—Oh! não póde ser!—exclamou Bertha, consternada.
—Como havia ella de saber?… Como podia ella dizer isso?
—O mesmo Jorge lh'o revelou.
—Jorge!… o snr. Jorge!… É impossivel!
—Mas porque não respondes á minha pergunta? O que ha de verdade em tudo isso?
Bertha conservou-se ainda algum tempo silenciosa e irresoluta. Depois, como se abraçasse um partido decisivo, tornou com maior vivacidade:
—Tem razão, meu padrinho, devo dizer-lhe a verdade. Nem ella tem em que me envergonhar.
—Então é certo?
Bertha com os olhos fitos no chão e a voz mal firme, mas exprimindo resolução, principiou:
—Um dia o snr. Jorge apresentou-se em casa de meu pae, a pedir-lhe, em nome de Clemente, licença para o casamento que sabe….
—Como?! Foi Jorge que pediu esse consentimento? E antes d'isso não tinha elle já dado a conhecer-te….
Bertha não o deixou continuar.
—Escute, snr. D. Luiz, que eu prometto dizer-lhe toda a verdade. Meu pae chamou-me para consultar-me a esse proposito.
—Ah! teu pae consultou-te?! E esperava que tu recusasses, não é verdade?
—Eu nunca pensára em casar-me, nunca pensára até no futuro, por isso aquella proposta sobresaltou-me.
—E respondeste….
—Depois o ter sido feita pelo snr. Jorge mais me perturbava ainda.
—Sim, porque elle havia-te jurado talvez….
—Não havia jurado coisa alguma; quasi nem me fallára detidamente desde que eu voltára á aldeia. Parecia fugir de mim, parecia que a minha presença lhe desagradava, que as minhas palavras o irritavam. Não era possivel illudir-me a esse respeito. Affligia-me vêr a pouca sympathia que eu merecêra, sem saber porquê, a um rapaz que todos diziam tão generoso, tão indulgente e de tanto juizo; e isto era causa para eu muito pensar no que poderia dar motivo áquelle proceder d'elle para commigo. Tinha isto sempre na ideia, observava-o, estudava-o… e foi mau isto, bem sinto que foi mau.
—Porquê?
—Porque quanto mais o observava—continuou Bertha, com ingenua sinceridade—mais de perto lhe conhecia as nobres qualidades, e senti a pouco e pouco em mim uma admiração por elle, uma sympathia, um respeito, um….
—Um amor—concluiu D. Luiz, vendo a hesitação de Bertha.
—Uma loucura—emendou esta—que eu tractei logo de abafar em mim, porque desde o principio a vi tal como ella era.
—És um anjo—disse D. Luiz, afagando-a.
Bertha proseguiu:
—Mas a proposta d'aquelle casamento, feita pelo snr. Jorge, foi para mim mais uma prova da antipathia, que eu julgava merecer-lhe. Pareceu-me quasi uma perseguição; despeitada com ella, disse a meu pae que aceitava a proposta de Clemente.
—E elle… e elles que disseram?
—Ficando momentos depois só com o snr. Jorge e sem que podésse já reter as lagrimas que me afogavam, perguntei-lhe quaes eram as razões que o tinham levado a dar aquelle passo, a encarregar-se d'aquella proposta, porque motivo eu lhe era tão odiosa, o que é que o levára a fazer-me mal, a mim que nunca lh'o fizera nem desejára.
—E elle?
—Foi então—proseguiu Bertha, mas enleiada—que imprevistamente elle me confessou que o unico motivo de todo o seu proceder, da sua apparente má vontade, da dureza das suas palavras era… a affeição que me tinha e que, desde que a sentira, se esforçára por occultar e vencer, como eu tambem fizera; que estava decidido a sacrifical-a aos seus deveres de familia, mas que não queria que o sacrificio ferisse a mais alguem senão a elle, e para isso procurava sempre desviar de si pelo seu proceder as minhas attenções e sympathias. Não o conseguiu; mas que importava? Eu não tinha menos coragem do que elle, e comprehendia tão bem como elle quaes eram os meus deveres, que em mim eram mais fortes ainda.
—Pobre rapariga!—murmurou D. Luiz commovido.
—Assim posso dizer que foi aquelle o primeiro e o ultimo dia d'esses… amores de que lhe vieram fallar não sei para quê. No mesmo dia em que nos declaramos, no mesmo dia promettemos abafar em nós mesmos essa loucura que nascêra sem que o sentissemos. E tanto que dias depois eu vinha pedir-lhe o consentimento para me casar com Clemente.
—E teu pae nada soube de tudo isso?—perguntou o desconfiado fidalgo.
—Se nós mesmos o não sabiamos!—respondeu Bertha com ingenuidade.
Depois de um intervallo de muda reflexão, D. Luiz segurou outra vez nas mãos a graciosa cabeça da afilhada, e poisou-lhe na fronte um beijo, verdadeiramente paternal.
—Era bem digna de ter nascido entre a nobreza—disse elle suspirando—quem tão nobremente pensa e procede. Quantas raparigas creadas em palacios deviam ouvir e aprender de ti, Bertha! Pobre pequena! O teu sacrificio é grande e custoso, porque tu com esse coração que tens, se amas, deves amar devéras; mas bem vês e tu mesma o reconheces, é um sacrificio inevitavel! Nas familias como as nossas ha certas exigencias tradicionaes….
—Snr. D. Luiz—disse Bertha interrompendo-o—repare que ha dias que eu lhe pedi o seu consentimento….
—Bem sei, Bertha; bem vejo que o teu juizo dominou a tua phantasia de rapariga. Por isso te admiro, filha. Mas para que levavas tambem tão longe o sacrificio, indo casar-te com um homem que não amavas?
—Era um homem honrado, que me pedia para companheira da sua vida. O destino de uma mulher como eu é esse. É a nossa missão. Porque não havia de cumpril-a?
—Illudindo, porque não podias amar.
—Disse-o a Clemente. Não lhe prometti o que não podia dar-lhe.
—E elle aceitou?!
—Pediu tempo para pensar. Agora vejo que não….
Calaram-se por algum tempo. Bertha, sem erguer os olhos, dobrava e desdobrava distrahida o pequeno avental de sêda. D. Luiz observava-a com ar pensativo.
Foi elle quem renovou o dialogo.
—Custa-te muito o sacrificio que fazes, não é verdade?
—Para que hei de dizer que não? Custa-me como quando ao acordar de sonhar um sonho agradavel, me convenço de que foi um sonho tudo. Sabe porém o que me anima? É o pensar que mais me custaria se o sonho se realisasse.
—Porquê?
—Porque teria remorsos de pagar d'essa maneira o affecto que encontrei sempre n'esta casa; porque teria vergonha de que pensassem que, da minha parte, esses affectos eram calculados e interesseiros. Nós tambem temos o nosso orgulho, snr. D. Luiz—acrescentou ella, sorrindo.
—E nobre que elle é—acudiu o fidalgo, cada vez mais fascinado.
N'este momento a porta abriu-se, e frei Januario metteu a cabeça pela abertura.
—Que é?—perguntou D. Luiz, irritado.
—É o Thomé da Povoa … é o pae d'essa menina que a procura.
—A mim?—disse Bertha, levantando-se.
—Sim, menina—tornou o padre—e parece-me que procura a v. exc.ª tambem.
—Pois que entre—respondeu D. Luiz asperamente.
Passados momentos Thomé da Povoa entrava para o quarto de D. Luiz, com as maneiras respeitosas mas rasgadas que lhe eram peculiares.
XXXV
Como homem a quem pesava a commissão que se propunha a desempenhar alli, Thomé da Povoa, depois de comprimentar o fidalgo e de abençoar a filha, foi direito ao fim da sua visita.
—Pois, snr. D. Luiz, eu venho aqui para buscar a rapariga, se v. exc.ª der licença.
