—Esperarei o tempo que quizer. E não pense por ora em tal casamento, se esse pensamento o afflige. Se soubesse nem lhe tinha fallado n'isto.
—Melhor foi que fallasses; é preciso pensar com vagar n'isso.
—Mas agora não, agora vamos até á quinta, que a manhã está bonita.
Em resultado d'esta conferencia nada ficou determinado emquanto á época do casamento. Thomé teve de dizer a Anna do Védor que o fidalgo ainda não podia prescindir da companhia de Bertha.
Anna não ouviu a noticia sem fazer-lhe commentarios, nos quaes havia algumas azedas allusões ao egoismo do fidalgo, que depois de offender o pae, assim se sabia apropriar dos serviços que lhe prestava a filha.
Cumpre porém notar que a boa Anna seria a primeira a aconselhar a Bertha que ficasse, porque sentia verdadeira pena do estado a que chegára D. Luiz.
XXXII
Não podia passar da ideia a Clemente a maneira insolita e quasi desabrida com que Jorge por duas vezes recebêra as suas consultas relativamente ao assumpto do casamento de Bertha.
Clemente conhecêra sempre em Jorge uma tal placidez de espirito, uma tal impassibilidade em presença dos casos mais estranhos, que não sabia como explicar aquella subita transformação.
Esta mudança em Jorge e a revelação que ouvira da bôca de Bertha tão preoccupado traziam o pobre rapaz, que não podia dispôr da attenção para outro objecto. Distrahiam-n'o estas ideias das suas tarefas diarias e agitavam-lhe o somno das suas noites.
Jogava-lhe alternadamente o pensamento com estes dois assumptos, como se joga com duas espheras em uma só mão; emquanto se arroja uma ao espaço, cahe a outra a occupar o logar que fica vazio. Ora succede que muitas vezes as espheras encontram-se e batem uma na outra; e que muito será para admirar se d'este choque resultar uma faisca? Pois com o jogo do pensamento póde succeder o mesmo. De duas ideias que se encontram, á força de se cruzarem muitas vezes no cerebro, póde sahir um clarão. Este phenomeno succedeu com Clemente.
Pensava elle uma noite no seu leito:
—Mas quem poderá ser o tal rapaz que Bertha diz que amou e que ainda ama? Porque será impossivel o casamento com elle? E Jorge tambem diz que o é. Elle parece que sabe a este respeito alguma coisa mais do que disse. Até quando lhe fallam n'isso se enraivece. Quando me lembro! Nunca o vi assim! Nem elle era d'aquellas coisas. Como está impertinente! Mas o tal rapaz, o tal rapaz? É claro que é conhecimento da cidade. Sim, porque da terra não póde ser… a rapariga já ha muito que d'aqui sahiu… e sahiu criança… Desde que chegou com ninguem tem convivido… a não ser com os fidalgos da Casa Mourisca, mas esses… É verdade que pelos modos Mauricio lhe arrastou a aza, como faz a todas, mas ella não lhe deu confiança; emquanto a Jorge… Jorge… Jorge…
De repente o filho da Anna do Védor sentou-se de um salto na cama e murmurára já audivelmente:
—Jorge! Querem vêr que…
E sem bem saber o que fazia, accendeu luz. Este movimento de instincto, pelo qual parece que queremos desfazer com a luz de fóra as meias sombras que dentro de nós escurecem ainda uma ideia, é frequente n'estas circumstancias. Clemente permaneceu sentado no leito com a vista fixa e o queixo apoiado na mão.
E continuava murmurando:
—E porque não? E a mim que não me tinha occorrido! É até o mais provavel. E assim explica-se tudo… A maneira por que elle fallou a primeira vez e hontem… Aquillo de sahir da casa dos Bacellos, quando ella foi para lá… E a tristeza em que anda… Mas então… E porque é impossivel? Ai, sim, o velho. Isso lá é verdade, quem fallasse ao velho em tal, o que ahi não iria!… Porém… morrendo o pae… já não havia tropeço… E ahi ficava eu… É o que eu digo… É verdade que o rapaz tem lá uns modos de pensar!
Aqui bateu Clemente uma palmada no travesseiro, exclamando quasi:
—E não é outra coisa! Agora é que eu explico tudo o que elle me disse… e ella tambem. É certo. Coitados! Se assim fôr… Mas é com certeza. Vou jural-o. Pois se não fosse… Ora se não é, é sem a menor duvida. Elles gostam um do outro. Bertha gosta de Jorge e o rapaz tambem gosta d'ella.
E formulando esta conclusão, Clemente, com abstracção igual á do philosopho que, excitado pela alegria de uma descoberta, sahiu como estava do banho a proclamal-a por toda a cidade, saltou da cama e começou a vestir-se com presteza sem reflectir no que fazia.
Já meio vestido foi que reparou que eram duas horas da noite e que portanto era aquelle acto extemporaneo. Com instinctiva repugnancia deitou-se outra vez.
Quando no decurso de uma noite nos luz assim de subito uma ideia, em busca da qual andavamos havia muito, quando nos occorre a solução de um problema em que meditavamos, impacienta-nos o imperturbavel silencio e quietação que nos rodeia, formando tão completo contraste com o tumulto que nos vae no pensamento. Anciamos pelo dia para ter a quem communicar a descoberta, e para a examinar á luz bem clara, e desenganamo-nos de que não fomos victimas de uma illusão nocturna.
Emquanto o dia não rompe, o cerebro é irritado por aquella sua creação, como o seio materno pelo ser desenvolvido; acabado o periodo da gestação mental é necessario que a ideia venha á luz, e qualquer demora é afflictiva.
Este phenomeno psychologico passava-se em Clemente. Custou-lhe a respeitar o somno da mãe, esperando a luz do dia para lhe transmittir a descoberta que fizera.
O resto da noite passou-o volvendo-se e revolvendo-se na cama sem poder dormir. Era quasi um estado febril o seu.
Incommodára-o a ideia de que a sua pretenção á alliança com Bertha era o motivo da tristeza de Jorge, e que, sem o saber, fôra elle o importuno despertador d'aquelle sonho em que se embalavam ambos, deixando-se amar, sem pensarem no futuro do amor a que cediam. Sonho irrealisavel embora, porém Clemente não quereria ter sido quem os acordou.
Antemanhã, quando ainda a estrella d'alva despedia proxima do horizonte as suas ultimas scintillações, Clemente deixou finalmente o leito, onde não encontrára repouso, e foi passeiar para o campo contiguo á casa, aguardando o despertar da mãe.
Anna do Védor era matinal e por isso Clemente não esperou muito.
Effectivamente a vidraça do quarto em que dormia a robusta matrona abriu-se e ella bradou da janella para o filho:
—Que força de serviço foi essa que te estremunhou, rapaz?! Sume-te! Mal luzia o buraco e tu já a sarilhares por essa casa!
—Levantei-me um bocadito mais cedo e vim espairecer até aqui.
—Qual historia! Então cuidas tu que te não senti toda a sancta noite? Ó rapaz, olha que isto não me vae agradando. Aquelle maldito empate do casamento…
—Ora adeus, bem se tracta agora d'isso.
—Pois que outra coisa ha de ser?
—Quer que lh'o diga? Faça vossemecê favor de chegar aqui abaixo e conversaremos.
—Olá! A coisa é séria! Temos historia. É o que eu digo.
E sahindo da janella e descendo as escadas para ir ter com o filho ao quintal, a boa Anna ia a dizer para si:
—O rapaz anda exquisito! Que me quererá elle? É coisa que lhe dá freima. Na cara se vê. Queira Deus que não tenhamos por ahi alguma alhada. O diacho do casamento!
E chegando ao quintal, onde a aguardava o filho, exclamou:
—Ora aqui me tens. Vamos lá a ouvir isso que tens para me contar.
Desabafa lá, que isto de guardar cada um as coisas comsigo não é bom.
Vá.
—Ora venha para aqui, minha mãe—disse Clemente chamando-a para um banco de madeira, por baixo de um parreiral.
—Mas avia-te, filho, que eu tenho que fazer lá dentro. Já sei que me vaes fallar no casamento.
