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Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia

Chapter 18: XV
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About This Book

A obra acompanha uma família nobre provincial cujo imponente solar, popularmente apelidado em referência à presença moura, domina a aldeia; descreve a arquitectura melancólica do paço e o declínio económico provocado por dívidas, terras mal cultivadas e abandono; expõe tensões familiares e políticas, com um patriarca conservador e os laços partidos pela revolução, e a vida dos dois filhos jovens; intercala tradições locais — lendas de mouras encantadas, jogos de mouros e cristãos e rumores de tesouros enterrados — e pinta a paisagem social e sentimental da aldeia entre memória, orgulho e ruína.

XV

Em uma das seguintes madrugadas foi Jorge sobresaltadamente acordado pelo velho jardineiro, que depois das ultimas reformas estava empregado no serviço interno da casa. O homem tinha uns ares de espantado, como se viera a communicar a noticia de um incendio.

—Que temos?—perguntou Jorge, sentando-se inquieto no leito.

—É que não tarda ahi a snr.ª baroneza. Já estão lá em baixo umas bagagens e uns criados, e… não está nada preparado.

—Cuidei que era outra coisa. E o que querias tu que estivesse preparado?

—Ora pois então? Sempre é uma pessoa… Lá o padre já deu ordem para se ir pedir a baixella aos…

—Não se pede coisa alguma. Ahi principia o frei Januario a fazer das suas. Dize-lhe que deixe tudo ao meu cuidado. Que se não estafe, nem afflija, que não é necessario.

—Mas… olhe lá, snr. Jorge! O fidalgo mesmo não ha de gostar…

—Faze o que eu te digo. Isso em ti, a fallar a verdade, até me admira. Não parece franqueza de soldado. Para occultar aos olhos de minha prima a nossa pobreza, que não é vergonha nenhuma, querias que fosse descobrir ás familias que teem baixellas, a nossa vaidade, que essa, sim, seria uma vergonha? Não estou resolvido a fazel-o.

O velho meneou a cabeça por algum tempo, e acabou por dizer:

—Parece-me que tem razão, snr. Jorge, como sempre. Ai, se n'esta casa todos tivessem tido o seu juizo, ella não chegaria ao estado a que chegou. Lembro-me agora de que quando o imperador…

—Deixa o caso para outra occasião. Vae arranjar, como puderes, essa gente e essas coisas todas; emquanto eu me visto e preparo para ir receber a prima…

O velho criado obedeceu com presteza militar.

Meia hora depois ouviam-se tilintar as campainhas dos machos da liteira, em que vinha a baroneza.

Gabriella, a baronezinha viuva de Souto-Real, ainda não tinha trinta annos, e mais nova parecia do que era. Alva, loira e delicadamente formosa, realisava o typo da mulher elegante, creada na atmosphera dos bailes e dos theatros, e mais á luz artificial que á luz do sol. Apaixonada por perfumes e rendas, observadora fiel da moda, sujeitava-se aos mais extravagantes caprichos d'ella, sabendo-os porém corrigir pela influencia do seu gosto apuradissimo. Tinha a languidez e a particular côr pallida das formosas de Lisboa, que não recebem do sol da provincia a vigorosa encarnação de saude. Indole verdadeiramente feminina, exercia mais imperio sobre as suas paixões, do que sobre os seus caprichos. Com difficuldade sacrificaria o mais ligeiro d'estes; aquellas, porém, subjugava-as com fortaleza varonil. Possuia um genio alegre e ás vezes um tanto satyrico, mas sem malignidade. Não professava os principios d'aquella moral intractavel, que se arma da severidade puritana contra as paixões e defeitos dos outros; pelo contrario era tolerante e latitudinaria, não se esquivando a apertar a mão aos maiores peccadores, com quem se encontrava no mundo, sem que, sob essas apparencias de leviana indifferença, deixasse de manter um descernimento seguro do bem e do mal, e um grande fundo de moralidade e de justiça.

Além d'isto possuia um bom coração e uma alma generosa.

No tracto de mais illustrada sociedade lisbonense e nas viagens em que acompanhára o barão, seu fallecido marido, adquirira uma variada cópia de conhecimentos, de que o seu natural bom senso sabia usar, sem abuso. Passava por uma das mais espirituosas damas de Lisboa, sem que se lhe notasse a ostentação pedantesca, que é o escolho em que tanta vez naufragam as que a tal nome aspiram. As primeiras capacidades artisticas, litterarias e politicas frequentavam as salas da baroneza e apreciavam a sua conversação.

Gabriella casára por conveniencia, que não por inclinação, com um homem mais velho do que ella, sem fóros de nobreza, mas pertencendo á classe argentaria, que é a verdadeira aristocracia moderna.

Apesar d'isso soube ser esposa fiel e dedicada d'aquelle homem que a livrára da precaria condição em que a decadencia da sua casa a collocára. Viuvando, Gabriella não deu indicios de se alistar nas diminutas phalanges das viuvas inconsolaveis, mas não se precipitou na escolha de esposo. A sua belleza, o seu espirito e os rendimentos que herdára attrahiram uma nuvem de adoradores, que ella ia deixando viver de illusões, sem se dar para isso ao trabalho de fabricar, á imitação de Penelope, uma interminavel teia. Esta vida e estes galanteios enfadavam-n'a, e, para distrahir-se, emprehendia pequenas viagens. Foi ao voltar de uma que fizera pela Hespanha, que recebeu a carta do tio, e resolveu desenfadar-se por algum tempo da vida das capitaes, visitando a sua provincia e os logares onde passára a infancia.

Tal era a baronezinha de Souto-Real, que acabára de apeiar-se no pateo lageado da Casa Mourisca.

Jorge ajudou-a cortezãmente a descer.

—Agradecida, Jorge—disse ella, apertando-lhe a mão.—Fazes as honras do teu castello com a galhardia de um perfeito cavalleiro.

—A prima não repare na modestia com que a recebemos, mas pareceu-me que seria mais digno da nossa amizade e do seu caracter apresentarmo-nos taes quaes somos, do que encher o pateo de criados e jornaleiros a quem vestissemos á pressa fardas…

E completou a meia voz:

—… Emprestadas.

—Oh! por certo; e eu reconheço melhor a tua fidalguia, Jorge, na franqueza d'esta recepção, do que na libré dos teus criados e nos brazões dos reposteiros.

E conversando familiarmente com o primo, a quem tomára o braço, a baroneza subiu os degraus da escadaria, que subia para a sala nobre.

Á porta encontraram-se com frei Januario, que voltava azafamado da cozinha, aonde tinha ido dar ordens accommodadas á solemnidade do caso e ás impaciencias e appetite do proprio estomago.

O padre limpava ainda os labios ao lenço, para fazer desapparecer os vestigios de uma libação extra-official que de passagem fizera.

—Queira v. exc.ª perdoar, snr.ª baroneza, o apparecer-lhe ainda agora, mas as obrigações do meu cargo…

—Ó snr. frei Januario, por quem é, lembre-se de que somos conhecidos antigos, e que até por vezes lhe dei motivos para me abjurar como jacobina. Tinha que vêr se me preparava a honra de uma felicitação em fórma. Onde está meu tio?