Bertha desviou para o fidalgo um olhar inquieto e investigador.
D. Luiz não respondeu, mas correu-lhe pelos labios um rapido sorriso, entre amargo e ironico.
Thomé, em vista do silencio do fidalgo, sentiu que não podia deixar de dizer mais algumas palavras de explicação, e por isso, enleiado a forjar um pretexto que não lhe occorria, acrescentou:
—Ella está sendo lá precisa… porque… sim, a minha Luiza, pelos modos… anda assim adoentada…
—Minha mãe está doente?—perguntou Bertha com inquietação.
—Doente, doente… o que se chama doente, não digo, mas… E depois ha lá uns milhos a arrecadar e os pequenos… E emfim, n'esta época do anno, a casa de um lavrador… Os jornaleiros são muitos…
E a cada pretexto que mal apontava, Thomé erguia a vista para D. Luiz a estudar-lhe na physionomia o effeito da desculpa.
Mas de todas as vezes a achava cerrada na mesma expressão de reserva e de mysterio.
De repente, porém, D. Luiz fez um movimento, como se uma subita resolução lhe acudisse, estendeu a mão para Bertha, que se demorára ainda ao lado d'elle e como que a impelliu de si e na direcção de Thomé, dizendo com affectada placidez:
—Ahi a tem. Póde leval-a.
Á estranheza com que Thomé o encarou, vendo-o fazer aquelle gesto, correspondeu o fidalgo, acrescentando em tom de amargura e sarcasmo:
—Não calculou bem o tempo. Antecipou-se. A occasião não era ainda esta; por ora não estou enfeitiçado, bem vê.
Thomé julgou perceber vagamente o sentido d'estas palavras e córou, dizendo:
—Ou eu entendo mal o fidalgo, ou quer dizer…
—Que póde levar sua filha. A presença d'ella aqui não adianta os seus projectos. Meus filhos não estão nos Bacellos, como vê, e eu… eu já não tenho coração sujeito a feitiços.
—A illusão não era possivel para Thomé. As palavras de D. Luiz confirmavam as previsões que elle tivera antes de lh'as ouvir.
O rosto do lavrador tomou a expressão que os fortes golpes e as paixões violentas lhe costumavam dar.
Ficou-se por algum tempo a olhar para o fidalgo sem soltar uma palavra, mordendo os beiços e abanando significativamente com a cabeça. Depois tomou a filha pela mão, e encaminhando-a para a porta do quarto, disse-lhe:
—Bertha, vae apromptar as tuas coisas, que eu espero por ti… e no entretanto conversarei com o fidalgo.
Bertha sentia que entre aquelles dois homens havia imminente uma lucta de paixões, que não estava já na sua mão dissipar. Mais valia pois deixal-os chegar a uma explicação decisiva, que definisse a posição de cada um.
Obedeceu portanto á indicação do pae, dirigindo-lhe apenas em um olhar uma supplica que não passou desapercebida de Thomé.
Depois que Bertha sahiu, o lavrador voltou para defronte do fidalgo, e cruzando os braços disse-lhe com um modo decidido:
—Agora que estamos sós, snr. D. Luiz, faça v. exc.ª o favor de me accusar abertamente e de uma maneira clara e franca.
D. Luiz respondeu com frieza e sobranceria:
—Se nas minhas palavras viu coisa que lhe parecesse uma accusação é porque de certo a consciencia lh'as interpretou assim.
Thomé da Povoa não pôde reter um movimento de impaciencia.
—Por quem é, fidalgo, não me principie v. exc.ª com esses discursos enredados, com que não me entendo. Jogo franco! Ou se não, começo eu, e será talvez melhor.
D. Luiz encolheu os hombros, exprimindo a mais aristocratica indifferença.
—Não me custou a entender as suas palavras de ha pouco, fidalgo, porque depois do que eu soube esta manhã, esta manhã apenas, repare bem, snr. D. Luiz, depois do que soube esta manhã e conhecendo como conheço o genio de v. exc.ª, já esperava ouvir alguma coisa parecida com o que ouvi. Mas nem por serem esperadas me feriram menos as taes palavras. É preciso que v. exc.ª saiba. Porque um homem que não tem a pesar-lhe na consciencia nenhuma deslealdade, um homem que tem brios, não póde a sangue frio ser suspeitado como eu o estou sendo por v. exc.ª
—Bem; pois se a consciencia lhe não exprobra nada, é o essencial. Vá em paz com ella e deixe-me em socego, homem, deixe-me, que bem preciso eu d'elle.
—Perdão, fidalgo. Isso é que eu não posso fazer. Deus me livre de ser accusado pela minha consciencia, mas Deus me livre tambem de o ser pela dos homens que respeito e estimo. E v. exc.ª, ainda que não o creia, é um d'esses.
—Muito obrigado.
—Permitta-me que vá direito ao caso. Minha filha não tarda ahi, e eu não quero fallar diante d'ella. Esta manhã foram a minha casa, (provavelmente quem veio a esta) porque vejo que vieram tambem aqui com a mesma nova… Foram a minha casa e disseram-me…
—Perdão, eu não preciso de saber o que se diz nas casas alheias.
—Pois bem—acudiu Thomé já irritado—eu lhe conto então o que se disse na sua. Vieram aqui, a casa de v. exc.ª, e disseram-lhe: «O seu filho Jorge está namorado da filha do Thomé e a rapariga também gosta d'elle.» Disseram-lhe isto com certeza, e disseram-m'o a mim tambem. Ora agora, eu lhe conto mais, eu lhe conto o que v. exc.ª pensou e o que eu logo previ que v. exc.ª pensava. Pensou v. exc.ª: Aquelle insolente Thomé foi quem machinou tudo isto. Atreveu-se a sonhar em apanhar o meu filho para marido da filha d'elle, em alliar a sua familia á minha, em dar por aposento áquella rapariga as salas do meu palacio. Para isso principiou a amimar-me o filho, para isso prestou-lhe serviços com signaes de desinteresse, para isso o levou por sua casa e lhe metteu á cara a filha, e emfim, para assegurar ainda melhor os seus projectos, sabendo da predilecção que eu mostrava pela rapariga, trouxe-m'a para casa, porque, velho e doente como me via, conjecturou que bem podia ser deixar-me de tal maneira prender por ella, que não oppozesse obstaculos aos seus projectos. Ora aqui está o que v. exc.ª pensou. Negue-o, se é capaz.
D. Luiz não ousou negar.
—Muito bem, fidalgo. O tempo é pouco, como disse, e por isso eu vou já direito ao meu fim. Eu logo vi que deviam ser estes os pensamentos de v. exc.ª, porque ainda quando as apparencias eram menos contra mim do que d'esta vez, v. exc.ª costumava sempre fazer a meu respeito supposições tão boas como esta. Por isso não pude soffrer a ideia de conservar nem mais uma hora minha filha n'esta casa. Vim e vim á carreira para a levar commigo. Procurava dar um pretexto qualquer a esta retirada, mas foi desnecessario, porque logo vi ás primeiras palavras de v. exc.ª que já chegára tarde para remediar o mal que previra. Muito bem, n'esse caso resta-me pouco a fazer para descargo da minha consciencia e depois retiro-me.
Thomé passou a mão pela fronte, que tinha inundada de suor. Na voz como no semblante eram evidentes os signaes da sua excessiva commoção.
D. Luiz, que o ouvira conservando os olhos fitos no tapete do pavimento, sentiu-se involuntariamente obrigado a levantal-os n'aquelle momento para os fitar na physionomia do homem que tinha diante de si e que a seu pezar o impressionava.