—É verdade, vou fallar-lhe no casamento que se não faz.
—Que se não faz?!—repetiu Anna, dando um salto e fitando no filho os olhos espantados.—Tu que dizes?
—Isso mesmo que entendeu. Que se não faz.
—E então porque é que se não ha de fazer?
—Porque pensei melhor.
—Ora vae pensar para os quintos. Olha agora! Viu-se já um disparate assim? Pensaste melhor em quê e porquê?
—Olhe, minha mãe, vossemecê bem sabe que eu não sou nenhuma criança capaz de fazer as coisas no ar. E por isso eu que lhe digo que o tal casamento não deve fazer-se é porque…
—E então criança sou eu, para tu nem sequer me dares a importancia de me dizer o porquê? Olha que teu pae até bem velho se aconselhou commigo, apesar de ser homem ajuizado, e não tenho lembrança de o haver feito nunca arrepender por isso. Olha agora!
—Pois tambem eu lhe direi tudo, mas é se vir a mãe mais bem disposta a ouvir-me com socego.
—E parece-te que eu estou desassocegada? Ora valha-te não sei que diga. Em peiores talas me tenho visto na minha vida, sem perder a cabeça. Boa mulher estava eu se me estonteava assim á primeira! Olha agora! Anda, dize lá.
—Pois, minha mãe, este casamento não tem logar, porque Bertha… emfim…
Anna do Védor franziu o sobrolho.
—Bertha o quê? Que disse ella? Disse que não? Olha a presumida! Então quem acha ella que é? Sempre se vêem coisas no mundo! Olha agora! Então ella disse que… Ó senhores, não estar eu lá! sempre queria perguntar-lhe…
—Valha-me Deus, minha mãe, é essa a paciencia que me prometteu? Nem me deixa concluir, nem espera por saber o que vou dizer.
—É porque eu cuidei que ella… sim, porque isso então…
—Ouça, Bertha aceita, mas não tem verdadeira inclinação para mim.
—E porque não?
Clemente sorriu ao ouvir a pergunta.
—Ora essa!—tornou elle brandamente—então n'estas coisas precisa-se de se dar razões? Gosta-se, porque se gosta; não se gosta, porque se não gosta, e acabou-se.
—Mas emfim uma pessoa sempre diz: Não gosto d'aquelle, porque é feio, d'aquelle, porque é torto, ou porque é aleijado, ou porque tem mau genio, por isto ou por aquillo, eu sei lá! Mas tu…
—Sim, eu não tenho defeito que me faça engeitar, hein? Se todos me vissem com os seus olhos, minha mãe!
—Ora, mas vem cá, mas então dize-me…
—Perdão, ouça-me vossemecê primeiro. Bertha não sente inclinação por mim, porque a sentia já por outro. Está satisfeita?
—Olha a pateta da rapariga! Então já a sonsinha… tinha tambem o seu namorado! Que mundo este!
—Ó minha mãe, então se ella se agradasse de mim não era pateta, e lá porque se inclina para outro, já vossemecê faz um espanto d'esses! Que sou eu mais do que elles?
—Não é isso—disse a mãe um pouco embaraçada com o argumento—eu o que queria dizer era… emfim… se fosse um homem capaz… mas qual!… algum menino bonito, algum peralvilhito de Lisboa. Então disse-te assim mesmo na cara que não gostava de ti. E tu…
—Bertha disse-me que tinha tido uma paixão, mas que fazia por vencêl-a, porque não podia casar com o homem de quem gostava; e que se eu, sabendo isso, ainda a quizesse para mulher, ella não duvidava em dizer que sim, e que jurava que me seria fiel companheira na vida.
—Muito obrigada aos seus favores, mas não são cá precisos. Olha agora! Nem que tu morresses sem os seus bonitos olhos. Se deu o coração a outro, que lhe preste, e que passe por lá muito bem sem elle. Olha agora! Como quem diz: emfim eu não gosto de ti, mas vejo-te tão embeiçado, que me mettes pena. Graças a Deus, não faltam por ahi mulheres com quem cases, e se faltassem, tambem vivias bem sem ellas, que, Deus louvado, não te falta que comer, que é o essencial. Olha agora! Não que eu nunca vi umas delambidas como agora ha! Aquelle Thomé é quem tem a culpa.
—Ó minha mãe, já estou arrependido de lhe ter fallado n'isto. Olhem o escarceu que ahi está levantando!
—Ó filho, isto é um modo de fallar. A gente faz cá os seus votos de razão. Mas vamos ao caso. Tu disseste-lhe logo que passavas regaladamente sem os seus obsequios? está entendido. Fizeste muito bem, e está acabado.
—Não disse, não senhora, não lhe disse isso logo.
—Não? Pois isso é que eu não esperava de ti.
—Pedi-lhe tempo para pensar. Eu o que queria era saber quem era o tal, para vêr se de facto o casamento seria impossivel, porque se visse que o era, casava eu, isso casava. O que não queria era vir a ser tropeço algum dia.
—E d'ahi?
—E d'ahi tanto pensei, tanto parafusei, que esta noite dei com a historia.
—Então? Algum janotinha da cidade?
—Sabe o que lhe digo, minha mãe, é que o caso é bastante serio; e agora o que me dá cuidado não é o meu casamento, que esse já eu sei que se não faz; o que me dá cuidado são elles.
—Elles quem?
—A Bertha e o rapaz de quem ella gosta e que é… Sabe quem? O filho mais velho do fidalgo, Jorge.
A Anna do Védor empurrou o hombro do filho, e fez um gesto que, combinado áquelle movimento, exprimia a mais radicada duvida.
—Vae-te d'ahi! Olha agora o disparate! Ora, ora…
—Creia que é verdade.
—Pois a tola da rapariga… metter-se-lhe-ia em cabeça?…
—Não se lhe metteu em cabeça coisa nenhuma. Gosta d'elle, mas sem esperança, e tanto que não hesita em casar com outro. Mas o peior é que Jorge ainda gosta mais d'ella talvez. E Deus queira que isto não venha a dar cabo d'elle!
—O quê? A dar cabo d'elle!
—Pois se vossemecê o visse! É olhar-lhe para a cara e diz-se logo: este rapaz tem coisa que o roe lá por dentro. Eu não suspeitava o que fosse, mas agora que pensei…
—Mas como é que tu vieste a saber isso?
Clemente contou á mãe as entrevistas que tivera com Jorge, e a maneira estranha por que elle o recebêra, a irritação com que o ouvira fallar em Bertha, a singularidade das reflexões que lhe fez e dos conselhos que lhe deu, e a Anna do Védor acabou por convencer-se de que o filho acertára.
Tinha um compassivo coração a boa mulher e, como dissemos, era perdida por Jorge, a quem amava quasi tanto como ao filho. Por isso tomou logo o partido d'elle, e exclamou:
—Mas então porque não ha de esse rapaz casar com a pequena, se gosta assim d'ella?
—E o pae?
—O velho? Isso lá é verdade. O fidalgo é pêrro, mas adeus, primeiro está o gosto de cada um, e quando o amor é de raiz, tolice é querer arrancal-o.
E depois de curta meditação, acrescentava:
—Mas vejam como o demonio as arma! aquelle rapaz, que parecia nem sequer pensar em que havia raparigas n'este mundo, deixar-se logo embeiçar por aquella! por a filha do Thomé da Herdade, que se o fidalgo o via por sogro de um filho seu, era para estoirar de paixão! Sempre é uma! Ó Clemente, pois devéras isso será assim?
—Quasi que ia jural-o, minha mãe.
—Quem me déra encontrar o rapaz, que logo lh'o pergunto.
—Não diga isso, minha mãe. Ia fazel-a boa! Não conhece ainda o Jorge?
—Ora vem tu ensinar-me a conhecêl-o, a mim, que o trouxe a estes peitos, que o ensinei a fallar e a andar; vem cá dizer-me o que elle é. Então que achas tu? que elle se zanga commigo? E a mim que me ha de importar muito que elle se zangue. Mais me zango eu e veremos quem vence. Olha agora!
