abraçal-o,
Bertha.
P.S. Que não esqueça dar muitos recados á Joanna, ao Manoel da Costa
e á filha, assim como á tia Euzebia e ás mais pessoas amigas.»
Thomé leu á mulher a carta da filha, e entre ambos discutiram o partido que conviria adoptar.
Saudades maternas e paternas, desejos de vêr de perto e abraçar a filha dilecta e primogenita, que havia tanto tempo lhes andava longe das vistas, o sonhado prazer de a sentir, animando a casa com todo o calor de vida que em torno de si diffunde uma rapariga de dezoito annos, resolveram a questão no sentido indicado por Bertha; e para assim a resolver, quasi bastava que ella o indicasse.
Decidiu-se pois que Bertha voltasse para a Herdade.
D'ahi os necessarios preparativos para a accommodação da filha, cujos habitos, modificados pela vida da cidade, deviam ter exigencias, a que era justo attender.
O instincto materno adivinhava melhor do que era d'esperar essas miudas necessidades, e a liberalidade paterna provia a ellas. E tudo isto preoccupava o feliz casal, cujo contentamento se reflectia em criados e jornaleiros.
Jorge encontrou uma noite Thomé ainda empenhado n'esta labutação caseira, e soube d'elle a causa de tanto alvoroço.
O filho mais velho de D. Luiz ouviu com sobresalto a noticia.
Parecia prever a aproximação d'um perigo, que mal ousava definir.
Dissimulou comtudo o que sentia, e deu a Thomé e a Luiza os parabens pela proxima chegada da filha, e até os auxiliou com o seu alvitre na resolução de algumas difficuldades, relativas ao arranjo do gabinete destinado a Bertha.
Sahiu porém da Herdade debaixo de estranhas impressões moraes. Experimentava um mixto de mal definido prazer e ao mesmo tempo de desgosto.
Thomé resolvêra ir elle proprio a Lisboa buscar a filha.
Interromperam-se pois, durante alguns dias, as conferencias economicas da Herdade.
A demora de Thomé não foi longa.
Pouco mais de oito dias passados, era elle de volta com a Bertha.
Uma tarde vinha Mauricio a cavallo de uma excursão pelos campos, quando, ao descer por entre os pinheiros de uma bouça cerrada, viu passar, em um curto lanço de estrada, que as entreabertas do arvoredo deixavam patentes, o vulto de dois cavalleiros.
Attrahiram-lhe naturalmente a attenção e esperou, para melhor os reconhecer, que chegassem a outro lanço mais proximo e mais descoberto da estrada que seguiam.
De facto, pouco depois viu que eram um homem e uma senhora, que cavalgavam a par.
No homem reconheceu Thomé; a senhora pareceu-lhe nova e elegante.
Em resultado d'esta dupla descoberta dirigiu o cavallo immediatamente para elles.
Perto principiou a divisar na dama, que Thomé acompanhava, feições conhecidas.
Antes porém que esclarecesse a vaga ideia que aquellas feições lhe iam suscitando, o fazendeiro exclamou, saudando-o com a mão:
—Venha dar-me aqui os parabens, snr. Mauricio; venha cá, que me volta ao pombal uma pomba que deixei sahir d'elle ha muito tempo.
Mauricio acabou por corroborar a suspeita que já tivera.
Era Bertha a amazona.
Bertha, a pequena aldeã com quem brincára em criança no pateo e na quinta da Casa Mourisca, a companheira de sua irmã Beatriz, a afilhada de seu pae e a pequenina dama, a quem dedicava já então os seus galanteios infantis; era ella, mas com todas as surprendentes e rapidas transformações que opéra o sangue da juventude na formosura de criança, com todo o realce e prestigio que dá á belleza a educação.
Bertha era uma rapariga de olhos negros e de bôca graciosa, onde fluctuava um sorriso expressivo ao mesmo tempo de alegria e de bondade. Havia nos movimentos, nos olhares e nos modos d'ella um mixto da candura de uma criança e dos delicados instinctos da mulher; reconhecia-se a falta de dissimulação, que é propria dos caracteres generosos, e ao mesmo tempo uma natural dignidade, que impõe respeito aos menos reverentes.