—Fidalgo—proseguiu Thomé, depois d'esta breve pausa—juro-lhe que nunca percebi estas affeições entre minha filha e o snr. Jorge, juro-lhe que nunca pensei em que ellas podessem dar-se. Quando o soube estalou-me o coração de dôr e córaram-me as faces de vergonha. Cheguei a arrepender-me, pela primeira vez, de alguns serviços que em boa fé prestei ao snr. Jorge, pequenos mas feitos da melhor vontade. Mas uma vez que o caso se deu, sem culpa minha, só tenho a dizer-lhe isto, fidalgo; ouça-me bem. Quero do coração a seu filho, de pequeno o estimo, e respeito-o agora como um homem de bem que é; quero devéras, se quero! a minha filha, é a primeira que eu tive, é a única rapariga, é a que trago mais chegada ao coração, fraquezas de pae, como sabe; pois bem, quero-lhes a ambos e muito, mas ainda que a affeição que elles tivessem um pelo outro fosse tal que eu os visse morrer, e que a salvação d'elles só dependesse do meu consentimento para se casarem, deixal-os-ia morrer, deixava; morreria com elles, mas não daria esse consentimento. Juro-lh'o, fidalgo, juro-lh'o! que para tanto tenho coragem; porque o meu orgulho não é menos forte do que o de v. exc.ª! Para eu consentir que um filho meu entrasse na sua familia, fidalgo, era necessario… Eu sei lá o que era necessario?… Era necessario que v. exc.ª primeiro me pedisse por favor para assim o consentir. Agora veja lá se isso é possivel.
Ao terminar, Thomé tinha a respiração cortada, offegante, como de quem realisou um esforço enorme. Cahiam-lhe bagadas de suor pela fronte afogueada e as mãos contrahiam-se-lhe em crispações nervosas.
D. Luiz ia a responder-lhe quando Bertha entrou no quarto preparada para a partida.
A sua chegada cortou n'este ponto a scena.
Bertha relanceou um olhar para os dois velhos e adivinhou que a scena que ella previra tivera logar.
—Quer que vamos?—perguntou ella ao pae timidamente.
—Vamos—respondeu este com um modo sacudido, dirigindo-se para a porta.
Bertha aproxiraou-se do fidalgo, olhando-o com timidez.
—Quer dar-me a sua benção de despedida, meu padrinho?—perguntou Bertha a meia voz, como receiosa de uma recusa.
D. Luiz, sem voltar o rosto, estendeu-lhe silenciosamente a mão.
Bertha apoderou-se d'ella e beijou-a, banhando-a de lagrimas de saudade.
D. Luiz estremeceu ao sentir aquelles beijos e aquellas lagrimas, mas fez por se reprimir na presença de Thomé.
Emfim, Bertha separou-se d'elle, e encaminhou-se para a porta, onde o pae a esperava.
Poucos passos andados ouviu que a chamava uma voz suffocada.
Voltou-se. D. Luiz seguia-a com a vista nublada de pranto e estendia-lhe os braços para um ultimo adeus.
Ella correu para o velho e abraçaram-se soluçando.
Thomé sensibilizado escondeu-se discretamente nas dobras do reposteiro.
Por algum tempo durou ainda aquella tocante scena de despedida, que despedaçou o coração do velho fidalgo.
A final afastando brandamente de si a rapariga e beijando-lhe a fronte, enternecido, murmurou:
—Vae, minha filha; é melhor que vás. O teu sacrificio é grande, mas crê que não é maior do que o meu. Dize a teu pae….
Mas percebendo Thomé meio escondido na porta, dirigiu-se a elle:
—Thomé, ha pouco fui injusto comsigo. Desculpe-me; a velhice e a doença fizeram-me assim. Creio na sua boa fé e espero que todos nós saberemos proceder como o dever nos manda. Adeus, entrego-lhe a sua filha. Tem razão em a querer junto de si.
E pela segunda vez na sua vida o fidalgo da Casa Mourisca estendeu a mão ao seu antigo criado.
Thomé aceitou-lh'a com a effusão com que sempre acolhia a mão que lealmente se estendia para a sua.
—Fidalgo, se v. exc.ª… Mas não; é melhor que Bertha venha commigo. É melhor para socego de todos. Custa ao principio, mas…
—Sim; é melhor, é; Bertha que vá—assentiu D. Luiz.
E depois de uma ultima despedida tão terna como a primeira, o pobre doente viu desapparecer para não voltar, a doce figura da sua carinhosa enfermeira.
Assim que deixou de ouvir-lhe os passos no corredor, o desalentado velho escondeu a cabeça entre as mãos já trémulas, e com a voz cortada pelos soluços exclamou com desespero:
—Agora morre! morre! morre para ahi só, velho desgraçado, sem filhos, sem familia, sem amigos; morre só com os teus rancores, com as tuas paixões, com o teu orgulho, já que assim o queres. Quando acabará de se despedaçar este coração, para me deixar descançar?
Frei Januario veio surprendêl-o n'este apaixonado monologo e recuou assustado ante a vehemencia d'aquella dor.
D. Luiz nem deu pela chegada do padre. Cahindo em um profundo abatimento, assim permaneceu sem que as perguntas e supplicas do padre conseguissem arrancar-lhe uma palavra dos labios contrahidos.
Sómente ao fim da tarde, D. Luiz disse que queria deitar-se; ajudaram-n'o a despir-se e a mettêl-o na cama, onde elle ficou como cabido em uma somnolencia morbida.
O padre receioso do resultado d'aquella subita depressão de forças, pensou em avisar Jorge.
O bom do padre, apesar dos seus defeitos, não era um coração insensivel, e por D. Luiz tinha uma affeição sincera. Aquella noite, reagindo contra o seu amor pelas commodidades, velou, ou melhor, permaneceu á cabeceira do doente. Teve porém o desgosto de perceber que este não sentia grande refrigerio em vêl-o alli, porque sempre que no intervallo dos seus somnos agitados dava com os olhos n'elle, desviava-os logo com despeito.
Não obstante, o padre conservou-se fiel ao seu posto.
XXXVI
O estado do doente no dia seguinte não era mais animador. O abatimento, em que tão de subito cahira, mostrava geitos de prolongar-se e por ventura de terminar por uma solução funesta.
O padre mandou á pressa aviso a Jorge para que viesse aos Bacellos.
A carta de frei Januario chegou ás mãos de Jorge juntamente com outras de mais felizes novas. Umas eram do Porto, noticiando-lhe a decisão favoravel da importante demanda que elle sustentava, outras da baroneza e de Mauricio, participando-lhe o seu casamento e promettendo uma proxima visita á aldeia. Todas estas noticias de tão diversa indole impressionaram extraordinariamente Jorge.
Por esse lado illuminava-se-lhe o horizonte do caminho, que seguia com a constancia e a tenacidade de um animo varonil; por outro assombrava-o o estado perigoso de seu velho pae, a quem elle desejaria dar ainda a consolação de vêr como que erguida das ruinas a casa de seus antepassados.
As novas, quasi funebres, que lhe vinham dos Bacellos, enlutavam-lhe as alegrias nupciaes das cartas do irmão e de Gabriella.
Debaixo da influencia d'estas impressões oppostas, Jorge, depois de escrever um pequeno bilhete a Thomé, em resposta a outro que d'elle recebeu, communicando-lhe também o resultado da demanda, montou a cavallo e partiu a toda a pressa para os Bacellos.
O procurador recebeu-o com ar consternado, e abanando sinistramente a cabeça, conduziu-o ao quarto de D. Luiz.
Jorge sentia comprimir-se-lhe dolorosamente o coração ao aproximar-se do leito do pae.
—Elle já nem falla—dissera-lhe a meia voz o padre, que de facto ainda não conseguira obter uma só palavra do fidalgo.
Jorge afastou quasi tremendo as cortinas do leito.
D. Luiz, que jazia com os olhos fechados e n'aquella immobilidade quasi morbida em que desde a partida de Bertha cahira, não deu signal de ter percebido a chegada do filho.
