—E que lhe queria elle?—perguntou Jorge, cada vez mais attento.
—No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: «Ora venha cá, Thomé, sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer.» E, obrigando-me a sentar ao lado d'elle, continuou: «Vocemecê vae assignar-me um escripto de arrendamento da minha propriedade das Barrocas.» Ora faça ideia o menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das Barrocas? aquillo é um condado, se póde dizer. Como havia eu de arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo: «Não lhe pareça isso uma coisa por ahi além. Nós ajustamos a renda e você vae tomar conta d'aquillo. A quinta está bem educada e nutrida, e estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do anno.» «Mas, disse-lhe eu, v. s.ª bem vê que uma peça d'aquellas precisa de braços para ser bem trabalhada, de braços e de certas despezas.» Mas, homem, torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe lá que eu a deixe ao desamparo, para você m'a entregar no estado em que por ahi em geral os caseiros as entregam aos senhorios. Mas é bem feito, que elles tambem fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se não esfomeassem a terra.
—Mas esse homem era um grande philosopho!—observou Jorge.
—«Vá você para lá—continuou elle—tracte-me bem d'aquillo, e os capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas obras, eu lh'os adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia apostar que ambos havemos de lucrar.
—E o Thomé foi?
—Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abençoada! e depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na terra, produz dinheiro, senhor. Eu lá o vi, que quanto mais se gastava com a terra, mais ella produzia. Foi lá que eu aprendi a ser lavrador. Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. «Anda para diante Thomé, dizia-me elle. Se queres que o cavallo te não deite a terra e te leve a longa jornada, dá-lhe bem de comer; a ração de aveia que lhe furtares da mangedoura é a que mais cara te sahe.» Mais tarde, quando eu, com a ajuda de Deus, já ia, além de pagar as minhas dividas a pouco e pouco, juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: «Não abafes o dinheiro, Thomé. Põe-n'o ao ar para elle se não estragar; tudo quer ar n'este mundo.» E ahi me animei eu, ao principio com mêdo, que fui perdendo depois, a dar emprego ás minhas economias; e era um gosto vêr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que já eu pensava em comprar umas terras, que era cá o meu sonho. Foi elle ainda quem me tirou isso da cabeça. «Não tenhas pressa de ser proprietario, prégava-me elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em comprar qualquer leira de terra, não correspondem ao gostinho de te chamares dono d'ella. Não te afogues em pouca agua. Se comprares um cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, vê lá que negociarrão; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber.» E o caso é que me convenceu e nem pensei mais n'isso.
—Mas a final sempre comprou?
—Quando elle mesmo m'o disse. Foi á praça esta granja, que não era ainda o que é hoje. «Vê agora se ficas com aquillo», disse-me o snr. doutor. A propriedade era de valor e eu não queria empregar na compra todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a propriedade passou para as minhas mãos. Então trabalhei mais do que nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque, emquanto o não fizesse, parecia-me que não podia chamar ainda meu a isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de gado, pude, mais cêdo do que esperava, pagar a minha ultima prestação e remir a divida.
Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thomé da Povoa de um clarão de enthusiasmo e com as faces córadas e os olhos radiantes proseguiu, suspirando com desafogo.
—Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim! Eu sei lá?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitação no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o coração como o de uma criança; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e sósinho, como um ladrão, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava quasi louco. Até fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vêr-me cá dentro: Isto é meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra coisa tudo isto. Meu! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu! Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes passaros, que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me á sombra d'essas arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final…. quer que lhe diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra! beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhára á custa de muito trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o, em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luiza, e que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu soube o que é ter amor á terra. Desde a sementeira á colheita era um cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim causava-me tanto prazer como vêr o crescer dos filhos; cada novo rebento era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, snr. Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não póde recusar o seu pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino.
Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado:
—Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram. Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças.
—Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer missas, porque depois…
—Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu pae…
Thomé da Povoa não o deixou concluir.
—Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca, eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites.
Jorge disse finalmente com resolução:
—Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir.
—E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar.
A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o jantar esperava por elle.
Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção, que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter com o pae.
Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro.
A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar voltou para a eira, cantando.
Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa.
IV
Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu capellão-procurador frei Januario dos Anjos.
Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração.
Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era para se devassar de prompto.
D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas—a liberdade de imprensa—; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido.
De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida pelo governo, que nunca tinha razão.
Frei Januario secundava, com toda a força do seu obscuro credo politico, as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anathemas, com que eram fulminados os homens da época.
Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamações, voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bôca, a suspirar; dava dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha. Os intervallos das refeições eram para elle seculos!
