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Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia cover

Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia

Chapter 29: XXII
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About This Book

A obra acompanha uma família nobre provincial cujo imponente solar, popularmente apelidado em referência à presença moura, domina a aldeia; descreve a arquitectura melancólica do paço e o declínio económico provocado por dívidas, terras mal cultivadas e abandono; expõe tensões familiares e políticas, com um patriarca conservador e os laços partidos pela revolução, e a vida dos dois filhos jovens; intercala tradições locais — lendas de mouras encantadas, jogos de mouros e cristãos e rumores de tesouros enterrados — e pinta a paisagem social e sentimental da aldeia entre memória, orgulho e ruína.

E Thomé, levantando-se, pôz-se a passeiar agitado.

—Mas venha cá, Thomé, quem lhe diz que não tem razão em se offender e até em se vingar nobremente, como emprehendeu fazêl-o?

—Sim, mas então não chame brincadeira ao que faço—tornou o fazendeiro amuado.

—Chamo, por vêr que não realisa a sua vingança por essa fórma. O Thomé, se pensar a sangue frio, ha de ser o primeiro a concordar commigo. Ora diga, pois acha que a obra mais difficil de levar a effeito em nossa casa é a limpeza d'estas ruas e d'estes tanques? Acha que vale a pena principiar por aqui a exercer a sua actividade? Se um dia entrando em bom caminho a administração dos nossos bens, nos restituir, como espero, o pleno gozo d'elles, livre das demandas, dos onus e da usura que os definham, não lhe parece que os nossos criados farão em dois ou tres dias obra correspondente ao valor da sua vingança?

—Lá iremos. Da quinta subirei os degraus e entrarei em casa, que remoçarei do portal até aos telhados.

—E que é tudo isso para o muito que ainda haveria por fazer, e onde os seus auxilios poderiam ser-nos mais vantajosos? Não vale muito mais tudo o que já tem feito? O Thomé bem sabe que o nosso grande mal não está n'aquellas pedras cahidas, isso é apenas o symptoma da doença, que é preciso combater primeiro.

—Pois sim, mas…—titubeou o lavrador já abalado.

—Sabe o que consegue com isso, Thomé? consegue uma vingança apparente, que falla mais aos olhos, isso é verdade; mas não a vingança real, generosa e nobre, representada pelo seu empenho em auxiliar-me devéras na obra que emprehendi. Consegue contrastar as minhas ambições; sou eu quem mais soffro da sua vingança. Esta casa, como sabe, é apenas uma pequena parte da nossa propriedade, mas é a que, por assim dizer, a representa. O povo, emquanto não vir renovar aquellas ameias cahidas, aclarar aquellas paredes negras, restaurar aquella capella abandonada, nunca se persuadirá de que a nossa casa conseguiu escapar do naufragio em que esteve para perder-se. Quando eu tivesse assentado em bases solidas esta propriedade que encontrei vacillante, quando podésse desafogadamente chamar meu ao mesmo que meus avós chamaram d'elles, havia então de renovar esta velha habitação, que só então teria o direito de sorrir defronte da sua Herdade, Thomé, e d'essas alegres casas que ahi se estendem por a collina abaixo. N'esse dia ficaria o povo sabendo que eu tinha cumprido um dever e havia de respeitar-me por força. Mas o Thomé quer privar-me d'essa gloria. Vae fazer sorrir esse fiel confidente dos nossos infortunios, quando ainda o sorriso é uma mentira e uma ironia aos seus proprietarios. Depois, embora eu lucte e obre prodigios, e consiga vencer, o povo dirá: Os fidalgos da Casa Mourisca estão hoje melhor do que já estiveram. Houve um homem, o dono do casal alli defronte, que teve compaixão d'elles e lhes restaurou por esmola a casa que cahia em ruinas. Não fallarão nos seus outros valiosos serviços, que não os conhecem, nem apreciam; não fallarão d'aquelles de que me não envergonho, antes me orgulho de confessar. Fallarão apenas do unico que me humilha, do unico que tem effectivamente um caracter de esmola, do menos importante de todos, do que se realisaria com o rendimento da nossa menor tapada, depois de remidos. Agora veja lá, Thomé; se o seu intento é realmente o de humilhar-me, prosiga na sua obra, que eu prometto não a embaraçar com os meios legaes que não desconhece; mas se a sua vingança é, como supponho, mais nobre, rnais digna de si, se ousa a fazer-nos bem, apesar do orgulho que lh'o rejeita, sem se lhe importar que um bem seja apparente para que os outros nos vejam humilhados, então deixo ao seu juizo resolver se este é o melhor caminho que tem a seguir.

Thomé da Povoa ouviu tudo isto com os olhos no chão, apertando o labio inferior entre o polex e o index e balanceando lentamente com o corpo.

Depois que Jorge acabou de fallar, permaneceu assim ainda por algum tempo, e acabou por dizer:

—Bem; visto isso desisto. Engulirei os meus protestos, conforme podér. Não digo que não tem razão, acho até que a tem. Quando me resolvi a isto, pensava só no fidalgo, não pensava no snr. Jorge… Agora vejo que fui muito apressado. Muito bem, farei por me resignar. Lá me custa, mas…

—Não lhe peço que desista da sua vingança. Quero tambem que um dia a verdade obrigue meu pae a reconhecer que a nobreza não está só nos pergaminhos e que a alliança com um homem honrado honra sempre quem a contrahe.

Thomé já tinha lagrimas nos olhos, ao apertar a mão a Jorge.

—Peco-lhe até que continue o seu auxilio, sem o qual eu nada faria, e até vou indicar-lhe um genero de serviços, que espero dever-lhe.

—Falle, falle, snr. Jorge, o que o senhor de mim não conseguir, ninguem consegue.

—Ha muito que eu desejo ir ao Porto. A especie de exilio, a que meu pae me condemnou, facilita-me agora essa empreza. Queria conversar directamente com os nossos advogados na demanda do Casal do Reguengo. Parece-me que ha circumstancias de valor que no processo não se tem feito sentir devidamente. Depois aquelle documento que lhe mostrei não me sahe da ideia. Emfim, póde ser uma illusão minha, mas tenho com tanto afinco estudado a questão, que me parece que vejo claro n'ella. E como sabe, Thomé, se ella se nos resolvesse favoravelmente era meia victoria ganha.

—Isso era.

—Portanto quando o Thomé podér dispôr de si, desejava que me acompanhasse á cidade, para me apresentar aos juizes e letrados, que conhece. Depois, tenho ainda outro fim em vista; desenredadas estas teias que me embaraçam, preciso de um grande capital para encorporar á terra, para tirar d'ella os recursos, que d'outra maneira não póde dar. A sua generosidade e os seus sacrificios não podem ir tão longe; graças a elles, já a usura me deixa respirar mais livremente; e já a equidade substituiu o dolo de muitos dos contractos de nossa casa. Mais tarde a escala do emprestimo tem de subir forçosamente para realisar em grande os aperfeiçoamentos agricolas que em pequeno vou ensaiando. O capital particular não me bastará para esse intento. Lembrei-me da nova companhia de Credito Predial, que se installou agora no paiz. Preciso pois informar-me dos negocios attinentes a estas operações e da regularidade de alguns titulos que possuimos. Póde auxiliar-me no que lhe peço?

—Amanhã partiremos, se quizer.

—Pois seja amanhã. E não acha que encaminho melhor a sua vingança por este lado, Thomé?

—Acho que quem tem o juizo do snr. Jorge póde muito bem passar sem o auxilio de pessoa alguma. Mas emfim cá estou ás ordens.

Passada meia hora, entrou Thomé em casa e participou á mulher que ia no dia seguinte ao Porto, na companhia de Jorge, e que talvez ahi se demorassem alguns dias.

Luiza ficou comprehendendo que os projectos de restauração da Casa Mourisca haviam sido pelo menos adiados, e com isto cresceu n'ella a admiração pelo caracter de Jorge.

Mas Luiza tinha durante aquella manhã recebido impressões, que não se atrevia a revelar totalmente ao marido, mas que a não deixavam estar socegada, emquanto não transpirassem em vagas insinuações.