—Mas para que ha de ir fallar-lhe nisso?
—Para quê? Pois então tu dizes-me que o rapaz anda a consumir-se e a moer lá comsigo essa paixão, e queres que eu o deixe assim rebentar? Ha lá nada peior do que uma pessoa calar comsigo estas coisas que roem lá por dentro? Nada, a bôca fez-se para fallar e para a gente desabafar as suas melancolias.
—Mas se a mãe lhe podésse dar remedio…
—E que cuidas tu? Pois parece-te que se eu visse que o rapaz se me definhava por causa disto, que não tinha alma para ir ter com o fidalgo e dizer-lhe as coisas como ellas são? Então já vejo que tu estás muito enganado com tua mãe. Nada, não, era melhor deixar morrer aquelle rapaz, que é a perola dos rapazes, aquelle rapaz que eu criei e que ha de ser, e já é, a honra da familia. Pois sim, não que eu sou mesmo mulher para o deixar morrer assim.
—Havia de valer-lhe bem. O fidalgo está mesmo agora á espera dos seus conselhos.
—Não estará, mas olha que, duro como é, já não era a primeira vez que eu me avinha com elle e sem elle levar a melhor. No tempo da senhora, que era um anjo, Deus a chame lá, ainda mais força de genio tinha elle e fazia-a chorar sangue e agua pelo muito que lhe perseguia o irmão. A pobre creatura doente e elle sem querer que ella recebesse as cartas que o irmão lhe escrevia, nem lhe deixar saber noticias d'elle. Eu, um dia, dei com o fidalgo no corredor e disse-lhe: «Ó snr. D. Luiz, olhe que v. exc.ª anda a fazer com que se rale de remorsos toda a sua vida, por deixar morrer a senhora assim a estalar de saudades e afflicções. Veja bem v. exc.ª que estas coisas pagam-se.» Foi mesmo assim. E cuidas lá que elle se enfureceu? Qual! Calou-se muito caladinho, e d'ahi por diante a senhora teve noticias amiudadas, e até o jardineiro mais tarde foi para casa e ainda lá está. Então já vês…
—Pois sim, mas o caso agora é mais difficil.
—Deixa-o ser; mas tambem o homem está mais quebrado.
—Tenha cuidado, minha mãe. Olhe lá não vá fazer alguma das suas.
—Alguma das minhas! Eu lá vejo quem é que te dá melhores conselhos do que eu. Alguma das minhas! Olha agora! Sabes tu que mais? Vou já d'aqui fallar com o Thomé.
—Não lhe diga nada d'isto.
—Ora não querem vêr a bonita cabeça que tem este rapaz? Está o casamento tractado, resolve agora não casar e nada de fallar n'isto ao pae da rapariga. Sim, que o Thomé é mesmo homem com quem se brinque e que se contente com meias razões.
—O que eu quero dizer é que não ponha a bôca em Jorge.
—Deixa-me cá. Sabes o que te digo? É que eu não sou mulher de planos. Ao sahir de casa para procurar alguem não penso no que lhe hei de dizer e no que hei de calar. Quando as palavras me veem á bôca, deixo-as sahir e não quero saber de contos. Mas vamos ao almoço, que são horas. Ora o Jorge! o Jorge! para o que lhe havia de dar! E o diacho da rapariga se apanha aquillo! Olha, eu não duvido, porque já ha muito tenho para mim que o Thomé nasceu n'um folle. Ora o diacho! Boa pequena é ella, coitadita, ainda que não andou muito bem comtigo, não, mas…
A mãe e o filho almoçaram, conversando sempre sobre o assumpto, e Clemente tentando combater a resolução que percebia na mãe de cumprir o que annunciára.
Anna do Védor, depois do almoço, deu as suas ordens e sahiu.
Ella fallára verdade, ao sahir não formára plano de conducta, mas instinctivamente dirigiu-se para a Herdade.
O caso de Jorge não lhe sahia da ideia.
XXXIII
A meio caminho da Herdade, a Anna do Védor, ao abrir uma cancella, para tomar por o atalho de um campo, deu de rosto inesperadamente com a pessoa que tanto lhe estava occupando o pensamento.
Jorge vinha em direcção opposta e preparava-se tambem para transpôr o portello.
Em um relance de olhos, a boa mulher verificou, na mudança de aspecto em Jorge, a exactidão das informações que lhe dera o filho, e com isso cresceram ainda mais as suas apprehensões, obrigando-a a exclamar consternada:
—Ó Virgem Mãe dos homens! que maus olhados te deitaram, meu filho, que parece mesmo que sahiste agora do cemiterio? Bem m'o tinham dito, mas tanto não esperava eu vêr!
—Então que lhe tinham dito, ama? Que me haviam desenterrado?
—O que me tinham dito? Queres sabêl-o? Pois olha que não ponho nenhuma duvida em t'o dizer. Tinham-me dito que tu não eras o rapaz de juizo que eu suppunha, que a final eras tão bom como os outros, e que por doidices de rapaz andavas mais morto que vivo, amarello e chupado, como quem tem já um pé na cova.
—E parece-lhe então que a informaram bem?
—De menos que não de mais. Que cara é essa com que tu me appareces? Tu queres ir atraz de tua irmã? Olha se queres. A coisa é facil se continuares n'esse andar.
—E então que lhe hei de eu fazer, ama? Uma pessoa não tem na sua mão o engordar e emmagrecer.
—É teres juizo, é não pensares em tolices, ou então, quando já não ha remedio, é andares para diante com a cara e não soffreres até rebentares.
—Agora é que não a entendo, ama.
—Entendes, entendes; mas, se queres que eu falle mais claro, sempre te perguntarei se era coisa que se fizesse dar por noiva ao meu Clemente, que se criou aos mesmos peitos que tu, a menina que o senhor fidalguinho da Casa Mourisca engeitou?
A impetuosidade do movimento com que Jorge respondeu a estas palavras da ama, a subita e intensa vermelhidão que lhe cobriu o rosto pallido, e o olhar indignado que fitou na boa velha, assustaram profundamente esta, que quasi se arrependeu do que dissera.
—Ama—disse-lhe Jorge commovido e com voz severa—quero acreditar que não pensou nas palavras que disse, nem sabe bem o que ellas significam. Vejo porém que conhece a meu respeito um segredo que eu desejaria que fosse ignorado. Não quero saber como lhe chegou ao conhecimento. Não negarei a verdade. Deixe-me porém dizer-lhe que mal sabe Clemente, mal imagina sequer a grandeza do sacrificio que eu fiz, facilitando-lhe o casamento em que elle me fallou.
Anna recuperou a sua presença de espirito.
—E quem foi que lhe pediu que fizesse esse sacrificio? O meu Clemente sabia lá o que vossemecê tinha no coração? Julgas tu que elle era homem que aceitasse de ti favores d'esses? Olha o outro, que assim que soube tudo, immediatamente deu o dito por não dito.
—O quê? Soube tudo… o quê? O que sabe Clemente?
—Sabe que o snr. Jorge da Casa Mourisca gosta da menina do Thomé da Herdade, e que a menina do Thomé da Herdade gosta do snr. Jorge, e o senhor meu filho, que é um rapaz de brio, não está resolvido a ser o trambolho que separe esses dois corações que morrem um pelo outro.
—Não sabe Clemente que essa affeição, que por infelicidade é verdadeira, está condemnada á morte e que não será a recusa d'elle que a salvará? Não estava seu filho resolvido a aceitar a amizade leal, que lhe offerecia Bertha, sentimento que mais tarde as affeições communs de familia por certo transformariam em verdadeiro amor conjugal? não me disse elle a mim que estava decidido a aceitar, se se convencesse de que a illusão de Bertha não podia ser nunca realidade? Pois essa certeza póde têl-a agora, se sabe tudo. E então porque hesita? Se não tem confiança em Bertha…
—Hesita e deve hesitar, sim senhor. Pois que vem cá a ser esses impossiveis? Olha agora a coisa do outro mundo que o snr. Jorge case com a Bertha da Povoa!
