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Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia cover

Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia

Chapter 20: XVII
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About This Book

A obra acompanha uma família nobre provincial cujo imponente solar, popularmente apelidado em referência à presença moura, domina a aldeia; descreve a arquitectura melancólica do paço e o declínio económico provocado por dívidas, terras mal cultivadas e abandono; expõe tensões familiares e políticas, com um patriarca conservador e os laços partidos pela revolução, e a vida dos dois filhos jovens; intercala tradições locais — lendas de mouras encantadas, jogos de mouros e cristãos e rumores de tesouros enterrados — e pinta a paisagem social e sentimental da aldeia entre memória, orgulho e ruína.

XVI

Amanheceu alvoroçada e ruidosa a Casa Mourisca no dia destinado para o jantar, em homenagem a Gabriella.

N'aquelle tranquillo e silencioso edificio, que parecia constantemente absorvido nas recordações dos seus tempos de gloria, notava-se um movimento excepcional.

O velho fidalgo não quizera faltar ás tradições de hospitalidade que a familia lhe legára.

Ordenou que, embora á custa de qualquer sacrificio, se celebrasse a chegada da sobrinha, segundo o velho estylo, convidando-se para jantar os representantes da mais preclara nobreza dos arredores.

Ainda que a tristeza e misanthropia, de que era victima, o trouxessem, havia muito tempo, arredado dos parentes e dos amigos de outras épocas, o senhor da Casa Mourisca preferiu sujeitar-se á impertinencia de lhes abrir mais outra vez as suas salas, a deixar de cumprir uma pratica que lhe impunham os brios de fidalgo creado nos habitos de grandeza e liberalidade de um solar de provincia.

Jorge tentára ainda oppôr algumas sensatas reflexões a esta dispendiosa exhibição de uma opulencia mentida; mas encontrou o pae inflexivel.

Frei Januario, que antevia a perspectiva d'um d'aquelles regalados jantares, que se tinham ido com os dizimos, com os foraes, com as luctuosas, com os conventos, com as milicias e com muitas outras coisas igualmente despertadoras das suas clericaes saudades, frei Januario, dizemos, sentia em si uns jubilos de criança, que nem podia nem procurava disfarçar.

Eloquente como nunca, corroborou a opinião do fidalgo, fazendo-lhe bem sentir o deslustro que soffreria o brazão da casa se não se observassem essas praticas senhoris dos tempos passados, e dando como faceis de aplanar todas as difficuldades que, á primeira vista, apresentava o projecto.

A Jorge, que lhe suscitava algumas objecções, o egresso sómente respondia:

—Tenha paciencia, snr. Jorge, a nobreza obriga!

—Obriga a ser nobre, que é ser leal, sincero, honrado, sem affectação, sem prodigalidade, e sem sumptuosidades que se sustentem á custa alheia.

—Á custa alheia?!

—Emquanto esta casa tiver uma divida é á custa alheia que vive, gere dinheiro de outros e não lhe é airoso gastar em festas e banquetes o que precisa para remir-se primeiro e para prosperar depois.

—Uma casa de fidalgos não é uma casa de commerciantes. Que estes, que não teem um nome a respeitar, se não mettam em cavallarias altas, entende-se. E é até muito para sentir vêr por ahi fazer o contrario, como se vê! Mas agora quem tem brazão na porta e retratos nas paredes…

—Quem tem brazão e retratos, e vive como n'esta casa se tem vivido, arrisca-se muito a ter de vender um dia brazões e avós, por preço modico, ao commerciante que teima em metter-se em cavallarias altas, e que tem a felicidade de não cahir do cavallo abaixo.

—Adeus, elle ahi vem com as suas! Eu já lhe disse, não percebo que ideias são essas com que o menino me anda ha tempos. Ora para o que lhe havia de dar! O filho mais velho de uma casa como esta, aparentado com as primeiras familias do reino, com marquezes e duques da melhor linhagem, tudo nobreza antiga e da que não admitte duvida a fallar como qualquer d'esses bacharelitos que veem de Coimbra, mações nos ossos e republicanos na alma! Uma coisa assim!

Apesar da repugnancia que sentia pela festa ordenada por o pae, Jorge julgou prudente superintender nos aprestes d'ella, para obstar a que fossem dirigidos pelos alvitres do padre procurador.

Um d'estes alvitres fôra o de se pedir emprestadas ás proprias familias convidadas diversas peças de baixella, de que estava desprevenida a cópa da Casa Mourisca.

Este ridiculo expediente era pelo padre tido na conta de engenhosa tactica, porque, explicava elle: cada familia, conhecendo apenas a prata que lhe pertencia, havia de suppôr que toda a mais era da casa, que em tempo fôra das mais bem providas n'esta especie. Por tal fórma, não se tornaria notada a falta, e cada qual se daria até por lisongeado em haver merecido do proprietario esta prova de confiança.

Jorge não se deixou convencer, apesar do persuasivo da logica; e em despeito de vehementes protestos do padre, exigiu que o serviço se fizesse sómente com o pouco ou muito que houvesse em casa.

O padre appellou para o fidalgo, que nisto porém decidiu a favor do filho.

Os convidados para o jantar eram todos da mais genuina fidalguia da provincia. Por muitas d'aquellas veias andava globulo de sangue, que já pertencêra a Fuas Roupinho ou a Egas Moniz e que por um mysterio physiologico, que só se dá n'aquella esmerilhada casta, conseguira transmittir-se inteiro de veias para veias, atravez de vinte gerações, com o fim providencial de manter inabalaveis os brios da raça.

Era um gosto seguir pelos seculos fóra a linha, pela qual alguns dos presentes procediam muito direitamente de qualquer notavel heroe das origens da monarchia. Havia tal que tinha tirado a limpo o numero de ordem que lhe competia n'aquella illustre enfiada de morgados, e que deixava evidente, por um autem genuit nobiliario, ser o vigesimo ou o decimo-setimo rebentão de sua preclarissima cêpa. Bom fôra que elle se tivesse entregado a esses calculos, por não ser provavel que apparecesse, no succeder dos tempos, outro espirito de igual alcance, que ousasse mergulhar em tão transcendentes e uteis computações; e assim ficaria a humanidade privada de uma noção valiosissima.

Embora estivessem um tanto enfesadas e pêcas quasi todas aquellas vergonteas, sempre derivavam de uma profunda cêpa; e quem não havia de preferil-as a ramos embora cheios de viço, cujas raizes estivessem á flôr da terra?

Os dotes physicos tinham, é verdade, soffrido um pouco com os extremos e cuidados empregados para conservar a crase aristocratica d'aquelle sangue livre de toda a mistura que o derrancasse; os dotes intellectuaes, em geral, resentiam-se do cordão sanitario, de que os chefes d'aquellas familias as haviam cingido para precavêl-as da infecção de ideias novas, propagadas pelos livros e jornaes da actualidade. Mas lá estava o fermento da fidalguia, que era o essencial, e que suppria bem a saude e a illustração.

Algumas familias, que cedendo um pouco ás exigencias da época, não tinham trancado de todo os portões dos seus solares a certas innovações, eram por esse facto olhadas com desconfiança por os puros, que as accusavam de eivadas pela lepra do seculo.

Emquanto se esperava pelo jantar, formavam os convidados na sala nobre da Casa Mourisca grupos variados e caracteristicos. As senhoras de idade madura, tias e mães, sentadas em semi-circulo em um dos angulos da sala, narravam pausadamente umas ás outras as occorrencias domesticas relativas ao intervallo de tempo em que se não tinham visto; exaltavam os dotes pessoaes do filho primogenito e as prendas da menina da casa.

Finalmente combinavam enlaces matrimoniaes entre os seus filhos e sobrinhos, de maneira que o sangue dos descendentes sahisse ainda mais rico em essencia aristocratica, se é que era susceptivel de maior apuro.

