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Os fidalgos da Casa Mourisca / Chronica da aldeia

Chapter 44: CONCLUSÃO
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About This Book

A obra acompanha uma família nobre provincial cujo imponente solar, popularmente apelidado em referência à presença moura, domina a aldeia; descreve a arquitectura melancólica do paço e o declínio económico provocado por dívidas, terras mal cultivadas e abandono; expõe tensões familiares e políticas, com um patriarca conservador e os laços partidos pela revolução, e a vida dos dois filhos jovens; intercala tradições locais — lendas de mouras encantadas, jogos de mouros e cristãos e rumores de tesouros enterrados — e pinta a paisagem social e sentimental da aldeia entre memória, orgulho e ruína.

—Sou eu, meu pae.

—Chega-te mais para aqui. Assim.

E fitando o filho com o olhar ainda cheio de expressão e vida, continuou depois de um demorado silencio:

—Jorge, tu não és feliz.

Jorge olhou para o pae, espantado pela inesperada observação que lhe ouvia.

—Tens uma nobre alma, tomaste sobre os hombros uma pesada tarefa, dedicaste ao cumprimento d'ella a tua vida inteira, e como se isso não fosse bastante, sacrificaste-lhe ainda os teus mais ardentes affectos. Jorge, não será o sacrificio superior ás tuas forças?

Jorge baixou a cabeça sem responder.

A estranheza causada pelas palavras do pae, tão differentes das que esperava, perturbara-o a ponto de não saber o que dissesse.

—Falla, Jorge—proseguiu o velho.—Vá, nunca viste em mim um confidente, porque o meu caracter serio e reservado afugentava as tuas expansões de criança; mas a doença quebrou-me e hoje posso escutar-te. Tu soffres, Jorge, e soffres por minha causa, não é verdade?

—Meu pae—dizia Jorge cada vez mais embaraçado.

—Eu sei tudo. Sei do amor que se te formou no coração e que disputou o teu pensamento aos projectos de rehabilitação que emprehendeste para salvar esta casa da ruina que os nossos e eu lhe preparamos; sei da tenacidade com que combateste esse amor, da coragem com que o sacrificavas aos meus principios aristocraticos, apesar de vêres apenas n'elles meros preconceitos de classe.

—Creia, meu pae, que respeito as suas opiniões e que…

—Ouve-me. Orgulho-me com o teu caracter; vi n'elle a nobre tempera de um verdadeiro fidalgo e desde então creio devéras que a regeneração da nossa casa, emprehendida por um homem como tu, não póde deixar de realisar-se. Vou sem este pêso para a sepultura. Os meus erros ser-me-hão relevados por o facto de te ter por filho. Tu rehabilitarás a minha memoria. Jorge, o meu coração não tem já a dureza de outros tempos, males de toda a especie acabaram de vencêl-o; agora é um coração de homem. Por isso me é intoleravel a ideia do teu sacrificio. Se tu participasses dos meus… preconceitos, era justo que lhes sacrificasses todos os affectos; sentirias na satisfação interior a compensação do sacrificio. Mas sacrificares-te só por meu respeito, sem teres a mesma fé no objecto a que te sacrificas… n'isso não posso eu consentir. Reunirei as minhas forças para subjugar alguns restos de vaidade que se revoltem, e antes de morrer desviarei o unico obstaculo da tua felicidade, dizendo-te: «Podes ser feliz, Jorge.» Além de que, tu és nobre bastante para ennobreceres aquella que cingires ao coração e ficares nobre ainda.

Jorge percebeu o sentido das palavras do pae. Em extremo surprendido pela inesperada condescendencia do homem que elie julgava incapaz de transigir com taes ideias, era vez de deixar-se penetrar da alegria que este successo parecia dever inspirar-lhe, disse com mal sustentada serenidade:

—Por muito doloroso que seja para mim o sacrificio de que falla, meu pae, talvez seja mais ainda para si o que emprehende, querendo dispensar-me d'elle. Creia, senhor, que eu não discuto a legitimidade das suas opiniões, respeito-as; e a satisfação intima que me virá da consciencia de as ter respeitado, será tambem para mim uma poderosa compensação.