Jorge encolheu os hombros, sorrindo melancolicamente.
A Anna do Védor, interpretando mal aquelle sorriso, insistiu com mais acrimonia:
—É como eu digo. Ai, os escrupulos então são só para quando muito bem lhes parece? Os impossiveis vem só ao atar das feridas? Não que elle não ha mais. Tem um pobre homem uma filha, para quem deseja encontrar um marido trabalhador e honesto, que lhe sirva de arrimo; e vae senão quando apparece um fidalguinho que principia a olhar para a rapariga e a fazer-lhe gaifonas e a metter-lhe teias de aranha na cabeça, e ella, coitadinha, deixa-se ir e prende as azas na rede; e é então que o menino bonito se lembra dos impossiveis e a deixa, e por muito favor cede-a a um rapaz honrado que a estima com lizura e com as melhores intenções de fazer d'ella sua mulher, mas a quem ella já não póde dar o coração, porque o outro lh'o roubou. E diga-me uma coisa, ficava bem a este rapaz aceitar para mulher a rapariga que lhe diz que deu a outro o coração? Para que quer um homem em casa uma mulher sem coração, não me dirá vossemecê?
Jorge ouvia cada vez mais triste e pensativo as recriminações da ama. Dir-se-ia que algumas d'aquellas palavras lhe feriam o coração de remorsos, como se n'ellas sentisse o que quer que fosse verdadeiro; ao mesmo tempo protestava-lhe tambem contra a accusação a consciencia que não o havia accusado tão severamente.
Olhando com gesto melancolico para a mãe de Clemente, que levada pelo impulso da sua eloquencia, ia augmentando de severidade, Jorge disse-lhe com placidez:
—Tem razão em parte no que diz, ama, porém creia que trabalhei devéras para vencer isto em mim. Nem eu sei como me adivinharam; como ella o adivinhou. Ah! sim… lembro-me já… Disse-lh'o eu; mas não foi, como julga, no intento de illudil-a; disse-lh'o em um momento de desespero, quando ella com lagrimas me perguntava porque eu lhe queria mal. Eu querer-lhe mal! Disse-lhe então tudo. Ella soube de mim pela primeira vez este segredo e eu d'ella um segredo igual. Pedi-lhe então que me indicasse o que devia fazer. Da sua propria vontade nasceu a minha resolução, a nossa… Bem vê, ama, que não sou tão criminoso como suppôz. Acredita que eu fosse capaz da vileza que disse? O que fiz por Clemente não podia deshonral-o. Bertha sabel-o-ia fazer feliz, porque comprehende bem os seus deveres. Eu conheço a tempera d'aquella alma. Mas emfim, se me illudi, se nos meus actos ia offensa para Clemente, elle que me perdoe, que não houve n'isso intenção.
Anna do Védor sentiu que lhe vibrava a corda da sensibilidade no coração, ao escutar aquellas palavras sérias e tristes que lhe dizia Jorge.
—Vae-te d'ahi!—exclamou ella, disfarçando a sua commoção.—Quem falla aqui de offensas? Então acreditas que tudo isto que eu disse foi a sério? Era o que me faltava! Sim, que eu não te conheço, sim, que eu não te trouxe n'estes braços e te fiz saltar no meu collo e te vi brincar com os mais rapazes e sempre com mais juizo do que elles todos? Pateta de rapaz que me não entendeu! O que me faz enraivar é o vêr-te assim consumido por uma coisa d'estas. Logo te deu o diacho tambem para gostares da filha do Thomé, quando não faltavam raparigas que boa conta te fizessem. Que ella é boa pequena e poucas d'essa fidalgaria que por ahi ha merecem servir-lhe de criada, mas emfim… é filha do Thomé e teu pae era capaz de estoirar se… Mas adeus, minha vida, o tempo d'elle já passou e tu é que não has de definhar-te e entisicar só para fazer-lhe a vontade. Vê lá, se achas que isso em ti é do coração…
—Não, ama, não. A resolução está tomada. Hei de acabar com isto em mim, succeda o que succeder. Jurei.
A ama tornou com maior vehemencia:
—E a mim é que se me importa com os teus juramentos! Ora veja eu o caso mal parado, e veremos o que por ahi vae. Vou-me ter com o fidalgo… Na, na, na, na, escusas lá de bulir com a cabeça, que isso para mim não vale nada. Eu bem sei o que me pediu tua mãe á hora da morte. Deus a chame lá. Coitadinha! levou-vos atravessados no coração para a sepultura. Sabia o genio do pae e via-vos tão criancinhas!… «Ó ama—disse-me ella, e parece-me que ainda a estou a ouvir—o que me não deixa morrer em socego são estes tres meninos.» Vossês brincavam na outra sala: «Olhe-me por elles, ama, lembre-se de que ficam sem mãe.» Ai! E eu que tanto gostava d'aquella senhora, havia agora de te vêr assim consumido e ficar-me de braços cruzados? Pois sim, espera que logo.
—Ama, peço-lhe que não dê passo algum junto de meu pae sem me consultar.
—Ai, estava bem aviada se esperava pelo teu conselho. Olha agora!
—Veja que póde causar-me um grande mal, ama!
—Olha, eu só te digo uma coisa. Queres que eu me deixe ficar socegada? tracta de me apparecer com outra cara. Senão, não te queixes.
Jorge, que conhecia por experiencia os repentes da ama, ainda insistiu por muito tempo. Ella porém, respondendo-lhe com evasivas, conseguiu separar-se sem haver promettido coisa alguma.
A Anna do Védor seguiu por muito tempo com olhos tristes Jorge que se afastava lentamente. Depois que o perdeu de vista na volta de um caminho, suspirou e foi murmurando:
—Nada, isto assim não vae bem. O rapaz está que faz pena vêl-o. Ainda se fosse com o irmão, era coisa que passava, mas com este!… Lembra-me que, já em pequenino, se a mãe ou o pae lhe ralhavam, ficava aquella criança entalada e sem chorar, mas era sabido que o tinham doente por uma semana. Foi sempre assim. Brioso como uma pessoa de juizo. Agora é capaz de estalar de paixão e deixar-se morrer por ahi sem se queixar. Pois, ao poder que eu possa, tal não ha de succeder. Isso lhe prometto eu.
N'este soliloquio foi vencendo a boa mulher a distancia que a separava da Herdade, onde chegou na occasião em que Thomé e a sua companheira examinavam e discutiam juntos na sala de jantar as vantagens da acquisição de um campo, que o lavrador trazia em vista.
A Anna do Védor foi recebida como quasi parenta que era da familia.
—Viva a ti'Anna!—exclamou folgadamente Thomé—a mais guapa das raparigas do meu tempo, sem querer fazer desfeita á Luiza.
—Lá se viu qual das duas elle escolheu—acudiu com igual humor a mãe de
Clemente.
—Então que quer? Tudo n'este mundo é sorte. Além de que a ti'Anna já estava tentada com aquella alma lavada do João Védor, e não se lhe dava volta.
—Foi o que te valeu, Luiza, senão bem perdias esta boa joia.
Luiza sorriu bonacheironamente como sempre fazia quando o marido gracejava.
—Mas que sancta a trouxe a esta sua casa?—perguntou Thomé—Olá, vamos cá a saber, quer tomar alguma coisa?
—Qual historia! De almoçar venho eu, e isso mesmo sabe Deus o que me custou.
—Então andas doente, Anna?—informou-se Luiza com bondosa solicitude.
—Eu doente? Ora essa! Eu sou lá creatura que adoeça?!
—E como vae o Clemente? o nosso Clemente?—perguntou Thomé—porque eu e
Luiza tambem já o podemos chamar nosso.
—Devagar, devagar, o melhor é não se costumarem a isso, para não lhes custar depois a perder o costume.
—A perder o costume? E porque o havemos nós de perder?
—Porque já lá vae o afilhado de quem eramos padrinhos.
—Não a entendo, ti'Anna.
—Ora a coisa é simples. E vossês o que devem é erguer os olhos mais para o alto.
—Ó ti'Anna, se quer que a entenda, falle-me claro, e cá á nossa moda; pão pão, queijo queijo.
