—Bertha tem… teve… ha de ter…
—Tem, teve e ha de ter, o quê?…
—Uma educação… gostos…
—Ora viva! Já fazes a filha do Thomé fidalga de mais para o meu rapaz! Ora quem alli está. Olha que eu sou da creação de Thomé, e conheci-o rapazinho de pé descalço, a guardar o gado… Olh'agora!
—Não duvido, Anna, mas… Bertha já viu a cidade e…
—Toma! E o meu Clemente? Ora deixa-te de historias. Sabes que mais?… Não me andes tu já por ahi com o olho na pequena, que é o que me parece; olha que não é nenhuma tola como as outras.
—Ó Anna, que ella não é como as outras sei eu. Nunca esta terra soube o que era um anjo assim.
—Olhem, olhem! É o que eu digo. Temol-a travada! Eu logo vi. Ó filho, que não sei a quem me sahes. Eu logo vi. Tu que te espinhavas todo por eu querer a rapariga para o meu Clemente!… Mas, olá, snr. Mauricio, veja o que faz. Lembre-se de quem ella é filha. É um homem serio e que não gosta de quem não o tractar como homem serio… Mas ahi vem o meu Clemente; elle é que me vae dizer da rapariga.
XII
Clemente, o filho unico da vigorosa matrona que tão desenganadamente fallava a Mauricio, era um sincero rapaz aldeão, de espirito pouco desenvolvido, mas de excellente indole.
Tinha uma physionomia vulgar, d'estas que fogem da memoria, porque nem as fixa um vislumbre de intelligencia que accentue alguma feição predominante d'ellas, nem o cunho de estupidez, que as assemelha a caricaturas.
Só na bôca e nos olhos é que havia um geito revelador da natural bondade d'aquelle caracter; o mais nada exprimia.
Clemente aceitára com certo desvanecimento o cargo de regedor, e exercia-o com a imparcial inteireza que deve ter o magistrado.
Não obstante o genio brando, de que era dotado, ousava arcar, no desempenho de seus deveres, com os privilegiados da terra, que ainda não haviam perdido de todo os habitos de sobranceria e de desprezo ás leis, adquiridos por seus ascendentes nos tempos das regalias feudaes.
Clemente era supersticiosamente acatador do codigo administrativo, e este fervor de funccionario dava-lhe coragem para a lucta, aliás muito contraria á sua indole pacifica e consiliadora.
Por vezes soffreu pelo seu muito amor de justiça. Julgou elle, com sympathica ingenuidade, que os superiores o conceituariam tanto melhor, quanto mais exacto e imparcial elle fosse no cumprimento dos seus deveres; com funda e amarga dôr de coração viu pois, que tendo arrostado com as sanhas de alguns fidalgos, cujas illegaes franquias procurára fazer cessar, o administrador, que sabia theorisar muito melhor do que elle sob o thema de emancipação do povo, dos direitos do homem e da igualdade perante a lei, mas que tambem sabia quebrar na pratica as quinas e os angulos agudos ás suas theorias, tomava o partido dos fidalgos, e censurava asperamente em officios o procedimento do regedor.
Estas injustiças sociaes principiavam já a inocular no animo leal e sincero de Clemente o scepticismo a respeito dos homens e a preparal-o talvez para vir a ser uma authoridade menos intractavel e de mais condescendente consciencia; e por consequencia mais ao agrado dos homens, não sei se diga praticos ou corruptos, que clamam contra a absoluta inflexibilidade dos principios.
Achava-se o bom Clemente n'aquella desconsoladora phase de transição, em que o funccionario novel principia a sentir que o deixa o ideal que concebêra da sua entidade civil, e que vae descendo pelo escorregadio pendor das condescendencias mundanas para o nivel, onde redemoinham as turbas, que ao principio fitára sobranceiro, de toda a altura da sua dignidade moral.
Triste época de desillusão e de desencantamento essa!
Clemente votava sincera affeição aos rapazes da Casa Mourisca, e sobre tudo a Jorge, a quem cedêra o seio de sua mãe.
Jorge nunca lhe dava motivo de collisão entre os seus deveres de regedor e os impulsos do seu coração.
Já não assim Mauricio, que não era de todo innocente de certas infracções de lei e de desprezo pelo codigo administrativo, com que não poucos somnos tinha afugentado ao honrado rapaz.
Clemente desculpava Mauricio, dizendo que eram as más companhias que o levavam áquillo, mas promettia não ceder a considerações, se o encontrasse em flagrante.
Fosse porém acaso, fosse quasi insciente proposito de amizade em não querer vêr, é certo que nunca tal contingencia se deu. Apenas por vagas denuncias lhe constava ter Mauricio uma ou outra vez quebrado o defezo da caça, tomado parte em alguma rixa nocturna, quasi sempre em companhia de seus primos, os fidalgos do Cruzeiro.
Estes sim, estes eram os mais rebellões d'aquelles arredores. Com elles era que as mais das vezes tinham logar serios conflictos, em que os cabos de Clemente nem sempre eram tractados com o respeito que para elles a farda pedia.
Os fidalgos do Cruzeiro viviam ainda á moda antiga, como senhores feudaes da terra, desconhecendo direitos de propriedade e calcando aos pés dos seus cavallos todos os codigos, com que tentassem conter-lhes os impetos nobiliarios.
Eram tres estes nobres senhores.
Um morgado e… morgado ás direitas; outro doutor… por ter andado dez annos em Coimbra para deixar incompleto um curso de cinco; o terceiro abbade, escorraçado pelo povo de uma freguezia que fôra mandado parochiar; ligavam-se todos tres, em temivel triumvirato, para invadirem as propriedades, esgotarem as tavernas, insultarem as mulheres e espancarem os homens d'aquelles sitios.
O povo ou por habito legado de submissão os deixava á vontade, contentando-se com praguejal-os pela calada, desforço dos opprimidos em todas as épocas da historia da humanidade, ou exasperado e descrendo da efficacia da lei, recorria á defeza propria, e procurava manter em respeito esses turbulentos vadios, que mais de uma vez sahiram mal feridos da refrega.
Jorge afastára-se cada vez mais da companhia dos primos, cujos asselvajados habitos lhe repugnavam; Mauricio frequentava-os ainda e era de facto a companhia d'elles, que ás vezes o impellia a passos reprehensiveis.
Clemente vinha agitado quando entrou em casa aquella manhã. Era evidente que o regedor se tinha encontrado em uma das collisões, a que a vida publica o sujeitava.
A mãe, logo que lhe lançou os olhos ao rosto contrahido e levemente purpureado, conheceu que tinha havido novidade e interpellou-o:
—Que tiveste tu lá por fóra, Clemente? Essa cara não é de quem vem satisfeito com a sua vida.
—Deixe-me, minha mãe, deixe-me—rompeu o irritado rapaz.—Com'assim emquanto não largar esta coisa da regedoria, não tenho um momento de socego.
—Então que foi?
—Que foi? Que havia de ser? O que foi hontem e que ha de ser ámanhã, e que ha de ser sempre, emquanto… Emquanto se não fechar os olhos e se der para baixo, seja em quem fôr. Parece impossivel que gente de educação, gente que devia ter vergonha, e ser a primeira a mostrar o exemplo, seja a que anda por ahi dando escandalo, sem fazer caso da authoridade, nem da lei, nem de coisa alguma! E um padre então! e um doutor!…
—Pelo que vejo temos os do Cruzeiro fazendo das suas?