Os chefes de familia, passeando na sala, ou formando grupos nos vãos das janellas, lidavam na sua tarefa de vinte annos: a de demonstrar que o que perdêra a causa realista fôra a traição e o suborno; e, arvorados em prophetas, entoavam trenuos sob a imminente dissolução social, periphraseando os artigos de fundo da Nação e do Direito.

A abolição dos morgados e vinculos, definitivamente decretada poucos annos antes, fornecia forte alimento para aquellas jeremiades; os dissipadores fidalgos, que tinham arriscado o futuro e bem-estar dos filhos, desbaratando-lhes a legitima com a sua imprevidencia e prodigalidade, lançavam agora á conta da lei o que era a consequencia logica da sua má administração.

As raparigas fallavam umas com as outras, de vestidos e de enfeites, e dispunham de quando em quando de algum olhar mais terno para qualquer dos primos presentes, em cujo numero se continham os namorados de cada uma ou de mais do que uma. Estas representantes das poeticas e vaporosas castellãs, que na meia idade premiavam os campeadores na liça, os guerreiros na volta dos combates, e os menestreis e pagens que lhes endereçavam conceituosos galanteios nos estrados das salas, tinham perdido muito da poesia do typo primitivo. Vivendo em uma época em que não havia campeões, guerreiros, nem trovadores para premiar, limitavam-se as meninas a acceitar a côrte dos primos, tambem muito pouco parecidos com os seus cavalleirosos avós, e com a maior candura, que póde medrar na provincia, roubavam umas ás outras os noivos e os namorados.

Algumas havia alli mais revolucionarias, que tinham conseguido introduzir o piano em casa e com elle as musicas da moda, obtendo uma ou outra vez dos paes a concessão de dar uma partida, onde a nata da nobreza provinciana dançava os Lanceiros como qualquer sociedade de artistas.

Os rapazes reunidos no terraço fumavam e atiravam a rewolver aos troncos das arvores ou ás avesitas que poisavam nos ramos.

A maioria, ou morgados ou filhos segundos, era de ignorantes e vadios; se alguns haviam descido até ao ponto de irem a Coimbra fazerem á sciencia a honra de a estudar, poucos d'esses mostravam as habilitações adquiridas, exercendo qualquer mester social. Seria dobrar o desdouro. Commettida a fraqueza de sentar-se nos bancos das aulas ao lado dos filhos dos commerciantes e lavradores, devia-se pelo menos seguir o exemplo do mano bacharel do Cruzeiro, o qual evitára a circumstancia aggravante de servir depois para alguma coisa.

Formava grupo á parte frei Januario em animado colloquio com outros dois padres, tambem appensos a casas fidalgas, e igualmente fervorosos na defeza dos legitimos direitos da nobreza e abominadores dos pedreiros livres.

Mauricio, na companhia dos rapazes no terraço, entre os quaes se achavam os dois primos do Cruzeiro, tomava parte nas suas diversões, mas sem perder certo ar de melancolia, que lhe ficára das scenas da vespera.

Jorge attendia a todos, mas n'elle era ainda mais evidente do que em
Mauricio a preoccupação de espirito.

Desde a vespera os dois irmãos não haviam trocado uma palavra. Gabriella notára-o, e desconfiava de que alguma coisa se tivesse passado entre elles.

Não deixava porém a baroneza de desempenhar pela sua parte, com superior sciencia, o papel que lhe cumpria, como a pessoa em honra de quem tinha logar a festa de familia. Ia de grupo a grupo, tendo uma amabilidade certeira para cada individuo, e conseguindo desvanecer com as inebriantes inhalações de lisonja a superciliosa desconfiança que os seus ares de côrte da actualidade despertavam n'aquelles espiritos, escrupulosos respeitadores da côrte velha.

Houve uma circumstancia que excitou a curiosidade da baroneza. Notára ella que a maior parte dos rapazes, com quem os manos do Cruzeiro haviam conversado e rido, seguiam Jorge com olhares maliciosos, e que sempre que este lhes voltava costas, trocavam uns com outros risos mal suffocados. Da roda dos rapazes communicára-se o mesmo effeito á das raparigas, por intermedio dos colloquios de alguns namorados, e dentro em pouco viu-as olharem tambem para Jorge com certa estranheza, e cochicharem e rirem umas com as outras, quando livres da observação d'elle.

A mysteriosa confidencia passava de labios para ouvidos com rapidez tal, que momentos depois estava nas visinhanças de Gabriella.

Não pôde a curiosidade d'esta tardar mais tempo em informar-se do que assim agitava a sociedade moça, e que até já havia deixado estupefacta mais de uma respeitavel matrona, que por acaso fôra partícipe do segredo.

—O que é que se diz por ahi, priminha?—perguntou a baroneza á rapariga mais proxima—corre de certo alguma noticia estranha, porque as vejo todas em alvoroço.

—E com razão. Então não sabe? O primo Jorge tem um namoro!

—E o caso é para taes espantos?

—Pudera não! Então não conhece o primo Jorge, já vejo. Ainda não houve quem lhe merecesse um comprimento, que não fosse de simples ceremonia. Todos iriam jurar que era impossivel que elle gostasse de alguem. E vejam lá.

—É porque pertence á especie rara dos que amam só uma vez, e dos que amam de maneira tal que não podem sem remorsos amar por passatempo.

—Pois será. Mas vejam aonde foi elle cahir!

—Então quem é ella?

—A Bertha. A filha do Thomé!

—Fico na mesma, priminha.

—Não conhece o Thomé? O Thomé da Herdade. Um lavrador que foi criado do tio Luiz e que está hoje rico.

—Ah! bem sei, então é uma rapariga do campo.

—Envernizada na cidade, onde o pateta do pae a mandou educar. Chegou ha dias a casa.

—E Jorge conhecia-a?

—Em criança, sim. Depois julgo que se não viram senão agora.

—E quem descobriu essa paixão?

—Viram-n'o sahir umas poucas de noites de casa d'ella.

—Jorge?!

—É verdade. Os primos do Cruzeiro viram-n'o, e parece até que o primo
Mauricio.

—Ah! Mauricio?!

—Sim, e o mais bonito é que esse tambem pelos modos tinha suas pretenções, por passatempo já se sabe, olha o outro! a esse então tudo lhe serve. De maneira que hoje estão que nem palavra dizem um ao outro.

—Isso já eu notei; mas custa-me a crêr que Jorge…

—E a todos. Pois aquelle sonsinha…

—Não é isso o que eu dizia. O que eu acredito é que, sendo o que me diz verdade, Jorge ama devéras essa rapariga, e elle não tem caracter para abusar de alguem. Deus sabe o que de tudo isso póde resultar.

—Quer dizer a prima que é capaz de casar com ella?

—Sim, estou convencida de que se elle a ama, formou já essa tenção e ha de cumpril-a.

—Tinha que vêr a prima Bertha da Povoa!

—Eu lhe digo, para a menina talvez tivesse que vêr, para mim, que já estou costumada a esses espectaculos, seria a coisa mais natural do mundo.

Assim informada do que se passava na sala, Gabriella observou com mais attenção Mauricio e Jorge, e estudou nas physionomias de ambos os vestigios d'aquelle mysterio.

Era manifesta a frieza que os separava n'aquella manhã. Evitavam-se tanto, quanto podiam. As frontes d'um e d'outro estavam contrahidas, e os sorrisos gelavam-se-lhes nos labios, sempre que queriam forçal-os a apparecerem.

—Será verdade que Jorge ame essa rapariga? N'esse caso deve ser uma paixão bem séria a d'elle—pensava Gabriella.

N'este tempo a porta da sala abriu-se e D. Luiz appareceu aos seus hospedes vestido com aquelle esmero e gravidade, que sabia guardar em todos os actos da vida.

