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Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia cover

Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia

Chapter 12: IX
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About This Book

A obra acompanha uma família nobre provincial cujo imponente solar, popularmente apelidado em referência à presença moura, domina a aldeia; descreve a arquitectura melancólica do paço e o declínio económico provocado por dívidas, terras mal cultivadas e abandono; expõe tensões familiares e políticas, com um patriarca conservador e os laços partidos pela revolução, e a vida dos dois filhos jovens; intercala tradições locais — lendas de mouras encantadas, jogos de mouros e cristãos e rumores de tesouros enterrados — e pinta a paisagem social e sentimental da aldeia entre memória, orgulho e ruína.

IX

Duram pouco as effusões, dissipa-se em breve o enthusiasmo dos primeiros instantes, em que tornamos a vêr scenas e pessoas conhecidas, de que por muito tempo vivemos separados. A alma, de subito agitada, readquire gradualmente a serenidade do costume; e o coração, que julgava saciar emfim a ancia de mal definidos gozos em que continuamente vive, conhece que ainda não chegou essa hora; porque o invadem de novo as mesmas vagas e inquietadoras aspirações que sentia.

É grande a alegria do regresso, mas rapidos os momentos, em que se experimenta na sua intensidade. Chegou-se de longe a phantasiar um prazer perduravel, sem fim e, apoz as primeiras e irreprimiveis expansões, desvanece-se a illusão em que se vinha; como sempre, como em toda a parte, o vazio sente-se no coração, que nenhum gozo enche, e ahi se volta a aspirar sem saber a quê, e a aguardar uma nova aurora sem saber d'onde.

Quando, á noite, Bertha se retirou emfim ao seu antigo quarto, havia já satisfeito a sêde de affectos e de saudades, que a devorava, ao chegar.

O coração batia-lhe com o rithmo normal, habituára-se de novo a sua sensibilidade aos objectos que lhe foram familiares na infancia; da impressão que o primeiro olhar que lançou sobre elles lhe produzira, já nem indicios restavam.

O passado, resuscitando, perdêra já o prestigio e a poesia, que só como passado tem.

Ó feiticeiras fadas, que nos acompanhaes quando por longe andamos, devorados de saudades, a lembrar-nos da terra em que nascemos, porque tão depressa nos abandonaes á chegada? Porque dissipaes os vapores inebriantes de que rodeaveis aquellas imagens aos nossos olhos fascinados, e nos fazeis vêr a realidade como a viamos d'antes?

Bertha, só no remanso e solidão do seu quarto, sentiu uma profunda melancolia tomar-lhe o coração. Os cuidados e disvelos de Thomé e de Luiza não tinham sido sufficientes para transformar completamente aquelle aposento em um d'esses recintos, perfumados e graciosos, em que respira, como em atmosphera propria, uma mulher delicada.

A este desconforto relativo não podia ser de todo insensivel a organisação feminil de Bertha.

Sem que ella propria tivesse consciencia do que lhe produzia esse effeito, sentia-se com uma disposição para lagrimas, que a surprendia.

O socego da hora, o silencio do campo, apenas cortado por uns indistinctos murmurios, que são o mysterio das noites campestres, conspiravam para augmentar-lhe esta melancolia.

Ha horas assim, em que parece que sentimos confranger-se dentro de nós o coração, e o futuro escurecer e contrahir-se o circulo que nos abrange a existencia, como um horizonte, que as nuvens pesadas da tempestade estreitam cada vez mais a suffocar-nos.

Não accusem Bertha por esta inexplicavel tristeza que lhe invadiu o coração na propria noite, em que voltára á casa paterna. Não duvidem por isso dos affectos d'aquella amoravel indole de mulher.

Nem todas as almas nascem dotadas da commoda flexibilidade com que algumas a tudo se amoldam. Ha-as tão delicadas, que a menor mudança resentem.

Os corações que se prendem depressa com raizes onde se demoram, são os que mais soffrem nos primeiros momentos de uma transplantação.

Não era isto em Bertha pezar por ser tão modesta a casa dos seus paes; a sua tristeza era mais de instincto que de razão. E pelas impressões que vem do instincto, ninguem é responsavel; só á razão ha direito de pedir contas, e a de Bertha não recearia prestal-as.

Como para fugir á estranha melancolia que a dominava, Bertha chegou á janella do quarto, que deitava para os campos.

Ha uma mysteriosa solemnidade no espectaculo que de noite, e noite de pouca luz, se goza assim de uma janella aberta, no campo. Ha fóra um silencio que amedronta, uma escura vastidão que apavora, silencio que ás vezes interrompe o rastejar furtivo de um reptil, o cahir de uma folha, e não sei que outros ruidos vagos; escuridão, onde parece distinguir-se o movimento de umas fórmas estranhas e monstruosas.

Se vos demoraes silenciosos n'essa contemplação por algum tempo, já não a interrompereis por uma palavra, por um movimento, sem que essa interrupção vos sobresalte ou intimide quasi. Estremecereis ao ouvir-vos no meio d'aquelle silencio. Instinctivamente falla-se baixo. Parece que aquella paz, que aquella quietação, que aquella treva nos absorve, que nos domina, que nos attrahe e que de alguma maneira nos faz parte integrante de si mesma.

Opera-se em nós uma quasi magnetisação. Adormece a sensibilidade que nos revela o mundo exterior; exalta-se o espirito; e o ruido, que nos acorda d'este sonho, faz-nos estremecer. E o que se pensa calado n'esses momentos, Sancto Deus! Como a imaginação vagueia, como parece que d'aquellas confusas sombras, que temos diante de nós, nos surjem as memorias do passado e veem, em silencioso vôo, adejar sobre as nossas cabeças e estontear-nos com as suas rapidas e vertiginosas voltas.

O passado de Bertha era uma singela historia dos mais innocentes affectos. Não havia n'ella a intensa luz dos amores, apenas o debil clarão da aurora que os precede, essa mysteriosa vibração de alma, que sente nascer em si faculdades novas.

Eram pois imagens apraziveis as que n'aquelle momento lhe appareciam.

Entre ellas a mais persistente era a da sua pobre amiga Beatriz, a delicada criança, que parecia ter vivido sómente para semear de saudades o coração de quantos a conheceram.

Reviviam para Bertha n'aquella hora todas as scenas da infancia passadas com ella; os jogos, os folgares e até as lagrimas, choradas em commum.

Que tempos!

E ao lado da meiga e pallida figura de Beatriz surgiam as das outras duas crianças, seus irmãos. Via o rosto infantil de Jorge, no qual já então havia uns assomos da seriedade do seu caracter futuro; lembrava-se Bertha das vezes em que elle tomava um ar grave para admoestar ou reprehender os seus mais turbulentos companheiros, e do respeito que todos lhe tinham, e do muito em que estimavam a sua opinião; e a contrastar com esta serena imagem, esboçava-se a do inquieto, vivo e estouvado Mauricio, criança prompta nos risos e no chôro, violenta nas expansões, tão amoravel como colerica, e em cujo coração infantil ferviam já nascentes as paixões de homem. Era esta talvez de todas a imagem que avultava mais distincta nas recordações de Bertha. Que de episodios em que ella recebia a luz principal do quadro! Dos dois irmãos fôra este o predilecto; o seu coração de criança abrira-se mais á franqueza de Mauricio, do que á seriedade de Jorge; havia no olhar d'este uma expressão grave que a intimidava. Depois a differença da idade concorria para augmentar esse effeito.

E Bertha, pensando n'isto tudo, erguia os olhos para o vulto da Casa
Mourisca, onde se tinham passado aquellas alegres scenas.

Era escuro todo elle, e parecia alli posto, como um d'estes monstros enormes, que guardavam os jardins encantados.

De repente o monstro abriu um olho.

Appareceu uma luz em uma das torres do palacio.

Era a unica que divisava em toda aquella escuridão.

Bertha não pôde mais desviar os olhos d'ella.

De quando em quando, desapparecia momentaneamente a luz, como se alguem passeiasse diante. Depois fixou-se, e sómente mais de espaço a espaço se eclipsava, para surgir mais viva.