—Pois quem senão elles? Essa sucia de libertinos, de…
—Olha que está alli um primo d'elles, Clemente—admoestou a mãe, sorrindo.
Clemente reparou pela primeira vez em Mauricio.
—Ah! desculpe, snr. Mauricio, que ainda agora o vejo. Mas isto é assim. Aquelles senhores cuidam… Eu sei lá o que elles cuidam? Cuidam talvez que isto hoje é como d'antes, e que elles hão fazer a sua vontade…
—Mas a final de que se tracta?—inquiriu Mauricio.
—D'esta vez deram-lhe para metter em casa um refractario do serviço militar, contra quem ha um mandado de captura, e com o maior descaramento o declaram por ahi. Temos outra como quando esconderam em casa o assassino do reitor de Fieiras, e lhe deram escapula para o Brazil. Mas eu não quero saber, a lei lá está que diz bem claro o que deve fazer-se, e o snr. administrador não é para graças.
—Fia-te n'elle! Olh'agora!—atalhou a mãe—É fresco! Vendo-te mettido em talas, só se não puder deitar a mão á caravelha para te atenazar inda mais. Não te lembras do que elle fez quando foi da prisão do morgado dos Codeços, por causa das pancadas na feira? Ora bem me fio eu n'elle! Todo collaço com o Lourenço do Cruzeiro, e companheiro de sucias d'elles todos. Sabes que mais, meu filho? deixa-os lá e não te consumas com isso. Olh'agora!
Estas eram as maximas que o scepticismo inspirava já a Anna do Védor.
Clemente encolheu os hombros.
—Ou hei de ser regedor, ou não hei de ser. Por isso é que eu digo que vou pedir a demissão. Para injustiças é que eu não sirvo. Não quero que se diga que quando um pobre homem faz alguma coisa já tudo são pressas para o prender e castigar, e lá porque uns senhores… Senhores? Melhor tratassem de pagar o que devem a meio mundo, e não andassem por ahi a fazer o que fazem.
—Vamos, Clemente, perdoa-lhes as rapaziadas, por que a final elles são teus amigos—interveio Mauricio.
—Amigos elles?! Muito agradecido; mas nem acredito na tal amizade, nem tambem a desejo; isto é para dizer o que é verdade.
Interromperam-n'o n'este ponto duas vigorosas vozes masculinas, que bradavam da rua:
—Mauricio! Ó Mauricio! que diabo fazes tu ahi dentro, com o cavallo prêso á porta? Eh!
—Tu tambem pões mão na fornada?
—Parece-me mais certo que ponha mão nas forneiras.
A ti'Anna foi a primeira que tomou a palavra:
—Fallae no ruim… São os do Cruzeiro.
E chegando ao limiar da porta, exclamou com os seus modos desempenados:
—Que é lá, que é, meus fidalguinhos? Que temos nós que dizer das forneiras? Em minha casa não ha monte para caçadas de galgos, como vocemecês. Entendem? Deixem socegado o Mauricio, que já não pouco mal lhe teem feito com os seus conselhos e companhia.
Mauricio appareceu aos primos, rindo do sermão da ama.
Clemente permanecia carrancudo no fundo da cozinha.
Os primos do Cruzeiro, o doutor e o abbade, vestiam á maneira do campo, de jaqueta de alamares, faxa vermelha á cinta, chapéo de abas largas, de espingarda ao hombro, cães em redor, e as victimas das suas façanhas venatorias pendentes ao tiracolo, como tropheus de combate.
O padre respondeu á Anna do Védor:
—Ó mulher, guarde lá a sua lingua que não nos tira a sêde que trazemos, e dê-nos antes uma pinga do verde, porque o nosso pichel vae vazio de todo.
E com a maior sem-cerimonia entraram para o pateo, poisando as espingardas e os apparelhos de caça.
O doutor sentou-se nos degraus da porta da cozinha, o padre na pilha de lenha que havia no quinteiro.
A Anna do Védor, com as mãos na cinta, observava-os e proseguiu na objurgatoria:
—Com que então o snr. abbade, e o snr. doutor, e o snr. seu mano entendem que as leis d'estes reinos não foram feitas para vocemecês?
—A que vem agora essa cantilena, ó mulher? Dê-nos vinho—insistiu o padre.
—A que vem?—tornou a ti'Anna—ahi está o meu Clemente que melhor o póde dizer.
Os dois voltaram-se e viram Clmente que, pela sua vez, appareceu á porta.
—Ah! ah! snr. regedor!
—Pelos modos o homem está zangado comnosco por lhe escondermos o filho do soqueiro, queres tu vêr?
Mauricio tomou o partido de Clemente.
—Bem sabem que é da responsabilidade d'elle.
—Ora deixa-te de contos—atalhou o doutor.
—O peior é que, vistos os autos, não temos vinho—fez notar o padre.
—Está enganado, snr. abbade—veio-lhe á mão Clemente—fosse um criminoso que me pedisse de comer e de beber, quando passasse á minha porta, eu, com ser regedor, não lh'o recusaria. O que a minha casa não ha de ser, isso não, é escondrijo de ladrões, de malvados e de refractarios, nem sei que grande gloria venha d'ahi a quem tanto mal faz á sociedade, não deixando que se cumpram as leis. O vinho ahi está.
Effectivamente appareceram dois rapazes, empunhando cada qual uma caneca a trasbordar de purissimo vinho verde, que os dois caçadores esvaziaram de um fôlego.
—Ah!—disse o doutor, no fim da libação—Não te arrenegues, Clemente, que não és mau rapaz a final. Estás muito soberbo com a tua regedoria, mas isso ha de passar-te. Ora agora fica sabendo que na quinta do Cruzeiro, desde tempos immemoriaes, encontra asylo quem ahi se acolher.
—Mas o senhor sabe que a lei pune a quem der escondrijo a um refractario. Parece-me que um doutor não póde deixar de saber estas coisas.
—A lei diz muita coisa, que todos nós sabemos; mas deixa lá a lei, que está quieta.
—Mas se o snr. administrador ordenar uma busca na casa…
—Que veja se se mette n'isso—acudiu o abbade, sorrindo ameaçadoramente.
—Tem direito para o fazer—questionou Clemente.
—Pois que se contente com o direito.
Clemente ia-se irritando.
—Mas é preciso pôr côbro a isto, meus senhores. Não se póde soffrer que em tempos de leis e de authoridades, haja uma casa onde nem lei, nem authoridade entram.
—Pois tenta, ó Clemente; quando te sentires de pachorra, manda-nos lá o exercito dos teus cabos e commanda o assalto. Ah! ah! ah! Havia de ter graça!
—Pelos modos por que vejo irem as coisas, não direi que se não chegue um dia a isso.
—Hei de gostar de vêr.
—Pois eu não. Os meus desejos eram que todos vivessem em paz e socego. E o que me custa é que partam os maus exemplos d'onde deviam vir os bons.
—Ora sabes que mais, Clemente?—ponderou o padre.—Dou-te de conselho que não puxes de mais pelo fiado. O mundo é assim em toda a parte, rapaz; e é preciso fazer a vista grossa para certas coisas. As leis são boas, mas não ha remedio senão soffrer de quando em quando que as não cumpra, quem está no caso de ter vontade.
—Mas a vontade tira-se, se as authoridades forem o que devem ser.
—Viva, snr. regedor!
