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Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia cover

Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia

Chapter 32: XXVI
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About This Book

A obra acompanha uma família nobre provincial cujo imponente solar, popularmente apelidado em referência à presença moura, domina a aldeia; descreve a arquitectura melancólica do paço e o declínio económico provocado por dívidas, terras mal cultivadas e abandono; expõe tensões familiares e políticas, com um patriarca conservador e os laços partidos pela revolução, e a vida dos dois filhos jovens; intercala tradições locais — lendas de mouras encantadas, jogos de mouros e cristãos e rumores de tesouros enterrados — e pinta a paisagem social e sentimental da aldeia entre memória, orgulho e ruína.

—Não disse ainda que Jorge fosse vil e infame. Mas diz bem, Gabriella, não discutamos agora isto. Peço-lhe então que decida Mauricio a sahir para evitar novas imprudencias e indignidades; não tanto por nós, como por essa boa rapariga, que é digna devéras de toda a sympathia. Que parta e que não me appareça.

E D. Luiz sahiu do quarto, repetindo esta ultima recommendação.

A baroneza ficou pensando:

—Decididamente é preciso pôr Mauricio d'aqui para fóra. Este caracter em uma cidade grande é uma coisa insignificante; a agitação que causa perdia-se na grande agitação d'aquelle mundo. Aqui é um terrível elemento de desordem e talvez de sérias catastrophes. Agora quem me agrada mais e muito mais é o tio Luiz. Sim, senhores. Acho-o menos bravo, apesar dos seus furores. Como elle fallava da filha do Thomé! Do Thomé, que é a final a pedra de escandalo d'isto tudo! Quem o domaria a este ponto? A rapariga, ao que parece, tem condão para se insinuar. O tio Luiz tem um grande fraco por ella, conhece-se. Já o que o padre me contou de quando foi a historia de entrega das chaves, e agora esta entrevista… Preciso de conhecer Bertha; está dito. É uma influencia que é bom cultivar. Digam o que quizerem; não ha nada melhor para amansar um velho bravio como este. É vêr a falta que fez aquella pobre Beatriz. Ao pé de um velho quer-se sempre uma rapariga para não os deixar azedar e tomar estes ares selvagens e opiniões avinagradas, que o tio Luiz já ia adquirindo. Nada; o padre procurador o mais distante d'elle possivel, que prégue a outros os seus soporiferos sermões sobre o direito divino e sobre a corrupção da época; no logar d'elle colloquemos Bertha, e quero saber se o leão não ha de amansar. Agora vamos lá vêr Mauricio. Para fallar a verdade, ainda não sei bem o que se ha de fazer d'elle; mas em todo o caso, mandemol-o para Lisboa, porque nos está causando muito embaraço aqui.

E Gabriella dirigiu-se para a sala do almoço, onde Mauricio todas as manhãs a precedia.

Encontrou-o na varanda, que deitava para uma ribanceira, como absorvido na contemplação do abundante jorro de agua que d'alli se despenhava por entre fetos vigorosos, cuja rama encobria o fundo do precipicio. Os raios do sol da manhã irisavam a humida poeira, que a a agua, ao quebrar-se, levantava do abysmo.

Gabriella aproximou-se de Mauricio sem ser percebida, e depois de o observar alguns momentos, poisou-lhe a mão no hombro.

Mauricio voltou-se quasi sobresaltado. Ao vêr a prima sorriu.

—Não a senti chegar.

—Isso vi eu. Que profunda meditação era essa? Queira Deus que não estivesses sentindo a attracção do abysmo. Dizem-me que é irresistivel; sobre tudo para certas organisações.

—Não, os abysmos physicos não são os que me attrahem.

—O que é o mesmo que dizer que os moraes alguma attracção exercem sobre ti.

—Estou quasi a persuadir-me disso.

—De quê?

—De que me impelle uma força irresistivel por um caminho, no fim do qual a minha quéda é inevitavel.

—É um presentimento tragico.

—É uma opinião dictada pela experiencia.

—Experiencia! Essa palavra na tua bôca, Mauricio! O eterno mote dos velhos, glosado por um rapaz de dezoito annos, e estouvado como todos sabemos!…

—E porque não ha de ser esse mesmo estouvamento o que me perde? Os estouvados são os homens que não teem na razão força bastante para conterem os impulsos das paixões, e que por isso obedecem a estas, sem que os façam parar os preconceitos do mundo e os conselhos dos juizos frios.

—Se me faz favor, esses são os apaixonados. Os estouvados não chegam nunca a ir muito longe sob o impulso de uma paixão, porque mudam de soberana a cada momento, d'onde resulta um mover indeciso, um fluctuar sem rumo, um jogar entre ventos encontrados, que não lhes permitte vencer longo caminho.

—N'esse caso rejeito o epitheto de estouvado.

—Achas então que ha já o governo constituido e definitivo no teu coração?

—Estou convencido de que se fixou o meu destino.

—Pelo lado do amor?

—Sim; pelo lado do amor.

—A noticia contraria grandemente os meus planos.

—Os seus planos?

—Sim; não sabes o que me trouxe aqui? Vim para declarar-te que o tio Luiz exige terminantemente que o Mauricio parta quanto antes para Lisboa, por se ter a final convencido de que, apesar de todos os perigos da vida da capital, é esse um passo preferivel a deixal-o permanecer aqui, no seio da ociosidade que, como sabes, é a mãe dos vicios todos.

—N'esse caso principia hoje a lucta. Eu declaro que não parto.

—Devéras?

—Devéras. A minha sorte está decidida, prima. E qualquer que seja o resultado d'esta resolução…

—Mas, vamos a saber, primo Mauricio, e Bertha?… (porque me parece que se tracta de Bertha) e Bertha corresponde-te?

—Creio que sim. Por timidez procura fugir-me, ou por desconfiança talvez. Por isso mesmo hei de provar-lhe que sou sincero, e que atravez de todos os preconceitos…

—Está a tentar-te o papel de Romeu, é o que estou vendo. Desconfio da sinceridade d'essa exaltação.

—Pois verá.

—Ora ponhamos as coisas no seu logar. Não principies tu a phantasiar escaramuças de Montechi e Capuletti, que provavelmente não terão logar, com grande damno das feições romanticas do caso. A coisa ha de passar-se mais prosaicamente, como hoje se passa tudo. O primo Mauricio, depois de uns arrufos do tio Luiz, havia de, mais anno menos anno, vêr sanccionado por elle o seu casamento. Muito bem. Ahi o tinhamos patriarcha rural, burguezamente installado na lareira da Herdade, com os filhos a treparem-lhe aos joelhos, e conversando em sancta paz com o papá Thomé e com a mamá Luiza, ouvindo o estalar das pinhas, e abrindo a bôca de somno, quando a ceia se demorasse alguns minutos além das nove horas. Por este mesmo tempo, outros rapazes da sua idade, e talvez com menos aptidão do que elle, caminhariam por entre os fulgores da moda, da elegancia e da gloria, conhecidos e apreciados nos circulos onde radia a intelligencia e onde as brilhantes qualidades do espirito encontram sempre em que se exercerem. Não chegariam a este solitario Mauricio ás vezes umas invejasinhas d'esses taes, mesmo ao suave calor da fogueira patriarchal?

—E quem me impediria de os seguir tambem?—disse Mauricio contrariado.—N'esses caminhos que diz não é força progredir solitario. O apoio de um coração…

A baroneza abanou a cabeça em signal de duvida, dizendo:

—Desengana-te, Mauricio, se ainda te sorri a vida da grande sociedade, não procures a companhia de corações como o de Bertha.

—Porque não?

—Os corações como o de Bertha precisam do calor suave da vida de familia para rescenderem o grato perfume do seu amor. Para um homem a quem ainda attrahem as luctas da vida e as lides da gloria, não é das mais adequadas companhias a d'estas mulheres extremosas e modestas, que sómente se satisfazem com affectos, e cujo amor não se nutre da gloria do objecto que amam, mas exclusivamente do amor que d'elle exigem. Almas que o ciume desalenta, que a ausencia definha, não são para companheiras d'aquelles homens. Se um dos taes mais imprudente liga um d'estes corações ao seu destino, ou o martyrisa, cedendo aos proprios instinctos de gloria, ou sacrificando-lh'os, tortura-se, e a tortura reflecte-se sobre essas almas amoraveis, que a adivinham.