Estavam á janella os dois esposos, conversando placidamente de Jorge e de D. Luiz, e da proxima jornada á cidade, quando Luiza, depois de uma pausa na conversa, disse ex-abrupto para o marido:

—Ó Thomé, e que dirias tu, se um dia a tua filha morasse n'aquella casa?

E, ao dizer isto, designava com a cabeça a Casa Mourisca.

Thomé olhou para a mulher, como se aquellas palavras lhe fizessem duvidar da firmeza do juizo d'ella.

—Que queres tu dizer com isso?

—Ora! isto de rapazes e raparigas… quando se vêem a miudo…

Thomé córou, exclamando com mau modo:

—Tu estás doida, Luiza?

—Ora adeus! Quem sabe lá?

—Ó mulher, não queiras que eu perca a confiança que sempre tive no teu bom juizo.

—Eu não digo… mas emfim…

—Ora adeus, adeus!—atalhou Thomé, quasi agastado—ha certas coisas que nem a brincar se dizem.

—Pois que mal havia?…

—Mau! Ó Luiza, peço-te por favor que te não ponhas com essas graças.
Ora para o que te havia de dar!

—Então, porquê?…

—Ora, porque não. Ha certas lembranças que até me envergonho de pensar n'ellas.

Luiza, em vista da repugnancia do marido, não ousou insistir. Mas a pobre mulher, com as ambições de mãe, já não podia deixar de olhar a Casa Mourisca e imaginar o effeito que produziria a sua Bertha em uma das balaustradas ou das ogivas d'aquelle antigo edificio.

XXI

Jorge apenas a Gabriella deu parte do seu projecto de jornada.

No dia seguinte partiu effectivamente para o Porto na companhia de Thomé da Povoa.

D. Luiz, ainda firme no proposito de não querer vêr o filho, nem ouvir fallar d'elle, nada soube d'esta excursão.

Mauricio estranhou a ausencia do irmão; mas, desde que a baroneza lh'a explicou, dizendo-lhe a verdade, não pensou mais em tal.

O padre, quando soube que Jorge tinha ido ao Porto, cidade que, no conceito do egresso, era um fóco de corrupção, e onde mais risco havia para a juventude de infeccionar-se com a peste da maçonaria e outros males correlativos, abanou tres vezes a cabeça, em signal de mau prognostico; mas não ousou fallar das suas apprehensões ao fidalgo, porque andava desconfiado, havia algum tempo, com os humores em que o via.

De facto D. Luiz, depois de algumas das sevéras palavras que ouvira a Thomé da Povoa, não podia vencer um tal ou qual resentimento contra o padre, cuja imprevidente gerencia tinha talvez concorrido para o estado precario da sua casa e as humilhações que soffria.

Apenas attenuava este resentimento a ideia fatalista de que a decadencia das casas nobres era inevitavel, e que baldado era tentar reagir.

Para elle o padre não podia ser mais que o instrumento cego da sua desgraça irrevogavelmente decretada.

Toda a energia moral de D. Luiz exercia-se pois em encarar com rosto firme a adversidade, e cahir sem perder na quéda a fidalga compostura do porte.

D'estas successivas impressões que recebêra nos ultimos tempos resultava para o animo, já de indole irritavel de D. Luiz, uma impaciencia, uma quasi permanente exaltação nervosa, que augmentava á medida que se lhe depauperavam as forças e o vigor corporeo. Quem melhor sabia agora lidar com elle era a baroneza. O instincto feminino é o mais proprio para descobrir o lado accessivel d'estes caracteres azedados e para movêl-os sem os magoar.

Frei Januario, que percebia isto, afastava-se cada vez mais do quarto do fidalgo e cada vez mais se aproximava da dispensa e da cozinha.

Em casa de Thomé proseguiam os trabalhos agricolas sob a activa vigilancia de Luiza, que, na ausencia do marido, tomava a seu cargo aquella provincia do governo domestico.

Bertha olhava então pelos irmãos e pelo arranjo da casa.

Havia porém alguns dias que uma ideia fixa não deixava tranquillo o espirito de Bertha.

Quando, ao cahir da tarde, os ultimos raios do sol parecia encandecerem as vidraças da Casa Mourisca, e á sua luz se tingiam de um leve doirado as frondes dos carvalhos seculares da quinta, ainda não despidos pelo outomno, apoderava-se de Bertha uma saudade intima, profunda, que lhe desafiava as lagrimas. Toda a infancia era evocada então. Resurgiam-lhe as recordações dos jogos, dos risos, das alegrias que havia gozado n'aquelles sitios onde os olhares se lhe fixavam com insistencia, e a pouco e pouco cresceu n'ella um natural e vehemente desejo de visital-os, de tornar a vêr de perto aquellas arvores, fontes e salas, cada uma das quaes lhe guardava uma memoria do passado.

As chaves d'esse como relicario das suas mais gratas recordações, tinha-as ao alcance da mão; a distancia não era grande, as tardes corriam amenas e no campo ninguem estranharia a uma rapariga um passeio d'aquelles.

A ideia ganhou vulto e Bertha resolveu realisal-a.

Tomou a chave que abria uma das pequenas portas da quinta, e uma tarde sahiu e dirigiu-se lentamente à Casa Mourisca. Em pouco tempo chegou á ponte que reunia as duas margens do ribeiro do valle. Ao transpol-a, porém, reteve-a um vago rumor que soava nos ares. Eram as surdas detonações de uma trovoada longinqua.

Bertha olhou em roda um tanto inquieta.

O colorido do céo e o dos campos era bello, mas pouco tranquillisador.

O firmamento estava esplendidamente pintado, não com o azul uniforme dos dias serenos, mas com as variadas tintas que recebia da influencia electrica de uma tempestade imminente. Grandes nuvens isoladas illuminavam-se, ao sol poente, de reflexos doirados. O campo, em que ellas se desenhavam, ostentava todas as gradações do azul, desde o anil carregado até um quasi verde esvaecido que interrompiam leves e longos stractus tingidos de roixo e violeta. Ao nascente, no seio de um denso cumulo de vapores amarellados, desenhava-se vagamente o magestoso iris. O verde das arvores e dos prados recebia d'esta luz uma cambiante mais viva. Principiava a soprar a viração quente e rasteira, que levantava em redemoinhos as folhas cahidas no chão.

Tudo annunciava uma tempestade proxima.

Bertha não ousou ir mais adiante.

A visinhança da noite e da tempestade obrigou-a a retroceder.

N'este momento porém entrava na ponte um cavalleiro, que assim que avistou a filha do Thomé, desmontou com ligeireza e dirigiu-se para ella a pé.

Era Mauricio.

Bem desejaria Bertha evital-o, mas já não o podia fazer sem uma affectação mais indiscreta do que a propria entrevista.

Em poucos momentos Mauricio estava a seu lado.

—Até que finalmente a encontro, Bertha. Quasi me tinha chegado a convencer de que uma fatalidade ou um proposito nos separava. Ha tanto tempo que não conseguia vêl-a!

—E procurava-me, snr. Maurício?

—Todos os dias o tenho feito.

—O mais natural era procurar-me em casa; ahi é que passo a maior parte do meu tempo, auxiliando minha mãe, que bem precisa de quem a ajude.

—Em casa? E seria eu bem recebido lá?

—Já alguma vez meu pae deixaria de receber, como merecem ser recebidos, os filhos do snr. D. Luiz?

—Como merecem—ahi é que está a dificuldade. E se a consciencia me dissesse que eu não merecia esse bom acolhimento?

—Muito grandes deviam ser as suas culpas, para que meu pae se esquecesse da amizade que lhes deve, a si e aos seus, snr. Mauricio. Creio bem que a consciencia não lhe diz isso.

—Não, Bertha. Eu julgo-me com imparcialidade. Sei o que ha de reprehensivel no meu proceder inconsiderado; ainda que nada me peza na consciencia, emquanto ás minhas intenções.

—É o essencial.

—Não é para os outros. Por os actos me julgam e esses ás vezes condemnam-me.

—Nem todos os seus actos hão de ser maus. Os bons desfarão os effeitos dos outros—tornou-lhe Bertha, sorrindo.

—Succederá isso comsigo, Bertha? Não estarei ainda condemnado no seu conceito?

—Se principio por ignorar as culpas de que é accusado!