—E a ella? Quem a compensará?—perguntou D. Luiz, com inflexão de dor.

—A ella? É de Bertha que falla? Se eu não soubesse que aquella alma nobre e forte está á altura do sacrificio, talvez me fallecesse a coragem para tental-o.

—É uma nobre alma devéras—tornou D. Luiz, como fallando para si.—E quem a apreciará? A que destino a condemnaremos se a expulsarmos das regiões para onde os seus nobres instinctos a chamam? Pobre d'ella! E tu, tu que a amas, tens a certeza de poderes levar ao fim o sacrificio? Não é certo que a tua saude já se tem resentido do esforço que fazes? Vê bem, Jorge! Na tua idade os affectos são mais violentos do que na minha. E comtudo eu proprio quero já tanto a essa rapariga, que sinto que estes restos de vida que ainda possuo devo-os á sua presença. O que não será comtigo?

Jorge nunca previra a situação em que se achava. Havia imaginado a possibilidade de ser levado pela força da sua paixão a uma lucta aberta com os preconceitos paternos, e esforçara-se por evitar essa temerosa crise.

Esta era a menos provavel hypothese que antevira. Mas que fosse o pae quem advogasse a causa do seu coração de rapaz contra as inflexiveis exigencias da orgulhosa classe a que pertencia, nunca o podéra suppôr, pois que não tinha seguido passo a passo as transformações que haviam operado no caracter varonil d'aquelle velho a acção combinada da doença e dos carinhos de Bertha.

Por isso sentia-se agora irresoluto, sem saber se devia ceder ao coração e ás insinuações do pae, se resistir em nome do dever, que elle chegára a convencer-se oppôr-se á satisfação dos seus ardentes votos.

Na hesitação do filho, D. Luiz julgou perceber que o orgulho aristocratico penetrára já n'aquelle coração de vinte annos, e elle que sabia por si as resistencias que esse orgulho gerava, assustou-se com a apprehensão de ficar vencido pela obstinação do filho.

Assustou-se, dizemos, porque o espirito do fidalgo estava completamente subjugado. O egoismo da sua idade não podia já passar sem os carinhos de filha. Não queria revelar-se inteiro e desejava que fosse a paixão do filho que apparentemente explicasse a transigencia.

Era ainda custoso ao seu orgulho ceder, mas já não tinha fortaleza para resistir. Anciava por isso que Jorge lhe fornecesse o pretexto. Vendo-o vacillar, tremeu já de encontrar um obstaculo insuperavel.

Jorge pela sua parte era victima de um quasi estonteamento, que não lhe deixava ainda vêr claro. Tão costumado estava a acreditar que invenciveis resistencias se erguiam contra a mais ardente aspiração de sua alma, que ao vêl-as removidas de subito, olhava em volta de si como aguardando que surgissem outras em seu logar, e sem poder crêr que a felicidade viesse collocar-se-lhe ao alcance da mão.

D. Luiz insistiu:

—Não, Jorge, não aceito o teu sacrificio. Estou para despir as vaidades do mundo. Na outra vida, onde os primeiros são os ultimos, não me perseguirão estas paixões mundanas.

—A ter um de nós de luctar com uma paixão, para condescender com a do outro, compete-me fazêl-o. Na minha idade é mais fácil tentar estas luctas com exito.

D. Luiz a custo reprimiu a sua impaciencia.

—E ella? Jorge, lembra-te de que essa menina ama-te, e talvez não tenha a força de alma que tu tens.

—Seria para Bertha peior tormento magoal-o, meu pae. Sei-o da bôca d'ella. Nunca aceitaria o seu sacrificio.

D. Luiz fechou por momentos os olhos, como para concentrar o espirito; depois disse quasi a medo:

—Sacrificio! Maior sacrificio seria o meu se renunciasse a têl-a junto de mim e a chamar-lhe filha. Não sei mesmo se para tanto me restam ainda forças. Eu já não sou o homem forte que fui, Jorge. Quasi mereço compaixão.