—E poderá ser verdadeiro um amor que não tenha essas qualidades que diz?

—Póde. Pois não póde! É preciso que evites, Mauricio, o preconceito que tem muita gente de que tudo é falso e mau nos brilhantes circulos sociaes. Não é. Lá ha tambem amores e affeições verdadeiras, podes crêl-o, mas, nascidas e creadas em condições diversas, vivem e resistem a ventos que definham as outras. Uma mulher d'aquelle mundo, sem que deixe de amar seu marido, não aspira a monopolisal-o para o seu amor. Pelo contrario, deseja que elle desempenhe a sua missão na sociedade. Com a gloria que ahi adquirir, se illumina ella tambem, e em vez de o reter na obscuridade do lar domestico, impelle-o para a luz e sente que o seu amor por elle cresce na proporção em que os outros o admiram. É uma vaidade que se converte em estimulo. Estas mulheres assim servem de incentivo ás aspirações, e são as que convem aos artistas, aos politicos, em uma palavra, aos ambiciosos.

—Mas quem lhe disse que eu era ambicioso?—perguntou Mauricio, já em tom differente, e demorando na baroneza um olhar analysador, como de quem pela primeira vez descobria n'ella qualidades dignas de attenção.

—E podes negar que o és?—proseguiu Gabriella—Ora falla-me com franqueza. Resignar-te-ias sem pesar á ideia de passar o resto da tua vida esquecido e obscuro n'este canto da provinda, tendo por unica diversão uma caçada de lebre? Conformar-te-ias com as modestas aspirações de Jorge, que se satisfaz com dirigir em bom caminho a administração d'esta casa? Não sonhas muita vez com a brilhante sociedade dos salões da capital, onde todas as aristocracias se confrontam, onde se tracta com tudo quanto ha de elegante, de nobre, de distincto nas sciencias, nas letras e nas artes? Não tens já sentido a anciedade de viajar, de te engolfares nos focos da civilisação moderna; finalmente de viver em um mundo, onde os teus talentos, as tuas qualidades possam ser devidamente apreciadas?

—É muito lisonjeira, prima Gabriella. Mas, quando eu sonhasse com tudo isso… E não negarei que mais de que uma vez essas phantasias me tenham enlevado, mas de que me serviria? Acaso o mundo está á minha espera para me patentear todas as portas d'esses logares de fascinação?

—Para os rapazes de vinte annos, de talento e de vontade não ha barreiras no mundo. Querer é poder. O mundo é menos feroz do que parece. Quando alguem se aproxima d'elle com a intrepidez e o arrojo do domador, esta terrivel fera abaixa a cabeça e não ataca.

—E qual póde ser a minha carreira n'esse mundo?

—Não se escolhe de longe. Na presença dos caminhos escuta-se uma voz interior, que nos diz: «Por aqui?»

—Mas creia que eu sou um inexperiente. Fóra d'estes ares sentir-me-ia embaraçado.

—Eu prometto acompanhar-te nos primeiros passos.

—Sómente nos primeiros?

Maurício fez a pergunta com uma entonação de voz e com um olhar, que causaram estranheza a Gabriella.

Fitou-o, como para perscrutal-o, e depois com um sorriso malicioso nos labios, tornou-lhe:

—Pareceu-me perceber uma musica de galanteio n'essa pergunta? Vê lá.
Pois nem eu te merecerei indulgencia e contemplação?

—Demasiada contemplação me tem merecido até, e Deus sabe se por meu mal.

—Um calembourg ao que percebo. Bonito. Onde está aquelle fiel Romeu de ainda agora? Se eu insistisse, era capaz de te arrancar uma declaração formal, estou vendo.

—Tem razão para zombar, prima, porém…

—Previno-te, Mauricio, de que não vale a pena perder o tempo commigo. Eu tenho uma maneira prompta e rasgada de tractar as coisas, que se não compadece com as longuras e alternativas de um galanteio a teu modo. Bem vês que já não sou criança de quinze annos, e que perdi a paciencia d'essa idade. Mas vamos almoçar, que nos estão chamando.

Durante o almoço, ao qual não assistiu D. Luiz, a conversa resumiu-se em observações de critica e analyse culinaria de frei Januario e nas glosas laconicas de Gabriella, que pôz final á prelecção, levantando-se da mesa e ordenando que lhe apparelhassem a egoa para um passeio.

Quando, momentos depois, descia ao pateo, apanhando a longa cauda do seu vestido de amazona, encontrou Mauricio, que parecia esperal-a para a ajudar a montar e por ventura para lhe servir de jockey.

—Então que quer dizer isto? Encarregaste-te agora das funcções de monteiro-mór?—perguntou-lhe Gabriella.

—Se me permitte que desempenhe estas funcções, muito me honrarei com ellas.

—Quem póde recusar um offerecimento tão amavel? Mas que me encontras tu de novo para me olhares com esses olhos?

—É porque effectivamente ainda a não tinha visto assim.

—Assim, como?

—Tão…

—Tão?…

—Com esses vestidos.

—Ai, ainda não? É verdade que ainda me não tinha dado para isso aqui.
Então tambem ainda me não viste cavalgar?

—Ainda não.

—Olhem que descuido o meu!—disse Gabriella, saltando agilmente sobre o sellim, auxiliando-se da mão de Mauricio; e emquanto ageitava as dobras do vestido, preparava as redeas e acabava de apertar as luvas, proseguiu:

—Pois n'esse caso vaes ver o que são primores na arte. Ao que parece vens tambem?

—Se me permitte?—disse Mauricio, parando junto do cavallo, que ia já a montar.

—Com uma condição.

—Qual é?

—Quando eu te disser que nos separemos, hás de condescender.

—Obedecerei, embora me custe.

—É indispensavel. Tenho hoje uns projectos, que não posso realisar senão sósinha.

—Acompanhal-a-hei até onde me permittir.

—Está dito. A cavallo!

E, instigando de subito a egoa, partiu a galope, fazendo signal a
Mauricio para que a seguisse.

Apesar de toda a diligencia d'este em montar, e da desfilada em que lançou o cavallo, não lhe foi facil attingil-a. Sendo emfim alcançada, a baroneza afroixou a rapidez da egoa, e os dois cavalgaram a passo, um ao lado do outro.

A violencia do exercicio avivara o carmim nas faces da baroneza e dera-lhe ao olhar uma animação maior do que a que lhe era habitual.

O sorriso que lhe entreabria os labios, e o arfar do seio, agitado pelo impeto da carreira, realçavam os dotes naturaes d'aquelle typo feminino, no qual se já se desvanecêra o frescor da primeira juventude, sobreviviam ainda os traços permanentes de uma belleza correcta.

Mauricio não se fartava de a admirar aquella manhã. Fôra para elle uma imprevista revelação. Dir-se-ia que até alli uma nuvem lhe occultára as perfeições da prima e que, de repente, essa nuvem se rasgára para o surprender.

O prestigio da elegancia, da moda, dos distinctos habitos sociaes, do espirito cultivado na frequencia da mais selecta sociedade, estava actuando no coração de Mauricio, predisposto como o de poucos para aquelle influxo.

A belleza e a intelligencia de Gabriella, aprimoradas ambas por uma arte, que sabia occultar-se para não prejudicar os effeitos que obtinha, attrahiam Mauricio de uma maneira irresistivel.

A baroneza tinha a perspicacia necessaria para o perceber. O seu amor proprio feminino era naturalmente afagado pela descoberta; mas, além d'esta desculpavel fraqueza, outras razões havia mais poderosas para que essa observação a lisonjeasse.

Gabriella, como já dissemos, ficára viuva muito joven, do barão de Souto Real. Tendo ainda instinctos de juventude a satisfazer, promettêra a si propria consultar o coração antes de prender-se segunda vez.