Maurício calou-se por algum tempo, como concentrando alentos para mais difficil resolução, e rompeu depois com maior vivacidade:

—Pois bem; escute-me e julgue depois; condemne ou absolva, conforme a consciencia lh'o dictar. Não lhe vou fazer uma geral confissão da minha vida, apenas dos ultimos tempos d'ella. As acções boas ou más, os actos irreflectidos, a que me impelle este temperamento estranho com que nasci, tenho-os ultimamente executado sob o influxo de uma paixão forte, irresistivel, que nasceu e assoberbou rapidamente todo o meu coração, Bertha, desde que a vi, quando voltou de Lisboa. Com a franqueza propria do meu caracter, com a lealdade que lhe devo, Bertha, confesso-lhe que a amo. Deve têl-o percebido. Eu não sei dissimular. É este amor que me perturba, que me faz ser injusto, desconfiado, louco, que me arrasta a extremos, d'onde não volto sem remorsos.

—Devia pois fazer por destruil-o, vendo a maligna natureza que tem—respondeu Bertha, sorrindo.

—Não zombe, Bertha.

—Não zombo, pois não diz que o arrasta a acções que lhe causam remorsos?

—Mas é por esta incerteza em que estou. Assegure-me porém, Bertha, de que o seu coração é ainda o que em outro tempo conheci…

—Snr. Maurício—tornou-lhe Bertha, d'esta vez sem a menor inflexão de gracejo—seria faltar á amizade que lhe devo, se o deixasse continuar. Quero suppôr que não zomba de mim ao fallar-me d'essa maneira; quero convencer-me de que é sincero, ou de que julga sêl-o, pelo menos, n'essa declaração que me faz, e vou responder-lhe como se assim fosse. Peco-lhe que faça por esquecer isso que diz sentir por mim e que não póde ter futuro.

—Para me dar esse conselho, para ter direito de dar-m'o, é necessario que me faça uma confissão, é necessario que me diga: Eu não posso amal-o.

—Direi: Eu não posso amal-o, snr. Mauricio.

—E será sincera no que diz? Veja bem. Interrogue sómente o coração. Não a amedrontem as difficuldades e as resistencias que possam offerecer-nos. Eu as vencerei, arrostarei eu só com todas.

—Eu disse: eu não posso amal-o, e não: eu não devo amal-o, como n'esse caso diria.

—E porque não póde? Que ha na sua alma contra mim, Bertha, que nem as recordações da infancia me valem? E comtudo eu tinha n'esse tempo adquirido direitos á sua affeição.

—Que valor que dá aos brinquedos da infancia!

—É porque em mim a juventude do coração principiou cêdo. Eu já então sabia amar.

—Mau é que não ache differenca entre o amor de que é capaz agora e o de então; é pois claro que ama como uma criança.

—Com a ingenuidade d'ellas.

—E com a inconstancia tambem.

—Bertha, não me falle assim. Nas suas palavras sinto um tom de duvida que me afflige. Responda-me: porque é que não póde amar-me? Ha já no seu coração outro amor?

Bertha córou e não foi superior a certa confusão, que se esforçou por vencer, dizendo:

—Ainda que não haja, não é isso motivo para o abrir ao primeiro que appareça. Com toda a sinceridade da minha alma lhe fallo, snr. Mauricio. Creia que para todas as pessoas que teem o nome da sua familia ha no meu coração muito respeito, muita estima e muita gratidão. De todos estes sentimentos se póde dar razão. Mas o amor não é assim. Ninguem sabe porque ama ou porque não póde amar. Julgo eu. É uma coisa que se sente, mas que se não explica. Pois não concorda? E agora peço-lhe que me não acompanhe mais longe. Repare que a tempestade está para breve. Espero, snr. Mauricio, que será sempre nosso amigo.

E dizendo isto, estendia-lhe a mão, que Mauricio apertou silenciosamente.

E separaram-se, seguindo direcções oppostas.

Mauricio murmurava:

—E comtudo creio que me amas. Não é essa frieza que me ha de illudir.

Pela sua parte, pensava Bertha:

—D'aqui não vem perigo para o meu coração. Acabei de convencer-me agora. Basta vêr a tranquillidade que sinto. Assim podésse dizer o mesmo do outro.

Mas a Casa Mourisca continuava a attrahil-a. De noite á claridade vaga do luar, ás tardes quando os ultimos e desmaiados raios do sol lhe tremiam na fachada ennegrecida, de madrugada, no meio das neblinas do rio, que phantasticamente o envolviam, a todo o momento emfim, as encantadas memorias da infancia de Bertha adejavam sobre o deserto solar, e as saudades, evocadas por ella, como que se lhe levantavam do coração a encontral-as.

Ás mesmas horas da tarde, repetiu Bertha no dia seguinte ao do seu encontro com Mauricio, a tentativa para visitar o solitario palacio. D'esta vez passou além da ponte, subiu a ladeira da collina opposta, e chegou a tocar com a mão na porta da quinta. Faltou-lhe porém ainda a resolução para a abrir e entrar. Apoderou-se d'ella uma especie de pavor sagrado no momento de penetrar alli. Parecia imporem-lhe respeito aquellas arvores seculares, aquellas heras vigorosas que forravam os muros da quinta e o silencio que pairava n'aquella habitação abandonada. As sombras melancolicas da tarde cresciam, e Bertha retirou-se no fim de alguns momentos, quasi tomada de entranhado terror.

No dia seguinte voltou ainda á Casa Mourisca. Armára-se, ao partir, de maior resolução. Promettêra a si propria não hesitar um só momento ao abrir a porta, para não dar tempo a possuir-se da mesma fraqueza.

Assim fez; ao chegar á porta pequena da quinta, introduziu resolutamente a chave e abriu-a. Estava emfim dentro dos muros da Casa Mourisca. Cobria-a o denso tolde de ramos entrelaçados dos carvalhos, dos freixos e dos cedros, estalavam-lhe sob os pés as folhas crestadas, de que os ventos do outomno haviam alastrado o chão; prendiam-se-lhe aos vestidos as silvas espinhosas, que cresciam á vontade de mistura com os fetos e as ortigas; á sua chegada houve um subito rumor de aves esvoaçando surprendidas, e de reptís escondendo-se por entre a folhagem sêca do chão. O bosque tinha um aspecto de braveza selvagem, adquirida durante longos annos de independencia de cultura. Era esplendida a anarchia d'aquella vegetação.

Bertha parou affectada de inexplicavel susto.

Tudo recahiu em silencio; apenas se ouvia um leve ramalhar das arvores, denunciando a passagem d'uma briza ligeira, a quéda de algum ramo sêco desprendendo-se da arvore, o pio timido de algum passaro escondido, e, um pouco mais distante, o rumor monotono e confuso das fontes e cascatas.

Dissipadas as primeiras impressões, o sagrado terror que infunde no espirito o aspecto de um bosque secular áquella adiantada hora da tarde, Bertha aventurou alguns passos e pôde percorrer os sitios da quinta que lhe eram mais conhecidos.

Quem póde referir as saudades que lhe pullulavam do coração, ao voltar, depois de tantos annos decorridos, áquelles logares saudosos?

Quem não tenha ainda experimentado na vida sensações d'aquellas, nunca chorou as mais sentidas e ao mesmo tempo as mais consoladoras lagrimas que os olhos podem verter.

Voltar com os pensamentos da juventude ou da virilidade, com a experiencia adquirida no tracto do mundo, com a memoria dos dolorosos embates soffridos no meio das luctas da vida, e a impressão das paixões gravada fundo na alma; voltar assim ao logar dos nossos jogos de infancia, dos nossos risos e chóros pueris, uns e outros tão sem razão nem vestigios, olharmo-nos outra vez, depois de longa ausencia, em frente dos objectos que nos assistiram aos brinquedos, e que parece saudarem-nos ainda como se nos vissem crianças, sentirmos em um momento dissipar-se-nos da memoria todos os tempos intermedios e como que resuscitarem as ideias, os gestos, os pensamentos d'aquella época, como se apenas tivessem adormecido para acordarem mais vivos, é uma das mais violentas e ao mesmo tempo mais gratas commocões que póde experimentar uma alma humana; e a que não ceder e se não abrandar sob essa influencia é uma alma perdida para os affectos e para a regeneração.