Jorge estremeceu ao ouvir estas palavras. Como que raiou uma subita claridade no seu espirito.

—Que quer dizer, meu pae? Pois não é por meu respeito que insiste…

—Queres obrigar-me a confessar toda a minha fraqueza, Jorge? Pois bem, confessarei. Fazendo a tua felicidade, farás também a minha. O logar de tua irmã só póde ser occupado por Bertha. Outra qualquer profanal-o-ia.

Jorge d'esta vez não o deixou concluir. Cedendo á paixão que emfim se expandia, pegou nas mãos descarnadas do pae e levando-as calorosamente aos labios, exclamou:

—Oh! obrigado, meu pae. É Deus que o inspira; é o espirito de minha irmã que o aconselha. Obrigado. Agora sim, desanuvia-se-me o horizonte e creio, creio deveras na felicidade. Triumpho! Obrigado, obrigado.

E beijando-lhe mais uma vez a mão, correu para a porta chamando Bertha.

Toda a familia e os amigos que tinham vindo para os Bacellos, ao saberem do estado do velho fidalgo, achavam-se na sala immediata, aguardando anciosos o termo da conferencia entre o pae e o filho e por ventura o triste desenlace que havia muito se esperava.

Quando se ouviu a voz de Jorge, todos julgaram que se havia realisado emfim o acontecimento que se receiava, e correram para a porta.

Jorge, quasi desorientado, foi ao encontro de Bertha, e conduzindo-a á cabeceira do leito do doente, disse suffocado de contentamento:

—Bertha, o nosso sacrificio é inutil. Meu pae não o aceita, e prefere vêr-nos felizes. Ajoelha ao lado d'elle e beija a mão de teu pae.

Bertha obedeceu banhada em lagrimas de commoção.

A baroneza não reprimiu uma exclamação de alegria e de triumpho.

Mauricio correu a abraçar Jorge.

A Anna do Védor quasi levantou ao ar a boa Luiza, que temia acreditar no que julgára entender nas palavras de Jorge.

Sómente Thomé da Povoa ficou immovel e calado. Ao ouvir Jorge, ao ver a filha ajoelhada junto do fidalgo e acariciada por elle, um clarão de alegria passou no rosto do honrado lavrador e brilharam-lhe nos olhos as lagrimas. Mas este relampago dissipou-se cedo e carregou-se-lhe o semblante de tristeza.

Assim que Jorge, procurando-o com os olhos, se dirigiu para elle, estendendo-lhe os braços, Thomé afastou-o brandamente de si, dizendo-lhe:

—Custa-me desfazer essa alegria, senhor, essa alegria que me faz quasi chorar, que é sincera da sua parte. Mas quanto mais cedo, melhor será. Isto não póde ser.

Todos fitaram estupefactos o fazendeiro. Ninguem esperára que a resistencia se levantasse d'alli. Anna do Védor resmungou:

—Temol-a travada!

—Valha-nos Deus!—gemeu Luiza.

Bertha fitou no pae os olhos ainda lacrimosos.

A fronte de D. Luiz contrahiu-se de novo.

—Que quer dizer com essas palavras, Thomé?—perguntou Jorge, emquanto que Mauricio e a baroneza secundaram a pergunta com um olhar interrogador.

—Ha brios a que se não póde faltar—insistiu Thomé—ainda quando se nos despedace o coração e o dos filhos. Que se diria de mim? Como explicariam por ahi o meu proceder n'esta casa? Que pensaria alli o snr. D. Luiz, que já uma vez me suspeitou de forjar intrigas infames e de ter ambições indignas de um homem de bem? Creia no que lhe digo, snr. Jorge, mais vale que sacrifiquemos todos um pouco das nossas affeições para não termos desgostos maiores.

—Que desgostos póde receiar, Thomé, quando eu lhe peço que me conceda a mão de Bertha?

—O snr. Jorge falla cego pela affeição que sente e é ella que não o deixa vêr o que eu vejo.