Quando recebeu a carta de D. Luiz e veio ter com elle á Casa Mourisca, sabedora das difficuldades financeiras com que luctava o fidalgo e dos nobres esforços de Jorge para remedial-os, occorrêra-lhe o pensamento generoso de favorecer o empenho do primo, offerecendo-lhe com a sua mão os recursos de que elle precisava para realisal-o. A admiração e o respeito que lhe inspirava o caracter sisudo de Jorge permittiam-lhe dar esse passo com o coração folgado.

Custava-lhe apenas ter de renunciar aos fulgores da capital, a que se habituára e que amava com toda a paixão de uma mulher da moda; mas confiava em que o seu bom senso e os subsequentes cuidados de familia lhe suavisariam o sacrificio. Tractando porém mais de perto com o primo, comprehendeu que devia desistir do seu projecto.

Jorge pareceu-lhe incapaz de se apaixonar; e com certeza, não a amando, não se resolveria a aceitar a mão que ella lhe offerecesse, mórmente por levar comsigo os recursos que o poderiam auxiliar na sua nobre empreza.

Gabriella abandonou pois a ideia que tivera. Em Mauricio não pensára ao principio. Achava-o tão leviano, que, como ella dizia, não podia lembrar-se seriamente de fazer d'elle um marido. Agora porém, notando a subita impressão que occasionalmente lhe produzira, e cujos effeitos duravam e progrediam, a baroneza principiou a encarar o caso debaixo de differente luz.

Se Mauricio se apaixonasse por ella, ser-lhe-ia facil fazêl-o partir para Lisboa e vencer a repugnancia que elle parecia oppôr a abandonar a aldeia justamente na occasião em que a resistencia do pae havia cedido.

Se, depois de deixar tomar maior incremento a este novo capricho de Mauricio, ella subitamente partisse para Lisboa, sem duvida que o arrastaria atraz de si. O resto fal-o-iam as seducções da capital.

Para conseguir este resultado, julgou pois Gabriella que não devia apagar aquelle fogo que principiava a atear-se no inflammavel coração do primo; lavareda rapida e fugaz, que importava? com tanto que durasse até extinguir a outra que lá ardia.

E se durasse mais? Quem sabe? Talvez que o primeiro pensamento de Gabriella se podésse realisar com uma variante. Mauricio não era Jorge. O caracter voluvel e inconstante do filho mais novo de D. Luiz não o garantia como um modêlo de maridos. Mas a baroneza, segundo elle proprio dissera ao primo, não era d'estas mulheres exigentes que zelam a posse de todos os pensamentos e de todos os instantes do homem que amam. A vida da alta sociedade ensinára-a a ser condescendente. Se encontrasse no marido verdadeira estima e delicadeza, não seria uma ou outra infidelidade que a obrigaria ao papel lacrimoso de esposa abandonada.

Depois, Mauricio tinha pelo menos sobre Jorge uma vantagem.

Não exigiria d'ella o sacrificio dos seus queridos habitos, nem a desterraria dos luzidos circulos que ella amava tanto. Antes lhe abriria ampla carreira de gozos, quando soltasse os vôos ás ambições, que lhe adivinhára.

Assim pois Gabriella deixava-se galantear por o primo e ensaiava n'elle a sua tactica admiravel, que o encontrou mais inexperiente do que era de suppôr em quem de tanta fama de experimentado gozava.

Mauricio porém achava-se pela primeira vez diante de uma mulher educada na alta escóla d'esta especial esgrima. A arte era demasiadamente subtil para elle a descobrir. Todo o artificio estava em simular a mais completa ausencia de affectação. Parecia tudo espontaneidade, irreflexão, imprudencia até, e julgando conquistar um coração indefezo e sem arte, o novel combatente era victima de um gladiador previdente, armado de vizeira e coiraça e jogando magistralmente com armas de melhor tempera.

A baroneza estava a acabar de convencer-se de que a supposta paixão de
Mauricio por Bertha não passava de uma illusão ou de um capricho.

Mas não haveria em Bertha algum sentimento menos ephemero e que podésse ameaçar-lhe o coração?

Era esse o problema que restava resolver. E para esse fim sahira a baroneza. A presença de Mauricio impedia-a de proceder n'essa investigação, por isso exigira d'elle a promessa de a deixar, quando lh'o pedisse.

Cavalgaram por muito tempo juntos, antes que fosse reclamado o cumprimento d'essa promessa. Mauricio ia cada vez mais enlevado. Sómente proximo da estrada, que conduzia á Herdade, foi que a baroneza lhe pediu para se separarem.

Mauricio quiz romper o contracto, Gabriella porém insistiu.

Ao despedirem-se a baroneza disse para o primo, com uma inflexão de voz que alvoroçou o coração do pobre rapaz:

—Agora provavelmente vaes procurar vêr a menina Bertha?

Mauricio respondeu expansivamente:

—Conceda-me que lhe beije a mão, prima, e correrei a encerrar-me em casa com as impressões d'esta memoravel manhã.

Gabriella concedeu-lhe o pedido e recompensou-lhe com um sorriso o galanteio.

E Mauricio foi effectivamente para os Bacellos, com o pensamento occupado pela imagem da prima.

No meio dos seus enlevos pungia-o uma ideia.

«E Bertha?» pensava elle.

A pobre Bertha, que a vaidosa imaginação do rapaz teimava em representar perdida de amores, não soffreria muito se outra lhe disputasse com vantagem a posse do coração d'elle. E não estava esse perigo imminente?

É porém de notar que esta contrariedade era um dos maiores incentivos para augmentar a chamma da sua nascente paixão por Gabriella.

Havia uma perspectiva de lagrimas e de dôres a servir-lhe de fundo do quadro, e Mauricio, sem ser cruel e compadecendo-se até de antemão do mal que suppunha ir causar ao coração de Bertha, sentia-se seduzido por a situação que creára.

Expliquem como podérem estas contradicções de caracter, na certeza de que o facto não é excepcional, antes muito da regra commum.

XXIV

Depois de separar-se de Mauricio, a baroneza guiou a egoa na direcção da Herdade. Decidida a vêr e a estudar Bertha, para saber até que ponto estava o coração da rapariga empenhado nos conflictos domesticos dos senhores da Casa Mourisca, Gabriella adoptou a resolução de procural-a sem simular pretexto algum. Os costumes singelos do campo authorisavam esta suppressão de ceremonias; demais, como parenta que era de Jorge e de Mauricio, tinha a certeza de ser bem recebida lá.

Desviando-se da estrada para seguir por um atalho que ladeava a collina, avistou uma pequena capella rustica, com a sua galilé e o seu pequeno bosque de sovereiros a rodeal-a, e tão pittorescamente situada em uma das eminencias proximas, que não pôde resistir ao desejo de subir até alli.

A capellinha, erigida sob a invocação de Sancta Luzia, um dos nomes de mais devoção entre os do florilegio christão, poisava sobre a collina em uma d'essas situações que o povo, com seus instinctos poeticos, costuma escolher para assentar esses modestos monumentos da sua fé e piedade.

O valle feracissimo, por onde se estendiam os vergeis, as searas, as quintas e os lameiros de duas ou tres freguezias, descobria-se todo d'alli. A vista seguia nos seus successivos meandros o pequeno rio que se estirava em chão de areia, por entre moitas de azevinhos, de laurentins e de salgueiros, cujos ramos aqui e além se abraçavam de margem para margem. O campanario da igreja parochial, a ponte de dois arcos, os açudes, as azenhas, as prêsas onde cantavam, lavando, as raparigas do campo, os estendaes onde a roupa de linho branqueava sob os raios do sol, as noras toldadas de parreiraes completavam a feição campestre da paisagem.

Prendendo a egoa ao ramo vigoroso de um d'estes carvalhos decepados, a que na provincia chamam tocas, Gabriella caminhou a pé para a galilé da ermida.

Ao chegar alli descobriu no muro sobranceiro ao lado menos accessivel da collina, uma rapariga sentada costurando.

A baroneza adivinhou logo que era Bertha e applaudiu-se do palpite que a fizera desviar do caminho para subir alli.