Tudo parecia indicar que se velava alli dentro.

—Será o snr. D. Luiz?—perguntava a si mesmo Bertha, observando a luz.—Em que pensará elle a estas horas? Pobre velho, alli só, n'aquella casa deserta!… É em Beatriz de certo que pensa como eu… Ou, quem sabe? talvez não seja o fidalgo, mas algum dos filhos; Mauricio, provavelmente… Sim, alli deve ser o quarto d'elles…

E a imagem do mais novo dos filhos de D. Luiz entrava outra vez no campo da visão de Bertha.

As palavras que trocára com elle aquella tarde, a maneira como a olhára, e o que o pae depois lhe dissera a respeito do rapaz, tudo a fazia reflectir.

Adivinharia Thomé com o seu bom instincto de homem do campo?

Haveria para o coração de Bertha perigos na presença de Mauricio?

Era tão natural! Em uma alma, preparada para o amor, e que, á similhança da noiva nos livros sagrados, espera ha muito, perfumada de mirrha e de puros aromas, o noivo que tarda; encontra tão facil asylo a imagem de um adolescente, como Mauricio, sobre tudo se o rodeia o prestigio das saudades de um passado ridente e o vago reflexo que sempre deixam de si umas pueris paixões, com que se illudiu a infancia, que razão tinha Thomé para receios e razão tinha Bertha para, pensando n'elles, sondar com inquieta apprehensão o sanctuario dos seus mais intimos affectos.

Prolongou-se esta contemplação em Bertha, e succederam-se-lhe no espirito os mais diversos pensamentos, emquanto os olhos se fixaram na luz da Casa Mourisca. Só muito tarde desappareceu subitamente essa luz. Bertha, como acordando de um sonho, voltou-se então para o interior do quarto, do qual lhe parecia haver andado longe em todo aquelle tempo.

A vela, quasi gasta, que tinha ao lado do leito, mostrava-lhe o muito que, sem o sentir, se prolongou aquella sua abstracção.

A vista dos objectos do quarto evocou-a á realidade. Passou as mãos pelo rosto, como para desviar de si a sombra dos graves pensamentos que a opprimiam, sacudiu a cabeça suspirando, e procurou serenar o espirito, para dormir.

—É necessario ter juizo—murmurava ella, soltando as tranças—e soprar quanto antes estes nevoeiros que me rodeiam, para vêr, como elle é, o sol da realidade. É tempo de me deixar de loucuras, e de aceitar a vida que tenho a viver, como ella deve ser aceita por uma mulher como eu. Os annos de criança passaram.

E adormeceu n'esta prudente e ajuizada resolução.

Assim como a luz, que, por entre as trevas da noite, rompia de uma das janellas da Casa Mourisca, tivera quem a observasse e prendesse a ella uma longa serie de pensamentos; tambem a do quarto de Bertha não se perdêra no espaço, sem encontrar uns olhos que lhe recolhessem alguns raios na passagem.

Jorge era quem velava no unico aposento alumiado do velho solar do fidalgo.

Costumava prolongar a sua leitura e os seus estudos por altas horas da noite, interrompendo-os de quando em quando por demorados passeios no quarto, ou melhor diremos, continuando-os assim.

Era d'elle o vulto que Bertha via passar por diante da luz, occultando-a momentaneamente.

Esta noite havia porém mais agitação em Jorge do que lhe era habitual; os seus movimentos tinham o que quer que era nervoso e quasi febril; concentrava menos o espirito na leitura, e interrompia-a mais frequentemente.

As vigilias de Mauricio não eram mais curtas do que as de Jorge, mas consagravam-se a differente mister; gastavam-se em aventurosas digressões pelos montados e valles da aldeia, em visitas aos solares das circumvisinhanças, onde houvesse uma mesa de wist ou um canto de fogão, animado pelo sorriso das damas.

Quando voltava a casa, vinha ainda encontrar o irmão estudando, e era de costume d'elles passarem alguns momentos a conversar.

N'aquella noite, Mauricio recolheu-se muito tarde. Ao sentil-o, Jorge, que passeiava no quarto, sentou-se depressa á banca, e inclinou a cabeça sobre um livro que tinha aberto diante de si.

Á entrada de Mauricio, Jorge apenas lhe acenou com a mão, e proseguiu ou fingiu que proseguia na leitura que encetára, até terminar a pagina.

—Boas noites, nigromante—saudou-o Mauricio.—A estas horas, n'esta torre, á luz mortiça d'um candieiro e com um livro aberto diante de ti, representas admiravelmente um astrologo.

Jorge apenas lhe respondeu com um sorriso e continuou a folhear o livro.

Mauricio chegou-se á janella:

—Mas é preciso, de quando em quando, examinar as estrellas tambem. E ellas hoje que estão tão scintillantes! Ah! grande novidade no nosso firmamento! Graças a Deus que, além de nós, ha já mais alguem na aldeia que não dorme a estas horas!

Jorge fechou o livro, e foi ter com o irmão á janella.

—Que queres dizer?—perguntou aproximando-se.

—Que descobri um planeta novo! mais uma luz na aldeia!

—Uma luz?!

—Sim, e é em casa de Thomé.

Jorge fitou a luz com certa curiosidade e conservou-se algum tempo calado; depois murmurou:

—Thomé ainda de vela a estas horas! É singular!

—Faz-lhe mais justiça—tornou Mauricio.—Thomé dorme ha boas quatro horas. A gente do campo é incapaz do extravagante delicto de escandalisar com luz as trevas da noite. N'aquillo percebem-se vestigios de habitos cidadãos. Quem vela é a filha, com certeza.

—Ah! sim… Bertha… esquecia-me de que tinha voltado—acudiu Jorge, esforçando-se por dizer isto em tom natural e indifferente.

—Voltou, e bem outra do que foi!—advertiu Mauricio.

—Em quê?—perguntou Jorge, olhando para o irmão.

—Foi d'aqui uma criança agradavel, e veio uma encantadora mulher!

—Ah! ah; já notaste?—disse Jorge, com um sorriso contrafeito.

—Digo-te a verdade, Jorge. Parecia-me impossivel, ao vêl-a, que fosse a filha do Thomé. Um ar tão delicado, umas maneiras tão distinctas, tão de cidade!…

—Olha se te deixas apaixonar por ella; anda lá!—continuou Jorge, ainda no mesmo tom.

—Não seria prova de mau gosto, afianço-te. Que superioridade, comparada a todas as nossas primas d'estes arredores! O que é a educação!

Jorge encolheu os hombros, dizendo com certo modo irritado:

—Provavelmente não produzirá em mim os mesmos effeitos. Tenho a certeza de que hei de sentir saudades, ao vêl-a, da Bertha, que conheci pequena.

—Não duvido, porque és bastante philosopho para isso. Eu por mim confesso-te que, na idade em que estou e, apesar de toda a sympathia que tenho por crianças, não me sinto com disposições para repetir as palavras de Christo, a respeito d'ellas. Eu prefiro que se cheguem para mim… as grandes…

—Em vez da criança alegre e innocente—proseguiu Jorge com acrimonia—da criança que brincava comnosco e com a nossa pobre Beatriz, preferes encontrar a collegial, com o espirito voltado todo para a moda, com um pouco de geographia e de historia na cabeça e deixando cahir da bôca, quando falla, palavras francezas, como deitava perolas preciosas a heroina d'aquelles contos que nos ensinavam em pequenos. E é isto o que te encanta?… Pois olha, eu até já não gosto de vêr aberta aquella janella a estas horas. Sabe-me aquillo a romanticismo, e é nas raparigas uma doença impertinente, insupportavel.

E Jorge retirou-se da janella com um mau humor difficil de explicar.

