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Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia

Chapter 25: VOLUME II
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About This Book

A obra acompanha uma família nobre provincial cujo imponente solar, popularmente apelidado em referência à presença moura, domina a aldeia; descreve a arquitectura melancólica do paço e o declínio económico provocado por dívidas, terras mal cultivadas e abandono; expõe tensões familiares e políticas, com um patriarca conservador e os laços partidos pela revolução, e a vida dos dois filhos jovens; intercala tradições locais — lendas de mouras encantadas, jogos de mouros e cristãos e rumores de tesouros enterrados — e pinta a paisagem social e sentimental da aldeia entre memória, orgulho e ruína.

XVIII

O antigo solar da familia da baroneza, chamado a Casa dos Bacellos, como que ao despertar de um somno de muitos annos, abrira á luz do dia as suas amplas janellas, reacendêra o fogo nos lares apagados, e restaurára o movimento e a vida nos aposentos vazios.

Era a primeira vez, depois do seu casamento, que a baroneza voltava aos sitios onde lhe corrêra a infancia, cujas suaves memorias ainda os povoavam. Ao vêr de novo aquellas velhas paredes e aquellas arvores frondosas, ao seguir pelos extensos corredores, ao penetrar nas espaçosas salas e nos mais retirados gabinetes da casa, Gabriella, ainda que pouco propensa a melancolias, não pôde subtrahir o espirito a uma impressão de saudade.

Vestigios mal apagados d'aquelle tempo longinquo a cada passo lh'o relembravam; alli fôra o theatro dos seus brinquedos e jogos, além estava um objecto ao qual se prendia a reminiscencia de uma provação infantil, aquelle era o logar favorito de seu pae, acolá desenhava-lhe vagamente a sua recordação a imagem da mãe, que perdêra em criança, e dominada por esta influencia, Gabriella suspirava e conhecia que ainda não morrêra de todo em si o coração provinciano.

Mas uma tal disposição de espirito não podia durar muito. A baroneza era uma mulher de acção, e não se esquecia de que tinha muito em que pensar e que fazer em virtude dos acontecimentos ultimos da Casa Mourisca.

Não eram sómente as canceiras de dona de casa, que deseja accommodar convenientemente os seus hospedes, que a preoccupavam, mas tambem, e mais ainda, o desejo de restituir áquella familia a harmonia tão inesperadamente interrompida e de reconciliar o irritado fidalgo com o filho, que pelo seu nobre proceder incorrêra no desagrado do velho. Gabriella tomava devéras a peito esta pacificadora empreza; mas para isso era ainda cêdo. A paixão ensurdecia ainda muito D. Luiz, para que lhe fosse possivel escutar conselhos.

Na manhã immediata á noite da installação solemne da familia de D. Luiz na casa dos Bacellos, Gabriella foi procurar Jorge ao pavilhão no fundo da quinta, onde elle desde a vespera se alojára, longe dos olhares paternos.

A baroneza tinha sabido de frei Januario tudo o que se passára entre D. Luiz e Bertha á porta da quinta de Thomé, e desejava fallar n'isto ao primo.

Jorge recebeu-a com umas apparencias de serenidade, que não eram de todo sinceras.

—E meu pae?—foi a primeira pergunta de Jorge, depois das palavras de comprimento.

—Um pouco menos affrontado, depois que realisou uma ideia cavalheirosa e vindicou, como entendeu, a sua dignidade aristocratica.

—Pois que fez elle?

—Foi entregar pessoalmente as chaves da Casa Mourisca nas mãos do Thomé da Povoa. O frei Januario contou-me tudo. A aristocracia é assim em toda a parte. Tem a cabeça cheia de tradições da idade media e por ellas se regula. Procura sempre dar ás suas acções uma feição dramatica, e sempre que o consegue, sahe desopprimida de qualquer situação apertada.

—E Thomé aceitou-as?

—O Thomé não estava em casa. A entrevista teve logar á porta da Herdade entre o tio Luiz e Bertha, a heroina de toda esta historia, e a proposito….

—Perdão, mas… o que se passou n'essa entrevista?

—Pelo que me disse o padre, correu muito sentimental ao principio. A vista de Bertha recordou ao tio a imagem de Beatriz e commoveu-o a ponto de chorar. A rapariga parece que lhe disse algumas coisas ternas, que acabaram de o sensibilisar; abençoou-a, beijou-a e quasi se ia esquecendo do que o levára alli, mas de repente recordou-se e fez a entrega das chaves com uma gravidade igual á de Martim de Freitas, cuja vaga recordação foi o que provavelmente lhe suggeriu a ideia da scena. Tu sorris? Olha que é o que te digo. Eu conheço os achaques d'estes nobres. Os mais serios e ajuizados são perdidos por umas coisas assim. Se em uma occasião de crise tiverem um dito sentencioso, uma acção, um gesto dramatico d'estes que se tornam proverbiaes, ficam muito satisfeitos e resignam-se ás consequencias da crise. O certo é que as chaves lá ficaram.

—Thomé por certo lh'as restitue.

—Póde ser, mas é peior. Teu pae socegará, sabendo que as chaves estão nas mãos de Thomé. Então que queres? É uma puerilidade que se deve respeitar. O acto em si, olhado á luz da actualidade, não tem o minimo valor. Bem sabemos. Mas visto como o tio Luiz o vê, illuminado pelo crepusculo dos bons tempos passados, é um desforço e uma acção fidalga, capaz de o desaffrontar perante os seculos passados e futuros. Mas vamos ao que importa. Em toda esta historia figura o nome de uma mulher. Ora é sabido que nos attribuem sempre as primeiras honras no travar e complicar da acção dos differentes dramas e comedias da vida; por isso, com quanto o papel de Bertha se nos tenha apresentado até aqui como secundario, ninguem me tira da ideia de que ella é a figura principal da historia. Que te parece, Jorge?

Jorge, evidentemente enleiado pela reflexão da baroneza, respondeu:

—Bem vê que não é. A prima está já ao corrente de tudo, póde portanto julgar da parte da acção que cabe a essa rapariga.

—Estou ao corrente de tudo? Isso é que eu não sei. Mauricio tem por ella uma grande paixão, ao que parece.

—Não creio—acudiu Jorge vivamente.

—Como se explica então que, sendo elle tão teu amigo, se irritasse por uma errada interpretação dos teus actos, a ponto de estar imminente uma acção tragica, de que nem quero lembrar-me?

—Ora essa! Então não conhece o genio de Mauricio?—tornou Jorge quasi impaciente—Os primeiros movimentos são n'elle sempre impetuosos. Aquelle rapaz não se conhece. A cada instante se engana comsigo proprio. Anda persuadido ha certo tempo de que ama Bertha, e essa persuasão é tal que dá logar a scenas como essa que sabe.

—E porque dizes que não a ama?

—Porque o conheço e porque o tenho visto amar assim muitas mulheres.

—Uma serie de amores verdadeiros, é o que se conclue d'ahi; verdadeiros, mas curtos.

Jorge sorriu.

—Parece-me que não acreditas que sejam verdadeiros os que são curtos?
Tu amarias sempre, se amasses?

—Creio que sim. Ou pelo menos, quando visse acabar um amor, dizia commigo: enganei-me, não era amor ainda.

—Sympathica theoria, mas não sei se muito aceitavel. Porém quem te diz que Mauricio não se fixaria d'esta vez? E olha que não seria uma má resolução da vossa crise. O Thomé julgo que está em condições de ser um sogro salvador, assim não houvesse a prevenção do tio Luiz.

—D'essa maneira não quereria eu nunca regenerar a nossa casa—replicou
Jorge gravemente.

—Ah! tambem tens d'esses escrupulos? Pois olha, filho, é o processo hoje mais seguido.

—Bem sei, mas em um homem acho-o ignobil.

—Não havendo amor, concordo; mas quando o amor absolve a alma…

—Mais honra haveria em vencêl-o.

—Esta provincia é um terreno onde as velhas plantas duram eternamente. Não ha vento revolucionario, nem corrente de ideias novas que as derrubem.

—Mas deve confessar que são bellas e boas arvores essas!

—Algumas; outras são inuteis e damninhas, e fariam muito bem se cedessem o logar a melhor e mais productiva cultura. Agora outra pergunta: e Bertha ama a Mauricio?

Jorge córou a esta pergunta e evidentemente contrariado respondeu apenas:

—Talvez.

A baroneza ia a insistir, quando o colloquio foi interrompido pela voz do padre procurador pedindo licença para entrar.