—Prompto. Para ahi vou eu. Pois ahi tem: o casamento da sua rapariga com o meu rapaz foi caso fallado e acabou-se.
—Acabou-se? Como acabou-se? Porquê?
—Porque Bertha não tem para ahi o sentido.
—Ora essa! Então ella não disse…
—Disse, sim senhor, disse que casava, e tambem o disse a meu filho, mas acrescentou que não lhe levaria o coração comsigo.
—Bertha disse isso? Quando? A quem? A Clemente? Não póde ser!… Mas não leva o coração… Porquê?
—Porque já não o tem.
—Como já não o tem?
—Porque já fez presente d'elle.
—Que está a dizer, ti'Anna? Já fez presente do coração! Bertha? A quem?
—Ora diga a verdade, Thomé, não suspeita mesmo, mesmo de ninguem?
—Na minha salvação, que não.
—Pois olhe que é verdade.
—Mas a quem?
—A uma pessoa que vinha por aqui.
—A uma pessoa que vinha…
—Ai, Thomé, que bem o suspeitava eu—exclamou Luiza, juntando as mãos.
—Cala-te, mulher; ahi voltas tu com as tuas tolices; mas diga, ti'Anna…
—Que suspeitavas tu, Luiza?—perguntou Anna do Védor.
—Que elles tinham alguma inclinação um para o outro.
—Elles quem?
—Ninguem, ninguem. Esta minha mulher de vez em quando tem visões.
—Elles quem?—insistia a Anna do Védor.
—A nossa rapariga e…
—Cala-te, Luiza, tu não tens vergonha?—atalhou o marido.
—E quem mais? acaba—repetiu Anna.
—E o fidalgo—completou timidamente Luiza.
—Jorge? Pois adivinhaste.
—Ah!—exclamou Luiza, com natural satisfação.
—O quê?—bradou Thomé, erguendo-se com impeto e córando—adivinhaste? adivinhou? Quem?… Luiza? Então… Bertha… a ti'Anna diz que Bertha… Não disse que Bertha…?
—Ó Thomé, escusa de fazer tanto espanto. Eu disse que Bertha gosta do fidalgo e que elle gosta da rapariga.
—Tão doida está a ti'Anna, como está a minha mulher.
—O seu juizo, Thomé, é que não me parece muito seguro. Olhem o grande milagre que a sua filha goste do rapaz, que não tem por ahi outro que se lhe ponha ao pé, e que o rapaz, emfim, que o rapaz tambem tenha a sua inclinação por a pequena, que não é para engeitar. Olhem a grande admiração!
—Eu bem prégava a este homem, mas coisa que lhe diga, é o mesmo que nada—observou Luiza.
—Mas quem lhe metteu essas patranhas na cabeça?—perguntou o lavrador com um riso contrafeito, já interiormente inquieto, e tentando resistir á convicção que se lhe estava formando no espirito.
—Ora quem havia de ser? Uma pessoa que me parece que tem obrigação de estar bem informada. Foi o mesmo Jorge.
—Jorge?! Jorge disse-lhe…
—Agora mesmo o deixei na Corredoura, onde lhe estive fallando bem bem um quarto de hora talvez.
—Ti'Anna, eu não quero offendêl-a, mas ha coisas tão incriveis! Ora diga-me, não sabe quem me fallou na pretenção do seu filho?
—Sei, sei muito bem que foi Jorge, e vae d'ahi? E sei que Bertha tambem disse que sim. Então que mais quer? Mas sei tambem que o rapaz, quando Clemente lhe fallou n'isso, ia rompendo com elle; sei que depois do casamento ajustado, emmagreceu e anda como desenterrado; sei que a sua pequena disse aquillo, que eu já contei, ao meu Clemente, e que o rapaz teve as suas suspeitas, e que eu fallei claro ao Jorge, que não teve cara para negar. Ora aqui tem.
Thomé da Povoa ficou assombrado com a revelação. Nunca o lavrador dera importancia ás suspeitas da mulher, cujos instinctos tinham visto melhor do que a razão clara do marido.
—Pois se isso é verdade—disse Thomé, medindo a sala a passos largos—é uma grande desgraça!
—Oh! Ahi vem o outro!—respondeu-lhe a Anna do Védor com o seu animo intemerato—Credo! Parece-me um sino a tocar a defuncto. Então que grande desgraça vem a ser essa?
—Nem vossê pensa o que d'ahi póde resultar, ti'Anna. Mas sempre se lembre de que n'essa historia entro eu, o fidalgo velho, o rapaz e a minha pequena. Se nos conhece bem a todos, supponha o que d'ahi póde sahir de bom.
—Quer vossê dizer na sua: «Nós os velhos somos dois caturras e os novos são capazes de morrer de paixão.» Mas se os novos tiverem juizo, não se lhes importa com as caturrices dos velhos, e estes o mais que podem fazer é irem um anno mais cedo para a sepultura, o que é bem feito para não serem teimosos. Olha agora!
—Eu bem o suspeitava—repetia de quando em quando a boa Luiza.
—Nem eu quero pensar n'isso para não me arrepender pelo pouco que tenho feito por aquella familia—tornava Thomé.—Se o fidalgo soubesse que o filho mais velho se agradára da minha pequena, o que havia de pensar? O que eu no seu logar pensaria. Que isto em mim fôra tudo um calculo, que procurei trazer o rapaz a minha casa, depois de mandar buscar a filha á cidade, que lh'a metti á cara, que levei a rapariga para o pé do velho com o fim de o dispôr para a approvação dos meus planos… Ó que vergonha! que vergonha! Então é que elle teria razão de me olhar com desconfiança, e quem lh'a não daria? Mas que cegueira a minha! Cegueira! Mas se elles mal se fallavam, se Jorge parecia tão occupado nos seus negocios, que a nada mais dava attenção!
—Ai, eu cá bem o suspeitava—repetiu Luiza.
—Isso não póde ser! Cada vez mais me convenço de que isso é impossivel.
—Pois digo-lhe eu que é verdade, como dois e dois serem quatro. Ora agora elles dizem que decidiram acabar a todo o custo com aquillo por causa do velho, e d'ahi veio a historia toda do casamento; mas no andar em que vão as coisas, parece-me que elles acabam mas é comsigo.
—É uma desgraça! mas que remedio? Ainda que eu cuidasse de vêr morrer-me a filha, havia de oppôr-me a esses amores. E mais depressa a recolheria em um convento…
—O que ahi vae! o que ahi vae! Ó homem de Deus, ia-lhe talvez muito mal se a filha lhe casasse com o rapaz.
—Era uma desgraça, repito. E eu nunca mais poderia olhar de frente para o fidalgo, como o fiz até agora, graças a Deus! porque então teria elle razão de me suspeitar de intriguista.
—Se a sua consciencia o não accusa, não lhe dê canceira o que os outros pensam.
—Eu bem t'o dizia, Thomé, não que tu não querias crêr!—insistia Luiza, entre pezarosa e satisfeita.
—Já me tarda vêr a rapariga para fóra dos Bacellos. Mal sabia eu quando a levei para lá, que um dia podiam vir a julgar que eu o fizesse por calculo!
—Deixe estar a rapariga onde está; Deus que conduziu as coisas assim, lá sabe para que o fez.
—A ti'Anna não sabe o que o fidalgo velho tem sido para commigo? Não sabe que elle mal me póde perdoar o eu ter levantado a casa defronte do seu palacio? e melhorado de anno para anno a minha, ao passo que a d'elle ia cahindo por terra? Não viu o que elle fez só porque soube que o filho tinha vindo ter commigo para o ajudar a livrar-se da usura e das dividas, que lhe deitavam a perder a casa? E agora então julga que eu hei de soffrer que elle suspeite sequer que as minhas tenções eram ou são as de engrandecer á custa dos seus a minha familia? A ti'Anna soffria isto?
—Mas não se está a vêr como o velho gosta da sua pequena, que nem de ao pé de si a deixa sahir? Quem sabe? Ás vezes…
Luiza suspirou, entrevendo a risonha perspectiva que a Anna do Védor assim em confusas tintas lhe pintára.