Poderia a de Bertha estar n'este caso, a d'ella, alma sensivel e amoravel, para a qual o passado era objecto de um fervoroso culto? Poderia olhar sem lagrimas para aquelles logares onde lia como que pagina por pagina a sua vida de então?

Chorou, chorou sentada no banco musgoso, junto de uma fonte, onde ella e Beatriz tantas vezes vinham sentar-se, e onde Jorge e Mauricio corriam a ter com ellas, logo que terminavam as suas horas de estudo.

Era tarde quando voltou a si o pensamento d'aquella digressão pelo passado. Não tinha já tempo d'esta vez de visitar a Casa Mourisca. Procurou de novo a porta da quinta, por onde entrára, e sahiu com saudades d'aquelles logares.

No momento em que Bertha se afastava, dois caçadores, que desciam una pinhal visinho, d'onde se descobria a entrada da Casa Mourisca, viram-n'a e reconheceram-n'a.

—Ó Chico, olha lá, aquella não é a Bertha do Thomé?—disse um d'elles para o outro.

—Nem póde ser outra coisa.

—Só! a estas horas… e próximo da Casa Mourisca! Que quer dizer isto?

—É que vem de lá.

—Mas… a casa não está vazia?

—Tanto melhor. Se lá estivesse o velho, a coisa mudava de figura.

—Mas, falla serio, ó Chico, que conjecturas tu de toda esta historia?

—Que ou o Mauricio ou o Jorge fazem tambem as suas visitas á capoeira.

—O Mauricio foi hoje para a caçada dos Monteiros do Rio-baixo, e o
Jorge, segundo ouvi dizer, está no Porto.

Quod probandum—redarguiu o outro, recorrendo ás suas reminiscencias escolasticas; e, como se receiasse que o companheiro o não comprehendesse, traduziu:

—Isso é o que resta provar.

—Foi o mesmo Mauricio que o disse.

—E tu a dares muita importancia ao que diz o Mauricio! Então não sabes que se o Jorge lhe disser que está Papa, o toleirão é capaz de lhe beijar o pé?

—Mas lá em casa, pelos modos, todos o fazem no Porto.

—Pois ahi é que está a finura. E se elle, pilhando fóra do ninho a rapoza velha, se veio alli estabelecer muito á sua vontade?

—Se eu o acreditasse….

—Que farias?

—Era bem feito dar-lhe uma assaltada.

—Já me lembrou isso, mas é melhor outra coisa. Vigiamos isto a vêr quando a pequena cá volta, temos o Mauricio debaixo de mão e trazemol-o então comnosco. O caso deve ser interessante!

—Apoiado!

—Emquanto a mim, ninguem me tira de que aquelle velhaco do Jorge anda a comer-nos a todos com os seus ares de sancto. Vou ainda jurar que as taes visitas a casa do Thomé levavam agua no bico. Se agora o pilhavamos!

—Era soberbo! Mas o Mauricio anda esquisito comnosco, depois da historia do jantar.

—Deixa que eu o amansarei; era bom que elle estivesse um pouco picado n'esse dia; tudo se arranja, deixa estar.

E os dois caçadores seguiram, combinando e commentando o plano que tinham traçado.

O leitor, que já os conheceu pelos primos do Cruzeiro, fica sabendo que estes esperançosos jovens proseguiam nos seus habitos de vida fidalga, em cata e preparação de escandalos, e cada vez mais implacaveis contra Jorge, cuja desdenhosa frieza para com elles ha muito tempo os irritava, antes mesmo que o acontecimento do dia do jantar viesse augmentar essa irritação.

XXII

A impaciencia de D. Luiz tocára o extremo. Em vão procurava apparentar resignação e conformidade á sua nova vida nos Bacellos. Os laços que o prendiam ás velhas paredes da Casa Mourisca eram mais fortes do que julgára, ao separar-se d'ellas. Estava-o sentindo pelo mal-estar que experimentava agora.

Todos os objectos da antiga residencia, que tão precipitadamente abandonára, pareciam occupar um logar no seu coração; e o vasio em que o deixaram era terrivel para uma velhice já sem esperanças.

A corrente d'aquella vida, ainda que turvada pelas paixões, seguia desde muitos annos regular e silenciosa pelo alveo e margens invariaveis. De repente, porém, como succede ás aguas de subito constrangidas a mudar de leito, perdeu a serenidade melancolica, a calmante monotonia, tão salutar a um espirito atribulado; e atravez de novas perspectivas e de novas scenas precipitava-se inquieta e turva.

Recrudesceram violentamente as torturas d'aquella alma exagitada, como despertam as dôres d'um membro enfermo ao arrancar-se da quietação e repouso em que adormeceram.

Em certa idade as diversões não distrahem, affligem. Vive-se do passado, e para que o pensamento o retracte, é mister que o remanso lhe dê a limpidez do lago tranquillo.

Só o orgulho e o pundonor de fidalgo é que impediam D. Luiz de voltar de novo aos lares abandonados.

Esta disposição de espirito era insustentavel.

Uma manhã viram-n'o, mais nervoso de que nunca, medir a passos largos o comprimento da maior sala do solar dos Bacellos, parando ás vezes junto das janellas a olhar abstracto, atravez dos caixilhos das vidraças, para as franças das arvores mais distantes que d'alli se descobriam, entre as quaes avultavam as do parque da Casa Mourisca. De subito interrompeu uma d'estas mudas contemplações, manifestando que lhe apparelhassem o cavallo para de tarde.

O procurador, a quem fôra dada a ordem, perguntou timidamente se s. exc.ª sahia a cavallo.

Com o sêco laconismo de que, havia certo tempo, usava nas respostas ao padre, o fidalgo limitou-se a dizer:

—Parece que sim.

O padre tocou a campainha a chamar por um criado, a quem transmittiu a ordem recebida, acrescentando a de que fosse avisado o escudeiro para acompanhar s. exc.ª.

D. Luiz acudiu com vivacidade:

—Quem lhe disse isso? Eu não preciso de acompanhamento. Que me tenham apparelhado o cavallo para de tarde.

—Então v. exc.ª sahe só?!—perguntou o padre, em quem esta quebra de pragmatica causava grande confusão.

—Vou—respondeu D. Luiz, continuando o seu passeio na sala.

O padre sahiu d'alli estupefacto para a cozinha, onde foi assistir á ultima demão de uma empada, e n'esse exame conseguiu felizmente desvanecer a violencia da impressão, que a ordem do fidalgo lhe havia produzido.

Effectivamente, pouco depois do jantar, ao qual Mauricio não assistira, D. Luiz montou a cavallo, e cortejando garbosamente a baroneza, que veio despedir-se d'elle á janella, partiu a meio trote pelos caminhos dos campos.

Era um ultimo lampejo da sua elegancia passada.

Na maneira por que dirigia o eavallo não se notava, porém, a indecisão propria de quem vae ao acaso. Percebia-se que o fidalgo havia marcado destino áquelle passeio.

Tomou por atalhos de montes, evitando o centro da povoação rural, rodeou quasi toda a freguezia, e, seguindo pelas raias das contiguas e por desvios ermos de casas e de cultura, por chapadas maninhas e pinhaes, onde apenas se entrevia a choça do guardador, foi dar ao extremo opposto da aldeia, nas proximidades da Casa Mourisca.

E quanto mais perto se achava do abandonado solar, mais crescia o cuidado que o cavalleiro parecia ter em não ser observado e em dirigir por veredas pouco frequentadas a sua cautelosa carreira.

Entrou por fim em uma bouça pertencente á casa, collocada, porém, fóra dos muros da quinta e separada d'elles por uma especie de valia, que servia de caminho publico.

D'alli avistavam-se as arvores, os telhados, as torres, e as mais elevadas janellas da Casa Mourisca.

D. Luiz fez parar o eavallo e fixou melancolicamente os olhos no velho solar onde nascêra e onde apprehendia não poder morrer, como haviam morrido os seus avós.

Ia adiantada a tarde, e á luz desmaiada do sol, que declinava, crescia a tristeza do velho. Os olhos tinham um fulgor que denunciava lagrimas.