Frei Januario entrou tossindo e assuando-se de uma maneira particular, que para quem o conhecesse era indicio claro de uma grave preoccupação de espirito.

—Então, snr. frei Januario, como se tem dado n'estas ruinas?—perguntou-lhe a baroneza com a amabilidade de dona de casa.

—Excellentemente, minha senhora. Então até direi a v. exc.ª que ha muito tempo não dei com um cozinheiro que melhor atinasse com o meu paladar.

—Sim? O Gavião merece-lhe esse conceito? Se o rapaz o sabe! É capaz de se me estragar de vaidade. Não o gabe na presença. Recommendo-lhe toda a discrição, snr. frei Januario. Olhe lá.

—Mas é que é verdade o que eu digo. Que lhe pareceu a v. exc.ª aquelles bifes hoje ao almoço? Olhe que aquelles bifes!… Não lhe digo nada! O rapaz é geitoso. Mas deixemos isso. Tracta-se de uma coisa que me dá cuidado.

—Então que é?—perguntou a baroneza, recostando-se—Não quer sentar-se, snr. frei Januario?

O padre puxou uma cadeira, sentou-se e tornou a tossir e a assuar-se.

—O snr. D. Luiz—disse elle, interrompendo-se a cada momento—emfim… eu ha tempos a esta parte ando assim a modo de doido….

—Vamos, snr. frei Januario, solte a grande novidade que nos traz debaixo do capote. Depois fará os commentarios, que entenderemos e apreciaremos melhor.

—O snr. D. Luiz chamou-me ha poucos momentos ao seu quarto para me dizer… para me ordenar….

—O quê?

—Para me confiar de novo a procuração que me retirára, e ordenar-me que participasse isto mesmo ao snr. Jorge para seu governo. Emfim….

—Cumpra-se a vontade de meu pae—disse Jorge—e Deus permitia que elle tenha motivos para se applaudir por ella.

—Eu fazia melhor conceito do bom senso do tio Luiz—observou francamente a baroneza—confesso que fazia. E o snr. frei Januario acha-se com forças de desenredar esta meiada, embaraçada como está?

—Pois ahi é que bate o ponto—acudiu o egresso.—Eu… é verdade que por mais de vinte annos dirigi estas coisas e, se mais não fiz, foi porque os tempos eram o que nós todos sabemos. Mas, depois que o snr. Jorge tomou conta disto, perdi o fio da meiada, entende v. exc.ª? Eu tinha cá o meu systema e por elle me guiava. Agora porém venho encontrar as coisas todas mudadas e… emfim, póde ser que estejam muito bem, não digo menos d'isso, mas eu é que não as entendo. Para pôr tudo outra vez no pé de d'antes, isso leva um tempo dos meus peccados; para continuar no caminho em que isto vae, era preciso ter muito trabalho e a fallar a verdade, já não estou na idade d'isso.

—E então que tenciona fazer?

—Eu sei? O fidalgo não ha quem o convença. Credo! Vão lá hoje contrarial-o na mais pequena coisa! Vae tudo pelos ares! Por isso, a mim lembrava-me….

—O que lhe lembra, snr. frei Januário?—perguntou Gabriella, fitando-o com olhar penetrante.

—Lembrava-me dizer ao fidalgo que sim senhor, que tudo se havia de fazer como elle mandava, que eu me encarregaria da direcção da casa, mas, por baixo de mão, continuar o snr. Jorge a levar as coisas lá pelo seu systema.

—E quer tomar sobre si a responsabilidade dos meus actos, snr. frei Januario? Repare bem. Já sabe a que portas costumo ir bater, quando preciso de capital, e quaes os meios que adopto. As suas crenças e opiniões devem soffrer com isso.

—E a mim que me importa?—tornou o padre impaciente—A final de contas, a casa é sua e não minha. O mal que fizer mais o ha de sentir do que eu.

—Não depõe muito a favor da sinceridade do seu affecto á minha família esse dizer. Eu queria antes vêl-o oppondo-se energicamente á administração viciosa que principiei.

O padre não tinha coragem para tomar conta da gerencia da casa sob a inspecção de Jorge, a quem tomára um mêdo excessivo; tentava porém colorir airosamente a proposta que alli viera fazer.

A baroneza interpellou-o muito terminantemente.

—A sua posição n'esta casa, snr. frei Januario, e as exigencias moraes do seu caracter e da sua missão traçam-lhe distinctamente o caminho que deve seguir. Ou entende na sua consciencia que póde fazer mais e melhor do que Jorge, e n'esse caso deve obedecer ao tio Luiz, ou tem a convicção contraria e só então é admissivel a sua proposta, mas depois de confessar com franqueza e lealdade o motivo d'ella.

O padre torceu-se, balbuciando:

—Eu não digo… isto é… quero dizer… no estado em que as coisas estão… no pé em que as puzeram…. Sim… cada qual tem lá o seu systema… e eu… sim, v. exc.ª bem sabe….

—Deixemo-nos d'isso. Claro, claro. Notou alguns defeitos na administração do primo?

—Defeitos… defeitos… não digo defeitos….

—Mereceu-lhe alguns reparos? Seja franco. Não se admittem palavras ambiguas.

—Não, minha senhora, eu não tenho reparos a fazer… quero dizer….

—Achou-a boa?

—Sim… achei… isto é….

—Parece-lhe que não é capaz de fazer melhor?

—Não tenho vaidades….

—Tem medo de estragar o bem que está feito?

—Todos podem errar… emfim….

—Temos entendido. Parece-me que Jorge, em vista d'isso, não discordará do seu parecer. Não é verdade, Jorge?

—Custa-me continuar a trabalhar clandestinamente; mas não me eximo a esforço algum para salvar a minha casa.

—Muito bem; agora o snr. frei Januario póde dizer ao tio Luiz que se cumprirão as suas ordens, e o mais que terá a fazer é assignar, sem lêr, alguns papeis que por ventura sejam necessarios, isto nos primeiros dias, porque eu confio ainda na boa razão do tio. E agora côma, beba e durma, e deixe correr o mundo, que ha de correr para bom lado.

O padre retirou-se mais desafogado, mas pouco satisfeito com os modos da baroneza, que o obrigaram a despir-se de toda a diplomacia e a confessar a sua inaptidão administrativa.

*FIM DO PRIMEIRO VOLUME*

OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA

OS FIDALGOS

DA
CASA MOURISCA

CHRONICA DA ALDEIA

POR
*JÚLIO DINIZ*

VOLUME II

*PORTO*
TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
Rua Ferreira Borges, 31

1871

XIX

Emquanto frei Januario conferenciava com Jorge e com a baroneza sobre a maneira de melhor harmonisar a vontade e as ordens expressas do fidalgo com os interesses da casa e com a commodidade pessoal de sua reverendissima, D. Luiz, a quem desde a vespera uma impaciencia nervosa não deixava repousar ainda, e que não podéra conformar-se aos seus novos habitos de vida, sahiu do quarto e veio passeiar agitado e meditativo na vasta sala da entrada, de cujas paredes o contemplavam sisudos os velhos retratos da familia.

Não vergava sob uma ideia unica e exclusiva o espirito do velho fidalgo, perdia-se no redemoinhar de ideias diversas e antagonistas, que umas ás outras o disputavam. Saudades, terrores, despeitos, desalentos e até remorsos dos seus passados odios e vinganças, eram os demonios perseguidores e implacaveis, cujo voltear phantastico, rapido como o de um circulo de feiticeiras, quasi lhe alienava a razão, ferindo-a de vertigem.

D. Luiz envelhecêra ultimamente de uma maneira rapida. De encontro á sua organisação robusta, quebrára-se por muito tempo a força da corrente dos annos e amortecera a violencia dos embates da adversidade, sem que elle experimentasse a leve vacillação que preludia a queda. Porém desde o momento em que se manifestaram os primeiros signaes de fraqueza, o progresso na declinação foi rapido, e de dia para dia sentia-se desfallecer aquelle corpo vigoroso e aquelle espirito energico.

A manhã estava sombria, o céo carregado e a chuva miúda, continua, persistente, sem vento que a agitasse, e ainda mais desesperadora por isso; porque um dia de inverno sem vento é como a tristeza sem a explosão das paixões, perde-se a esperança de o vêr terminar.