—Humh!—disse D. Luiz n'aquella manhã, poisando a folha, como enojado com o que lêra—Lá foi concedido um subsidio para a construcção do lanço de estrada de Valle-escuro!
—Fartos sejam elles de estradas!—acudiu logo frei Januario—Para esta gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e diligencias, e acabou-se. Olhem lá se elles levantam sequer uma igreja? Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena não terão por não deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do tempo tempo vem. Vontade não lhes falta.
Não sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a elle não faltava vontade… de comer. O certo é que, mudando de tom, acrescentou:
—Querem vêr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quasi duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda coisa. Com licença, eu vou vêr e volto já.
E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez á cozinha, que elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a familia toda ameaçada com a tremenda catastrophe d'uma retardação do jantar.
D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até á volta do padre, que entrou indignado.
—Eu que dizia?! Posto á taramela com o hortelão, sem se lembrar do jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa póde descançar nos criados. Ha de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer crêr, aquelle excommungado d'aquelle hortelão ha de ser a ruina d'esta casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um libertino d'aquelles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito errado… Aquillo é um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc.ª em que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e quinhentos bravos que vieram pôr fóra da cidade os oitenta mil lobos que andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão a queimar-se e a sôpa a pegar-se no fundo da panella, que logo me cheirou a esturro. É preciso que v. ex.ª dê as providencias, quando não…
D. Luiz, tomando menos a peito do que o capellão os destinos do jantar e da sôpa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do hortelão, não respondeu e proseguiu a leitura das folhas.
D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasião abatêra, resultando muitas victimas.
A indignação do padre exaltou-se.
—Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que não se importam com as vidas dos cidadãos! Em que paiz do mundo se vêem estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram os homens da Carta! Isto é bonito!
E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo crime de desleixo e de falta de protecção á viação publica, os mesmos governos que, momentos antes, accusára de conceder para esse fim subsidios e de lhe dar importancia demasiada.
A politica de frei Januario é vulgar na nossa terra.
D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pôl-a de lado e resumiu a serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e contrahida synthese:
—Isto vae cada vez melhor, frei Januario.
—Isto vae bonito, não tem duvida nenhuma—secundou o padre.
—O peior é o futuro—tornou o fidalgo, assombrado.
—Ai, o futuro ha de ser fresco!—repetiu o procurador, fungando uma pitada.
—Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta torrente.
—E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira por que vão as coisas…
—Ai, pobre Portugal!—exclamou melancolicamente D. Luiz.
—Que vaes á vela—concluiu o padre.—Desde que puzeram a cabeça á roda a esta gente com liberalismos… ficou tudo transtornado. Agora todos mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que governe… Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se servidos!
O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação.
—O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada, aos pobres rapazes!—disse o fidalgo, suspirando com escuras apprehensões sobre a posição precaria da familia.
—Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes homens!—exclamou com vehemencia o padre—É não fazer como a sobrinha de v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles. Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo.
—É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se em parte preparado por nós—insistia o fidalgo.—Tambem peccamos.
—Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o dinheiro.
—O Thomé da Herdade!—repetiu D. Luiz com amargura—Esse é que prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo!
—Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de alguem?
—A Bertha?
—Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquelle toleirão uma coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. Não repara na posição falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabeça que ainda a casava com algum fidalgo! Póde ser. Veja v. exc.ª se ella serve para algum dos seus filhos.
D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros.
—Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é a final o que ella tem de ser, das prendas e da educação que o pae lhe mandou dar? Não me dirá v. exc.ª?
—Todos hoje teem aspirações a subir—reflectiu D. Luiz com ironia.—A maré sóbe.
—Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolerias. Tudo isto vem da barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje todos por lá tem excellencia!
N'estes sediços commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as instituições modernas. O padre Januario porém não perdia com isto a ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio, cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca á impaciencia dos seus desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente para ir vêr se o jantar estava servido.
Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo. Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e esplendida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.
D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava já o capellão.
Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais melancolicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao sentar-se á cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos conhecidos e amigos, hoje tão solitaria e abandonada.
D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou, apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago.
—Então os senhores não ouviram a sineta?
—Os senhores ainda não vieram.
—Nem Jorge?—perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de
Mauricio.
—Nem um, nem outro.
—O snr. D. Mauricio—observou o padre, que temia um adiamento do jantar—sahiu para a caça; quando virá elle agora?
E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo.
—E Jorge?—insistiu o pae.
—O snr. D. Jorge… esse não sei… talvez esteja ahi por alguma parte.
O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que ainda mais augmentava a solidão d'aquella sala, resignou-se a principiar a jantar sem elles.