Mauricio sentia-se maravilhado diante da filha de Thomé.
—Bertha!—exclamou elle, sem disfarçar a sua surpreza, nem desviar os olhos da rapariga, que o saudára córando.—E é certo que é Bertha! Conheço ainda o sorriso, que é o mesmo de outros tempos. Mas que differença em tudo o mais!
Bertha desviou os olhos sob a insistencia e expressão dos de Mauricio, e dominando a custo a commoção conseguiu dizer:
—Fiz-me mais velha, não é verdade?
—Não, Bertha, fez-se um anjo—acudiu Mauricio.
—Isso é que não—atalhou Thomé—anjo era d'antes. Hoje já não repicariam os sinos, se ella morresse.
—A terra teria bem razão para lamentar-se. Ao céo é que competiriam as festas—atalhou, galanteando, Mauricio.
—Tambem eu encontro mudança em si, snr. Mauricio—observou
Bertha.—Quando o deixei, não dizia ainda d'essas coisas.
E a mesma intima turbação tirava-lhe ainda a firmeza á voz e ao olhar.
—Porque não as sentia, Bertha—redarguiu Mauricio.
Bertha abanou a cabeça com ar de duvida e quasi de tristeza, e tornou sobresaltada:
—Parece-me que os que melhor dizem d'essas coisas são os que menos sentem.
—Tambem lhe ensinaram a desconfiar, Bertha?
—É tão facil ensino! Cada um aprende por si.
—Vamos—interrompeu Thomé—nada de estar parados no meio da estrada. Lembra-te, Bertha, de que tua mãe a estas horas não faz outra coisa mais do que espreitar da janella a vêr se te vê chegar.
—Vamos lá.
Mauricio dirigiu o cavallo para o lado do de Bertha, que cavalgava assim entre o fidalgo e o pae.
—Que saudades me estão fazendo estes sitios!—dizia Bertha, suspirando e emquanto corria a vista pelo horisonte, que a rodeava.—Tudo me é tão conhecido ainda!
—Lembra-se d'aquelles freixos, lá em baixo, ao descer para os Palheiros
Queimados?—perguntou Mauricio, apontando para o logar que designava.
—Bem sei. É onde está a fonte da Moira.
—E aonde nós um dia fomos com a Anna do Védor colher agriões. Está certa?
—É verdade. E por signal que nos sahiu da quinta do Emigrado um cão grande que lá havia, e que se atirou a mim com uma furia!
—E não se lembra de quem lhe acudiu?
—Sim, foi o snr. Mauricio, mas tambem lhe valeu a Anna do Védor, que se não fosse ella, vamos, não sei o que seria.
—Ainda assim não impediu que o endiabrado me mordesse no pulso; ainda conservo a cicatriz. Olhe.
E Mauricio mostrou o pulso a Bertha, que se curvou para observar o vestigio d'aquelle episodio de infancia.
—É verdade—proseguiu Bertha, já mais á vontade—e a boa ti'Anna do Védor? que tanto lhes queria, a si e ao snr. Jorge? Sei que vive; mas ainda é o que era d'antes? alegre, robusta, franca?…
—Quem? a ti'Anna?!—acudiu Thomé—verás, Bertha, que ainda te parece mais nova. Aquillo é que é mulher de casa! É um gosto vêl-a, no meio dos campos, de mangas arregaçadas e chapéo de palha na cabeça e de enxada ou mangoal na mão. O seu trabalho vale por o de dois homens. Pois n'uma eira?
N'este ponto Thomé deu um assobio, que exprimia a grande conta em que tinha o trabalho de Anna do Védor.
—O filho está regedor.
—É uma boa e generosa alma—tornou Mauricio, com uma expressão de sincera sympatia.—E quer-nos como a filhos.