A sala em que D. Luiz passeiava era a menos confortavelmente mobilada de toda a casa; o alto fogão, que occupava o espaço das duas janellas, jazia apagado, frio, e conservando apenas, como memoria da vida que já o animára, as cinzas sem calor. O aspecto de um fogão apagado é triste; tem o que quer que seja de um cadaver. A tristeza da manhã e a tristeza da sala augmentavam evidentemente com a presença d'esse fogão. Por muito tempo apenas o som dos passos do fidalgo despertava os eccos d'aquellas altas e despidas paredes e tectos elevados.

De repente porém ouviu-se rumor á porta da entrada.

D. Luiz voltou para alli instinctivamente os olhos, sentindo que alguem a abria; e estremeceu, como se de improviso fosse ferido, ao vêr surgir detraz do reposteiro a figura de Thomé da Herdade.

O pae de Bertha vinha todo molhado, e parecia chegar de longa jornada. Trazia as faces mais afogueadas do que o costume, e os olhos mais brilhantes. Em cada gesto e em cada movimento denunciava uma funda agitação, que lhe não era habitual. Ao avistar D. Luiz, não pôde reter uma exclamação, como quem déra com o objecto que anciosamente procurava.

Vencida a turbação dos primeiros instantes, o senhor da Casa Mourisca fez uma cortezia muito grave ao recem-chegado, e dispôz-se para sahir da sala.

Thomé da Povoa não lh'o permittiu.

—Não, não, tenha paciencia, snr. D. Luiz, não se retira assim. Eu vim para lhe fallar e não me vou embora sem o fazer.

D. Luiz parou e respondeu friamente:

—Os negocios da minha casa tractam-se com o meu procurador. Eu não posso…

—Deixemo-nos d'isso, fidalgo. Eu nada tenho, nem quero ter com o procurador de v. exc.ª. Não foi elle quem me offendeu; não é a elle que devo dirigir-me.

—Ah! então vem aqui pedir-me satisfações?!

—Venho, sim, senhor.

—Tem graça!—observou o fidalgo, com um sorriso cheio de aristocratico sarcasmo.

—Então v. exc.ª acha que um homem que é insultado, não tem o direito de vir perguntar á pessoa que o insultou a razão por que o fez?

—E suppõe que eu já alguma vez me occupei a insultal-o?

—Supponho, sim, senhor; e supponho mais, supponho que v. exc.ª bem sabe quando e de que maneira me insultou. Porque era preciso não ter brios para imaginar que um homem de bem não se offenderia com acções, como as de v. exc.ª para commigo.

—Ora essa! commentou D. Luiz, voltando-lhe as costas e caminhando desdenhosamente para a janella.

Thomé da Povoa, a quem este movimento augmentou a excitação de que já estava possuido, deu alguns passos mais agitados para o seu orgulhoso interlocutor.

O fidalgo, sentindo-o, voltou-se subitamente e encarou-o fixo.

—Vem aqui decidido a alguma violencia, ao que parece.

A irritação de Thomé desvaneceu-se. O olhar de D. Luiz parecia avivar-lhe memorias do tempo, em que elle se costumára a obedecer-lhe e a temêl-o quasi.

A reflexão venceu esta timidez de instincto, comtudo foi menos aggressivo do que até ahi que elle respondeu:

—Não, snr. D. Luiz; venho aqui decidido a explicar-me. É preciso que fiquemos ambos sabendo o que um e outro somos. Não posso por mais tempo soffrer calado os desprezes e as desfeitas de v. exc.ª, sem perguntar qual o motivo que dei para ellas. Palavra de honra, snr. D. Luiz, que, por mais que me mate, não posso vêr em toda a minha vida uma só acção, uma unica, que me merecesse da parte de v. exc.ª este procedimento para commigo; não posso.

—Está sonhando, Thomé? Cuida que eu não tenho mais em que pensar do que em desfeiteal-o? Que mania se lhe metteu na cabeça!

—E que foi senão uma desfeita o que v. exc.ª me fez no outro dia, indo á porta da minha casa entregar nas mãos da minha propria filha as chaves do seu palacio, que deixou só por que eu havia adiantado ao snr. Jorge um pouco de dinheiro por um contracto honesto e leal? Que foi aquillo senão uma desfeita?

—Se não comprehende os motivos que me levaram áquelle passo, não sei que lhe faça. Nas familias, como a minha, ha certas regras tradicionaes de conducta que talvez pareçam estranhas a outras, educadas em habitos differentes, no que eu não tenho culpa….

—Entendo o que quer dizer, snr. D. Luiz. Foi acção de fidalgo a sua, e, por ser tal, eu, que nasci em palhas, não posso entendêl-a bem. Mas porque é que só commigo usa v. exc.ª das taes acções? Por acaso fui eu o primeiro que emprestei dinheiro aos senhores da Casa Mourisca? Quando o padre procurador de v. exc.ª andava por ahi batendo de porta em porta a levantar dinheiro, não para o empregar em melhoramentos que, mais anno menos anno, podéssem remir a divida, mas para o desperdiçar sem tom nem som, e obtinha esses capitaes a 10, 12 e 15 por cento; quando elle lavrava hypothecas e arrendamentos vergonhosos e a gente de má fé, que faziam d'elle o que queriam, o orgulho de v. exc.ª nunca o obrigou a sahir de sua casa, que se perdia n'esse andar, e a ir pôr as chaves d'ella nas mãos d'esses usurarios, que viviam á custa das tolices e dos desperdicios do padre; e agora então todo se espinhou por que eu, honestamente e sem má tenção, antes pelo muito amor que ainda tenho a esta familia e a estes meninos que trouxe ao collo, puz á disposição de um d'elles, que é hoje um rapaz de juizo, o dinheiro de que precisava para se ir livrando da usura, que o roía até os ossos, e emendar os erros da administração do padre! Só agora é que v. exc.ª se sente ferido na sua fidalguia e sahe da casa, em que vive ha tantos annos, clamando que já não é sua. Isto é collocar-me abaixo d'esses miseraveis, a quem me pejo de apertar a mão. O contracto feito entre mim e o filho de v. exc.ª é um contracto que não envergonha nem a mim nem a elle. Póde apparecer á luz do dia, e tenha a certeza de que não ha de haver muitos, mais de cavalheiros do que elle. Não dei dinheiro sem garantias, nem também o dei com usura. Nenhum de nós aceitou favor do outro. Então qual é a razão dos escrupulos de v. exc.ª?

—Vejo que está mais informado dos negocios de minha casa, do que eu proprio. Póde ser que eu devesse ha mais tempo fazer o que fiz. A culpa é da minha ignorancia. Quando porém tão publica foi a confissão da nossa baixeza, a minha dignidade obrigava-me a proceder como procedi.

—A dignidade… a dignidade… Perdoe-me o fidalgo, mas se quer que lhe falle a verdade, eu já não sei bem o que seja dignidade, quando vejo o que por ahi se faz á conta d'ella. Dignidade acho eu que a tem tido seu filho, trabalhando como um homem de bem, para desempenhar a sua casa, e confessando diante de todos os seus actos, que não o envergonham; dignidade teve elle, quando defendeu uma pobre rapariga das calumnias de uns miseraveis, que tambem se dizem fidalgos, e que tambem fallam muito na sua dignidade.

—Creio que é melhor não discutirmos. Os nossos principios são diversos, não podemos entender-nos.

—Não ha tal. Os nossos principios, aquelles que me levam a fallar, são os mesmos, são os de qualquer homem de bem. E eu prézo-me de o ser e v. exc.ª tambem o é. Havemos de entender-nos por força. N'isto até o homem e Deus se entendem, não é muito que v. exc.ª, por mais fidalgo que seja, se entenda commigo.

—Mas que quer a final? Não terei eu a liberdade de deixar a minha casa quando entender que me convem fazêl-o? Não serei o mais competente juiz das minhas acções?

—V. exc.ª sahiu de sua casa, declarando a todos porque era que o fazia; e já ahi o meu nome e a minha pessoa andaram envolvidos. Depois foi affligir a minha pobre Bertha, que nada sabe d'estas coisas, obrigando-a a aceitar as chaves da Casa Mourisca para m'as entregar, como se eu fosse um miseravel que tivesse sequer sonhado um dia em especular com a confiança que seu filho pôz em mim! As novidades correm depressa na aldeia e não falta gente para denegrir o caracter de um homem. Depois do passo que v. exc.ª deu, o que se não terá dito? Que eu andava sugando os ultimos restos de sangue da sua familia e abusando da boa fé e da pouca experiencia do seu filho, mas que o fidalgo me desmascarou a tempo! E se se disser isto, não sentirá v. exc.ª remorsos por ter dado azo a uma calumnia? Falle-me francamente, fidalgo, aqui diante de mim e de Deus que nos ouve, em sua consciencia e sob a sua palavra de honra, que sempre honrou, falle-me franco, snr. D. Luiz; em toda a minha vida, desde os tempos em que servi a sua casa até hoje, no meio dos meus trabalhos, das minhas felicidades e dos meus revezes, pratiquei já alguma acção que obrigue v. exc.ª a desconfiar de mim? Falle-me franco, snr. D. Luiz. Hoje mesmo, agora, n'este momento em que me vê e me escuta, crê, na sua consciencia, que está na presença de um miseravel?

