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Os Lusíadas

Chapter 11: Canto Nono
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About This Book

An epic narrator celebrates the maritime exploits of a seafaring people, combining lyrical praise, heroic catalogues, and narrative episodes of oceanic voyages. Classical mythology and a council of gods intervene to debate fate while the poem recounts hazardous passages, battles, and territorial expansion. Interwoven are encomia to rulers and ancestral heroes, vivid descriptions of sea and sky, and reflective digressions on national identity, courage, and providence. The poem alternates grandiose, ceremonial language with intimate lyric moments, mapping collective memory through mythic interpretation and sustained admiration of exploratory achievement.


Mas não sem cor, contudo, de virtude.


Canto Nono


1

Tiveram longamente na cidade,

Sem vender-se, a fazenda os dois feitores

Que os infiéis, por manha e falsidade,

Fazem que não lha comprem mercadores;

Que todo seu propósito e vontade

Era deter ali os descobridores

Da Índia tanto tempo, que viessem

De Meca as naus, que as suas desfizessem.


2

Lá no seio Eritreu, onde fundada

Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu,

Do nome da irmã sua assim chamada,

Que depois em Suez se converteu,

Não longe o porto jaz da nomeada

Cidade Meca, que se engrandeceu

Com a superstição falsa e profana

Da religiosa água Maumetana.


3

Gidá se chama o porto, aonde o trato

De todo o Roxo mar mais florescia,

De que tinha proveito grande e grato

O Soldão que esse Reino possuía.

Daqui aos Malabares, por contrato

Dos infiéis, formosa companhia

De grandes naus, pelo Índico Oceano,

Especiaria vem buscar cada ano.


4

Por estas naus os Mouros esperavam,

Que, como fossem grandes e possantes,

Aquelas, que o comércio lhe tomavam,

Com flamas abrasassem crepitantes.

Neste socorro tanto confiavam,

Que já não querem mais dos navegantes,

Senão que tanto tempo ali tardassem,

Que da famosa Meca as naus chegassem.


5

Mas o Governador dos céus e gentes,

Que, para quanto tem determinado,

De longe os meios dá convenientes,

Por onde vem a ef eito o fim fadado,

Influiu piedosos acidentes

De afeição em Monçaide, que guardado

Estava para dar ao Gama aviso,

E merecer por isso o Paraíso.


6

Este, de quem se os Mouros não guardavam,

Por ser Mouro como eles, antes era

Participante em quanto maquinavam,

A tenção lhe descobre torpe e fera.

Muitas vezes as naus que longe estavam

Visita, o com piedade considera

O dano, sem razão, que se lhe ordena

Pela maligna gente Sarracena.


7

Informa o cauto Gama das armadas

Que de Arábica Meca vêm cada ano,

Que agora são dos seus tão desejadas,

Para ser instrumento deste dano.

Diz-lhe que vêm de gente carregadas,

E dos trovões horrendos de Vulcano,

E que pode ser delas oprimido,

Segundo estava mal apercebido.


8

O Gama, que também considerava

O tempo, que para a partida o chama,

E que despacho já não esperava

Melhor do Rei, que os Maumetanos ama,

Aos feitores, que em terra estão, mandava

Que se tornem às naus; e por que a fama

Desta súbita vinda os não impeça,

Lhe manda que a fizessem escondida.


9

Porém não tardou muito que, voando,

Um rumor não soasse com verdade:

Que foram presos os feitores, quando

Foram sentidos vir-se da cidade.

Esta fama as orelhas penetrando

Do sábio Capitão, com brevidade

Faz represaria nuns, que às naus vieram

A vender a pedraria que trouxeram.


10

Eram estes antigos mercadores

Ricos em Calecu, e conhecidos;

Da falta deles, logo entre os melhores

Sentido foi que estão no mar retidos.

Mas já nas naus os bons trabalhadores

Volvem o cabrestante, e repartidos

Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,

Outros quebram com o peito duro a barra;


11

Outros pendem da verga, e já desatam

A vela, que com grita se soltava,

Quando com maior grita ao Rei relatam

A pressa com que a armada se levava.

As mulheres e filhos que se matam

Daqueles que vão presos, onde estava

O Samorim, se queixam que perdidos

Uns têm os pais, as outras os maridos.


12

Manda logo os feitores Lusitanos

Com toda sua fazenda livremente

Apesar dos inimigos Maumetanos,

Por que lhe torne a sua presa gente.

Desculpas manda o Rei de seus enganos;

Recebe o Capitão de melhor mente

Os presos que as desculpas, e tornando

Alguns negros, se parte as velas dando.


13

Parte-se costa abaixo, porque entende

Que em vão com o Rei gentio trabalhava

Em querer dele paz, a qual pretende

Por firmar o comércio que tratava.

Mas como aquela terra, que se estende

Pela Aurora, sabida já deixava,

Com estas novas torna à pátria cara,

Certos sinais levando do que achara.