O jantar correu em silencio.
O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro não davam azo ao dialogo.
Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala.
D. Luiz não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.
Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu silencioso.
Frei Januario, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge:
—Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o que viu por esses campos?
—Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural—respondeu Jorge.
—Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado.
—Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não vejo o movimento dos outros?
A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre.
—Causou-me sensação isto hoje—proseguiu Jorge.—Quem subir ao alto do outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.
—Não é tanto assim… É verdade que… meu rico filho, que quer? depois que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas mudaram. Quem não está por o que elles querem…
—Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas?
—O que os outros fazem, diz elle! Os outros… os outros… e quem são os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os cavallos e a cavar nos campos d'esta casa.
—Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam.
—Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos, para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa é muito boa!
—E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria?
—Á miseria… á miseria!… Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje! Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e…
As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com energia e irritação:
—Não sou criança, frei Januario; acredite que o não sou. Tenho mais de vinte annos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade, quando vejo que sómente as nossas terras fazem vergonha á actividade d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um dia aos seus compromissos. É por isso que fallei e que desejo que me responda, snr. frei Januario.
—Ai, menino, menino; isso não é seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu cheiro-a a distancia de legoas. Então quando o senhor seu pae me honra com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo?
—E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que por ahi se arruinam?
—Mas que quer o snr. Jorge a final? Então não sabe que desde que os lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro está de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a certa gente!
—O dinheiro está de lá! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois não diz que eram uns miseraveis?
—Ah! então quer principiar como elles principiaram, cavando com uma enxada todo o dia e furtando á bôca para juntar ao canto da caixa com o fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer.
—Não principiavamos de tão longe como elles, escusavamos de tantos sacrificios. Bastava que olhassemos com attenção para o muito que temos ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que nos enleia e que nos ha de afogar a todos.
—Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo ha quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua confiança? Mas a coisa não é tão facil, como lhe parece. É boa!
—Mas quaes são os seus planos, padre Januario, qual é o seu systema de administração?
—Os meus planos?!… Ora essa!… Então que planos quer que sejam os meus? Systema de administração!… isso é phrase de côrtes… Humh! tenho entendido… É o que eu digo… Ó snr. Jorge, ora falle-me a verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manhã? ora diga.
—Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é que ellas sejam boas. Eu não tracto de liberaes nem de absolutistas agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a grandeza do mal que nos opprime.
—E se fôr grande o mal, o que quer que se lhe faça?
—Quero que se trabalhe para remedial-o; que se façam sacrificios uteis, que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver hoje ainda uma vida que não é d'estes tempos. Desenganemo-nos; a época não é de privilegios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna util pelo trabalho honrado.
—Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia!
—Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe.
—Que vae fazer, snr. Jorge?
—O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessario que esse nome não tenha manchas e que nós lh'as não lancemos.
—Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora… ora… ora… ora esta não está má!
—Frei Januario, eu não sou criança, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje não o sou já. Faça de conta que o sol d'esta manhã me amadureceu. Por isso não me illudo emquanto á natureza dos meios com que se sustenta ainda n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo, que ainda temos, para comprar dois bois.
—Mas…
—Até logo, frei Januario, conversaremos mais de espaço sobre isto.
—Mas…
Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi assustado, o chamou.
—Mas venha cá. Ouça-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita razão no que diz. Sim, senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é hontem; e esta casa já viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a culpa? É de mim ou do senhor seu pae? Pois não foste! Para remediar o mal trabalhamos nós ha muito. A culpa é d'esta gente que nos governa, d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem á vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá á mão. Percebe agora? Desde que os liberaes…
—Por quem é, frei Januario, não me venha outra vez com os liberaes. Eu tenho a razão bastante clara para vêr as coisas como ellas são, e não me deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!… Os liberaes o que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes pesavam sobre ella e que não a deixavam prosperar, foi crear leis e instituições que facilitassem os esforços dos laboriosos e castigassem severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco, ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmissões da propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando na época em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de prosperar como tantas, vê apressada a sua decadencia, é porque tem em si um velho e incuravel cancro a roêl-a. E é esse cancro que eu quero conhecer, para extirpal-o, se ainda fôr possivel.
—Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua casa devia ser muito bem servida com ellas?
—Essas leis de que se queixa, são racionaes; uma casa racionalmente administrada não póde pois perder com ellas.
—Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos, ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vêr acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia de gostar—argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem apanhava em falso o seu adversario.
Jorge respondeu serenamente:
—E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance politico.
—Ai… ai… ai… O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!… Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais illustres do reino… Ai, como elle está!…
—Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei. Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde saberá das consequencias d'elle.