O fidalgo não tivera pressa em apresentar-se na sala.

Fizera-se substituir por Jorge na solemnidade da recepção e na da apresentação de Gabriella a todos os primos, que ainda não a conhecessem.

Frei Januario explicára a ausencia do fidalgo, attribuindo-a a incommodos habituaes, que sómente mais tarde lhe permittiam sahir dos aposentos.

A verdade, porém, era que D. Luiz desejava encurtar, quanto lhe fosse possivel, o tempo em que tinha de conviver com os seus parentes n'aquelle dia dedicado aos deveres de hospitalidade.

Produziu alvoroço na sala a entrada de D. Luiz.

Todos correram a comprimental-o com aquella deferencia, que a indole séria e melancolica do fidalgo e a evidente superioridade da sua intelligencia e educação a todos impunha.

—Como vaes tu, D. Luiz?—disse, apertando-lhe a mão um ex-coronel de milicias, que havia acabado, pouco tempo antes, de ameaçar com a espada que tinha em casa na gaveta todas as constituições do mundo.

—Graças a Deus que déste signal de vida, homem!

—O primo D. Luiz devia procurar mais distracções—acudiu a vigesima descendente de um dos guerreiros de Ourique.

—Ainda bem que a priminha Gabriella o veio tirar do seu lethargo—acrescentou outra, ramo infructifero de arvore igualmente illustre.

O titulo de baroneza raros o concediam a Gabriella, porque era de origem suspeita para aquelles pechosos aristocratas.

D. Luiz respondeu com um forçado sorriso aos comprimentos, dizendo:

—Devem procurar-se as distracções, quando o espirito não se dá bem com as ideias tristes. Mas isso não succede commigo. Já não posso viver sem esta escura companhia dos meus pensamentos. O esforço para fugir-lhe mais me afflige.

—Ora essa! Sentir-se um homem bem com a tristeza! Ora essa!—estranhou o ex-miliciano.

—São contradicções apparentes—disse Gabriella para o tio.—As saudades teem d'isso. Por isso lhes chamaram «gosto amargo e pungir delicioso.»

—Quem é que lhes chama isso?—perguntou uma fidalga de oculos, um pouco sentimental e litterata, que estava ao pé de Gabriella.

—Foi Almeida Garrett—respondeu esta, sorrindo, como quem suspeitava que não ficaria satisfeita a curiosidade da interrogante.

Effectivamente a historia litteraria de Portugal parára para ella em
José Agostinho de Macedo.

—Almeida Garrett!!—repetiu um dos mais intractaveis realistas presentes que ouvira a resposta—eu conheci um d'esse nome, que era secretario ou coisa assim do duque de Palmella n'aquelles bons governos do Porto em 1834, isso era um liberalengo dos quatro costados.

Na linguagem pittoresca d'este sujeito, a palavra liberalengo era a mais eloquente expressão com que s. exc.ª conseguia traduzir todo o desprezo que lhe mereciam as ideias e os homens de 1820 e 1832.

—E perdeu-o de vista depois?—inquiriu Gabriella com leve ironia.

—Sim, perdi. Eu conheci-o por acaso.

—Então não o conheceu orador no parlamento, ministro, poeta, prosador e chefe de uma revolução litteraria?

O fidalgo abriu os olhos, prolongou os labios e sacudiu a cabeça, dizendo:

—Olhe, prima; eu, a respeito de parlamento…. Temos conversado; não sei se me entende. De ministros tambem não quero saber, porque tenho receio de que me digam que nos governa o filho do meu sapateiro. Agora a respeito de poetas… se quer tambem que lhe diga, eu nunca tive quéda para sonetos. Lá chefe de revolução estou convencido de que elle seria, porque para guerrilheiro estava talhado.

A baroneza deu muita razão a este seu primo e foi para um grupo de raparigas, que passaram a interrogal-a sobre a ultima moda do talho dos vestidos.

Annunciou-se emfim o jantar. Houve geral reboliço na sala, e a companhia seguiu mais ou menos anarchicamente para o banquete.

Frei Januario tinha meditado maduramente a ordem de collocação dos diversos convivas, segundo as regras da etiqueta em que elle era mestre. E como n'este ponto ninguem lhe contrariasse os planos, havia-se sahido muito á sua vontade da tarefa.

Assumindo pois as funcções de mestre de ceremonias, começou a designar a cada convidado o logar que lhe competia.

Infelizmente, porém, nem todos foram doceis ás indicações do padre, e sobre tudo os rapazes que, sem lhe darem attenção, iam sentar-se onde muito bem queriam, e ao pé quasi sempre de alguma prima, que não desgostava da visinhança.

Isto transtornou completamente os estudos do padre, que tivera mais que tudo era vista a separação dos sexos e das idades; mas debalde protestou contra a anarchia que invadira a mesa.

Quem, porém, acabou por o perturbar foi D. Luiz, quando do alto da mesa e com a hospitaleira cordialidade, que conseguiu affectar, exclamou:

—Queiram sentar-se á vontade. É bom que os velhos se misturem com os moços para temperar os ardores da juventude com a prudencia dos annos. Outras desigualdades não ha aqui a attender.

Esta ultima parte fez torcer o nariz a um ou outro fidalgo que tinha motivos para se suppôr mais preclaro do que os primos, mas não houve protesto formulado, e todos obedeceram ao convite do dono da casa.

O padre esteve em risco de perder o appetite.

Valeu-lhe porém a judiciosa reflexão que lhe fez ao ouvido o collega, dizendo:

—Sentemo-nos, que bom logar é todo aquelle onde se come bem.

Jorge ficou aos pés da mesa e portanto fronteiro ao pae.

Os primos do Cruzeiro, um de cada lado da mesa e perto da cabeceira, continuavam a sorrir provocadoramente e a fazer rir os outros.

Ao passar perto de Jorge, para tomar logar, a baroneza murmurou-lhe:

—Falla-se muito de ti, Jorge.

Jorge fez um signal de quem estava informado do facto, e respondeu sorrindo de uma maneira especial:

—Talvez se falle mais e mais alto d'aqui a pouco.

O jantar não desdizia do puritanismo d'aquella sociedade.

Era um jantar á portugueza e digno de portuguezes, que não querem: nostrum regnum ire fore de Portucalensibus.

A Casa Mourisca, bem explorada, ainda deu para ostentar um esplendor, que se nada era em comparação com o dos magnificos festins, que em tempos passados a animaram, não envergonhava o seu brazão perante os fidalgos presentes que, pela maior parte, o tinham tanto ou mais deteriorado.

Os criados suppriram com diligencia o numero, de modo que o serviço correu regular.

Emquanto se servia a sôpa e não se havia encetado as libações, reinou na sala aquelle silencio momentaneo, proprio da occasião.

Só se ouve o tocar das colheres nos pratos, e o sôrvo mais ruidoso de alguns convivas, que se não constrangem. O appetite satisfaz-se, dão-se tregoas ás conversas. Depois retiram-se os primeiros pratos, enchem-se os copos, repousam os commensaes, e de visinho para visinho trava-se a meia voz um dialogo cortado, sobre assumptos insignificantes. Depois o tinir das louças e dos crystaes, o vapor oloroso das iguarias, os effeitos excitantes dos vinhos animam o espirito; o tom das conversas eleva-se, o visinho fronteiro intervem, cresce a confusão, os risos misturam-se com as palavras, a timidez dissipa-se, cada qual sente-se com um arrojo que desconhece, vencem-se reservas e resistencias que pareciam insuperaveis, reina a vida na sala do banquete.

Por estas diversas e successivas phases passou o jantar em casa de D. Luiz. No meio d'elle, berrava-se politica alli, jogavam-se epigrammas acolá, segredavam-se requebros em outro ponto, e dava-se largas á maledicencia em quasi todos.