Era solemnemente triste aquelle quadro. A nobre figura do ancião, assim immovel, extatico, no ermo alpestre de um pinhal, a que os ventos da tarde arrancavam um gemer monotono e triste, com os olhos fitos nas ameias do seu palacio acastellado, d'onde as paixões o expulsaram, com o rosto illuminado pelos tremulos raios do sol, que desenhava distinctamente o rendilhado da rama dos carvalhos longinquos, atraz dos quaes se escondia, era uma personificação vigorosa do desalento e da saudade sob o colorido de desesperança que a velhice lhe dava.

A immobilidade do cavalleiro contrastava com a impaciencia do fogoso animal, que escarvava insoffrido o solo, sem que podésse satisfazer a ancia do movimento que o devorava. De subito o cavalleiro fez um movimento, como de quem adopta uma resolução, a que por muito tempo repugnára.

Pôz-se de novo a caminho, seguindo sempre a direcção do muro da quinta, e sem abandonar o pinhal.

Pouco adiante encontrou as ruinas de uma antiga casa de guarda, já quasi destelhada, e em cujo recinto cresciam á vontade as giestas e as tojeiras, por entre os montões de telha e de caliça cahida, e onde encontravam tranquillo abrigo reptís de toda a especie.

D. Luiz levou para alli o cavallo, que prendeu ao varão oxydado e torcido de um caixilho de janella, e sahiu outra vez, continuando a rodear a quinta.

Havia um logar onde o muro era parte derrubado e facilitava extremamente o ingresso. Sabiam-n'o bem uns certos rondadores noctivagos, que tantas vezes por alli effectuavam as suas explorações depredatorias no mal vigiado terreno da Casa Mourisca.

Foi por o mesmo caminho d'esses visitadores suspeitos, que o proprietario d'aquelle nobre solar ahi entrou furtivamente, e córando do passo a que a violencia de uma entranhada saudade o impellia.

Dentro em pouco achava-se na quinta.

Caminhou inteiramente agitado pelas ruas solitarias, atravessou as devezas, onde áquella hora não penetrava um só raio de sol, e sem vacillar seguiu na direcção da casa. Ao chegar ao pateo, viu aberta uma pequena porta por onde habitualmente se fazia o serviço do palacio.

Occorreu-lhe-só então que poderia estar alguem lá dentro, áquella hora.

Se se encontrasse alli com Thomé, como conseguiria arrostar com a vergonha de ser por elle descoberto n'aquella visita furtiva? Ia a recuar, mas o impulso interior a obrigal-o a progredir era mais forte. Venceu. Aproximou-se cautelosamente da porta e ficou-se a escutar por alguns instantes. No interior havia o mais completo silencio. Não se divisavam vestigios que denunciassem presença de alguem estranho. D. Luiz deu a medo alguns passos no limiar, subiu os primeiros degraus da escada, hesitando e escutando a cada passo que dava e a cada degrau que subia.

Sempre o mesmo silencio.

Pensou então o fidalgo que bem poderia ser que na precipitação da sahida tivesse ficado aberta aquella porta; e animado por esta hypothese adiantou-se mais resoluto.

Havia nas largas escadas uma luz froixa e quasi mysteriosa; esta luz e aquelle silencio eram dos que infundem no animo um sentimento quasi de pavor.

N'esses corredores e escadas vazias e obscuras, elle, o senhor e proprietario do solar, movendo-se, com o receio de ser descoberto! Que situação a sua! Que humilhadora situação para o seu orgulho!

As correntes de ar sibillavam melancolicamente ao enfiarem-se pelas fechaduras das portas e frestas, que deitavam para a escadaria; os passos do fidalgo tinham sob aquellas abobadas uma resonancia estranha.

Eram sem numero os objectos que lhe recordavam os amargos momentos da sua alvoroçada sahida da Casa Mourisca; caixões vazios, sacos, bocêtas, papeis de empacotar, tudo jazia ainda em confusão nos corredores, como, na pressa dos preparativos, frei Januario os deixara. Signaes eram estes que parecia indicarem que desde aquelle dia ainda ninguem entrára na Casa Mourisca.

Mais seguro já na persuasão de que não seria surprendido n'esta clandestina visita, D. Luiz subiu sem o menor receio as escadas que levavam ao Sancta Sanctorum das suas affeições, á torre onde haviam sido os aposentos de Beatriz, aonde ella tinha vivido e expirado. Era esta a peregrinação que emprehendêra aquelle desconfortado velho; para alli era que as suas intensas saudades o chamavam. Tinha já subido mais de meio lanço da escadaria, quando subitamente estremeceu, parando a escutar um mal distincto som que lhe chegára aos ouvidos. Correu-lhe no rosto uma pallidez mortal e a fronte principiou a cobrir-se-lhe de um suor, como de agonia.

A turbação que sentia, foi tão intensa, que teve de apoiar-se á parede para não cahir.

Eram os sons longinquos de um instrumento de musica, que partiam do logar para onde elle se dirigia. Vagos, confusos ainda, mas melodiosos como de harpa que, pendurada dos ramos dos carvalhos, vibra ao perpassar das brizas da tarde.

Na triste solidão d'aquella casa abandonada, á hora mysteriosa do escurecer do dia, aquelles sons resoando pelos longos corredores e pela vastidão das salas desertas, tinham de facto não sei quê de sobrenatural; dir-se-ia musica de fadas em um d'esses paços encantados, que ergue no meio das florestas a imaginação popular.

Mas não era sómente o inesperado e a estranheza do facto que feriam de espanto o senhor da Casa Mourisca. Aquelles sons exerciam sobre elle outra e superior influencia.

Conhecia-os; não eram vozes estranhas aos ouvidos do ancião ralado de saudades, e que se achava alli attrahido por ellas.

Conhecia-os; em outras épocas tinham já resoado entre aquellas tristes paredes e sob os altos tectos dos aposentos hoje deshabitados. N'esses tempos, havia alli dentro corações que pulsavam de sympathia ao escutal-os. Eram o signal de que o anjo da familia velava; de que a meiga criança, sobre cuja cabeça se condensavam todos os castos affectos d'aquella alma de homem, praticava com os anjos, seus irmãos, na mysteriosa linguagem da musica.

Aquelles sons… podia elle desconhecêl-os?… eram os da harpa de
Beatriz.

Mas que mysterio revelavam elles agora? Que magia os faria renascer, quando, havia tanto, cahira gelada a mão que os desferia?

As sombras dos mortos teriam vindo povoar a casa abandonada pelos vivos? A alma querida de Beatriz viera por ventura chorar e lamentar-se da solidão em que os seus haviam deixado os logares que ainda conservavam tão vivas as memorias d'ella?

Quem póde analysar o confuso turbilhão de ideias que atravessou n'aquelle momento o espirito do fidalgo?

Piedosas crenças da infancia, superstições que a razão subjugara, chimericos productos d'um cerebro febril, tudo se levantou em enxame alvoroçado e revolto a obscurecer a intelligencia do ancião, que tremia sob um inexplicavel terror.

—É uma allucinação—pensava elle, esforçando-se por dominar aquella fraqueza—é uma quasi loucura produzida por esta ideia fixa, que nunca me abandona.

E continuava a subir com passos ainda mal seguros as escadas da torre.

Mas os sons, que elle julgava effeito dos sentidos allucinados, longe de se desvanecerem, cada vez se ouviam mais distinctos. Sem duvida alguma partiam dos aposentos de Beatriz.

Estava terrivelmente pallido o fidalgo. A vista vagueava-lhe com a mobilidade que produz o delirio. Ha situações na vida em que a razão mais segura vacilla e sente-se vergar sob a influição das mais supersticiosas crenças.

D. Luiz n'aquelle momento acreditava sinceramente na realidade das apparições.

A distancia permittia-lhe já distinguir a melodia que executava a harpa. Tambem lhe era conhecida; era a de uma canção predilecta de Beatriz, uma musica cheia de recordações para o pobre pae. O presente desapparecia n'aquelle momento; o passado resurgia com toda a luz, que desde muito se lhe apagára na carreira da vida. Chegára quasi á porta do quarto d'onde partiam os sons. Restava entrar… Mas o que o esperava alli? Talvez se desvanecesse o encanto e a vazia realidade o aguardasse para o punir!

A razão de D. Luiz não podia formar juízos sobre o que se estava passando. A mão tremula, que se estendeu para abrir a porta do quarto mysterioso, pendeu desfalecida, e o velho permanecia immovel no patamar, subjugado pela força d'aquelle encantamento.