—Ora! se o facto de uma janella aberta de noite fosse indicio do crime que dizes, até tu, o homem menos capaz de commettêl-o que eu conheço, poderias ser tambem accusado. Enganas-te; Bertha é realmente adoravel. Verás. As mulheres, Jorge, teem isso comsigo. Amoldam-se muito mais depressa aos habitos de elegancia do que os homens. Com certeza ninguem suspeitará, ao vêr Bertha, a origem aldeã que ella teve. A mim parecia-me impossivel que aquella gentil rapariga, que tão airosamente cavalgava ao meu lado, fosse a filha de Thomé da Povoa e d'aquella excellente Luiza.

—Ah! pois cavalgaste ao lado d'ella? Já?!—notou Jorge, em um tom de acerba ironia, que era novo n'elle.

—Sim; encontrei-os na estrada quando chegavam. Não a conheci ao principio. Aproximei-me, conversei com ella, achei-a encantadora. E depois tinha no olhar tantas promessas!

Jorge deu em passeiar, evidentemente agitado.

—É o que eu digo—murmurava elle com um sorriso nervoso, e continuou:

—Mauricio, Mauricio; cautela! Cuidado com esse galanteio! Póde ser de mais sérias consequencias do que as duzias de paixões que tens tido por as nossas primas d'estes sitios. Essas o peior resultado a que poderiam conduzir-te era a casar com alguma d'ellas e a enxertar assim no tronco illustre da nossa arvore genealogica alguma illustrissima vergontea de uma sêpa igualmente ante-diluviana.

—Ahi estás tu de novo zombando da nossa aristocracia. Desconheço-te, Jorge. Realmente não sei d'onde te veio essa febre democratica e philosophica, com que andas ha tempos. Picou-te a mosca revolucionaria.

Jorge acudiu com uma vivacidade, que provavelmente não lhe era inspirada pelo assumpto:

—Não sabes d'onde me vem? Vem-me de meia hora de reflexão por dia. É o que basta para me rir da fidalguia de toda esta nossa parentela, que se deixa devorar por dividas, imaginando que ha em si alguma coisa que resista á sua inutil ociosidade; e que hão de ficar muito admirados quando, ao receberem um dia esmola da mulher do seu rendeiro, esta os não tractar por fidalgos, nem lhes agradecer a honraria de aceital-a.

Outro menos despreoccupado do que Mauricio desconfiaria que na vehemencia com que Jorge fulminava a incuria aristocratica, havia muito de facticio; como se procurasse desviar a attenção do verdadeiro motivo do seu estado nervoso.

—Não estou disposto a discutir a legitimidade das pretenções aristocraticas. Deixemos isso. Dizias tu que fugisse de me apaixonar por Bertha. Reconheço a prudencia do conselho. Porque é certo que ha n'aquella rapariga um não sei quê tão superior ao que por ahi vejo que, se eu não tivesse de deixar dentro em pouco tempo estes sitios, para… arranjar um modo de vida… não juro que pudesse ser indifferente áquelles encantos. Demais ha entre nós recordações de infancia e quer parecer-me que ella ainda as não esqueceu.

Jorge, sem responder, continuava a passeiar no quarto.

—Mas aquella luz não me sahe do pensamento—proseguiu Mauricio.—Que estará fazendo a pobre rapariga a estas horas da noite? Não te parece que está alguem á janella?

—Mal se póde divisar atravez das folhas d'esses castanheiros; mas julgo que sim.

—Pobre pequena! Alli, só, n'esta aldeia. Está scismando em como poderão ter realidade as vagas aspirações do seu coração.

Jorge sorriu, e acrescentou com sarcasmo:

—Ou de que maneira ha de corresponder-se com algum Romeu collegial, que deixou suspirando em Lisboa.

—Estás insupportavel, Jorge.

—Uma experiencia!—exclamou, passados alguns momentos de silencio, Jorge, voltando á janella, onde permanecia ainda Mauricio.—Tu estás dando tractos á imaginação para adivinhares qual será o pensamento de Bertha. Eu aventuro uma supposição. Assim como nós vimos aquella luz, ella vê esta, e talvez a nossa sombra na janella. É natural que supponha que para alli dirigimos as vistas, e muito provavel que adivinhe que fallamos d'ella. Sabendo-se observada, não ousa apagar a luz, por querer mostrar que tambem prolonga as suas rêveries por noite alta.

—Ora! deixa-me com as tuas observações!

—Queres verificar? Apaguemos a luz e veremos o resultado.

Mauricio condescendeu.

A unica janella alumiada da Casa Mourisca envolveu-se nas trevas da noite.

Como o leitor já sabe, Bertha, por um motivo differente do insinuado por
Jorge, apagou tambem pouco depois a luz do seu quarto.

—Eu que dizia?—exclamou Jorge, rindo triumphantemente, mas como se aquelle rir lhe fizesse mal.

—Pois bem; se adivinhaste, tanto melhor—disse Mauricio, despeitado.

—Tanto melhor?!

—Sim. Porque não hei de eu vêr, n'este proposito de acompanhar a nossa vigilia, uma prova de sympathia pelo companheiro de infancia que hoje tornou a vêr?

—Ah! ah! Pensas n'isso?

—Porque não? Olha, Jorge, a mulher sem as fraquezas do coração proprias do sexo não é uma mulher perfeita. Eu, se visse anjos cá por este mundo, anjos puros, correctos, impeccaveis; tirava-lhes reverente o chapéo, benzia-me diante d'elles, rezava-lhes uma oração, mas afianço-te que não os amava.

—Boa noite, Mauricio. Olha que são duas horas.

—Adeus, Jorge.

—Não sonhes com Bertha.

—Não sonhes tu com a arithmetica, que é peior pesadêlo.

E os dois irmãos separaram-se, rindo.

A ambos dominou por muito tempo a imagem de Bertha.

Jorge passou uma noite febril. Tentava desfavorecer Bertha, quanto podia, no proprio conceito, esforçando-se por convencer-se de tudo quanto a respeito d'ella dissera ao irmão, para diminuir assim a impressão, que, a seu pesar, conservava ainda da imagem da rapariga.

Mauricio dera-lhe a entender que Bertha fôra sensivel ao seu galanteio, e esta ideia torturava o espirito de Jorge.

Pela sua parte, Mauricio tanto lidou com a supposição de que a vigilia de Bertha lhe fôra consagrada, que adormeceu firmemente convencido disso e sonhou… sonhou… Oh! quem póde exprimir o longo romance dos sonhos de um rapaz aos vinte annos e quando possue uma imaginação como a de Mauricio!

X

Bertha acordou firme no proposito que formára na vespera, de aceitar com coragem de mulher as suas novas condições de vida, e de entregar-se de alma e vontade ao cumprimento dos deveres domesticos, soffreando para isso a indocil imaginação de rapariga.

Mauricio, pelo contrario, estreiou os seus pensamentos d'aquelle dia, avivando tudo quanto pudesse fazer-lhe lembrar de Bertha, e formando a resolução de vêl-a e de fallar-lhe.

Jorge levantou-se cêdo, um tanto fatigado pelo inquieto somno d'aquella noite, e procurou distrahir-se, estudando uma questão agronomica, em que meditava havia muitos dias.

Veremos o que as diversas disposições de animo d'estes tres personagens deram de si no decurso do dia.

O aspecto risonho da manhã dissipou as nuvens, que de noite se haviam accumulado sobre o espirito de Bertha. Já lhe parecia, áquella suave e vivificadora luz, mais risonha a sua sorte, e não podia perdoar a si mesma a vaga tristeza que sentira. Auxiliando a mãe nas occupações domesticas, encontrava n'isso uma distracção poderosa e quasi um intimo prazer. As caricias dos irmãos commoviam-n'a, e foi já com desassombrada alegria que, tomando um d'elles ao collo e dando a mão ao outro, atravessou os campos cultivados, os vinhedos e os lameiros da Herdade, e foi sentar-se no limite d'ella, junto a uma fonte rustica meia occulta entre a sebe de rozeiras e estevas, que separava do caminho aquella parte do casal. E como lhe causava prazer sentir-se humedecida pelo orvalho, que ainda poisava nos trevos e nas fumarias do chão, e cahia em gotas limpidas dos cumes das arvores sacudidas na passagem!