—Digo isto, snr. abbade, e…
—Um seu criado, snr. regedor!
—E um dia…
—Ás suas ordens, snr. regedor.
—Snr. regedor, sim! e honro-me d'isso muito. E emquanto fôr regedor, hão de me respeitar como tal. Já disse. O seu tempo já lá vae, snr. abbade, e hoje a justiça quando tem de entrar em uma casa, não repara no brazão que está á porta… ou não deve reparar. Ninguem tem direito de não respeitar a lei, e eu prometto-lhes, que já que assim o querem…
—Bem, bem—acudiu Mauricio, que receiou que a scena se tornasse mais azeda—não prosigamos n'esta contenda. Venham vocês d'ahi, que temos que conversar. Clemente, socega, que tudo se ha de arranjar. Adeus, Anna.
—Vamos lá, vamos lá—concordaram os dois primos, empunhando outra vez as espingardas—deixemos o snr. regedor que está hoje muito zangado.
E ao atravessarem o quinteiro o doutor e o abbade abraçaram, cada um por sua vez, uma das moças de Anna do Védor, que voltava da fonte com o cantaro de agua.
—Olá, olá, fidalguinhos!—bradou da porta da cozinha a patroa—já disse que isto aqui não é terras do Cruzeiro. Olhem se querem que eu os enxote como a rapozas do gallinheiro?
E quando a criada chegou ao pé d'ella, disse-lhes com aspereza:
—Tu não sabias chimpar-lhes o cantaro pela cabeça abaixo, minha maluca?
Sempre vocês não sei para que querem a esperteza.
Os rapazes retiraram-se rindo.
Anna voltou a ouvir e a mitigar as queixas do filho.
XIII
Mauricio mandou para casa o cavallo, no proposito de seguir os primos a pé. Estes enviaram tambem para o Cruzeiro os cães, as espingardas e os mais petrechos de caça.
Os dois manos riram por muito tempo da prosapia do regedor e não se deram por satisfeitos, senão depois de terem conseguido fazer tambem rir Mauricio que, ao principio, tentou admoestal-os.
—Deixemos o assumpto—disse a final o padre—que destino levas?
—Nenhum.
—N'esse caso vem por nossa casa, que não te has de arrepender.
—Que ha lá?
—Vem e saberás.
—O José recebeu hontem do Douro uns cascos promettedores—explicou o doutor.
—Adeus, adeus; ahi estás tu a desfazer a surpreza. Deixa-o vir.
—Vou—respondeu Mauricio—mas havemos de seguir o caminho que eu disser.
—Mas por onde diabo queres tu ir?
—Temos empreitada?
—Tambem vos prometto que se não arrependerão—insistiu Mauricio.
—Ó rapaz, se são olhos pretos e cabellos fartos, dize, e vamos lá vêr isso—alvitrou o padre.
—Olhos, cabellos, dentes, gesto, riso, figura, tudo uma perfeição—ampliou Mauricio.
—Onde desenterraste essa maravilha?
—Chegou aqui ha poucos dias.
—Não ponhas mais na carta.
—Já sei—interveio o doutor—fallaram-me n'ella. É a filha do Thomé da
Herdade.
—Exactamente.
—E então ella sempre é essas coisas?
—Só te digo que eu ando cada vez mais doido por a rapariga. Isto cá dentro está em imminente perigo de explosão. Que admira, se nunca até hoje vi uma belleza assim?
—Estás bem bom. Ó rapaz, o mais que posso fazer é casar-vos. Conjungo vós—disse o padre, cantarolando.
—Em uma palavra, para vocês imaginarem o estado d'isto, basta que vos diga, que me custou a conter a indignação quando ouvi ha pouco a Anna do Védor dizer-me que a Bertha era um bom casamento para o filho.
—Ai, para o snr. regedor!
—É verdade.
—Então s. exc.ª tenciona tomar estado?
—E vamos lá a saber—informou-se o doutor—a rapariga é arisca ou accessivel?
—Por ora parece-me desconfiada apenas, mas…
—Como disseste que se chama? Bertha?
—Sim.
O padre cantarolou:
Bertha, Bertha, meus amores,
Bertha do meu coração.
És a rainha das flores,
Trai lari lari larão.
E, cantando, trepava o muro de um pomar para colher laranjas que de lá o estavam seduzindo.
—Deixa lá as laranjas; anda d'ahi—dizia o mano doutor, que seguia á frente do rancho.
—A casa do cidadão é inviolavel—acrescentou Mauricio.
—Sim, senhor—tornou o padre, já a cavallo no muro—mas se me faz favor, nem isto é casa, nem um homem que móra na aldeia é cidadão.
E sahiu outra vez do muro com a sua colheita, e pôz-se a caminho, comendo as laranjas que roubára.
—Então dá cá uma—disse o doutor, voltando-se para traz.
—Ah! ah! já cubiças?
E o padre arremessou duas laranjas, que o mano destramente aparou nas mãos.
A companhia foi seguindo pelos accidentados caminhos da aldeia, cantando, saltando, pondo em confusão as lavadeiras moças que ensaboavam nas prêsas, abraçando á força na estrada as raparigas que, vergadas sob mólhos de herva ou de milho cortado, mal lhes podiam fugir; visitando todas as tavernas, fazendo correrias a gallinhas, porcos ou vaccas se se lhes deparavam na pastagem, calcando campos e escalando muros com o desassombro de senhores.
Mauricio imitava-os meio constrangido, mas imitava-os. Se ás vezes os seus melhores instinctos ou a influencia do tracto com Jorge o faziam conter, a reflexão maliciosa de qualquer dos primos, que ironicamente lhe celebrava a candura, impellia-o a vencer a primeira hesitação, e a final dava o passo que lhe repugnára.
Mauricio possuia um d'estes caracteres faceis de dominar; moveis, que cedem ao bem e ao mal e que tanto habilitam o homem a realisar heroicos feitos, como a perder-se. Tudo está na influencia que os rege.
Se teem faculdades para apreciar o gozo, que de uma acção grande e generosa resulta; se são capazes de a conceber e dão estimulos para a executar; tambem as seducções do vicio os enlevam, tambem a vertigem do abysmo os attrahe, e aproximam-se fascinados do precipicio, sem que a razão acorde para os suspender no progresso fatal.
Caracteres assim são instrumento poderoso do bem ou do mal, conforme a mão que d'elles usa, e a intenção que os dirige. São os que sentem a influencia das boas ou más companhias.
Dentro em pouco chegavam os tres rapazes á Herdade.
—Então a rapariga?—perguntou o padre, examinando as janellas vazias.
—Nem sempre apparece á janella—informou Mauricio.
—E de que meio te serves para chamal-a? tosses, cantas, assobias?—perguntou o doutor.—Qual é o teu systema?
—Eu não tenho systema.
—Então para que nos trouxe por aqui este innocente, não me dirão?
—Tu não tens entrada em casa?
—Meu pae não gosta que nós visitemos o Thomé.
—Ah! lá se o papá ralha…
—Este Mauricio tem coisas!
—Isto é mesmo uma menina innocente!
—Aqui não ha malicia alguma!
Estas observações dos manos estavam causando a Mauricio vergonha da sua propria candura.
—E então d'aqui?—interpellou o doutor.
—Então…—titubeou Mauricio.
—Segue-se dar meia volta á direita, e retirarmo-nos com caras de asnos, não é assim?
