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Os Lusíadas

Chapter 4: Canto Segundo
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About This Book

An epic narrator celebrates the maritime exploits of a seafaring people, combining lyrical praise, heroic catalogues, and narrative episodes of oceanic voyages. Classical mythology and a council of gods intervene to debate fate while the poem recounts hazardous passages, battles, and territorial expansion. Interwoven are encomia to rulers and ancestral heroes, vivid descriptions of sea and sky, and reflective digressions on national identity, courage, and providence. The poem alternates grandiose, ceremonial language with intimate lyric moments, mapping collective memory through mythic interpretation and sustained admiration of exploratory achievement.


Qual no corro sanguino o ledo amante,

Vendo a formosa dama desejada,

O touro busca, e pondo-se diante,

Salta, corre, sibila, acena, e brada,

Mas o animal atroce, nesse instante,

Com a fronte cornígera inclinada,

Bramando duro corre, e os olhos cerra,

Derriba, fere e mata, e põe por terra:


89

Eis nos batéis o fogo se levanta

Na furiosa e dura artilharia,

A plúmbea péla mata, o brado espanta,

Ferido o ar retumba e assovia:

O coração dos Mouros se quebranta,

O temor grande o sangue lhe resfria.

Já foge o escondido de medroso,

E morre o descoberto aventuroso.


90

Não se contenta a gente Portuguesa,

Mas seguindo a vitória estrui e mata;

A povoação, sem muro e sem defesa,

Esbombardeia, acende e desbarata.

Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,

Que bem cuidou comprá-la mais barata;

Já blasfema da guerra, e maldizia,

O velho inerte, e a mãe que o filho cria.


91

Fugindo, a seta o Mouro vai tirando

Sem força, de covarde e de apressado,

A pedra, o pau, e o canto arremessando;

Dá-lhe armas o furor desatinado.

Já a ilha e todo o mais desemparando,

A terra firme foge amedrontado;

Passa e corta do mar o estreito braço,

Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço


92

Uns vão nas almadias carregadas,

Um corta o mar a nado diligente,

Quem se afoga nas ondas encurvadas,

Quem bebe o mar, e o deita juntamente.

Arrombam as miúdas bombardadas

Os pangaios subtis da bruta gente:

Desta arte o Português enfim castiga

A vil malícia, pérfida, inimiga.


93

Tornam vitoriosos para a armada,

Co'o despojo da guerra e rica presa,

E vão a seu prazer fazer aguada,

Sem achar resistência, nem defesa.

Ficava a Maura gente magoada,

No ódio antigo mais que nunca acesa;

E vendo sem vingança tanto dano,

Somente estriba no segundo engano.


94

Pazes cometer manda arrependido

O Regedor daquela iníqua terra,

Sem ser dos Lusitanos entendido,

Que em figura de paz lhe manda guerra;

Porque o piloto falso prometido,

Que toda a má tenção no peito encerra,

Para os guiar à morte lhe mandava,

Como em sinal das pazes que tratava.


95

O Capitão, que já lhe então convinha

Tornar a seu caminho acostumado,

Que tempo concertado e ventos tinha

Para ir buscar o Indo desejado,

Recebendo o piloto, que lhe vinha,

Foi dele alegremente agasalhado;

E respondendo ao mensageiro a tento,

As velas manda dar ao largo vento.


96

Desta arte despedida a forte armada,

As ondas de Anfitrite dividia,

Das filhas de Nereu acompanhada,

Fiel, alegre e doce companhia.

O Capitão, que não caía em nada

Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,

Dele mui largamente se informava

Da Índia toda, e costas que passava.


97

Mas o Mouro, instruído nos enganos

Que o malévolo Baco lhe ensinara,

De morte ou cativeiro novos danos,

Antes que à Índia chegue, lhe prepara:

Dando razões dos portos Indianos,

Também tudo o que pede lhe declara,

Que, havendo por verdade o que dizia,

De nada a forte gente se temia.


98

E diz-lhe mais, com o falso pensamento

Com que Sinon os Frígios enganou:

Que perto está uma ilha, cujo assento

Povo antigo cristão sempre habitou.

O Capitão, que a tudo estava a tento,

Tanto com estas novas se alegrou,

Que com dádivas grandes lhe rogava,

Que o leve à terra onde esta gente estava.


99

O mesmo o falso Mouro determina,

Que o seguro Cristão lhe manda e pede;

Que a ilha é possuída da malina

Gente que segue o torpe Mahamede.

Aqui o engano e morte lhe imagina,

Porque em poder e forças muito excede

A Moçambique esta ilha, que se chama

Quíloa, mui conhecida pela fama.


100

Para lá se inclinava a leda frota;

Mas a Deusa em Citere celebrada,

Vendo como deixava a certa rota

Por ir buscar a morte não cuidada,

Não consente que em terra tão remota

Se perca a gente dela tanto amada.

E com ventos contrários a desvia

Donde o piloto falso a leva e guia.