Jorge conservava-se serio e reservado, como estivera toda a manhã.

Mauricio fazia esforços para mostrar-se despreoccupado, porém mal o conseguia.

Para o fim do jantar percebia-se pelo tom de algumas risadas e pelo theor de algumas conversas, que os restos da garrafeira da Casa Mourisca não tinham desmentido os seus antigos creditos, firmados em tantas façanhas.

Os primos do Cruzeiro sobre todos fallavam em um tom de voz, que mais do que uma vez attrahira as geraes attenções e fizera contrahir o sobr'olho a D. Luiz.

A cada momento as allusões a Jorge, que elles entremeiavam nos seus informes discursos, tinham obrigado a maioria dos olhares a convergirem para o filho mais velho de D. Luiz, que os arrostava com uma serenidade desprezadora.

Encetaram-se os brindes. Brindou-se a baroneza, brindaram-se na pessoa dos seus chefes as familias illustres alli presentes, brindaram-se os caudilhos do partido realista, brindou-se em honra da sancta causa, em honra da imprensa fiel, em honra das velhas instituições, em honra do throno e do altar e de muitas outras coisas.

Frei Januario, para mostrar o seu fervor, esgotava o calix a cada brinde, e aproveitava os intervallos para fazer com os collegas, a meia voz, os seus brindes particulares.

Já quando os animos estavam um pouco excitados por estas successivas libações, o primo padre levantou-se, e com os olhos injectados e o gesto um tanto transtornado, disse:

—Meus senhores, tenho notado que o primo Jorge está com um ataque de melancolia, de que não póde livrar-se. Os brindes que aqui se teem feito ainda o não desanuviaram. É verdade que se brindaram familias antigas e coisas velhas, e o passado não é lá das ideias mais alegres. Eu por isso vou propôr um brinde menos soturno, a vêr se o distraio. Bebo á saude do Thomé da Herdade e da sua familia, com particular menção da menina Bertha, a quem Deus faça muito feliz, assim como a todos quantos lhe querem bem.

Este inesperado brinde produziu grande sensação. A parte moça da companhia, prevenida como estava, principiou a suffocar os risos e a fallar ao ouvido dos visinhos; os velhos abriam os olhos espantados ou indignavam-se com o desconchavo de brindar uma familia plebeia depois de outras de tão apurada raça. A consequencia foi que ninguem correspondeu ao brinde e os calices ficaram na mesa intactos. Seguiu-se um silencio profundo na sala.

O primo do Cruzeiro, sem se intimidar, perguntou:

—Então que é isto?! Ninguem me secunda?

E corria a vista em redor da mesa com expressão ironica, que, a seu pezar, se desvaneceu ao encontrar a vista de Jorge, que, pallido de intima commoção, tambem se erguêra e levantára o calice para responder:

—Secundo eu, primo—disse elle, corn um leve tremor na voz—e creia que da melhor vontade o faço. Brinda-se uma familia honrada, laboriosa e justa. A ninguem deve repugnar o brinde, e muito menos a mim, a quem motivos particulares obrigam a veneral-a.

—Ah!—murmurou provocadoramente o padre, sentando-se com ares de victoria.

Um meio sorriso passou por os labios de alguns dos espectadores d'esta scena.

—Levante-se!—ordenou Jorge ao padre com intimativa—ouça-me de pé, que eu também estou de pé para secundar o seu brinde.

É singular! O padre ergueu-se, como se não pudesse resistir ao olhar indignado e imperioso de Jorge.

—Repito—continuou este—brindo aquella familia honrada, porque é honrada e porque motivos particulares me levam a veneral-a. E para lhes não dar occasião de sorrirem outra vez, ou de afagarem a vibora venenosa, que ahi soltaram, eu lhes explico as minhas palavras. Se ouvirem verdades que lhes firam o orgulho de fidalgos, lancem a culpa da vexação a quem m'as provocou. Meus senhores, eu acordei um dia com a firme resolução de luctar contra esta torrente que nos arrasta e afoga a todos, apesar dos nossos brazões, dos nossos solares, dos nossos pergaminhos e das nossas galerias de retratos. Todos quantos aqui estão podem contar das glorias passadas e da decadencia e das humilhações presentes. E nós como todos. Eu era novo, tinha diante de mim a perspectiva de uma longa vida, pensava no futuro e não podia resignar-me á ideia de morrer assim cobarde e ingloriamente. Reagi, encontrei felizmente em meu pae o auxilio preciso, e, authorisado por elle, tomei sobre meus hombros a tarefa de sustentar as ruinas vacillantes d'esta casa. A empreza porém era mais difficil do que a suppozera. Tolhia-me os movimentos a rede complicada, em que a errada gerencia de muitos annos embaraçára a administração. Cada passo dado para salvar-nos era mais um para a total ruina. Devem comprehender bem isto os que me escutam, porque a sorte das nossas casas é quasi a mesma. De todos os lados, para onde nos viramos, surge-nos a usura, o dolo e a má fé. N'estas circumstancias só me podia valer a experiencia dos negocios, e essa faltava-me, o credito, e quem m'o reconheceria e aceitaria? o capital, e por que preço poderia obtel-o? Perguntem ao nosso antigo administrador, aqui presente, o preço por que elle o encontrava. Pois bem, senhores, um homem chegou-se a mim n'estas condições e pôz á minha disposição, leal e desinteressadamente, a sua experiencia, o seu credito e o seu capital. Graças a este homem, era-me possivel libertar-me, sem baixeza, da usura que havia tantos annos nos devorava, applicar vantajosamente os capitaes obtidos e encetar um systema, lento mas seguro, de administração que preparasse o caminho para um futuro resgate d'esta casa. Graças a este homem, sorriam-me as esperanças de poder dizer um dia ás cinzas dos nossos antepassados, que eu tambem respeito, que repousassem em paz na sepultura, pois não viriam estranhos disseminal-as; e á memoria querida de minha mãe e de minha irmã que os que ellas amaram não desertariam cobardemente dos logares que lhes eram caros e que as viram morrer. Mas contra o generoso auxilio d'este homem havia velhos preconceitos de familia, mais apaixonados do que justos; era-me pois impossível recorrer a elle abertamente. Entre as prevenções e a gloria da minha casa não hesitei porém. A consciencia dizia-me que não devia hesitar. Resolvi acolher o offerecimento leal, mas tive de occultar na sombra da noite actos que não se envergonhariam da mais clara luz do dia. Quando precisava do conselho experiente d'esse homem, procurava-o de noite e clandestinamente. Os diffamadores, que correm nas trevas á procura de alimento para a calumnia, surprenderam-me. Medindo as acções dos outros pela sua capacidade moral, suppõe-lhes sempre um motivo infame. O homem de quem lhes fallei tem uma filha. No que ha de mais puro e mais sensivel nas familias, é ahi que a calumnia gosta de ferir. Essa pobre menina foi pois a victima escolhida. Agora se querem saber o nome do homem honrado, a quem devo experiencia, credito e capital, dir-lhes-ei que se chama Thomé da Povoa, a filha é Bertha, a afilhada de meu pae; os calumniadores são esses que propõem o brinde, lançando no calice a peçonha de sua natureza de vibora; mas brinde que eu de novo secundo sem receio nem hesitação.

—E eu—exclamou a baroneza, imitando-o; mas por ninguem mais foi seguida, porque uma nova occorrencia veio absorver as attenções.

D. Luiz, que revelára a mais profunda estranheza desde o principio da scena, provocada pelo fidalgo do Cruzeiro, crescêra em agitação á medida que as palavras de Jorge iam tendo para elle um sentido mais claro.

As ultimas fizeram-lhe passar o rosto por uma serie de mudanças, cada uma d'ellas denunciadora de uma paixão violenta.