—Não sou eu que me illudo com essas coisas, ti'Anna—proseguiu Thomé.—O meu plano está feito. Hoje mesmo Bertha ha de dormir na Herdade. Se o seu Clemente a não quizer, paciencia. Nem eu quero obrigal-o, nem á rapariga, a casar contra vontade. Apesar de tudo confio no juizo de Bertha, que ha de vêr as coisas como ellas são, e por isso não me dá cuidado. Que se assim não fosse, eu lhe affirmo que a levaria outra vez para Lisboa. O Jorge é tambem um rapaz honrado. Tudo se ha de remediar ainda, querendo Deus.
—Olhem que homem este! Escusa de tomar essas cautelas todas se o que quer é separal-os. O perigo não está aonde pensa. Elles mesmos resolveram esquecerem-se um do outro e não precisam que vossê os separe. Olha agora! O perigo está em que Jorge já anda doente, e que provavelmente a rapariga não ha de ficar com muita saude se elle lhe morre. Veja lá se isso não é bem peior do que o casamento.
—Deus nosso Senhor nos acuda!—exclamou Luiza assustada.
—Não falle em casamento, ti'Anna, que até me envergonha essa palavra!
—Pois então não se envergonhe e prepare o enterro de sua filha, que o do rapaz não tardará muito. Olha agora! Este homem parece que não tem coração de pae! Eu não sei que diacho de coração é o d'elle! Deixe que quando lhe quizer acudir, já não ha de ser tempo. Ha de vêr a filha morrer-lhe e então é que hão de ser os arrependimentos.
—E que quer que eu faça, mulher?—exclamou Thomé já exasperado.—O meu dever é este. Deus que determine depois o que fôr da sua vontade. E julga que se eu pensasse como pensa a ti'Anna, que isso me serviria de alguma coisa? Parece que não conhece o fidalgo! Pois tantos annos que conviveu com aquella familia ainda lhe não fizeram conhecer o genio d'elle?
—Mas que me importa a mim o genio do velho? Ora essa é que está muito boa! O velho tem um ou dois annos de vida, e lá para o não zangar, não hão de um rapaz e uma rapariga fazer a sua infelicidade. Olha agora!
—Pois sim, pois sim, vossemecê falla bem; mas o que lhe digo é que não tardo nos Bacellos, e que já de lá não venho sem a rapariga.
E sahindo da sala devéras preoccupado, Thomé ia murmurando:
—Foi uma desgraça! uma verdadeira desgraça, meu Deus!…
A Anna do Védor viu-o sahir e meneou a cabeça com certo ar de benevola ameaça.
—Sim? Elle é isso? Pois já que tu és teimoso, eu te prometto que me has de vêr pela frente. Vae, vae aos Bacellos, que quando lá chegares já has de encontrar novidades. Olha agora! Adeus, Luiza, adeus.
Luiza ergueu-se, e abraçando-se na amiga, desatou a chorar.
—Ó mulher, vossê porque chora? Olha agora! Tenha juizo, mulher. Deixe lá que ha de viver para vêr a sua filha bem casada e feliz. E deixe-me que preciso de ir adiante do Thomé para elle não fazer tolices.
—Ai, eu sempre suspeitei isto, elle é que não queria acreditar.
—Pois agora já acredita. E o mais confie em Deus e deixe-me sahir.
E a Anna do Védor sahiu apressada, e murmurando de instante a instante:
—Olha agora!
XXXIV
Desde o dia em que Bertha fallára no seu casamento ao fidalgo da Casa Mourisca nunca mais correram as horas nos Bacellos para o velho e para a rapariga tão alegres como até ahi.
Nem uma palavra se trocou mais entre elles sobre o assumpto, mas facil era de perceber que elle ainda dominava o pensamento de ambos.
Tanto os sorrisos de Bertha como aquelles com que D. Luiz lhes correspondia empanava-os uma nuvem de tristeza.
O fidalgo a cada momento pensava na separação imminente, na necessidade de dar á afilhada o consentimento promettido, e cada vez menos coragem sentia para fazêl-o.
Bertha recebia como que a projecção da tristeza do velho; demais a sua propria crescia á medida que se aproximava o momento em que tinha de realisar-se o sacrificio do seu coração, sacrificio cuja grandeza de dia para dia mais avultava no seu espirito.
Actuou esta influencia no estado do enfermo, que ia perdendo o alento adquirido sob a benefica vigilancia da rapariga.
Por isso no dia em que se passaram as scenas narradas no ultimo capitulo e nas quaes a intrepida Anna do Védor desempenhou tão importante papel, D. Luiz achava-se em um estado de abatimento pouco animador.
Não sahira esse dia do quarto, como era seu costume quando ia sentar-se com Bertha á sombra das arvores. Queixou-se de fraqueza e de frio e ficou na poltrona ao lado da janella a espreitar por dentro das vidraças para as avenidas da quinta.
Bertha havia por instantes deixado o padrinho para temperar-lhe um remedio; e o doente ficando só, cahira em uma profunda meditação, seguindo machinalmente com a vista os movimentos de uma avesita que saltava nos ramos d'uma arvore distante.
De repente chamou-lhe a attenção o rumor dos passos de alguem, que se aproximava no corredor e que parou á porta do quarto, como se hesitasse ao entrar.
—Quem está ahi?—perguntou o fidalgo, não vendo apparecer ninguem.
A esta pergunta a porta entreabriu-se e a figura da Anna do Védor, offegante pela carreira que trouxera de casa do Thomé até alli, desenhou-se no limiar.
—Sou eu; o fidalgo dá licença?—respondeu a Anna.
D. Luiz teve um negro presentimento assim que viu a figura da mãe de
Clemente, o pretendido noivo de Bertha.
Com mal disfarçado azedume disse-lhe:
—É vossê, Anna? Entre.
Anna entrou com o desembaraço com que entrava em toda a parte.
—Então como vae o fidalgo? Fraquinho, hein? Emfim, snr. D. Luiz, tudo se guarda para a velhice.
—É assim, é—disse sêcamente o fidalgo.—Então a que vem aqui, Anna?
Anna do Védor percebeu a debil cordialidade com que estava sendo recebida e por isso respondeu menos affavel:
—Primeiro que tudo, vim vêl-o, como era da minha obrigação, pois não me esqueço de que já comi do pão de sua casa. Ha mais tempo teria vindo, se a minha vida me deixasse; mas sou eu só em casa, como v. exc.ª sabe, a fazer o serviço, e a idade já me vae pesando. E agora por isso vem a pêllo dizer a outra coisa que me trouxe cá. Venho saber de v. exc.ª quando é que póde dispensar a Bertha para se fazer o casamento que está justo entre ella e o meu filho.
O rosto de D. Luiz passou por differentes cambiantes de côr, e mais do que uma paixão lhe desenhou successivamente no semblante em traços fugitivos o aspecto physionomico.
—Então vem para a buscar?—perguntou elle com voz alterada.
—Não, senhor, não venho para a buscar, venho para saber de v. exc.ª quando ella póde ir.
—Ella não é minha filha. Quando quizer, que vá.
—Mau! O fidalgo não quer entender-me.
—Eu o que não quero é occupar-me d'esse casamento—replicou D. Luiz mais agastado.—Quando quizerem fazer esse disparate, façam-n'o. Levem d'ahi a rapariga, sacrifiquem-n'a á sua vontade, mas não me peçam o consentimento, porque eu estou com os pés na cova e não quero levar para a sepultura mais remorsos.
A mãe de Clemente não estranhou esta resposta azeda do fidalgo, que de proposito provocára.
Picada porém no seu orgulho materno por algumas phrases que ouvira, acudiu logo:
—Que está o fidalgo a dizer? Disparate… remorsos… Que disparate acha o fidalgo no casamento de Bertha com o meu Clemente? Remorsos! Ora essa está boa! Nem que se tractasse de enforcar alguem! Ora esta! Olha agora!
—Anna, eu não quero offender o seu filho, que sei que é bom rapaz, mas o que elle não é, é homem para Bertha.