N'este tempo juntára-se aos sons da harpa a voz de uma mulher; baixinho, quasi a medo, como a ave a ensaiar o canto ao renascer da estação, cantava a letra da mesma canção que Beatriz preferia. Era um timbre juvenil, sonoro, agradavel, o d'aquella voz, e na meia altura a que se elevava, havia um não sei quê de mystico e sobrenatural, que veio completar a allucinação do velho.

—Meu Deus! meu Deus! tende misericordia de mim!—murmurava elle, passando a mão na fronte pallida.—Se isto é um sonho, deixae-me morrer a sonhal-o!

E vergaram-se-lhe os joelhos diante d'aquella porta mysteriosa, e, soluçando e rebentando-lhe emfim impetuosas as lagrimas dos olhos, cahiu dizendo em uma desvairada exclamação:

—Ó minha filha! minha filha! Se és tu que assim me arrebatas d'este mundo, tem compaixão de teu velho pae, e não partas sem que lhe appareças um instante que seja!

Calaram-se de subito os sons da harpa e da voz feminina. E, pouco depois, a porta abria-se e Bertha apparecia no limiar.

Ao vêr o fidalgo de joelhos, com a cabeça escondida entre as mãos e soluçando, a filha de Thomé da Povoa correu para elle commovida:

—O snr. D. Luiz! O meu padrinho! Ó perdão, perdão!—exclamava ella.

E o susto que a voz do velho lhe havia causado, ao interromper-lhe inesperadamente o canto, cedeu o passo á mais sentida afflicção.

Á voz de Bertha, D. Luiz ergueu a cabeça e fitou a afilhada com um olhar espantado e interrogador.

As lagrimas desciam-lhe ainda a duas e duas pelas faces emmagrecidas.

—Perdão, perdão, meu bom padrinho—proseguia Bertha, tentando erguêl-o—fiz mal, bem o vejo, bem o sinto agora… mas havia tanto tempo que eu desejava visitar estes sitios! mas não chore, snr. D. Luiz, por amor de Deus perdoe-me!

O fidalgo, quasi ainda alheio ao que se passava, deixou-se erguer e conduzir por Bertha para dentro do quarto, e sentou-se, sem consciencia dos seus actos, na cadeira junto da harpa, cujas ultimas notas parecia ainda vibrarem no espaço.

A commoção violenta quebrára-lhe as forças.

Os braços e a fronte pendiam-lhe em um desfallecimento profundo.

Bertha ajoelhou-se-lhe aos pés, tomando-me as mãos, beijando-as, e cobrindo-as de lagrimas.

—Se eu imaginasse que podia causar-lhe esta pena, não teria vindo. Foi uma loucura minha; agora é que vejo; mas trazia isto na ideia havia tantos dias!… Só hoje me atrevi a subir aqui… Se soubesse como chorei ao tornar a vêr este quarto e estes objectos, que todos conhecia. Todos! Oh não se afflija, snr. D. Luiz, e perdoe-me, perdoe-me por quem é, perdoe-me por amor d'ella. Fiz mal, bem conheço, mas, como tambem lhe queria muito… Depois, assim que vi esta harpa… Ó meu Deus, que saudades! Como me lembrei d'ella, da musica que tantas vezes lhe ouvi, da canção que ella preferia… Quiz avivar essas recordações e… Mal sabia eu o que estava fazendo! Como era cruel sem o suspeitar! Quem me ha de perdoar o mal que lhe fiz? Imagino o que soffreu, o que está soffrendo ainda… E ser eu quem lhe avivou essas feridas!… Não me queira mal por isso. Foi a saudade que me trouxe até aqui, a saudade d'aquelle anjo que eu conheci no mundo. Por amor d'elle lhe peço que me perdoe a dôr que lhe causei.

E a voz de Bertha tremia ao fallar assim. D. Luiz não a interrompêra, porque a agitação era ainda n'elle muito forte para o deixar fallar.

Poisando porém as mãos na cabeça de Bertha e afastando-lhe os cabellos da fronte com um gesto de paternal carinho, fitou-a com os olhos ainda ennevoados de lagrimas e disse-lhe, suspendendo-se a cada palavra, em lucta com a commoção que o suffocava:

—De que me pedes perdão, Bertha? D'estas lagrimas? Oh! deixa-as correr, que ha muito não chóro lagrimas que me dêem um allivio assim. Eu sou que te digo: Obrigado, Bertha, obrigado, que me fizeste entrever a felicidade que o céo me póde ainda dar; n'estes curtos instantes da minha illusão luziram-me uns lampejos de alegria celeste. Tu só podias resuscitar-me a filha e eu quasi a senti ao ouvir-te, ao escutar essa abençoada musica e a voz, que julguei que só me chegaria outra vez aos ouvidos, se um dia me fosse dado escutar a dos anjos no céo. Agradecido, Bertha. A este meu coração são mais conhecidas as dôres que o despedaçam e queimam, do que estas que o desafogam em lagrimas. Agradecido, filha.

E o severo fidalgo da Casa Mourisca, sensibilisado, sem o menor vestigio da sua habitual rigidez, aproximou dos labios a fronte de Bertha e beijou-a com a doce affabilidade de um pae.

Bertha beijava-lhe as mãos, chorando com elle.

Por muito tempo assim se entenderam mudos aquelle velho e aquella rapariga, trazidos alli por uma mesma saudade, consagrando lagrimas a uma mesma recordação. D. Luiz estava cada vez mais fascinado. Nem por a ideia lhe corria que fosse a filha de Thomé da Povoa, quem tinha na sua presença, e quem abençoára e beijara.

Era a companheira de Beatriz, a encarregada pela alma d'aquelle anjo de conservar no mundo a sua memoria, de avivar as sympathias que ella inspirára na alma dos que a choravam ainda, e que a choral-a morreriam.

As mãos de Bertha não tinham profanado a harpa de Beatriz, tocando-a; nem ultrajára a sua memoria a voz que cantava a ballada favorita da infeliz menina.

D. Luiz cedia á influencia d'aquelle brando caracter feminino, e adorava em Bertha a imagem da filha que perdêra.

Ambos se esqueciam do presente, fallando d'ella. D. Luiz mostrou a Bertha todos os objectos, que haviam pertencido á filha e que elle alli conservava ainda como reliquias sagradas.

A poucos olhos os revelaria assim, como fazia aos de Bertha. Mas a quem conservava tão bem a memoria de Beatriz não era sacrilegio o devassal-os.

—Ai, Bertha, Bertha, para que me quiz mostrar Deus aquella alma na vida, se havia assim de roubar-m'a?—exclamava D. Luiz no decurso d'este melancolico exame.

—Para lhe dar um anjo que o veja do céo e vele pelo destino d'esta familia, que ella tanto estremecia na terra.

—O destino d'esta familia!—repetiu o fidalgo, assombrando-se-lhe o semblante.—Triste destino!

—Confio nas orações d'aquelle anjo.

—Quando uma familia cumpre no mundo uma dolorosa expiação, nem as orações dos anjos podem allivial-a d'ella. Deus afastou do mundo a innocente e fraca, para me deixar só a mim o pêso do meu infortunio e o das longas culpas dos nossos. Elle bem sabia que emquanto a tivesse ao meu lado para arrimo, nem sentiria o castigo. Aceito a sentença de Deus, procurarei cumpril-a com firmeza, e oxalá que meus filhos, recebendo o sinistro legado, não desfalleçam como covardes.

—Não pense n'essas coisas, meu padrinho. Tenho fé que ainda voltarão dias felizes para esta casa.

—Sim; quando a comprar em hasta publica qualquer proprietario endinheirado, que faça depois resoar por estas salas os sons dos bailes e dos festins. A casa verá então dias alegres, verá. E quem se lembrará dos velhos senhores d'ella, cujos descendentes talvez aceitem um logar de conviva á mesa do novo proprietario? Porque vamos para uma época de faceis condescendencias.

Bertha calou-se, baixando os olhos, porque pressentia perigos na direcção que levava a conversa.

D. Luiz tinha delicadeza para comprehender a discrição de Bertha, e mudando de tom, continuou:

—Mas perdoa-me, Bertha, estas ideias tristes da velhice não são para a tua idade. É uma crueldade da minha parte não guardar para mim estes pensamentos.