E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.
—Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho… já estou de pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é uma coisa muito appetitosa… Será, será, mas eu, por mim, se pudesse deixar de trabalhar… Ah! ah! ah.
Aqui bocejava o egresso.
—Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde estou. Como elle fallou nos morgados!… Provará que é tão pateta que, sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae… Não declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o deixem… O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim, contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade, quem puder deixar de trabalhar…
Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos.
Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados angulos da Casa Mourisca.
V
Jorge continuou no seu quarto a serie de meditações com que trouxera occupado o espirito toda a manhã. Abria alguns livros, consultava-os com attenção, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam responder cabalmente ás mudas interrogações que elle lhes dirigia.
A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma applicação pratica qualquer.
Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica.
Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente consultava.
A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi ao fechar da tarde.
Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação. Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte, sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril.
Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do irmão, interrogou-o:
—Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra?
—Deixa-me, Jorge—respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e pondo-se a passear no quarto.—Se soubesses como eu venho suffocado de raiva?
—Contra quem?
—Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota!
—Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles.
—É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha sangue nas veias e pundonor no coração.
—E sangue tambem no coração—emendou Jorge, sorrindo.—Olha que tambem é lá preciso.
—Não rias, Jorge! Por quem és!—tornou o irmão despeitado.—Bem vês que fallo seriamente.
—Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações.
—Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado, mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento de fallar nas dividas da nossa casa?
—Quem as contrahiu e não procura pagal-as—respondeu, triste mas placidamente, Jorge.
E logo depois acrescentou:
—Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã.
—O que foi?
—Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis.
—Inevitaveis?! Eu te juro…
—Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso que me fez pensar.
—Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano?
—Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles.
—Sim, mas de que maneira?
—Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos.
—Queres então fazer-te lavrador?
—Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos. Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós? Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza. O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores genealogicas; desengana-te.
—Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves?
—Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos desprezar do que nós a elles.
—Desprezar-nos!—repetiu indignado Mauricio.
—Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito. Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos, e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder, Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão?
—Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que…
—Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos salvar, se quizermos ser homens.
—E como?
—Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa.
—Mas…
—D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente, pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda certa.
—Mas que entendes tu de administração?
—Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.
Mauricio ficou pensativo.
A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa duração.
Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com uma impetuosidade juvenil:
—Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos, a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.
Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso, e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua habitual serenidade:
—Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes ficar a montear por estas aldeias.
Mauricio sorriu, objectando ao irmão:
—És suspeito, Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando trabalhares, porque ainda a não viste, aonde todos a vêem, ahi por essas devezas, valles e ribeiras.
—Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, aonde se trabalhava; tu é que não a vias lá.
—Ah! então já confessas que ella está com os que trabalham?
—Mas não a vêem esses. Não a viu Thomé, nem nenhum dos seus criados; vi-a eu que estava de fóra.
—E quem deu a Thomé sentidos para a vêr?
—A ninguem faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro ardor, a visão encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem presente, tão namorado está d'ella, que o assaltam as distracções dos namorados. E o trabalho é exigente e severo; ha uns cuidados pequeninos, impertinentes, prosaicos, de que elle não prescinde. Ás vezes é util até certa irritação provocada pelas difficuldades fastidiosas que elle suscita; instigam, estimulam brios para vencêl-o.
Continuaram os dois irmãos este dialogo e assentaram emfim na resolução de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza propria do seu caracter, e portanto com firmeza desigual. Decidiram fallar n'aquelle mesmo momento a D. Luiz.
A occasião era propicia. Frei Januario dormia ainda a sesta, e portanto o fidalgo devia estar só no seu quarto.
Era já noite. O luar coloria com tintas magicas a paisagem fronteira á Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o fundo azul pallido do céo sem estrellas. A ramaria dos carvalhos e a queda da agua nas fontes levantavam vozes melancolicas do meio das indistinctas sombras da quinta.
Em noites assim conservava-se D. Luiz longo tempo á janella do quarto. A fronte encostada á mão, os olhos fitos nos pontos illuminados da perspectiva, e o pensamento… ai, quem sabe porque melancolicas paragens andava o pensamento do pobre velho?! Passadas magnificencias, festas, alegrias e triumphos de tempos mais felizes, memorias de vida n'esta habitação hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a pallida imagem da filha morta, o enlevo de toda a sua vida, que ao desapparecer lh'a deixou escura e desencantada… que outras podiam ser as visões presentes áquelle espirito sombrio?
Pobre velho!
Foi para este quarto escuro que se dirigiram os dois irmãos.
VI
Ao chegar á porta dos aposentos do pae experimentou Jorge uma primeira hesitação.