Os irmãos corriam a trazer-lhe as rozas e as mais flôres campestres que iam colher, saltando por entre as searas e nos caminhos de passagem, e ella entretinha-se a ajuntal-as em pequenos ramos, com que os presenteava depois.

Entregue toda a esta tarefa, sentia-se tão do intimo contente, que se pôz a cantar a meia voz a musica de uma cantiga em voga no sitio.

Pareceu-lhe por mais de uma vez ouvir rumor nas balseiras visinhas, mas julgou-o produzido por algum passaro, agitando-se no ninho occulto nos silvados, e não lhe deu maior attenção.

D'uma vez porém, em que os irmãos corriam para ella com uma regaçada de flôres, viu-os de repente pararem enleiados e olharem para a sebe que a separava da rua proxima. Bertha voltou-se na direcção d'aquelle olhar, e descobriu Mauricio, que, por uma entreaberta das silvas, a estava observando.

A filha de Thomé da Povoa levantou-se sobresaltada; e sem poder occultar de todo a confusão que experimentava com o inesperado encontro, interrogou sorrindo:

—Estava ahi ha muito?

—Ha alguns momentos, ao que me parece.

—A fazer o quê?

—A vêl-a e a ouvil-a.

—Com tão pouco se entretem!

—Então parece-lhe que não será novo para mim o espectaculo?

—Novo?! Um campo, uma fonte e umas crianças? Ora essa!

—Enumerou os accessorios, e esqueceu-lhe a figura principal, e n'essa é que está a novidade. Se a Bertha soubesse que genero de figuras femininas por ahi se me deparam, n'essas bonitas paisagens d'este nosso bello paiz?

—É muito injusto com as suas patricias.

—Oh! não as lisongeie.

—N'isso interesso eu tambem, bem vê.

—Poupe-lhes a humilhação de comparar-se com ellas, Bertha. Creia que, indo educar-se a Lisboa, foi para onde a chamavam os instinctos de sua natureza superior. Seu pae, julgando tomar uma resolução espontanea, ao mandal-a para a capital, obedeceu, sem o saber, a uma força occulta que assim o exigia. O seu espirito estava voando para as cidades, onde sómente encontrava ambiente apropriado.

—Engana-se; vê? Achava-me desterrada alli até, e, desde que voltei, sinto um bem-estar, que me prova que é esta a minha verdadeira patria, que estes são os ares, em que respiro á vontade.

—Esse bem-estar não tardará que se transforme em fastio.

—Não, não, não creio.

—Eu é que não creio que possa dar-se bem aqui, privada de satisfazer as aspirações naturaes a um espirito como o seu.

—Mas, ó meu Deus, que qualidade de espirito me suppõe então? Que aspirações são essas que diz?

—Ora para que finge ignoral-as? Acaso, diga, a satisfaria a vida da immensa maioria das tres ou quatro mil pessoas d'este concelho?

—E espero que ha de satisfazer-me.

—E que ha de fazer da sua imaginação? Sim, que ha de fazer d'isto que se sente na nossa idade, quando se não nasceu Manoel do Portello, ou Maria da Azenha?

—Perdão, será por eu ter nascido simplesmente Bertha da Povoa, que não me incommódo com isso.

—Não me entendeu, Bertha. Não havia nas minhas palavras a menor baforada aristocratica; d'essa ridicula mania não padeço eu, graças a Deus. D'entre os preclaros membros das casas fidalgas d'estes arredores, posso assegurar que, apesar dos sete ou oito nomes, com que cada um se assigna, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas Bertha…

—Olhe, snr. Mauricio. Fallo-lhe com franqueza. Não me supponha o que eu não sou, ou então não diga o que não sente. Acredite; as minhas aspirações são tão leves, tão realisaveis! Satisfazem-se com estes cuidados caseiros; e fóra d'isto, não me sinto bem. Para fazer a vontade a meu pae, segui a educação que elle desejou que seguisse; mas nunca senti prazer n'isso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos trabalhos aldeãos…

—Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem já sentidos educados para a poesia que ella rescende.

—A poesia!—repetiu Bertha, com um forçado gesto de desdem, encolhendo os hombros.

Mauricio percebeu-o.

—Ri-se?—interrogou elle.

—É que ouço fallar ha tanto n'isso, e se quer que lhe falle a verdade, ainda não pude saber bem o que seja.

—Não sabe o que é a poesia?!

—A que se escreve nos livros sei, mas fóra d'ahi…—disse Bertha, simulando um tom de completa ingenuidade.

A chegada das crianças, pedindo á irmã que as conduzisse a casa, interrompeu n'este ponto o dialogo. Bertha despediu-se amigavelmente de Mauricio, que por muito tempo a seguiu com a vista.

—Será possivel que eu me engane?—pensava elle.—Será a final de contas uma mulher vulgar, capaz de continuar as prosaicas tradições da familia? Não creio. Antes é astuciosa e dissimulada. N'esta apparente singeleza de gostos ha muito espirito escondido. E, ou eu me engano muito, ou não é indifferença o que ella sente, quando me falla.

E sahiu d'alli, trabalhando n'estes pensamentos.

Bertha, rindo e brincando com os irmãos, pensava tambem:

—Parece-me que alguma coisa conseguiria. É preciso desvial-o d'este proposito; é preciso que elle se enfastie d'este galanteio; que me aborreça. Hei de fazer-me bem vulgar, bem ignorante, incapaz de sentir e de entendêl-o. Que eu não posso ficar pelo meu coração, que ainda não experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero não luctar. Chamam-me uma rapariga de juizo. Não sei, não sei se o sou, não o posso saber nem quero. Ás vezes… desconfio de mim… receio… assusto-me. Sentia-me mais animosa d'antes. Parecia-me tão facil dominar-me!… Hoje… Não quero, não quero tentar; não quero expôr a tranquillidade do meu coração. Eu não me sinto senhora de mim mesma, quando elle me falla. É preciso acabar com isto, antes que augmente.

O dia passou sem outro episodio para Bertha, além da visita de algumas relações da familia, que vinham festejar a chegada da primogenita do venturoso casal.

Bertha conseguiu ser amavel com todos, apesar das impertinencias com que a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade.

Luiza não se fartava de admirar as maneiras e a eloquencia da filha, e não fazia senão alternar a vista entre o rosto de Bertha, que tão grata perspectiva era para o seu amor de mãe, e o dos seus interlocutores, onde espiava o reflexo da admiração, de que ella propria se sentia possuida.

Assim correu o dia.

O principio da noite foi consagrado á familia. Então é que chegou a vez a Thomé de perguntar, de querer saber, de fazer reflexões sobre o que ouvia; e Luiza, a sancta mulher, muitas vezes a responder por a filha, como quem já se achava mais adiantada em conhecimentos do que o marido.

Era já um pouco tarde e Thomé admirava-se da demora de Jorge, a quem mandára aviso para que viesse aquella noite, porque tinha que communicar-lhe a respeito de negocios que tractára no Porto e Lisboa. Ouviu-se porém o ladrar dos cães no quinteiro, o som da aldraba no portão e em seguida passos no lagedo das escadas, que conduziam ao patamar.

—Ahi vem o snr. Jorge—disse Luiza para o homem.—Conheço-o já pelo andar.

—É elle, é; e temos hoje bastante que fallar.

—Eu vou accender o candieiro no quarto—acrescentou Luiza, que sahiu a preparar a sala das conferencias.

Pouco depois Jorge apparecia na sala, em que ficára Thomé com a filha.

Jorge não era superior a uma occulta commoção, ao entrar alli. Ia encontrar-se com Bertha. O momento, de que vagamente se temia, chegára emfim. Achava-se em frente do perigo desconhecido, de que sentia intimas apprehensões. Era tão forte a sua turbação, que lhe tremiam as pernas ao transpôr a porta da sala.

Na presença de Bertha, Jorge lançou para ella um olhar rapido, mas penetrante, e desviou-o logo. O espirito não serenou com o resultado d'esse primeiro exame.

Jorge reconheceu que o perigo, que tanto temia, era real.