—O fidalgo não estava prevenido de que v. exc.ª chegava tão cedo, e por isso ainda está recolhido no seu quarto, mas eu vou…

—Ai, não, não; por amor de Deus não o acorde!

—Não; elle está já a pé; mas emfim fazer a barba e tal… sempre leva alguns minutos.

—Que se não apresse por minha causa. Eu illudirei a grande vontade que tenho de lhe beijar a mão, conversando com o primo Jorge.

—Então, se v. exc.ª me dá licença…

—Até logo, frei Januario.

E quando este ia longe, acrescentou:

—Ó snr. frei Januario, aquelle grande dia que estava já para chegar na ultima vez que nos vimos, aquelle dia de redempção, ao que parece não chegou ainda?

O ex-frade encolheu os hombros, e respondeu com ar de mysterio:

—Ainda não é tarde, minha senhora. Pouco viverá quem não o vir.

Gabriella entrou rindo com Jorge para a sala.

—E Mauricio—inquiriu ella—tambem já tem barba para fazer?

—Parece-me que sahiu, ainda com estrellas, para uma partida de caça.

—Bom; esse, pelo que vejo, conserva puros os tradicionaes habitos de familia.

Jorge sorriu.

—Tu é que degeneraste. Deu-me que scismar a novidade. Estou tão costumada a vêr a deterioração progressiva na linha dos representantes das familias que tomam a peito não caldearem o sangue de primeira qualidade que lhes corre nas veias, que ao vêr sahir d'esta velha casa um rapaz de juizo, fiquei espantada.

—É pouco lisongeiro para a nobreza, mas muito lisongeira para mim a sua opinião.

—Digo-t'o com franqueza; e já agora deixa-me aproveitar este tempo, em que estamos sós, para fallar n'isto e assentar as bases do meu proceder. Vamos direitos á questão. As finanças não correm bem cá por casa, ao que entendi.

—Correm muito mal.

—Não admira; é doença da época. E tu tomas a peito endireital-as?

—Tentei-o.

—E conseguel-o. Consegues, porque o teu genio é o de uns certos homens que eu tenho conhecido, que conseguem tudo quanto querem, só a querer e sem fazer barulho. Ai, Jorge, lá por Lisboa ouço dizer que ha tanta falta de financeiros, que estou tentada a exportar-te. E Mauricio?

—Mauricio…

—Percebo; é mais difficil de accommodar esse. Era facil, se não fossem as pieguices de teu pae, que ha de morrer assim. Dize-me uma coisa, ó Jorge, tu és absolutista tambem?

—Eu quasi que não tenho ideias fixas em politica.

—Bom, bom, já entendo. Não queres declarar-te por contemplação para com as tradições de familia. Estás como eu; eu sou, sem duvida alguma, liberal; porque emfim deves concordar que para se ficar toda a vida a ser absolutista é preciso viver, assim como teu pae, em uma aldeia como esta e com um padre procurador a dizer-nos ha vinte annos a mesma coisa; porém, como meu pae foi militar no exercito realista, não tenho remedio senão obrigar a guardar certas conveniencias ao meu liberalismo. Ora tu estás no mesmo caso.

—Talvez. É certo que do que está feito, acho muita coisa boa.

—Então estás como eu. Mas como dizia, Mauricio podia encontrar muita carreira aberta, mas era necessario que o papá o deixasse partir sem levar o topete vermelho e azul muito á vista, ou a vera effigie ao pescoço; salvar as apparencias, porque das ideias ninguem quer saber. Á sombra da Carta engorda muito absolutista encapotado.

—Meu pae está hoje em um estado de tão facil irritação, que duvido que chegue a consentir.

—Então o remedio é procurar por ahi alguma descendente de Egas Moniz ou de Martim de Freitas, que por milagre não tenha a casa ainda em ruinas, e enxertar esse garfo illustre na vossa arvore genealogica.

—Mau remedio para finanças. Deu o arejo nas arvores genealogicas,
Gabriella; estão por aqui todas muito enfesadas.

—Então, então…

N'este momento ouviram-se passos ligeiros nas escadas, como de quem as subia duas a duas.

—Ahi vem Mauricio—disse Jorge, escutando-os.

Foi de facto Mauricio que appareceu á porta da sala.

A baroneza correu-lhe ao encontro, estendendo-lhe as mãos, que Mauricio galanteadoramente levou aos labios, curvando-se.

—Bravo! Já vejo que observas irreprehensivelmente as tradições dos bons tempos em que se era cortez com as damas. A provincia mantem-se mais delicada do que a côrte. Se soubesses como a moda hoje capricha por lá em um á vontade com senhoras, que até ás vezes chega a ser grosseria!

—Devéras, prima? Felizmente com certas bellezas femininas sente-se a necessidade de ser delicado, independente de proposito ou dos preceitos da moda.

—E se eu te deixasse completar a phrase, far-me-ias o favor de me incluir no numero das taes. Que requinte de lisonja! E isto a perder-se nas selvas!

—Não zombe da minha sinceridade provinciana.

—Não calumnies tu a provincia, dando esse epitheto á tua sinceridade. Nada, nada, o tio que tenha paciencia. Conservar em casa um cortezão d'esta força é quasi uma usurpação feita aos direitos da corôa.

—Bem; deixe-me fallar-lhe com seriedade. Como se sente da jornada?

—Hei de sentir-me cansada, quando tiver satisfeito toda a minha curiosidade, que por emquanto não me deixa sentir coisa alguma. Por exemplo, quaes são os teus projectos, os teus calculos sobre o futuro?

—Ó prima Gabriella, sempre cuidei que só na provincia se perdia tempo a calcular futuros. Uma pessoa de bom senso não calcula o futuro, que em um momento se transtorna.

—Bem, entendo o subterfugio. O priminho Mauricio ainda não tem planos definidos sobre a sua carreira na vida. Mas é preciso que saibas que vim aqui principalmente por tua causa. Tracta-se de te arranjar uma collocação qualquer, um assento nas camaras, um emprego na alfandega, seja o que fôr, com que tu possas transigir; foi a condição unica imposta por teu pae. Por isso vê lá.

—Olhe, prima, já que a sorte me levou á dura impertinencia de me vêr obrigado a adoptar um modo de vida, não quero tornar a impertinencia dupla, encarregando-me eu proprio de o escolher. Subscrevo ao accordo a que chegarem; decidam por mim, que ou me façam general ou tabellião, a tudo me resignarei.

—Desconfio de tanta condescendencia. Quer-me parecer que havemos de encontrar difficuldades mais serias do que as intransigencias sonhadas por o tio Luiz. Dar-se-ha que haja aqui por estes bosques scenas de Romeu e de Julieta?

—Ai, não falle n'isso a Mauricio—disse Jorge com um sorriso não de todo despido de ironia—por quem é, prima! É a sua corda sensivel, e tem de o aturar por muitas horas!

—Ah! então existe a Julieta?