—Se eu podésse desvanecel-os!

O fidalgo limitou-se a fazer um gesto de negação.

N'este momento ouviu-se nas escadas um rumor de passos e de vozes, que a ambos fez estremecer.

—É teu pae, Bertha?—perguntou D. Luiz, erguendo-se e olhando em redor com inquietação.

—Meu pae não está na terra. Ha tres dias que partiu e não o esperamos ainda hoje—respondeu Bertha, sobresaltada tambem.

Calaram-se como para melhor escutarem o rumor que parecia já mais proximo.

Ouviu-se uma voz dizer:

—Vejamos comtudo d'este lado; a torre póde muito bem servir para pombal.

D. Luiz estremeceu ao som d'aquella voz.

Outra respondeu em tom mais baixo:

—Parece-me que entrevejo uma porta aberta. De vagar, de vagar.

—Animo, Mauricio; olha se deixas perder as vantagens da tua bella posição.

—Mauricio!—exclamaram ao mesmo tempo D. Luiz e Bertha, e uma intensa pallidez cobriu o rosto d'esta.

D. Luiz desviou para ella um olhar, em que havia um fulgor de desconfiança.

—Ouviste?

Bertha fez-lhe signal affirmativo.

—Sabes o que significa isto?

—Não—respondeu Bertha com firmeza, levantando a vista para o fidalgo que a observava.

Na firmeza e limpidez d'aquelles meigos olhos, que não fugiam dos seus, elle conheceu a verdade da resposta.

—Não, juro-lhe que não—repetiu Bertha com energia.

—Bem—tornou o velho, carregando o sobrolho e apertando a mão de Bertha em signal de protecção—esperemos então.

Os que subiam estavam já na proximidade da porta.

D. Luiz recuou alguns passos e ficou occulto pelo cortinado do leito da filha; Bertha permaneceu immovel com a mão apoiada á harpa.

Depois de alguns instantes de demora, a porta moveu-se vagarosamente sobre os gonzos, e no vão deixou apparecer a figura de Mauricio, e mais atraz, meio encobertos pelas sombras do corredor, os dois malignos semblantes dos manos do Cruzeiro.

Mauricio trazia o olhar desvairado e certa desordem de feições denunciadoras da orgia, com que os primos traiçoeiramente o tinham preparado para o escandalo que meditavam.

Ao reparar em Bertha, Mauricio fitou-a com uma expressão de quasi cynica ironia.

—Boas tardes, Bertha—disse elle, curvando-se com gesto de escarneo—não sei se a minha presença interrompeu alguma doce meditação, que esta luz amortecida da tarde lhe estivesse inspirando. Mas tão longe estava de esperar encontral-a aqui!

Bertha tremia e baixava os olhos sem atinar o que dissesse. A consciencia de que o fidalgo estava escutando Mauricio não era o menor motivo para a sua confusão. Se se achasse só encontraria coragem para arrostar com o insulto. No olhar, nas palavras, no gesto de Mauricio percebêra o desarranjo de razão em que elle estava. Temia pois mais por elle do que por si.

Mauricio proseguiu:

—Julgavamos encontrar outra pessoa n'esta velha casa abandonada, porque vimos um cavallo guardado furtivamente, ahi perto, em uns pardieiros arruinados. Isto indicava a presença do cavalleiro. Saber-me-ha dar noticias d'elle, Bertha?

Bertha não respondeu.

—Então não falla! Parece perturbada. É inexplicavel a sua confusão diante de mim, Bertha. Conhecidos ha tanto tempo! companheiros de infancia!… Não se lembra de que brincamos n'esta sala eu, minha irmã, Bertha e… e Jorge?

Um dos primos tossiu ao ouvir o ultimo nome.

Mauricio voltou-se:

—Que é? Que reflexões vos despertou este nome? Parece que tambem Bertha não o ouve a sangue frio.

Bertha tremia cada vez mais.

—Aqui ha um mysterio. Bertha está dominada por alguma influencia má. Desconheço-a. Dar-se-ha que o mau espirito se occulte de nós, tres bons rapazes inoffensivos, que respeitam todas as entrevistas secretas, todas as doces affeições da alma, e que só querem que se seja franco e leal com elles nas palavras e nas obras, e se ponha de parte a falsa moralidade dos hypocritas?

Depois, deixando o tom de sarcasmo pelo da vehemencia, bradou:

—Se alguém me ouve e ainda tem uns restos de brio e de vergonha, que se não esconda, que appareça. É tempo de acabar a comedia. Appareça, ou eu prometto tentar a sua covardia, obrigando-o pela honra a acudir á mulher que furtivamente corteja, se a quizer livrar do galanteio que ella desdenhosamente rejeita.

Estavam mal acabadas estas palavras e D. Luiz achava-se já em frente do filho, fitando-o em silencio e com um olhar de severa e expressa interrogação.

Mauricio recuou, como se aquella apparição o ferisse em pleno peito. Os do Cruzeiro envolveram-se a mais e mais nas sombras dos corredores.

Seguiram-se alguns momentos de silencio; D. Luiz foi o primeiro a interrompêl-o.

—Aqui estou prompto para responder ao interrogatorio de meu filho e d'esses senhores que se escondem… por modestia na sombra do corredor. Interroguem.

—Meu pae…—balbuciou Maurício, baixando os olhos.

—Então deu n'isso a bravata da atrevida provocação que me fez apparecer? E os senhores não serão mais ousados? Muito bem; se é a consciencia que os abaixa ao logar de reus, eu tomo o meu logar de juiz. Que significa toda esta scena de orgia? Que infamia, que vileza os fez subir estas escadas e empurrar aquella porta? Julguei perceber que se tractava de insultar uma senhora. Boa diversão para fidalgos!

E voltando-se para Mauricio, proseguiu:

—D'antes aquelles que traziam o nome de que usas, baixavam cortezmente os olhos diante das damas e erguiam-n'os para cruzar a vista de homem, quem quer que elle fosse, que procurasse a sua. Tu hoje deshonras esse nome, fazendo o contrario. És insultante e provocador com a fraqueza, e baixas a vista ignobilmente sob o peso da tua covardia. Envergonho-me de te ter por filho.

—Senhor!

—Basta. Não quero augmentar a minha vergonha, devassando o intimo das tuas intenções vindo aqui, em companhia dos teus camaradas das devassas orgias. Bertha, bem vê. Quando movida por um sentimento generoso, subiu os degraus d'estas escadas no intento de se entreter com a alma de Beatriz, que melhor do que ninguem conheceu, confiava de mais na boa fé dos outros, julgando-a pela sua. Devia lembrar-se de que n'esta casa em ruinas, d'onde voou para o céo aquelle anjo, crearam-se os hospedes das ruinas, os reptis e as viboras, que se arrastam até aqui para a ferirem com o insulto e com a calumnia, aqui mesmo, n'este logar que devia ser sagrado para meus filhos, se a fatal influencia que pesa sobre esta familia não tivesse já apagado n'elles todos os instinctos de dignidade e de nobreza. Deus, porém, trouxe-me aqui para protegêl-a do insulto e espero que apesar de tremulo, ainda o meu braço lhe servirá de seguro apoio. Talvez que a depravação n'estes homens perdidos não tenha chegado ainda ao ponto de ousarem ameaçar-me; uns restos de respeito filial lhe servirão de salvaguarda.

E D. Luiz, dando o braço a Bertha, que machinalmente lhe obedecia, sahiu do aposento com a cabeça erguida e o gesto severo.

Mauricio e os primos do Cruzeiro afastaram-se timidamente para os deixar passar.

Mauricio deixou-se cahir em uma cadeira e escondeu o rosto entre as mãos, exclamando:

—Eu sou um miseravel!

Os primos olharam-se com o gesto comico de dois collegiaes encontrados em flagrante delicto de insubordinação.

XXIII

No dia seguinte pela manhã, D. Luiz mandou pedir á baroneza authorisação para fazer-lhe uma visita, reclamada por motivos urgentes.

Gabriella respondeu que o ficava aguardando com impaciencia.

E não foi por mero comprimento que o disse; os negocios d'aquella familia achavam-se em um estado tal, que era de esperar de momento para momento uma crise importante, e o menor successo podia provocal-a.

Gabriella sabia-o e aguardava-a.