Jorge, assustado com aquella impassibilidade, pegou-lhe na mão que tinha estendida por fóra da roupa, como para procurar n'ella o calor da vida.
Ao contacto da mão do filho, o fidalgo estremeceu e abriu os olhos; vendo Jorge, passou-lhe nos labios um desvanecido sorriso de affecto.
—Ah! és tu, Jorge?—disse elle com a voz ainda fraca—não te tinha visto entrar.
Frei Januario ficou estupefacto, ouvindo fallar o doente, que elle já suppunha em estado de não poder fazêl-o.
—Acha-se melhor?—perguntou Jorge, vergando-se sobre o leito.
O velho só respondeu encolhendo os hombros como exprimindo indifferença pela sua sorte, e depois fitando outra vez os olhos no filho, interrogou-o por sua vez:
—E tu?
Jorge estranhou esta solicitude no pae, tão fóra dos seus habitos, e sentiu-se commovido.
—Eu?… eu estou bom.
—Estás pallido e doente—proseguiu o pae, fitando-o.
E sem desviar os olhos, recahiu no silencio, que manteve por alguns segundos.
Depois, procurando a mão do filho e apertando-a na sua, murmurou com uma commoção a que só ultimamente era sujeito.
—És um homem, Jorge! És digno do nome que tens e da familia que representas.
Estas palavras surprenderam extraordinariamente Jorge e não menos frei
Januario, que as attribuiu ao delirio produzido pela doença.
D. Luiz acrescentou no mesmo tom:
—Saber sacrificar tudo a um dever é a principal e a mais difficil sciencia que nós temos a aprender na vida, e tu… mostras que estás bem senhor d'ella.
Julgando perceber o sentido d'estas palavras, Jorge fitou no pae um olhar perscrutador.
Elle porém fechou novamente os olhos e por muito tempo permaneceu como cahido em um somno profundo.
O filho e o padre conservaram-se ao lado do leito.
—Como vão os negocios de nossa casa?—perguntou d'ahi a pouco elle sem abrir os olhos.
Jorge communicou-lhe a boa nova que recebêra de se haver vencido a mais antiga e a mais importante demanda que sustentavam.
Na pallidez das faces do doente passou um instantaneo rubor. Os labios agitaram-se-lhe, e baixo, muito baixo, que mal o pôde ouvir o filho, murmurou:
—Será chegado o termo d'esta longa provação?!
Depois recahiu no torpor em que passára a noite e não disse mais palavra alguma.
Jorge, vendo-o a dormir, correu-lhe as cortinas do leito, diminuiu a claridade do aposento, e entregando-o á vigilancia do padre, retirou-se ao escriptorio para trabalhar nos negocios da casa.
Todo esse dia e a noite que se lhe seguiu passaram sem novidade.
Pela madrugada do dia immediato despertou a gente nos Bacellos á chegada de um numeroso cortejo de criados e portadores de bagagens, acompanhando a baroneza e Mauricio, noivos de pouco, e que vinham cumprir a promessa da sua visita.
Jorge correu a recebêl-os e cingiu nos braços commovido o irmão e a cunhada.
Passados os primeiros momentos absorvidos pelos transportes de alegria, a baroneza e Mauricio, reparando mais attentamente para o ar abatido e a pallidez de Jorge, fizeram-lh'o notar com apprehensão.
—Pelo que vejo, as tuas imprudencias continuam, Jorge?—disse a baroneza.—Ajuizado como és, não vês que pelo caminho que segues não podes realisar os teus grandes projectos?
Jorge sorriu, encolhendo os hombros.
—Que quer que lhe faça, Gabriella? A vontade do homem não rege os processos intimos da sua vida organica. Não está na minha mão modificar o andamento dos meus actos nutritivos.
—Mas podes desviar muito bem as causas que os perturbam. O excesso de trabalho…
—Não é isso, Gabriella—acudiu Mauricio—eu sempre conheci em Jorge o habito de estudar e de trabalhar sem estes effeitos. O que o mata é a louca presumpção de ser superior ás paixões, e a tentativa que faz para sacrifical-as a não sei que imaginarios deveres.
Jorge sorriu.
—Já vejo que se estabeleceu entre os noivos o communismo de segredos.
Esse soubeste-o só depois de casares.
—Suspeitei-o muito antes, bem o sabes.
—Isso é verdade, suspeitaste-o muito antes de eu proprio me convencer d'elle.
—Mas—tornou a baroneza—é preciso sahir d'isto. O Jorge suppõe-se mais forte do que é.
—Creia, Gabriella, o melhor é deixar ao tempo o cuidado de resolver as crises. Hoje o que me preoccupa é a solução dos meus negocios, que felizmente vão tomando uma face animadora.
—É verdade, disseram-me em Lisboa que se decidiu em bem a demanda que tanto te preoccupava. O que tu não sabes é que ao valimento de Mauricio com um dos desembargadores, em cujas mãos parava o processo, se deve essa prompta solução.
—Devéras?
—Não ouso crêl-o—disse Maurício—ainda que é verdade ter-lhe fallado e haver recebido d'elle a promessa de aviar depressa o processo.
—Hoje quasi posso assegurar-lhe que é certa a nossa regeneração—tornou Jorge.—Esta primeira victoria prepara-me o terreno para outras e solta-me os movimentos que tinha peiados. E os teus projectos, Mauricio?
—Vão em bom caminho. Tenho quasi certo um logar na embaixada de Londres ou de Berlim.
—Eu ainda não desespero de envelhecer embaixatriz—disse a baroneza, sorrindo, e acrescentou:—Mas que é de Bertha? Já cá não está?
—Retirou-se ha dias. Desde então recrudesceu a doença do pae.
—E para que se retirou?
—O Thomé veio buscal-a.
—Com que fim?
—Não sei… Ainda que… por algumas coisas que ouvi… quer-me parecer que fizeram conceber a Thomé certos receios. Emfim eu proprio não quiz profundar os motivos da retirada por temer que não me fosse agradavel ouvil-os.
—E querem vêr que o tio Luiz também soube? É impossivel que tudo isto não lhe tenha feito muito mal! Eu nunca vi! Esta gente toda entregue a si parece que porfia em complicar a situação. Mauricio, vamos vêr teu pae. Eeus queira que ainda seja possivel remediar o mal feito. Vens, Jorge?
Passados momentos entravam todos tres no quarto de D. Luiz, onde penetrava apenas a discreta claridade coada pelas cortinas corridas e pelas janellas meio abertas.
Frei Januario, que dormitava ao lado do leito, com o lenço vermelho em uma mão e o breviario na outra, ergueu-se ao ver a baroneza, e depois de comprimental-a dispunha-se a avisar o fidalgo.
Gabriella susteve-o, e avisinhando-se do leito, correu ella propria os pannos do cortinado e contemplou o rosto do ancião, que dormia profundamente.
Mauricio e Jorge acercaram-se tambem.
A nobre physionomia de D. Luiz, abatida pelo soffrimento physico e moral, e sobre a qual o somno parecia derramar uma serenidade, como de resignação, impressionou-os a todos.
A baroneza ajoelhou ao lado do velho, e pegando-lhe na mão beijou-a com affecto e respeito. Mauricio ajoelhou tambem ao lado de sua esposa.
D. Luiz acordou um tanto sobresaltado. Deu primeiro com a vista em Jorge e depois, desviando-a, reconheceu a sobrinha e o filho mais novo, e raiou-lhe no semblante, ao vêl-os, um clarão de alegria.
—Ó meus filhos!—exclamou elle, solevantando-se no leito e apoiando-se no braço tremulo.
Depois, passando a mão por sobre a cabeça dos noivos, acrescentou:
—Deus vos abençoe, como eu vos abençôo.
E deixou-se cahir extenuado sobre o travesseiro.
Gabriella levantou-se para amparal-o.
—Ai, Gabriella—disse elle, suspirando—finalmente parece que chegou a hora da liberdade.