Bertha, prevenida como estava a respeito do genio de Jorge, tão differente do do irmão, acolheu-o com mais franqueza e menos precauções do que tivera com Mauricio. Contra Jorge não precisava de acautelar o coração.

O cumprimento de Jorge foi serio e quasi frio, sem um vislumbre de galanteio, que se parecesse com as finezas de Mauricio. Apenas disse, quasi sem olhar para Bertha:

—Bem vinda, Bertha; estimo vêl-a restituida aos seus. Espero que ainda se lembre de um antigo conhecido.

—Não costumo esquecer-me, snr. Jorge—respondeu Bertha, sem poder deixar de examinal-o com curiosidade.

Jorge proseguiu no mesmo tom:

—Dizem que se aprende depressa a esquecer nas cidades. Mas quero acreditar que a sua memoria desmentirá o dito. E que lhe parece agora esta terra?

E Jorge, fazendo a pergunta, quiz fitar os olhos em Bertha, mas desviou-os ao encontrar os d'ella.

—A mesma que deixei—respondeu Bertha—a aldeia guarda melhor as memorias do passado, do que a cidade. Vivem-se annos longe d'ella, e na volta parece que as mesmas arvores e as mesmas flôres, que nos despediram, nos dão as boas vindas outra vez. Se alguma mudança ha é nas pessoas.

—Encontrou mudança n'essas?

E Jorge tentou de novo, mas sem melhor resultado, fitar os olhos em
Bertha.

—Nem podia deixar de ser—tornou esta—para nós não ha estações; as folhas que vão cahindo, não vem primavera renoval-as.

Jorge pôz-se a folhear, com apparente distracção, um livro que encontrou sobre a mesa; e a fronte contrahiu-se-lhe levemente, como se tivesse ouvido alguma coisa que lhe desagradasse.

Bertha continuou fallando-lhe sem constrangimento e olhando-o com a curiosidade que despertava naturalmente no seu espirito de rapariga aquelle caracter serio de rapaz.

Thomé propôz a Jorge principiarem os seus trabalhos.

Bertha despediu-se d'elles, e foi ter com a mãe.

—Então que lhe parece a minha rapariga, snr. Jorge?—perguntou o enlevado Thomé.

Jorge articulou uma pouco intelligivel phrase de louvor.

—Olhe o que é a educação—insistiu Thomé.—Quem ha de dizer que foi nascida e creada aqui, n'este palheiro e no tempo em que elle era ainda um pouco peior do que hoje?!

—Ah! sim… a educação… vale muito, mas é preciso que os dotes naturaes a auxiliem—murmurou Jorge, como se lhe causasse repugnancia o assumpto da conversa.

—Sim; tambem me parece que se a pequena não tivesse quéda… Mas o que ella sabe! o que ella leu! o que ella aprendeu! É d'uma pessoa ficar a ouvil-a uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais nada!

Um ligeiro sorriso, não de todo despido de ironia, encrespou os labios a
Jorge, que nada respondeu d'esta vez.

Thomé interpretou o silencio do rapaz como uma manifestação dos seus desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para vêr aquella noite, e por isso abriu a sessão.

Antes porém teve de ir em procura de uns papeis necessarios.

Jorge ficou só por um instante, e deu alguns passeios no quarto. Aproximando-se de uma mesa que estava proxima da janella, pegou machinalmente na obra de costura, ahi deixada por Bertha, mas logo a arrojou de si com impaciencia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto elegante da encadernação, conhecia-se pertencer tambem á filha de Thomé.

Era um exemplar do poetico idyllio de Saint-Pierre, da historia dos amores de Paulo e Virginia.

Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos labios o mesmo estranho sorriso, que mais d'uma vez lh'os contrahira n'aquella noite.

—Lê romances—murmurava elle.—A estas horas phantasia-se a heroina de algum. Está apaixonada por o typo que mais lhe agradou, e busca pelo mundo a realisação d'esse ideal. A final é o que eu digo. É como as outras. É uma rapariga da moda, pretenciosa, romantica e um pouco pedante… É o resultado do systema de Thomé… Fazer viver estas mulheres em um mundo de phantasia, e trazêl-as depois para a realidade, que lhes ha de parecer insupportavel!… Triste methodo de formar esposas e mães!

E ao pensar isto, sentia uma amargura, uma irritação, que elle proprio não podia justificar.

Depois proseguiu, com crescente malignidade:

—E quem sabe?… Este livro deixado aqui? Seria esquecimento ou proposito? É natural o desejo de ostentar a sciencia e cultura de espirito adquiridas no collegio, e ha tão pouca gente no caso de as apreciar n'esta aldeia, que não admiro que seja eu um dos eleitos. Emfim, são vaidades de rapariga; e peccado venial para que se deve ser indulgente. E demais que tenho eu com isso?… Mauricio que averigue, se quizer. Está no gosto d'elle…

Thomé voltou, e minutos depois estavam ambos em plena conferencia. Notou comtudo o lavrador aquella noite, que Jorge mostrava-se muito mais desattento do que de costume.

No meio dos seus exames, distrahiu-os uma voz melodiosa que, em outro aposento da casa, cantava em tom de acalentar crianças:

  Quando uma criança dorme,
  Veem os anjos a sorrir
  Abrir as portas do céo,
  Para Deus as vêr dormir.

—Escute—disse Thomé, apurando o ouvido—é a minha Bertha a adormecer o irmão.

E Thomé pôz-se a escutar, com fervor paternal.

Jorge, a seu pesar, experimentava um suave encanto ao ouvir aquella voz juvenil, que continuava cantando:

E um d'elles á terra desce Junto do berço a velar Para longe do menino
Os sonhos maus afastar.

—Então? Não tem uma linda voz a rapariga?—continuava Thomé, olhando para Jorge, que não respondeu.

A voz continuou:

  Dorme, dorme, meu menino,
  Que é alegre o somno teu.
  E emquanto na terra dormes
  Folgam os anjos do céo.

Jorge escutava com mais prazer, do que a si mesmo quereria confessar, o canto que lhe chegava aos ouvidos n'aquella monotona e melancolica melopêa de todas as musicas destinadas a acalentar o somno das crianças.

Thomé, esse estava verdadeiramente extasiado. A voz da filha parecia encontrar um caminho direito para o coração d'aquelle pae extremoso, e commovêl-o quasi a ponto de lhe ennevoar os olhos com lagrimas consoladoras.

Quando expiraram as ultimas notas do canto, Jorge levantou-se.

Era tarde já e mais que tempo de dar por concluida a conferencia; mas n'este movimento de Jorge actuára uma outra ideia.

Elle proprio estranhava o que ia na sua alma n'aquelle momento. Revoltava-se contra si mesmo, porque se sentia fraco perante os artificios de uma mulher, contra a qual devia estar precavido; Jorge suppunha-se persuadido de que Bertha aproveitára de proposito o ensejo de fazer-se ouvir e de mostrar os encantos da sua voz agradavel e sonora; tactica vaidosa que muito escandalisava o caracter sisudo do rapaz. Mas o peior era dizer-lhe a consciencia que, mau grado seu, a tactica tivera effeito. A prevenção hostil, de que á força queria armar-se, não era talisman bastante forte para o livrar de encantamento.

Isto principalmente o indignava, sem a si proprio o confessar. Sentia-se sob o influxo de uma magia, que pensava funesta, mas, como succede quando em sonhos procuramos fugir a um perigo que nos persegue, annullava-se o esforço que fazia para quebral-o, e a seu pezar permanecia no perigo.

Desconhecia-se, sentia uma turbação indefinivel, parecia-lhe que o ar livre lhe seria salutar. Por isso levantou-se e sahiu. Ao passarem em um corredor, que conduzia para o exterior da casa, abriu-se a porta de um quarto, meio alumiado por a froixa luz de uma lamparina, que ardia junto do berço de uma criança, e por o espaço entreaberto appareceu a figura de Bertha, com o cabello já meio despenteado e solto, e tendo nos labios o mais suave e affectuoso sorriso.