—Façam vocês o que quizerem—exclamou o padre—eu por mim, já que aqui estou, não me retiro sem vêr a pequena.
—Mas como?—interrogou Mauricio.
—Eu te digo já. A coisa é simples.
E dizendo, dirigiu-se a uma pequena porta que havia no muro da quinta e, sem a menor hesitação, impelliu-a com força e ella cedeu sem grande resistencia. O padre entrou primeiro, seguiu-o o mano doutor, e Mauricio, ainda que mais a mêdo, imitou-os.
Os do Cruzeiro caminhavam com a sem-ceremonia, que caracterisava todos os seus actos n'aquella terra, assobiando, cortando flores e fructas, e encurtando caminho por cima dos campos semeados.
De repente o padre, que ia adiante, parou, e voltando-se, disse em tom mais baixo:
—E ainda dirão que não sou bom caçador?
E, afastando-se para o lado, deixou-os vêr o objecto que elle designava, apontando para a extremidade da rua em que iam entrar.
Era Bertha.
A filha de Thomé da Povoa acabára de ajudar a pôr á cabeça de uma rapariguita aldeã o ultimo feixe de cannas de milho que os segadores haviam deixado no campo e ficára-a seguindo com a vista, tão attenta que nem deu pelos recem-chegados.
—Vejam que figura de fada—murmurou Mauricio para os primos.—É a Ruth da escriptura.
—Sim, a figura temos visto, agora quero vêr-lhe a cara—disse o padre; e acompanhado pelo mano bacharel, dirigiu-se para Bertha.
Mauricio, surprendido por este passo, que não esperára, seguiu-os para conter-lhes a brutal galanteria.
Bertha, ouvindo passos, voltou-se, e ao reconhecer os tres rapazes, não reprimiu um movimento de assustada surpreza, o qual porém se desvaneceu, reparando que Mauricio era um d'elles.
Todos se descobriram, cortejando Bertha.
O padre, fitando impertinentemente os olhos n'ella, principiou:
—Minha senhora, não repare n'esta invasão de territorio. Mas quem teve a culpa foi aqui o primo Mauricio. Fallou-nos com tal enthusiasmo da gentil filha do nosso velho amigo Thomé, que nós tomamos a resolução de vir admiral-a e cumprimental-a. E aqui estamos.
Bertha córou intensamente perante a grosseira sem-ceremonia do padre, e dirigiu a Mauricio um olhar, em que se fazia uma interrogação e se formulava uma censura.
Mauricio respondeu a este olhar, dizendo em tom de irritado:
—Desculpe, minha senhora, as maneiras pouco delicadas de meu primo. É um javali silvestre que não sabe amaciar as sêdas.
O mano bacharel soltou uma gargalhada, quasi tão grosseira como a apresentação do padre, e apimentou-a com a expressão de igual delicadeza:
—Ora toma! apara lá esse peão á unha! Ah! ah! ah!
O padre olhou espinhado para Mauricio, e redarguiu:
—Ora não querem vêr este senhor de salão, que se offende com as minhas sem-ceremonias! Javali! Tem graça! Quem o ouvir, ha de suppôl-o um cãosinho de regaço. Meu lindo priminho, esta menina não é nenhuma tola e sabe o que é o mundo; e escusas, para lhe agradar, de te apresentares como um galã choramigas. Ora é boa!
—Adeus, adeus, padre Lourenço, isso previa eu!
—Previas o quê? Então eu offendi alguem?
—De offender a ser menos delicado vae alguma distancia, mas…
—Dize tu que o que eu não sou é impostor e hypocrita, apesar de me terem feito padre. Eu disse o que era verdade. Nós, se estamos aqui, é por tua causa. Não é assim, Chico?
O mano Chico affirmou.
Bertha assistia a toda esta scena com visivel desgosto, mas sem interrompêl-a com uma palavra.
—Bertha, affirmo-lhe…—ia a dizer Mauricio para justificar-se da tacita arguição, que lia no olhar d'ella.
—Com licença—cortou-lhe o padre a palavra—se sou grosseiro e javali, hei de sêl-o até o fim. A coisa passou-se d'esta maneira. O Chico que o diga. Aqui o primo Mauricio parece que está perdido por a menina, e por tal modo nos fallou de si, tanto nos matou o bicho do ouvido para que lhe passassemos por a porta, que nós viemos. E como não estava á janella, nem elle tinha ainda combinado signal para a fazer apparecer, eu, para não perder o tempo e as passadas, abri brecha no reducto e entramos. Ora aqui está. Se isto é offensa…
Bertha respondeu, já serenamente:
—Creio que não é, porque não póde de certo haver intenção de offender-me, em quem entra em minha casa na companhia do snr. Mauricio. Elle bem se lembra de que eu fui em pequena a companheira de sua irmã Beatriz, de que sou a afilhada de seu pae, e n'aquella casa, a que elle pertence, julgo que ainda ha, como d'antes, muito respeito por este laços de familia e de amizade…
—Ha, Bertha, ha e tão sancto como em outros tempos. E ha mais, ha a firme resolução de os fazer respeitar aos outros, como lá se respeitam.
—Abranda-te, leão! Não estou disposto a luctar comtigo, apesar d'esses olhares ferozes. Esta menina far-me-ha mais justiça, reconhecendo que eu não a offendi…
—Não fallemos mais n'isso—acudiu Bertha friamente.
—Mas é um caso de consciencia—insistiu o abbade.
—Então ninguem tão habilitado para o decidir como um sacerdote—tornou-lhe Bertha, com desdem.
Gargalhada do mano bacharel.
—Chucha! Ora mette-te com ella, anda.
—Em coisas do coração—redarguiu o padre galanteadoramente—são melhores juizes do que os sacerdotes, as madamas.
Bertha contrahiu a fronte com desgosto e respondeu-lhe com maior severidade:
—Quando ellas teem um pae, podem elles tambem ser juizes. E o meu ahi vem.
Effectivamente chegava Thomé da Povoa.
O honrado fazendeiro, que tinha a sua opinião formada a respeito dos fidalgos do Cruzeiro, franziu o sobrolho, assim que os avistou com a filha.
Nem a presença de Mauricio bastou para tranquillisal-o.
Thomé conhecia de pequenos os rapazes da Casa Mourisca e sabia até que ponto se podia contar com o que em Mauricio havia de bom, e receiar do que n'elle havia de mau.
Depois a physionomia de Bertha denunciava que a conversação dos fidalgos não tinha sido demasiadamente apropositada.
Nem convinha á boa fama de uma casa, em que houvesse raparigas, a assiduidade de qualquer dos tres manos do Cruzeiro.
Tudo isto actuava no espirito de Thomé durante os instantes que precederam a sua introducção na scena.
—Olá! v. exc.as por aqui! Grande honra! grande honra!
—É verdade, Thomé—começou o padre a dizer—entramos, como rapazes de escóla, sem pedir licença ao dono da casa; mas confiamos que não se nos leve a mal…
—Ora essa! Levar a mal porquê? V. exc.as quizeram talvez vêr por seus proprios olhos como esta abençoada terra, que d'antes se definhava nas mãos de um fidalgo, medra agora nas mãos de um lavrador?
—Justamente. E depois tivemos a felicidade de encontrar a menina
Bertha, que é a maravilha d'estes sitios.
