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Os Lusíadas

Chapter 10: Canto Oitavo
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About This Book

An epic narrator celebrates the maritime exploits of a seafaring people, combining lyrical praise, heroic catalogues, and narrative episodes of oceanic voyages. Classical mythology and a council of gods intervene to debate fate while the poem recounts hazardous passages, battles, and territorial expansion. Interwoven are encomia to rulers and ancestral heroes, vivid descriptions of sea and sky, and reflective digressions on national identity, courage, and providence. The poem alternates grandiose, ceremonial language with intimate lyric moments, mapping collective memory through mythic interpretation and sustained admiration of exploratory achievement.


Deles, é que o valor sanguinolento

Das armas no seu braço resplandece,

O que em nossos passados se parece.


70

"Porque eles, com virtude sobre-humana,

Os deitaram dos campos abundosos

Do rico Tejo e fresco Goadiana,

Com feitos memoráveis e famosos:

E não contentes ainda, e na Africana

Parte, cortando os mares procelosos,

Nos não querem deixar viver seguros,

Tomando-nos cidades e altos muros.


71

"Não menos têm mostrado esforço e manha

Em quaisquer outras guerras que aconteças,

Ou das gentes belígeras de Espanha,

Ou lá dalguns que do Pírene desçam.

Assim que nunca enfim com lança estranha

Se tem, que por vencidos se conheçam,

Nem se sabe ainda, não, te afirmo e asselo,

Para estes Anibais nenhum Marcelo.


72

"E se esta informação não for inteira

Tanto quanto convém, deles pretende

Informar-te, que é gente verdadeira,

A quem mais falsidade enoja e ofende:

Vai ver-lhe a f rota, as armas e a maneira

Do fundido metal, que tudo rende,

E folgarás de veres a polícia

Portuguesa na paz e na milícia."


73

Já com desejos o Idolatra ardia

De ver isto, que o Mouro lhe contava.

Manda esquipar batéis que ir ver queria

Os lenhos em que o Gama navegava.

Ambos partem da praia, a quem seguia

A Naira geração, que o mar coalhava.

A capitania sobem forte e bela,

Onde Paulo os recebe a bordo dela.


74

Purpúreos são os toldos, e as bandeiras

Do rico fio são que o bicho gera;

Nelas estão pintadas as guerreiras

Obras, que o forte braço já fizera:

Batalhas tem campais, aventureiras,

Desafios cruéis, pintura fera,

Que, tanto que ao Gentio se apresenta,

A tento nela os olhos apascenta.


75

Pelo que vê pergunta; mas o Gama

Lhe pedia primeiro que se assente,

E que aquele deleite, que tanto ama

A seita Epicureia, experimente.

Dos espumantes vasos se derrama

O licor que Noé mostrara à gente:

Mas comer o Gentio não pretende,

Que a seita que seguia lho defende.


76

A trombeta que, em paz, no pensamento

Imagem faz de guerra, rompe os ares;

Com o fogo o diabólico instrumento

Se faz ouvir no fundo lá dos mares.

Tudo o Gentio nota; mas o intento

Mostrava sempre ter nos singulares

Feitos dos homens, que em retrato breve

A muda poesia ali descreve


77

Alça-se em pé, com ele o Gama junto,

Coelho de outra parti, e o Mauritano;

Os olhos põe no bélico transunto

De um velho branco, aspecto venerando

Cujo nome não pode ser defunto

Enquanto houver no mundo trato humano:

No trajo a Grega usança está perfeita,

Um ramo por insígnia na direita.


78

Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!

Eu, que cometo insano e temerário,

Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,

Por caminho tão árduo, longo e vário!

Vosso favor invoco, que navego

Por alto mar, com vento tão contrário,

Que, se não me ajudais, hei grande medo

Que o meu fraco batel se alague cedo.


79

Olhai que há tanto tempo que, cantando

O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,

A fortuna mo traz peregrinando,

Novos trabalhos vendo, e novos danos:

Agora o mar, agora experimentando

Os perigos Mavórcios inumanos,

Qual Canace, que à morte se condena,

Numa mão sempre a espada, e noutra a pena.


80

Agora, com pobreza avorrecida,

Por hospícios alheios degradado;

Agora, da esperança já adquirida,

De novo, mais que nunca, derribado;

Agora às costas escapando a vida,

Que dum fio pendia tão delgado

Que não menos milagre foi salvar-se

Que para o Rei Judaico acrescentar-se.


81

E ainda, Ninfas minhas, não bastava

Que tamanhas misérias me cercassem,

Senão que aqueles, que eu cantando andava

Tal prémio de meus versos me tornassem:

A troco dos descansos que esperava,

Das capelas de louro que me honrassem,

Trabalhos nunca usados me inventaram,

Com que em tão duro estado me deitaram.


82

Vede, Ninfas, que engenhos de senhores

O vosso Tejo cria valorosos,

Que assim sabem prezar com tais favores

A quem os faz, cantando, gloriosos!

Que exemplos a futuros escritores,

Para espertar engenhos curiosos,

Para porem as coisas em memória,

Que merecerem ter eterna glória!


83

Pois logo em tantos males é forçado,

Que só vosso favor me não faleça,

Principalmente aqui, que sou chegado

Onde feitos diversos engrandeça:

Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado

Que não o empregue em quem o não mereça,

Nem por lisonja louve algum subido,

Sob pena de não ser agradecido.