—Não seja obstinado, Thomé—disse a baroneza.—Bem vê que d'onde era mais de esperar a resistencia, já ella cahiu.

—V. exc.ª não fallaria assim se soubesse tudo. Ha dias, snr.ª baroneza, n'esta mesma sala, vendo-me offendido no meu caracter, suspeitado de tenções que nunca tive, e desesperado por não poder justificar-me, porque de facto tudo se levantava contra mim, fiz um protesto que não posso deixar de cumprir. Se lhe faltasse, eu proprio daria razão a quem me chamasse, frente a frente, intriguista, falso, miseravel…

D. Luiz atalhou, dizendo:

—Protestou o Thomé da Povoa que se o casamento de sua filha com Jorge dependesse do seu consentimento, elle o recusaria, ainda mesmo quando da recusa se seguisse a morte para ambos; e que para o não recusar seria necessario que eu, o pae de Jorge, o senhor da Casa Mourisca, o unico, segundo o pensar do mundo, de quem deveria partir opposição a essa alliança, pedisse a elle, Thomé da Povoa, como favor, esse consentimento.

Thomé fez um signal affirmativo, olhando para a baroneza, para Mauricio e para Jorge como perguntando-lhes se a tão solemne protesto era possivel faltar.

—Pois bem—continuou o fidalgo, depois de uma curta pausa, e fechando os olhos á imitação de quem se prepara a vencer um precipicio, cuja vista o faz recuar.—Pois bem, sou eu quem peço a Thomé da Povoa… como favor… que permitta que Bertha seja a esposa de meu filho.

E ao acabar de dizer estas palavras tingiram-se-lhe as faces de uma vermelhidão intensa.

Thomé fixou os olhos no rosto do fidalgo e leu n'aquelles signaes a revelação do esforço gigante que elle fizera para conseguir pronunciar tão nobres e generosas palavras.

Não estava no animo de Thomé resistir mais tempo.

Correu para o leito, ajoelhou ao lado do doente, e pegando-lhe na mão, exclamou, cortada a voz pelos soluços:

—Snr. D. Luiz, v. exc.ª venceu. Digam o que quizerem. O meu orgulho não dá para mais. Bertha, sê feliz…

O pranto não o deixou concluir, a phrase perdeu-a soluçando sobre as mãos do fidalgo.

Não faltaram lagrimas e sorrisos aos que presenciavam a scena.

Passada esta explosão de sentimento, Jorge, tomando a mão de Bertha, disse para Thomé:

—Aceito a felicidade que me offerece, Thomé, e prometto ser digno da esposa que me confia. Mas á minha propria felicidade sou obrigado a impôr condições, para que no futuro nenhuma nuvem a perturbe. A nossa casa não está ainda, como sabe, livre dos encargos que por tanto tempo pesaram sobre ella. As dificuldades principiam a aplanar-se e a administração entrou no verdadeiro caminho. E ao seu auxilio e conselho devo principalmente este resultado. O meu orgulho porém, visto que todos aqui attendem a orgulhos, o meu orgulho exige que eu só por mim realise esta obra que emprehendi, que á força do meu trabalho satisfaça os compromissos contrahidos. Quando receber Bertha, quero recebêl-a em minha casa, e que se não diga que foi ella quem me abriu as portas fechadas pela miseria. Por isso esperarei até então para realisar a minha felicidade.

—Muito bem, Jorge!—exclamou o fidalgo, fulgurando-lhe o olhar de alegria.

—É justo—concordou Thomé.—Comprehendo esse desejo da sua parte, e nada tenho a dizer contra.

—Mais ainda—proseguiu Jorge—posso aceitar a esposa que me oferece, e orgulhar-me d'ella e da alliança com a sua familia, que é honrada e generosa, mas uma coisa ha que não posso aceitar sem humilhação. É a parte que pertencer a Bertna da herança paterna. Não quero que se diga que eu restaurei a minha casa á custa da sua. Até aqui ainda chegam os meus preconceitos aristocraticos, devo confessal-o.