—E onde é que v. exc.ª vae buscar marido para Bertha? O meu Clemente não serve? Pois bem, como a rapariga não está para freira, diga-me v. exc.ª que faz tenção de a casar na sua familia, e eu calo já a bôca e sou a primeira a dizer: «Tem razão o fidalgo, a pequena encontrou marido muito melhor do que o meu filho.» Ah! eu já estou vendo a cara que v. exc.ª faz. Pois então, snr. D. Luiz, se v. exc.ª ainda se tem lá nas suas tamancas, como d'antes, deixe casar a rapariga com um homem honrado e não lhe ande a metter loucuras na cabeça, que isso até é uma consciencia! Olha agora!
D. Luiz sentiu que lhe fugia o terreno n'este campo e tentou uma evasiva.
—Não teria que dizer a esse casamento, se Bertha sentisse inclinação para o seu filho, mas…
—Mas o quê? Pois não foi ella que por sua livre vontade disse que sim?
Quem a obrigou? Ora essa!
—Por comprazer, por condescendencia, mas não porque lh'o pedisse o coração!
—Ora, e v. exc.ª a importar-se com o que pede o coração de uma rapariga, ora, ora…
—E porque não? Desgraçada d'ella se der um passo tal sem que lh'o approve o coração.
—Então acha o fidalgo que n'isto de casamentos o coração tambem tem voto?
—Por certo.
—O coração de uma rapariga e de um rapaz. Olhem que conselheiros!
—Um coração como o de Bertha, é um bom conselheiro; não se engana, nem engana.
—Até que te pilhei!—exclamou a Anna do Védor, batendo as mãos, e esquecendo-se, no impeto da exclamação, de manter o mesmo tom e tractamento, que até alli estivera usando com o fidalgo.—Muito bem, pois saiba o fidalgo, que para mim já não é novidade o não ter Bertha inclinação para o meu filho, nem de tal casamento se falla já, porque o meu Clemente, por emquanto, não aceita mulheres que não entrem para casa d'elle com o coração. Isso já estava decidido. Mas eu o que quiz foi ouvir o que ouvi ao fidalgo, porque quero vêr agora como se ha de sahir das talas em que se metteu. Porque, sabe porque a Berthasinha não gosta do meu Clemente? É porque já gostava de outro… E sabe v. exc.ª quem é esse outro? Olhe que foi o coração de Bertha que o escolheu, o tal coração que não se engana; esse outro é o filho de v. exc.ª, o snr. Jorge. Ora ahi tem; agora então veja se está por o que disse.
D. Luiz ficou por muito tempo a olhar para a Anna do Védor com a vista espantada e sem articular palavra.
—Jorge!—murmurou elle a final e quasi inaudivelmente.
—Sim senhor, Jorge. E que me diz v. exc.ª a isto?
—Jorge, Bertha…—repetia o velho, assombrado com a revelação.—Mulher, quem lhe disse isso?
—Seu filho, entre outros.
—Jorge! Terei por acaso eu sido a victima de uma intriga infame?—exclamou o fidalgo tremulo de raiva.—Isto é de enlouquecer.
—Qual intriga nem meia intriga? Isto tudo foi a coisa mais innocente e natural do mundo inteiro. O rapaz gostou da pequena, a pequena gostou do rapaz, o costume desde o tempo de Adão e Eva, e ninguem soube d'isso senão agora.
—Jorge! Ó meu Deus; porque havias de me dar filhos só para me affligirem e envergonharem!
—Ora ahi está! Até agora nem o meu Clemente lhe servia para a Bertha, em taes alturas a punha. Agora então já o filho o deshonra só por gostar da rapariga. Entendam-n'o lá. Que tal é o amor que o padrinho tem á afilhada?! Eu cá de mim não entendo estas amizades de tarraxa.
D. Luiz não dava attenção ás reflexões da Anna. Luctavam-lhe no coração paixões encontradas e violentas: sob a influencia de umas sentia-se cahir em profundo desalento, outras incitavam-n'o, pelo contrario, a uma reacção desesperada.
Thomé não se enganára nas suas previsões. As suspeitas e preconceitos mal abafados no coração do fidalgo contra o lavrador alvoroçaram-se com a revelação que acabava de ouvir.
A intimidade de Jorge com Thomé, os serviços prestados por este á casa, a vinda de Bertha para os Bacellos por espontanea deliberação do pae, tudo explicava o seu espirito preoccupado por uma trama infernal combinada por o fazendeiro.
—Era a isto que elle queria chegar!—bradava irritado o fidalgo.—Descobriu-se finalmente o hypocrita! A audacia d'esta gente não tem limites! Gabem-me os brios e a nobreza de alma d'estes miseraveis! Rodou em volta de minha casa o lobo, espiou a prêsa, attrahiu-a a si e feriu-a! Que ambição! Ahi está no que deu o desinteresse dos seus actos, a lealdade das suas intenções! Até da filha se servia, o infame, como instrumento dos seus planos e machinações! Ha nada mais vil? Trouxe-m'a para casa, como a vibora que me havia de inocular o veneno. E eu, fraco e tonto pela velhice e pela doença, deixei-me illudir! Oh! mas elles mal sabem com quem se mettem e no que se mettem! Deviam lembrar-se de que, nos homens como eu, ainda quando a vida se lhes está a apagar, a vontade póde reunir em um instante toda a energia de que precisa para esmagal-os, antes de morrer!
E D. Luiz, no auge da indignação, ergueu-se da cadeira em que estava sentado, e com o rosto afogueado pela ira, os punhos cerrados e os braços estendidos, bradou:
—E eu esmago-os! esmago-os a todos, se se atreverem a vir insultar-me n'estes ultimos dias de minha vida!
Anna tentou acalmar a furia do fidalgo, mas elle nem já a ouvia.
Fraqueando-lhe já a voz, tremulo, anciado, banhado em suor frio, continuava em tom cavernoso:
—Eu lhes juro que não me hão de vencer na lucta que provocaram. Quando me tiverem já usurpado a casa, seduzido os filhos e insultado o nome de minha familia, hão de ainda vergar sob o pêso das minhas maldições, porque eu acredito que ha um Deus no céo e que as pragas de um velho ludibriado teem ainda poder para attrahir as desgraças sobre a cabeça dos miseraveis que me insultam.
—Fidalgo, fidalgo, volte a si!—bradava Anna do Védor devéras consternada.
O velho, arredando-a com um movimento impetuoso, exclamou com energia crescente:
—Deixem-me! Deixem-me! Quero viver só, de hoje em diante! Só! Não quero vêr ninguem, nem filhos, nem familia! Ninguem! Cada pessoa que se aproxima de mim vem com o intento de me atormentar; cada affecto a que abro o coração transforma-se cá dentro em um veneno corrosivo! Oh! É de mais! Deixem-me! deixem-me morrer para aqui só, ninguem me appareça, ninguem me falle, deixem-me!
N'este momento a porta abriu-se e Bertha appareceu attrahida pela altercação que lhe parecêra ouvir no quarto do padrinho e perguntou assustada:
—Que é o que tem, snr. D. Luiz, o que lhe succedeu?
O fidalgo, exasperado, voltou-se com vivacidade ao ouvir-lhe a voz, e injectando-se-lhe ainda mais o rosto, bradou:
—És tu? Que queres? Vens continuar a obra que te incumbiram?! Sahe d'ahi! Sahe! Não me appareças! Não me falles! Não me faças descrêr de Deus! Não quero vêr ninguem, já disse! Deixem-me!
Bertha parou, surprendida e intimidada por aquella subita transformação nas maneiras do padrinho para com ella, e ao sahir do quarto, saltavam-lhe de sentida as lagrimas dos olhos.
—Ó fidalgo!—acudiu a Anna do Védor cada vez mais assustada pelo estado em que o via—ó fidalgo! olhe que está fóra de si! Isso que é? A pobre rapariga vae a chorar por a maneira por que a tractou. Que culpa tem ella? Coitada da pobre!
—É o que lucra quem se aproxima de um homem maldito de Deus como eu sou—respondeu o velho, deixando-se cahir na cadeira já desalentado.