Bertha saudou-a affavelmente, como quem tambem a reconhecêra.

A baroneza dirigiu-se-lhe sem rodeios.

—Não é verdade que é a menina Bertha da Povoa que tenho a felicidade de encontrar aqui?

—Sou, sim, senhora baroneza… porque me parece que estou fallando com….

—Justamente. Achamo-nos pois conhecidas. Tanto melhor, para não perdermos tempo com apresentações. Agora permitte-me que a abrace, como a uma pessoa a quem estimo?

—Oh minha senhora!

E as duas mulheres abraçaram-se, saudando-se affectuosamente, como se uma subita sympathia as aproximasse.

—Sabe—proseguiu a baroneza, sentando-se ao lado de Bertha—que ia procural-a?

—A mim?!

—É verdade. Veja que feliz acaso o que me fez subir a esta capella, para gozar do panoramma que se descobre d'aqui.

—É um dos passeios mais bonitos d'estes sitios.

—Pelo que vejo costuma fazer d'aqui a sua casa de lavor?

—Ai, não; raras vezes; hoje vim para esperar meu pae, que chega do
Porto. D'aqui avista-se quasi meia legua de estrada. Vê?

—Ai, volta hoje o pae? Visto isso tambem o meu primo Jorge.

—Tambem… julgo que tambem.

Bertha não foi superior a uma leve turbação, ao ouvir o nome de Jorge e ao responder á baroneza. Quem tem no coração um segredo que de todos quer recatar, trahe-o muitas vezes, á força de disfarçal-o. Em cada olhar suspeita uma espionagem, em cada palavra uma allusão, e se a conversa se aproxima do assumpto, segue-a tremulo, como se segue o caminho que se abeira de um precipicio.

A baroneza, que tinha ainda os olhos fitos em Bertha com a curiosidade propria de uma mulher ao observar outra que sabe causar impressão nos animos masculinos, notou aquelle indicio de confusão, e não o desprezou.

—É um generoso rapaz o meu primo Jorge, não acha?—interrogou ella, demorando o olhar no rosto de Bertha.

Esta sentiu o perigo em que estava de trahir-se, e concentrando por isso toda a sua coragem, conseguiu levantar os olhos para fitar a baroneza e responder com apparente serenidade.

—É um nobre caracter, um rapaz a quem se deve respeitar como a um velho honrado.

—Respeitar como a um velho honrado, diz bem; amar como a um rapaz é que não é possível.

Bertha córou d'esta vez, respondendo:

—Não queria dizer isso.

—Bem sei que não. Mas digo-o eu. Jorge é um escravo do dever, e tão absorvido anda nos seus grandes e generosos projectos, que não ha para sonhos de amor logar n'aquella cabeça. As raparigas não podem amar um homem assim, em quem os olhares da mais affectuosa sympathia não insinuam calor no coração. Tem umas maneiras para todas uniformemente polidas e affaveis, que excluem a ideia da menor preferencia. Pois não lhe parece?

—Os nobres sentimentos da alma tambem podem exercer algum prestigio…

—Mas valha-me Deus, Bertha, esse prestigio revela-se em taes casos por uma veneração, que não é amor. É como a que temos pelos sanctos. De virtuosos e justos que nol-os pintam, fogem do nosso nivel e temos de elevar a vista para contemplal-os; e d'esta maneira, com os olhos no céo, adora-se, mas não se ama.

Bertha, com os olhos fitos em não sei que ponto da perspectiva, não respondia e parecia engolfada na corrente de profundos pensamentos.

A baroneza, sem interromper a sua observação, continuou:

—Já assim não é Mauricio.

A abstracção de Bertha não lhe deixou reprimir um movimento que estas palavras lhe provocaram. Dir-se-ia que lhe custava a aceitar a comparação.

Gabriella, observando-a sempre, proseguiu:

—Mauricio não tem o juízo de Jorge, é verdade; porém é mais amavel. Os seus mesmos defeitos fazem com que seja possivel fital-o mais directamente, sem que o esplendor dos seus meritos nos offusgue. É um rapaz, que sem deixar de ser generoso, permanece no nivel commum, em que todos vivemos, e ahi é bem mais facil amal-o.

Bertha escutava quasi distrahida; só passados instantes, depois das ultimas palavras da baroneza, foi que rompeu o silencio, dizendo vagamente:

—São ambos duas almas generosas e merecedoras de estima.

—De certo—insistiu a baroneza.—Mas, minha querida Bertha, eu não sei se lhe succede o mesmo… mas em geral estes rapazes serios e de juizo, como Jorge, intimidam-nos a nós outras, mulheres; não ousamos fital-os com um olhar de sympathia, com medo de que só por esse olhar elles nos accusem, mentalmente pelo menos, de estouvadas, e o resultado d'isto é que não olhamos para elles.

Bertha sorria, sem responder.

—Conhece ha muito esta familia?—perguntou a baroneza.

—De pequena. Brincamos muitas vezes, eu, Beatriz e todos elles na Casa
Mourisca.

—E Jorge era então já assim sisudo?

—Foi sempre mais ajuizado do que as crianças da sua idade.

—É um rapaz singular. Já tenho pensado em que era preciso casal-o, porque dará um excellente chefe de familia. O essencial é passar em claro os tramites de um galanteio, porque para isso é que elle não é.

Bertha nada disse ainda.

A baroneza proseguiu:

—Por isso é necessario que os estranhos tractem d'isso e escolham por elle.

Bertha aventurou timidamente algumas palavras.

—E aceitará elle a intervenção em um acto tão essencial da sua vida? Elle que está costumado a olhar em pessoa por os negocios que lhe dizem respeito?

—Isso é verdade, mas contentar-se-ha em fallar directamente com a noiva que lhe propozerem e dizer-lhe com aquella natural franqueza todo o seu pensamento, e feito isto póde a escolhida ter a certeza de que terá n'elle um marido leal e affeiçoado, talvez sem grandes requebros de amante, mas com a verdadeira estima de um amigo.

—De certo que a pessoa a quem o snr. Jorge estender a mão póde confiar n'ella como na de um pae.

Bertha, julgando dizer estas palavras naturalmente, não pôde tirar-lhes um tremor de commoção, que a baroneza notou.

Bertha foi quem primeiro rompeu o silencio, que se seguiu a estas palavras:

—Mas dizia a snr.ª baroneza que viera procurar-me?

—É verdade. Andava anciosa por conhecêl-a. Adivinhava-a pela impressão que via causar em quantos se aproximavam de si. O tio Luiz fallava-me de Bertha com uma ternura a que já é pouco sujeito; Mauricio com um enthusiasmo de apaixonado; e Jorge….

Gabriella fez aqui intencionalmente uma pausa, durante a qual estudou a physionomia de Bertha.

Esta baixára-se, como para cortar uma malva do chão, mas nas faces estendia-se-lhe um rubor fugaz, que denunciava um intimo alvoroço.

—E Jorge—concluiu a baroneza—com aquelle modo apparentemente frio que tem para dizer todas as coisas, mas em termos que exprimiam bem a sua estima por a pessoa de quem fallava; d'aqui o meu desejo de conhecêl-a; não me admiro agora de todo aquelle effeito, porque eu mesma o estou sentindo já.

Bertha sorriu, agradecendo-lhe o comprimento.

—Creia-me, Bertha. Conhecemo-nos de pouco, mas olhe que sou já sua amiga e talvez possa ainda mostrar-lh'o um dia.

—Agradecida, snr.ª baroneza.

—Não tome esse tom de ceremonia para me fallar. O que eu digo não é um comprimento. Sabe que mais, Bertha? Talvez que pouca gente esteja tão adiantada no conhecimento do seu coração como eu, depois d'esta nossa primeira e curta entrevista.

Bertha córou d'esta vez intensamente, e olhando para Gabriella com um olhar assustado, balbuciou quasi tremula:

—Do meu coração?… Por ventura…

—Não se assuste. Não quero fallar mais nisto emquanto não me conhecer melhor. Só lhe digo que eu não passo de uma pobre mulher com bastante coração e com o grau de loucura preciso para me enthusiasmar pelo partido dos sentimentos generosos e sinceros, quando luctam com as convenções e os preconceitos sociaes. E agora deixe-me mostrar-lhe um grupo de cavalleiros que estou d'aqui vendo, e que talvez o seu olhar melhor possa distinguir do que o meu.