—Boa noite, snr. Jorge—disse ella, estendendo-lhe a mão, com uma expressão de voz cheia de cordial franqueza.

Jorge estremeceu áquella vista inesperada, mas, dominando-se, correspondeu ao cumprimento, apertando-lhe a mão:

—Adeus; boa noite, Bertha.

—Então o pequeno já dorme?—perguntou Thomé da Povoa, procurando sondar com a vista a meia claridade do quarto.

—Psiu!—disse a filha, pondo um dedo nos labios—socegou por fim. Trouxe-o para o meu quarto, porque não deixava dormir a mãe. Boa noite, meu pae.

E tomando a mão do lavrador, beijou-a com affecto.

—Deus te faça feliz, minha filha—tornou-lhe este, exultando com aquella simples acção.

E os dois seguiram, cerrando-se logo atraz d'elles a porta dos aposentos de Bertha e ouvindo-se correr docemente a chave na fechadura.

Jorge, ao vêr-se na rua, aspirou com violencia o ar fresco da noite, como para libertar-se de uma oppressão que o angustiava. Descobriu a fronte e seguiu agitado pelos difficeis caminhos que iam d'alli até á Casa Mourisca.

—Eu estou doido!—murmurou elle—que tenho eu com esta rapariga? Era o que me faltava! que me entrasse na cabeça uma doidice d'estas! Estou vendo que não é tão facil ter juizo, como suppunha. Se isto fosse com Mauricio não admirava! E então uma criança de collegio… provavelmente estouvada… Ora adeus! Veremos se isto me passa dormindo.

Mas, era singular! aquella rapida vista, insinuada por entre a porta meia aberta do gabinete castissimo, em que dormia uma criança á meia luz da lamparina, e aquella gentil figura de mulher, collocada á entrada, com um dedo nos labios e no rosto um ar de solicitude quasi maternal, não se lhe tiravam da ideia. Era como a visão de um paraizo que sonhára.

Quando Mauricio, voltando de um baile dado por um proprietario visinho, entrou no quarto de Jorge, encontrou este, contra o seu costume, sentado proximo da janella, com a cabeça sobre o braço dobrado, que repoisava no peitoril, e tão absorto, que quasi não deu pela aproximação do irmão.

Mauricio parou diante d'elle admirado, e interpellou-o:

—Que fazes ahi?

Jorge sobresaltou-se, e respondeu sorrindo:

—Julgo que dormia.

—N'esse caso farei outra pergunta—que vieste para ahi fazer?

—Tinha calor… cancei-me de lêr… vim tomar ar. Ha um instante.

—Ha um instante? Não diz isso aquella luz, que parece de casa mortuaria. Nada haveria mais natural do que tudo isso, se fosse com outro; porém em ti é para estranhar a menor irregularidade de habitos.

—Tambem eu me estranho. É certo porém que esta noite não me sinto disposto para estudar.

—Pois aproveita essas felizes disposições, e descança, descança. Que diabo! Parece-me que dás á administração da nossa casa mais importancia do que ella merece. A final de contas sempre é tarefa que o frei Januario fez durante annos. Se soubesses como a noite está agradavel! Não esteve de todo má a partida em casa dos Curujães.

—Ah! vens de lá?—inquiriu Jorge, com indifferença.

—Venho, sim. Bastante gente. Venancio cada vez mais parvo. A D. Anna cantando a Norma da maneira que sabemos. A Ermelinda do Nogueiral, com a cabeça cheia de fitas, parecia um navio embandeirado; os pequenos do Antonio Rodrigo estavam perdidos de riso. Quem não está feia é a Dôres, a pequenita do João Tavares; dois mezes que passem mais por aquella infancia e estará alli uma bella mulher. Mas que noite tão sombria! Nem a luz de hontem em casa do Thomé! Hoje nem Bertha nos faz companhia. Sirva-lhe isto para desconto dos grandes peccados de que a accusas. Está provado que a vigilia de hontem foi consagrada á prosaica tarefa de arrumar as suas coisas pelas gavetas e bahus. É verdade, já a viste?…

—Não… Já.

—Não? Já? Que diabo de distracção é essa? E que te pareceu?

Jorge esteve algum tempo antes de responder:

—Bem.

—Tão sêcamente bem? Devéras?!

—Então que queres que te diga? Sabes que não tenho o teu genio, para esgotar a minha eloquencia diante da primeira figura de mulher que me appareça.

—E a respeito das tuas prevenções?

—Nada pude decidir.

—Pois eu já decidi. Acho-a cada vez mais adoravel.

—Ah!

—Sabes que estive com ella esta manhã?

—Sim?! Hum!—disse Jorge com evidente constrangimento.

—É verdade. Fallei-lhe e, já se sabe, não me descuidei de advogar a minha causa.

—Ah! sim? E então?…

—E então…, apesar de uma certa esquivança nas respostas que obtive, quer-me parecer que não tenho razão de queixa.

—Bem, bem.

—Emfim, certas recordações de infancia… como sabes…

—Ah! ella recorda-se da infancia?

—Ora, como queres que ella se não recorde?

—Sim, é natural—concordou Jorge, fingindo bocejar, mas com suspeitas contracções nervosas.

E estendendo subitamente a mão ao irmão, acrescentou:

—Boa noite, Mauricio. É tarde e eu tenho somno. Adeus.

E de facto Jorge deitou-se, deixando em paz os livros, mais cedo do que costumava. Se dormiu é que não sabemos.

Mauricio dormiu com certeza melhor do que elle.

Embalava-o a vaidosa persuasão de que havia impressionado Bertha. Tinha Mauricio este defeito de suppôr que eram promptas e profundas as impressões que produzia no animo das mulheres. Defeito este vulgar, e que ainda não é dos que dão de si mais serias consequencias.

XI

Pela manhã do dia seguinte recebeu Jorge um recado do pae, para ir fallar-lhe.

Apressou-se em obedecer. Foi encontrar D. Luiz a passeiar no quarto, e manifestamente irritado. Vendo entrar o filho, mostrou-lhe uma carta aberta, que estava em cima da mesa.

—Ah! É da prima?—exclamou Jorge, depois de examinar a assignatura.—Finalmente escreveu!

—Podia dispensar-se de o fazer—resmungou o fidalgo e proseguiu:

—Parece-me que não foste muito feliz na lembrança de bater a essa porta.

—Então?!

—Lê e verás.

Jorge leu, a meia voz, a carta que era concebida n'estes termos:

«Meu bom tio.

Tive, ao voltar a Lisboa de uma visita á Hespanha, a mais agradavel surpreza. Recebi, emfim, uma carta sua! A singularidade do facto não me inhabilitou para sentir no maior grau uma salutar alegria. Cuidava que me tinham esquecido. Convenci-me agora de que felizmente me enganára. Lisongeou-me ainda o vêr que o meu bom tio se dirigia a mim, para me pedir conselho! Claro estava que já não era no seu conceito aquella doidivanas de outros tempos. Ainda bem que me faz um poucochinho de justiça. Não se arrependa; effectivamente hoje estou mais ajuizada. O meu caracter de viuva dá-me um ar de respeitabilidade, que vae muito bem com os meus vestidos escuros, nos quaes a garridice não ultrapassa ainda os limites do roixo. Mas devo confessar-lhe que me incumbe de uma espinhosa tarefa! Descobrir a carreira mais adequada ao nosso caro Mauricio, que deve ser a estas horas um bonito e elegante rapaz, mas com tanto que, acrescenta o meu querido tio, «elle não seja obrigado a transigir com as ideias do seculo», é devéras uma missão difficil e para melhor engenho do que o meu. Principio por não saber bem quaes são as taes ideias do seculo, com que o priminho Mauricio não deve transigir. Eu, que sou a pessoa mais transigente d'este mundo, não posso assim de repente saber quaes são aquelles principios, com que os meus primos são incompativeis, ou que são incompativeis com os meus primos. Depois ha tantas ideias remoçadas, que passam por novas, que já não é facil distinguir quaes são as do seculo e quaes não são. E deixe-me dizer-lhe, meu bom tio, que ha uma certa ordem de coisas, com que provavelmente, na sua opinião, Mauricio não deve transigir, mas sem transigir com as quaes não se dá hoje n'este mundo um passo que tenha geito. Creia que nos nossos dias é pouca a gente que não está convencida disso, e raros os que ainda se contentam com ficarem sendo immoveis columnas do throno e do altar, emquanto os outros vão andando.