D. Luiz respondeu sem hesitar e em tom grave e digno:

—Não, nunca o accusei, Thomé, e creio que é um homem trabalhador e honrado.

—Então para que ha de ter sómente para mim essa má vontade? Para que me ha de desprezar como se eu fosse um vil? a mim, que o servi fielmente, emquanto o servi, que então ganhei e conservei até hoje á sua familia um amor cá de dentro, como se ella me pertencesse, que chorei a sua pobre menina, aquelle anjo que Deus lhe levou, como choraria morta uma filha minha? Para que ha de ter só para este homem, que apenas bens deseja á sua casa, esses desprezes e essas afrontas? para este homem, que tem uma filha que lhe chama padrinho? E não quer que eu me sinta? Pois julga que não ha aqui dentro um coração? Ah! fidalgo, fidalgo, creia o que lhe digo, em cada um d'esses jornaleiros que passam o dia vergados a trabalhar nas propriedades de v. exc.ª, ha um coração de carne como o dos nobres; e emquanto elles trabalham, elle não pára de bater.

—Está inventando aggravos para se dar por aggravado. Nunca tive tenção de offendêl-o. N'estes ultimos tempos azedou-se-me um tanto o genio, e confesso que não me é demasiado agradavel a convivencia dos homens. Eis o motivo por que vivo retirado.

—Snr. D. Luiz, v. exc.ª não é franco. Não ha por essa aldeia quem não saiba que os filhos de v. exc.ª, se alguma vez se atrevem a procurar a Herdade em que eu vivo, correm o risco do desagrado do pae. Não sei quem é que em minha casa os póde corromper. V. exc.ª porém acha menos perigosa para elles a companhia dos fidalgos do Cruzeiro do que a minha. O snr. Jorge fez mal em arriscar-se a entrar n'aquella casa excommungada; mais seguro andou o snr. Mauricio frequentando a dos primos, apesar de…, perdoe-me a sua fidalguia, apesar de não serem mais do que uns bebedos, uns devassos e uns calumniadores.

—Está fora de si, Thomé—observou o fidalgo, que córou ao ouvir estas affrontas a uns parentes tão proximos, mas a quem não se sentia com animo de desaggravar.—Terminemos esta desagradavel conferencia. Que quer a final de mim?

—Restituir-lhe as chaves da sua casa, que me não servem para nada—respondeu Thomé, tirando do bolso o molho de chaves, que Bertha recebêra do fidalgo.

D. Luiz com um gesto desviou de si as chaves que o fazendeiro lhe offerecia.

—É inutil insistir. A minha resolução está formada.

—Mas é uma resolução disparatada; perdoe-me dizer-lh'o, fidalgo, uma resolução sem valor algum, sem significação perante a lei, sem effeito senão o de affrontar-me.

—Eu já lhe disse que nós temos umas leis especiaes por que nos regulamos.

—Então se v. exc.ª entende que deve pôr nas mãos dos seus credores as chaves de sua casa, é preciso saber quem tem mais direito a ellas. Na lista não está só escripto o meu nome. Deite v. exc.ª pregão para saber quem deve ser o depositario d'isso, que eu por mim sou o menos habilitado.

E Thomé da Povoa arrojou sobre a mesa as chaves, com irritação crescente.

D. Luiz fitou-o por momentos com um olhar de cólera, que aquelle movimento desafiára, mas conseguiu dominar-se, e respondeu com firmeza:

—Leve comsigo as chaves, Thomé! A minha dignidade não me consente ficar com ellas. Fiz um protesto, hei de cumpril-o. Se os meus credores são muitos, seja o representante d'elles todos. Em poucos posso depositar mais confiança.

—Muito agradecido pela confiança que mostra…. Olhe, fidalgo, quer que lhe diga o que tudo isto significa? quer que lhe diga o que penso d'este maior rigor commigo? Pois ouça. Cada qual tem os seus defeitos; o meu é o da franqueza. A razão de tudo isto está no grande orgulho de v. exc.ª. É o que eu lhe digo.

—Póde ser; o orgulho é o defeito de certa classe….

—Pois não lh'o invejo, nem lh'o gabo. Orgulho entendo eu que se deve ter de certa maneira; d'essa não, que não é nobre. V. exc.ª préza muito o nome de sua familia, deve então trabalhar honestamente para o conservar illustre. Mas não receie que lhe possa fazer sombra a casa do seu antigo criado, ainda que em cada anno elle levante um sobrado e metta mais um campo dentro dos muros da quinta. O valle que nos separa é muito largo, fidalgo; e ainda quando o sol se esconde, a sombra da minha chaminé não chega nem sequer ao principio dos dominios de v. exc.ª. Deixe-me pois crescer, snr. D. Luiz, e não me leve a mal o trabalhar para ganhar para meus filhos pão, que não lhes falte para o futuro.

D. Luiz, ao ouvir estas palavras, estremeceu, como se ellas o ferissem no vivo; as faces tingiram-se-lhe de um intenso rubor, e foi tal a sua perturbação que, sem tirar os olhos do fazendeiro, não pôde articular uma palavra que lhe respondesse.

Thomé proseguiu mais exaltado:

—Deixe-me crescer e medrar, fidalgo, que as minhas plantações para terem viço, não vão roubar o succo das suas terras. Não é por isso que ellas estão maninhas, não. E se quizer offuscar-me, deixe seu filho Jorge empregar o talento, a honestidade e o amor ao trabalho que deve a Deus, em tornar a sua casa no que ella foi em outros tempos. Então sim, então terá razão o orgulho de v. exc.ª, porque ninguem será mais para louvar e admirar do que o moço que der um tal exemplo, a criança que se fez homem para trabalhar, e o fidalgo que se fez lavrador para salvar a sua casa, e que por isso não deixou de ser fidalgo, antes mais do que nunca mostrou que o era. Este orgulho entende-se; mas ha um de má casta, que se parece muito com a inveja.

A esta ultima palavra D. Luiz não conteve um movimento de violencia.

—Basta. Desde que principia a ser insolente, não devo escutal-o. Talvez tenha feito mal em ouvil-o tanto tempo. Do motivo das minhas acções só tenho a dar contas a Deus. A si, basta que lhe diga que não recebo essas chaves, nem volto para a Casa Mourisca, emquanto não estiverem saldadas as minhas contas comsigo.

—Commigo! E sempre commigo? Pois bem; teima em offender-me?… aceito as chaves, levo-as para casa. Mas faço-lhe aqui, eu tambem, um protesto, fidalgo. Juro que hei de, a seu pezar, fazer-lhe o bem que podér. Se os meus soccorros o humilham e envergonham, ha de ter a paciencia de se humilhar e envergonhar por muito tempo, porque de hoje em diante vou trabalhar como nunca na restauração da sua casa. Ah! cuida que é só desfeitear-me e eu calar-me envergonhado? Enganou-se. Enganou-se. Enganou-se. Apre! Eu também tenho vontade. Ha de vêr com quem se metteu. Ainda que o fidalgo quizesse agora dar cabo do que lhe resta, eu lhe juro que não o conseguiria. Fica por minha conta a empreza de pôr no pé em que esteve a sua casa e a sua propriedade. Ora aqui está. Agora queixe-se, insulte-me, desfeiteie-me á vontade; ande, não tenha escrupulos. A minha tenção está formada. Não quero saber se o seu orgulho se offende, ou se se não offende. Se se offender, tanto melhor, que d'elle tambem é que eu recebi offensa. Apre! Cuidam que nós não temos brio nem pundonor? É só affrontar-nos como se não fossemos capazes de sentir? Sim? Elle é isso? Pois nós veremos. Ora deixa estar que eu lhes direi como as coisas correm. Quer que eu lhe fique com as chaves, não quer? Pois não, com muito gosto. Olhe, cá as levo. Vê? Passe muito bem v. exc.ª, passe muito bem. Eu lhe prometto que ha de ter noticias minhas. Ora é boa! A paciencia esgota-se. A gente tambem tem cá uma medida de soffrer; cheia ella, acabou-se, vae tudo por ahi fóra. Adeus, fidalgo, eu lhe protesto de novo que lhe hei de fazer todo o bem que podér.