Bertha, seguindo com os olhos a direcção que a baroneza lhe indicava, exclamou:

—São elles, são! É meu pae e Jorge… e o snr. Jorge.

E aproximando-se do angulo do adro, d'onde melhor poderia ser vista, pôz-se a acenar com o lenço para os recem-chegados.

Thomé não respondeu logo, mas passado algum tempo tremulava na ponta da vara do cavalleiro, como flammula em mastaréo de navio, o lenço de quadros, que o vento desenrolava.

Gabriella, seguindo com os olhos os movimentos de Bertha, pensava:

—O mysterio d'esta já eu descobri. Pobre criança! tem muito pouca astucia para occultal-o. Ha n'ella uma transparencia que deixa vêr até ao coração. E aquelle?—proseguiu, dirigindo os olhares para Jorge, que ainda vinha longe—Enganar-me-ia eu? Não será aquillo sómente frieza, será reserva? Póde ser, póde. Estes homens assim morrem ás vezes com uma paixão no peito, e morrem por esforços que fazem para occultal-a. Se o facto se dér com Jorge, é uma coisa gravissima; quem póde calcular o que se seguiria? Emquanto a Mauricio, já vejo que está tudo bem; parece-me que por este lado não deixará muitas lagrimas por vestigio da sua passagem, nem terei de sentir remorsos se o arrebatar para longe d'estas paragens. Mas observemos.

Bertha, que corrêra a esperar os cavalleiros, estava nos braços do pae, que a beijava com effusão. A baroneza, meio occulta por um tronco de sovereiro, notou um rapido olhar de Jorge para Bertha, quando a rapariga ainda o não podia vêr, porque Thomé lh'o encobria; notou mais que assim que Bertha o procurou, estendendo-lhe a mão, Jorge correspondeu com ceremoniosa deferencia, e nunca mais dirigiu para ella a vista.

A baroneza foi emfim ao encontro dos viajantes.

Recebeu de Jorge um acolhimento sem comparação muito mais expansivo, do que o que Bertha lhe merecêra. O penetrante espirito de Gabriella interpretou esta differença a seu modo.

A companhia desfez-se passado pouco tempo.

Thomé tinha pressa de chegar a casa; segurando a egoa pela arriata, despediu-se da baroneza e de Jorge, e partiu, em companhia da filha, caminho da Herdade.

A despedida de Jorge e Bertha teve a mesma apparencia de reserva e de constrangimento, que caracterisára o primeiro encontro.

Observou porém Gabriella que, proximo a dobrar uma curva do caminho, além da qual se perdia de vista Thomé da Povoa e a filha, que seguiam em direcção opposta, Jorge se voltou para traz com apparente naturalidade.

—Então que resultados colheste da tua excursão?—inquiriu a baroneza, não demonstrando as descobertas que ia fazendo, emquanto cavalgava ao lado do primo.

—Excellentes—respondeu Jorge, em tom de verdadeira satisfação.—Estes dias foram preciosos. O nosso pleito entrou em muito melhor caminho depois da minha conferencia com os advogados. Não me havia illudido sobre a importancia do tal documento que a incuria de frei Januario deixára encher de môfo nas gavetas.

Os advogados quasi me asseguraram o exito da causa. Se assim fôr, posso dizer meio vencida a tarefa que emprehendi. As informações que colhi sobre a nova instituição de Credito Predial animaram-me. Legalisados alguns titulos menos regulares, e alienando uma parte da nossa propriedade, que é apenas um estorvo ao melhoramento da outra, poderei habilitar-me a usar prudentemente do credito, recorrendo á nova instituição; resgatar a nossa casa, e dentro de alguns annos remir a divida, graças á eficacia dos melhoramentos que espero realisar. E dizem ainda mal das instituições modernas! Ellas apenas sacrificam os que a ellas recorrem com uma intenção má. O dissipador que julga illudir o credito sob falsas promessas de melhoramentos, é um dia por elle severamente castigado. E justo é que o seja. Mas quem o procurar com boa fé, com lizura, com intelligencia e com o animo decidido para trabalhar, encontrará n'elle auxilios milagrosos.

Jorge faltava com tanto enthusiasmo, que a baroneza, ao ouvil-o, ia sentindo dissiparem-se as suspeitas que ao principio concebêra.

—Este enthusiasmo enche completamente todo aquelle coração—pensava ella—não póde haver lá dentro vazio que o atormente.

Jorge proseguiu informando minuciosamente a prima do estado dos seus negocios, dos seus planos de reformas, das suas esperanças no futuro, e quasi lhe não poupou o calculo de annuidades, pelo qual chegava a determinar a época em que poderia amortisar totalmente a divida contrahida, segundo as bases da legislação hypothecaria.

Só próximo á quinta dos Bacellos foi que a baroneza conseguiu dar á conversa a direcção que havia muito lhe desejava vêr tomar.

Discutindo com o primo o valor dos meios a que se poderia lançar mão para trabalhar na empreza em que elle se empenhara, Gabriella lembrou-lhe o de um casamento com mulher abastada.

Jorge sacudiu a cabeça em signal de repugnancia.

—E aconselha-me isso?—exclamou elle—Não seria regenerar-me, seria vender-me, e venda mais vergonhosa do que aquella aonde nos conduziria o systema de administração seguido até agora n'esta casa; porque n'esse apenas se punha em venda a propriedade, e n'este vendia-se o proprietario.

—Isso é conforme a maneira de vêr as coisas; além de que eu a ti já faço a concessão de não suppôr um casamento exclusivamente por interesse, mas quero que um pouco de amor authorisasse o contracto, que sem tal sancção te repugnaria. Tudo se póde combinar.

—Eu não tenho tempo para amar—respondeu Jorge sacudidamente.

—Ora; o amor não espera occasião opportuna. E eu não posso acreditar que uma alma como a tua não esteja conformada para uma affeição verdadeira.

—Não digo que não; mas quero fugir de pôr em pratica essa aptidão, se a tenho, porque talvez que depois não sentisse bastante contemplação para com o mundo, para aceitar a restricção que elle costuma impôr á satisfação das paixões.

—Mas quem te diz que se estabeleceria esse conflicto entre ti e o mundo?

—Era o mais provavel.

—Queres dizer que mais depressa te apaixonarias por alguma rapariga do povo, pobre, costumada á vida do trabalho e da economia, do que por qualquer das tuas ociosas e fidalgas primas d'estes arredores.

—Com certeza que não me seduzirão essas.

—Mas vamos; se apesar das tuas precauções o facto se désse—porque emfim… estas coisas nem sempre é possível evital-as—romperias abertamente com o mundo?

—Nem quero pensar no que faria. Talvez me resignasse a deixar-me sacrificar aos preconceitos dos outros. Sabe de quem. Resignava de certo, se o sacrificio fosse sómente meu. Mas, se amasse devéras e fosse amado, e a mulher, a quem dedicasse este amor, não tivesse igual coragem para o mesmo sacrificio… não me julgaria com o direito de fazel-a soffrer por uma ideia, que nem para ella nem para os seus tivera o prestigio de uma crença. Mas fallemos em outra coisa, porque este pensamento incommoda-me até.

—Dir-se-ia que não é sómente como pura abstracção, que elle te apparece, Jorge. Fallemos porém d'outra coisa, fallemos.

E a baroneza mudou effectivamente de conversa.

Mas, ao entrar em casa, julgava ella ter obtido as informações que desejára possuir.

XXVI

Clemente, o filho da Anna do Védor, que nos tem andado longe da vista desde a primeira vez que o encontramos, estava destinado a influir na sorte dos principaes personagens d'esta historia; convem portanto que outra vez o chamemos mais para a luz.