—Ah!—disse Thomé, com um meio sorriso, e voltando-se para a filha, que instinctivamente se aproximou d'elle:
—É verdade. Agora me lembra! Olha que tua mãe recebeu já aquellas meiadas. Se queres ir vêl-as.
—Vou, vou já—respondeu Bertha.
E cortejando levemente os tres rapazes, afastou-se d'alli.
—Até outra vez, Bertha—disse Mauricio, com voz affectuosa.
—Snr. Mauricio—correspondeu-lhe Bertha, e desappareceu por uma rua da quinta.
E pensava comsigo mesma:
—Agora… agora… já não sinto mêdo d'elle… nem de mim.
—Na verdade, Thomé, a sua casa está um perfeito paraizo e nem os anjos lhe faltam—disse o mano bacharel, depois que Bertha se retirou.
—O que eu posso affirmar—insinuou o abbade—é que não faltarão tambem em volta d'estes muros enxames de namorados. Que te parece, Mauricio?
—Bertha é digna de todos os respeitos—murmurou Mauricio, confuso.
—Bem, bem, quem diz menos d'isso? mas…
Thomé interrompeu o padre.
—Eu lhes digo, meus senhores, Bertha é filha de uma familia, em que todos trabalham, e pouco tempo póde ter para apparecer a namorados. Quando algum homem de bem se me affeiçoar á filha, não serei eu que lh'a recuse, se o coração d'ella estiver para esse lado; pois para freira a não quero. Emquanto aos enfeitados, que andam por ahi a zunir aos ouvidos das raparigas e a fazel-as doidas, Bertha sabe bem o que elles valem… mas, se por acaso a importunarem muito… eu sei como se dá cabo de um vespeiro.
E fallando Thomé da Povoa não ficára immovel, mas pozera-se naturalmente em caminho da porta, e os tres seguiam-n'o, sem fazer observação alguma.
Só quando o viram parar no portão é que perceberam que o lavrador como que tacitamente os convidava para sahirem.
O padre não pôde deixar sem uma reflexão este procedimento.
—Agradecemos, Thomé, o incommodo que teve a ensinar-nos o caminho da porta para sahirmos.
—Os lavradores da nossa terra teem estes excessos de hospitalidade—secundou o doutor.
Thomé córou e respondeu com certa confusão:
—A minha cabeça!… Desculpem. Isto em mim foi distracção. Quando a gente não está bem em si, faz, sem reparar, coisas que muitas vezes lhe podem estar na vontade, mas que por delicadeza não faria, se pensasse melhor. Queiram desculpar.
—Está desculpado. Nós tambem não tinhamos mais que fazer aqui. O fim da nossa visita estava preenchido.
—Sim, tambem me quiz parecer isso.
—Adeus, Thomé—bradou o doutor—Deixamol-o entregue á sua vida patriarchal.
—E está um verdadeiro patriarcha, este bonacheirão do Thomé—disse o padre, batendo familiarmente no hombro do lavrador.
—Bonacheirão?—repetiu Thomé, encolhendo os hombros e com um meio sorriso—Isso é conforme. Ás vezes… Ahi está que, sendo eu amigo do mestre-escóla, como sou e ha tantos annos, estive ha mezes para o esmagar. E sabem porquê? Porque passava eu por a escóla e ouvi chorar uma criança, e pareceu-me que era o meu pequeno; não me socegou o coração sem que me affirmasse se era elle ou não. Entrei e vi o desalmado do Zé Domingues que m'o desancava sem dó nem piedade. Escureceu-se-me a vista, entrei furioso por alli dentro, e por um triz que não deixava o homem a pernear.
Os rapazes estavam já fóra da porta quando Thomé acabou de contar o caso, e acrescentou:
—Não que se tractava de meu filho, e isto de amor de pae e de mãe… É como nos animaes. Sabem aquella vacca malhada que eu tenho? Um borrego, com que uma criança brinca; pois haviam de vêl-a uma vez em que lhe tiraram a cria! Estava furiosa e arremettia como um toiro bravo. É preciso cuidado com isto de paes e de mães!—concluiu o fazendeiro, em tom sentencioso e emphatico.
E dando as boas tardes aos tres rapazes, fechou a porta, murmurando:
—O padre ainda não aprendeu com a corrida que levou da abbadia. E este
Mauricio a acompanhar com elles! Valha-o Deus!
—Então que vos parece o snr. Thomé?—perguntou o bacharel cá fóra.
—Não está mau com a historia da vacca—disse o abbade, rindo.
Mauricio conservou-se silencioso.
—Tu a modo que vaes assim embaçado, ó Mauricio?—observou o bacharel.
—Estou arrependido de vos ter trazido commigo aqui—confessou Mauricio.
—Ora não sejas parvo! querias talvez que fizessemos muito gasto de excellencias com a filha do Thomé da Povoa?
—É uma rapariga de educação, e o pae…—ia a dizer Mauricio.
—E o pae—atalhou o padre—anda-me chiando muito alto, mas bom será que tenha mais cuidadinho comsigo.
—As ultimas palavras d'elle cheiraram-me a uma ameaça—observou o doutor.
—Eu nem dei por isso—respondeu o mano.
E os tres retiraram-se de mau humor.
XIV
Jorge, que ultimamente era menos assiduo em Casa de Thomé, sem que este pudesse atinar com a razão do facto, recebeu, na tarde d'aquelle mesmo dia, um bilhete do fazendeiro, pedindo-lhe que o procurasse na Herdade ás horas do costume. Jorge não faltou.
Thomé da Povoa recebeu-o com modos menos desenleiados do que os que lhe eram habituaes, e com ares de mysteriosa preoccupação conduziu-o a um gabinete mais retirado da casa, serrando a porta depois que entraram, com excepcional cuidado.
Jorge seguia-lhe com estranheza os movimentos.
Thomé, com um gesto denunciador do esforço que n'aquelle movimento fazia sobre si proprio, entrou no assumpto com visivel repugnancia:
—Snr. Jorge—principiou elle—sei que é meu amigo, e que tem o juizo e a prudencia de um homem feito, apesar de novo como é; por isso vou fallar-lhe com a franqueza de um homem de bem e de um amigo.
—Nem o Thomé sabe conversar de outra maneira. Diga.
—Pois bem. A coisa é esta… Eu antes queria não fallar n'isto, mas… emfim… se o negocio ha de ir a mais… e succeder por ahi alguma desgraça… emfim… a tempo é que é evitar o mal; quanto ao depois…
—Mas de que se tracta?
—Snr. Jorge. É um pae que lhe falla. Tenho uma filha e emfim preciso de vigiar por ella, emquanto não tem marido que a zele e proteja… não é verdade?
Jorge não pôde ouvir sem se perturbar estas palavras e, interiormente inquieto, sem bem saber porque, murmurou:
—De certo, mas…
—Ora bem. O snr. Jorge é rapaz sisudo e pacato, mas emfim sempre ha de saber o que são dezoito, dezenove ou vinte annos, hein? Pode-se ter o juizo muito claro, vêr as coisas como ellas são, mas… isto de sangue novo… parece que ferve e depois é como uma doença, e como uma febre, a cabeça desarranja-se e não ha conselhos que a concertem. Pois não é assim?
Jorge córou ouvindo estas considerações de Thomé, que lhe pareciam dirigidas, olhou para elle com desconfiança e respondeu confusamente:
—Talvez seja; porém…
—Ora então segue-se que o melhor é livrar-se a gente de trabalhos e fugir das occasiões, para que depois se não diga: «Ai, porque se eu soubesse; ai, porque o que eu devia ter feito era…» Entende-me?