Ahi está que me lembrava a mim arranjarmos, com tempo, para Mauricio um d'estes commodos circulos eleitoraes, por onde uma pessoa sahe deputado sem o sentir. A carreira é das melhores para rapazes de intelligencia e de aspirações; mas a urna popular, provavelmente, figura no rol das coisas, com que Mauricio não deve transigir. Emfim, meu intransigente tio, apesar de todos os meus bons desejos, sinto-me devéras com os braços atados, e tropeço a cada momento em uma incompatibilidade! Julgo preferivel conferenciarmos de viva voz. Tenciono visital-o brevemente. Preciso de revistar a minha quinta dos Bacellos, da qual já tenho saudade. Ahi irei pois, e de sua bôca ouvirei aquillo com que pudemos, e aquillo com que não devemos transigir. Até então creia-me sempre sua muito transigente, mas affectuosa sobrinha

Gabriella.

P.S. Se um abraço cordial e bem intencionado de uma prima viuva é coisa com que Mauricio possa transigir, peço o favor de lh'o dar em meu nome e outro a Jorge, que, pelo que vejo, tem juizo aos vinte annos, facto que, seja dito entre nós, não tem sido frequente em nossa familia.»

Esta carta, escripta á vontade e no tom familiar de uma mulher caprichosa, costumada a não se constranger com pessoa alguma, e a vêr admittirem-lhe, como naturaes, todos os caprichos, não podia ser menos accommodada ao genio sisudo e respeitador de etiquetas, que era uma das pronunciadas feições do velho fidalgo.

A maneira por que a sobrinha lhe escrevia, a sem-ceremonia com que parecia rir-se dos seus delicados escrupulos politicos, era tão subversiva da ordem estabelecida e respeitada nos usos tradicionaes da familia, que D. Luiz escandalisou-se.

Jorge comprehendeu, á primeira leitura, qual o effeito que esta carta deveria ter produzido no animo do pae, mas procurou dissimular.

—Uma vez que ella vem, esperemos—disse em tom indifferente.—De viva voz tracta-se melhor d'estes negocios.

—Que hei de eu tractar com uma doida d'estas? Tomára que ella me deixasse socegado!

—São maneiras de Gabriella, mas nem por isso deixará de olhar com seriedade por este assumpto.

—São maneiras?… Tudo tem limites. Isto não é carta que uma rapariga escreva a um velho, que é seu tio.

E D. Luiz, ao dizer isto, pegava na carta por uma ponta e arremessava-a sobre a mesa, como se fôra um objecto que lhe inspirasse repulsão.

—Costumes do tempo—aventurou timidamente Jorge.

—Bons costumes! Pois, embora ella o diga zombando, não transijo com elles, não senhora; nem filho meu, emquanto quizer que eu por filho o tenha, ha de transigir tambem.

—Esperemos, até que ella venha.

—Já sei que de nada servirá a conferencia. Essa porta podes consideral-a fechada.

Jorge, depois de mais algumas tentativas para acalmar a irritação paterna, voltou para o quarto, intimamente satisfeito com a carta da baroneza, em cujo auxilio confiava para vencer as reluctancias do velho.

Augmentaram-lhe ainda mais as esperanças, quando leu um laconico bilhete, em que a prima lhe respondia tambem, assegurando-lhe que viria breve, e que trabalharia com empenho no sentido que elle lhe indicára.

Meia hora depois, dava Jorge a novidade a Mauricio, que encontrou descendo as escadas com elegante e caprichoso traje de cavalgar e cantarolando despreoccupado:

  Dae-me uma casa na aldeia,
  Casa rustica, isolada,
  Que mostre por entre verdes
  A sua frente caiada.

—Esse desejo vem fóra de proposito—disse Jorge, sorrindo—porque justamente hoje chegou a carta que esperavamos de Gabriella.

—Ah! chegou! E então?—interrogou Mauricio um pouco sobresaltado.

—Promette vir aqui. Pede uma conferencia para breve, na qual se discutirão as bases da reforma.

—Ai, ella vem cá? Visto isso adiada toda e qualquer resolução a meu respeito?

—Até que ella chegue.

—Ora ainda bem!

—Estimas?

—É que hoje qualquer ordem de partida encontrava-me pouco de animo para deixar a aldeia.

E continuou a cantar:

  D'onde se eleve ás trindades
  Um fumosinho cinzento
  Que se dissipe nos ares,
  Ao menor sôpro do vento.

—Olá! Como se desenvolveu assim em ti esse apêgo ás coisas rusticas?—perguntou Jorge com ironia.

—Que queres tu? Caprichos!

—Caprichos!! mas é que não estamos no caso de os ter. Ai, Mauricio, receio que dês em mau homem de negocios, se a conferencia decidir que o deves ser—continuou Jorge no mesmo tom.

—A Gabriella terá o bom senso necessario para propôr outra solução ao problema da minha vida. Creio…

E Mauricio desceu as escadas, exclamando alegremente:

—Adeus, adeus que vou vêr quem tu sabes.

Jorge contrahiu a fronte ao escutar-lhe as palavras com que se despediu, e conservou-se immovel ainda depois que o perdeu de vista, e já quando o não ouvia, nem o bater das patas do cavallo no lagedo do pateo; a final sacudiu a cabeça, como para livrar-se de uma ideia importuna e murmurou:

—Ora! Tudo isto é natural… Vamos trabalhar!

E foi encerrar-se no quarto.

Mauricio sahiu a cavallo, mas não estendeu por muito longe o seu passeio matutino. Parecia errar ao acaso, mas acaso era esse que por duas vezes o conduzia na via da casa de Thomé.

E de ambas as vezes uma cabeça de mulher apparecia á janella, ao ruido que faziam no caminho as patas do cavallo, o qual Mauricio obrigava a evoluções ao chegar áquelle sitio.

Essa cabeça era a de Bertha. Mauricio saudou-a com um sorriso e dirigiu-lhe algumas palavras de galanteio. Bertha retirou-se para dentro, depois de elle ter passado, dizendo comsigo:

—É uma imprudencia o que estou fazendo. Vamos; é preciso cautela.

E a terceira vez que o sentiu já não appareceu para o vêr.

Mauricio porém estava contente com a manhã; continuando no seu passeio, dirigiu o cavallo por uma azinhaga cavada em barrancos pelas enxurradas, e depois de difficil e precipitosa descida por entre pinheiraes, veio sahir a outra rua mais larga, ao fim da qual havia uma residencia campestre de menos má apparencia.

Era uma casa branca, de um só andar e ao correr da rua, mas de solida construcção; bem caiada, bem pintada e bem esfregada. Entrava-se para ella por um pateo coberto de ramada, cercado de um muro baixo e fechado por uma meia cancella de castanho ennegrecido. Dentro d'este pateo pouco espaço havia desobstruido; aqui um monte de rama de pinheiro, além duas ou tres rimas de achas, acolá um tronco de larangeira partido, uma mó de moinho, dois carros desapparelhados, dornas, arados, pipas, canastras, escadas de mão, e varios outros utensilios de lavoura e de uso domestico.

Mauricio prendeu o cavallo ao muro e entrou para o pateo.