Sabemos já que a vida publica d'este bem intencionado rapaz não era isenta de espinhos. As resistencias e estorvos que se oppunham á carreira direita, que o seu vivo sentimento de justiça lhe traçára, deixavam-lhe intimos desgostos e turbavam-lhe a bucolica serenidade dos seus dias.

Embora ás iniquidades que observava fosse estranha a sua vontade e a sua cooperação; embora a consciencia lhe não exprobrasse uma unica infracção voluntaria das leis, que religiosamente acatava, ainda assim, como todas as almas bem formadas, Clemente tinha motivos de sobra para lhe amargurarem o coração generoso e leal, vendo de perto a parcialidade e as paixões más, que presidiam á distribuição da justiça pelas mãos dos seus superiores e os privilegios que faziam desviar a balança da horisontalidade com que elle sonhára.

Todos os caracteres nobres não adquirem, sem doloroso aprendisado, a desconsoladora sciencia, que se chama scepticismo. Cada illusão que se desvanece é um golpe fundo no mais sensivel da alma, e os conflictos da vida social deixam feridas que só lentamente cicatrizam.

Clemente estava n'este caso. Modestas como eram, as suas funcções civis tinham-lhe aberto os olhos para muitas coisas obscuras e desenvolvido no espirito um fermento de descrença.

Assustado com o que sentia, temendo saber mais e ser obrigado a operar como instrumento passivo em iniquidades que lhe repugnavam, Clemente sentiu o desejo de se acolher á vida privada, onde não lhe chegasse aos ouvidos o rumor das injustiças humanas.

Um novo incidente, em que tomaram parte os fidalgos do Cruzeiro, principaes fautores de todos os attentados no concelho, acabou de decidil-o.

Vimos em um dos capitulos precedentes, que elles protegiam muito ás escancaras a fuga de um refractario ao serviço militar, facto que sobremaneira irritára Clemente, o qual chegou a tentar pôr em prática as medidas extremas, que a lei lhe permittia. Encontrou, porém, na authoridade administrativa, que afagou a influencia eleitoral dos fidalgos, froixo apoio, e o refractario conseguiu escapúla.

Logo depois de realisada a fuga, Clemente, que a attribuia sobre tudo á falta de energia do seu chefe, recebeu d'este um officio censurando-o asperamente pela debil vigilancia que tivera no caso e admoestando-o para ser de futuro mais activo e diligente.

Esta duplicidade indignou o ingenuo rapaz, que resistiu a custo á tentação de ir dizer ao administrador algumas amargas verdades.

Dias depois houve um serão em casa de um lavrador da freguezia, e Clemente recebeu aviso de que os manos do Cruzeiro premeditavam para essa noite umas vinganças contra uns serandeiros com quem mantinham uma rixa antiga.

O regedor, não só por dever do cargo, como pelo desculpavel desejo de dar uma severa lição a esses incorrigiveis, causa principal dos seus desgostos, tomou providencias, reuniu os cabos e rondou as proximidades da casa do serão.

A precaução policial foi util, porque evitou alguma desgraça séria. Pela meia noite os dois irmãos do Cruzeiro sahiram ao caminho a um camponez, que recolhia do serão, e atacaram-n'o com impeto, que não denunciava um proposito innocente.

O regedor cahiu porém sobre elles, e a muito custo conseguiu captural-os, jurando que sómente os soltaria á ordem expressa da authoridade superior.

A ordem veio e redigida em termos severos para o honesto rapaz, a quem se recommendava mais tino e cordura no desempenho das suas obrigações.

Os apaniguados dos fidalgos, parasitas que ainda se nutriam da seiva quasi exhausta d'aquella carcomida arvore genealogica, clamaram contra o attentado do regedor e chegaram a ameaçar-lhe a existencia, fazendo-lhe esperas nocturnas. Mas, o que mais é ainda, o povo, os pobres, os opprimidos, os esmagados de hontem, esses mesmos, quasi levaram a mal ao regedor a falta de attenção que tivera para com os fidalgos. Transtornar uma regra social estabelecida, embora seja para bem, escandalisa sempre os fanaticos da ordem; e ha-os tão fervorosos, que a adoram, ainda quando ella revista a feição moscovita.

A taça trasbordou para Clemente. Pediu terminantemente a sua demissão e foi-lhe concedida, com muita facilidade por as eleições estarem proximas, e serem em regra incommodos impecilhos estes caracteres amigos do justo para o andamento da machina administrativa, quando empregada na grande tarefa de cunhar deputados com a effigie governamental.

Com grande jubilo celebrou Anna do Védor a resolução do filho. Havia muito tempo que ella lhe aconselhava aquelle passo.

—Que precisão tens tu, Clemente, de te metteres n'estas barafundas? Se não precisas d'isso para comer, para que has de perder o socego com coisas que te não dão interesse?—pregava ella, inoculando no filho a sua philosophia um tanto egoista.—Olha, rapaz, a tua casa já dá bem que fazer a um homem. E quem quizer que prenda os ladrões e ande adiante dos cabos em serviço do rei, que tu, graças a Deus, não ficas mais honrado com isso. Inda se essa gente do governo fizesse caso de quem os serve bem, mas tu estás vendo como elles são. Por isso deixa-os; elles que se avenham, que lá se entendem.

Assim que o filho efectivamente declinou o encargo da regedoria, disse-lhe a ajuizada matrona:

—Agora para a dares em cheio, sabes tu o que deves fazer? É casar-te. Isso é que era ouro sobre azul. Porque emfim, rapaz, só assim é que se ganham raizes em casa e que um homem é devéras homem de familia. Emquanto solteiros, ora adeus, por melhores que vossês sejam, lá vem um serão, lá vem uma caçada, lá vem uma doida de uma rapariga que vos faz andar a cabeça á roda. Não ha como é isto de ouvir gemer as crianças em casa e cantar a mulher a arrolal-as. Tu riste? É o que te digo. Quando eu me casei com teu pae, que Deus haja, todos me diziam: «Ó filha, não levas homem que te gaste muito os trastes da casa.» Porque, emquanto solteiro, elle tinha sido d'aquelles de se lhes tirar o chapéo, dos taes que Deus mandou fazer. Pois era vêl-o depois. Logo que podia, elle ahi estava ao pé de mim a brincar com as crianças. Até muitas vezes eu lhe cheguei a dizer: «Ó homem, sahe-me d'aqui para fóra; eu não gósto de vêr homens tão caseiros.» Por isso, rapaz, faze o que te digo, casa-te, que estás em boa idade.

—Não vou longe d'isso, minha mãe, mas bem vê que não é coisa que se faça assim do pé para a mão.

—Não, olha, tu tambem para andares muito tempo a arrastar a aza á rapariga é que não és, que isso sei eu. Pois então é tractar da coisa como de negocio serio e casar.

—Mas… e a noiva? Ahi está já a primeira dificuldade.

Anna do Védor olhou muito direita para o filho, e depois de um instante de silencio interpellou-o:

—E então tu, na tua verdade, ainda não lançaste as tuas vistas?

Clemente encolheu os hombros como quem não podia dizer que não, nem queria dizer que sim.

—Ora para mim é que tu vens com isso. Lançaste, sim, e nem podia deixar de ser, que não tinhas muito onde escolher. Queres que te diga quem é? Olha que tambem eu nunca tive outra na ideia.

—Mas eu não pensei ainda a serio….

—Adeus; e que tens tu que pensar? Porque é que te não havia de convir a pequena do Thomé?

Clemente respondeu um pouco sobresaltado:

—A mim de certo convinha; agora eu é que talvez lhe não convenha. A
Bertha está educada tanto á cidade…

—E com quem queres tu que ella case, não me dirás? Com algum dos pequenos do fidalgo, hein? Que elles estão mesmo alli á espera d'ella. Deixa-te de tolices. A rapariga deve erguer as mãos ao céo se agarrar um marido, que não é nenhum labrego, que é homem de bem e capaz de estimal-a.

—Mas o pae, que a educou assim e que em tanta conta tem as prendas da filha, ha de aspirar a mais.

—O quê? O Thomé é um homem de juizo. E então digo-te mais, eu já lhe toquei n'esse negocio, e o homem não se deitou de fóra d'isso, antes mostrou que lhe agradava bem o projecto.