D. Luiz tractava sempre os filhos de uma maneira tão austera, abria-se-lhes tão pouco em confidencias, mostrava tão má vontade ao ter com elles longas e sérias conversações, que Jorge precisava de exercer um grande esforço sobre si mesmo para dar aquelle passo tão fóra dos seus habitos.
Pela primeira vez os filhos procuravam assim o pae no proprio quarto d'elle; a estranheza do facto seria pois já uma razão bastante para os perturbar, ainda quando não concorresse para o mesmo effeito a natureza do assumpto da conferencia, que não podia ser mais solemne.
A resolução de Jorge era porém muito forte, e o enthusiasmo de Mauricio muito inconsiderado, para que se deixassem dominar por aquella quasi instinctiva timidez.
Jorge bateu á porta com intimo sobresalto.
Respondeu immediatamente a voz de D. Luiz, mandando entrar quem batia.
Os dois irmãos impelliram diante de si a porta, e afastando o reposteiro, entraram.
Os raios do luar tinham já principiado a penetrar na sala, desenhando no pavimento as projecções das janellas ogivaes, que a pouco e pouco cresciam para o interior.
Do lado da porta eram porém ainda espessas as sombras, e D. Luiz não podia pois conhecer quem entrava.
A sala era extensa, e por isso alguns momentos decorreram, longos para a impaciencia do fidalgo, antes que os dois rapazes chegassem ao logar onde elle os esperava, escutando com estranheza aquelles passos, sem poder conjecturar de quem fossem.
A final proximos da cadeira do pae, pararam e guardaram por instantes silencio.
A fronte descoberta ficava-lhes alumiada pelo luar, e recebia d'aquella mysteriosa luz uma singular expressão de gravidade.
D. Luiz, reconhecendo os filhos, olhou fixamente para elles e perguntou-lhes admirado:
—O que é que pretendem?
Jorge foi o que respondeu.
—Se v. exc.ª nos quizer ouvir, meu pae, desejavamos fallar-lhe.
—Fallar-me?!—repetiu D. Luiz, em tom de espanto e quasi irritado.
—Sim, senhor.
—É singular! E a proposito de quê?
—Do nosso futuro.
—Ah!—exclamou o fidalgo, procurando encobrir em ironia a sua crescente irritação.—Deram-lhe para pensar n'elle agora pelo luar.
—Penso n'elle ha muitos dias, meu pae. Ha muitos dias que elle me inquieta.
D. Luiz fez um movimento, que immediatamente reprimiu, e passou a interrogar Mauricio, no mesmo tom de affectada ironia:
—Tambem te atacaram as mesmas inquietações pelo futuro?
—Ha menos tempo, mas com maior fundamento talvez—respondeu-lhe com firmeza o filho interrogado.
D. Luiz calou-se por alguns instantes, depois tornou para Jorge:
—Então vejamos a causa dos teus receios, saibamos o que te trouxe aqui.
E principiou a tocar nervosamente com os dedos nos braços da cadeira.
—Meu pae—principiou Jorge—perdoe-me a liberdade que tomo de fallar n'isto a v. exc.ª; mas é o empenho que faço em que o nome e o credito de nossa familia se conserve sem mancha… que…
O fidalgo interrompeu-o, batendo com violencia no peitoril da janella.
—E quem o manchou?—rugiu elle, quasi meio erguido, e fitando o filho com um olhar, cujo fulgor até á claridade tibia da lua se percebia.
—Até hoje ninguem; manchal-o-hei eu talvez ámanhã, quando não puder satisfazer os compromissos da nossa casa; manchal-o-hei, quando me bater á porta a miseria e me encontrar com habitos de ociosidade e sem a sciencia do trabalho—respondeu placidamente Jorge á violenta interpellação do pae.
—Então já sabes que te baterá á porta a miseria?—inquiriu o fidalgo amargamente.
D'esta vez foi Mauricio quem respondeu:
—Ha quem se encarregue de nol-o ensinar. Em cada homem do campo temos um mestre, e as crianças por ahi já sabem dizer que os fidalgos da Casa Mourisca estão empenhados.
D. Luiz a estas palavras estremeceu, como ao contacto de um ferro candente; virou-se irritado para Jorge, fallando quasi a custo:
—No meu tempo pagavam-se essas lições bem caras! Para isso serviam então, pelo menos, os rapazes das nossas familias.
—Tambem nós as pagariamos, senhor; mas, voltando a casa, dir-nos-ia a consciencia que não ficavam assim saldadas todas as dividas. O orgulho e a vingança estariam satisfeitos; mas a razão e o dever, não—contestou-lhe Jorge.