—As Julietas, as Desdemonas, as Ophelias e todos os typos imaginaveis.
É um enxame que elle traz constantemente poisado no coração.

—Ah! ah! pois tu és dos que declinam o amor sempre no plural? Não sabia!

—Deixe-o fallar, prima Gabriella. O Jorge bem sabe que n'esta mesma occasião tão absorvido ando por uma só imagem, que é sem fundamento a accusação de inconstante que me dirige.

Jorge contrahiu a fronte, ao perceber a allusão, e disse sêcamente:

—Julguei que havias resolvido devéras ter juizo.

—Não é tempo agora de examinar esta questão—acudiu Gabriella—porque me parece que vem ahi o tio Luiz.

De facto o fidalgo apparecia á porta da sala e um pouco atraz d'elle o padre procurador.

O velho D. Luiz vestira-se quasi elegantemente para receber a sobrinha. Elegancia severa, accommodada á sua grave figura de ancião, mas elegancia inquestionavel. D. Luiz tinha uma presença magestosa e um todo de diplomata que impunha respeito.

O vestuario preto de que usava, sobre o qual sobresahia a gravata cuidadosamente lavada e engommada, augmentava o effeito natural dos seus dotes physicos.

O procurador formava inteiro contraste com o fidalgo. Curvado, olhando por cima dos oculos, com o lenço constantemente empunhado para acudir ás instantes reclamações de um defluxo chronico, parecia dominado por uma infantil timidez, mas não perdia um só gesto dos outros, que manhosamente observava.

A baroneza inclinou-se para beijar a mão do tio, que a acolheu nos braços.

—O tio Luiz!—dizia a gentil viuva, olhando-o—sempre o mesmo! Não o acho mudado.

—Não?!—disse o fidalgo com leve ironia na intonação e no sorriso.

—Olhe que não. E é natural. Bem vê que se golpes dolorosos o teem feito padecer, tambem lhe servem de conforto o socego d'estes sitios, a pureza d'estes ares, a tranquillidade d'esta vida e o affecto dos filhos que ainda lhe restam.

D. Luiz abanou a cabeça, mais triste e sombrio do que antes.

—Na sua idade, Gabriella, cicatrizam depressa as feridas. Quando se chega aos meus annos, golpe que se receba, é ferida com que se morre.

—Diga o snr. D. Luiz—interveio o padre—que o que tem é muita resignação christã, que n'estes tempos que vão correndo não é coisa vulgar.

E assuou-se.

—Mas para isso vale a meu tio o seu exemplo, snr. frei Januario—acudiu Gabriella.—Resignação ahi! Eu sou testemunha da heroicidade com que arrosta as vigilias e os jejuns.

Os presentes, incluindo o proprio D. Luiz, não puderam ouvir sem um sorriso a allusão da baroneza.

O padre córou, assuou-se com mais força e resmoneou com azedume:

—Bem sei que não é quanta Deus manda, nem quanta a alma precisa… e por peccador me tenho.

—Deve vir cansada, Gabriella—lembrou D. Luiz—Eu julgo que terão tido o cuidado de…

—Tudo está prompto. Logo que a prima queira descançar…—respondeu
Jorge.

—Não sinto grande necessidade de descanço. Descançarei depois do almoço, se me fizerem o favor de dar alguma bebida quente, porque tenho frio.

Em virtude d'esta reclamação, sahiram successivamente da sala Jorge, o procurador e Mauricio, ficando Gabriella só com o fidalgo.

Este parecia hesitar em alludir ao principal motivo da visita da baroneza.

Foi ella quem rompeu o gelo da entrevista.

—Recebeu a minha carta, tio?

—Recebi, sim, e agradeço.

—Diga que perdoa. Se quer que lhe falle a verdade, julgo que não lhe escrevi em estylo muito apropriado, mas tão desacostumada ando de escrever-lhe, e a gente com quem de costume me correspondo permitte-me tal familiaridade, que me descuidei.

—A carta nada tinha de censuravel. O que por ella vi foi que deveremos renunciar aos projectos que formei a respeito de Mauricio.

—Perdão; mas como viu por ella isso?

—Desde o principio ao fim. Não me diz que para que Mauricio abra carreira no mundo, é necessario condescender com certas coisas?…

—Ai, sim, mas quem é que não tem de condescender n'esta vida?

—Gabriella—tornou D. Luiz com certa aspereza—já ha pouco lh'o disse; as nossas idades differem. Quando se possue a sua juventude ha movimentos faceis, a que se não prestam as fibras inflexiveis dos meus sessenta annos.

—Sim, mas quando se é joven como Mauricio e se está nas circumstancias d'elle, das quaes estou informada pela sua obsequiosa confidencia, é menos prudente não ceder um pouco no tempo em que se póde ainda ceder com dignidade; porque depois… a vida para elle é longa, e quem sabe a que provações e sacrificios o sujeitará? O tio está em uma idade avançada, não espera numerosos annos de vida, não ama demasiadamente o mundo, e para a lucta conta com a inflexibilidade das suas fibras de sessenta annos. Mas elles, seus filhos, são novos, teem futuro, amor á vida e não possuem ainda a tal inflexibilidade para sustentarem o pêso de uma instituição morta sem vergar ou quebrar debaixo d'ella. Veja bem.

—De uma instituição morta!—repetiu o fidalgo, accentuando as syllabas e levantando os olhos para o tecto.

—Morta, sim, meu tio, desengane-se. Deus me livre de fallar agora em politica com o tio. Mas a verdade é que quem vive em certa sociedade, e ouve certas coisas, e estuda certos homens, acaba por convencer-se, mesmo sem pensar muito n'isso, de que um sonho como o de meu tio é… é… é um sonho.

—Seu pae morreu por um sonho assim, Gabriella.

—E eu venero a memoria de meu pae, não o duvide; assim como venero o caracter e as opiniões de meu tio; porque venero todas as convicções sinceras. Mas o que eu não queria é que se sacrificasse mais do que deve. A sua vida, a sua felicidade tem o direito de dar esse sacrificio. Mas a vida, o futuro, a honra e a felicidade de seus filhos, isso não.

—A honra?! A honra é que eu quero salvar-lhes.

—E quem lhe diz que elles teem as suas convicções?

Os olhos de D. Luiz fuzilaram ao ouvir esta insinuação.

—Se meus filhos…

—Sei o que vae dizer—atalhou Gabriella—mas não diga, porque contradiz os seus proprios actos. Esmerou-se em dar educação a seus filhos, em desenvolver-lhes a intelligencia, e agora quer que elles não usem d'esse instrumento que possuem, e que para pensar lhe venham pedir licença? Não valia ensinar-lhes a raciocinar n'esse caso.

—A razão deve-lhes ter mostrado a verdade.

—A verdade… a verdade… Ora valha-nos Deus, meu tio; e quem sabe onde ella está? Pois todas estas mudanças que succedem no mundo de que procedem, senão de se julgar a cada passo ter-se descoberto que a verdade não está onde se suppunha?

—Vejo que a convivencia social lhe tem dado uma boa dóse de philosophia para bem viver no mundo. Mas que quer? Eu regulo-me ainda por as cartilhas velhas.

