—De certo que havemos de fallar muito de Beatriz.
—Muito bem—exclamou Thomé da Povoa—pois então ahi lh'a deixo, fidalgo, e vou á minha vida.
Gomprehendeu D. Luiz que não devia ficar inferior em generosidade ao seu antigo criado.
Assim que Thomé, fazendo-lhe uma cortezia, se dispunha a transpôr a porta para sahir, o fidalgo reteve-o estendendo-lhe-a mão, e disse-lhe n'aquelle tom solemne que lhe era habitual:
—Thomé da Povoa, não se retire sem que eu lhe aperte a mão. Bem vê que é a maneira que tenho de remir dividas d'estas.
—Com todo o gosto, fidalgo.
E o honrado lavrador aproximou-se do leito e apertou nas suas mãos robustas a mão magra e aristocratica do senhor da Casa Mourisca, dizendo, com a expansão de enthusiastica sympathia que tinha em excesso na alma:
—Póde acreditar, fidalgo, que aperta a mão de um amigo.
D. Luiz fez um gesto silencioso de acquiescencia.
Thomé da Povoa, quando sahiu da sala, levava nos olhos um brilho denunciador de commoção.
Todas as scenas e acções generosas exerciam n'elle este effeito.
Bertha ficou só com o padrinho. Com aquelle instincto de actividade e de ordem natural á indole feminina entrou immediatamente no exercicio de suas funcções, dispondo os preparativos para a leve refeição do doente, da qual ella se encarregára ao encontrar no corredor um criado com a bandeja na mão.
Trabalhando e conversando, Bertha tinha já aquelles ares de familiaridade, que naturalmente assumem as mulheres no tracto da casa que dirigem.
Tomára posse d'aquelle terreno como de dominio seu, e dentro em pouco a influencia dos seus cuidados fazia-se já sentir na apparencia de ordem e de methodo que alli dentro vestira tudo.
D. Luiz seguia-a com olhos de satisfação. Parecia-lhe que ella só povoava o quarto.
Com que indizivel prazer a via tirar dos hombros o chale que trouxera, dobral-o e poisal-o, junto com o chapéo, no sofá proximo do leito, como se estivesse em sua casa!
A presença d'aquella joven e gentil rapariga, occupada na lida domestica, fallando-lhe com meiguice e alegria, adivinhando-lhe e prevenindo-lhe os menores desejos, satisfazia uma tão ardente e tão antiga necessidade do coração d'aquelle homem, que esquecido quasi de seus infortunios, reputava-se feliz.
Animado por Bertha, comeu com mais appetite e fallou com uma animação que lhe não era habitual.
—Mas, agora me lembra, Bertha—disse D. Luiz, como se de repente lhe occorresse uma ideia—preciso de dar ordens para a tua accommodação. Talvez o quarto de Gabriella…
—Não se incommode—atalhou Bertha.—A snr.ª baroneza parece que tinha tudo prevenido, porque me receberam como quem me esperava já.
—Mas como sabia Gabriella?…
—Pois se foi ella quem me mandou dizer que partia e que me fez sentir a necessidade de vir occupar o seu logar.
—Ah! agora entendo a carta d'ella. É uma boa rapariga a final.
E D. Luiz tinha nos labios, ao dizer isto, um sorriso de sympathia, que lhe suavisava a dureza habitual das feições.
A agradavel doçura que o fidalgo da Casa Mourisca estava saboreando com a presença e o conversar de Bertha foi interrompida por umas pancadas timidas na porta do quarto, que elle escutou de má vontade.
—Quem está ahi?—perguntou quasi irritado.
—Licet?—murmurou a voz do padre fóra da porta.
—Entre quem é—respondeu D. Luiz, ainda mais irritado depois de conhecer a voz.
O padre entrou subitamente, cortejou Bertha com olhos desconfiados e avançou com passos vagarosos.
—Que é o que quer, frei Januario?—perguntou D. Luiz desabridamente.
O padre continuou a aproximar-se do leito e respondeu melifluamente:
—Os filhos de v. exc.ª, os snrs. D. Jorge e D. Mauricio, pedem licença para lhe fallarem.
D. Luiz fez um movimento de impaciencia.
—Que me querem elles?
O padre encolheu os hombros.
—Não posso dizer a v. exc.ª, porque eu mesmo não o sei.
—Que lhes não fallo agora—respondeu em tom sacudido o fidalgo. Mas ao voltar-se deu com os olhos no rosto de Bertha, que insensivelmente revelou n'elle o desprazer com que ouvira aquella resposta.
O padre ia a retirar-se com o recado, quando ouviu D. Luiz dizer:
—Mas não poderei saber o que é que me querem os senhores meus filhos?
O padre parou, esperando uma ordem definitiva.
Bertha, que estava alizando uma das travesseiras em que o padrinho se encostava, murmurou, como a gracejar:
—A melhor maneira de ficar sabendo é ouvil-os.
D. Luiz encolheu os hombros, como a exprimir o pouco valor que suppunha á conferencia pedida, mas disse ao padre:
—Diga-lhes que entrem.
Estava finalmente revogada a sentença que votára ao ostracismo os dois filhos do fidalgo. O coração do velho sentia-se muito brando n'aquelle momento para conservar rancores. A influencia de Bertha principiava a actuar.
A negrura dos delictos de que até alli accusára os filhos, dir-se-ia que a dissipára um sorriso da afilhada.
Jorge e Mauricio entraram pouco tempo depois no quarto, descobertos ambos, e com aquelle ar de respeito que sempre lhes impunha a presença do pae.
Bertha sentiu que se lhe sobresaltava o coração, ao tornar a vêr Jorge depois da scena que tivera logar na Herdade.
Não pôde porém deixar de fital-o com interesse. Achou-o pallido e abatido.
Dominando as suas violentas impressões saudou os dois irmãos com um sorriso afectuoso e sereno.
Jorge e Mauricio corresponderam-lhe com um gesto de deferencia e sympathia.
Ambos estavam prevenidos da presença d'ella.
Jorge comprehendeu que a baroneza insistira em realisar os seus projectos, apesar das objecções com que elle os combatêra. E não desestimou que ella o tivesse feito. Incommodava-o a ideia de isolamento em que ia ficar seu pae. Os carinhos de Bertha deviam ser-lhe preciosos. Depois a vinda d'ella para os Bacellos não retardaria o fatal casamento, com que não podéra ainda conformar o espirito? De pouco serviria a demora, vista a irrevogavel resolução que ambos haviam adoptado; mas fazer recuar a consummação de um facto funesto é sempre um allivio.
Aceitou pois de boa vontade a vinda de Bertha para junto de seu pae, mas resolveu precaver o coração dos perigos que correria, se permanecesse junto d'ella.
Mauricio, que dias antes não receberia tambem com sangue frio a noticia da presença de Bertha, estava n'aquella manha muito preoccupado, para se alterar ao recebêl-a.
A subita partida de Gabriella surprendêra-o e exacerbara a paixão nascente que por ella sentia.
A baroneza calculára bem o alcance da medida e assegurára-lhe ainda mais o effeito, deixando a Mauricio um bilhete concebido n'estes termos:
«Meu caro primo.
Parto para Lisboa. Não preveni pessoa alguma. Levo muitas saudades commigo. Não sei se as deixo tambem. Se acreditasse na constancia de certos sentimentos, consolar-me-ia a ideia de te vêr dentro de poucos dias em Lisboa. Mas infelizmente duvido tanto! Por isso limita-se a deixar-te ficar um longo e desconsolado adeus a
Tua prima e muito affeiçoada
Gabriella.»
Esta carta veio a tempo para atalhar os primeiros symptomas manifestados já em Mauricio de uma nova crise, que podia ser fatal aos planos da baroneza.