Ao nome de Thomé da Povoa, á ingenua e leal declaração de Jorge, os olhos do irritado fidalgo faiscaram e um rubor fugaz e intenso correu-lhe nas faces, succedendo-lhe uma pallidez profunda.

Quando o filho terminou de fallar, foi elle quem, por sua vez, se ergueu na cabeceira da mesa.

A commoção que o dominava não lhe permittiu desde logo o uso da palavra.

Todos os olhares se desviaram para aquelle velho, pallido, vestido de negro, severo e mudo, que, com as mãos apoiadas sobre a mesa e o olhar fulgurante, seguia com a vista por todos os espectadores d'esta scena.

A final com a voz tremula e meia abafada, mas que a pouco e pouco se foi animando, o velho fidalgo começou, dizendo:

—Meus senhores, quando ha dias os convidei para virem a esta casa solemnisar a honra que eu recebia da hospedagem da minha sobrinha, estava persuadido de que esta casa ainda era minha. Não sabia que, abusando da confiança que eu depositára n'elle, um filho meu, o mais velho, o primeiro representante, no futuro, do nome e das glorias da sua familia, havia empenhado a um dos criados d'ella o solar em que nascêra. Soube-o agora. Peço-lhes humildemente perdão de os haver, pela minha ignorancia, sujeitado a esta baixeza. Desde este momento estamos todos aqui em situações iguaes, todos somos hospedes do Thomé da Herdade. Em outros tempos, nos festins e saraus das nossas casas, os criados subiam disfarçadamente as escadas, para virem das ante-camaras e corredores espreitar para as salas, fascinados pelo esplendor que n'ellas viam; permittia-se-lhes isso. Hoje porém, senhores, se aqui nos demorassemos, vêl-os-iamos subir com outro intento, para vigiar que nas expansões do nosso jubilo não deteriorassemos as alfaias, a mobilia, a baixella e a casa, que já lhes pertence. A esta espionagem não me sujeito eu. Meus senhores, as minhas obrigações de dono da casa terminaram. Hospede como os outros, tomo a liberdade de seguir o caminho que a dignidade me impõe. Cada um consulte o mesmo conselheiro.

E D. Luiz, curvando-se diante de todos que o escutaram espantados, sahiu da sala sem dar tempo a que o interrogassem ou detivessem.

Frei Januario foi o primeiro que pressurosamente o seguiu.

O resto da companhia parecia immobilisado nos seus logares.

Jorge, com os cotovêlos apoiados na borda da mesa, conservava o rosto escondido entre as mãos.

Gabriella foi quem se subtrahiu primeiro áquella influencia paralysadora.

—Parece-me que, depois do que se passou, dá-se a triste necessidade de nos separarmos. O tio Luiz está muito agitado, e preciso dar-lhe tempo para serenar e vêr as coisas sob um aspecto mais racional do que aquelle em que a paixão lh'as apresenta agora. Por isso…

A reticencia foi seguida de um arrastar de cadeiras, prova de todos haverem comprehendido a conveniencia da retirada.

Formaram-se ainda na sala alguns grupos, conversando sobre o facto.

Os primos do Cruzeiro foram os primeiros a retirar-se. O padre ainda manifestou desejos de pedir a Jorge uma satisfação pelos insultos que elle lhe dirigira, mas intervieram terceiros que o dissuadiram.

Os fidalgos velhos tentaram procurar D. Luiz para o acalmarem; mas foi-lhe dito por frei Januario que o fidalgo não podia recebel-os.

Pouco e pouco foram os convidados abandonando a Casa Mourisca, e os caminhos que d'ella partiam eram momentos depois cobertos de cavalgadas, liteiras e carroções, em que aquellas nobres familias regressavam aos seus solares.

As occorrencias singulares do jantar foram entre ellas assumpto de conversa em toda a jornada. Todos, com quanto criticassem a esquisitice do velho D. Luiz, que tão pouco urbano se mostrou com os seus hospedes, eram accordes em attribuir a principal culpa a Jorge.

XVII

Ficaram apenas na sala Jorge, Mauricio e a baroneza.

A indignação de D. Luiz parecia haver desvanecido a energia de Jorge; a consciencia do pobre rapaz, como que vacillando ao embate das violentas paixões paternas, quasi lhe censurára a precipitação do passo que déra.

Igualmente abatido, Mauricio sentia remorsos ainda mais vivos. Não podendo já duvidar da innocencia do irmão; como perdoaria a si proprio as suspeitas e insultos com que o ferira?

Do vão da janella a baroneza observava-os immovel e silenciosa.

Mauricio ergueu emfim a cabeça, e tendo nos olhos ainda vestigios de lagrimas; hesitou alguns instantes; depois, por um d'esses movimentos promptos e irresistiveis, a que a violencia dos affectos o provocava, caminhou agitado para Jorge.

—Jorge—disse elle, intima e sinceramente commovido—se ainda se não esgotou a generosidade da tua nobre alma, não me retires a affeição, que por tanto tempo te mereci.

Jorge apertou-lhe a mão com affecto.

—Nunca t'a retirei, Mauricio. Podes crêl-o. Affligem-me alguns dos teus desvarios, principalmente porque sei que elles estão em contradicção com os nobres sentimentos da tua alma. Mas para te perder a affeição não é isso motivo. Para mim és n'esses momentos, como uma criança que se vê a dormir á beira de um precipicio. Inspiras-me, como ella, apenas sustos, e não cólera nem aversão.

E os dois rapazes abraçaram-se com effusão.

—Vamos—disse a baroneza, intervindo—a situação precisa de que se pense n'ella seriamente. As pazes estão feitas, em boa hora; pensemos agora como gente de juizo.

—Antes de mais nada, Jorge, o que ha de verdade em tudo isto?

—O que eu disse.

—Vê bem; falla-me com franqueza. Eu não acreditei no que de ti se espalhou. Concederia que Jorge podésse praticar uma loucura, mas uma acção indigna, um abuso de confiança, sabia que não. Porém não ha em toda esta historia alguma coisa que não disseste ainda? Bertha é para ti completamente indifferente? Esta é que é a questão.

Só a muito custo Jorge pôde disfarçar a turbação em que a pergunta de
Gabriella o lançou, mas respondeu com apparente serenidade:

—Bertha é uma rapariga, que por todos os motivos respeito.

E com mais custo ainda, acrescentou:

—E nada mais.

—E para Mauricio o que é Bertha?—continuou a baroneza, sorrindo ao voltar-se para o primo mais novo.

Não obteve logo resposta.

—Bem vêem—insistiu ella—que ha uma coisa que eu não posso ainda explicar. Assisti á vossa reconciliação, signal de que tinha havido uma desintelligencia. Qual foi pois o motivo d'ella?

—Uma das minhas loucuras—respondeu Mauricio a final—cedi a um movimento de paixão, encontrando-me com Jorge hontem, quando elle sahia da casa de Thomé da Povoa, e soltei expressões, que parece que ainda me estão queimando os labios.

—Então, visto isso, achavas-te com direito de sentir ciumes. Segue-se que amas Bertha. E é devéras esse amor?

A fronte de Jorge contrahiu-se levemente ao ouvir a pergunta, e emquanto aguardava a resposta do irmão.

—Se responder pelo que penso d'elle—disse Mauricio—juro que é.

D'esta vez um ligeiro sorriso deslizou nos labios de Jorge.

—Isso quer dizer—tornou a baroneza—que respondendo pelo que pensas de ti, receias muito que não. Pois, meu caro priminho, a occasião exige que se ponham de lado caprichos e brinquedos de criança, e que se siga com sisudeza e tenacidade de homem um caminho qualquer. Não estámos em tempo de brincar. Dá-se uma grave crise, em que todos os bons planos de Jorge podem ser destruidos de encontro á resistencia do tio Luiz. Eu nem posso calcular o que resultará de tudo isto. E portanto….