—E o que lhe ensinam a fazer as cartilhas velhas a favor de seus filhos? O que é que, em harmonia com ellas, tem tentado e tenciona executar?

—Dar-lhes o exemplo de como se soffre a adversidade, quando se tem brios, e um nome que respeitar.

—A nobreza não está em soffrer de braços cruzados a adversidade, quando elles se podem empregar nobremente em repellil-a; Jorge bem o comprehendeu. Esse illustrará devéras o seu nome da unica maneira por que n'estas circumstancias elle póde ser illustrado. O que é preciso é que a ociosidade de Mauricio lhe não annulle os esforços.

D. Luiz ia a replicar quando o padre procurador entrou a annunciar que o almoço estava na mesa.

O fidalgo aproveitou de boa vontade o ensejo para cortar o dialogo que evidentemente o incommodou.

Cedo estava a familia da Casa Mourisca reunida á mesa na sala do almoço, da qual d'esta vez a voz alegre e a jovial presença da baroneza parecia afugentar parte das sombras que de ordinario pesavam sobre ella.

E na noite d'esse dia Gabriella escreveu uma longa carta a uma das amigas da capital, em que lhe narrava por miudo os episodios da sua jornada, a sua recepção na Casa Mourisca e as impressões que recebera.

Esta carta terminava por as seguintes palavras:

«Do que te tenho dito parece-me que podes concluir que se desvaneceram aquelles projectos de sacrificio que trouxe d'ahi e com os quaes não te conformavas. O meu primo Jorge é um rapaz mais serio ainda do que eu o suppunha. Não fazes ideia. Affirmo-te que é incapaz de casar por interesse, e como o espirito d'elle anda muito occupado por calculos e combinações economicas, não é tambem provavel que se deixe tomar por o amor, e portanto não casa. Assim fico dispensada de sacrificar os meus queridos habitos de vida de Lisboa, ao que vinha devéras decidida para salvar esta familia com os meus capitaes, que mal sei gerir. Este rapaz se amar, o que não é provavel, ha de ser de alguma maneira extravagante, inesperada.

O outro é uma criança, que não se póde tomar a serio por marido.»

Por aqui se vê quaes eram as generosas tenções de Gabriella ao chegar á Casa Mourisca, e quaes as modificações que no decurso d'aquelle dia os seus projectos haviam soffrido.

XV

Ao outro dia pela manhã, estava Mauricio apparelhando por as proprias mãos o cavallo favorito, quando Jorge foi ter com elle.

—Tencionas ir hoje ao Cruzeiro?—perguntou Jorge.

—Talvez passe por lá. Porquê?

—Porque n'esse caso podias poupar-me o trabalho de lhes mandar convite especial para o jantar d'ámanhã.

—O jantar de ámanhã!?

—Sim; o pae insiste em celebrar com um jantar a chegada de Gabriella, e bem vês que não é possivel deixar de convidar os do Cruzeiro, ainda que, por minha vontade, os deixaria quietos no seu antro.

—Eu os convidarei. D'esses me incumbo. E a outra parentela?

—Mandar-se-hão cartas.

—Um jantar na Casa Mourisca! Ó sombras dos nossos antepassados, folgae!

—Estremecei, dize antes, que mais razão teem para isso.

—Estes velhacos não deitaram hontem de comer a este pobre animal—observou Mauricio, afagando o cavallo.

—Seria uma prova de affeição que lhe dariamos se lhe proporcionassemos occasião para mudar de dono—murmurou Jorge, sorrindo.

Pouco depois, Mauricio montava e partia a trote para o Cruzeiro.

A casa do Cruzeiro, solar dos asselvajados primos de Mauricio, ficava no extremo da povoação, exhibindo nos campos que a cercavam uma agricultura preguiçosa e mesquinha, e dominando um vasto tracto de mal cuidadas bouças, onde os senhores da propriedade perseguiam implacaveis as lebres e perdizes, que alli se acoutavam.

Causava lastima o estado de decadencia a que a má administração e a vida dissipada dos senhores do Cruzeiro tinham levado aquella casa, de cuja passada grandeza já nem se descobriam vestigios.

Na actualidade não era mais do que um velho casarão ennegrecido, mal vedado aos ventos e ás chuvas, onde cada dia realisava um novo estrago, que nunca mais era reparado. Por fóra e por dentro a mesma absoluta carencia de confortos; porque não sentia a necessidade d'elles a robusta organisação de qualquer dos proprietarios; afeitos á vida dos montes, ás longas caçadas e ás luctas com os rigores do tempo. O solo árido, os celleiros vazios, a abegoaria deteriorada, os curraes desertos, a cultura perdida… era desolador o aspecto do solar do Cruzeiro! Parecia havel-o fulminado um d'aquelles tremendos anathemas de que rezam os livros sanctos, os quaes feriam de esterilidade igual as entranhas da mulher e as entranhas da terra. Os pinhaes, cortados sem methodo nem prudencia, cahiam sacrificados ás penurias monetarias do morgado, que ia a pouco e pouco transmutando em vinho toda a propriedade. As aguas vendidas para acudir a iguaes urgencias abandonavam as terras á sêde que as fazia infecundas. Umas apparencias de movimento agricola, que ainda se divisavam na quinta, eram-lhe mais fataes do que beneficas, e podiam comparar-se ao fervedouro das larvas nas carnes em decomposição. N'aquelle vasto corpo, que se decompunha, tambem se agitavam seres que viviam dos seus detritos.

Trabalhava-se alli para destruir e não para semear ou edificar. O desbarato com que os proprietarios sacrificavam os seus bens, attrahia os ávidos visinhos, como córvos sinistros em volta do cadaver exposto na estrada.

Era meio dia, quando Mauricio se apeiou no espaçoso pateo da casa, onde reinava o silencio das ruinas. Apenas se ouvia o latir de uma matilha encerrada nas lojas e impaciente por ir bater as mattas e bouças. O aspecto que feria a vista de quem entrava era de uma propriedade inteiramente abandonada; alli apodrecia um arado inutil; além oxydavam-se os metaes de inactivos instrumentos de lavoura; a agua empoçada das ultimas chuvas estancava, cobrindo-se de uma crusta esverdeada; as ortigas e parietarias vegetavam em plena liberdade, nas junturas das lageas e nos buracos das paredes. Nos telhados cresciam em verdadeira floresta as hervas parasitas; fragmentos de louça, de garrafas, velhos arcos de pipa, farrapos, montões de caliça pejavam, desde tempos immemoriaes, a superficie do pateo. Manchas verdes de musgos e de lichens, que a humidade desenvolvera, cobriam a fachada do edificio, por onde havia muitos annos não passára a brocha do caiador.

Mauricio subiu as escadas d'esta casa humida e entrou nos corredores que estavam tão desertos como o pateo. Passeavam por elles imperturbadas as gallinhas e as pombas como em terreno familiar, e occasiões havia em que pela porta meia aberta dos aposentos se insinuava curiosa uma cabeça suina. Só os criados não appareciam; a ociosidade dos amos era contagiosa. Conhecedor da topographia da casa, Mauricio foi ter direito ao quarto dos primos que procurava.