Como dissemos, Mauricio, imaginando que á sua nova paixão pela baroneza não seria indifferente o coração de Bertha, recebia d'essa ideia, que aliás o mortificava, um estimulo que atiçava aquella paixão. Subita e inesperadamente porém veio uma noticia desvanecer-lhe estas illusões. Foi a do proximo casamento de Bertha, que a Anna do Védor lhe deu, respondendo assim com ar triumphante ás duvidas que elle em tempo antepozera contra tal união. Anna assegurou-lhe que Bertha e toda a familia haviam acolhido com favor a ideia, e que o mesmo Jorge a apoiára.
Esta revelação impressionou Mauricio. Seria possivel que Bertha não sentisse por elle affecto algum? Ter-se-ia elle illudido, imaginando havel-a impressionado? Haveria antes em tudo isso um plano de Jorge?
Estas suspeitas despertaram-lhe uma leve irritação de vaidade e avivaram as quasi apagadas impressões, que lhe restavam no coração da imagem de Bertha. N'esse dia passou duas vezes pela Herdade.
Estava pois em imminente risco a paixão por Gabriella, quando a repentina partida d'esta e a sua carta de despedida lhe fizeram outra vez pender o coração para aquelle lado.
Todos os despeitos gerados com a noticia de Anna do Védor dissiparam-se perante os despeites novos.
Acabando de lêr o bilhete de Gabriella, Mauricio pensou em montar logo a cavallo e seguir no encalço da baroneza, até attingil-a. Custou a persuadil-o da conveniencia de moderar a precipitação dos seus projectos. Decidiu porém apressar quanto podésse os preparativos da jornada e partir n'aquelle mesmo dia para Lisboa. A permanencia no campo era-lhe já insupportavel.
Foi sob estas impressões que, em companhia de Jorge, elle entrou no quarto de D. Luiz.
O pae revestiu-se outra vez do seu aspecto de severidade ao dirigir aos filhos um olhar interrogador.
Mauricio fallou primeiro:
—Ha muito que está projectada a minha partida para Lisboa. A prima Gabriella sahiu esta manhã para lá, e escrevendo-me, deixou-me dito que me ficava esperando. Venho pedir a v. exc.ª authorisação para partir hoje mesmo.
D. Luiz respondeu sêcamente:
—Póde ir. Falle a frei Januario para lhe dar o dinheiro de que precisa.
Em seguida voltou o olhar para Jorge, como convidando-o a expôr o motivo da sua visita.
Jorge aproximou-se e, abrindo uma pasta, apresentou ao pae um masso de papeis.
—Desejava que v. exc.ª examinasse esses documentos e titulos, que dizem respeito a propriedades nossas e a contractos antigos, e que eu puz em ordem com o fim de facilitar o exame.
—Mas para quê? Eu não quero estar com isso. Que necessidade ha de incommodar-me com essa papelada?
—É porque depois desejava expôr a v. exc.ª os planos que concebi, e no caso de merecerem a sua approvação, pedir-lhe licença para proceder em harmonia com elles.
—Eu não tenho cabeça para entrar n'essas investigações. Tive sempre por costume deixar os negocios confiados a procuradores.
—Se v. exc.ª me authorisa ainda como tal eu não o incommodarei.
D. Luiz sentia que depois das ordens terminantes que dera ao padre Januario, em um momento de despeito contra o filho, tinha motivo para irritar-se ao vêr Jorge em flagrante desobediencia, occupando-se ainda da administração da casa. Mas a violencia do despeito abrandára, e interiormente o fidalgo estimava ter sido desobedecido.
—Façam o que quizerem—respondeu elle—o futuro que prepararem não será para mim que o preparam.
—Então se v. exc. não duvida assignar estes papeis….
E Jorge apresentou ao pae uma serie de documentos, que requisitavam a assignatura do chefe e representante actual da familia.
D. Luiz fez um gesto de enfado, mas correu com a vista o quarto a procurar alguma coisa.
Bertha, comprehendendo-o, trouxe-lhe ao leito os preparativos para escrever.
E o fidalgo, com a mais aristocratica indifferença, assignou sem lêr os papeis que Jorge successivamente lhe apresentava, authorisando assim as medidas que por ventura deviam regenerar a sua casa com a mesma facilidade e imprevidencia com que tantas vezes authorisára as que a haviam perdido.
—Agora precisava tambem da authorisação de v. exc.ª—proseguiu Jorge.—para ausentar-me por alguns dias, porque necessito de visitar as nossas propriedades mais distantes.
D. Luiz repetiu com o mesrno tom de voz a phrase que já dissera a
Mauricio:
—Póde ir.
Os dois rapazes curvaram-se respeitosamente diante do velho e aproximaram-se para receber-lhe as bênçãos.
D. Luiz estendeu a mão, que um apoz outro beijou, e saudando-o outra vez iam a sahir do quarto.
O coração do pae sentiu porém a necessidade de urna despedida mais affectuosa n'aquelle instante em que ambos os filhos o iam deixar.
—Mauricio—disse elle quando os viu já proximos da porta—repare que vae entrar em uma sociedade nova para si, cheia de seducções e perigos. Seja homem e digno do nome que tem, e… dê-me o gosto de o vêr feliz e honrado.
—Terei sempre em vista o seu nobre exemplo, meu pae, e espero que assim nunca me desviarei do caminho da honra.
—Talvez o não conduza pelo da felicidade—murmurou o velho; e depois, dirigindo-se a Jorge:
—Jorge, espero do seu juizo que seja prudente no uso d'essas authorisações que lhe dou. Repare que nos esforços que faz para restaurar a sua casa não sacrifique o nome que a torna illustre. Seja sempre tão brioso como é activo.
—Espero que nunca os meus actos deslustrarão o nome com que me honro.
E os dois irmãos retiraram-se emfim.
Vendo-os sahir, D. Luiz voltou-se para Bertha, suspirando, e disse com desconforto:
—E ficamos sós, Bertha!
—Elles voltarão cedo, e com elles mais alegria para esta casa.
D. Luiz fez um signal de quem não tinha fé no futuro.
—Tem paciencia, Bertha—disse d'ahi a pouco—mas se podésses ir vêr que lhes não falte nada…. O padre é capaz de se descuidar das malas, e Mauricio não repara.
Bertha apressou-se a satisfazer o desejo do velho.
Encontrou Jorge e Mauricio na casa do jantar, fazendo os preparativos para a jornada.
Bertha coadjuvou-os com vantagem.
—Bertha—disse Mauricio—n'este reconhecimento de despedida, será bastante generosa para perdoar-me algumas loucuras que talvez não fossem de todo innocentes?
—Antes de perdoar é preciso condemnar, e eu nem sequer accusei!
Mauricio apertou-lhe a mão com verdadeira e d'esta vez insuspeita sympathia.
—Sabe, Bertha, que vendo-a aqui, a ajudar-nos assim n'esta tarefa caseira, custa-me a acreditar que não seja nossa irmã!?
—E como é que se desengana? Interrogando o coração?
—Não, que esse persuade-me do mesmo.
—Então deixe-se persuadir, snr. Mauricio, que vae n'isso tão pouco mal!
Mauricio trocou algumas palavras com ella, mas sem alludir ao casamento.
Jorge fallava menos do que o irmão. Em um momento em que este sahiu da sala, Bertha perguntou:
—Parte para muito longe, snr. Jorge?
—Não, Bertha. Vou viver para a Casa Mourisca; mas bem vê que não podia dizêl-o a meu pae; era ainda cedo talvez para elle o consentir.
—E parte… por eu chegar?…
—Parto, sim, Berlha, e não acha que deva fazêl-o?
—Talvez tenha razão…. Tem por certo. Mas perdoa-me obrigal-o a isso?
—Agradeço-lh'o. A sua vinda ha de salvar meu pae.
—Então separamo-nos amigos?
—Como sempre, Bertha.
Bertha estendeu-lhe a mão commovida, e Jorge levou-a aos labios com mais ardor do que convinha a quem formára o proposito de suffocar no peito o amor que n'elle crescia.
E n'essa tarde deixaram a quinta dos Bacellos os filhos de D. Luiz.
Este ficou só com Bertha e com o padre, que via um plano maçonico em todas estas mudanças.