Interrompeu-a n'este ponto a entrada de um criado, pedindo-lhe para chegar ao quarto de D. Luiz, que desejava fallar-lhe.

—N'este caso esperemos o resultado d'esta entrevista para adoptar um partido—dizia ella, apressando-se em satisfazer os desejos do tio.

Em caminho para o quarto de D. Luiz, a baroneza notou nos corredores e nas salas intermedias um movimento extraordinario, que não sabia a que attribuir.

Os criados iam e vinham apressurados, communicavam ordens uns aos outros, abriam e fechavam portas, desciam a duas e duas as escadas, e transportavam differentes objectos, como se se tractasse dos preparativos de uma jornada.

Nos aposentos de D. Luiz achou Gabriella o fidalgo em pé no meio da sala, emquanto frei Januario, de joelhos junto de uma arca, introduzia n'ella algumas peças de roupa, que aquelle lhe ia indicando.

—Eu não sei o que v. exc.ª vae fazer, snr. D. Luiz—murmurava no entretanto o egresso, que parecia cumprir a tarefa de má vontade, suando em bagas—isto não tem pés nem cabeça. Olhem agora, sem commodos nenhuns… assim de um momento para outro….

D. Luiz, sem responder ás reflexões do procurador, continuava a indicar-lhe os objectos que devia arrecadar.

Gabriella dirigiu-se a elle:

—Mandou chamar-me, meu tio?

—Ah! mandei, sim, Gabriella. Desculpe importunal-a. Mas tenho que lhe pedir um favor—respondeu D. Luiz com forçada placidez.

—Mil que sejam.

—Depois do que se passou, não quero demorar-me n'esta casa uma só noite. Peco-lhe por isso hospitalidade na sua. Se me não engano, tencionava partir ámanhã para lá. Não é verdade? Pois bem, faça o sacrifício de partir hoje e permitta-me que a acompanhe. Um quarto e uma enxerga bastam-me. Preciso de me ir costumando a tudo.

A baroneza ficou por alguns momentos muda de surpreza.

—Mas… Por quem é, meu tio… Grande prazer me dará a sua visita… porém em outras circumstancias e por outros motivos. Não tome resolução alguma emquanto assim está dominado pela paixão. Veja o que vae fazer! O que se dirá? O que se fallará por toda a parte!

—Já de sobra teem em que fallar. A vergonha não é maior—tornou o velho mais agitado.

—Pois sim—acudiu o padre—mas reunir a vergonha ao incommodo… a fallar a verdade… é… é…

—A vergonha… a vergonha… Mas tem a certeza, tio, de que julga bem e despreoccupado de paixões, os actos de seu filho? Quem lhe diz que outros não chamarão virtude áquillo a que chama baixeza?

A cólera relampagueou de novo nos olhos do velho:

—Gabriella, por quem é, desista de contrariar-me. Asseguro-lhe que me não demove da resolução em que estou e que sómente me afflige. Se não quer conceder-me o abrigo dos seus tectos, irei bater a outra porta.

Gabriella não insistiu.

—A minha casa é sua sempre, meu querido tio. Vou dar as ordens para partirmos.

—Não esperem por mim—recommendou ainda o fidalgo—eu irei com frei
Januario mais tarde, porque tenho que fazer antes. Sinto o incommodo que
isto lhe vae causar, Gabriella. Mas os criados ficarão na estalagem da
Encruzilhada.

—Todos cabem; visto que tambem os quer levar, escusam de ficar a meio caminho. Então fecha-se a Casa Mourisca, ao que estou vendo? Muito bem. A casa de meu pae é bastante espaçosa, e com os arranjos que eu mandei fazer-lhe ultimamente, deve bem servir para nós todos. Agora um pedido.

—Qual é?

—Jorge está consternado, pelas suas asperas palavras ao jantar. Não ha de reconciliar-se com elle?

—Gabriella, se é amiga de Jorge, não procure trazêl-o á minha presença, e se quer que isto que sinto cá dentro contra meu filho não cresça ou degenere em paixão peior, não pronuncie diante de mim por ora o nome d'elle.

Gabriella tinha certo dom para conhecer quando convinha luctar e quando era preferivel ceder. D'esta vez percebeu que o animo de D. Luiz não estava para acalmar de prompto.

Sahiu sem aventurar mais uma palavra a tal respeito e foi ordenar os preparativos da partida.

Ao passar na sala onde ainda estavam Jorge e Mauricio, apenas lhes disse:

—Tracta-se de partir já.

—Para onde?

—Para a minha casa, nos Bacellos.

—E meu pae?

—Tudo parte. É uma emigração completa.

—E a Casa Mourisca?…

—Fechada, ao que parece, até… acabar o interdicto.

—Mas isso não póde ser!

—Mas é, e eu vou já dar ordens precisas para a mudança.

—E eu vou fallar com meu pae—exclamou Jorge, erguendo-se.

A baroneza reteve-o.

—Não vás. É inutil e perigoso. Deixa que os factos succedam naturalmente. Eu já estou convencida de que esse é o melhor expediente. É preciso que teu pae desafogue a paixão que lá tem dentro. Entende que deve sahir d'aqui, deixemol-o sahir. Estas exterioridades acalmam-n'o. Depois lhe apparecerás.

—Então agora recusa vêr-me?

—Recusa. O que não tira que não possas estar muito á tua vontade na minha casa dos Bacellos. Ha lá um pavilhão na quinta, ao talhar para um refugiado como tu.

Passados poucos minutos os moradores da Casa Mourisca punham-se em movimento para a quinta dos Bacellos.

Os preparativos não occuparam muito tempo, porque o fidalgo mandára apenas levar o que fosse estrictamente necessario.

A baroneza veio despedir-se do tio, que insistiu em querer ser o ultimo a sahir de casa.

Jorge e Mauricio partiram em companhia de Gabriella.

O fidalgo ficou só com frei Januario, que continuava a protestar por todas as fórmas contra a resolução da mudança de quartel a horas improprias.

D. Luiz nem lhe respondia.

Quando o procurador, a fim de suavisar as agruras do desterro, pretendia fazer transportar algum objecto que podia ser de utilidade para melhor accommodação da familia, o fidalgo ordenava-lhe sêcamente que o deixasse ficar, o que cada vez mais exasperava o padre.

Vendo que tudo estava prompto, D. Luiz deixou por alguns instantes o procurador na sala e subiu vagarosamente as escadas que conduziam aos antigos aposentos da filha que perdêra.

Ao penetrar alli, que doloroso estremecer o do coração do velho! Ia desamparar tambem aquelle quarto! Esta ideia só poderia fazer vacillar-lhe a inabalavel coragem! Era um logar de reconhecimento aquelle para o desconfortado ancião. Tudo alli dentro se conservava como no fatal dia em que ella morrêra. Todos os objectos que haviam pertencido á infeliz criança alli se guardavam religiosamente. E ia deixal-os! O leito, o genuflexorio, o toucador, a harpa, parecia possuirem uma voz para fallar-lhe d'ella. E havia de fugir-lhes! A coragem porém não sossobrou na lucta. D. Luiz fechou discretamente a porta para si; depois com fervorosa commoção beijou quasi um por um esses differentes objectos, e ao chegar junto do leito, o mesmo em que a vira adormecer do ultimo somno, ajoelhou soluçando, e cobriu de beijos e de lagrimas as almofadas onde tantas vezes se encostára a pallida cabeça da sua Beatriz.

Mais tranquillo depois d'esta effusão de dôr, ergueu-se, enxugou os olhos e desceu com a mesma lentidão as escadas até o portal, onde o padre o esperava já com impaciencia e inquieto pelo adiantado da hora.

Um criado segurava pela redea os cavallos, que deviam transportal-os.