101

Mas o malvado Mouro, não podendo

Tal determinação levar avante,

Outra maldade iníqua cometendo,

Ainda em seu propósito constante,

Lhe diz que, pois as águas discorrendo

Os levaram por força por diante,

Que outra ilha tem perto, cuja gente

Eram Cristãos com Mouros juntamente.


102

Também nestas palavras lhe mentia,

Como por regimento enfim levava,

Que aqui gente de Cristo não havia,

Mas a que a Mahamede celebrava.

O Capitão, que em tudo o Mouro cria,

Virando as velas, a ilha demandava;

Mas, não querendo a Deusa guardadora,

Não entra pela barra, e surge fora.


103

Estava a ilha à terra tão chegada,

Que um estreito pequeno a dividia;

Uma cidade nela situada,

Que na fronte do mar aparecia,

De nobres edifícios fabricada,

Como por fora ao longe descobria,

Regida por um Rei de antiga idade:

Mombaça é o nome da ilha e da cidade.


104

E sendo a ela o Capitão chegado,

Estranhamente ledo, porque espera

De poder ver o povo batizado,

Como o falso piloto lhe dissera,

Eis vêm batéis da terra com recado

Do Rei, que já sabia a gente que era:

Que Baco muito de antes o avisara,

Na forma doutro Mouro, que tomara.


105

O recado que trazem é de amigos,

Mas debaixo o veneno vem coberto;

Que os pensamentos eram de inimigos,

Segundo foi o engano descoberto.

Ó grandes e gravíssimos perigos!

Ó caminho de vida nunca certo:

Que aonde a gente põe sua esperança,

Tenha a vida tão pouca segurança!


106

No mar tanta tormenta, e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida!

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade avorrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme, e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?



Canto Segundo


1

Já neste tempo o lúcido Planeta,

Que as horas vai do dia distinguindo,

Chegava à desejada e lenta meta,

A luz celeste às gentes encobrindo,

E da casa marítima secreta

Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,

Quando as infidas gentes se chegaram

As naus, que pouco havia que ancoraram.


2

Dentre eles um, que traz encomendado

O mortífero engano, assim dizia:

"Capitão valeroso, que cortado

Tens de Neptuno o reino e salsa via,

O Rei que manda esta ilha, alvoroçado

Da vinda tua, tem tanta alegria,

Que não deseja mais que agasalhar-te,

Ver-te, e do necessário reformar-te.


3

"E porque está em extremo desejoso

De te ver, como cousa nomeada,

Te roga que, de nada receoso,

Entres a barra, tu com toda armada:

E porque do caminho trabalhoso

Trarás a gente débil e cansada,

Diz que na terra podes reformá-la,

Que a natureza obriga a desejá-la.


4

"E se buscando vás mercadoria

Que produze o aurífero Levante,

Canela, cravo, ardente especiaria,

Ou droga salutífera e prestante;

Ou se queres luzente pedraria,

O rubi fino, o rígido diamante,

Daqui levarás tudo tão sobejo

Com que faças o fim a teu desejo."


5

Ao mensageiro o Capitão responde

As palavras do Rei agradecendo:

E diz que, porque o Sol no mar se esconde,

Não entra para dentro, obedecendo;

Porém que, como a luz mostrar por onde

Vá sem perigo a frota, não temendo,

Cumprirá sem receio seu mandado,

Que a mais por tal senhor está obrigado.


6

Pergunta-lhe depois, se estão na terra

Cristãos, como o piloto lhe dizia;

O mensageiro astuto, que não erra,

Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.

Desta sorte do peito lhe desterra

Toda a suspeita e cauta fantasia;

Por onde o Capitão seguramente

Se fia da infiel e falsa gente.


7

E de alguns que trazia condenados

Por culpas e por feitos vergonhosos,

Por que pudessem ser aventurados

Em casos desta sorte duvidosos,

Manda dous mais sagazes, ensaiados,

Por que notem dos Mouros enganosos

A cidade e poder, e por que vejam

Os Cristãos, que só tanto ver desejam.


8

E por estes ao Rei presentes manda,

Por que a boa vontade, que mostrava,

Tenha firme, segura, limpa e branda;

A qual bem ao contrário em tudo estava.

Já a companhia pérfida e nefanda

Das naus se despedia e o mar cortava:

Foram com gestos ledos e fingidos,

Os dous da frota em terra recebidos.


9

E depois que ao Rei apresentaram,

Co'o recado, os presentes que traziam,

A cidade correram, e notaram

Muito menos daquilo que queriam;

Que os Mouros cautelosos se guardaras

De lhes mostrarem tudo o que pediam:

Que onde reina a malícia, está o receio,

Que a faz imaginar no peito alheio.


10

Mas aquele que sempre a mocidade

Tem no rosto perpétua, e foi nascido

De duas mães, que urdia a falsidade

Por ver o navegante destruído,

Estava numa casa da cidade,

Com rosto humano e hábito fingido,

Mostrando-se Cristão, e fabricava

Um altar sumptuoso, que adorava.


11

Ali tinha em retrato afigurada

Do alto e Santo Espírito a pintura:

A cândida pombinha debuxada