XXX
Augmentava de dia para dia a influencia de Bertha sobre o animo de D. Luiz. Todas as manhãs desafiava as primeiras alegrias do enfermo o sorriso com que Bertha lhe entrava no quarto, sorriso que parecia illuminal-o mais do que os matutinos raios do sol.
Sob a benefica acção d'aquelles desvelos femininos, sentia o desconfortado doente um renascer de vida; voltava-lhe o appetite perdido, revigoravam-se-lhe os membros extenuados, corria-lhe nas veias mais vivificado o sangue que o desalento empobrecêra, e aquella mesma negrura de pensamentos, que o assombrava, parecia clarear-se progressivamente.
Bertha fizera-lhe já esquecer Gabriella. Era mais assidua á cabeceira do seu leito, mais exclusivamente devotada áquella obra de consolação, mais perspicaz em adivinhar-lhe os desejos, mais carinhosa na maneira de satisfazêl-os, e a ingenuidade quasi infantil das suas conversas tinha mais seducções para o fidalgo do que todas as galas de espirito com que a baroneza sabia temperar as suas.
As horas, que tão longas e fastidiosas se succedem na vida do doente, passavam para elle rapidas e desapercebidas, preenchidas pela companhia de Bertha.
A vêl-a trabalhar a seu lado, a ouvil-a fallar de Beatriz ou a conversar no mais trivial assumpto, a seguir-lhe com a vista os movimentos faceis que lhe recordavam a filha, a escutar pela voz d'ella a leitura dos livros de imaginação a que a baroneza o habituára, D. Luiz esquecia o tempo e os ponderosos motivos da sua usual melancolia. Um dia manifestou desejos de ouvir Bertha tocar.
Na manhã seguinte a harpa de Beatriz era transportada para junto do leito do doente, e sob os dedos de Bertha o magico instrumento, que serenava as furiosas allucinações de Saul, provou mais uma vez a sua efficaz influencia moral.
D. Luiz escutava-a commovido, e quasi sempre corriam-lhe as lagrimas ao expirarem as vibrações das ultimas notas.
Bertha fez-lhe ouvir, uma por uma, todas as musicas que Beatriz tocava. Resuscitou-lhe o passado. Sob tão profundas impressões quasi se confundiam no espirito do ancião a imagem da filha que perdêra com a da affectuosa rapariga, que tanto lhe amenisava a existencia.
Foi cedendo á affavel violencia de Bertha e apoiado no braço d'ella, que trocou o leito pela poltrona ao lado da janella do quarto; que sahiu depois do quarto para a varanda do terraço, e que finalmente desceu as escadas que do terraço conduziam á quinta, á sombra de cujas arvores se costumára a passar as melhores horas do dia.
Era ahi que tinham logar as leituras quotidianas, que já tão necessarias lhe eram. Bertha interrompia-as apenas, para lhe fazer escutar o cantico dos passaros na espessura das arvores, ou para lhe ir colher uma ou outra flôr, com que bizarramente enfeitava a lapela do casaco do fidalgo. A influencia de Bertha sobre elle era já por todos conhecida, o que valia á gentil rapariga os mais expressivos signaes de deferencia de todos quantos a tractavam.
Frei Januario era o mais desconfiado, mas ainda assim não se mostrava de todo insensivel ás attenções que Bertha lhe dispensava e que muito o lisongeavam.
Bertha era feliz n'aquelles dias.
Para a sua alma generosa era motivo de jubilo a ideia de que alguem lhe devia a felicidade.
Ao sentir voltar a vida ao rosto de D. Luiz e a serenidade ao seu espirito atribulado, quasi esquecia, no enlevo em que esta observação a arrebatava, a grandeza do sacrifício, que pouco tempo antes realisára e a dolorosa violencia com que esmagava ainda no coração o affecto mais vivaz que lá nascêra.
Era grata a D. Luiz pelo bem que ella propria lhe fazia.
Um dia Bertha erguêra-se, como costumava, muito cedo para correr a quinta a fim de colher o ramo com que adornava a mesa do almoço de D. Luiz.
Todos os dias se renovava este ramo e todos os dias o fidalgo consagrava alguns momentos ao exame e á analyse das diversas flôres que o compunham.
Bertha esmerava-se muito n'esta tarefa para obter sempre effeitos novos, que merecessem as attenções e applausos do padrinho.
N'esta exploração attingia ella sempre os terminos da quinta. Chegára aquella manhã ao portão de ferro da entrada opposta á casa e trazia já na mão uma variada cópia de flores, quando lhe pareceu que alguem parava de fóra das grades a observal-a.
Voltou-se e reconheceu Clemente.
Bertha estremeceu e sentiu sobresaltar-se-lhe pouco agradavelmente o coração, á vista do seu noivo. Tão longe tinha n'aquelle instante o pensamento do futuro que a vista de Clemente lhe recordava, que a surpreza da transição foi cruel.
Demais era a primeira vez que se achava na presença de Clemente, depois do ajuste do casamento, o que sobremaneira augmentára a sua confusão.
Concentrando porém toda a sua coragem, saudou-o affectuosamente.
Mais confuso ainda do que ella, retribuiu-lhe Clemente a saudação.
—Quer entrar?—perguntou Bertha, caminhando para a portaria.
—Não, menina; passei aqui por acaso… É verdade, que desejava fallar-lhe… mas outra vez será.
—E porque não ha de ser já?—tornou Bertha, abrindo a porta.—Depois do que se passou é indispensavel que conversemos, não é verdade? Eu tambem tenho precisão de fallar-lhe, snr. Clemente.
—N'esse caso aqui estou para ouvil-a, Bertha.
—Olhe, sentemo-nos mesmo aqui. Não acha?—disse Bertha, preparando logar em um monticulo de relva que as folhas cahidas tapetavam.—Está-se aqui tão bem como dentro de uma sala.
Clemente tomou timidamente logar ao lado d'ella.
Bertha soltou no regaço as flores que colhêra, e fallando occupava-se a dispôl-as em ramo, como se facilitasse d'aquella maneira o desempenho da missão que se propunha.
Clemente escutava-a.
—Está já informado, snr. Clemente, do que respondi á proposta que, em seu nome, me fez… o filho do snr. D. Luiz?
—Sim, Bertha, deram-me essa resposta, que muito me alegrou; mas desejava saber da sua bôca se foi de livre vontade e por que lh'o dictava o coração que a deu assim.
—Por minha vontade foi. Ninguem me obrigou a responder como respondi. Agora se foi do coração… Era sobre isso mesmo que desejava fallar-lhe, snr. Clemente.
Clemente respondeu um pouco inquieto:
—Falle, Bertha, que eu escuto-a com attenção.
—Snr. Clemente, devo ser franca e leal comsigo, e fazer-lhe uma confissão completa dos meus sentimentos, para que pense bem antes de se resolver a dispôr assim do seu futuro. Não posso dizer que fosse o coração que me dictasse a resposta que dei. Se o dissesse, nem o snr. Clemente me acreditaria; não é verdade? Bem vê, eu mal o conhecia, quasi que nem tinhamos fallado ainda, eu vivi até agora longe de si e nenhum de nós costumava pensar no outro. Pois não é assim? Quando ouvi a sua proposta, surprendeu-me por inesperada; respondi como sabe; mas é claro que não podia ser do coração a resposta.
Clemente fez um gesto de assentimento, mas tornou-se melancolico.
—Mas, perguntará o senhor, porque respondi eu então assim, tão prompta, sem hesitar? Vou dizer-lh'o, snr. Clemente, vou dizer-lhe toda a verdade, e resolva depois o que deve fazer. Eu não podia esperar que o coração respondesse, porque sabia que elle já não podia dizer que sim a uma proposta d'aquellas.
Clemente, que julgava comprehender o enleio crescente e as palavras hesitantes de Bertha, iníerrompeu-a dizendo:
—Já? disse que já não podia? Já? Bertha teria acaso alguma inclinação a que o meu pedido viesse causar mal?