—Diga que chegou a hora da resurreição. Verá como de hoje em diante tudo vae ser ventura n'esta casa. Ha de trazer-lh'a Jorge e Mauricio e eu, até eu e… e mais alguem. Quem sabe?
D. Luiz voltou os olhos para o filho mais novo.
—Mauricio—disse com a voz cançada e interrompida—és ainda muito rapaz e vaes viver em um mundo perigoso, não desprezes a conselheira que Deus collocou a teu lado.
—Como hei de desprezal-a, se a adoro?—disse Mauricio com o galanteio de um noivo ainda namorado.
A baroneza correspondeu-lhe com um sorriso, e observou:
—Nem receio o desprezo, nem creio na adoração. Deixemos as coisas nos termos ajustados. Estimemo-nos e seremos felizes.
—Nem todos podem ter a frieza do teu animo, filha—disse Mauricio a meia voz.
—Não é tempo agora de discutirmos isso. Sabes? O pae não póde por emquanto ouvir longas conversas. Acordou ha pouco e precisa de poupar a attenção. Se tu fosses com Jorge dar ordem a essas coisas que os criados trouxeram… Eu ficaria no entretanto aqui.
Jorge e Mauricio perceberam que a baroneza tinha desejos de que a deixassem só com D. Luiz, e sahiram por isso da sala.
Frei Januario, meio adormecido, não deu pela sahida dos rapazes e permaneceu entre o leito e a parede, encoberto pelo cortinado e desapercebido de Gabriella.
Esta sentou-se á cabeceira do leito e com feminil carinho começou a ageitar a travesseira do doente e a desviar-lhe da fronte as cãs desordenadas.
—Eu não esperava vir encontral-o sem enfermeira—dizia Gabriella o mais naturalmente possivel.
D. Luiz suspirou.
Ella insistiu:
—É uma coisa tão necessária! Porque ha certo cuidado que só uma mulher póde ter. É a nossa especialidade.
D. Luiz abanou a cabeça.
—Tem razão, Gabriella. É uma desconsoladora solidão a de um doente sem esses cuidados de que falla.
—Mas… porque se retirou Bertha?
D. Luiz não respondeu logo a esta pergunta, que parecia contrarial-o, porque lhe chamou á fronte uma contracção de desgosto.
—Ai, raparigas!—tornou a baroneza—ferve-lhes o sangue a final.
—Não diga isso, Gabriella, que é injusta. Bertha é um anjo de abnegação.
—Mas para que havia o anjo de abandonar o seu posto?
—Vieram buscal-a.
—Quem?
—O pae.
—Pois o Thomé da Povoa seria capaz de leval-a d'aqui contra vontade d'ella e do padrinho?
—O Thomé teve razão para o fazer. Eu mesmo lhe disse que devia leval-a.
—Ah! então não entendo.
—Ha sacrificios tão dolorosos, que não é justo exigil-os, nem permittil-os.
—E o que Bertha fazia, ficando aqui a seu lado, era d'essa natureza?
—Talvez fosse.
—Não posso conceber de que maneira.
D. Luiz cançado do esforço que fazia para fallar ou hesitando no que dissesse, não respondeu logo.
Depois murmurou:
—Aquella pobre rapariga tem uma alma nobre e heroica. Não seria ella que se trahiria por um signal de dôr, ainda quando sentisse despedaçar-se-lhe o coração.
—E corria esses riscos aqui?—perguntou a baroneza com affectada candura.
—Gabriella—continuou D. Luiz—Bertha sahiu victoriosa de uma grande lucta. O coração, porém, ainda lhe devia sangrar, e não era aqui que se lhe consolidariam as cicatrizes.
—São tão vagos esses dizeres! Ora vamos; diga-me o que houve; falle-me claro.
—Que havia de ser? Bertha é um anjo, mas sob a encarnação de mulher, tem um coração… e esse, sujeito a apaixonar-se como os outros.
Gabriella fez um gesto de quem tivera uma ideia subita.
—Ah! Já sei! Percebo agora! Era a isso que alludia? Cuidei que seria outra coisa mais grave.
D. Luiz fixou na sobrinha um olhar admirado.
—A Gabriella por certo não sabe ao que me refiro.
—Sei, sei, pois não sei! Havia muito que eu tinha descoberto esse segredo de Bertha, de Bertha e de Jorge.
—E deu-lhe tão pouca importancia?
—Apenas a que merece. Mas devéras, foi esse o motivo da retirada de
Bertha? Parece-me impossivel!
—Já não pouco imprudente havia sido a demora d'ella n'esta casa. Elles ambos são fortes, mas não devem abusar das suas forças com risco de aggravar o mal e leval-o a extremos irremediaveis.
—O mal… extremos irremediaveis… Que linguagem tão carregada para uma coisa tão simples! Pois diga-me, considera um grande mal o facto de elles gostarem um do outro?
D. Luiz encarou Gabriella devéras admirado da pergunta.
—Está a zombar, Gabriella?
—Não estou. Fallo-lhe com toda a minha seriedade. Sabe quando eu receio mal da inclinação reciproca de duas pessoas? É quando nos caracteres d'ellas ha taes contradicções que o futuro promette ser uma continuada lucta. Agora todas as mais desigualdades, desigualdades de riqueza, de posição social e de jerarchia, são facilmente niveladas por um amor verdadeiro e serio. E esta é de certo a indole do amor d'elles.
—Visto isso, achava a Gabriella muito natural que meu filho casasse com a filha de Thomé da Povoa?
A pergunta era feita com certa acrimonia, que não passou desapercebida da baroneza. Ella porém estava resolvida a atacar de frente os preconceitos do tio e não titubeou ao responder-lhe:
—Se quer que lhe diga, achava até muito conveniente.
D. Luiz moveu com certa impaciencia a cabeça.
Gabriella insistiu:
—Queria antes que eu votasse pela continuação d'este estado de coisas, que o ha de matar, que infallivelmente o mata, porque—diga o tio o que disser—a companhia de Bertha é-lhe já tão necessaria como lhe foi a de Beatriz? Queria antes que eu votasse por esta ordem de coisas, que traz definhado seu filho e que irremediavelmente o sacrificará e com elle as esperanças de regeneração d'esta casa e d'esta familia? Desengane-se, meu tio, o futuro de sua familia está indissoluvelmente ligado a Bertha.
—Póde ser.
—Está, digo-lh'o eu, que bem conheço Jorge. Elle renunciou espontaneamente ao mais violento desejo do seu coração, julgando que seria empreza ao alcance das suas forças. O resultado está-se vendo. De dia para dia cresce n'elle o abatimento e as consequencias não é difficil prevêl-as. E diga-me se vale a pena sacrificar vidas tão preciosas e tão nobres e brilhantes projectos a um capricho aristocratico?
—Capricho?!
—Capricho, sim. Se invocar toda a sua philosophia, o tio Luiz ha de reconhecer que não merece outro nome esse escrupulo.
—Não será dever?
—Em que codigo lhe é imposto?
—No da nobreza.
—O dever de quem é nobre de origem é conservar-se pelas suas acções digno d'ella. Ora hoje, meu tio, que o mundo está quasi todo descoberto e em que já passaram de moda as conquistas dos mouros e as guerras com os castelhanos, que melhor póde cumprir-se esse dever do que o faz Jorge, luctando nobremente para resgatar a sua casa e dando um grande e salutar exemplo, que oxalá que fosse seguido? Elle sim, é quem continua as gloriosas tradições dos seus avós, e olhe que não será menos util á pátria do que elles foram. Mas ha um estimulo necessario para manter n'elle aquella actividade. Elle proprio illude-se, julgando que póde prescindir d'esse estimulo. Não póde. Esse esforço ha de sacrifical-o. Agora veja o tio, em respeito a quem é sómente feito o sacrificio, se não sentirá remorsos um dia por havêl-o consentido.