Meia hora depois entrou D. Luiz sombrio e grave no gabinete da sobrinha.

Esta acolheu-o com a maior deferencia, procurando lêr-lhe no semblante o pensamento que o trouxera alli, mas empregando no exame toda a dissimulação.

—Para que se incommodou, tio Luiz? Se quizesse ter a bondade de esperar eu iria receber as suas ordens.

—Ergui-me cedo. E ergui-me sem ter dormido. Por isso fui tão matinal.

—Meu Deus! achou-se então incommodado?

—De espirito, muito; muito.

E D. Luiz passou a mão pela fronte, suspirando.

—E posso proporcionar-lhe algum allivio, meu tio?—perguntou Gabriella, conduzindo-o para um sofá, onde se sentou ao lado d'elle, olhando-o com ar de interrogação e de interesse.

—Gabriella, a sorte de minha familia está jogada. É uma família perdida—rompeu vehementemente o fidalgo.

—Não diga isso, tio Luiz.

—Digo-o e sinto-o—continuou elle mais exaltado.—Quando uma casa como a nossa, que não póde já conservar o antigo esplendor e o estado que em melhores tempos sustentou, não sabe de mais a mais manter o prestigio que teve por as praticas tradicionaes de nobreza, por acções de fidalguia, emfim por estes actos de superioridade que fazem dobrar a cabeça aos mais insolentes e intimidar a vista dos invejosos, quando uma casa chegue a um tal estado de decadencia, nenhum apoio solido tem a sustental-a e em pouco tempo cahirá em ruina total. A minha está perdida!

—Seus filhos…

D. Luiz estremeceu de irritação a estas palavras.

—Meus filhos! Que me quer dizer d'elles? D'elles me queixo eu. Jorge fez-me córar pela pouca dignidade dos seus sentimentos; Mauricio pela vileza dos seus actos.

—Mauricio?! Sancto Deus! Pois que succedeu mais?

D. Luiz, ainda tremulo de indignação, contou á baroneza a scena da vespera. A cólera do velho contra o filho era violenta e contrastava com a brandura e quasi respeito que o dominava ao fallar de Bertha.

A baroneza ia notando estes phenomenos todos.

Assim que D. Luiz concluiu, Gabrieila, encolhendo os hombros, formulou a emenda:

—Loucuras de rapaz.

—Loucuras! Loucuras de rapaz! Que diz, Gabrieila? Nem tudo se póde permittir ou desculpar ao verdor dos annos. E quando nas acções de um rapaz se nota, já não apenas o estouvamento e a inconsideração que é propria dos annos, mas os signaes de uma profunda depravação moral, esse rapaz, aos vinte annos, tem já a alma corrompida.

—Mas o que vê mais do que estouvamento nos actos de Mauricio?

—Que ia elle fazer embriagado, e na companhia de devassos, á Casa
Mourisca?

—Saiba então, meu tio, que o primo Mauricio tem o fraco de se julgar apaixonado por todas as raparigas bonitas que vê. É o seu defeito. Portanto julga-se tambem apaixonado por Bertha, que me dizem ser gentil. Parece porém que não tem sido feliz por esse lado. D'ahi os seus desafogos. Depois os planos de Jorge, mal interpretados, e as malevolas instigações d'aquellas sanctas creaturas dos nossos primos do Cruzeiro fizeram-lhe já por mais de uma vez vêr no irmão innocente um rival preferido, e ahi está. Acrescentando a isto a influencia do estado anormal em que diz que elle hontem se achava, tudo se explica. Loucuras de uma cabeça estouvada; que por o coração fico eu.

—Perde-se, perde-se—insistia D. Luiz.—Não respeitar os sentimentos mais puros! nem pelo menos lhe merecer respeito aquella pobre rapariga, que tem as mais sanctas tradições de nossa familia a protegêl-a! Nem ella! É uma infamia!

—Sabe o que tudo isto está pedindo, meu tio?

—O que é?

—É que se tire Mauricio d'aqui. Esta ociosidade perde-o. Este viver apertado no pequeno circulo da aldeia ha de acabar por suffocar n'elle as melhores aptidões e desenvolver-lhe as más. Creia. O tio deve vencer os seus escrupulos em deixar Mauricio partir.

—Lembrei-me já d'isso. E n'esse intuito a procurei. Mas pense bem, Gabriella. Engolfal-o na grande sociedade, onde os vicios e as tentações se conspiram para embriagar e seduzir a juventude, e elle em quem germinam já tão maus instinctos…

—Tem dotes de alma que lá se desenvolverão e neutralisarão os vicios e as tentações.

D. Luiz curvou a cabeça pensativo. Os seus preconceitos politicos eram muito vivazes, não cediam sem resistencia.

—Para que me deu o Senhor filhos!—exclamou elle, revoltando-se contra a sua perplexidade, e acrescentou:

—Mas a final que carreira póde elle seguir?

—Não fixemos d'antemão planos. Em geral os acontecimentos annullam-n'os. Decida-se a partida. Eu o recommendarei de maneira que elle proprio possa dentro em pouco escolher a carreira que lhe convenha.

—Mas, se tiver de ceder…

—Meu tio, permitta-me uma reflexão. Se quizermos prevenir todos os fortuitos inconvenientes de uma resolução qualquer, antes de a tomarmos, nehuma abraçaremos. Deixemos as objecções e os reparos para o momento apropriado. Quer que Mauricio parta?

—Se elle ha de perturbar a paz d'essa família e obrigar-me mais uma vez a humilhar-me diante d'ella… Porque meus filhos teem tido a rara habilidade de deixar a humilhação por o unico expediente ao meu pundonor! Collocaram a razão e a justiça da parte dos meus inimigos, forçoso era, para poder ter a cabeça erguida, curval-a primeiro e implorar perdão.

Gabrieila fingiu não attender á primeira parte das reflexões do tio.

—Muito bem. Vou fallar ao Mauricio. Tudo se ha de decidir em pouco tempo. Tenha fé em que se não perde uma familia, cujos futuros representantes teem, um o caracter honrado e a razão clara de Jorge, outro os bons instinctos e as brilhantes qualidades de Mauricio. Pelo contrario, creio que ella está destinada a dar um salutar exemplo áquelles, cuja estrella tambem declina, ensinando-lhes a unica maneira de continuar, nos tempos que correm, as nobres tradições dos seus antepassados.

—E qual é essa maneira unica?—interrogou o fidalgo, quasi ironico, como se já esperasse a resposta.

—Entrar nobremente no caminho da actividade e do trabalho; distinguir-se ahi, como se distinguiram outr'ora nas guerras de Africa e nas navegações os que tinham o mesmo nome para ennobrecer. Ser ocioso, por não poder ser guerreiro, é fraco titulo para a veneração dos contemporaneos. Cada seculo tem a sua tarefa, meu tio; a de hoje não se cumpre ás lançadas, nem ás cutiladas. O bom senso do tio Luiz ha de dar-me razão. Sabe além d'isso muito bem o que se faz lá por fóra, o que se faz na Inglaterra, por exemplo, onde tambem ha nobreza e orgulhos nobiliarchicos, como por cá, e mais talvez ainda.

—Bem vê que não desprezei a educação de meus filhos, nem impedi que Jorge trabalhasse, quando me pediu para o fazer. Pelo contrario, n'esse dia julguei receber uma lição d'aquella criança, e cheguei a córar dos meus setenta annos de incuria e de ociosidade. A minha velhice achou-se menos veneranda do que aquella juventude. Mas repare, Gabriella, que disse: entrar nobremente no caminho do trabalho. E nobremente não é andar a estender a mão á esmola dos antigos servos da nossa casa.

—Não houve esmola. Foi um honrado contracto aquelle, feito entre dois homens igualmente honrados. Se faltaram n'elle todas as seguranças do costume, tanto melhor; foi porque ambos se conheciam e confiavam um no outro. As garantias mais poderosas são a final essas. Contractos d'estes só se dão entre homens de bem. Olhe, tio Luiz, longe de mim discutir agora o proceder de Jorge; mas, se quer que lhe diga, tenho a intima convicção de que ahi dentro, bem no fundo da sua consciencia, não se conserva já grande resentirnento contra seu filho mais velho. Ha forçosamente uma voz interior que lhe clama que Jorge é um nobre e generoso caracter.