Bertha, córando, replicou firmemente:
—Havia no meu coração um outro affecto, havia, o primeiro e unico d'essa natureza que n'elle tinha de nascer; mas não lhe causou mal o seu pedido, Clemente. Esse affecto, de que me não envergonho, nasceu, mas não podia viver. Era preciso suffocal-o. Oppunham-se-lhe tantos obstaculos, que não podia haver futuro para elle. Era como uma arvore de grandes raizes que nascesse em um vaso apertado. Nunca eu mesma me illudi com elle. Esta era a confissão que devia e queria fazer-lhe, Clemente. Julguei que poderia, sem indignidade, aceitar a sua proposta, dado que lhe fallasse lealmente, como lhe estou fallando; desde que lhe dissesse: não ha amor no meu coração para lhe offerecer, não o podia haver; estimo-o como um homem honrado e aceito para mim o destino de lhe servir de companheira na vida. É a missão de uma mulher, e eu tenho coragem de cumprir no mundo a minha missão. Amizade leal, respeito, dedicação, posso prometter-lhe, mais não, que não tenho para dar.
—Mas….—balbuciou Clemente, que não podia disfarçar a sua perturbação—mas esse homem existe?
Bertha córou instantaneamente ao ouvir a pergunta.
—Existe—respondeu, porém sem hesitar—e ama-me. Mas elle tambem sente, como eu, a necessidade de vencer este affecto. E ha de vencêl-o ou pelo menos occultal-o no coração, porque é forte. A consciencia do dever ajudar-nos-ha a ambos a vencer esta loucura. Bem vê que lhe chamo loucura. Mas deixe-me dizer-lhe, Clemente, se, depois da confissão que lhe fiz, se abriu no seu espirito uma entrada para a desconfiança, peço-lhe por piedade que desista da sua proposta, emquanto é tempo.
—Não me entendeu, Bertha. Creia que eu sei ter na devida conta a lealdade com que me está fallando, e que mais do que nunca sinto por si a maior consideração e estima. Se a escolhesse para esposa, juro-lhe que, apesar da sua confissão—não digo bem—por causa até da sua confissão, teria em si tanta confiança, Bertha, como em mim mesmo. O que me faz pensar é outra coisa. Se esse homem existe, porque é que a menina perdeu já as esperanças e quer assim tornar impossivel o que ainda o não é?
—É impossivel, é, Clemente.
—Ora é! Quem sabe? Eu não queria ser um dia o obstaculo da sua felicidade. Nem de tal me quero lembrar!
—Clemente, supponha que em vez da confissão que lhe fiz, eu lhe tinha dito apenas: Sonhei um dia com um noivo, que não se parecia comsigo, Clemente. E tão louca sou, que me ficou ainda d'aquelle sonho uma vaga saudade no coração. Por isso não m'o occupa inteiro o affecto que tenho para lhe consagrar. É assim que posso offerecer-lh'o. E agora resolva como se assim lhe tivesse fallado. Bem vê que nunca se arriscará a ser estorvo a uma felicidade… que se sonhou.
—Mas, valha-me Deus, Bertha, os sonhos que nunca sahem certos são os que se sonham a dormir… e até esses ás vezes…
—Ha-os que se sonham em vigilia menos realisaveis ainda.
—Mas em todo o caso… Não me leva a mal se eu pedir tempo para reflectir?
—De certo que não. Para isso mesmo foi que lhe fallei assim.
—É um anjo, Bertha, e creia que se tenho duvidas, é porque não queria ser nunca estorvo á sua felicidade. A tempo lhe darei a resposta.
E Clemente sahiu d'alli pensativo e indeciso sobre a resolução que deveria adoptar.
Pensava o pobre rapaz:
—A final de contas ella gosta do outro. É o que isto tudo quer dizer. Então que faço eu em metter-me de permeio n'estes amores? Mas… são amores impossiveis, diz ella, até lhes chamou loucuras; e espera que os cuidados da familia lhe ajudem a esquecêl-os. Mas se não esquecer?… Não receio d'ella, isso não. Aquillo é alma que se não perde nem atraiçoa. Mas, se por acaso os taes obstaculos desappareciam e ficasse eu só no logar d'elles? Ah! Sancta Virgem! Era para um homem pôr fim á vida! Porém ao mesmo tempo a rapariga falla com uma segurança, como se este caso fosse impossivel. Impossivel! E porquê? Quem será elle, o tal? Amores que ella trouxe da cidade…. Alguem que já a esqueceu e que talvez nunca lhe quizesse devéras. Se eu adivinhasse que era isso, aceitava. Porque emfim aquillo esquecia, e… e eu creio que haviamos de dar-nos bem. Veremos o que pensa minha mãe. Mas que póde ella pensar? Que sabe ella mais do que eu? Aqui o que era preciso era quem me informasse dos taes amores. Se eu procurasse o snr. Jorge? Elle é tanto de casa do Thomé, que talvez… Elle está agora na Casa Mourisca. Pois vou lá.
E, em harmonia com esta resolução, tomou o caminho do antigo solar do fidalgo.
Jorge encerrara-se nos ermos aposentos d'aquelle sombrio palacio, não só para trabalhar, como para procurar allivio aos dolorosos golpes de coração, que lhe sangravam ainda.
Fizera-lhe companhia o jardineiro, que não quiz ficar nos Bacellos quando soube que Jorge partia. Era a unica pessoa que tinha ao seu serviço.
Jorge entregara-se ao trabalho com mais assiduidade e ardor do que nunca. Erguia-se cedo, prolongava por noite alta as suas vigilias; mas se conseguia com estes esforços adiantar o serviço, não obtinha d'elles a realisação do seu principal empenho: acalmar as torturas moraes com que viera para aquella solidão.
As poucas horas de somno eram-lhe agitadas por sonhos fatigadores, e sempre uma ideia fixa e amarga lhe occupava o pensamento, ainda quando mais absorvido pelo estudo.
Atravéz das mais fortes distracções sentia como que a sombria projecção de uma nuvem negra.
Quando um poderoso motivo de desgosto nos amargura o coração, não é de todo impossivel afastal-o do pensamento por um esforço de distracção, mas a impressão dolorosa que elle produziu não se desvanece completamente; persiste um vago sentimento de mágoa, um indefinido mal-estar, que ainda n'esses raros instantes nos afflige, sem que o expliquemos.
Estava-se dando com Jorge este phenomeno.
Conseguia fixar a attenção no estudo, vencer as difficuldades de um problema, profundar as questões mais obscuras, mas o espirito mantinha-se doente; estas victorias da intelligencia não lhe provocavam aquelle prazer, que de ordinario as acompanha. Parecia que o coração perdêra a elasticidade necessaria para vibrar d'essa maneira.
Quando se trabalha em taes disposições de animo, o esforço extenua a actividade do espirito, toma o caracter de uma febre consumptiva, de uma chamma que se alimenta gastando as forças e a vida.
Depois havia momentos em que os instinctos se revoltavam contra a tyrannia da razão, em que os gelos do temperamento de Jorge como que se fundiam no calor do seu sangue de adolescente; e então com um frenesi de desespero concebia os mais arrojados projectos. Resolvia romper com todos os preconceitos, com todas as considerações sociaes, e obedecer sómente aos impulsos do coração, que elle julgava n'esses momentos os unicos authorisados motores das acções do homem. A estes paroxismos succedia um desalento mais profundo e uma sombria tristeza.
E o resultado d'esta lucta moral, d'este isolamento, d'este excesso de trabalho, revelava-se-lhe no semblante alterado e na pallidez, que augmentava de dia para dia.
A amargura d'aquelles dias passados nas salas desertas e nas devezas melancolicas da Casa Mourisca, havia-o abatido a um ponto, que ao chegar á presença d'elle, Clemente encarou-o com gesto de espanto.
Jorge interrogou-o, sorrindo:
—O que me achas tu, para me fitares com esses olhos?
—O snr. Jorge tem estado doente?!