—Entendo, Thomé, mas, a final a que quer chegar?—interrogou Jorge, cada vez mais sobresaltado.
—Ora eu lhe digo. A minha Bertha é uma rapariga de juizo.
A confusão de Jorge redobrou. O rosto tingiu-se-lhe de rubor, em que
Thomé não reparou.
—É—proseguiu o fazendeiro—tenho a certeza d'isso, mas é rapariga, e emfim teve uma educação bem bonitinha; e Deus me perdoe se fiz mal em lh'a dar; ora eu, com quanto seja um rustico, sei o valor que teem certas coisas, e que quem se costumar a ellas com ellas sonha. Isso é que é verdade! E nem eu me admirava de que a pequena tivesse sua inclinação para rapazes da cidade. Era natural, já digo. Mas aqui não veem elles, os da terra são assim meios… meios… emfim rapazes de lavoura, como eu fui; muito bons para raparigas como era a minha Luiza. Ora agora o que por ahi ha, são, e perdoe-me dizer-lhe isto, uns fidalguinhos que não teem que fazer, e que passam o seu tempo a inquietar as raparigas da terra. D'esses é que eu tenho mêdo! E se quer que lhe falle a verdade, cá em relação á minha pequena, ha um sobre todos de que eu muito me receio.
—Quem é?—perguntou Jorge, ainda não senhor de si.
Thomé hesitou por algum tempo, mas a final, como tomando uma resolução, respondeu:
—É seu irmão Mauricio.
—Mauricio!—repetiu Jorge, contrahindo a fronte.—Pois acaso tem elle dado já motivos para suspeitar?…
—Poucos; isto em mim é mais mêdo do que outra coisa. Hoje porém já me não agradou o que elle fez.
E Thomé narrou a Jorge a scena da manhã, acrescentando:
—Ora dos do Cruzeiro não tenho eu mêdo. Bertha conhece-os e é o que basta para ficar livre de perigo; mas com o snr. Mauricio já não é assim. Apesar das suas doidices, não se póde deixar de se gostar do rapaz, porque o fundo é bom e generoso, e depois… conhecem-se ha muito… e elle é estouvado e um rapaz bonito… e ella… ella tem dezoito annos… Emfim, snr. Jorge, isto anda-me cá a pezar, e por isso pedia-lhe que visse se obrigava seu irmão a deixar-me em paz a rapariga, porque nada de bom póde resultar d'aqui.
Jorge sentia apertar-se-lhe o coração ao ouvir aquella confidencia. Era pois certo que Bertha amava já Mauricio!
—Thomé—respondeu elle, sem trahir a sua agitação—socegue. Eu fallarei a Mauricio. Não creio que elle fizesse com intenção o que me diz; mas em todo o caso concordo em que é preciso evitar a tempo peores occorrencias. Faço justiça a Bertha; mas quero que meu irmão seja o primeiro a respeital-a. Eu lhe fallarei, creia.
—Muito bem—respondeu Thomé, apertando-lhe a mão.—Eu estava certo de que me daria essa mesma resposta.
Jorge acrescentou:
—Demais, Mauricio pouco se demorará aqui. Espero que em breve parta para Lisboa.
—Bom será. Talento tem elle para o poder aproveitar na vida, e aqui o que ha de elle fazer? Depois a companhia d'aquelles primos!…
Jorge separou-se de Thomé, sem que se occupasse n'aquella noite do assumpto habitual das suas conferencias.
Ao sahir, mais cêdo do que o costume, atravessou uma sala aonde Bertha costurava á luz de um candieiro.
Ao vêl-o passar, Bertha estendeu-lhe familiarmente a mão, dizendo com um sorriso affectuoso:
—Retira-se muito cêdo hoje; durou pouco a lição.
—Ás vezes é quando mais se aprende—respondeu-lhe Jorge, com mal disfarçada ironia.
—E até quando?—proseguiu Bertha, parecendo não attentar no sentido da resposta.—Ha já bastante tempo que não o viamos.
—Até… até cêdo.
—O snr. Mauricio vejo-o mais vezes… ainda hontem ahi passou.
—Sim—disse Jorge com um malicioso sorriso—Mauricio tem essa habilidade, de ser visto todos os dias por as mulheres bonitas da terra.
Bertha olhou admirada para Jorge; feriam-n'a aquellas respostas sêcas e sarcasticas, que não esperava ouvir-lhe.
—Então dá-se ao trabalho de se mostrar a todas?—perguntou ella sem desviar os olhos.
—Sim, provavelmente—tornou Jorge no mesmo tom—e parece que todas se dão ao trabalho de lhe apparecer.
—Ah!
E Bertha calou-se; fixou os olhos na costura e pareceu até esquecer-se da presença de Jorge na sala.
Este finalmente despediu-se, estendendo a mão a Bertha.
—Boa noite, Bertha.
Sem levantar os olhos da costura e portanto sem lhe corresponder ao gesto de despedida, Bertha respondeu:
—Boa noite, snr. Jorge.
—Offendeu-se—pensava Jorge ao retirar-se—então ha fundamentos para as apprehensões de Thomé. Juizo de rapariga a final! Cabeça doida, que não espera que o coração se declare e alimenta paixões com reminiscencias de romances. Pobre Thomé! É o que elle a final colhe dos seus sacrificios para a educar. Eu logo o suppuz…
As reflexões de Jorge succederam-se e encadearam-se n'este teor. Crescia n'elle mais do que nunca a sua irritação contra Bertha.
—Mas que tenho eu com Bertha?—reconsiderava elle—para me importar com isto? A final são pequenas fraquezas de rapariga e… Mas a amizade que consagro ao pae obriga-me a intervir. Mauricio é um louco, e ella já vejo que não tem mais prudencia do que outra qualquer rapariga da sua idade.
E esta ideia de Bertha ser sensivel aos galanteios de Mauricio era o que mais que tudo o incommodava.
E Bertha? Que ficou pensando, com a cabeça inclinada sobre a costura, mas com a mão parada e o olhar pensativamente fixo?
—Porque é esta severidade de Jorge para commigo?—pensava ella—Não posso já duvidar. Ha n'elle não sei que prevenção contra mim. Ou não me falla, ou falla-me d'este modo. Um motivo leve não póde ser, porque Jorge é, ao que dizem, um rapaz de tão bom senso, que de certo por uma insignificancia não me tractaria assim. Mas que faria eu? Nada; se em mim ha loucuras, ficam-me no pensamento e ahi quem as vae devassar?… E que fossem?… E que as achassem?… Eu podia dizer-lhes: Sim, estão ahi, mas eu bem sei que estão, e ahi mesmo as suffoco e venço. Não sou responsavel perante ninguem do que se passa em mim só. Entre mim e Deus é que essas coisas se julgam. Quando me revelar, quando me trahir, que me peçam contas então. A que vem estas severidades? Que fiz eu a este generoso rapaz? Imaginará elle que o galanteio de Mauricio me terá fascinado? É um caracter tão serio, que talvez por isso me condemne. Fascinar-me! Mauricio!!… Ao principio talvez; agora porém vejo que se vão desvanecendo essas phantasias de criança, nascidas e robustecidas nas minhas horas de solidão no collegio, e que senti alvoroçarem-se ao chegar aqui, e ao vêl-o. Mauricio não é o caracter de que eu me posso receiar. E ainda bem. Mas Jorge por que me quererá mal? Lembra-me que meu pae me disse que, se elle não fosse meu amigo, não me dizia que o era… E elle ainda m'o não disse.