E Thomé da Povoa, inflammado n'aquelle ardente desejo de sancta e honrada vingança, sahiu da sala, resmoneando ainda:

—Estes fidalgos que cuidam que a outra gente não sente! Ora deixa que já que elle tanto se espinha com o bem que lhe faço, eu o flagellarei. Vou tomar mais a peito a casa d'elle do que a minha, e se eu não conseguir o que quero… Ora deixa estar! Apre! Que é demais!

D. Luiz ficou ainda mais triste e pensativo depois que Thomé se retirou.

A seu pezar a entrevista com o fazendeiro impressionára-o profundamente.

O honesto caracter do pae de Bertha transparecia tão claro sob a franca rudeza da sua linguagem!

A unica vingança concebida por aquelle velho, no auge de indignação contra a humilhadora aristocracia do seu nobre visinho, era mais uma prova da sua generosa indole.

Vingava-se a fazer bem! E o mais é que se vingaria, se o conseguisse fazer. O beneficio recebido das mãos d'elle seria peior castigo para D. Luiz, do que a perseguição mais cruel.

O fidalgo sentia-o no intimo da consciencia, e um pensamento, que nem as palavras ousaram formular, atravessou-lhe-o espirito como a luz rapida do relampago.

—Terá razão este homem? Será inveja isto?!… Inveja!…

Passados momentos pensava ainda:

—O que é certo é que é um homem honrado. Porque me irrito pois com o auxilio que vem d'elle?… Inveja!

E, perseguido por este grito da consciencia, D. Luiz correu a encerrar-se no seu gabinete, onde passou o resto do dia.

XX

A violencia das impressões que deixára em Thomé da Povoa a entrevista com o fidalgo da Casa Mourisca não era para se desvanecer com o inquieto somno de uma só noite.

No dia seguinte, pela manhã, o fazendeiro acordou ainda indignado e firme na resolução que abraçára, de se vingar a seu modo. Nem o animo impaciente lhe soffria grande demora na execução.

Logo de madrugada principiou a dispôr as coisas para n'aquelle mesmo dia inaugurar a empreza. Deu contra-ordens a criados que tinham serviço talhado de vespera, foi mais expedito na visita quotidiana ás diversas repartições do casal, afagou mais distrahido a egoa fiel, que lhe cheirava os bolsos, habituaes portadores de uma lambarice matutina, deu um beijo nas crianças, sem se demorar a fazêl-as saltar nos joelhos, mandou que lhe fizessem o almoço mais cedo, depois de almoçar calado, contra o seu costume, ergueu-se da mesa, ordenou que tres criados se preparassem para sahir com elle, levando alguns instrumentos de lavoura, e a final acabou por pedir á mulher as chaves da Casa Mourisca.

Luiza, a boa, a prudente Luiza, que desde a vespera observava, sem reflexões, os signaes de desassocego de espirito que manifestava o marido, não pôde, ao ouvir a ultima ordem, reprimir um movimento de estranheza, e violentando um pouco o seu respeito conjugal, disse, olhando fixamente Thomé:

—As chaves da Casa Mourisca?! Para que queres tu as chaves da Casa
Mourisca?

—Provavelmente para abrir as portas.

—E tu vaes lá?

—Vou, e olha que já ha mais tempo lá me queria.

—E que vaes tu fazer á Casa Mourisca, Thomé?

—O que vou fazer? Vou trabalhar.

—Trabalhar?! Pois tu tomaste-a de renda?!

—Tomal-a de renda? Para quê? Então o fidalgo não me deu as chaves? Então não embirrou em que eu havia de ficar com ellas? Pois para espantalho não me servem cá em casa. As chaves são para abrir as portas, e quem as tem entra quando quer.

—Sim, mas que tens lá que fazer?

—Oh! não me falta tarefa. Aquillo não viu enxada ha bom tempo. Os canos estão entupidos, as minas por limpar, os tanques rôtos, as ruas cobertas de herva, os muros no chão, e tudo o mais por este gosto.

—E então tu é que vaes pôr isso tudo em ordem?

—Vou, sim senhora. É assim que hei de ensinar aquelle soberbo, que se julga deshonrado, só por que eu lhe fiz um serviço insignificante. Pois agora veremos como roe estes que lhe vou fazer. Olha, mulher, vês aquelle casarão negro, coroado de dentes, muitos dos quaes já lhe cahiram de velhos? Pois se eu não lhe puzer dentadura nova e lhe lavar aquelle cara, de maneira que pareça que está a rir e perca o ar carrancudo com que d'alli nos olha, não seja eu quem sou.

—Tu não estás em ti, Thomé. Vê lá no que te vaes metter. São despezas grandes, e nem tu tens direito para similhante coisa.

—Não sei de historias. O homem não quer tomar conta da casa emquanto não pagar as suas dividas; pôz-m'a ao meu cuidado e eu do que está ao meu cuidado cuido assim.

—Ih! Jesus, que homem este! Não faças as coisas no ar, Thomé.

—Qual no ar; prometti que hei de trabalhar para pôr aquella casa em cima, só para fazer uma pirraça ao fidalgo; e ainda que tenha de hypothecar todos os meus bens e de arriscar o futuro dos meus filhos, hei de fazêl-o.

—Mas, já fallaste com o snr. Jorge a esse respeito?

—Não, nem preciso.

—Pois devias fallar. É um rapaz ajuizado e que põe as coisas no seu logar.

—O que elle me vinha dizer sei eu, e por isso é que não desejo fallar-lhe, porque não quero que me tire isto da cabeça, nem quero brigar com elle. Mas os rapazes já estão á minha espera. Vamos lá. Dá cá as chaves, ouviste?

—Thomé, Thomé! Olha lá o que fazes! Eu não sei…

—Pois por isso; se não sabes, deixa-me cá. Basta-me a chave grande. Eu hoje não passo da quinta.

E pegando na chave que a mulher lhe deu a medo, o lavrador sahiu á frente dos tres criados, em direcção da Casa Mourisca.

Luiza, a cujo bom senso não agradava a resolução do marido, veio desabafar com a filha.

O que sobre tudo levava a mal a bondosa Luiza era o não haver o marido consultado Jorge. Para Luiza Jorge era um conselheiro infallivel. A sympathia que sempre lhe inspirára aquella criança, «que se não mettia com ninguem» como a boa mulher tantas vezes dizia, crescêra e misturára-se á admiração, ao respeito e á absoluta confiança, assim que o viu, adolescente, tomar aos hombros o pesado encargo da direcção e reforma da sua casa, e que ouviu os louvores em que o enthusiasmo de Thomé se desafogava, fallando d'elle. Luiza afez-se a suppôl-o um ente privilegiado, incapaz de errar, com faculdades creadas para levar ao fim qualquer empreza e realisar todas as suas tenções, por menos exequiveis que parecessem.

O dogma da infallibilidade de Jorge fôra por ella definido.

Transpirára além d'isso cá fóra o grande successo do dia do jantar na Casa Mourisca, e por ventura a versão mais seguida sahira colorida por aquellas tintas maravilhosas, com que o povo illumina as suas narrativas. O que é certo é que este facto acabou de divinisar Jorge no conceito de Luiza, e agora menos do que nunca ella estava disposta a perdoar ao marido o haver prescindido dos conselhos de um rapaz tão brioso e prudente.

Bertha escutou o arrazoado materno com ar pensativo e triste. Ouviu, sem a interromper, a longa exposição das excellentes qualidades do filho mais velho do fidalgo e os artigos de benevola accusação, acremente formulados contra Thomé por quem aliás menos do que ninguem estava disposta a condemnal-o.

De quando em quando a vista de Bertha erguia-se para o vulto escuro da Casa Mourisca, e parecia que o aspecto d'ella lhe augmentava a melancolia.

Luiza sahiu emfim da sala, chamada por as exigencias do serviço domestico.

Bertha ficou só. Reclinando a cabeça á mão e apoiada no peitoril da janella, conservou por muito tempo a immobilidade e a fixidez do olhar, que denunciava uma grande abstracção.

Em que pensaria Bertha?