—Então queiram dizer-me o que lhes manda a razão, e… e o que mais?…
Ah, sim… e mais o dever.
Jorge, sem se perturbar, acudiu:
—Mandam-nos trabalhar para remir essas dividas; luctar pela integridade d'estes bens, que são nossa herança, augmental-os antes se fôr possivel; mandam-nos manter em respeito essa gente, que nos olha com atrevimento, destruindo para isso os fundamentos da sua insolencia. A razão, meu pae, diz-nos que é uma vergonha e um crime para os nossos vinte annos a vida ociosa e inutil que passamos aqui.
—Muito bem; querem então meus filhos que eu lhes dê um modo de vida; veem aqui no proposito de arguir-me por me ter descuidado de os… arrumar?
O fidalgo empregou no verbo final, de um sabor burguez, toda a emphase sarcastica, que lhe inspirava a sua irritação e orgulho aristocratico.
—Não, meu pae—insistiu Jorge—vimos apenas lembrar a v. exc.ª que chegamos a uma idade em que já nos não satisfazem os gozos da vida de rapaz, de que o muito amor de v. exc.ª nos tem permittido saciar. Vimos pedir-lhe que nos conceda agora licença de nos occuparmos de outra ordem de ideias e de mudarmos de vida. Sentimos despontar em nós desejos novos, vimos respeitosamente annuncial-o a v. exc.ª e rogar-lhe a permissão para realisal-os.
D. Luiz sorriu ironico, porque não podia ainda tomar a serio a resolução dos filhos, em quem só via duas crianças; e continuou zombando:
—Está bem. Então tu o que queres ser?
Jorge respondeu promptamente:
—Procurador de v. exc.ª na administração da nossa casa.
D. Luiz olhou d'esta vez para o filho mais seriamente, porque lhe causára impressão a firmeza e promptidão da resposta, em vez das titubeações que esperava. Convenceu-se de que Jorge não procedia levianamente de todo, e que n'elle havia uma tenção formada. Voltando-se para Mauricio, interrogou-o, ainda no mesmo tom em que principiára:
—E tu? Queres ir para o Brazil?
Mauricio não tinha, como Jorge, uma resposta prompta, porque n'elle o projecto era apenas uma resolução vaga e mal definida, e não um plano fixo e meditado como o do irmão. Era n'essas fórmas vagas que elle mais o namorava, e talvez ao pretender fixal-o, principiasse a experimentar as primeiras repugnancias e desillusões.
D. Luiz esperou alguns instantes pela resposta do filho mais novo, mas, como o visse hesitar, continuou, encolhendo os hombros:
—Ainda não pensaste n'isso. Bom. Ouçamos então primeiro teu irmão. Visto isso achas tu que, sob a tua gerencia, a administração de nossa casa prosperaria?
—Creio que não iria peor conduzida do que vae. V. exc.ª conhece perfeitamente que não será grande façanha ir tão longe como frei Januario.
—É um homem experiente.
—Triste resultado o da experiencia. O pae deve, melhor do que nós, saber o estado dos negocios d'esta casa; mas quer-me parecer que não me enganarei muito, conjecturando a maneira por que elles vão. Pedir emprestado sob encargos e hypothecas pesadissimas, não para melhorar o que ainda possuimos, mas para consumir o pouco que se obtem em gastos improductivos, lavrar arrendamentos com que o senhorio nada lucra e com que a propriedade se empobrece, deixar ao desprezo terras não arrendadas, é a pratica até hoje seguida, tão facil como funesta.
—E quem te disse que é possivel fazer outra coisa?—objectou já sem ironia o pae.—Os tempos actuaes são de prova para familias como as nossas, a maré que sobe traz á flôr da agua o que era lôdo em outros tempos.
—Deixe-me tentar, meu pae.
—Tentar o que? criança. Queres ser enganado e escarnecido por esses manhosos proprietarios e rendeiros, com quem infelizmente temos de lidar? Que sabes tu da administração dos bens ruraes?
—Aprenderei. A sciencia, patente ás faculdades de frei Januario, não é defeza a ninguem.
—Nem tu sabes o que pedes. Não córarias de vergonha no tracto familiar a que esses negocios obrigam, com homens grosseiros, insolentes, miseraveis de hontem, e que hoje nos atiram á cara com a sua riqueza?
—Procuraria d'entre esses os de mais educação.
O velho encolheu os hombros com impaciencia, murmurando:
—Educação! Elles!