Abria-se para este a porta da cozinha; vinha de lá um grande rumor de vozes, de risadas e de cantares; via-se brilhar no fundo um clarão avermelhado e ouvia-se um estalar de lenha, devorada pela chamma. Chegando-se mais perto, Mauricio contemplou por alguns momentos, sem ser visto, o quadro que se lhe offerecia á observação. Era uma cozinha aldeã, vasta, desafogada; immenso lar, compridos preguiceiros ao longo das paredes, no alto prateleiros pejados de louça nacional, de panellas e alguidares; nas traves os cabos de cebola, no fumeiro a bem curada pá de presunto; o amplo fôrno vomitava lavaredas pela bôca escancarada e a cada instante engolia as novas e enormes dóses de lenha que lhe ministravam; na masseira fumegava já a farinha ainda não levedada para a fornada da semana; e n'ella os braços valentes e roliços de duas frescas moças do campo enterravam-se até os cotovêlos; a um signal d'estas, outras traziam da lareira grandes panellas de agua fervendo, com que acrescentavam a massa, levantando ao ar nuvens de densos vapores. Uma peneirava a um canto a farinha para o bolo, outra arrumava o cinzeiro do fôrno com a vara meia carbonisada; limpava esta a pá grande para a introducção das borôas e aquella empunhava a pequena pá de ferro de rapar a masseira. No meio d'esta legião feminina assim atarefada, a patrôa da casa, que, como Calypso sobre as nymphas que a serviam, ou, segundo a comparação classica, como o elegante cypreste sobre as vinhas rasteiras, olhava sobranceira para todas, superintendia no trabalho de cada uma e distribuia as tarefas com methodo e intelligencia.

Era esta a ti'Anna do Védor, em quem já ouvimos fallar, a que havia creado aos seus válidos e sadios peitos os dois meninos da Casa Mourisca. Era ella enfarinhada, arregaçada, afogueada, com os cabellos escondidos debaixo do lenço vermelho que atava sobre o occipital, com a voz potente, o olhar fino e os movimentos faceis, apesar dos cincoenta annos já contados.

Á sua vista perspicaz não escapou por muito tempo a presença de Mauricio; e logo que o viu, correu para elle com os braços abertos, exclamando:

—Ai, o meu rico filho!

—Cautela, cautela, Anna, olha que me enfarinhas!—advertiu Mauricio, tentando fugir-lhe.

—E que tem que te enfarinhe! Olh'agora? A farinha é pão, e o pão vem de
Deus.

E sem precauções nem reparos apertou o corpo delgado de Mauricio nos seus robustos braços, deixando-lhe na roupa vestigios evidentes d'este cordial amplexo.

—Vês, vês?—dizia Mauricio, sacudindo-se—olha em que preparo me puzeste, ama! Estou asseiado!

—Sim? Pois melhor para ti, que já tens que fazer, e não me andas por ahi a vadiar e a fazeres-me doidas as moças cá da terra com as tuas bregeirices. Sahiste-me boa rez! não tem duvida nenhuma!

E pronunciava isto com um modo, acompanhava-o com um olhar tal, que fazia temer a imminencia de um outro beijo e de um outro abraço.

Mauricio continuava sacudindo-se.

—O mal que tenho, vem do leite que bebi—dizia elle no entretanto.

—Hum!—acudiu a ti'Anna com um gesto de soberba.—Conta-me d'essas! O que vos valeu, meus fidalguinhos de torrão de assucar, foi trazer-vos eu a estes peitos, senão o que seria feito do vosso corpinho de vime? Olh'agora! ieis como foram indo vossos irmãos mais velhos, e aquelle anjo de vossa irmã, que ainda hoje me resta a pena de não ter creado tambem. Mas quem adivinha vae para as casinhas.

—Aos preparativos que estou vendo—observou Mauricio—ha grande fornada para hoje.

—É como vês. E não minguam bôcas que a comam. Senhor nos não falte com estas côdeas.

—E o bolo que não esqueça.

—Eram bons tempos aquelles em que vocês ambos o comiam como se fosse maná! Esquecer! Olh'agora! Não ha de esquecer, não, se Deus quizer, que não falta por ahi gente necessitada, com quem se reparta. Vá, vá, raparigada! não se me ponham agora paradas a olhar para as moscas, que o serviço não espera! Olh'agora! Deita-me o centeio n'aquella massa, pasmada, avia-te! Parece que nunca viram um rapaz! Bem tirado das canelas é elle, salvo seja; mas isso não basta! Olh'agora! Mas que milagre foi este que te trouxe por aqui a estas horas?

—Um passeio…

—Um passeio!… Hum! ahi anda moiro na costa. Olha lá se me desinquietas coisa que me pertença, que tens de te haver depois commigo… Eu ainda tenho um par de sobrinhas que são moças de mão cheia. Ora olha lá. Quem te désse o juizo de Jorge! Aquillo é outro estôfo! É verdade—continuou ella, dando emphase á interrogação com o poisar das mãos nos quadris—dizem-me que elle é quem dirige agora os negocios lá em casa.

—Ha muito tempo já.

—Pois foi bem pensado! Sim, senhores. Porque olha que eu nunca gostei do frade, Deus me perdoe; e emquanto ao fidalgo, com ser boa pessoa, não serve lá muito para governar casa. E tu que fazes?

—Eu…, eu…

—Passeias; ora pois pudera! Se este senhor havia de fazer outra coisa. Pois não fazes bem, que pelos modos isso lá por casa não está para graças.

—Que é do Clemente, Anna?—inquiriu Mauricio, mudando de conversa.

—O meu Clemente? ó filho, nem eu sei. Se queres que te diga, o rapaz, desde que o metteram na regedoria, não faz outra coisa. Isto é, eu devo dizer o que é verdade; o serviço apparece feito, isso lá apparece; mas a gente nem sabe quando nem como. Mas, agora me lembro, elle pelos modos está hoje para casa do Thomé da Herdade. Chegou-lhe a filha da cidade, sabes? A Bertha, a que brincava com vocês na Casa Mourisca, e que tu dizias que era a tua namorada? garoto foste tu sempre desde criança. Diz que vem uma senhora. Tolices do pae. Olh'agora! Mas o caso é que a rapariga é geitosa e diz que muitas nadas e creadas na cidade dariam uma orelha para apparecerem tão bem como ella. Estou morta por a vêr, mas esta minha vida não é para vagares. Então disse ao meu Clemente: «Vae tu a casa de Thomé, rapaz, e faze-lhe lá os meus cumprimentos.» O caso é que elle foi e… Ó raparigas, então esse pão ainda não está amassado?

E não lhe soffrendo a impaciencia de animo a inacção, aproximou-se da masseira, e afastando as moças que lhe cederam o logar com deferencia, remexeu, com o vigor de seus desenvolvidos musculos, a massa que, sob tão poderoso motor, cedo adquiriu a consistencia precisa.

Depois amontoou-a, alisou-a, traçou-lhe em cima com a mão uma cruz e murmurou:

  S. Vicente te acrescente
  S. Mamede te levede.

Cobriu-a com a baeta e depois acrescentou, voltando-se para a sua gente:

—Ora ahi o tem; agora olhem-me por esse fôrno, que são horas.

E tornando a Mauricio, continuou, como se não tivesse havido interrupção:

—Pois é verdade, elle foi e ainda não veio. Sabes tu que era esta a mulher que ficava a matar para o meu Clemente?

Mauricio estremeceu, como se ouvira uma heresia.

—Quem? Ella? Bertha?

—Sim; então que achas? Pois com quem queres tu que ella case cá na terra? Fidalgos não a querem; os rapazes por ahi são uns labrêgos que Deus nos acuda. O meu Clemente…, não é agora por ser meu filho, mas não se lhe faz favor nenhum confessando que é mais geitoso do que elles. E sobre tudo, depois d'isto da regedoria. Elle falla com o snr. administrador e até com o governador civil, quando vae ao Porto, e a cada passo está a escrever-lhes e a receber cartas d'elles, e é tudo: Deus guarde a v. s.ª para aqui, Deus guarde a v. exc.ª para acolá. Ora a filha do Thomé vem costumada a estas coisas lá da cidade e emfim, sendo de costume, já se não gosta de passar sem isso.

Mauricio não podia seguir placidamente as conjecturas da ama, parecia-lhe uma profanação o que ouvia.

—Não, não, Anna. Clemente não é marido que convenha a Bertha. De modo nenhum. Desengana-te.

—E porque não? Ora essa é boa! Quem é então que lhe convem? Olh'agora!