—Isso quer—confirmou Thomé—quando falla nos seus meninos que trouxe ao collo e que sustentou com o seu leite, luzem-lhe os olhos.
—E tambem me ralha com uma severidade!
—Vamos, que ella bem sabe porque o faz. Então pensa que não lhe merece ainda mais?
—Não digo que não. Só me queixo de certa parcialidade que manifesta por
Jorge.
—E como vae o snr. Jorge?—perguntou Bertha.
—Muito bem. Fez-se caixeiro. Não sabe? Atirou-se aos livros e á papelada da casa, como um homem, e já não ha de tirar-lhe palavra que não seja de contas e de negocios.
—E é um homem ás direitas—disse Thomé, com gravidade.
—Pois sim, mas podia distrahir-se mais um bocado. Mas então? Deu-lhe
Deus aquelle genio frio como gêlo!…
—Eu não sei lá se é frio ou se é quente. O que sei é que é um rapaz de juizo e que, se continuar assim, ha de remediar muita doudice, antiga e moderna, que ha lá por casa.
—A moderna é commigo, aposto. Não tem razão. Eu tambem estou decidido a trabalhar. Se ainda aqui me vê, a culpa não é minha.
—Então vae partir?—perguntou Bertha.
—Que remedio, Bertha? Cumpro uma dura lei. Deixo o coração por aqui, acredite; por esses valles, por essas devezas, por essas ribeiras… Mas que lhe hei de fazer?
—E para onde vae?
—Eu sei? Para onde me levar o destino. Mas o Thomé ri-se! Seu pae ri-se, Bertha!
—Rio-me da lamuria. Quem o ouvir, ha de acreditar que elle parte devéras e que lhe custa immenso a partida.
—E então?
—A mim já me custa a crêr que o snr. Mauricio nos deixe; mas, a isso succeder, não ha de ser a chorar que arranjará as malas.
—É injusto com o meu coração. É o que se segue.
—Não, senhor; não sou; mas sei o que é ter vinte annos, e sei o que é essa cabeça. E agora o nosso caminho é por aqui. O snr. Mauricio, se quizer dar-nos o prazer da sua companhia, tem no fim d'esta rua uma casa para o receber, senão…
—Agradecido, Thomé. Outro dia será. Não quero perturbar com a minha presença as alegrias de familia. Adeus, Bertha, continuaremos a ser os amigos que eramos d'antes, não é verdade?
—Porque não, Mauricio… snr. Mauricio?
E Bertha, com um sorriso de generosa confiança, estendeu a pequena e delicada mão á que Mauricio lhe offerecia.
Este, com uma galanteria, que o seculo actual traz quasi esquecida, levou-a cavalheirosamente aos labios, movimento que augmentou as côres nas faces de Bertha; depois, cortejando-a com perfeita elegancia, partiu a galope.
Bertha seguiu-o por muito tempo com os olhos e ficou pensativa, depois que o perdeu de vista.
Thomé, que notára tudo isto, não deixou passar muito tempo que não admoestasse a filha.
—Olha cá, Bertha, tem cautela com o teu coração, que não vá elle por ahi deixar-se prender. Eu não sei como é costume viver-se hoje lá na cidade, mas aqui sei o que vae. Eu te digo, não ponhas muita confiança n'estas amizades de Mauricio. Não digo que elle seja mau rapaz, mas a cabeça é que é assim não sei como. E n'isso mesmo é que está o perigo. Aqui ha poucos rapazes que agradem mais do que elle; é bem feito, vivo, esperto, generoso… Na tua idade, e com a educação que tens, não era para admirar que te agradasses de um rapaz assim. Mas, pensa emquanto é tempo, filha, no mal que a ti propria fazias, se estouvadamente te deixavas enfeitiçar. Elles são os fidalgos que sabes, e mais fidalgos ainda se julgam do que são. Tu, rapariga, és minha filha, e eu sou um lavrador, que já servi n'aquella casa. Entendes? Ó Bertha, por quem és, não me faças arrepender da educação que te dei. Porque eu, ás vezes, tenho minhas duvidas. Digo eu commigo: «Faria eu bem em educar minha filha assim? Se a tivesse deixado viver na aldeia e a creasse como filha de lavrador, dava-lhe um marido lavrador, e ella havia de estimal-o e de ser feliz com elle, e de olhar com amor pelos filhos descalços, que lhe andassem pelos campos e apegados á saia de baêta; mas assim… Quem poderá costumal-a a isso? Mas que outro marido póde ella escolher?»