—Não; vou passando bem. Parece-te que tenho cara de doente?
—Sim; acho-o descórado e abatido—disse Clemente, procurando disfarçar as apprehensões que sentia ao vêl-o.—Não trabalhe tanto, snr. Jorge.
—Isto não é de trabalhar. Uma noite de bom somno far-me-ha voltar ao que fui. Então o que te traz por aqui?…
—Venho consultal-o.
—Ha tempos a esta parte obrigas-me a funccionar como conselheiro, sem que eu saiba bem em que mereci a honra da nomeação. Ora dize lá o que me queres.
—Tracta-se ainda do mesmo negocio do outro dia.
Jorge fez um gesto de impaciencia e desagrado.
—Pois não está já tudo decidido? Que mais queres? A respeito de enxoval não dou conselhos.
—Nem tudo está decidido, não senhor.
—Então?
—Eu lhe digo o que se passa.
E Clemente narrou a Jorge a substancia da entrevista que tivera com a sua noiva.
Custou a Jorge occultar a perturbação que lhe causava a narrativa. No fim conseguiu perguntar com apparente frieza:
—E que queres tu que eu te diga?
—Queria que me dissesse se por acaso sabia alguma coisa d'estes amores.
Jorge saltou na cadeira e olhou para Clemente, fazendo-se excessivamente córado.
—Eu?! E porque é que hei de saber d'esses amores?
Clemente, admirado do effeito das suas palavras, disse com hesitação:
—Lembrava-me… como é amigo do Thomé da Povoa… talvez soubesse…
—As relações que possa ter com o pae não me habilitam a devassar o coração da filha; mas que desejavas tu saber d'esses amores? Não te disse ella que era como se não existissem? que nasceram sem faculdades para viver? O que te resta é julgar por ti se nas condições em que Bertha aceita a tua proposta, ainda podes insistir em fazêl-a.
—Pois é isso mesmo. E depois de a ouvir hesito.
—Duvídas de Bertha, não é verdade? Receias que esses amores não lhe morram no coração e que um dia revivam como a lavareda quando se desfaz o monte de cinzas que a suffocava? Se assim é, se não tens no caracter de Bertha a precisa confiança que devemos ter na mulher que escolhemos para companheira na vida, se não repousas cegamente n'ella, na sua lealdade, nas suas virtudes, então desiste, porque irias envenenar a tua vida com ciumes e a d'ella com suspeitas injuriosas.
—Não desconfio de Bertha; mas queria saber porque julga ella impossivel esse amor que sente, para vêr se a mim me pareceria tambem que o era. Quem sabe lá se o é? E se deixar de sêl-o por o motivo de hoje e o fôr por Bertha ser minha mulher? Quem me podia curar d'este desgosto?
—Socega, Clemente, os motivos que hoje se dão, dar-se-hão sempre—disse imprudentemente Jorge.
—Pois sabe quaes são?!—perguntou Clemente admirado.
Jorge conheceu a indiscrição em que tinha cahido, e procurou emendal-a, dizendo:
—Não; mas se Bertha t'o assegurou… Ella não costuma ser irreflectida… E motivos ha na vida tão poderosos e permanentes, que póde bem predizer-se na presença d'elles a impossibilidade de um facto.
—Eu sempre os queria conhecer, para julgar por mim.
Jorge replicou com impaciencia:
—Julgar por ti! E quem te diz que saberias aprecial-os? Talvez os julgasses faceis de vencer, não obstante elles serem insuperaveis. Acredita o que te digo, Clemente. Um homem só póde ser perfeito juiz das acções de um outro, quando entre ambos se dão absolutamente as mesmas condições de existencia. Desde que estas variam, varía com ellas a maneira de vêr as coisas. O que para ti é um acto natural e facil, é para mim um impossivel, porque se lhe oppõe opiniões, sentimentos, crenças que me são proprias, que fazem parte de mim mesmo, de minha entidade moral, e que tu não possues e de que por ventura te ris. Por isso escusado seria talvez saber do segredo de Bertha mais do que o que ella te revelou. Crê sob a garantia da sua palavra que esses amores foram apenas uma phantasia da mocidade, que os rudes deveres da vida extinguirão, e resolve.
Clemente permaneceu ainda por muito tempo silencioso.
Jorge pôz-se a passeiar no quarto.
A final o noivo de Bertha ergueu-se e disse suspirando:
—Bem; veremos o que pensa minha mãe.
—E que direito tens tu de ires fallar a tua mãe nas confidencias de
Bertha?—interpellou-o Jorge, com uma vehemencia que sobresaltou
Clemente.
—Devo confiar em minha mãe, pelo menos tanto quanto confiei no snr.
Jorge. Bertha não m'o levará a mal.
Jorge reprimiu-se ao responder:
—De certo que não acho mais justificado o escolheres-me para confidente. Emfim, faze o que quizeres, mas… segue principalmente o que te dictar a consciencia.
Clemente sahiu mais pensativo do que viera.
O desconsolado noivo estranhára Jorge. A maneira por que elle lhe fallou fôra tão fria e desabrida e de tão difficil explicação, que não podia Clemente atinar com o motivo d'aquillo. A ultima reflexão, sobre tudo, deixou-o muito sentido. Jorge pozera em duvida o direito que elle tinha de consultar sua mãe n'este negocio! Pois não era ella a mais natural conselheira que elle tinha no mundo? E não pedia o caso o conselho de pessoa experiente?! Poderia Bertha levar-lhe a mal a precaução que tomava principalmente em vista da felicidade d'ella?
Mas emfim Jorge dissera-o e Clemente, a seu pesar, começou a sentir escrupulos.
De feito aquelle segredo não era seu, e Bertha não o tinha authorisado a revelal-o. Já em communical-o a Jorge exorbitára.
E no meio d'estas alternativas de resoluções entrou cabisbaixo e assombrado em casa, e não fallou em coisa alguma a sua mãe.
Esta ao vêl-o assim, attribuiu o facto a impaciencias do amor. A ida de Bertha para a companhia do fidalgo prorogára o prazo para a fixação do casamento, e Anna do Védor conjecturou que era isso que contrariava o filho.
Resolveu pois fallar a Thomé para apressar quanto podésse a festa, porque ella sabia que D. Luiz estava melhor, e que até já andava a pé, e portanto era justo que prescindisse de Bertha, que não se destinava a fazer-lhe eternamente companhia.
XXXI
Chegaram cartas da baroneza e de Mauricio, datadas de Lisboa. As noticias que davam eram satisfactorias. Mauricio fôra hospedado em casa de um primo remoto de D. Luiz e por elle introduzido nos primeiros circulos da cidade, onde recebeu um lisongeiro acolhimento.
Mauricio achava-se n'aquelle mundo, novo para si, como se n'elle tivesse sido educado. Sentia-se bem alli, agradavam-lhe aquelles habitos de elegancia e de distincção, que não conhecêra no canto de sua provincia, mas cuja necessidade vagamente experimentava havia muito tempo. Era para aquelle viver que os seus instinctos o inclinavam.
Quando se viu alli respirou com o desafogo de quem sahe de um ambiente que o asphyxiava. Não necessitou de longo tirocinio para conhecer os usos d'aquella sociedade e adoptar-lhe os costumes. Em poucos dias não restavam n'elle vestigios sequer do seu provincianismo. Uma forte vocação substitue um lento noviciado. Os homens acharam-n'o espirituoso; as mulheres, amavel; e para com todos soube ser tão insinuante, que os influentes politicos, a quem a baroneza o recommendára, tomaram por elle o mais vivo e promettedor interesse.
Escusado é dizer que Mauricio não foi muito escrupuloso na observancia dos artigos de fé politicos com que D. Luiz doutrinára os filhos. Para genios como o de Mauricio, um dos maiores achaques que póde ter uma ideia é o estar fóra da moda.
Jorge sentia que não lhe era possivel abraçar a crença do pae, porque a razão a condemnava; e estas convicções para toda a parte o acompanhariam, porque procediam de um juizo claro e de uma aturada reflexão.