—Devéras fallaram n'isso?

—Então não t'o estou a dizer? E o Thomé da Povoa lembra-me bem que me disse: «A minha Bertha o que deve esperar é um marido honrado, trabalhador e que a saiba estimar, e o seu Clemente é a nata dos rapazes.» Depois, aqui para nós, o Thomé sabe as circumstancias em que tu estás, e, vamos lá, isso tambem influe. E faz elle muito bem, lá isso ninguém lhe póde levar a mal.

—Porém Bertha…

—Deixa-te de acanhamentos, rapaz. Sabes o que mais? O que eu estou vendo é que tu com'assim não dás conta do recado. Por isso vae ter com o Jorge. Elle é alli tudo em casa do Thomé, é quem dá lá os dias sanctos. O que elle diz é o que se faz, nem se mexe um pé em casa sem consultar o pequeno. E juizo tem elle para aconselhar bem, que aquillo foi mesmo um milagre do céo, o nascer aquelle rapaz na família. Pois vae tu ter com elle, vae e dize-lhe as tuas tenções, e elle gue se encarregue do mais. Vae por ahi, que vaes bem. Digo-t'o eu. O Thomé tens tu de teu lado, e Luiza diz sempre com o marido; emquanto á rapariga, ella ha de reconhecer que tu não és noivo que se engeite.

Horas depois, Clemente, a quem a mãe acabára de convencer, procurava
Jorge no seu gabinete de trabalho na propriedade dos Bacellos.

Clemente encontrou Jorge sentado á banca, tendo diante de si massos de papeis e de livros, que consultava com attenção.

A entrada do filho de Anna do Védor não obrigou Jorge a interromper a sua tarefa; saudou-o com a affectuosa familiaridade que de pequeno usava para o seu irmão de leite, e continuou trabalhando.

—Bons dias, snr. Jorge. Pelo que vejo trabalha-se?

—Que remedio, meu bom Clemente, que remedio? Estes negocios de minha casa estão de tal maneira enredados, que não fazes ideia.

—N'esse caso fiz mal em entrar; vim distrahil-o.

—Não, não, Clemente, não. Deixa-te ficar, que me não estorvas. O que estou fazendo não é de tal transcendencia, que não me deixe fallar com os amigos. Estou aqui a ver se descubro n'esta papelada um documento de que preciso. Aquelle frei Januario sempre tinha isto em uma desordem! Eu bem sei o que elle merecia. E que me dás tu de novo, Clemente? Disseram-me que te demittiste do logar de regedor?

—E ha mais tempo que o devia ter feito, que nunca recebi senão desgostos no officio.

—Sim, cá por este mundo, quem andar por caminho direito póde contar com encontrões, que magoam—observou Jorge, sem erguer os olhos dos papeis.

—E não foram poucos os que me deram. Perdoe dizer-lh'o, snr. Jorge, mas aquelles seus primos do Cruzeiro…

Jorge encolheu os hombros, fazendo um gesto de desprezo.

—Que queres tu, homem? Se elles nem para si mesmos são bons! Aquillo nos Cruzeiros é uma cama de tres javalis, qual d'elles mais selvagem. Que se póde esperar d'aquella gente?

—Mas teem quem os attenda, que é o que me faz zangar. Uma authoridade descer áquellas baixezas e andar ahi a receber o beija-mão d'aquelles senhores! Isto, isto, a fallar a verdade, parece-me… nem eu sei o que me parece.

Jorge esteve algum tempo sem retorquir, absorvido pelo exame de um papel que encontrára no masso. Depois, tomando á margem uma nota a lapis, e pondo o papel de lado, ponderou vagamente:

—Coisas d'este mundo, Clemente; que remedio senão aceital-o assim?

—Isso é que é verdade.

—E lá por casa como vão? Tua mãe?

—Bem; foi ella quem me aconselhou esta visita.

—Sim? Então já não t'a agradeço.

—Eu, a fallar a verdade, como sei que tem o tempo muito occupado, receio…

—Ora deixa-te de tolices. Se por acaso estivesse tão occupado que me não fosse possivel receber-te, com a maior franqueza t'o diria. Bem sabes que entre nós não ha etiquetas.

—Pois eu vinha para pedir-lhe um favor.

—Terei muito prazer em te servir—respondeu Jorge, levantando-se para procurar novos papeis na secretaria e voltando a sentar-se á banca, sempre entretido no seu trabalho.

—Como sabe, pedi a minha demissão e estou agora resolvido a viver em minha casa, e a occupar-me sómente dos meus negocios.

—É justo. E quem bem trabalha no que é seu, tambem trabalha no que é de todos—ponderou Jorge emquanto executava uns calculos arithmeticos.

—Ora, para fazer a vontade a minha mãe e tambem por me sentir com inclinação para isso, estou meio decidido a…

—A casar-te, hein?—concluiu Jorge, sem manifestar surpreza, e notavelmente embebido na execução dos seus calculos.

—Justamente.

—É uma boa resolução. Os homens como tu dão excellentes chefes de familia. Podes fazer a tua felicidade e a da mulher com quem casares.

—Isso são favores seus, snr. Jorge.

—Ora! Mas a final o que queres tu? Vens ouvir-me de conselho n'esse negocio? A mim, um rapaz solteiro?…

—Não, senhor, a coisa é outra.

—Então?

—Eu já lancei as minhas vistas…

—Sim, é natural.

—Mas não sei ainda se serei bem acolhido e, para lhe fallar a verdade, não me sinto com animo de… de tractar disso em pessoa.

—Não? Ora essa! E então?

—E então lembrei-me do snr. Jorge para lhe pedir este favor.

—De mim?! Tem graça. Queres obrigar-me a representar o papel de casamenteiro. Com todo o gosto. Mas sempre tenho curiosidade de saber a razão por que te lembraste de mim—disse Jorge que, havendo concluido o calculo, poisára a penna e esfregava vivamente as mãos para aquecêl-as. Olhando d'esta vez directamente para o seu interlocutor, perguntou-lhe:

—E quem é a noiva?

—É a filha do Thomé da Povoa.

Estas palavras dissiparam instantaneamente toda a meia indifferença com que Jorge escutára até alli as communicações de Clemente. O estremecimento que não pôde reprimir ao ouvil-as, a subita transformação que se lhe operou na physionomia, bastariam para revelar a verdade a Clemente, se este bom rapaz não tivesse uma d'aquellas almas, onde nunca entram de subito as suspeitas, mas sómente depois de muitos e porfiados embates.

—A filha do Thomé da Povoa!—repetiu Jorge estupefacto.

—Sim—tornou Clemente, interpretando erradamente aquelle espanto—a filha do Thorné da Povoa, do Thomé da Herdade… Bertha, a que foi educada em Lisboa e que voltou ha tempos…

—Bem sei—atalhou Jorge com impaciencia—mas… Bertha…

E acrescentou quasi sem consciencia do que dizia:

—Bertha da Povoa… mas… mas como te lembraste agora de Bertha sem mais nem menos? É singular!

—Como me lembrei agora? Mas não foi agora que me lembrei. Eu já tinha penâado n'isso. É a noiva que eu proprio…

—Pois sim, mas… Como te deu logo para pensar em Bertha da Povoa? É o que pergunto.

—Ora essa! Em alguma havia eu de pensar. Se não fosse n'ella, seria em outra. Succedeu ser em Bertha. Coisas do coração…

—Ahi vens tu já com o coração—acudiu Jorge com mal reprimido despeito.—Vossês fallam no coração a proposito de tudo. E até agora então, que andavas todo influido com a tua regedoria, não te importaste com o coração, nem elle te dizia nada… Ora adeus! O coração!…

E erguendo-se da banca com certa agitação, que estava espantando Clemente, pôz-se a passeiar no quarto, e tão convulso que não conseguia preparar um cigarro, que mal sustinha nas mãos.

