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Os Lusíadas

Chapter 2: Os Lusíadas
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About This Book

An epic narrator celebrates the maritime exploits of a seafaring people, combining lyrical praise, heroic catalogues, and narrative episodes of oceanic voyages. Classical mythology and a council of gods intervene to debate fate while the poem recounts hazardous passages, battles, and territorial expansion. Interwoven are encomia to rulers and ancestral heroes, vivid descriptions of sea and sky, and reflective digressions on national identity, courage, and providence. The poem alternates grandiose, ceremonial language with intimate lyric moments, mapping collective memory through mythic interpretation and sustained admiration of exploratory achievement.

The Project Gutenberg eBook of Os Lusíadas

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Title: Os Lusíadas

Author: Luís de Camões

Release date: July 1, 2002 [eBook #3333]
Most recently updated: February 4, 2007

Language: Portuguese

Credits: Produced by Maria Helena Moreira Rodriques and Victor Calha

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSÍADAS ***

Luís Vaz de Camões

Os Lusíadas


Canto Primeiro


1

As armas e os barões assinalados,

Que da ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca de antes navegados,

Passaram ainda além da Taprobana,

Em perigos e guerras esforçados,

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram;


2

E também as memórias gloriosas

Daqueles Reis, que foram dilatando

A Fé, o Império, e as terras viciosas

De África e de Ásia andaram devastando;

E aqueles, que por obras valerosas

Se vão da lei da morte libertando;

Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


3

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Neptuno e Marte obedeceram:

Cesse tudo o que a Musa antígua canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.


4

E vós, Tágides minhas, pois criado

Tendes em mim um novo engenho ardente,

Se sempre em verso humilde celebrado

Foi de mim vosso rio alegremente,

Dai-me agora um som alto e sublimado,

Um estilo grandíloquo e corrente,

Porque de vossas águas, Febo ordene

Que não tenham inveja às de Hipoerene.


5

Dai-me uma fúria grande e sonorosa,

E não de agreste avena ou frauta ruda,

Mas de tuba canora e belicosa,

Que o peito acende e a cor ao gesto muda;

Dai-me igual canto aos feitos da famosa

Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;

Que se espalhe e se cante no universo,

Se tão sublime preço cabe em verso.


6

E vós, ó bem nascida segurança

Da Lusitana antígua liberdade,

E não menos certíssima esperança

De aumento da pequena Cristandade;

Vós, ó novo temor da Maura lança,

Maravilha fatal da nossa idade,

Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,

Para do mundo a Deus dar parte grande;


7

Vós, tenro e novo ramo florescente

De uma árvore de Cristo mais amada

Que nenhuma nascida no Ocidente,

Cesárea ou Cristianíssima chamada;

(Vede-o no vosso escudo, que presente

Vos amostra a vitória já passada,

Na qual vos deu por armas, e deixou

As que Ele para si na Cruz tomou)


8

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império

O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;

Vê-o também no meio do Hemisfério,

E quando desce o deixa derradeiro;

Vós, que esperamos jugo e vitupério

Do torpe Ismaelita cavaleiro,

Do Turco oriental, e do Gentio,

Que inda bebe o licor do santo rio;


9

Inclinai por um pouco a majestade,

Que nesse tenro gesto vos contemplo,

Que já se mostra qual na inteira idade,

Quando subindo ireis ao eterno templo;

Os olhos da real benignidade

Ponde no chão: vereis um novo exemplo

De amor dos pátrios feitos valerosos,

Em versos divulgado numerosos.


10

Vereis amor da pátria, não movido

De prémio vil, mas alto e quase eterno:

Que não é prémio vil ser conhecido

Por um pregão do ninho meu paterno.

Ouvi: vereis o nome engrandecido

Daqueles de quem sois senhor superno,

E julgareis qual é mais excelente,

Se ser do mundo Rei, se de til gente.


11

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,

Fantásticas, fingidas, mentirosas,

Louvar os vossos, como nas estranhas

Musas, de engrandecer-se desejosas:

As verdadeiras vossas são tamanhas,

Que excedem as sonhadas, fabulosas;

Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,

E Orlando, inda que fora verdadeiro,


12

Por estes vos darei um Nuno fero,

Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,

Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero

A cítara para eles só cobiço.

Pois pelos doze Pares dar-vos quero

Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;

Dou-vos também aquele ilustre Gama,

Que para si de Eneias toma a fama.


13

Pois se a troco de Carlos, Rei de França,

Ou de César, quereis igual memória,

Vede o primeiro Afonso, cuja lança

Escura faz qualquer estranha glória;

E aquele que a seu Reino a segurança

Deixou com a grande e próspera vitória;

Outro Joane, invicto cavaleiro,

O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.