Mauricio, apesar de nunca ter adherido manifestamente ao credo paterno, só agora parecia havêl-o devéras renegado, porque o desgostavam os ares de sédiço e desusado, com que elle lhe apparecia á esplendida claridade dos salões da moda.
Tudo quanto havia de eminente no jornalismo politico, na litteratura, no parlamento, no fôro, constituia agora o circulo habitual das relações de Mauricio, e nas conversas animadas, cheias de vivacidade, brilhantes de eloquencia e de espirito, em que elle tambem tomava parte, jogavam, como principios assentes, certas proposições que elle fôra educado a considerar como abominaveis heresias.
Isto era o bastante para que elle abjurasse o credo velho com que o haviam catechizado na provincia e professasse a doutrina nova.
A baroneza, que revelava tudo isto muito extensamente a Jorge, colorira e occultára parte da verdade a D. Luiz, para não o assustar.
Ella porém via com prazer o exito do seu protegido, que excedia a sua espectativa.
«Em pouco tempo—escrevia ella a Jorge—teu irmão tornou-se um homem da moda, e é para ver o bem que elle sabe sustentar a posição que tomou de assalto. Nas frisas de S. Carlos, nos primeiros salões de Lisboa, Mauricio está como em terreno conhecido, e muitos nados e creados n'estes ares invejam-lhe o seu aplomb e o seu savoir faire inimitaveis. O ministro dos negocios estrangeiros, a quem muito especialmente o recommendei, dá-me as melhores esperanças de elle ser despachado como addido para o corpo diplomatico, carreira que sobre todas me parece a mais talhada para as predilecções e talentos do nosso protegido.»
Estas noticias foram recebidas com prazer por Jorge e por D. Luiz. Este recordou-se, ao lêl-as, do tempo da sua juventude, em que tambem trilhára a carreira da diplomacia. Jorge conhecia a fundo o caracter do irmão e sentia que elle tinha de facto entrado no caminho para onde o chamavam os seus talentos e as suas disposições moraes.
A imaginação de Mauricio era muito poderosa e exigente, as tarefas proveitosas, mas modestas, o trabalho na obscuridade da provincia, a consagração de uma vida inteira ao cumprimento de um dever, não lhe bastavam.
Uma impaciencia insuperavel desviava-o d'esse caminho.
As brilhantes apparencias, a vida agitada, a variedade de impressões, as luctas incessantes, alimento da febril anciedade que devora certos espiritos, eram-lhe indispensaveis. Sob a influencia de taes estimulos, as suas faculdades entravam em acção. Não se contentava com os applausos da consciencia propria, precisava dos applausos do mundo. Para os conquistar tentaria esforços sobrehumanos.
Jorge era uma alma formada para o dever; Mauricio uma alma formada para a gloria.
D. Luiz não pôde deixar de sentir-se lisongeado com o bom exito do filho, não obstante as vagas apprehensões que sentia de que a intima convivencia com a corrupta mocidade da côrte o contaminasse. Felizmente o velho realista não tinha já a seu lado o padre procurador, com a sua incessante prégação contra os costumes do seculo, que era d'antes o thema obrigado das conversações diarias. E desde então as prevenções do fidalgo haviam perdido muito das côres carregadas que as tingiam.
Ás primeiras cartas seguiram-se outras, confirmando as noticias dadas n'aquellas.
As auras continuavam a soprar favoraveis a Mauricio nos mares insidiosos da côrte. A baroneza dava quasi como certo o proximo despacho d'elle para addido a uma embaixada de Vienna ou de Berlim.
Mauricio relacionara-se intimamente com os primeiros personagens da situação politica dominante, que se interessavam por elle. As sympathias femininas, poderoso elemento de prosperidade n'aqueilas altas regiões, como em geral em todas, conspiravam tambem a seu favor.
«Com mais um pequeno esforço talvez fosse possivel fazêl-o ministro, (escrevia a baroneza a Jorge) que não é em Portugal dos postos de mais difficil accesso. Ministro da marinha pelo menos, que é a pasta dos principiantes e a mais adequada para os homens de imaginação como elle, onde teem muito com que a alimentar, porque é a pasta symbolica das nossas glorias passadas e pouco mais.»
N'esta mesma carta de Gabriella havia alguns periodos em que, usando de uma linguagem mais grave, ella fallava da probabilidade do seu casamento com Mauricio.
«Não attribuas este projecto a um mero capricho de mulher. Não é. Resolvi-me a dar este passo depois de ter reflectido o mais friamente possivel nas vantagens e consequencias d'elle. Mais tarde ou mais cedo eu tinha de contrahir segundas nupcias; a posição em que me acho e as impertinencias dos innumeros aspirantes á minha mão, ou antes aos bens que herdei de meu marido, assim o exigiam. Era difficil deixar de ceder. A minha sympathia por Mauricio é um motivo de preferencia muito justificado. Nenhum candidato me agradava mais, o que não quer dizer que me sinta apaixonada. Mas muito teria que esperar se aguardasse por uma paixão para me decidir. Já não estou em tempo d'isso. Mauricio é um rapaz amavel e delicado bastante para não me dar motivos de arrepender-me. É quanto exijo. Sou tolerante por indole e por habito, não terão portanto effeito sobre mim os costumados motivos de desolação de todas as esposas extremosas, motivos que muito provavelmente Mauricio não deixará de dar á sua. Isto pelo que me diz respeito. Quanto a elle, entendo que lhe convém este casamento. Primeiro, porque realisará uma operação financeira um tanto vantajosa; depois porque, graças á minha longanimidade, não peiará demasiadamente os seus movimentos de rapaz com os laços matrimoniaes, sem que por isso corra os precalços dos maridos pouco fieis aos lares domesticos. O Jorge faz-me a justiça de assim o acreditar, não é verdade? E finalmente porque d'esta maneira precavê-se contra alguma tentação, a que são sujeitas as cabeças como a d'elle, que em um momento de enthusiasmo transtornam todo o seu futuro. Casando commigo, fica livre de desposar a primeira dançarina de S. Carlos, que o fascinar. Em conclusão, creio que poucas mulheres poderiam como eu aceitar Mauricio para marido, com tanta probabilidade de não o fazerem infeliz nem de o serem. O que é preciso é aproveitar o ensejo em que Mauricio me faça a honra de uma preferencia. Por isso talvez qualquer dia surprendamos o tio Luiz pedindo-lhe a authorisação necessaria. Espero que o Jorge advogará a nossa causa. Perdoa-me se alguma leviandade descobrires ainda n'esta minha resolução. Acredita porém que nunca pude ser mais séria do que o estou sendo, ao escrever-te esta carta.»
Havia ainda um post-scriptum, em que ella acrescentava:
«Bertha ainda está nos Bacellos? Será bom que se demore. Nunca é tarde de mais para o tal casamento, com o qual por emquanto me não pude conformar.»
A communicação que lhe fazia Gabriella surprendeu em extremo Jorge, que muito longe estava de prevêl-a. Reflectindo porém, acabou por achar que a prima tinha razão e por convencer-se de que, não obstante o tom ligeiro da carta que lêra, expunham-se n'ella razões de pêso para justificar o facto annunciado.
Casando com a baroneza, Mauricio precavia-se contra si proprio e ligava-se a uma mulher, que por as especiaes disposições de sua indole, saberia respeitar o nome do marido, sem que a fizessem desgraçada os provaveis desvarios d'elle.
Effectivamente, conforme o que a baroneza predissera, semanas depois era D. Luiz surprendido por uma carta d'ella e outra de Mauricio, pedindo-lhe o beneplacito para o referido casamento.
O fidalgo recebeu com prazer a inesperada nova.
Gabriella era por muitos motivos uma esposa que para qualquer dos seus filhos elle ambicionava. Joven, rica, de sangue igual ao seu, e de sentimentos elevados sob a frivola apparencia de que os revestia, a baroneza augurava um auspicioso futuro ao homem a quem désse o titulo de marido. Para Mauricio seria demais uma prudente conselheira e um obstaculo a muitas loucuras que, entregue a si ou a peior vigilancia, o rapaz não deixaria de commetter.