—Bem, Jorge, muito bem!—bradou o fidalgo—quem pensa d'essa maneira e assim procede, póde transmittir a sua nobreza, mas não a perde.

—Eu porém é que não posso desherdar minha filha. Essa condição é impossível—disse Thomé friamente.

—A parte a que tiver direito cedo-a em favor de meus irmãos—disse timidamente Bertha.

—Teus irmãos não precisam da tua desistencia, Bertha.

—Thomé—insistiu Jorge—sabe que o meu constante pensamento é manter ao nome de minha familia o prestigio e o respeito que sempre teve na provincia; não queira annullar os esforços que emprego para o conseguir.

—E quer que eu lhe sacrifique a minha reputação? Que se dirá de mim?

A baroneza, prevendo que as dificuldades cresciam, e que esta lucta de sentimentos generosos poderia fazer surgir novos obstaculos, entreveio dizendo:

—As clausulas do contracto são uma circumstancia secundaria e que só na presença de um tabellião se regulam. Eu por mim não posso aturar taes discussões, sobre tudo se o noivo toma parte n'ellas. Olhem que frieza de namorado! Deixemos isso tudo para depois.

—Diz bem v. exc.ª—apoiou a Anna do Védor—o tudo é que elles casem, e depois os homens que deslindem lá esse negocio do dinheiro como quizerem. Mas sempre lhes digo que oiçam um advogado para não fazerem tolices. Mas o fidalgo! O fidalgo é que sempre a deu em cheio! Sim senhor! Nunca o esperei! Quem d'antes lhe fosse dizer… Mas bom foi e verá como até nosso Senhor lhe ha de dar saude. E vossemecê, Luiza, que diz a isto? Ande lá, que teve um sancto a pedir por si. Eu bem lhe disse, mulher: cara alegre e confiança n'aquelle que está lá em cima. E aqui para nós, talvez que a mim deva alguma coisa. E tu, rapariga? Apesar de me engeitares o Clemente, olha que não te quero mal. Não quero, porque eu se estivesse no teu logar, faria o mesmo. E o Thomé ainda com o nariz torcido! Ó homem de Deus, vossê que mais quer? Sempre a gente! louvado seja Deus!

Mauricio aproximou-se de Anna sorrindo:

—Já que vae correndo a roda, venha lá a minha ração.

—Que queres que eu te diga? Cuidas que por estares casado me mereces mais aquella? Olha agora! O que me admira é que houvesse quem te quizesse. Perdoe-me a senhora, mas não lhe gabo o gosto. A seu tempo conhecerá a joia. Lá aquillo é outro barro.

E apontava para Jorge.

Todos riram das francas observações da desenganada matrona.

E emquanto D. Luiz conversava com Bertha, Jorge com Thomé, e Mauricio e a baroneza com Luiza e Anna do Védor, assomou á porta a cabeça de frei Januario, que ficou espantado de achar tanta gente reunida no quarto do fidalgo.

—Ha alguma novidade?—perguntou elle inquieto.

Foi a Anna do Védor quem lhe respondeu:

—Ha, sim senhor. E póde já preparar-se, porque não lhe faltará que fazer qualquer dia. Case-me bem estes noivos, ouviu?

O padre olhou espantado para os circumstantes.

—Quê? Pois então?…

—Estão vencidos os obstaculos—respondeu a baroneza á incompleta pergunta.

—Ah!—observou apenas o padre.

E pensava comsigo:

—Digam lá que não anda n'isto a maçonaria!

O resto do dia passou-se pacificamente. D. Luiz dormiu com socego e deu mais algumas esperanças aos que o rodeavam.

Não havia alli coração que não encerrasse um fermento de felicidade.

CONCLUSÃO

Não se fez esperar muito o casamento ajustado á cabeceira do leito do fidalgo da Casa Mourisca.

Depois de vencida a importante demanda, que havia tanto tempo pesava sobre a sua propriedade, Jorge achou-se mais desembaraçado na empreza a que dedicara a juventude.