Dormiam ainda os dois mais novos, emquanto o morgado andava labutando com alguns lavradores visinhos no destroço do que ainda lhe restava.

O somno do padre e do doutor não era para ceder á primeira chamada. Ainda depois de lhes bater á porta, Mauricio continuou a ouvil-os ressonar em um duo assustador.

A final respondeu a voz rouca de um d'elles com um som inarticulado, que claramente expressava o mau humor que lhe assistia ao despertar.

—Sou eu, abram—disse Mauricio, continuando a bater.

Respondeu-lhe uma praga, e depois outra voz acrescentou:

—A porta está aberta. Levanta a tranqueta e entra.

Mauricio assim fez e entrou para a sala, que servia de aposento commum dos dois manos.

Havia dentro uma atmosphera quente, abafadiça e viciada de fumo de cigarro que suffocava.

A sala era ampla, mas de um desarranjo e desconforto indescriptivel.

Dois catres de ferro ao lado um do outro, uma cadeira sem fundo, sustentando a bacia e jarro mutilados, servia de lavatorio, a roupa pendurada em cabides fixos na parede mal caiada e salitrosa, ou cahida pelo chão, o espelho pendente dos caixilhos da janella, velas de sebo meio gastas mettidas em garrafas, cuja superficie era adornada de gordurentas stalactites, e em palmatorias de metal pintado de lagrimas verdes pela oxydação; a um canto o deposito da roupa suja, em outro o arsenal, composto de espingardas, rewolvers, paus ferrados, chicotes e cassetetes; além os arreios de cavalgadura; na mesa, ao pé da cama, os restos das grosseiras iguarias da ceia da vespera, alguns usados baralhos de cartas, de mistura com umas insignias pobres e desprezadas da vestimenta do padre, tudo ennodoado de azeite e de vinho, e pontas de cigarro por toda a parte.

Os dois achavam delicias n'este viver, que chamavam escolastico, e que diziam avivar-lhes recordações dos seus tempos de estudante.

Bem poderia comtudo o aposento ter mais um grau de limpeza, sem que n'isso tivesse de despir a feição de desordem, caracteristica a um quarto de rapaz solteiro.

Quando Mauricio abriu para traz as portas das janellas, os dois primos saudaram com uma jura a luz do dia, que foi incommodar-lhes com os seus raios a retina preguiçosa. Depois de um ruidoso e prolongado bocejo, o doutor sentou-se na cama com os olhos mal abertos e os cabellos cahindo-lhe em desordem sobre a testa; e o padre, meio amuado, voltou-se para a parede, no intento de encetar outro somno.

—Que vida de inuteis vadios esta!—exclamou Mauricio, puxando para o meio da sala a mais desoccupada e limpa cadeira que encontrou, e pondo-se ás cavalleiras n'ella.—Ao meio-dia!

—Isso! Vem para cá fallar da vida de vadios. Olha se me convences de que te afadigas muito a trabalhar.

—Em todo o caso já vim de minha casa até aqui e tu, ao que parece, ias no meio de um somno e lá o padre então… esse vae, pelo que estou vendo, no principio d'outro.

—Mas como diabo te deu para vires por aqui tão cêdo?

—Cêdo? Olha que é meio-dia! Mas… vim encarregado de uma missão.

—De quem?

—De meu pae.

—De teu pae?! Para nós?!

—É verdade. Estou incumbido de vos convidar a todos tres para jantar ámanhã.

O padre deu uma volta na cama, ao ouvir este convite e fitando Mauricio com olhos espantados, ainda que mal abertos, exclamou com voz rouca de somno:

—O tio Luiz dá ámanhã um jantar?!

—Sim, senhor. Em obsequio á Gabriella, a baronezinha de Souto-Real, que lá está desde hontem de manhã.

—Ora essa!—acrescentou o padre, e tornou a voltar-se para a parede.

—Bravo!—applaudiu o doutor—isso já me cheira melhor do que a tal historia do Jorge feito guarda-livros. Aquelle Jorge com'assim ha de ser sempre d'essas ratices. E dize-me cá: que tal está agora a Gabriella?

—Não me pareceu mal; ainda que, para te fallar a verdade, não lhe dei muita attenção.

—Sim, tu andas agora distrahido com a…

N'este ponto interrompeu-se subitamente, e dando uma palmada no travesseiro, a qual lhe fez cahir na cama a cinza inflammada do cigarro que principiou nos lençoes uma centesima combustão, exclamou:

—É verdade! que me ia esquecendo? fizemos uma grande descoberta esta noite, homem!

—Qual foi?

O padre, ao ouvir as palavras do irmão, deu um salto para sentar-se na cama, e preparando tambem um cigarro, disse, fitando Mauricio com um sorriso alvar:

—Olha lá, ó Chico. Vê como contas a coisa, porque o Mauricio é nervoso; não sei se sabes.

—Mas de que se tracta?

—De um caso muito engraçado. Rimos a perder. Mas ainda havemos de rir mais, porque a historia promette dar de si.

O padre, meio estendido pela cama fóra para pedir lume ao irmão, confirmou o dito d'este com um gesto e um grunhido.

—Mas digam lá o que foi—insistia Mauricio.

—Hontem á noite—principiou o doutor—fui eu aqui com o Lourenço á espadelada do Martinho. Aquillo não esteve de todo mau. Bem boas raparigas, e a luz conveniente. Mas, alli pelas onze horas, appareceram uns apaixonados armados de varapaus, e com uns certos modos, que principiaram a fazer ferver-me o sangue.

—Eram os mesmos da feira do mez passado—acudiu o padre—mal fiz eu em não ter quebrado os ossos ao Gaudencio, quando o deixei atordoado na estrada.

—O certo é—proseguiu o mano doutor—que os homens começaram a fazer-se finos, e eu que vi o Lourenço já a fumegar, previ logo o caldo entornado e fui procurar o marmeleiro que deixára atraz da porta, para o que desse e viesse.

—Não era preciso. Para aquelles basto eu só—annotou o padre, sugando com força o cigarro, que teimava em não arder.

—Meu dito, meu feito—continuou o outro—nós a sahirmos e elles comnosco. O Lourenço pôz logo dois fóra do combate; eu arquei com o terceiro, que me derreou o braço esquerdo, mas a quem escangalhei a cabeça; o ultimo fugiu-nos. Era o João do Pinhão.

O padre interveio:

—Eu, que lhe ando com sêde, disse logo para o Chico: «Vamos d'aqui cortar-lhe o caminho e dar-lhe uma lição.» E tomamos pela quelha do regedor.

—E viemos sahir mesmo defronte da porta do Thomé! por traz da prêsa.
Sabes?

—Sei muito bem.

—Ora o homem não appareceu.

—Mas appareceu cousa melhor—acudiu o padre.

—Havia de andar peia meia noite e nós sem fazer bulha ainda escondidos na sombra. Percebes?

—Mesmo defronte da casa do Thomé—insistiu o padre.