—Porém, meu pae—argumentou Jorge com mais vehemencia—é uma triste necessidade esta. Pense bem. Se é vergonha, como diz, procural-os para tractar negocios, maior vergonha será que elles nos procurem para nos expulsar d'esta casa; se a um homem da nossa familia fica mal velar por ella, peor e menos decoroso lhe será ter de deixar esta terra, onde já não possua um palmo de seu, sem poder attribuir essa desgraça senão á sua propria incuria. A memoria dos nossos antepassados soffrerá menos se um dia se disser dos seus descendentes que trabalharam, para livrar da destruição e de mãos alheias o solar que lhes pertencia; do que se se contar, apontando para as ruinas d'esta casa, que elles a deixaram cahir e invadir por estranhos, sem respeito por as gloriosas tradições que a illustravam. É pouco para ambicionar-se esta fama.
—E depois, meu pae—acudiu Mauricio—que dôr não seria o vêr devassado por invasores o quarto em que morreu minha mãe, esta sala, o salão onde brincavamos em criança, e até os aposentos de nossa irmã, da sua querida Beatriz?
A memoria da filha morta commovia sempre o coração d'aquelle velho, que ella ainda povoava de saudades; por isso curvou desalentado a cabeça assim que lhe ouviu o nome, e murmurou:
—Não; a nossa miseria não irá tão longe. Creio que Deus não me reservará esse tremendo castigo. Morrerei primeiro.
—E nós, se lhe sobrevivermos, senhor, não soffreremos tambem? Quererá legar a seus filhos uma herança d'essas?—interpellou-o Jorge.
O pae escondeu a cabeça entre as mãos, já sem signaes da rispidez com que principiara a scena, e não pôde responder a esta interrogação de Jorge.
Mauricio sentiu-se commovido ante aquella sincera manifestação de dôr, que observava no pae, na presença d'elles de ordinario tão reservado.
—Não—acudiu elle impellido por aquelle sentimento—o interior da nossa casa não será devassado por estranhos, nem na sua vida, meu pae, nem depois da sua morte. Dê-nos apenas permissão para trabalharmos, e nós juramos evitar essa humilhação.
D. Luiz ergueu finalmente a cabeça e pela primeira vez fez signal aos filhos para que se sentassem junto de si.
Depois, dirigindo-se ao mais velho, já em tom menos severo:
—Jorge—ponderou elle—a tarefa que queres emprehender não é facil. É verdade que não teem corrido pelas minhas mãos esses negocios, mas sei d'elles o bastante para prever os espinhos que n'elles encontrarias. Frei Januario não é um homem de talento, bem o sei, mas tem experiencia e boa vontade de nos servir, e ainda assim não prospéra esta casa, que foi das melhores da provincia. Como queres tu pois, ha poucos dias uma criança que em nada d'isto pensavas, tomar de repente sobre ti o encargo d'esta gerencia, e como imaginas que darias boa conta d'ella? Os teus planos são vagos. Fallas-me mais nos defeitos dos seguidos até hoje, dos que nas excellencias dos teus.
—Perdão, meu pae, mas não são tão vagos como os suppõe. Pensei já muito n'isso. As difficuldades que ainda tenho, com tempo e meditação espero resolvêl-as; além d'isso… auxiliado… quando necessario fôr… dos conselhos de frei Januario, espero que me será possivel realisar o meu intento. Se me permitte exponho-lhe esses planos em poucas palavras.
Tomando o silencio do pae por signal de aquiescencia, Jorge encetou a exposição dos seus projectos economicos.
Não o seguiremos no longo relatorio, que pae e irmão escutaram admirados de tão inesperada sciencia. De facto, as informações de Thomé, os fructos da propria reflexão, as ideias adquiridas na leitura meditada dos poucos livros da sua bibliotheca, foram os elementos com que o espirito essencialmente methodico e organisador de Jorge construira um completo systema de administração, que, se tinha defeitos, não eram para ser apreciados pelo velho fidalgo, que nunca fôra dado a esses exames. A exposição clara, o tom de convicção, o calor do quasi enthusiasmo com que o filho fallava, enthusiasmo contagioso, exerceram no velho uma profunda influencia. Ao concluir, Jorge tinha vencido a causa.
D. Luiz estava do fundo d'alma convicto de que este filho fôra destinado pela Providencia para ser o restaurador da sua casa.
E comtudo havia um ponto essencial no plano de Jorge, que elle não mencionára. Para realisar a maior parte das medidas economicas, cujos maravilhosos effeitos com tanta eloquencia exposera, era indispensavel um capital inicial não pouco avultado, e Jorge não dissera como havia de obtêl-o. Esta era a parte secreta do seu plano; aquella, cuja menção bastaria para desvanecer toda a boa impressão produzida no animo de D. Luiz.