—Vamos, vamos, snr. D. Luiz, olhe que nos apanha a noite na estrada e os caminhos não são lá essas coisas—exclamou o padre afflicto.

D. Luiz, em vez de responder-lhe, disse para o criado que segurava os cavallos:

—Vae esperar-nos na baixa do Paul. Nós já lá vamos ter.

—Então v. exc.ª quer ir a pé até á baixa do Paul?!—perguntou o padre assustado.

—Vou?

—Mas… é um estirão e….

—Então que fazes? Parte—disse D. Luiz com impaciencia para o criado, e este obedeceu-lhe promptamente.

O padre ficou a resmonear:

—Eu cada vez ando mais ás aranhas com a gente d'esta casa. Sempre tenho visto e ouvido coisas ha tempos a esta parte! Olhem que preparos estes! Havemos de ceiar a boas horas, não tem duvida nenhuma!

—Agora feche a porta, frei Januario—ordenou D. Luiz.

O padre tomou com ambas as mãos a enorme chave do portão, e fêl-a girar na fechadura.

Este movimento produziu um som agudo, similhante ao gemido de uma ave, o qual resoou tristemente pelo interior d'aquella casa deserta.

O padre tirou a chave, que juntou ao mólho que trazia, deu um encontrão á porta, para verificar se ella estaria bem fechada, e depois olhou para D. Luiz.

—Vamos—disse este.

O padre ia pôr-se a caminho, mas parou vendo o fidalgo seguir a direcção opposta á da quinta dos Bacellos.

—V. exc.ª por onde vae?

—Por aqui—respondeu sêcamente o fidalgo, continuando a andar.

—Mas… v. exc.ª está enganado. Esse não é o caminho.

—Bem sei.

O padre seguiu-o, murmurando contra as venêtas do fidalgo:

—Esta cabeça já não regula direita. Onde diabo quer ir este homem?

O caminho que D. Luiz continuava a seguir, ia tão divergente do que o padre esperava, que outra vez o interpellou:

—Mas v. exc.ª onde quer ir?

—A casa do Thomé da Povoa—respondeu D. Luiz e acrescentou:—E advirto-lhe, frei Januario, que não me sinto com disposições para conversar.

O padre sabia que sempre que D. Luiz fazia certas observações em certo tom e com certa inflexão de voz, era inutil e imprudente contrarial-o. Por isso calou-se, o que augmentou o mau humor que já trazia accumulado.

—A casa do Thomé da Povoa!—resmungava elle—O homem está doido! Ora isto! E eu a atural-o! O que me estava reservado!

A intenção com que o fidalgo demandava a casa do fazendeiro era um mysterio indecifravel para o espirito do procurador.

Tinham descido a encosta, a meio da qual se erguia a Casa Mourisca. Aproximavam-se da ponte que atravessava o valle. A tarde ia no fim. Era já a claridade do crepusculo que illuminava a paisagem. A azafama do trabalho acalmára. Nos marcos dos campos, á soleira das portas e nos parapeitos das pontes repoisavam finalmente os lavradores das fadigas do dia. O gado caminhava para as prêsas, conduzido por crianças de seis e sete annos. Nos arvoredos ouvia-se um cantar de aves, timido como elle é, ao aproximar do outomno e ao aproximar da noite. Era tal a serenidade da tarde, que se percebia o sino de uma freguezia distante, dobrando a finados.

A suave melancolia d'aquella hora influiu no animo de D. Luiz. Que densidade de tristeza a que poisou n'aquelle coração! Saudades, mas saudades escuras de velhice, saudades de quem não tem futuro, era o que havia n'aquella alma. Com o passado lhe tinham ido todos os objectos das suas crenças, do seu amor, das suas affeições. Já não era capaz de enthusiasmo, e os olhos em que o enthusiasmo não influe, vêem tristemente coloridas todas as scenas da vida. Ao desencantamento do presente juntavam-se as apprehensões pelo futuro a entenebrecer-lhe o espirito. Era devéras infeliz aquelle velho!

Depois da ponte seguia-se a collina, onde prosperava a Herdade de Thomé.

D. Luiz reuniu alento para subil-a.

O padre aventurou outra observação:

—Snr. D. Luiz, eu não atino com as razões que trazem v. exc.ª aqui, mas não vejo que possa resultar bem algum de similhante visita. Veja o que faz! A prudencia…

—Socegue, frei Januario—atalhou D. Luiz com um sorriso amargo.—Não imagine que venho praticar alguma violencia. Já lá vae o tempo em que nós resolvíamos á força de braço os nossos pleitos. A nossa vez passou, bem vê.

O padre conheceu pelo tom da resposta que o fidalgo estava já mais quebrado, mas ainda pouco disposto para explicar-se.

Para se chegar á casa de Thomé da Povoa por o lado por onde D. Luiz seguia, tinha-se de tomar por uma avenida de olmeiros, orlada por sebes naturaes formadas de madresilvas e de rozeiras. No fim d'esta avenida ficava uma das entradas da quinta do fazendeiro, era a parte que elle cedêra ás predilecções da filha e da mulher, e onde as balsaminas, os limonetes e hortensias cresciam vigorosas, e a relva rescendia com as violetas e malvas que a entremeiavam.

D. Luiz desceu lentamente a avenida, com os olhos fitos no portão da quinta.

—É aquella uma das entradas da propriedade, não é?—perguntou elle ao padre.

—É, sim, senhor. Repare v. exc.ª que é um portão de quinta nobre.
Falta-lhe o brazão.

O fidalgo calou-se e não tirou os olhos do portão da quinta, da qual se ia avisinhando. Passados alguns instantes respondeu á observação do procurador, dizendo:

—Dentro de alguns annos mais póde comprar barato o da Casa Mourisca. Os meus filhos não serão exigentes no preço.

O padre não soube bem o que devia dizer n'este caso. Limitou-se por isso a expellir um simples «Oh!» sem entonação que o definisse.

Chegaram emfim ao portão. D. Luiz ordenou ao padre que tocasse a sineta.

Este ia a fazêl-o, quando se voltou dizendo:

—Anda gente cá dentro.

D. Luiz não foi superior a certo sobresalto ao ouvir a noticia; vencendo-se, porém, caminhou resoluto e com a fronte contrahida para diante. De repente estremeceu, parou, e comprimindo o peito como se fora ferido alli, murmurou:

—Ó Sancto Deus!

—Que tem v. exc.ª?—interrogou inquieto o padre, que reparára no gesto de D. Luiz—Foi pontada?! Estes passeios violentos e fóra d'horas…

O fidalgo não respondeu e continuou com os olhos fitos em não sei que ponto do interior da quinta.

Frei Januario desviou para alli a vista, a fim de elucidar-se na explicação do mysterio.

Chegava n'este momento ao portão uma rapariga, singelamente vestida de branco, que correu ao encontro d'elles.

Era Bertha.

—O meu padrinho!—exclamava ella dirigindo-se ao fidalgo—O snr. D.
Luiz! Até que emfim o vejo! Julguei que não chegava este dia!

E pegando-lhe na mão, beijou-a com respeito e affecto.

E D. Luiz não lh'a retirou, nem teve uma palavra que lhe dissesse.
Continuava a olhal-a, como esquecido de tudo e profundamente perturbado.

O padre observava a scena boquiaberto.

—Ha que tempos o não via!—proseguiu Bertha com uma carinhosa volubilidade de criança—Pois tinha bem saudades! Quantas vezes olhava para aquellas janellas, a vêr se por acaso o descobria em alguma? Mas nunca, nunca! Que vontade que tinha de lá ir, mas… Disseram-nae que o padrinho nunca sahia, e que vivia quasi sempre só no seu quarto. Para que é que vive assim? Isso faz-lhe mal. Mas… que tem, snr. D. Luiz? Meu Deus… está a chorar!

O padre deu um passo á frente, como duvidando do que ouvira.