—E depois?—interrogou Mauricio impaciente.

—Depois…

  A mulher é um catavento,
  Que com os ventos varia;
  Seu amor dura um momento,
  Tolo é quem n'ellas se fia.

Cantarolou o doutor.

Mauricio olhou interrogadoramente para o padre.

—Meu caro priminho—disse-lhe este—põe as tuas crenças de môlho e prepara-te para arrancares um punhado de cabellos; um ou dois.

—Mas que queres dizer com isso?

—Quero dizer que a porta do Thomé abriu-se sorrateiramente e sahiu de lá um patusco… Trai la rai lai lai.

—É impossivel!—exclamou Mauricio com indignação, comprehendendo as malignas allusões do primo.

—Qual impossivel?—confirmou o padre—Não ha impossiveis n'este mundo.
Desengana-te, menino.

—Mas teem a certeza de que se não illudiram?

—Ora se temos. Era um homem em corpo e alma.

—E viram quem era? Conheceram-n'o?

Os dois irmãos, a esta pergunta, trocaram entre si um olhar e um sorriso de velhacaria.

—Com certeza, não; mas suspeitamos—respondeu o doutor.

—Quem é?

—Alto lá! Nada de ferver em pouca agua. Isso fica para segunda observação. Por ora não possuimos ainda a certeza. Porém já mais de uma noite temos encontrado o tal ratão, de quem suspeitamos, não muito longe do sitio, e já andavamos com a pedra no sapato.

—Ó Chico, olha que o Mauricio não está bom. Estes golpes repentinos…

—Qual! Se eu não acredito uma unica palavra do que vocês estão para ahi a dizer—tornou-lhe Mauricio, erguendo-se e passeiando na sala agitado.

—Não que a cousa é muito para se não crer—disse o doutor, principiando a vestir-se—uma rapariga de dezoito annos, que vem do collegio, ter um apaixonado?… Sim, o caso é tão raro!

—Vocês não conhecem Bertha.

—Tu, sim, que a conheces. Papalvo de olhinhos fechados que ainda anda a sonhar por este mundo com princezas encantadas—observou o padre, tirando de entre a roupa da cama um volume de Paulo de Koch, com que adormecêra na vespera.

—Então lá por que um homem sahe de noite de casa do Thomé, já não póde ser senão por amor de Bertha. É boa!—insistia Mauricio, contra a sua propria convicção.

—Sim, meu menino, sim; isso tudo e o mais que tu quizeres—respondeu-lhe o padre, apertando outro cigarro.

—Veremos o que tu pensas, assim que vires o tal homem—tornou o doutor.

—Ora mas digam-me: Pois não ha tanta gente em casa?

—Pois ha, ha.

—Então…

—Então tem vocemecê razão—concluiu impertinentemente o padre.

—Muito bem—propôz o doutor.—Para sahir de duvidas queres tu vir comnosco bater a mata esta noite para conhecer o coelho?

—Quero, sim.

—Muito me hei de rir esta noite!—exultou o padre, saltando abaixo da cama.

—Mas promettes não assassinares a pequena na furia do teu ciume?

—Não creio verdadeira a vossa supposição, mas se o fosse…

—Que farias? Ora dize lá—perguntou o padre, piscando um olho emquanto esperava a resposta.

—Achava essa mulher tão desprezivel que…

—Pumba! Ora ahi temos outra. Na verdade ha nada tão desprezivel como uma mulher que abre a porta a qualquer pessoa de preferencia ao menino Mauricio, a joia dos namorados!—ponderou zombeteiramente o padre.

—Não quero dizer isso, mas…

—Pois, meu menino, prepara-te para o desengano, e volta ás priminhas dos Barrocaes, que essas são fieis.

—Ora, mas digam-me vocês uma coisa—insistia Mauricio—quem querem que seja o homem que possa estar já com Bertha n'esse tom de familiaridade?

—Não entremos n'essa questão. A seu tempo cahirão as cataratas.

—Já digo, eu não acredito.

—Pois nosso Senhor te dê sempre essa commoda incredulidade; antes de casar e depois de casar.

E entre os tres ficou pactuada para aquella noite uma espionagem cerrada á casa de Thomé, com o fim de reconhecerem a mysteriosa visita.

Mauricio passou o dia todo pensativo e preoccupado com a revelação que os primos lhe fizeram.

Ainda quando Bertha não tivesse adquirido grande preponderancia sobre os pensamentos de Mauricio, bastaria a ideia de que outro o preterira no coração de uma mulher, a quem elle havia dedicado um olhar de galanteio, para devéras o irritar.

Mas, de justiça é que se diga, o amor, a paixão, a inclinação, o capricho, ou como mais rigoroso nome tenha, o sentimento de Mauricio para Bertha attingira a maxima intensidade, a que podiam subir os affectos d'aquelle caracter voluvel. Se não amava ainda devéras, é certo tambem que nunca amára melhor. Bertha demais possuia sobre as outras mulheres, que nas épocas successivas haviam reinado na imaginação d'este rapaz, o prestigio das recordações de infancia, a distincção de tracto adquirida na educação da cidade, e até a desaffectada reserva com que lhe tinha acolhido o galanteio.

As reflexões de Jorge contra aquelles amores, a perspectiva das repugnancias de familia, dos obstaculos a vencer, dos preconceitos e paixões com que luctar, longe de extinguirem a chamma em que elle procurava abrazar-se, antes mais a activavam.

A ideia de um amor entre dois corações jovens, amor constante em despeito do antagonismo, das animadversões e dos odios das familias; esse eterno e poetico thema de tantas obras de arte, era sympathico á phantasia de Mauricio, que, seduzido por ella, chegou a convencer-se de que estava destinado a ser mais um exemplo do caso; estimulo este sufficiente para o apaixonar.

Jorge estranhou-lhe o ar pensativo, mas não o interrogou.

A baroneza, usando dos privilegios de mulher nova e elegante, costumada a não refrear a sua curiosidade feminina, interpellou-o directamente:

—Não voltaste muito amavel do teu passeio matinal, Mauricio. Que foi isso?

—Perdoe-me, prima. Isto é uma das muitas mudanças de colorido que, sem que se saiba porque, se opéra no humor de uma pessoa.

—Hum! Não andará ahi influencia do coração?

Mauricio soltou um meio riso de descrente, respondendo:

—O coração! O meu coração é modesto. Não aspira a dominar. Nunca lhe conheci essas tendencias.

—N'isso mesmo que dizes d'elle se está a perceber que ha espinho lá dentro.

—A prima ha de perdoar-me a franqueza; mas já vejo que tem o defeito do seu sexo, que é não poder imaginar que haja sobre o caracter e a boa ou má disposição de um homem outra influencia que não seja a de uma mulher.

—E quando os homens se occupam tão pouco de coisas graves, como… certos que nós conhecemos, a lei não deixa de ser verdadeira.