Que nuvem cruzaria o seu firmamento, para assim lhe projectar sobre a fronte aquellas sombras de tristeza?

Operava-se uma revolução moral n'aquelle espirito. Bertha sahira criança da aldeia, levando entre as mais agradaveis memorias da infancia, a dos momentos passados na Casa Mourisca e a das pessoas a quem alli déra então os seus primeiros affectos.

Crescêra, e essas imagens modificaram-se pela influencia do amor na phantasia, pela influencia de solidão e dos devaneios de juventude; a de Beatriz, como que sanctificada pela morte, cercára-se de um resplendor angelico, claro e suave como os raios do luar em luminosas noites de estio; a de Jorge apparecia-lhe como a de um amigo leal e seguro, a quem se não confiam puerilidades do coração, mas de que se póde esperar auxilio e conselho nas provações da vida; a de Mauricio, porém, fôra a que a imaginação que despertava, colorira de mais seductores reflexos. O seu campeão da infancia assumira as fórmas nobres e prestigiosas dos heroes de todos os poemas de amor. Belleza propria de uma juventude varonil, coragem, generosidade, tudo quanto exalta e ennobrece a alma, a phantasia d'aquella rapariga, entregue a si, elaborando a sós sobre as memorias do passado, associára ao nome de Mauricio. Fôra isto que Bertha trouxera no coração para a sua aldeia. Era o seu romance. Tinha ella a razão bastante clara para não o tomar por outra coisa mais real do que um verdadeiro romance, e bastante poder de reflexão para não se deixar dominar por elle.

Percebendo que em Mauricio não estavam ainda extinctas tambem as memorias do passado, e que ainda os seus sentimentos presentes recebiam d'elle luz e calor, Bertha assustou-se, desconfiou de si, e mais do que nunca procurou precaver-se, fugindo á influencia de que se temia, mas cedendo a ella sem querer.

Seguiram-se porém as scenas que sabemos; e o iris que rodeava Mauricio aos olhos de Bertha, dissipou-se como um verdadeiro iris em tardes humidas de inverno.

O ideal de Bertha não era sómente bello, era generoso e impeccavel, e Mauricio não attingia tão alto. O instincto do coração denunciou a Bertha o segredo do caracter de Mauricio; não havia depravação n'elle, sómente leviandade e insconstancia; mas já era bastante para o desprestigiar. Nem leviano, nem inconstante era o Mauricio que sonhára. Pelo contrario, de dia para dia lhe apparecia mais na sua verdadeira luz o caracter de Jorge, d'esse rapaz honesto, generoso, grave, respeitado por todos. As suas qualidades moraes attrahiram emfim a attenção de Bertha, e muita vez, emquanto conversava com Thomé, absorvido em uns vastos e generosos projectos, ou quando seguia pensativo pelos irregulares caminhos dos campos, era elle, sem o suspeitar, o objecto da contemplação de Bertha, em quem só então parecia terem feito impressão a nobreza e intelligencia, que nos gestos, na physionomia e nas palavras d'aquelle adolescente se revelavam.

A scena do jantar na Casa Mourisca augmentou a intensidade d'estas nascentes impressões. Nem podia deixar de ser assim.

É natural suppôr que a imagem de Jorge, d'esse rapaz corajoso e leal, que perante uma desdenhosa companhia do fidalgo, se erguêra a reivindicar a boa fama da familia plebeia, perfidamente calumniada por um d'elles, occupasse o pensamento da que mais soffrêra da calumnia, e offuscasse a do outro, leviano e estouvado, que concorrêra para levantar o aleive.

Poderia deixar de insinuar-se em um coração aberto a sentimentos generosos, como era o de Bertha, esse rapaz de vinte annos, diante de quem os velhos se descobriam, cheios de respeito pelas suas nobres qualidades de alma e pela superioridade da sua intelligencia?

Uma outra causa influira porém, além d'estas, no espirito de Bertha e no mesmo sentido que ellas; ainda que á primeira vista se podésse julgar que diversa deveria ter sido a sua acção.

Esta causa fôra a frieza, a quasi hostilidade delicada com que Jorge a tractava. Bertha não se illudia. Via bem claro que Jorge lhe fallava sempre constrangido, e como se tivesse pressa de interromper um dialogo, que o impacientava. Ás vezes havia nas palavras que d'elle obtinha, um leve tom de ironia, que ella não sabia a que attribuisse. Este proceder de Jorge deu que pensar a Bertha. Formando um conceito elevado do são juizo e da seriedade do joven amigo de seu pae, convencia-se de que aquellas maneiras frias com que era tractada por elle, não podiam deixar de ter um fundamento. E este fundamento occulto procurava-o Bertha com ancia em si mesma, estudava profundamente o seu proprio caracter, na esperança de descobrir a solução d'este enigma que a affligia; e ao mesmo tempo estudava em Jorge o effeito dos esforços com que fazia por vencer aquella prevenção, qualquer que fosse.

Succedeu o que era natural que succedesse. Não é sem perigo que a imaginação de uma rapariga como Bertha se entrega ao estudo de um caracter de rapaz, como o de Jorge, que lucra sempre em ser estudado e conhecido. Á medida que caracteres como este melhor se observam, mais virtudes se lhes descobrem, ao inverso de outros, cujos vicios latentes vão a pouco e pouco transparecendo no decurso de uma attenta observação, e destruindo a impressão favoravel que ao principio produziram.

Bertha reconheceu um dia que não obrigára impunemente o espirito a pensar a todo o instante em Jorge.

Assustou-a a descoberta, mas o effeito já não podia evital-o. Inquieta com os novos sentimentos que lhe invadiam o coração e a levavam a estas vagas apprehensões, áquellas tristezas que tão frequentes lhe estavam sendo, não era outro o motivo da distracção com que escutára a mãe e da melancolia em que se deixou ficar á janella, depois que ella sahiu.

De repente estremeceu.

Jorge, que já não procurava occultar-se nas visitas que fazia a Thomé, e dava aos seus actos uma publicidade mais conforme com o seu caracter, acabára de entrar no pateo da Herdade, e desmontando-se, prendia o cavallo, em que viera, ao esteio da ramada.

Alguns criados que andavam por alli, occupados em diversos serviços de lavoura, descobriram-se ao vêl-o entrar. Jorge cortejou-os com affabilidade e passou a interrogal-os sobre promenores de trabalho em que elles se entretinham. Os homens davam-lhe as informações pedidas com os maiores signaes de deferencia.

Depois Jorge subiu lentamente as escadas que conduziam á sala onde estava Bertha. Ao vêl-o subir o primeiro degrau, ella tentou retirar-se; mas susteve-a uma inexplicavel hesitação, e quando Jorge abriu a porta, ainda a encontrou na sala.

O olhar de Jorge desviou-se de Bertha, como se contrariado com a sua presença.

—Vim talvez importunal-a? Perdoe. Ignorava que a acharia aqui—disse
Jorge com apparente placidez.

Bertha não estava menos constrangida, ao responder-lhe:

—Importunar-me? De maneira alguma…. Eu é que sinto que meu pae não esteja em casa, que é de certo quem o snr. Jorge procurava.

—Ah! seu pae não está em casa?

—Não; sahiu agora mesmo.

Bertha não ousou dizer para onde.

O nome da Casa Mourisca recordaria a scena do jantar, e Bertha tremia de recordal-a diante de Jorge.

Este caminhou para a janella, distrahidamente. E passeiando a vista por os campos, perguntou, sem ainda olhar para Bertha:

—Não sabe se o pae tardará muito?

—Eu… julgo que sim… Mas talvez minha mãe o possa informar melhor.

A proposito chegava Luiza para dar as informações precisas e para fazer cessar o constrangimento d'aquelle dialogo, cuja prolongação seria um martyrio para ambos.

—Ah! snr. Jorge, snr. Jorge—exclamou Luiza logo que o viu—ainda bem que veio, e pena é que não viesse meia hora mais cedo.

—Então era cá tão necessaria a minha presença?

—Ora se era! Eu ponho as mãos n'umas horas se estando cá o snr. Jorge, se mettia aquella scisma na cabeça do meu Thomé.

—Que scisma é essa de que falla?

—Pois então não sabe para o que havia de dar áquelle homem de Christo?

—Não sei, não.

—Ó Bertha, então tu não disseste ao snr. Jorge para onde teu pae foi?

—Eu… eu ignorava…

—Ora adeus! Se eu não tenho fallado de outra coisa, desde que elle sahiu! Ignorava! Vocês sempre teem coisas! Pois o meu Thomé está a estas horas na Casa Mourisca.