14

Leva alguns Malabares, que tomou

Por força, dos que o Samorim mandara

Quando os presos feitores lhe tornou;

Leva pimenta ardente, que comprara;

A seca flor de Banda não ficou,

A noz, e o negro cravo, que faz clara

A nova ilha Maluco, com a canela,

Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.


15

Isto tudo lhe houvera a diligência

De Monçaide fiel, que também leva,

Que, inspirado de angélica influência,

Quer no livro de Cristo que se escreva.

Ó ditoso Africano, que a clemência

Divina assim tirou de escura treva,

E tão longe da pátria achou maneira

Para subir à pátria verdadeira!


16

Apartadas assim da ardente costa

As venturosas naus, levando a proa

Para onde a Natureza tinha posta

A meta Austrina da esperança boa,

Levando alegres novas e resposta

Da parte Oriental para Lisboa,

Outra vez cometendo os duros medos

Do mar incerto, tímidos e ledos;


17

O prazer de chegar à pátria cara,

A seus penates caros e parentes,

Para contar a peregrina e rara

Navegação, os vários céus e gentes;

Vir a lograr o prémio, que ganhara

Por tão longos trabalhos e acidentes,

Cada um tem por gosto tão perfeito,

Que o coração para ele é vaso estreito.


18

Porém a deusa Cípria, que ordenada

Era para favor dos Lusitanos

Do Padre eterno, e por bom génio dada,

Que sempre os guia já de longos anos;

A glória por trabalhos alcançada,

Satisfação de bem sofridos danos,

Lhe andava já ordenando, e pretendia

Dar-lhe nos mares tristes alegria.


19

Depois de ter um pouco revolvido

Na mente o largo mar que navegaram,

Os trabalhos, que pelo Deus nascido

Nas Anfióneas Tebas se causaram;

Já trazia de longe no sentido,

Para prémio de quanto mal passaram,

Buscar-lhe algum deleite, algum descanso

No Reino de cristal líquido e manso;


20

Algum repouso, enfim, com que pudesse

Refocilar a lassa humanidade

Dos navegantes seus, como interesse

Do trabalho que encurta a breve idade.

Parece-lhe razão que conta desse

A seu filho, por cuja potestade

Os Deuses faz descer ao vil terreno

E os humanos subir ao céu sereno.


21

Isto bem revolvido, determina

De ter-lhe aparelhada, lá no meio

Das águas, alguma ínsula divina,

Ornada de esmaltado e verde arreio;

Que muitas tem no reino, que confina

Da mãe primeira com o terreno seio,

Afora as que possui soberanas

Para dentro das portas Herculanas.


22

Ali quer que as aquáticas donzelas

Esperem os fortíssimos barões,

Todas as que têm título de belas,

Glória dos olhos, dor dos corações,

Com danças e coreias, porque nelas

Influirá secretas afeições,

Para com mais vontade trabalharem

De contentar, a quem se afeiçoaram.


23

Tal manha buscou já, para que aquele

Que de Anquises pariu, bem recebido

Fosse no campo que a bovina pele

Tomou de espaço, por subtil partido.

Seu filho vai buscar, porque só nele

Tem todo seu poder, fero Cupido,

Que assim como naquela empresa antiga

Ajudou já, nestoutra a ajude e siga.


24

No carro ajunta as aves que na vida

Vão da morte as exéquias celebrando,

E aquelas em que já foi convertida

Perístera, as boninas apanhando.

Em derredor da Deusa já partida,

No ar lascivos beijos se vão dando.

Ela, por onde passa, o ar e o vento

Sereno faz, com brando movimento.


25

Já sobre os Idálios montes pende,

Onde o filho frecheiro estava então

Ajuntando outros muitos, que pretende

Fazer uma famosa expedição

Contra o mundo rebelde, por que emende

Erros grandes, que há dias nele estão,

Amando coisas que nos foram dadas,

Não para ser amadas, mas usadas.


26

Via Acteon na caça tão austero,

De cego na alegria bruta, insana,

Que por seguir um feio animal fero,

Foge da gente e bela forma humana;

E por castigo quer, doce e severo,

Mostrar-lhe a formosura de Diana;

E guarde-se não seja ainda comido

Desses cães que agora ama, e consumido.


27

E vê do mundo todo os principais,

Que nenhum no bem público imagina;

Vê neles que não têm amor a mais

Que a si somente, e a quem Filáucia ensina.

Vê que esses que frequentam os reais

Paços, por verdadeira e sã doutrina

Vendem adulação, que mal consente

Mondar-se o novo trigo florescente.


28

Vê que aqueles que devem à pobreza

Amor divino e ao povo caridade,

Amam somente mandos e riqueza,

Simulando justiça e integridade.

Da feia tirania e de aspereza

Fazem direito e vã severidade:

Leis em favor do Rei se estabelecem,

As em favor do povo só perecem.


29

Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,

Senão o que somente mal deseja;

Não quer que tanto tempo se releve

O castigo, que duro e justo seja.

Seus ministros ajunta, por que leve

Exércitos conformes à peleja,

Que espera ter com a mal regida gente,

Que lhe não for agora obediente.


30

Muitos destes meninos voadores