—Engana-se; vê? Os homens da minha indole são exactamente aquelles que estão menos sujeitos á influencia que diz. Aceitamos a infidelidade e a inconstancia feminina como um facto natural e com que já contavamos, porque em nós nunca se desenvolvem aquellas illusões que levam muitos espiritos a endeusar a mulher. Estamos prevenidos para todas as occorrencias, porque nunca nos esquecemos da fragilidade d'esses delicados objectos, que amamos só por que são frageis e delicados. As grandes desillusões e os profundos desespêros são para os que fazem do amor um culto e sonham a mulher de uma essencia superior. Persuadem-se de que é de crystal a bola de sabão matizada que os seduz, e portanto ficam muito desconsolados quando ella se lhes desfaz no ar.

—Cada vez confirmo mais a minha supposição. Eras bastante delicado para me poupares a essa theoria de mau gosto sobre a mulher, se não estivesse fallando em ti o despeito por uma causa recente.

A exactidão da observação da baroneza feriu Mauricio no riso e fêl-o balbuciar, córando:

—Peço perdão se a minha franqueza a offendeu, porém…

—Não te canses a desculpar-te. Eu até achei graça a essa profissão de scepticismo, já muito meu conhecido, mas que não sabia que tambem nascia nos bosques, onde julguei que se haviam refugiado as boas crenças desde que emigraram das cidades. Ámanhã espero que estarás mais senhor de ti.

—Estou a sangue frio, creia.

—Veremos com mais vagar esse coração. É-me isso preciso para os meus planos.

—Os seus planos?!

—Então já te esqueceste de que eu estou aqui principalmente por tua causa?

—Ah! sim, agradeço-lhe o cuidado; mas estou receiando ter de dar-lhe muito que fazer.

—Veremos.

A noite chegou e bem vagarosa para a impaciencia de Mauricio.

Pouco mais seria de Ave-Marias, já elle instava com os primos do
Cruzeiro para que fossem pôr-se de vigia.

—Isso não vae assim!—diziam elles—Pois que cuidas tu? Não sabes que o passaro é dos que só voam de noite? Falla-nos lá para as onze horas.

Mauricio illudiu em todo este tempo a sua impaciencia, tentando provar aos primos com argumentos novos, que lhe tinham occorrido em casa, a impossibilidade de ser para Bertha a visita nocturna da Herdade.

Os primos respondiam rindo só com phrases equivocas, que Mauricio não comprehendia.

—Olha cá, ó Mauricio—perguntou o mano doutor—em tua casa sabe-se do teu namoro com a filha do Thomé?

—Ahi vens tu com o namoro!…

—Pois seja o que quizeres; da tua affeição, se achas mais bonito; mas sabem?

—Apenas o Jorge me fez a esse respeito algumas reflexões.

—Ah! o Jorge fallou-te n'isso?

—Ha dias. Pelos modos o Thomé queixou-se-lhe…

—Ai, o Thomé queixou-se ao Jorge? Sim senhor, tem graça. Que te parece, ó Lourenço?

—É bem bom! e então o Jorge deu-te conselhos, hein?

—Sim, disse-me alguma coisa; que era preciso cautela, que não era prudente o meu proceder…

—Ah!

—E quasi me fez prometter que desistiria.

—Ah! fez-te prometter isso?

—Quasi.

Os dois não podiam suster o riso.

—É impagavel aquelle Jorge!—repetia de quando em quando o padre.

—Vocês bem sabem o genio d'elle.

—Ai, sabemos. Pois nós bem sabemos… o genio d'elle. Ah! ah!…

E os risos redobravam.

Mas a noite chegára emfim e cerraram-se cada vez mais as sombras sobre os caminhos do campo. Mauricio pôde finalmente acompanhar os primos ao logar da espia.

Dirigiram-se alli por os sitios menos frequentados, e sem soltarem uma palavra.

Mauricio, a seu pezar, sentia-se dominado por uma commoção profunda. Não era só despeito, era já uma nascente repugnancia pelo acto que praticava. Envergonhava-se d'aquelle furtivo mister de espião.

Chegados ao local, o padre escolheu a posição de maneira que podessem vêr, sem serem vistos.

Por muito tempo nada descobriram; nem ouviram mais algum som além do melancolico gemer dos sapos, a distancia.

Mauricio, entre impaciente e satisfeito por o resultado nullo da espionagem, principiava a dirigir aos primos alguns ditos epigrammaticos, quando a mão do doutor lhe tapou a bôca, ao mesmo tempo que o padre se voltava para lhe recommendar silencio.

Effectivamente encostado ao muro da Herdade caminhava um homem, que a sombra da noite não deixava conhecer.

Chegando á porta, que devia estar apenas cerrada, empurrou-a e entrou, e fechou-a de novo sem fazer ruido.

Mauricio quiz correr atraz d'aquelle homem. Retiveram-n'o os primos.

—Espera, pateta! Deixa-o sahir, que eu te prometto que havemos de conhecêl-o.

—Que diabo queres tu fazer, maluco? Não vês que espantas a caça?

—Hei de vêr quem elle é!

—Pois sim, mas para isso é preciso prudencia.

—A porta ficou aberta. Eu vou…

—Vaes aonde? Ora tem juizo. Á sahida pilhamol-o.

Mauricio porém insistiu e os primos condescenderam em passar um cauteloso exame á entrada por onde o vulto desapparecêra.

Reprimindo a custo os impetos de Mauricio, o padre dirigiu a exploração, e mui de mansinho entreabriu a porta e entraram no pateo da casa; perto ficava a escada, por onde se subia para as salas.

Mauricio ia a transpôl-a, mas os primos impediram-n'o. D'aqui originou-se uma pequena altercação que, ainda que em voz baixa, foi percebida pelos cães que latiram furiosos.

De uma das janellas da casa partiu uma voz, perguntando:

—Quem está ahi?

Era a voz de Bertha.

Mauricio ia a responder-lhe, cheio de indignação, mas o padre tapou-lhe a bôca e obrigou-o a retirar-se.

Esta retirada foi feita com tal pericia, que não excitou mais attenção da gente da casa.

Tudo recahiu em socego.

A presença de Bertha foi para Mauricio a confirmação das suspeitas dos primos.

Por isso mais excitado e impaciente do que até alli, aguardava a sahida do mysterioso incognito.

O padre collocou-se em sitio apropriado para poder tolher a passagem ao visitador nocturno.

Perto de hora e meia aguardaram os tres. A final ouviu-se ruido na porta, e depois de algumas palavras ditas para dentro a meia voz, o homem espiado sahiu.

Ouviu-se atraz d'elle correr a chave na fechadura cautelosamente.

A vinte passos, pouco mais ou menos, de distancia da casa de Thomé, o personagem que tanta curiosidade excitava, viu o vulto de tres homens immoveis, que lhe estorvavam a passagem.

Mais perto d'elles, parou a perguntar-lhes:

—Tenho o caminho livre?

—Apenas depois de satisfeita a simples formalidade de se dar a conhecer—respondeu o padre.

—Á ordem de quem?

—De tres contra um.

—É direito que não reconheço.

E o individuo, desembaraçando um pouco os braços, que levava envolvidos em uma manta, parecia disposto a fazer face a uma d'essas aggressões, que não são raras em algumas das nossas freguezias ruraes.