—A fazer o quê?

—Isso só elle sabe e Deus. Mal almoçou foi para lá com tres criados. Diz elle que já que o fidalgo teima em lhe pôr as chaves em casa e que todo se espinhou por elle lhe querer ser prestavel, vae fazer o bem que podér a sua familia, e melhorar a quinta e a Casa Mourisca, e que ainda que tenha de empenhar os seus teres e os dos filhos, se ha de vingar do fidalgo, fazendo-lhe todo o bem que estiver na sua mão. E tirem-lhe lá isso da cabeça!

—É uma alma generosa a de Thomé, mas eu o dissuadirei d'essa vingança, que viria transtornar os meus planos e tirar-me a gloria, a que aspiro, de trabalhar por minhas proprias mãos n'essa obra de restauração.

—Eu não o disse? «Thomé tu não faças nada sem fallares com o snr. Jorge.» Mas qual! Bem lhe importava elle com o que eu prégava! É um bom-serás o meu Thomé. Em vinte annos de casada, nunca me deu um desgosto. Póde haver maridos tão bons como elle, melhores não posso crêr que haja. Devo dizer o que é verdade. Mas, lá de quando em quando, em se lhe mettendo umas scismas na cabeça! adeus, minhas encommendas! já se lhe não dá volta. Só o snr. Jorge. Elle lá ao snr. Jorge ainda cede. E o que elle lhe não fizer escusam ahi de vir os poderes do mundo, que nada fazem. Lá o snr. Jorge! credo! Isso basta ouvil-o fallar em si. Ora, não é agora por estar presente, mas razão tem elle para fazer o que faz.

—Obrigado, snr.ª Luiza.

—Obrigado por quê? Ó filho, não, a minha bôca não é para gabar quem não o merece. Mas, diga-me cá, que rapaz ha ahi que faça o que o menino faz? Que na sua idade, em que emfim todos sabemos que o que se quer é brincar, olha como um homem por a sua casa, como nem muitos velhos sabem. E depois, ó snr. Jorge, sempre lhe digo que ainda ha bem poucos dias estes olhos choraram bastantes lagrimas por sua causa.

—Por minha causa?! Pois eu fil-a chorar, snr.ª Luiza?

—Oh! não foi por mal que me fizesse, foi porque emfim … ha certas acções, que bolem cá dentro com uma pessoa e… quando me contaram o que se passou em sua casa, com aquelles vadios de seus primos, e em que o menino…

—Oh! não fallemos n'isso, snr.ª Luiza, que não vale a pena.

—Se não vale!… Olhe que não fui eu só que chorei. E Bertha?

—Ah! sinto devéras ter sido motivo de um desgosto para Bertha—disse
Jorge no tom de que habitualmente usava fallando d'ella.

Bertha não pôde responder.

—Desgosto?—acudiu Luiza—Ora essa! Antes ella deve agradecer-lhe; e querem vêr que ainda o não fizeste, Bertha?

A confusão de Bertha augmentou com esta arguição da mãe.

Jorge atalhou:

—Eu é que me esqueci de pedir a Bertha perdão por haver dado ensejo, com os meus actos, a que o seu nome andasse por bôcas de pessoas a todos os respeitos indignas de pronuncial-o. Coisas minhas; ando tão alheio ao tracto do mundo, que a cada passo caio n'estas imprudencias, e sacrifico os outros, sem o querer. Bertha tem razão para estranhar este caracter bravio; mas espero que me perdoará.

Bertha ia a responder, mas era tal a sua commoção, augmentada pelo modo por que Jorge dissera estas palavras, que sentiu não lhe ser possivel formular uma resposta; os olhos inundaram-se-lhe de lagrimas e o rosto trahiu-a.

Levantando-se agitada, sahiu da sala em silencio, como se precisasse de estar só para desafogar em lagrimas a oppressão que a angustiava.

Luiza viu-a sahir e ficou admirada. Olhou para Jorge com estranheza, olhou para a porta, como se não soubesse explicar a scena a que assistira.

—Estas raparigas teem uns modos! Já viram uma coisa assim?!—murmurou ella, passada a primeira surpreza.—Queira perdoar, snr. Jorge.

Igualmente enleiado, Jorge procurou mudar o sentido da conversa, fallando outra vez de Thomé, em procura do qual sahiu poucos minutos depois.

Assim que o viu deixar a sala, Luiza ficou pensativa por algum tempo e no fim disse em voz alta, como era costume seu:

—Deixal-os. Se assim fosse, tanto melhor. Coisas mais incríveis se teem visto. Seja o que Deus quizer!

Ao passar no patamar das escadas que davam para o quinteiro, Jorge encontrou alli Bertha, que parecia esperal-o. Cortejando-a, procurou nos olhos d'ella o vestigio de lagrimas.

—Snr. Jorge—disse-lhe Bertha, com voz triste e levemente tremula—perdoe-me a minha perturbação de ha pouco. Fui obrigada a sahir da sala sem lhe dizer nem uma simples palavra de agradecimento por o muito que lhe devia; mas creia que não é porque o desconheça.

—O que me deve! Então quer que lhe repita o que já lá dentro lhe disse?
Eu sou que tenho a pedir perdão.

—Basta, snr. Jorge—atalhou Bertha, tentando sorrir, mas raiando-lhe o sorriso por entre mal contidas lagrimas, como o sol no meio da chuva do inverno.—Hoje não… mas… em outro dia… ha de dizer-me por que não é meu amigo.

Jorge estremeceu, e olhando para ella repetiu:

—Por que não sou seu amigo?! Que quer dizer, Bertha?

—Oh! creia que ha signaes, que não enganam. Seja o que fôr, mas no seu pensamento ha alguma coisa contra mim, snr. Jorge. É pouco dissimulado, bem vê, não o póde disfarçar.

—Bertha! mas que criancice! Pois que ha de haver contra si no meu pensamento?

—Não sei. Um dia m'o dirá; não é verdade? É muito leal e muito generoso para não m'o dizer. Bem vê que preciso sabêl-o para me emendar; porque… eu desejava que fosse meu amigo, snr. Jorge. Todos o respeitam, todos fallam na sua generosidade; espero que não a desmentirá commigo.

—Porém…—ia Jorge a objectar, quando Bertha o interrompeu, dizendo:

—Agora não, agora não. Lembre-se só de que eu fico acreditando que será sincero commigo, no dia em que eu o interrogar, e que de certo não se recusará então a fallar-me com franqueza. Adeus, snr. Jorge. Creia que desejava devéras que fosse tão meu amigo, como é de meu pae.

E retirou-se depois de pronunciar estas palavras.

Jorge desceu vagarosamente as escadas, montou distrahido o cavallo que o aguardava no quinteiro e deixou-lhe a redea livre, de maneira que o animal seguiu a passo o caminho da casa, que por tanto tempo lhe déra abrigo, o caminho da Casa Mourisca.

Desapercebidamente ia passando Jorge por todos os logares intermedios. As palavras de Bertha, animadas por aquella sentida commoção, que a dominava ao fallar-lhe, estavam-lhe ainda nos ouvidos, e nos olhos a imagem da gentil rapariga, em quem uma grave expressão de dôr mais realçava a belleza.

—E se voltar a interrogar-me—pensava Jorge—que posso eu dizer-lhe? que devo confessar-lhe? Nada. Pois que tenho eu contra ella? Pobre rapariga! Mas é certo que me parece que tenho sido um tanto rude, um tanto desabrido… E porquê?

Jorge parecia n'este momento estar sondando o fundo do seu proprio coração, para investigar a verdade. De repente fez um movimento com a cabeça, como tentando regeitar uma ideia pertinaz.