D. Luiz afastou-o com a mão.

—É verdade—disse elle a final, profundamente commovido.—É singular isto em mim! Mas que quer, Bertha? Quando aqui cheguei e a vi…

—Não me tracta já por tu?—interrompeu-o Bertha, sorrindo tristemente.

O fidalgo, depois de uma curta hesitação, repetiu:

—Quando aqui cheguei e te vi, lembrei-me da minha pobre Beatriz. Parecias-me ella. Ella era mais moça quando morreu, mas ultimamente tinha deitado corpo e… depois trazia ás vezes um vestido d'essa côr, e emfim… ha tanto tempo que não via uma rapariga que se lhe assimilhasse… Sim, porque ha muitas por ahi, mas nenhuma ainda m'a recordou como tu. É notável! a mesma côr de cabello, a mesma estatura, certas maneiras e até o metal de voz… Não é verdade, frei Januario? É notavel! A minha pobre filha! Como tu m'a recordas, Bertha, ai, como tu m'a recordas!

—Não se afflija.

—«Não se afflija» era mesmo assim que ella me dizia; não que era mesmo assim. Pois não era, frei Januario? «Não se afflija.» Se tu soubesses o que eu estou sentindo, Bertha? se tu soubesses o que vão de saudades aqui dentro?

—Então não sei? Não era eu amiga de Beatriz tambem? O tempo mais feliz da minha vida não foi aquelle em que a conheci? Inda hontem chorei ao reler as cartas que ella me escrevia.

—E ella escrevia-te?

—A ultima que tenho d'ella é datada de oito dias antes da sua morte.

—Pobre criança! E… e dizia-te que sabia o estado em que estava?

—Dizia; mas que fingia illudir-se para não affligir os seus.

—E era assim, era. Nunca se ouviu uma queixa d'aquella bôca. Morreu a sorrir o pobre anjo.

E o saudoso pae quasi soluçava ao avivar aquella permanente chaga do seu coração.

—Snr. D. Luiz—acudiu frei Januario—olhe que lhe faz mal estar a recordar essas coisas. O passado, passado. A noite está comnosco e…

—É verdade!—atalhou Bertha—e eu a demoral-o aqui! Faça favor de entrar, meu padrinho, a mãe anda lá para a quinta. Meu pae está para a cidade e julgo que só ámanhã virá, mas….

Estas palavras recordaram a D. Luiz o motivo que o trouxera alli. Chamaram-n'o á realidade de sua presente situação, afugentando as memorias do passado, melancolicas, mas suaves para o seu espirito.

Mudou immediatamente de expressão, as lagrimas como que se lhe secaram aos estos da paixão que crescia n'elle. Ergueu a cabeça que a tristeza curvára. Assumiu aquella apparencia magestosa que costumava apresentar aos olhos dos estranhos, e em tom não rispido, porém menos cordial do que até alli, disse para Bertha, que era agora para elle a filha de Thomé da Povoa e já não a companheira de Beatriz:

—Bertha, ia-me esquecendo o que me trouxe aqui. O coração domina-me ainda ás vezes. Mas a crise passou. Vinha procurar teu pae. Visto que não o encontro, peço-te que lhe transmitias o meu recado. Soube hoje que um de meus filhos havia recebido d'elle adiantamentos de dinheiro a titulo de emprestimo para melhorar a nossa propriedade, e isto sem garantia alguma. Não sei a quanto monta a somma recebida, mas em todo o caso não posso aceitar o emprestimo… ou a esmola. A divida ha de ser paga em breve tempo; mas, emquanto não o fôr, deixo em penhor de minha palavra aquella casa, que hoje mesmo abandono, e tudo que n'ella se contém. As chaves aqui ficam. Virei a seu tempo buscal-as.

E, fazendo signal ao procurador, tomou as chaves das mãos d'este, que continuava a estar abysmado, e entregou-as a Bertha.

A estupefacção da rapariga era tal, que machinalmente as recebeu, sem bem saber o que fazia.

—Parece-me que será bastante garantia—acrescentou D. Luiz.—Se eu não sou victima de uma perseguição do céo, espero resgatal-as ainda. Senão… Adeus, Bertha.

—Mas—pôde emfim dizer a filha de Thomé, sahindo da sua abstracção—isto não póde ser! Eu… nem sei o que estou fazendo. Por quem é, padrinho, meu pae não póde querer….

—Não te pertence julgar d'estes negocios, Bertha. Faze o que te digo.

—Deixar a Casa Mourisca! a casa em que tem vivido sempre, onde nasceu e morreu Beatriz! E porque?… Que somos nós para si então, padrinho?

O fidalgo tornou-se de novo sombrio ao responder:

—Bertha, quando a minha consciencia me impõe um acto na vida, é inutil tentar demover-me.

—A consciencia!—repetiu Bertha, timidamente, como exprimindo uma duvida.

—Se queres tambem chamar a isto um preconceito de classe, como já lhe chamou um de meus filhos, chama-lh'o embora. Em todo o caso obedeço-lhe e de obedecer-lhe me orgulho.

E o fidalgo ia para retirar-se, quando Bertha lhe disse, hesitando:

—E não me consente que lhe beije outra vez a mão?

O animo irritado do senhor da Casa Mourisca abrandou outra vez ao som d'aquellas palavras meigas. D. Luiz estendeu a mão a Bertha, que lh'a beijou chorando.

Ao sentir-lhe as lagrimas o fidalgo ergueu-lhe amigavelmente a cabeça, perguntando-lhe:

—Porque choras, Bertha?

—Porque sinto que já não me tem a amizade que d'antes me tinha.

—Criança—disse o fidalgo com uma brandura que havia muito tempo ninguem conhecêra n'elle—que tens tu com as paixões áridas das nossas almas de homens? Os entes como tu e como aquelle que eu perdi, nasceram para as dissipar e não para soffrel-as.

E cedendo á commoção que de novo a dominava, o severo e implacavel D. Luiz, com admiração crescente de frei Januario, apertou a afilhada nos braços e poisou-lhe na fronte um beijo, como os que dava em Beatriz.

E ao separar-se d'aquelle logar ia outra vez com as lagrimas nos olhos.

Ao fim da avenida, d'onde se avistava o portão, voltou-se. Bertha permanecia no mesmo sitio, a seguil-o com a vista.

—Repare, frei Januario, repare; a quem vê d'aqui, a distancia, não parece mesmo a minha Beatriz, quando nos esperava á porta da Casa Mourisca?

—Sim, as raparigas ao longe todas se parecem; mas olhe que é noite fechada, snr. D. Luiz.

—Jesus! e agora a dizer-me adeus!—continuava D. Luiz, dizendo adeus tambem—é mesmo aquelle anjo que eu perdi. Fujamos, fujamos d'estes sitios, que tenho medo de enlouquecer.

—E até porque é noite fechada—acrescentou o padre.—Valha-nos Deus!

Depois de longo tracto de caminho andado em silencio, D. Luiz parou, e levantando os olhos ao céo, exclamou com paixão:

—Que tremendas culpas estou eu expiando, meu Deus! Porque me roubas tudo, para tudo dares áquelle homem?! Até a filha! até a suave consolação d'aquelle amor de filha, que eu perdi, até esse elle possue! Que tremendo castigo, Senhor!

D'ahi até o termo da jornada, na quinta dos Bacellos, não tornou a pronunciar uma só palavra.

Quando lá chegaram ia a noite adiantada; e já havia desassocego pela demora dos dois.

O padre procurador estava furioso. Dizia elle completamente desconcertado:

—Uma estafa assim depois de um jantar lauto! Esta gente não tem consciencia! Deus queira que não me venha por ahi alguma apoplexia! Os filhos são doidos, o pae está pateta, e eu que os ature!

E correu á cozinha a vêr se havia alguma coisa quente que o confortasse.