Por isso D. Luiz, com animo folgado e um sorriso expansivo a alizar-lhe na fronte e nos labios a contracção habitual, apressou-se a responder ao pedido nas mais benevolas e lisongeiras phrases que lhe inspirava o seu bom humor.
Bertha veio dar com elle sentado á secretária a escrever. A filha de
Thomé da Povoa quiz retirar-se para não o interromper.
D. Luiz, conhecendo-lhe os passos, disse sem desviar os olhos do papel em que escrevia:
—Entra, Bertha, entra, que não me incommodas.
E, sentindo-a mais perto, acrescentou:
—Sabes o que estou fazendo?
—A escrever; bem vejo.
—Sim; mas a quem?
—A seu filho Mauricio talvez.
—A Mauricio e a Gabriella tambem. E sabes a respeito de quê?
—Eu, não.
O fidalgo terminava n'aquelle momento a assignatura no extremo inferior da pagina, e só depois de concluil-a foi que, voltando-se para Bertha, continuou:
—Authoriso um casamento.
—Um casamento?!
—É verdade. Havia alguem de suppôr que o Mauricio se casava?!
—Casa-se! Com quem?
—A vêr se adivinhas.
Bertha reflectiu alguns instantes.
—E eu conheço a noiva?
—Conheces perfeitamente.
—Então não póde deixar de ser a snr.ª baroneza.
—Justamente. É Gabriella.
—É uma felicidade para elle.
—Assim tambem o julgo. Se alguem se aventura n'este casamento é a noiva.
—O snr. Mauricio tem uma boa alma, não dará motivos de arrependimento a quem depositar confiança n'elle.
—Hum! É muito rapaz—murmurou o fidalgo, fingindo sentir contra o filho maiores prevenções do que effectivamente sentia.
Bertha julgou que era occasião opportuna de pôr em pratica um projecto, que desde madrugada meditava.
Thomé da Povoa tinha-a na vespera procurado para lhe fallar na visita que recebêra da mãe de Clemente, e no que ella lhe dissera sobre o desgosto em que andava o filho com a demora do projectado casamento. Thomé não queria apressar a sahida de Bertha dos Bacellos, mas, lembrando-se de que o fidalgo ia melhor e de que, por certo, não seria elle o primeiro a dizer a Bertha que prescindia dos seus cuidados, pensava que seria bom que ella lhe insinuasse a necessidade de separação e para isso bastava pedir-lhe, como a padrinho que era, licença para o casamento que se ajustára.
Bertha perguntou ao pae se tinha já a certeza de que Clemente estivesse ainda resolvido a insistir na sua proposta. Thomé admirou-se da pergunta, porque nada sabia da conferencia da filha com o noivo, e assegurou-a de que a resolução de Clemente era ainda a mesma, visto que a mãe n'aquelle mesmo dia lhe viera recordar o ajuste.
Em vista d'esta declaração, Bertha prometteu fallar n'aquelle objecto a D. Luiz no dia seguinte, e era esse o ensejo que ella desde pela manhã procurava.
O assumpto a que a coincidencia das cartas de Mauricio e da baroneza chamava a conversa, preparára excellentemente o caminho para o pedido de Bertha.
Aproximando-se da cadeira em que estava sentado o padrinho, disse-lhe com o tom de affabilidade com que aprendêra a dominal-o:
—Já que está em maré de condescender com os pedidos que lhe fazem, não quero perder a occasião de lhe fazer um tambem.
—Ah! tens um pedido a fazer-me?
—Tenho. E tão parecido com esse!
—Com esse… qual?
—Com o que lhe fez seu filho.
—Com o pedido de Mauricio? mas… então tracta-se de casamento?
—Sim, meu padrinho. É de um casamento que se tracta.
—De quem?—interrogou o fidalgo, fitando os olhos em Bertha.
—De quem ha de ser, se sou eu a que peço?—respondeu esta, baixando os seus, e não podendo disfarçar a melancolia que ainda lhe causava aquella ideia.
—Tu?!—exclamou D. Luiz sobresaltado, e voltando-se rapidamente—Tu queres… tu vaes casar-te?!
—Sim, snr. D. Luiz, está decidido que isso se faça e eu peço-lhe licença para o fazer.
—Tu casares-te, Bertha!—repetia o velho como se lhe fosse difficil conformar-se com essa ideia—mas… com quem?
—Com o filho da Anna do Védor, com Clemente.
D. Luiz deu um salto na cadeira, ao ouvir a resposta, e bateu com a mão na banca que tinha diante de si.
—O quê?!… Ora adeus! Tu estás a brincar commigo.
—Não, meu padrinho, fallo-lhe sériamente.
—Com o Clemente?! Tu casares com o Clemente? Tu, uma rapariga delicada, de educação, de gosto, de sentimentos elevados, casares-te com um rustico, com um rapaz que quando muito saberá escrever o seu nome! com o filho da Anna, com o snr. regedor! Isso não tem geito nenhum. Isso é um disparate de tal ordem!… Quem foi que se lembrou de tal?!
—Clemente pediu-me a meu pae…
—E teu pae concedeu? Coisas do Thomé a final. Mas tu? tu, Bertha, tu consentiste!?
—Clemente é um bom rapaz, honrado, amigo do trabalho…
—Ora adeus, amigo do trabalho, honrado, e é isso bastante para que uma rapariga como tu vá sacrificar o seu futuro e ligar a sua existencia á de um homem que não póde servir-lhe de boa companhia?!
—E porque não póde, meu padrinho? Elle é bom e delicado, dizem.
—Oh! que grandes delicadezas as de Clemente! Nem tu sabes o que vaes fazer, Bertha. Pois devéras o coração approva essa escolha?
—Não, snr. D. Luiz, não é que o coração m'a peça, porém…
—Então quem te obriga? Por acaso teu pae violenta-te?
—Tambem não; mas o padrinho sabe que nem sempre o coração é bom conselheiro. Mais vale ás vezes não esperar que elle escolha. Oh! se mais vale! Podendo-se decidir a sangue frio e antes que o coração decida, mais vale.
—O Clemente não póde ser teu marido. Tu, Bertha, tu a quem Deus concedeu qualidades tão distinctas, que melhor estarias n'essas casas nobres que por ahi ha do que algumas raparigas atoleimadas que por lá tenho encontrado, tu, que me recordas a minha pobre Beatriz, que pareces ter herdado os modos, os gostos, os sentimentos d'ella, tu has de ir casar com o Clemente! Nem quero ouvir fallar mais n'isso.
—A sua muita bondade para commigo, padrinho, é que o cega. Pois diga a que posso eu a final aspirar?
—A que podes aspirar?!—exclamou o fidalgo, a quem a exaltação de espirito, que o pedido de Bertha produzira, quasi fazia esquecer os seus principios mais radicados—aqui, n'esta terra de selvagens, não podes aspirar a mais, porque não ha quem te mereça até. Aqui nem sequer por sonhos se sabe o que é delicadeza de sentimentos, nem sequer de longe se aprecia essas nobres qualidades de coração e de espirito de que Deus te dotou, e que tu queres perder na convivencia com um homem grosseiro, e que nem póde conhecer o thesouro que deseja possuir.
—Mas, snr. D. Luiz, que outra póde ser a minha sorte? Ora diga.
D. Luiz, fazendo um gesto de despeito, respondeu com vehemencia:
—Pois bem, queres ser mulher de Clemente, não é assim? queres ir sacrificar os teus merecimentos a esse homem? queres dedicar-lhe todo o teu futuro, consagrar todos os teus pensamentos, todas as tuas aptidões aos arranjos da casa da Anna do Védor? Pois bem, faze a tua vontade. Mas escusas de vir pedir o meu consentimento. Eu não quero ficar com remorsos de ter sanccionado um disparate d'essa marca. Tu mulher de Clemente! Vossês, as raparigas, a final são todas assim, as mais ajuizadas, ou tarde ou cedo, cahem em uma loucura, como para mostrarem que são mulheres. Para que vens pedir-me conselho, se formaste o proposito de não o escutares? Anda lá, faze a tua vontade, e Deus queira que te não arrependas, quando já não fôr tempo. Tu não necessitas do meu consentimento, faze lá o que quizeres.