O capital inicial devia vir do emprestimo razoavel, offerecido por Thomé da Povoa, ou obtido sob a garantia do credito d'elle. Esta operação era indispensavel, era a unica talvez salvadora; por quanto os outros capitalistas tinham sempre em vista apoderar-se dos bens do fidalgo, e por isso sómente emprestavam sob condições onerosissimas e perigosas.
Mas o orgulho de D. Luiz não lhe deixaria aceitar favores de Thomé; nunca elle consentiria na menor transacção com o que fôra seu criado.
Por isso Jorge guardou para si sómente esta parte das suas projectadas operações, e com D. Luiz felizmente era facil passar por alto certos pontos de questões d'esta natureza, que elle mal examinava. Assim pois o pae acabou por dar o consentimento pedido.
—Seja; não me opponho a que te occupes da gerencia da casa, que dentro em pouco tempo será vossa. Vejo que tens reflectido n'isso mais do que eu julgava; comtudo marco duas condições; a primeira é que nunca faças contractos que sejam vergonhosos para o nome de nossa familia.
—Prometto-lhe que não o envergonharei.
—A segunda é que não desprezes os conselhos de frei Januario.
—Por certo que não prescindirei das suas informações.
—Eu lhe darei parte do que resolvi. E agora…—acrescentou D.
Luiz—vamos ao resto… E Mauricio?
Mauricio, interpellado pela segunda vez, achar-se-ia nas mesmas difficuldades para responder á interpellação, se Jorge não respondesse por elle:
—Tambem pensei em Mauricio.
—Ah! tambem?—disse o pae, não podendo occultar a quasi admiração, que lhe estava impondo Jorge.
Mauricio interrogou tambem com a vista o irmão.
—Se Mauricio confia em mim, é inutil a sua permanencia aqui na aldeia, onde não tem em que se occupe.
—Tens a minha plena confiança, Jorge. E a não me quereres para teu guarda-livros…
—Lembrou-me que Mauricio devia partir para Lisboa. Lá poderá ser mais util a si e a nossa casa. É verdade que não é essa por ora uma medida economica; antes obrigará a alguns sacrificios. Far-se-hão porém, se precisos forem, e Mauricio tem brios bastantes para não os deixar ficar improductivos.
D. Luiz fez um gesto de duvida.
—Humh!—objectou elle—que carreira póde n'estes tempos seguir na capital um filho meu? Queres acaso que elle vá renegar da causa, que a nossa familia sempre abraçou, e fazer pacto com essa gente que hoje governa?
—Confesso que mal pensei ainda na carreira que lhe convirá seguir; mas sómente lá é que é possivel a escolha. Parece-me que sem deshonra se poderá trabalhar e ser util á patria, que é sempre a mesma, qualquer que seja o partido que a governe. Mas o caso não urge. V. exc.ª poderia escrever n'esse sentido a nossa prima Gabriella, que melhor que ninguem poderá fornecer-nos valiosas indicações.
—Gabriella?! A senhora baroneza do Souto Real!—accentuou sarcasticamente o fidalgo.—Ora adeus! Uma doida…
—Tem-se mostrado sempre nossa amiga—corrigiu Jorge—e ainda por occasião do fallecimento de Beatriz…
—Sim, bom coração tem ella. Mas a sociedade em que vive, desde que casou e depois que viuvou, tem-lhe feito adquirir as qualidades da época. Não se lembra de que seu pae foi um militar, que morreu com as armas na mão a favor da causa legitimista. Hoje conta os seus amigos entre a gente, que a fez orphã.
—Deve perdoar-se a uma mulher essa fraqueza. Ella não tem coração para odios. Bem o sabe. Parece-me comtudo que, apesar das suas apparencias frivolas, tem um fundo de bom senso d'onde póde sahir um aproveitavel conselho. Falle-lhe v. exc.ª com franqueza, diga-lhe quaes as condições sob que entende poder Mauricio entrar na sociedade, onde vivem sem apostasia muitos adeptos da antiga causa, e eu creio que ella o comprehenderá e lhe dará as informações pedidas.
Ainda n'isto se deixou convencer D. Luiz pela eloquencia do filho. Jorge sabia que a prima era uma mulher de influencia no mundo politico e elegante, e esperava que a reconhecida diplomacia d'ella conseguisse aplanar as difficuldades, em que naturalmente se embaraçariam o orgulho e a paixão partidaria do fidalgo. E para assegurar melhor o resultado que esperava, resolveu elle proprio escrever-lhe confidencialmente.
Quando o pae e os filhos se separaram, achava-se em todos os seus artigos sanccionado o projecto de Jorge.