—Mas isto não póde ser, Senhor. Isto é uma loucura que não tem razão de existir. Pois não hei de ter força de a abafar á nascença? Acaso o sangue de minha idade tambem me ha de fazer doidejar como aos outros? Eu felizmente não possuo o temperamento de Mauricio e hei de vencer na lucta, hei de. Mas em todo o caso é uma puerilidade a maneira por que estou procedendo com Bertha. Porque é certo que o modo por que a tracto não é natural. É medo de me trahir? Mais me traio ainda por esta fórma. É despeito por as attenções que a vejo dar a outro?… a meu irmão?! Mas é uma vileza da minha parte… A meu irmão!… É verdade que se elle a amasse devéras… mas eu que o conheço… É uma loucura a final, é o que é. E fiem-se no juizo de um rapaz de vinte annos?! Ahi estou eu tão doido como qualquer d'esses estouvados. E o mais é que a mim é que se não perdoaria a loucura. A loucura em um rapaz de juizo é um delicto imperdoavel. Se soubessem por ahi… se descobrissem… «E quem havia de dizer! Ora vejam, um rapaz que parecia tão ajuizado!» É como elles principiam logo. Ai, tem pesadas responsabilidades o que na minha idade mereceu que lhe chamassem «um rapaz de juizo.» É preciso a cada momento suffocar a revolta do temperamento e da idade, luctar incessantemente com a imaginação… E hei de luctar! É forçoso que não deixe sahir cá de dentro os meus desvarios de rapaz. Doideje o coração á sua vontade, comtanto que só eu o saiba… Mas a meta é commigo e não com ella… Bertha tem razão em perguntar-me o motivo da minha hostilidade. A minha hostilidade! Ah que se ella tivesse um olhar mais penetrante… D'isso é que me receio… Não ha que vêr, hei de preoccupar tanto, tanto, tanto a minha cabeça com algarismos e negocios, que hei de por força perder a consciencia dos affectos, e é assim que hei de matal-os.

N'este momento vencia Jorge o declive que levava á porta principal da Casa Mourisca. O caminho desaffrontado n'aquella altura de arvores e de sebes altas subia á vista do casal de Thomé e permittia descobrir na encosta fronteira as veredas que para lá conduziam.

Jorge desviou naturalmente a vista para aquelle sitio.

Na varanda de entrada divisava-se ainda o vulto de Bertha, na mesma posição em que a deixára.

Alvoroçou-se o coração do rapaz com isso; ao mesmo tempo porém ia subindo na direcção da Herdade, um cavalleiro que elle reconheceu ser Mauricio.

Esta nova descoberta desagradou-lhe manifestamente. Purpurearam-se-lhe as faces por momentos, e a fronte contrahiu-se-lhe com uma expressão de desgosto. Pela primeira vez fustigou o cavallo, que até alli deixára entregue ao capricho.

Mauricio, que tambem da outra margem avistára o irmão, fez-lhe um acêno com a mão, ao qual Jorge respondeu apontando-lhe para a Casa Mourisca, como a designar-lhe o destino do seu passeio. Mauricio replicou-lhe com um movimento de braço, exprimindo que o seu giro era mais extenso e para o outro lado. E na direcção que seguia era inevitavel a passagem por casa de Thomé da Povoa.

—Por isso ella se demorou na varanda—murmurou Jorge com amargura—e proseguiu olhando para Mauricio:

—Aquelle póde ser louco á sua vontade; ninguem lh'o estranhará, ninguém lhe fará d'isso um crime. E a final talvez que de nós dois não seja elle o mais louco. A loucura é inseparavel do homem; umas vezes toma-lhe a cabeça e deixa-lhe em paz o coração, que nunca se empenha nos desvarios a que ella é arrastada; é o caso de Mauricio; outras vezes ha na cabeça a frieza da razão e ao coração desce a loucura para o perturbar com affectos; quer-me parecer que é o que succede commigo.

O cavallo parou espontaneamente á porta da Casa Mourisca e arrancou
Jorge á corrente de vagas cogitações em que lhe fluctuava o espirito.

—Vamos, Jorge—dizia elle a si mesmo, ao desmontar—já agora é necessario ser rapaz de juizo até ao fim. Tu não tens direito de condescender com a tua mocidade, homem. Ninguém te relevaria os ardores da juventude, porque todos te suppõem o sangue de gêlo.

E serenando outra vez a physionomia, até alli um pouco alterada sob a influencia de encontrados pensamentos, entrou para a quinta em procura de Thomé, que o precedêra ahi. Quando, depois de algumas pesquizas, Jorge, guiado por o som de vozes e por um ruido de sachos e de enxadas, conseguiu avistar o fazendeiro, não pôde reter um sorriso de estranheza e de sympathia, que o espectaculo que via lhe provocava.

E tão grato effeito parecia produzir-lhe esse espectaculo, que, sem ter querido interrompêl-o com a sua presença, continuou por algum tempo, observando-o.

Effectivamente para quem soubesse a verdadeira significação dos actos em que Thomé estava empenhado n'aquelle momento, não seria para estranhar o sorriso de Jorge, nem a sua expressão duplice de sympathia e de espanto.

Thomé não havia meditado no plano para a vingança que jurára contra o fidalgo. Anciava por principiar a pôl-a em pratica, e encetou-a sem methodo nem systema. Intimou os criados para que o acompanhassem, sem que tivesse ainda pensado no que lhes mandaria fazer.

Chegados que foram á quinta, fixou-se na primeira avenida á entrada e ahi principiou a azafama, arrancando as hervas inuteis, decepando os ramos mortos, varrendo as folhas cahidas, amparando os arbustos derrubados sobre o caminho, desassombrando as plantas affrontadas e á mingua de sol, enxugando e nivellando os passeios alagados, e desobstruindo os encanamentos de rega. A rua ficou que era um primor.

No momento em que Jorge o avistou, limpavam os criados o limo depositado em um tanque, emquanto Thomé, suando, tentava erguer sobre o pedestal a estatua de pedra de não sei que divindade pagã, que havia muitos annos repoisava em leito de malvas e ortigas, coberta de lichens esverdeados.

—É dia de festa por cá, á balburdia que estou vendo!—disse Jorge, adiantando-se emfim, e apparecendo aos olhos do fazendeiro, que se voltou precipitado ao ouvir-lhe a voz.—Quem visse dizia que passa por aqui procissão, em que nós somos mordomos.

Thomé, readquirindo a sua presença de espirito, respondeu:

—Procissão não digo, mas festa em que eu sou mordomo, ha de haver aqui, se Deus me der saude.

—Bem, visto que o Thomé é o juiz da festa, póde dispôr do seu tempo sem pedir licença a ninguem. Por isso ha de conceder-me um momento de conversa.

—Não, não, snr. Jorge, tenha paciencia; mas eu tenho grande empenho em dar andamento a isto.

—E eu absoluta necessidade de fallar-lhe.

—Ora valha-me Deus! E eu então que estou quasi a adivinhar o que me vae dizer!

—Talvez que não.

—O que lhe affirmo é que se me quer tirar da cabeça isto que se me metteu cá dentro, é tempo perdido.

—Não faça conjecturas anticipadas, Thomé. E sente-se primeiro.

—Pois vá lá. Vocês sigam por ahi adiante—disse o lavrador, voltando-se para os criados—e além n'aquella nora….

—Póde mandal-os embora, Thomé—atalhou Jorge.

—Embora? Adeus! É o que eu digo! Olhe que se é com o fim de me dissuadir que…

—Mande-os embora, que está a cahir meio-dia e pouco serviço podem fazer até lá. De tarde ou ámanhã continuarão, se o Thomé achar conveniente.

—Não, não, hei de achar. Emfim vão lá á sua vida, mas em sendo duas horas…

—Ora adeus; deixe as ordens para lh'as dar em casa, que tem tempo—atalhou pela segunda vez Jorge.

—Pois tenho, tenho, mas emfim… Ide lá com Deus.

E ficando só com o joven fidalgo, Thomé da Povoa cruzou os braços, e interrogou em tom de amigavel enfado:

—Aqui me tem. Então o que é que me quer?

Jorge enfiou o braço no d'elle e encaminhando-o para o tanque de pedra, limpo e esfregado de pouco pelos criados da Herdade, disse-lhe:

—Vamos sentar-nos alli, que o que eu tenho a dizer-lhe é serio e precisa de ser tractado com socego e descanço.

E sentando-se ambos na borda do tanque, voltados na direcção da Casa Mourisca, cuja fachada se descobria por entre uma das arvores, Jorge proseguiu:

—Agora que estamos sós, Thomé, vae dizer-me o que significa toda esta brincadeira.

Á palavra «brincadeira», o fazendeiro deu um salto.

—Eu não o disse?! Elle ahi vem com as suas reflexões! Por essa esperava eu. Mas não tem duvida, eu estou prompto para explicar-lhe a brincadeira. Se o snr. Jorge visse, como eu vi, olharem as minhas acções como insultos, não serviços, que bem sei que não os fiz, mas pelo menos bons desejos, como são os que tenho de lhe ser util e aos seus, tambem não havia de soffrer com tanta paciencia a injustiça, que não procurasse tirar desforra.