N'este tempo porém Mauricio, a quem a voz d'este homem havia ferido desde as primeiras palavras que lhe ouvira, adiantou-se para elle, e ao vêl-o desembaraçado, exclamou:

—Mas… elle é Jorge!

Os primos soltaram uma risada.

Jorge, que o leitor já tinha reconhecido, vendo emfim quem eram os seus suppostos aggressores, deixou outra vez cahir a manta sobre os hombros e perguntou em tom de leve despeito:

—Então que brincadeira é esta?

—Não é nada, primo Jorge—respondeu o doutor—quizemos apenas verificar uma suspeita.

—Uma suspeita?!

—Vamos, perdoa-nos a indiscrição, mas bem vês que ha poucos prazeres para uns peccadoraços como nós, iguaes ao que nos causa o vêr cahir um sancto nas mesmas fraquezas de que nos accusam.

Isto disse o padre, o doutor acrescentou:

—O que te pedimos de hoje em diante é menos severidade nos teus juizos e mais indulgencia para as miserias dos humanos.

Jorge principiou a irritar-se com as palavras dos primos; voltando-se para Mauricio disse-lhe com certa rispidez e quasi tremendo de indignação:

—Tu, que estás mais habituado do que eu a lidar com estes senhores, não me saberás explicar estes ditos, que não percebo, e ao mesmo tempo a significação da tua presença aqui, a tolher-me os passos, como um ladrão nocturno?

O silencio de Mauricio significava tambem muita indignação e cólera concentrada.

A presença de Jorge n'aquelle legar sómente a podia explicar aceitando a hypothese maligna dos do Cruzeiro; e na recordação da conversa que tivera com o irmão, a respeito da filha de Thomé, via agora um excesso de dissimulação e hypocrisia, que o revoltavam tanto mais vehementemente, quanto maior era o respeito que até alli lhe mereceu o caracter de Jorge.

Por isso a sevéra interpellação d'este fez rebentar em explosão aquella cólera mal reprimida.

—Escusas de te armares com os teus costumados ares de juiz e de censor, Jorge—exclamou Mauricio indignado—bem vês que, desde este momento, perdeste para mim todo o prestigio e toda a authoridade moral. Tive até hoje candura bastante para tomar a serio o teu caracter de prudencia e a tua lealdade, mas desde que vejo a hypocrisia, que havia em tudo isso, sou eu que domino e que tenho o direito de interrogar e de censurar.

—Enlouqueceste, Mauricio?—perguntou Jorge em tom quasi de piedade, que mais irritou o irmão.

—Que indigna e ridicula comedia andas tu a representar n'este mundo?—tornou este quasi allucinado—Na tua idade tens já coragem para tanto! Armares-te de severidades pedantes contra as minhas loucuras de rapaz, loucuras leaes a final de contas e a descoberto, loucuras, mas não vilezas, e occultares na sombra actos, que a mim, ao estouvado e perdido, fariam córar de vergonha. Oh! não te invejo o talento de comediante, Jorge.

—Mauricio, repara que não estás em ti.

—Sim, eu tenho esse defeito. Não sei medir as minhas palavras, não sei encobrir, nem disfarçar; tudo o que penso me vem aos labios. Hontem dizia que te estimava e respeitava, e era verdade; hoje digo-te que te desprézo e te lastimo, e é verdade tambem. Cuidas que não me recordo das tuas palavras e dos teus conselhos ha poucos dias? Invocaste o nome sagrado de nossa mãe, a memoria venerada de Beatriz, para quê? para exigires de mim uma promessa; dizias tu, que era a de respeitar a paz de coração de uma rapariga, que uma abençoára e a quem a outra quizera como a irmã; mas sob a capa d'essa promessa ia a de te deixar em paz no gozo das tuas aventuras nocturnas e dos teus amores traiçoeiros e escandalosos.

—Silencio!—exclamou Jorge, com um tom intimativo que cortou em meio as palavras do irmão.

—Podia perdoar-te todos os insultos feitos ao meu caracter; não posso consentir que calumnies quem não está aqui para se defender, e quem tinha direito a esperar encontrar em ti um defensor e não um calumniador. Ordeno-te silencio em nome de alguns restos de honra, que ainda te deixassem intacta as companhias devassas que frequentas.

—Que é lá isso, priminho, que é lá isso?—acudiram immediatamente os dois manos.

Jorge não se intimidou.

—Não me assustam as suas ameaças. Sei agora o que significa esta espionagem e aquellas gargalhadas cynicas e alvares de ha pouco. Cabe-lhes bem o papel degradante que desempenham aqui, e nem é de estranhar o conceito que formam das intenções dos outros de que julgam pelas suas. O que lamento é vêr-te associado a esta empreza, Mauricio, porque, faço justiça ao teu caracter, deve repugnar-te intimamente o passo que déste.

—Em vez de sermões, priminho, não acha que seria melhor explicar-nos o que veio fazer a horas mortas a esta casa?

—Não sinto a necessidade de explicar as minhas acções diante de taes juizes. Pouco me importa a estima em que teem a minha reputação os senhores do Cruzeiro. Resignar-se-hão portanto a prescindirem das explicações que pedem.

Os dois riram-se maliciosamente. Jorge proseguiu:

—Entendo esse riso. Conheço-os. Sei que depois da espionagem se segue a calumnia; mas o meu desprezo é muito grande para transigir. Calumniem.

—Ora essa! Nós sabemos guardar um segredo. Socega.

—Sei qual é o alimento com que se nutre a sua ociosidade. Não importa. Á vontade, meus senhores, teem a estrada livre e contem que não serei eu que os estorvo n'aquella que costumam seguir, porque não a frequento.

Dizendo isto, deu alguns passos para se afastar; depois, voltando-se para Mauricio:

—Repara que já desceste o primeiro degrau da infamia; espiaste; agora vê se desces o segundo, calumniando. Ha n'aquella casa uma familia tranquilla e respeitada, ajuda agora esta gente a manchal-a de lama, ajuda; o insulto é facil para quem não precisa de se abaixar muito para a apanhar.

Os primos, ainda que valentes e atrevidos, ouviram com excepcional prudencia a correcção que lhes infligira as palavras de Jorge e limitaram-se a acompanhal-o de risadas quando elle se retirou.

Mauricio estava já sentindo remorsos do que dissera ao irmão. Este adquirira sobre elle o seu antigo ascendente.

—Parece-me que foi bem infame o que fizemos aqui—disse Mauricio, arrependido.

—Sim? Parece-te isso? Pois vae pedir perdão ao mano—tornou-lhe o padre, rindo com desdem.

—Parvo!—exclamou o doutor—Querem vêr que engoliu a arara?!

—Deixa lá, então que queres? a innocencia tem d'estas canduras.

—Mas vocês ainda acreditam?…

—Ora adeus, adeus! Vae-te deitar e vê se nos arranjas umas indulgencias do mano Jorge.

E os primos deixaram Mauricio, e partiram zombando da candura d'elle.

Mauricio voltou a casa desgostoso de si e com o espirito fluctuando entre o remorso e a suspeita.