14

Nem deixarão meus versos esquecidos

Aqueles que nos Reinos lá da Aurora

Fizeram, só por armas tão subidos,

Vossa bandeira sempre vencedora:

Um Pacheco fortíssimo, e os temidos

Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;

Albuquerque terríbil, Castro forte,

E outros em quem poder não teve a morte.


15

E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,

Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,

Tomai as rédeas vós do Reino vosso:

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

Comecem a sentir o peso grosso

(Que pelo mundo todo faça espanto)

De exércitos e feitos singulares,

De África as terras, e do Oriente os marços,


16

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

Em quem vê seu exício afigurado;

Só com vos ver o bárbaro Gentio

Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;

Tethys todo o cerúleo senhorio

Tem para vós por dote aparelhado;

Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,

Deseja de comprar-vos para genro.


17

Em vós se vêm da olímpica morada

Dos dois avós as almas cá famosas,

Uma na paz angélica dourada,

Outra pelas batalhas sanguinosas;

Em vós esperam ver-se renovada

Sua memória e obras valerosas;

E lá vos tem lugar, no fim da idade,

No templo da suprema Eternidade.


18

Mas enquanto este tempo passa lento

De regerdes os povos, que o desejam,

Dai vós favor ao novo atrevimento,

Para que estes meus versos vossos sejam;

E vereis ir cortando o salso argento

Os vossos Argonautas, por que vejam

Que são vistos de vós no mar irado,

E costumai-vos já a ser invocado.


19

Já no largo Oceano navegavam,

As inquietas ondas apartando;

Os ventos brandamente respiravam,

Das naus as velas côncavas inchando;

Da branca escuma os mares se mostravam

Cobertos, onde as proas vão cortando

As marítimas águas consagradas,

Que do gado de Próteo são cortadas


20

Quando os Deuses no Olimpo luminoso,

Onde o governo está da humana gente,

Se ajuntam em concílio glorioso

Sobre as cousas futuras do Oriente.

Pisando o cristalino Céu formoso,

Vêm pela Via-Láctea juntamente,

Convocados da parte do Tonante,

Pelo neto gentil do velho Atlante.


21

Deixam dos sete Céus o regimento,

Que do poder mais alto lhe foi dado,

Alto poder, que só co'o pensamento

Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.

Ali se acharam juntos num momento

Os que habitam o Arcturo congelado,

E os que o Austro tem, e as partes onde

A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.


22

Estava o Padre ali sublime e dino,

Que vibra os feros raios de Vulcano,

Num assento de estrelas cristalino,

Com gesto alto, severo e soberano.

Do rosto respirava um ar divino,

Que divino tornara um corpo humano;

Com uma coroa e ceptro rutilante,

De outra pedra mais clara que diamante.


23

Em luzentes assentos, marchetados

De ouro e de perlas, mais abaixo estavam

Os outros Deuses todos assentados,

Como a razão e a ordem concertavam:

Precedem os antíguos mais honrados;

Mais abaixo os menores se assentavam;

Quando Júpiter alto, assim dizendo,

C'um tom de voz começa, grave e horrendo:


24

"Eternos moradores do luzente

Estelífero pólo, e claro assento,

Se do grande valor da forte gente

De Luso não perdeis o pensamento,

Deveis de ter sabido claramente,

Como é dos fados grandes certo intento,

Que por ela se esqueçam os humanos

De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.


25

"Já lhe foi (bem o vistes) concedido

C'um poder tão singelo e tão pequeno,

Tomar ao Mouro forte e guarnecido

Toda a terra, que rega o Tejo ameno:

Pois contra o Castelhano tão temido,

Sempre alcançou favor do Céu sereno.

Assim que sempre, enfim, com fama e glória,

Teve os troféus pendentes da vitória.


26

"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,

Que coa gente de Rómulo alcançaram,

Quando com Viriato, na inimiga

Guerra romana tanto se afamaram;

Também deixo a memória, que os obriga

A grande nome, quando alevantaram

Um por seu capitão, que peregrino

Fingiu na cerva espírito divino.


27

"Agora vedes bem que, cometendo

O duvidoso mar num lenho leve,

Por vias nunca usadas, não temendo

De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:

Que havendo tanto já que as partes vendo

Onde o dia é comprido e onde breve,

Inclinam seu propósito e porfia

A ver os berços onde nasce o dia.


28

"Prometido lhe está do Fado eterno,

Cuja alta Lei não pode ser quebrada,

Que tenham longos tempos o governo

Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.

Nas águas têm passado o duro inverno;

A gente vem perdida e trabalhada;

Já parece bem feito que lhe seja

Mostrada a nova terra, que deseja.


29

"E porque, como vistes, têm passados

Na viagem tão ásperos perigos,