E D. Luiz encostou-se á mesa com gesto e movimentos de amuado.
—Porém, meu padrinho—insistiu Bertha, poisando-lhe as mãos no hombro com a doce familiaridade de filha—não era esse consentimento de má vontade que eu lhe pedia; esse não me trará felicidade, bem vê.
—Queres talvez forçar-me a dizer que approvo um casamento, contra o qual se revolta a consciencia? É boa!
—Mas pense bem e talvez que a sua consciencia não ache motivos para revoltar-se.
—Sabes que mais? Dize que amas esse homem, que sentes por elle uma inclinação irresistivel, e então eu entenderei a tua insistencia.
—Não digo, porque não diria a verdade.
—Mas então onde está essa necessidade de casamento?
Bertha sentiu que devia fallar com toda a gravidade ao padrinho para convencêl-o.
—Olhe, snr. D. Luiz—disse ella—eu vou informal-o de todo o meu pensamento, e dirá depois se tenho razão. A educação que meu pae me deu não me cegou a ponto de illudir-me a respeito do meu futuro e do destino que me está reservado. O exemplo de minha mãe, que tem sabido em toda a sua vida ser a companheira fiel de um homem de trabalho e tem comprehendido que a sua missão era aquella, a de fazer-lhe esquecer em casa os desgostos de fóra e dar-lhe forças para continuar a sua tarefa, este exemplo nunca o perdi de vista; entendi sempre que terá de ser esse o meu papel n'este mundo, e nem me envergonhei nem me temi nunca d'elle. Sentia em mim forças para aceital-o e para cumpril-o.
—Mas nem só os homens do trabalho material e grosseiro são os que precisam d'esse conforto da casa e da familia. As lidas de intelligencia tambem cansam, Bertha, e á cabeça desfallecida á força de estudo tambem é grato encontrar um seio amigo aonde se encoste a descançar—redarguiu o fidalgo com uma animação excepcional.
Bertha tornou-lhe, sorrindo:
—E qual seria a cabeça cansada de muito pensar que viria procurar a esta aldeia o seio em que repoisasse? De longe é de crêr que não viessem, e as d'aqui… ha tão poucas que se sintam cansadas d'isso! Creia, snr. D. Luiz, só um lavrador como Clemente procuraria a filha do lavrador Thomé da Povoa, e Clemente é um homem digno de ser estimado.
—Só um lavrador! Que estás tu ahi a dizer?! E porquê? Tomaram-te para esposa esses doutores que por ahi estão ociosos, comendo e bebendo á custa dos paes, e esquecendo o pouco que aproveitaram em Coimbra na vida inutil que levam; olha que não te haviam de engeitar esses morgados vadios e perdularios, que passam a vida em caçadas e que arrastam o nome que herdaram pelas tavernas e por todos os logares de devassidão.
—Esses engeital-os-ia eu. Pois julga que lhes não devo preferir
Clemente?
—Pois não digo esses, mas… emfim… ainda por ahi ha gente… bem educada…
—Se não fosse a sua muita bondade para commigo, o meu padrinho mesmo acharia natural este casamento, e pelo contrario estranharia se algum dos filhos d'essas familias que diz fosse procurar noiva á casa de meu pae.
O sentido epigrammatico d'esta resposta, dictado a Bertha por a nobre e justa indignação do coração, que depois de se haver sacrificado aos preconceitos de um homem, via o proprio por quem fizera o sacrificio negar a necessidade d'elle, feriu certeiro o fidalgo, que se sentiu vencido.
Mudou pois de tactica, e com a eloquencia que lhe inspirava o receio de perder a companhia de Bertha, tornou:
—Muito bem, dizes que não amas esse homem, que não cedes a inclinação alguma do coração, aceitando-o por marido; que se o fazes é por julgares que é essa a tua missão de mulher, a de suavizar a vida de um homem, e de tornar-lhe mais facil o seu caminho no mundo. E para cumprires essa missão vaes deixar-me só, velho, doente, abandonado dos filhos, sem conforto algum na vida; só com as lembranças pungentes do meu passado, e isto depois de me habituares á tua companhia, depois de me haveres recordado as doçuras d'este viver ao lado de uma filha, doçura que o amargor das saudades me tirava dos labios havia muito tempo. Para que vieste então? Quem te chamou? Se eu tivesse ficado só, estaria morto talvez e seria feliz. Vieste para me obrigares a sentir agora esta separação; para me fazeres morrer de paixão no dia em que celebrares esse casamento. Que queres? Estava habituado a considerar-te quasi como uma segunda Beatriz que Deus me concedêra, e podes julgar se eu daria a Clemente uma filha minha.
—Meu padrinho!—exclamou Bertha, inquietando-se com a exaltação do fidalgo.
D. Luiz proseguiu sem a escutar:
—Mas que te importas commigo? Eu estou velho; as cabeças na minha idade vergam muito para a terra, pesam demasiado, não se póde exigir de umas mãos jovens a tarefa de as sustentarem. Ainda se fossem as de uma filha! Mas para que vieste? Julgas que me deixas forte? Estás enganada. Esta vida em mim é ficticia. É da tua presença que a recebo. Ámanhã que me deixes vêr-me-has mais prostrado do que me encontraste. Emquanto viveu a minha Beatriz, ninguem me viu fraquear. Dois mezes consecutivos, dois mezes, passei junto do leito onde ella agonisava, quasi sem dormir, quasi sem comer, e nunca me faltaram as forças, e desde o momento em que m'a tiraram dos braços para m'a encerrarem no tumulo, abandonou-me toda a minha energia, e cahi no leito quasi exhausto de vida. Mas vae, não quero sacrificar o teu futuro. A companhia de um velho cansa. Os corações na tua idade precisam de ar e de alegrias. Eu bem conheço isso; mas não me digas que é sómente a consciencia da missão que te compete na vida a que te impelle; essa bem a desempenharias tu aqui, e generosa e abençoada como nenhuma, porque nenhum coração receberá de ti consolação igual áquella que me dás; podes crêl-o, porque tambem poucos ha mais apertados de angustias e que ha tanto tempo abafassem como este meu. Mas queres deixar-me… Vae… vae, que eu não devo, nem quero impedir-te.
Havia tão sensivel commoção na voz com que D. Luiz pronunciára estas palavras, que Bertha sentiu o contagio d'ella, e pegando nas mãos do padrinho para as levar aos labios, disse-lhe sensibilisada:
—Ó meu padrinho, se é verdade o que diz, se a minha companhia lhe faz tão bem, ordene-me que fique, e ninguem me tirará de junto de si, e nenhuma sorte me será mais querida do que esta. Concorrendo para alliviar-lhe os seus soffrimentos, parece-me que estou cumprindo um encargo que Beatriz me deixou, e que ella do céo me sorri e agradece. Quer que não saia de ao pé de si? quer que lhe consagre todos os meus cuidados? fal-o-hei e fal-o-hei com prazer.
O velho cingiu a formosa cabeça d'aquella rapariga, que se lhe ajoelhava aos pés, e aproximando-lhe dos labios a fronte e as faces beijou-as a chorar.
—Obrigado, Bertha, obrigado por essas palavras que me entram pelo coração como um balsamo salutar. A minha vida não póde ser muito longa, filha, o teu sacrificio não duraria muito tempo… mas nem eu quero que faças promessas de cumpril-o. Só te peço que me dês algum tempo para responder á tua petição, e que até lá me não falles mais n'esse casamento. Eu pensarei e talvez… talvez me conforme com essa ideia, contra a qual ainda me revolto. Póde ser isto? Podes esperar na minha companhia alguns dias mais?