D. Luiz parecia pouco satisfeito com a discussão, que o collocava entre duas forças que igualmente o opprimiam.
—A minha vida é de sacrificios; é destino. Devo estar preparado para aceital-os com resignação.
—Resignação nada christã; porque Deus não quer que nos resignemos com os males que podemos evitar, e muito menos quando é uma paixão ruim que os prepara.
—Uma paixão ruim!—exclamou o fidalgo mais exaltado—até que ponto a traz cega a corrente das ideias modernas, que já chama paixão ruim ao respeito que devemos ao esplendor das nossas casas?
—E que perderia esse esplendor com a alliança de Bertha? Não é ella uma rapariga de sentimentos nobres, cheia de virtudes e de excellentes qualidades? N'essas familias que manteem o esplendor que diz, conta muitas noivas mais dignas de seus filhos? E depois, meu tio, deixe-me dizer-lhe: nós precisamos de misturar sangue novo ao nosso, senão morremos asphyxiados n'estes ares modernos. É verdade isto, as famílias que escrupulisam em não caldearem o sangue antigo que trazem nas veias, dão de si uns descendentes quasi sempre parvos e pêcos, por isso mesmo que sahem organisados para viverem ern uma sociedade talhada por moldes que já se não usam, e não sabem viver na actual.
D. Luiz não podia ainda habituar-se a ouvir taes doutrinas irreverentemente expostas por uma das representantes d'essas vetustas familias.
Era provavel que as phrases incisivas da baroneza lhe provocassem uma resposta apaixonada, se uma inesperada occorrencia o não viesse distrahir.
Frei Januario, que ficára, como dissemos, occulto pelo cortinado do leito e desapercebido tanto da baroneza como de D. Luiz, ouvira com surpreza crescente o dialogo que temos descripto. Para elle eram ainda novidade os amores de Jorge e Bertha, porque D. Luiz já não fazia do padre o confidente dos seus segredos.
Admirado com a descoberta, mais admirado ficou ainda ao ouvir os commentarios de Gabriella a tal respeito, e as ideias revolucionarias e subversivas que sustentára contra o fidalgo.
Frei Januario, mais respeitador dos foros da fidalguia do que o mais esmerilhado aristocrata, sentiu-se provocado a protestar contra aquellas doutrinas e a vir em auxilio do fidalgo com inesperado soccorro, que por certo o faria de novo entrar nas suas boas graças.
Portanto, n'estas alturas da discussão, levantou-se do canto em que estivera occulto, e acabando de sorver os restos de uma pitada, que conservára entre os dedos, afastou a cortina e surgindo do outro lado do leito, defronte da baroneza, disse escandalizado:
—Perdoe-me v. exc.ª, snr.ª D. Gabrielia, mas eu não posso deixar de manifestar o meu espanto pelo que acabo de ouvir.
—Ah! Pois estava ahi, snr. frei Januario? Confesso que nem de tal me lembrava—disse Gabriella sorrindo.
D. Luiz franziu o sobrolho, como quem não agradecia ao padre a intervenção.
—Aqui tenho estado de noite e de dia, minha senhora—respondeu o padre em tom de censura—e fiquei, porque ninguem me mandou sahir. Além de que eu já estou costumado a ouvir e a guardar os segredos d'esta familia.
—Quem lhe diz menos disso, snr. frei Januario? Eu apenas observei que me não lembrava da sua presença ahi. Mas pelo que vejo as minhas ideias não merecem a sua approvação.
—De certo que não—tornou o padre.—O snr. D. Luiz tem razão. A nobreza è a nobreza; e mal de nós se ella se esquecia dos seus deveres e assim se misturava ás classes infimas.
—Então que mal succedia com isso ao snr. frei Januario?—perguntou a baroneza, rindo.
—A mim?
—Então não disse: «mal de nós?»
—Sim, mal de nós todos, porque a sociedade precisa d'estas distincções; senão, não ha ordem, não ha governo, tudo é anarchia e republica.
—Leu isso no evangelho?
—É o que a experiencia me tem mostrado.
—Ah! a experiencia! Muitos obsequios deve á experiencia o snr. frei
Januario!
—Porém devéras, minha senhora, v. exc.ª podia aconselhar seriamente ao snr. D. Luiz o casamento do snr. Jorge, do morgado, morgado não, que até já com isso acabaram para acabarem com todas as familias illustres, mas emfim do representante, o filho mais velho de s. exc.ª … o casamento d'elle com quem? Com a filha do Thomé da Povoa! Um homem, senhores, que eu conheci criado d'esta casa! v. exc.ª não fallava a serio ha pouco. É impossivel.
—Olhe que fallava, snr. frei Januario, fallava, fallava.
—Ó minha senhora, por quem é! Lembre-se v. exc.ª da familia a que pertence, do nome que tem e verá que se ha de envergonhar da lembrança. Bertha da Povoa! Bertha da Povoa! a filha do Thomé! Era o que me faltava vêr n'este mundo! Bertha, que o pae enfeitou com vestidos de senhora, mas que a final sempre ha de mostrar a origem d'onde sahiu! Eu sempre ouvi dizer que o que o berço dá a tumba leva, e que o pé de tamanca foge sempre para a tamanca. Havia de ter graça ouvir o snr. D. Luiz chamar filha á rapariga! e ella feita senhora na Casa Mourisca! Ora essa! Em tal não podia consentir o snr. D. Luiz ainda mesmo que quizesse. Bem vê v. exc.ª que uma pessoa da nobreza do snr. D. Luiz não tem só a consultar a sua vontade. Lá está a mais familia. Que diriam os snrs. Mellos de Ribeira-formosa? os snrs. Cunhas do Choupello? os snrs. Sotto-maiores da Fonte das Urzes, os snrs. do Cruzeiro, e toda a nobreza por essa provincia adiante? Com que olhos veriam esse casamento monstruoso as damas de todas essas familias, e em uma palavra a fidalguia do reino! V. exc.ª de certo não pensou nisto. Demais…
O padre não pôde proseguir na sua animada refutação.
Interrompeu-o D. Luiz.
Dera-se com o fidalgo um phenomeno não calculado pela experiencia do padre, ainda que natural ao espirito humano.
Sentindo-se apoiado na defeza das suas ideias por um alliado antipathico—porque o era para o fidalgo desde certo tempo, o seu ex-procurador—teve logo um desejo vehemente de recusar o auxilio e quasi o de esposar a causa opposta só para o castigar da impertinencia.
Além d'isso frei Januario levou a defeza mais longe do que devia. A maneira por que fallou de Bertha e da dependencia em que estava o fidalgo da opinião da sua parentela, irritaram o orgulhoso D. Luiz, que por isso tudo com extrema vivacidade o interrompeu dizendo:
—Cale-se, frei Januario, cale-se! Que está para ahi a dizer? Cuida que eu, querendo fazer a minha vontade, me dou ao trabalho de consultar os de Ribeira-formosa, os do Choupello ou os do Cruzeiro, ou de qualquer d'essa parentela que tenho por essa provincia adiante? Era o que me faltava! Do que convem ou não convem á dignidade do meu nome, sou eu o juiz, e não admitto ingerencias alheias. Actos que deslustram e envergonham tem-n'os elles feito que farte, e eu nunca lhes fui pedir satisfações por isso.
—Eu queria dizer…—acudiu o padre, intimidado pela irritação em que via o fidalgo.