Alienando algumas fazendas distantes, que serviam apenas de estorvo á administração das outras, sem compensarem os sacrificios que exigiam, acabando de desonerar de oppressivas hypothecas as que ainda definhavam sob ellas, e entrando em uma via methodica e segura de melhoramentos, habilitou-se em breve tempo a contrahir um emprestimo valioso no credito predial, amortisavel em poucos annos; e com o capital obtido em tão favoraveis condições e prudentemente administrado tinha quasi certa para não longinquo futuro a completa realisação do seu constante e generoso pensamento.

O ennegrecido e triste solar da Casa Mourisca remoçou no dia em que o moço proprietario d'elle pôde remir a sua ultima divida a particulares. Esta foi a de Thomé da Povoa.

O povo da aldeia viu de novo abrirem-se de par em par as janellas da velha Casa Mourisca, limparem-se das hervas parasitas as longas avenidas da quinta, erguerem-se do chão as estatuas derrubadas, jorrarem como em outros tempos as aguas dos encanamentos desobstruidos, coroarem-se de ameias as torres mutiladas, dourarem-se as columnas de talha da capella do palacio, e ao vêr isto, o povo acreditou que iam voltar dias felizes para aquella familia, sobre a qual pesara o jugo do infortunio.

Espalhou-se voz e fama do muito que fizera Jorge para conseguir esta restauração.

Admirava-se e applaudia-se a energia e a sensatez do moço, que emendára o desvario dos seus antecessores, commentavam-se os actos da sua vida de rapaz, exaltavam-se as virtudes do seu caracter varonil, e a pouco e pouco o espirito da lenda tomou posse d'esta individualidade e deu-lhe o prestigioso colorido que assegura a immortalidade na tradição popular.

Restaurada a Casa Mourisca e satisfeita a divida do Thomé, D. Luiz, a quem os assiduos cuidados de Bertha tinham feito vencer a molestia que o prostrára, voltou ao seu solar com solemnidade correspondente áquella com que o deixára. Os instinctos dramaticos do seu caracter de fidalgo assim o exigiam.

Ao regressar á casa, que outra vez podia chamar sua, e encontrando-a sob o aspecto de vida e festa havia tanto tempo perdido, D. Luiz commoveu-se profundamente.

A numerosa cohorte de criados e jornaleiros que vieram recebêl-o á porta e saudal-o com enthusiasmo, fez-lhe recordar tempos passados e as tradições feudaes de épocas volvidas, saudosas sempre para seu coração.

Dias depois celebrava-se na capella da casa o casamento de Jorge e de Bertha, com mais alegria do que pompa, com mais galas de sentimento do que de festa.

A baroneza e Mauricio vieram á aldeia para assistirem á solemnidade e demoraram-se ainda algumas semanas n'ella.

A boa Luiza desfazia-se em lagrimas de jubilo. Thomé da Povoa a custo podia reprimir o contentamento que lhe trasbordava do coração. Os esforços de Gabriella haviam conseguido que o contracto do casamento se redigisse de modo que o pae e o noivo, fazendo cada um de seu lado meias concessões, não ficassem humilhados por elle.

A fidalguia da provincia torceu o nariz á alliança, e absteve-se de tomar conhecimento do facto, que tambem lhe não foi participado.

Com a tacita censura d'essa parentela augmentou a irritação e despeito de D. Luiz, e impellido a reagir, deu mais um passo no terreno dos principios democraticos.

Os proprietarios, collegas de Thomé, fizeram entre si algumas reflexões a respeito da finura d'este, convencidos de que elle desde muito visára a este resultado, e prophetisando-lhe um baronato futuro. Mas nem o retrahimento da nobreza, nem as murmurações dos lavradores perturbaram a alegria das nupcias.

D. Luiz recebia ainda uma impressão desagradavel ao vêr tão perto de si Thomé e a boa Luiza; procurava porém minorar este desgosto contemplando Bertha, que exercia sobre elle uma completa fascinação. Insistia sobre tudo o fidalgo em que Bertha era uma rapariga de excepção, e que se davam n'ella as qualidades que valeram em outros tempos a tantos plebeus a honra de serem agremiados no seio da nobreza.