Bertha escutou o pae com um sorriso nos labios, mas sorriso que não annullava a expressão melancolica e pensativa, que conservavam o resto das feições. Mais de uma vez se perturbou ao ouvil-o, mas cêdo adquiriu a serenidade habitual.
N'este ponto atalhou-o, dizendo:
—São prudentes os conselhos que me dá. Farei por não os esquecer. Mas não se inquiete pela minha sorte. Nunca me deixei illudir pelos bens que a sua bondade me teem permittido gozar na vida; não perdi de vista o que sou. Sei ao que devo aspirar, e farei por não collocar a felicidade muito acima do alcance de meu braço. Na amizade de Mauricio creio que não haverá perigos para mim; mas se os houver, hei de saber fugir-lhes. Foram meus companheiros, quando brincavamos todos n'aquella casa; quero-lhes por isso, mas sei o que d'elles me separa.
—Lá de Jorge nada temas. É um caracter serio aquelle. Se disser que é teu amigo, é teu amigo devéras; senão, não t'o diria; mas este…
—Jorge é ainda o que sempre foi. Já em criança era o mesmo. Sempre tão serio!
—Agora ainda mais. Elle hoje não pensa senão nos negocios da casa, que tomou a seu cuidado e que levará a bom fim. Creio-o. Vem quasi todas as noites a nossa casa; vem de noite por causa do pae, porque o velho não tem cura, a querer-me mal.
—Sim?! Mas que pena!
—Deixal-o lá, que eu em vingança hei de fazer-lhe o bem que puder.
Poucos momentos depois chegavam a casa o pae e a filha; esta foi recebida nos braços da boa Luiza, que a devorou com beijos e a banhou de lagrimas generosas; os irmãos pequenos olhavam espantados para Bertha que não conheciam, e cujas maneiras de senhora estranhavam. Os criados felicitavam-n'a tirando o chapéo e murmurando phrases incompletas.
Bertha no meio d'aquella effusão, d'aquelle cordial acolhimento, d'aquelle renascer dos dias passados e despertar de memorias queridas, sentia-se feliz.
Debalde Thomé, um dos mais folgados corações alli presentes, bradava que era tempo de pôr termo á festa, que cada um tinha a sua vida a tractar, e que Bertha precisava de descanço; os abraços succediam-se, os beijos estalavam, as perguntas cruzavam-se e interrompiam as respostas em meio.
Prolongou-se por muito tempo aquelle grato alvoroço, que produz a chegada de uma pessoa querida. A ordem, a etiqueta, os costumes, tudo esquece; a manifestação é ruidosa, irresistivel, desordenada, anarchica. Sómente quando principia a acalmar-se este agradavel delirio de alma, é que se repara nas irregularidades da scena, e que se remedeiam.
Succedeu d'esta vez que só passada meia hora Luiza notou que tinham estado tanto tempo no quinteiro, quando os esperava a sala que ella de proposito e tão anticipadamente preparára para a recepção.
A familia recolheu-se então, principiou mais regular e ordenada conversa entre mãe e filha, e prolongou-se até tarde.
Thomé foi n'esse dia pouco vigilante nos campos e mais caseiro do que era seu costume.
Foram momentos festivos para a Herdade, d'estes que é inutil descrever, porque não ha expressões que bem traduzam o que se sente então. Suppram-n'as as recordações do leitor; e muito sem conforto deve ter sido o seu passado, se não lhe dá elementos para conceber alegrias d'estas.