Este interrompeu-o outra vez:
—Ora não diga nada, que é melhor. Com que olhos veriam as damas este casamento! É boa! Com os mesmos olhos com que tem visto muita miseria e muita vergonha que vae por casa dos seus. Os olhos deviam ellas empregal-os em Bertha, mas era para aprender d'ella o que é dignidade, nobreza de sentimentos e verdadeira educação. Como está ahi a dizer o frei Januario que Bertha ha de mostrar a final a origem d'onde vem? Bertha ha de mostrar que é filha de um homem honrado e de uma mulher virtuosa. Se é isso que quer dizer, tem razão. E oxalá que todas as nossas damas podessem dizer o mesmo de si. Fique sabendo que não seria ella que occupasse mal o seu logar na Casa Mourisca. Fique sabendo isto. O quarto de minha filha a poucas o franquearia eu com melhor vontade do que a ella, que parece resuscitar-m'a. Para ser nobre não basta ser do Cruzeiro ou de Ribeira-formosa. O Cruzeiro é um ninho de bebedos e a Ribeira-formosa uma gaiola de parvos. A ter de escolher entre essa gente sem dignidade e aquella que de origem obscura lhe dá todos os dias lições de deveres, de certo que não hesitaria, nem iria entre a primeira procurar noiva para meu filho. Como se formaram as familias nobres? São todas da mesma época? É claro que não. Houve tempo em que umas já eram nobres e outras não o eram; mas por um feito illustre e verdadeiramente nobre um homem obscuro d'estas ultimas mereceu que as primeiras o chamassem a seu gremio, partilhando com elle o dom que já possuiam. Pois bem, tambem nós hoje podemos fazer o mesmo que n'esses antigos tempos se fazia, e chamar a nós os espiritos fidalgos, que os ha fóra do nosso gremio; e assim podessemos também expulsar d'elle os espiritos plebeus que por cá temos!
D. Luiz, levado pela força da reacção, ia mais longe do que quizera. Por pouco estava advogando ideias manifestamente democraticas. O padre estava estupefacto, como se assistisse a um cataclismo. A propria Gabriella não esperava ouvir expender taes ideias a seu tio. Ainda que percebesse que a irritação que dominava o doente fosse a principal causa inspiradora n'aquella defeza acalorada, ainda assim lhe dava importancia. As ultimas palavras de D. Luiz, e especie de raciocinio com que pretendêra justificar a possibilidade de allianças desiguaes, realisadas certas circumstandas, davam-lhe a entender que elle já comsigo proprio previra a eventualidade e procurára argumentos que por ventura a justificassem.
Gabriella viu n'esta descoberta um optimo indicio e percebeu a conveniencia de deixar o espirito do tio sob aquella ordem de impressões e entregue ao movimento proprio que a intervenção do padre iniciára.
Por isso, sob o pretexto de que a discussão fatigára em extremo o doente e que os excessos lhe podiam ser funestos, cortou no principio a réplica do padre e obrigou-o a retirar-se da sala para deixar dormir o doente.
Ao sahir dizia ella, tomando o braço do capellão:
—Depois de se lançar o crescente na massa, cobre-se esta e deixa-se em repouso levedar. Quando era criança via fazer isto em minha casa, sempre que se cozia o pão.
O padre não entendeu o alcance da parabola. Sahiu d'alli desnorteado com o que via n'aquella casa, que elle suppunha eivada do veneno da maçonaria, unica maneira por que explicava as irregularidades que via.
Gabriella sahiu no intento de encaminhar a crise em um sentido favoravel.
XXXVII
Mauricio veio ao encontro da baroneza assim que esta sahiu do quarto de
D. Luiz.
—Como deixaste meu pae?—perguntou elle.
—Mal e bem.
—Que queres dizer com isso?
—Mal, porque me inquieta o abatimento em que o vejo. N'aquella idade!… Bem, porque o acho em excellentes disposições de se lhe applicar um remedio heroico.
—Qual?
—Queres principiar hoje a tua carreira diplomatica?
—De que maneira?
—Vaes já d'aqui a casa do Thomé da Povoa.
—Sim, e depois?
—É uma visita que lhe deves, visto que não te lembraste de lhe dar parte do nosso casamento.
—É verdade que não.
—Vae pois visitar Thòmé. Repara que nem sequer me lembro de ter ciumes de Bertha.
—É uma prova de confiança, que te mereço.
—Sim? Mereces? Diz-te isso a consciencia? Bom será. Vamos adiante. Em casa de Thomé contas qual o estado de teu pae. Fazes sentir a necessidade de que Bertha volte para aqui, ou para o reanimar, do que só ella é capaz n'este mundo, ou pelo menos para suavizar-lhe os ultimos momentos e despedir-se d'elle. É provavel que encontres objecções em Thomé, mas insiste; dize que teu pae se mostra magoado com a ausencia de Bertha, e que é um peccado imperdoavel prolongar-lhe essa dôr tão facil de remediar. Finalmente não voltes sem ter resolvido Bertha a vir hoje mesmo para aqui.
—E quaes são os teus projectos?
—Ora quaes hão de ser? São casar Bertha com Jorge. Está claro.
—Has de encontrar dificuldades.
—Já me pareceram maiores. O padre fez nos, sem querer, um grande serviço. Metteu-se a advogar com tanto calor a aristocracia, que por pouco fazia de teu pae um democrata.
—Devéras?
—É verdade. Agora quatro caricias de Bertha devem consummar a victoria.
Vossês os homens levam-se por isso.
—Parece-te?
—Veremos se me engano.
Mauricio encarregou-se da mensagem que lhe incumbia a mulher e partiu para casa de Thomé, onde foi recebido com caloroso affecto.
Expondo o principal fim da sua visita, não encontrou grande opposição em Thomé contra o regresso da filha para os Bacellos. Elle proprio prometteu leval-a.
Efectivamente horas depois, Bertha era de novo conduzida pela baroneza para junto da cabeceira do enfermo, que em todo aquelle tempo continuára a manifestar signaes da mais profunda depressão de forças.
D. Luiz dormitava quando Bertha se lhe aproximou do leito. A rapariga correu cautelosamente o cortinado para contemplar a figura do ancião. Commoveu-a o aspecto de abatimento que crescêra n'elle desde que Bertha o deixára. D. Luiz tinha o somno agitado por sonhos febricitantes, e sonhando, soltava gemidos surdos, palavras mal articuladas, estremecia e suava como sob a influencia de uma afflictiva impressão.
Bertha veio encontral-o em um d'estes estados e curvou-se compadecida para enxugar o suor que lhe orvalhava a fronte.
O doente acordou então e fitou os olhos n'ella.
Immediatamente lhe distendeu as feições contrahidas um sorriso de alegria.
Por algum tempo não fallou, como se estivesse duvidando da realidade do que via e suspeitando-a de ser a continuação de um sonho.
Foi Bertha a primeira que fallou.
—Está melhor?—interrogou ella, sorrindo.
O tom d'aquella voz e a particular inflexão da pergunta, com que já estavam familiarisados os ouvidos do doente, parece que o convenceram de que não dormia.
Estendendo para a afilhada a mão magra e ardente, murmurou profundamente commovido:
—Então sempre voltaste?
—Como me disseram que tinha passado mais inquieto estes ultimos dias…
—Fizeste bem. Havia de custar-me a morrer sem me despedir de ti.
—Quem falla aqui em morrer? Agora que o inverno passou e que este tempo está a dar vida a tudo é que o padrinho se lembra d'isso? Pois veremos. Dentro de poucos dias é preciso continuarmos aquelles nossos passeios na quinta.
D. Luiz sorriu tristemente e fechou os olhos como para reter uma lagrima, que, apesar d'isso, lhe passou por entre as palpebras e lhe rolou vagarosa pelas faces descarnadas.
Bertha murmurou ao ouvido do velho:
—Chore á vontade, que estou eu só aqui. Chore, que lhe faz bem.
Como se a densa tristeza que pesava sobre o coração d'aquelle homem só esperasse aquellas palavras para se fundir em lagrimas, o pranto inundou-lhe o rosto, que elle quasi escondeu no seio de Bertha.