Frei Januario, vendo bem provida a dispensa e a cozinha da Casa Mourisca, julgou dever transigir com a nova ordem de coisas e installou-se de novo no seu quarto, decidido a respeitar, conforme com os modernos principios de diplomacia, os factos consummados.

E annos de paz preparavam-se para aquella casa.

Mauricio seguiu differente destino, em harmonia com as suas aspirações e instinctos.

Não se sentindo com tendencias para agricultor, vendeu a Jorge a parte dos bens ruraes que lhe pertencia e voltou para Lisboa com a mulher.

Decorrido pouco tempo encetava a sua carreira diplomatica, como addido á embaixada de Vienna, e sob os melhores auspicios do futuro progresso.

Gabriella não teve de arrepender-se do seu casamento. Se Mauricio não era um modelo de maridos fieis, ella tinha a precisa philosophia para desculpar-lhe as leviandades, e Mauricio intelligencia para apreciar a generosidade e delicadeza da sua mulher, e adoral-a por isso e apesar de tudo.

A vida agitada e as successivas commoções das capitaes a ambos agradaram; por isso ambos eram felizes.

O contraste entre este viver e o de Jorge era completo.

Jorge era o verdadeiro proprietario rural, repartindo os seus cuidados entre a cultura e administração dos seus bens, e os affectos e direcção de sua familia. Abandonára pouco e pouco os habitos de fidalguia, em que fôra educado, e contrahiu outros puramente burguezes.

A sua iniciativa, esclarecida pela intelligencia e mantida por uma forte energia de caracter, apontava um exemplo salutar aos proprietarios visinhos, que já se animavam a seguil-o. Graças a este exemplo, terminavam muitos prejuizos, esqueciam praticas rotineiras, que ainda hoje tolhem o progresso á nossa agricultura, aventuravam-se innovações já abonadas pela experiencia de paizes mais cultos, e a que se oppõem entre nós a ignorancia e a timidez que nasce d'ella.

A vida inteira de Jorge era uma eloquente e severa lição para os proprietarios ruraes, que, vivendo longe dos seus bens, consomem nos desperdicios da côrte as magras rendas que elles, longe da solicitude do dono, lhes concedem; deixam assim a pouco e pouco extenuar a terra e definhar-se a propriedade nas mãos de caseiros ávidos, que não tendo o futuro ligado a ella, a sacrificam ao bem do presente, que é o unico com que podem contar.

Assim aprendessem n'essa lição tantos que deveriam seguil-a, e talvez que a riqueza do paiz se desentranhasse do sólo, onde ainda está enclausurada, surgindo á luz para nos apresentar aos olhos de outras nações dignas da nossa época e do tracto de terra que occupamos na Europa.

Pela sua parte, Jorge realisando na propriedade a encorporação do capital, do trabalho e da intelligencia, e mostrando até que ponto essa alliança é fecunda, podia bem dizer que havia cumprido a lenda da Casa Mourisca. Fôra elle quem desenterrára do solo o thesouro escondido.

Thomé era o primeiro a seguir Jorge nos seus melhoramentos e reformas.

Nada mais temos a dizer.

Fechamos aqui o quadro, acrescentando apenas que a energia da Anna do Védor ainda não vergou ao pêso dos annos; que o filho d'esta mulher, o bondoso Clemente, casou com uma válida e laboriosa rapariga do campo, que promette continuar o exemplo da sogra. Emquanto aos senhores do Cruzeiro, continuam a ser cada vez mais viciosos, e a achar-se mais embaraçados em dividas e mais desprezados do povo.

Os fidalgos da Casa Mourisca são, pelo contrario, hoje respeitados, graças á energia e á honestidade do caracter de Jorge.

O nome d'esta familia é dos que fica honrado na tradição pupular.

FIM

End of Project Gutenberg's Os fidalgos da Casa Mourisca, by Júlio Dinis