Estas reflexões foram interrompidas pela entrada de Thomé, que, satisfeito pela promessa de Jorge, já não sentia nuvens a escurecer-lhe o pensamento.
Jorge chegou a casa antes do irmão.
Era noite de luar, tepida noite de outomno, languida e serena, como a podem desejar os mais exaltados devaneiadores. Havia uma limpidez no céo, uma quietação nos bosques tão completa, que parecia que a natureza toda parára em suspensão a contemplar o solemne progresso da lua pelo firmamento, que inundava de luz.
Era uma d'estas noites em que só a custo se troca o ar livre dos campos pelo ar confinado do gabinete, em que se hesita ao cerrar as janellas aos raios da lua que invadem a sala, para os substituir pela luz vacillante da lampada, que alumia as vigilias do estudo.
O proprio Jorge, habituado como estava ao trabalho, cedeu ás seducções d'aquella noite e deixou-se ficar sob as arvores da quinta. O peito precisava de ar livre que o desopprimisse.
Os carvalhos e castanheiros seculares temperavam a claridade da lua, coando-a atravez da folhagem, de que o inverno os não despira ainda. Uma luz mysteriosamente discreta penetrava no bosque; raros sons interrompiam aquelle silencio, além do rumor longinquo e monotono das fontes e cascatas.
O pensamento de Jorge perdêra a placidez habitual; como que despertavam n'elle os instinctos de juventude, povoando-lhe de visões o campo da phantasia, de ordinario occupado por mais severas imagens.
Os seus calculos, os seus projectos de futuro, os problemas de administração, que lhe absorviam o pensamento, cederam agora o logar a ideias menos positivas, a meditações vagas, a quasi devaneios, em que raras vezes a sua razão se deixava arrebatar. Primeiro dominou-o a magia do passado; evocou do silencio dos tumulos aquelles dos seus antepassados, que trouxeram com todo o esplendor o nome que hoje era seu, os que mais alto elevaram o ennegrecido brazão que honrava ainda a frontaria d'aquelle solar em ruinas. Depois, saudades mais pungentes, d'essas que ainda trazem vestigios de lagrimas, como restos da sua natureza de dôr, de que só o tempo as vae privando, occuparam-lhe o coração e o pensamento. A sombra da pallida e estremecida irmã, que a morte arrebatára quando mais seduzia com sorrisos e afagos, a sombra de Beatriz, que era a mais querida e mais dolorosa recordação d'aquelles rapazes e d'aquelle velho, parecia surgir ao mysterioso apello da noite, e vaguear, como uma apparição phantastica, por entre essas arvores que menina a viram e menina a protegeram do sol abrazador dos campos.
Jorge ainda não esgotára as lagrimas consagradas á memoria da irmã.
Tinha-as nos olhos, quando a tinha no pensamento a ella.
Pouco e pouco, por uma insensivel transição, a imagem de Bertha substituiu a de Beatriz.
Differentes eram as impressões que esta nova imagem lhe produzia, differentes e indecifraveis quasi.
Já vimos que antagonismo de sentimentos havia no coração de Jorge em relação á filha de Thomé da Povoa.
Como luctavam a involuntaria attracção que por ella sentia, com a reflectida resistencia que lhe oppunha. Lidava por levantar obstaculos ao progresso do violento affecto que lhe ia tomando o coração, e a seu pezar via que esses obstaculos eram inuteis. Inventava defeitos que lhe desprestigiassem o caracter de Bertha, accusava-a de vicios de educação que ainda lhe não reconhecêra, fingia-se convencido da leviandade d'aquella pobre rapariga, e com toda a austeridade do seu caracter sisudo lavrava contra ella a sentença condemnatoria; mas no fim de tudo isto achava-se cada vez mais subjugado; revoltava-se-lhe debalde a consciencia contra esta fraqueza, em vão revelava com maneiras rudes e quasi hostis para com Bertha este desgosto de si mesmo que estava experimentando… o effeito era cada vez mais pronunciado.
O que tinha acabado de ouvir a Thomé augmentára-lhe aquella inquieta lucta de espirito.
A ideia de inclinação reciproca de Bertha e de Mauricio irritava-o e affligia-o.
Não eram as consequencias do facto que o assustavam. Jorge não acreditava na sinceridade das affeições de Mauricio; sabia quanto ellas eram fugazes e estava convencido de que a proxima partida do irmão bastaria para desvanecer essa paixão nascente.
E comtudo não lhe sahia do pensamento aquillo. Torturava-o aquella ideia, não lhe permittia repouso.
A consciencia de Jorge aventurava, muito a mêdo, a vaga explicação d'este enigma psychologico que se estava passando n'elle, mas Jorge recusava dar attenção áquella voz.
Ha casos assim, em que nem comnosco somos sinceros, em que se faz mais evidente do que nunca esta especie de dualidade unificada em todo o individuo, porque guardamos discretamente de nós um segredo nosso, e luctamos comnosco em opposição declarada.
A dominios tão intimos da consciencia seria porém irreverente levar a luz da analyse; aguardemos que a ulterior evolução de affectos melhor nos revele o segredo que ia no coração de Jorge.
Era já noite avançada quando chegou aos ouvidos do pensativo rapaz o ruido de uma porta que se abria; pouco depois passava Mauricio pela extrema do bosque, cantando distrahidamente:
Além, n'aquella avenida
De platanos e salgueiros,
Foi que em teus beijos primeiros
Bebi a primeira vida.
A luz do luar batia-lhe em cheio na figura e não o deixou passar incognito.
Jorge, reconhecendo-o, chamou-o em alta voz.
Mauricio parou surprendido.
—Quem me chama?
—Sou eu.
—Tu?! Jorge!
—Sim, pois quem havia de ser?
Mauricio caminhou ao encontro do irmão.
—Transportas-me de surpreza em surpreza! uns dias a seguir da janella do teu quarto o caminhar das nuvens, outros a errar á meia noite por entre as sombras dos bosques! Em que havia de dar a arithmetica!
—Cheguei ha pouco. Abafava lá dentro. Vim para aqui esperar-te, porque desejava conversar comtigo.
—O tom é grave e serio; é de crer que o assumpto corresponda.
—Não te enganas. É bastante serio o que tenho para dizer-te.
—Penetremos então na sombra druidica d'este bosque, para augmentar a solemnidade da scena.
—Peço-te que deixes para outra occasião as tuas observações joviaes; repito-te que é serio o que tenho a dizer-te.
—Pois aqui me tens serio como o assumpto. Falla.
Jorge guardou ainda por instantes silencio. Sob os passos dos dois irmãos ouvia-se estalar as folhas sêcas que alastravam o chão.
—Mauricio—principiou Jorge a final—Thomé procurou-me hoje para fazer-me um pedido.
—Hum!—atalhou Mauricio com meio riso—não me enganei, previ logo que se tractava d'isso.
—De quê?
—Fizeram-te queixa de mim, não é verdade? Pintaram-me como um lobo voraz rondando e assaltando o curral da tenra ovelhinha, creada com tanto mimo e recato? e tu, na tua inexperiente imaginação de rapaz serio, viste logo um drama pavoroso em tudo isso e distribuiste-me n'elle o papel de tyranno. Confessa que tudo isto é verdade.