Aquella expansão foi-lhe salutar. O somno seguinte foi mais tranquillo e menos cortado por sonhos fatigadores. Comtudo o estado do doente era ainda muito grave, e na aldeia e immediações corria já voz do proximo fallecimento do fidalgo da Casa Mourisca.
A parentela das visinhanças a cada momento vinha ou mandava aos Bacellos saber novas do fidalgo. Thomé da Povoa passava alli a maior parte do seu tempo; a propria Anna do Védor viera offerecer os seus serviços á familia, e raras vezes se desviava da casa.
Bertha continuava assiduamente junto do leito do enfermo, sem perder a esperança de o vêr sahir victorioso d'aquella tremenda crise.
Ninguem a desviava d'alli. Retinha-a a vontade propria assim como a do doente, a quem a menor contrariedade podia ser fatal.
A baroneza não só não insistia para que Bertha cedesse a outrem o campo, mas nem deixava que alguem insistisse. Dizia ella que a juventude de Bertha podia bem com aquelle sacrificio, e que era provavel que Deus não deixasse sem recompensa a caridade.
Durante tres dias a familia reunida nos Bacellos passava o tempo, por assim dizer, na espectativa do triste acontecimento que se preparava.
Jorge interrompeu os seus trabalhos, Mauricio nunca sahia de casa, e a baroneza passeiava constantemente entre a sala, onde quasi sempre permaneciam os dois irmãos, ás vezes na companhia de Thomé, e o quarto do enfermo, que mal consentia junto de si outra pessoa além de Bertha.
Uma noite, D. Luiz, depois d'aquelles tres dias de febre e quasi de delirio, conseguira adormecer de um somno mais tranquillo e reparador. Não foram os sonhos incoherentes, absurdos e fatigadores que o atormentaram d'esta vez; mas um sonhar grato, sem visões febris, e durante o qual a imagem da filha por vezes lhe appareceu sorrindo-lhe e fallando-lhe com o carinho de que elle ainda se recordava com a mais pungente saudade do seu coração. Esta imagem transformava-se-lhe ás vezes por insensivel transição na imagem de Bertha, e tão similhantes, tão confundidas lhe appareciam, que elle nem sabia ao acordar com qual das duas sonhára. Umas vezes era a filha que lhe fallava com a voz e sob a figura de Bertha; outras Bertha revestindo a imagem de Beatriz.
Despertou d'este somno por alta e calada noite. No aposento era completo o silencio. Interrompia-o sómente o bater cadenciado da pendula do corredor. A tenue claridade de uma pequena lampada alumiava a scena.
D. Luiz depois de acordado tentou avivar as gratas impressões que lhe deixára o sonho.
Pensou na filha e no passado; nas tristezas presentes, nas venturas perdidas e nas desgraças por vir.
Áquella hora da noite, na solidão e repouso da camara de um doente o espirito ergue-se superior á habitual esphera onde ordinariamente pára e contempla com a vista de aguia as suas paixões e preconceitos; vê-os fluctuar como nuvens nas regiões inferiores. É n'esses momentos que a consciencia nos julga; a parte mais etherea do nosso ser parece então erguer-se lucida como nunca e contemplar compadecida os maus instinctos, as prevenções arreigadas, os falsos preconceitos que no tracto commum da vida em tão viciosas direcções nos solicitam.
Emquanto o mundo dorme, dormem com elle no nosso coração as paixões que o mundo alimenta.
N'aquelle momento D. Luiz não era o mesmo homem moral que conhecemos.
Luzia-lhe a verdade resplandecente á sua imaginação fascinada.
No meio da corrente dos seus pensamentos distrahiu-o um quasi imperceptivel respirar que ouviu a seu lado. Voltou-se.
Era Bertha que, cedendo ás fadigas de tão continuadas vigilias, adormecêra junto do leito do doente.
D. Luiz ficou a contemplal-a assim.
A luz do velador dava-lhe no rosto, em que se desenhava a mais doce expressão da serenidade de espirito.
Pendia-lhe a cabeça sobre as travesseiras do leito e uma madeixa de cabello soltando-se-lhe, viera afagar-lhe a fronte, abrindo caminho por entre os dedos que a sustinham.
D. Luiz ergueu-se a pouco e pouco no leito para melhor observar aquella figura angelica de mulher, adormecida ao seu lado.
Traduziam as feições do velho o extasi, em que o arrebatára aquella contemplação. Parecia-lhe uma visão sobrenatural. Com movimentos cautelosos para não a acordar, encostou os braços ás almofadas da cama e apoiando a cabeça entre as mãos, assim permaneceu immovel, abstracto, com os olhos fitos em Bertha e o espirito subindo ás regiões mais limpas dos espessos nevoeiros do mundo.
Era um expressivo grupo o d'aquella rapariga adormecida e o d'aquelle velho pallido, descarnado, meio erguido no leito, contemplando-a em um quasi rapto de adoração. Áquella hora, no meio d'aquelle silencio, alumiado por aquella luz, a scena era mysteriosamente solemne e imponente.
Horas talvez durou aquella contemplação silenciosa.
De repente accentuou-se no rosto do fidalgo uma expressão de energia e firmeza que a doença e a preoccupação de espirito havia muito lhe tinham dissipado.
Curvando-se mais sobre o rosto de Bertha, desviou com extrema delicadeza a madeixa que lhe cahia sobre a fronte e murmurava como para si:
—Por que és tu que vélas a meu lado? Que laços te prendem a mim? Porque dedicas a este velho a tua juventude?… E não se recompensa esta abnegação? Pagam-te sacrificando-te aos seus… preconceitos.
E continuava a contemplal-a em silencio; depois voltava a murmurar:
—Beatriz, se fosse viva, chamar-te-ia irmã; havia de querer-te junto de si, no seu quarto. E eu… porque não hei de chamar-te filha?…
Não disse mais o velho, mas curvando-se ainda mais, poisou na fronte da rapariga um beijo expressivo de paternal affecto.
Pela madrugada o doente mostrou-se algum tanto inquieto a ponto de sobresaltar Bertha, que o espiava com solicitude.
Á interrogação que ella lhe dirigiu para saber a causa da agitação em que o via, D. Luiz não respondeu logo; porém, momentos depois, olhou para a afilhada com uma expressão singular, pegou-lhe nas mãos, apertou-as com affecto, e disse-lhe com manifesta commoção:
—Bertha, vae chamar Jorge. Que me venha fallar. Preciso de conversar com elle quanto antes.
Bertha sahiu do quarto com os olhos arrasados de agua.
Aquellas palavras tinham para ella uma dolorosa significação.
D. Luiz que mandava chamar o filho mais velho, o directo successor do seu nome e da sua casa, era por que um d'aquelles presentimentos, que nos advertem da proximidade da nossa hora final, indicava-lhe ter chegado a occasião de despedir-se do filho e de dar-lhe os derradeiros conselhos de pae.
Todos nos Bacellos formaram a mesma conjectura. Jorge ergueu-se precipitadamente do leito, assim que soube que o pae lhe queria fallar.
A nova espalhou-se em toda a casa e pôz todos em alvoroço. Em breve transpirou fóra que o fidalgo da Casa Mourisca já se despedira dos filhos, e que em poucas horas seria com Deus.
Á casa de Thomé e da Anna do Védor chegou a noticia e trouxe até os Bacellos esses antigos commensaes da familia, cujo representante actual chegava á hora mais solemne da vida. A boa Luiza acompanhou o marido no intento de oferecer os seus serviços n'aquelles momentos de dôr e confusão.
Jorge entrou commovido e pallido no quarto do pae, onde ninguem mais o seguiu.
O pobre rapaz ia preparado para uma scena dilacerante; esperava assistir á agonia do velho.
Tremiam-lhe as pernas ao aproximar-se do leito.
D. Luiz percebendo-o chegar, dirigiu-se-lhe com voz debil mas firme:
—És tu, Jorge?