—Não diga essas coisas, que até é peccado! Que motivos tem para essas furias? Olha agora! O que eu lhe disse não é para tanto. Além de que, socegue, tanto a rapariga como o seu filho Jorge teem juizo, mais até do que lhes convinha para serem felizes. Digo-lhe eu que mais depressa elles se deixarão morrer, e até parece que estão n'essa resolução, do que lhe darão o desgosto de que tanto se receia, não sei porquê. E olhe que o rapaz já não está longe de fazer a tal viagem. A não lhe agradar mais vêl-o morrer, o que o fidalgo deve fazer é…
D. Luiz mostrava não dar a menor attenção ao que a mulher dizia. O accesso de desespero passára. Com gesto e voz de abatimento interrompeu-a, perguntando:
—A pequena ia devéras a chorar?
—Podéra não. Ao rompante com que v. ex.ª lhe fallou! E sem razão alguma, porque, como eu disse a v. exc.ª, elles…
O fidalgo suspirou:
—É uma fatalidade!—disse elle a meia voz.—Pobre rapariga! De certo que não é ella culpada n'isto. Instrumento innocente nas mãos dos outros, nem ella sabe o que faz! Anna, eu preciso de estar só, peço-lhe que me deixe só.
—Pois fique-se com Deus.
—Olhe, Anna, olhe, se vir ahi fóra a pequena, diga-lhe que venha cá; se ahi não estiver… mande chamal-a, sim? Eu quero fallar-lhe.
—Olhe lá o que vae dizer-lhe, fidalgo! Não afflija a pobre rapariga, que bem lhe basta…
—Faça-me o que lhe peço, Anna, faça, e vá descançada.
—Sempre me deixe dizer-lhe, fidalgo, que se não quer perder o filho, ande com cautela n'este negocio.
A Anna do Védor, que não obteve resposta a esta ultima advertencia, sahiu duvidando de que tivesse tirado alguma utilidade do passo que deu junto do fidalgo, e quasi arrependida por o haver dado.
D. Luiz ficou só por algum tempo, com a cabeça escondida entre as mãos e os cotovêlos apoiados nos braços da poltrona.
—Até que ponto levareis esta provação, meu Deus?!—murmurava elle quasi soluçando.
Passados momentos entrava no quarto e avançava timidamente com hesitação ao encontro do velho, Bertha com os olhos ainda chorosos e o gesto commovido.
Ao rumor dos passos leves de Bertha, o fidalgo elevou a cabeça e fitou a afilhada com expressão de melancolia e affecto.
—Anda cá, Bertha; vem cá, minha filha. Então não vês como eu pago os cuidados que tens tido commigo? Que queres tu? Isto em mim é já loucura!
Ao tom affectuoso e triste d'estas palavras dissipou-se a hesitação de Bertha, que correu a ajoelhar-se junto do velho, pegando-lhe nas mãos enternecida:
—Não diga isso, snr. D. Luiz. Eu bem sei que eram impaciencias de doente.
D. Luiz segurou-lhe a cabeça entre as mãos e, olhando-a fixamente, murmurou:
—Pobre criança! Fiz-te chorar! Nem que te não bastassem os teus soffrimentos. Perdoa-me, minha filha. Tu não tens culpa no que os outros fazem. Não é possivel que tenhas culpa.
E beijava-lhe os olhos, onde de novo queriam apparecer as lagrimas.
—Perdoar-lhe? O que lhe hei de eu perdoar? A affeição que me tem? Só se fôr isso.
—Ahi vem outra vez as lagrimas! Enxuga-as. Não quero fazer-te chorar mais. Não faças caso do que eu digo, Bertha, que sou um tonto. É uma ingratidão de minha parte, uma feia ingratidão.
—O que me faz pena é vêl-o afflicto. Cuidei que estava peior.
—Não; é que essa mulher que d'ahi sahiu disse-me coisas…
E olhando outra vez fixamente para Bertha, acrescentou depois de alguma hesitação:
—Bertha, tu és sinceramente minha amiga?
—Ó meu padrinho. Que pergunta!
—Nem tu eras capaz de fingir um affecto que não sentisses. Creio bem.
—Porém, meu Deus, o que quer dizer com isso?
—Nada. Olha cá, Bertha… Quando tu vieste para os Bacellos… quando vieste para ao pé de mim… foi teu pae que te disse que viesses, não foi?
—Meu pae leu-me a carta da snr.ª baroneza, em que lhe participava que ia partir para Lisboa e que o snr. D. Luiz ficava sem ter quem o tractasse… e eu então lembrei-me do mesmo que meu pae já tinha tambem no pensamento e pedi-lhe para me deixar vir.
—E elle disse logo que sim, já se sabe?
—Se era essa mesma a sua ideia.
—Ah! era essa a sua ideia? E… e Jorge não foi ouvido n'essa occasião?
Porque Jorge ia muito por vossa casa, não ia?
Bertha principiava a sentir-se inquieta com esta inquirição.
—O snr. Jorge—respondeu ella um pouco a medo—ia ás vezes procurar meu pae para fallar de negocios com elle; mas n'isto não foi consultado, que eu saiba.
—Algumas vezes. Parece que ia todos os dias e que usava em vossa casa de toda a familiaridade.
—Era raro que se demorasse a conversar com outra pessoa que não fosse meu pae.
—Pois nem comtigo?
—Commigo?—repetiu Bertha perturbada—Commigo menos do que com os outros.
D. Luiz contrahiu as sobrancelhas como se esta resposta lhe fizesse suspeitar uma dissimulação.
—Pois então Jorge nunca fallaria comtigo?
—Muito de passagem, quando por acaso me encontrava e sempre com umas maneiras taes, que cheguei a acreditar que me queria mal por algum motivo desconhecido para mim.
D. Luiz fez um gesto de desgosto e de novo lhe assomaram ao semblante os vestigios da desvanecida irritação.
—Não esperava isso de ti, Bertha. Tu não és sincera commigo.
—Eu?
—Tu illudes-me como os outros a final, tu conspiras com elles contra a tranquillidade dos meus dias, contra o socego d'este coração atribulado. Deus te perdoe o mal que me fazes, tu, mais do que ninguem, porque te queria devéras.
—Jesus, snr. D. Luiz, meu padrinho, que quer dizer? Em que lhe fiz eu mal? Por amor de Deus, diga, falle-me claro.
—Bertha, é preciso que me digas a verdade, se queres que não suspeite de ti, como suspeito dos outros, como suspeito de todos; é preciso que não dissimules, como elles fazem, para me illudirem.
—Mas que quer que lhe diga, snr. D. Luiz? Prometto dizer-lhe a verdade, nem eu lhe sei mentir.
—Então para que me dizes que Jorge te queria mal?
Bertha sentia-se cada vez mais sobresaltada pelas perguntas do fidalgo, que pareciam dirigir-se ao segredo recatado, que ella conservava no coração.
—Eu disse—respondeu ella—que cheguei a pensar que o snr. Jorge me queria mal, porém…
A confusão que sentia não a deixou continuar.
O fidalgo notou aquella perturbação e abrandou mais a voz, tomou um tom carinhoso e disse pegando-lhe affectuosamente na mão:
—Vamos, Bertha, socega. Acredita que tens em mim um amigo, e abre-me francamente o coração sem receio. Dize-me, é verdade que Jorge te disse alguma vez que te amava? É verdade que entre vós ambos ha alguma affeição, alguma promessa?
A pergunta, ainda que não já de todo inesperada, sobresaltou Bertha, que não atinou com o que respondesse.
—Socega, minha filha—proseguiu o fidalgo, animando-a.—Bem vês que eu não quero reprehender-te. Sómente queria que me dissesses a verdade a este respeito.
—Meu padrinho—disse Bertha perturbada ainda—pois não se lembra do pedido que lhe fiz ainda ha poucos dias?
—Do pedido?… Ah! sim… Fallas do casamento?… Mas se elle já se não faz? Se foi a propria mãe de Clemente que me contou d'esses amores entre ti e meu filho?