—E estimaria bem que não fosse.
—É o que eu digo. Olha, Jorge, eu sou mais novo do que tu, mas, vivendo mais da vida commum da sociedade, não estou tão sujeito a vêr as coisas sob o colorido particular do prisma, atravez do qual as vêem os que, como tu, trazem quasi sempre o pensamento tomado por altas e abstractas especulações. Com a maior franqueza te confesso que Bertha me agrada, que todos os dias procuro vêl-a, que, se lhe fallo, não perco tempo a dizer-lhe que o anno vae bom para as colheitas ou que hontem esteve mais calor do que hoje; não tenho razões para suppôr que as minhas visitas a importunem. Esta é que é a verdade; mas d'aqui a realisar o typo de Lovelace ou D. Juan Tenorio, incumbindo a ella a parte de Clarisse ou de Elvira, vae muita distancia. Estas coisas, se tu não andasses tão alheado dos negocios terrenos, devias saber que são da pratica commum, em qualquer parte, onde se encontra uma rapariga bonita e um rapaz que se preza de saber apreciar o bello. Ora agora vê lá se ha motivo para o terror tragico que te infundiram.
—Não é terror tragico, é desgosto. Eu bem sei que são usuaes esses galanteios que dizes, essas falsas ostentações de amor, com as quaes se profana e desprestigia tudo quanto ha de mais sancto e respeitavel no coração do homem. Ás vezes succede, é verdade, que uma das partes interessadas, talvez por andar alheada dos negocios terrenos, como dizes, entra com a alma n'essas comedias sociaes, e quando a scena finda, muito a bel-prazer do outro actor e sob os applausos dos espectadores que riem, essa alma sente-se ferida de um golpe mortal. As illusões da mocidade, o suave perfume de um affecto virginal, as primicias de um amor casto, tudo se desvanece n'estas profanações, e não sei que haja espirito tão leviano que ouse tentar a representação d'estas comedias ridiculas e ao mesmo tempo perversas com uma pessoa a quem se devem affeições leaes e respeitos.
—Mas…
—Em uma palavra, Bertha é a filha de um homem honrado; Bertha era a amiga e a companheira de Beatriz e muitas vezes se sentou comnosco á mesa, a que presidia nossa mãe, que a abençoava, quando nos abençoava a nós. Não te lembras d'isso?
—Lembro, e por isso mesmo a amo. Não te disse que havia entre nós recordações de infancia?
—Amas!—exclamou Jorge com uma impaciencia, a que era pouco sujeito.—Que amor! Um amor de que fazes confidentes os primos do Cruzeiro, que sabes tractarem irreverentemente todos os amores, um amor que ostentas sem recato, chegando a sujeitar á apreciação cynica d'esses doidos a mulher que dizes objecto d'elle, um amor que não procuras occultar com aquelle casto e natural pudor de uma alma devéras apaixonada. Que amor esse que apregoas sem escrupulos nem reservas diante de quem quer que seja!
—Mas… como imaginas tu então que se ama, quando se ama devéras? O systema da publicidade applicado ás paixões não será antes uma garantia da boa natureza d'ellas?
Como se nem tivesse escutado estas palavras, Jorge, acelerando um tanto a rapidez dos seus passos, proseguiu com exaltação crescente:
—Nunca amei, nunca senti por uma mulher uma d'estas paixões unicas, dominadoras, exclusivas, a que se sacrifica tudo; mas ás vezes tenho pensado n'isto e julgo haver concebido o que seria para mim o amor, se o sentisse. Se eu um dia amasse, parece-me que procuraria esconder de todos os olhos essa paixão; desejaria que ninguem m'a suspeitasse nem por uma palavra, nem por um gesto, nem por um olhar. Ouvir estranhos fallar sequer na mulher que eu amasse, ferir-me-ia como uma profanação. Não escolheria confidentes, a ninguem revelaria esse segredo da minha alma. A mais alta, a mais casta voluptuosidade, que me produziria este amor seria o poder dizer, quando estivesse só, ninguem no mundo sabe, ninguem suspeita este mysterio do meu coração, senão ella. Para ella só, para essa mulher que eu amasse quereria reservar todas as manifestações dos meus sentimentos, as mais serias e as mais pueris, pertenciam-lhe; e permittir que outros as percebessem era profanar o culto. Só com ella, sim, todas as reservas acabavam; então no gesto, na palavra, no olhar revelaria inteira a minha alma, sem mysterio nem discrição. Aspiraria assim n'esses instantes todo o suave e delicado perfume do amor. Que o mundo, ao vêr-me frio e concentrado, pensasse: «Ahi está um homem de gêlo, este não sabe amar», e que ella só pudesse dizer: «Oh! eu é que sei de que extremos é capaz aquelle amor que ninguem suspeita.»
Mauricio estava maravilhado de ouvir Jorge, que parecia dominado por uma excitação nervosa, ao fallar assim, mais para si do que para o irmão.
Taes expansões eram raras em Jorge e esta era a mais vehemente e completa que o irmão presenciára.
—É singular!—notou Mauricio—N'esta vida tropeça-se a cada passo em uma maravilha. Quem te ouvisse agora não acreditaria que és aquelle rapaz serio, para quem as raparigas nem se atrevem a lançar um olhar furtivo, porque nunca uma phrase de galanteio ou um sorriso as animou a tanto. Estou admirado! e quasi me convenço de que a final sou apenas um simples curioso na arte de amar, cuja metaphysica transcendente tu professas como verdadeiro mestre. A minha sensibilidade é menos exigente, mas por essa mesma razão admiro a suprema delicadeza da tua!
Jorge como que voltou a si e estranhou a exaltação de que se deixára possuir. Rindo e fallando já em tom natural tentou attenuar a impressão produzida, e disse para o irmão:
—A lua tem decididamente uma influencia poderosa até nos animos mais fleugmaticos. Ahi está que querendo eu fallar-te de coisas serias, esqueci-me em uma divagação sentimental, que Deus sabe até onde me levaria. Deixemos isto. Vaes prometter-me, Mauricio, que desestirás de inquietar Bertha e tranquillisarás o espirito a Thomé!
—Ora que ridicula promessa exiges tu de mim! Deixa-me vêr de quando em quando aquella rapariga, que eu te afianço que não corre perigo algum com isso. Quanto mais que eu não posso assegurar que ella de facto me corresponda.
—Não anticipes juizos sobre o effeito incalculavel que póde produzir no espirito d'aquella rapariga a assiduidade das tuas attenções. Bertha é muito nova, tem habitos e gostos de cidade, e não é de crêr que possas ter na aldeia concorrentes que te offusquem. Por isso o melhor é acabar com esse galanteio perigoso para ella. Lembra-te das consequencias que póde ter um tal capricho da tua parte. Além do que parece que já te esqueceste da gravidade da nossa posição e das resoluções que ha dias tomamos.
—Não, não me esqueci; estou prompto para a primeira voz; mas, emquanto espero, desejo dar um adeus á vida de rapaz.
—Mas evita sahir d'ella, semeando remorsos que fructifiquem na tua vida de homem.
—Mas…
—Terminemos. Peço-te, em nome de Beatriz, que não continues galanteando
Bertha. Promettes?
Mauricio acabou por prometter.
E horas depois voltavam a casa os dois irmãos.
A lua declinava já no arco esplendido que descrevia no céo.