Clemente allegou:

—Eu não digo que isto seja uma paixão muito forte, uma paixão por ahi além; mas, resolvido a tomar estado, pensei na noiva que me conviria e lembrei-me de Bertha. É uma boa rapariga, bem educada e de alguns haveres…

Jorge cortou-lhe a palavra:

—Ah! então dize-me d'isso. Agora já entendo por que te lembraste de Bertha. Devias principiar logo por ahi. De alguns haveres! Ahi é que está a questão. Vossês são todos os mesmos a final. O interesse, o maldito interesse! Pois fazia melhor conceito de ti, Clemente; digo-te francamente que fazia de ti melhor conceito. Lá porque uma rapariga tem meia duzia de centos de mil reis, já a perseguem com proposito de casamento, já…

—Ó snr. Jorge—interrompeu Clemente, tão surprendido como vexado com o que ouvia—por quem é faça melhor opinião de mim. Não só me não lembrei de Bertha apenas pelo dinheiro, mas nem a quero perseguir. Olha quem? Eu! Se a rapariga disser que não, ou o pae, paciencia. Mas parece-me que a minha proposta não a deshonra.

Jorge principiava já a conhecer a sem-razão com que fallava, mas não podia ainda ceder totalmente ao bom senso que despertava em si. Não tinha previsto o caso, que se lhe offerecia, e sentia-se por isso irritado contra a hypothese que tão imprevistamente lhe surgira no caminho.

—Pois sim… mas…—murmurava elle, sem saber o que dissesse—mas… Bertha… Olha, se queres que te falle a verdade… Bertha não te convem.

—E porque acha?

—Porque… Ora, porquê?… Eu não posso bem dizer porquê… porque… porque não.

—Parece-lhe talvez que tem uma educação muita fina para mim?

—Não, não digo bem isso… mas…

—Eu tambem concordo. Mas attenda o snr. Jorge que aqui na terra as pessoas melhor educadas do que eu não a querem para mulher. Eu sei de fidalgos que não se lhes daria de inquietal-a, e já o teem mostrado. Mas creia que menos a honram os olhares d'esses taes, do que a minha proposta. Eu não apreciarei, como conviria, os talentos de Bertha, mas talvez os respeite melhor. E em todo o caso julgo que se poderá fazer de mim um bom marido.

—Ninguem te diz menos d'isso… mas… bem vês que… Eu não sei quaes são as tenções de Thomé, porém parece-me que…

—De Thomé sei eu que approvaria o casamento, porque já o disse a minha mãe.

A estas palavras cresceu outra vez a irritação de Jorge.

—Então já é negocio tractado? Os paes fallaram-se. Está dito tudo. É o absurdo costume cá da terra. Provavelmente vão exercer pressão sobre a pobre rapariga, que se sacrifica para fazer a vontade á familia. Olha, sabes que mais, Clemente, isso não é bonito. Para que hei de estar a dizer o contrario? Não é bonito. Nem eu te quero dizer tudo o que penso d'isso.

—Mas, valha-me Deus, eu estou devéras admirado de vêr o juizo que o snr. Jorge faz de mim! Pois imagina que eu consentiria em casar com alguma mulher contra vontade d'ella?

—Tu é que disseste que tua mãe e Thomé já se entenderam—observou
Jorge, continuando a passeiar no quarto.

—Disse que fallaram n'isso e que elle não desapprovára. Mas o snr. Jorge conhece o Thomé e por isso sabe que elle não é homem capaz de obrigar a filha. Deus me livre de imaginar tal! Mas emfim vejo que o snr. Jorge não approva a minha escolha; eu respeito-o muito e não quero ir contra o seu parecer. Direi a minha mãe…

Jorge acudiu com vivacidade:

—Não, não. Eu não desapprovo. Essa é boa! Que tenho eu com isso? Segue lá o teu destino. E se fores feliz… tanto melhor. Eu sou teu amigo, desejo a tua felicidade. Anda… tenta… nada perdes em tentar. Emfim… eu não tenho objecções a pôr… só me parecia que… Mas emfim, anda para diante.

—Pois sim, mas… eu desejava que o snr. Jorge fosse quem fallasse.

Cresceu a impaciencia a Jorge.

—Não, não, isso é que não. Perde isso da ideia. Que lembrança! Eu fallar! E porque hei de ser eu? Que tenho eu com isso? Conheço o Thomé, não conheço a filha. Que me importa a mim saber se a Bertha te quer para marido, ou se não quer? Era até ridiculo. Mas como te lembraste de mim para esse emprego?

—Foi minha mãe quem me aconselhou.

—E porque não vae ella? Assim como tractou com o pae, que tracte com a filha. Quem quer negociar casamentos para os filhos não incumbe a estranhos parte da missão.

—É porque minha mãe julgava que o snr. Jorge não era para nós de todo em todo um estranho—murmurou tristemente o collaço de Jorge, a quem a imprevista maneira por que fôra acolhido por este tinha deixado em profundo desconsôlo.

Estas palavras de timida censura e a maneira branda e resignada com que foram ditas, commoveram Jorge e abateram a tempestade que lhe perturbára a habitual serenidade do seu espirito. Fazendo um esforço para dominar os despeitos que ainda sentia revoltos no coração, disse com maior placidez, apertando a mão de Clemente:

—E julgava bem tua mãe. Eu não posso ser para vós um estranho, nem vós para mim o sois. Farei o que desejas. Não faças caso das minhas palavras. Tenho andado um pouco impertinente estes dias por causa de certos negocios, e por isso fallei ha pouco mais vivamente. Desculpa. O teu projecto é razoavel, eu fallarei n'elle a Thomé. Que duvida? O que não prometto é servir-me de qualquer influencia que tenha sobre elle, porque… porque emfim… tenho escrupulos.

—Nem eu quereria que o fizesse. Basta que lhe exponha o caso; que lhe diga que estou resolvido a casar, e sentindo amor…

—Será melhor não fallarmos em amor—atalhou Jorge com renascente impaciencia—porque afinal, Clemente, vendo as coisas como ellas são, tu não amas Bertha.

Ao olhar espantado com que foram acolhidas estas palavras, Jorge respondeu já com mais força:

—Não amas, homem, não amas. Talvez estejas persuadido de que a amas, mas não ha tal amor. Desengana-te. Isso em ti é um projecto frio, pensado, no qual só achaste vantagens e portanto resolveste adoptal-o. Tens considerações por Bertha, entendes que podes estimal-a; mas amor é outra coisa. Deixemos porém isto. Fica decidido, eu fallarei a Thomé e dar-te-hei a resposta.

—Agradeço-lhe, snr. Jorge. Mas veja lá, se lhe custa…

—Porque ha de custar? Ora essa! Se fallo quasi todos os dias com o Thomé. Em logar de conversarmos no tempo que faz, ou no estado das terras, conversaremos n'isso. Sim, porque para mim é um assumpto como outro qualquer, O casamento de Bertha é um assumpto em que eu posso conversar com Thomé, naturalmente. Pois que tinha eu com o casamento de Bertha? Eu não sou irmão d'ella. Estimo-a, é verdade, mas… o que é certo é que… é que me não compete importar-me com o casamento de Bertha. Já vês então que não me póde ser custoso fallar n'isto ao pae… Pois porque te parecia que me havia de custar?

E Jorge dizia tudo isto com uma volubilidade e com uma inquietação que admirava Clemente.

—A mim? Por nada—respondeu este.—Eu dizia que no caso de não querer.

—Mas porque não? Fallo. Não tenho a menor duvida. Ámanhã dar-te-hei a resposta. Adeus. Agora peço-te licença para examinar umas contas.

—Eu retiro-me.

—Então adeus. E vae descançado; hoje mesmo tractarei d'isso. É uma coisa tão simples! Pois não te parece que é uma coisa simples? Sim, porque bem vês que eu nisso não tomo parte activa. Por acaso tinhas algum motivo para suppôr…

—Nenhum.

—Mas parecia que julgavas que eu tinha algum motivo… talvez…

—Eu não julgava tal—respondia Clemente cada vez mais espantado com a insistencia de Jorge, tão singular pelo menos como a sua primeira irritação.

Jorge conduziu o seu amigo até á porta do gabinete, onde se despediu d'elle, apertando-lhe affectuosamente a mão.