84

Nem creiais, Ninfas, não, que a fama desse

A quem ao bem comum e do seu Rei

Antepuser seu próprio interesse,

Inimigo da divina e humana Lei.

Nenhum ambicioso, que quisesse

Subir a grandes cargos, cantarei,

Só por poder com torpes exercícios

Usar mais largamente de seus vícios;


85

Nenhum que use de seu poder bastante,

Para servir a seu desejo feio,

E que, por comprazer ao vulgo errante,

Se muda em mais figuras que Proteio.

Nem, Camenas, também cuideis que canto

Quem, com hábito honesto e grave, veio,

Por contentar ao Rei no ofício novo,

A despir e roubar o pobre povo.


86

Nem quem acha que é justo e que é direito

Guardar-se a lei do Rei severamente,

E não acha que é justo e bom respeito,

Que se pague o suor da servil gente;

Nem quem sempre, com pouco experto peito,

Razões aprende, e cuida que é prudente,

Para taxar, com mão rapace e escassa,

Os trabalhos alheios, que não passa.


87

Aqueles sós direi, que aventuraram

Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,

Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,

Tão bem de suas obras merecida.

Apolo, e as Musas que me acompanharam,

Me dobrarão a fúria concedida,

Enquanto eu tomo alento descansado,

Por tornar ao trabalho, mais folgado.


Canto Oitavo


1

Na primeira figura se detinha

O Catual que vira estar pintada,

Que por divisa um ramo na mão tinha,

A barba branca, longa e penteada:

"Quem era, e por que causa lhe convinha

A divisa, que tem na mão tomada?"

Paulo responde, cuja voz discreta

O Mauritano sábio lhe interpreta.


2

"Estas figuras todas que aparecem,

Bravos em vista e feros nos aspectos,

Mais bravos e mais feros se conhecem,

Pela fama, nas obras e nos feitos:

Antigos são, mas ainda resplandecem

Colo nome, entre os engenhos mais perfeito

Este que vês é Luso, donde a fama

O nosso Reino Lusitânia chama.


3

"Foi filho e companheiro do Tebano,

Que tão diversas partes conquistou;

Parece vindo ter ao ninho Hispano

Seguindo as armas, que contino usou;

Do Douro o Guadiana o campo ufano,

Já dito Elísio, tanto o contentou,

Que ali quis dar aos já cansados ossos

Eterna sepultura, e nome aos nossos.


4

"O ramo que lhe vês para divisa,

O verde tirso foi de Baco usado;

O qual à nossa idade amostra e avisa

Que foi seu companheiro e filho amido.

Vês outro, que do Tejo a terra pisa,

Depois de ter tão longo mar arado,

Onde muros perpétuos edifica,

E templo a Palas, que em memória fica?


5

"Ulisses é o que faz a santa casa

A Deusa, que lhe dá língua facunda;

Que, se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,

Cá na Europa Lisboa ingente funda."

—"Quem será estoutro cá, que o campo arrasa

De mortos, com presença furibunda?

Grandes batalhas tem desbaratadas,

Que as águias nas bandeiras tem pintadas."


6

Assim o Gentio diz. Responde o Gama:

—"Este que vês, pastor já foi de gado;

Viriato sabemos que se chama,

Destro na lança mais que no cajado;

Injuriada tem de Roma a f ama,

Vencedor invencível afamado;

Não tem com ele, não, nem ter puderam

O primor que com Pirro já tiveram.


7

"Com força, não; com manha vergonhosa,

A vida lhe tiraram que os espanta:

Que o grande aperto, em gente ainda que honrosa,

As vezes leis magnânimas quebranta.

Outro está aqui que, contra a pátria irosa,

Degradado, conosco se alevanta:

Escolheu bem com quem se alevantasse,

Para que eternamente se ilustrasse.


8

"Vês? conosco também vence as bandeiras

Dessas aves de Júpiter validas;

Que já naquele tempo as mais Guerreiras

Gentes de nós souberam ser vencidas.

Olha tão subtis artes e maneiras,

Para adquirir os povos, tão fingidas,

A fatídica Cerva que o avisa:

Ele é Sertório, e ela a sua divisa.


9

"Olha estoutra bandeira, e vê pintado

O grã progenitor dos Reis primeiros.

Nós Úngaro o fazemos, porém nado

Crêem ser em Lotaríngia os estrangeiros.

Depois de ter com os Mouros superado,

Galegos e Leoneses cavaleiros,

A casa Santa passa o santo Henrique,

Por que o tronco dos Reis se santifique."


10

"Quem é, me diz, este outro que me espanta,

(Pergunta o Malabar maravilhado)

Que tantos esquadrões, que gente tanta,

Com tão pouca, tem roto e destroçado?

Tantos muros aspérrimos quebranta,

Tantas batalhas dá, nunca cansado,

Tantas coroas tem por tantas partes

A seus pés derribadas, e estandartes!"


11

—"Este é o primeiro Afonso, disse o Gama,

Que todo Portugal aos Mouros toma;

Por quem, no Estígio lago, jura a Fama

De mais não celebrar nenhum de Roma.

Este é aquele zeloso a quem Deus ama,

Com cujo braço o Mouro inimigo doma,

Para quem de seu Reino abaixa os muros,