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Os Lusíadas

Chapter 5: Canto Terceiro
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About This Book

An epic narrator celebrates the maritime exploits of a seafaring people, combining lyrical praise, heroic catalogues, and narrative episodes of oceanic voyages. Classical mythology and a council of gods intervene to debate fate while the poem recounts hazardous passages, battles, and territorial expansion. Interwoven are encomia to rulers and ancestral heroes, vivid descriptions of sea and sky, and reflective digressions on national identity, courage, and providence. The poem alternates grandiose, ceremonial language with intimate lyric moments, mapping collective memory through mythic interpretation and sustained admiration of exploratory achievement.

Da bela Ninfa, filha de Taumante.


100

Sonorosas trombetas incitavam

Os ânimos alegres, ressoando;

Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,

Os toldos pelas águas arrojando;

As bombardas horríssonas bramavam,

Com as nuvens de fumo o Sol tomando;

Amiúdam-se os brados acendidos,

Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.


101

Já no batel entrou do Capitão

O Rei, que nos seus braços o levava;

Ele coa cortesia, que a razão

(Por ser Rei) requeria, lhe falava.

C'umas mostras de espanto e admiração,

O Mouro o gesto e o modo lhe notava,

Como quem em mui grande estima tinha

Gente que de tão longe à índia vinha.


102

E com grandes palavras lhe oferece

Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,

E que, se mantimento lhe falece,

Como se próprio fosse, lho pedisse.

Diz-lhe mais, que por fama bem conhece

A gente Lusitana, sem que a visse;

Que já ouviu dizer, que noutra terra

Com gente de sua Lei tivesse guerra.


103

E como por toda África se soa,

Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,

Quando nela ganharam a coroa

Do Reino, onde as Hespéridas viveram;

E com muitas palavras apregoa

O menos que os de Luso mereceram,

E o mais que pela fama o Rei sabia.

Mas desta sorte o Gama respondia:


104

"Ó tu, que só tiveste piedade,

Rei benigno, da gente Lusitana,

Que com tanta miséria e adversidade

Dos mares experimenta a fúria insana;

Aquela alta e divina Eternidade,

Que o Céu revolve e rege a gente humana,

Pois que de ti tais obras recebemos,

Te pague o que nós outros não podemos.


105

"Tu só, de todos quantos queima Apolo,

Nos recebes em paz, cio mar profundo;

Em ti dos ventos hórridos de Eolo

Refúgio achamos bom, fido e jocundo.

Enquanto apascentar o largo Pólo

As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,

Onde quer que eu viver, com fama e glória

Viverão teus louvores em memória."


106

Isto dizendo, os barcos vão remando

Para a frota, que o Mouro ver deseja;

Vão as naus uma e uma rodeando,

Porque de todas tudo note e veja.

Mas para o céu Vulcano fuzilando,

A frota coas bombardas o festeja,

E as trombetas canoras lhe tangiam;

Co'os anafis os Mouros respondiam.


107

Mas depois de ser tudo já notado

Do generoso Mouro, que pasmava

Ouvindo o instrumento inusitado,

Que tamanho terror em si mostrava,

Mandava estar quieto e ancorado

N'água o batel ligeiro que os levava,

Por falar de vagar co'o forte Gama,

Nas cousas de que tem notícia e faina.


108

Em práticas o Mouro diferentes

Se deleitava, perguntando agora

Pelas guerras famosas e excelentes

Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;

Agora lhe pergunta pelas gentes

De toda a Hespéria última, onde mora;

Agora pelos povos seus vizinhos,

Agora pelos úmidos caminhos.


109

"Mas antes, valeroso Capitão,

Nos conta, lhe dizia, diligente,

Da terra tua o clima, e região

Do mundo onde morais distintamente;

E assim de vossa antiga geração,

E o princípio do Reino tão potente,

Co'os sucessos das guerras do começo,

Que, sem sabê-las, sei que são de preço.


110

"E assim também nos conta dos rodeios

Longos, em que te traz o mar irado,

Vendo os costumes bárbaros alheios.

Que a nossa África ruda tem criado.

Conta: que agora vêm co'os áureos freios

Os cavalos que o carro marchetado

Do novo Sol, da fria Aurora trazem,

O vento dorme, o mar e as ondas jazem.


111

"E não menos co'o tempo se parece

O desejo de ouvir-te o que contares;

Que quem há, que por fama não conhece

As obras Portuguesas singulares?

Não tanto desviado resplandece

De nós o claro Sol, para julgares

Que os Melindanos têm tão rudo peito,

Que não estimem muito um grande feito.


112

"Cometeram soberbos os Gigantes,

Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;

Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,

O Reino de Plutão horrendo e escuro.

Se houve feitos no mundo tão possantes,

Não menos é trabalho ilustre e duro,

Quanto foi cometer Inferno o Céu,

Que outrem cometa a fúria de Nereu.


113

"Queimou o sagrado templo de Diana,

Do subtil Tesifónio fabricado,

Heróstrato, por ser da gente humana

Conhecido no mundo e nomeado:

Se também com tais obras nos engana

O desejo de um nome avantajado,

Mais razão há que queira eterna glória

Quem faz obras tão dignas de memória."


Canto Terceiro


1

Agora tu, Calíope, me ensina

O que contou ao Rei o ilustre Gama:

Inspira imortal canto e voz divina

Neste peito mortal, que tanto te ama.

Assim o claro inventor da Medicina,

De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,

Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,

Te negue o amor devido, como soe.


2

Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,

Como merece a gente Lusitana;

Que veja e saiba o mundo que do Tejo

O licor de Aganipe corre e mana.

Deixa as flores de Pindo, que já vejo

Banhar-me Apolo na água soberana;

Senão direi que tens algum receio,

Que se escureça o teu querido Orfeio.


3

Prontos estavam todos escutando

O que o sublime Gama contaria,

Quando, depois de um pouco estar cuidando,

Alevantando o rosto, assim dizia:

"Mandas-me, ó Rei, que conte declarando

De minha gente a grão genealogia:

Não me mandas contar estranha história,

Mas mandas-me louvar dos meus a glória.


4

"Que outrem possa louvar esforço alheio,

Cousa é que se costuma e se deseja;

Mas louvar os meus próprios, arreceio

Que louvor tão suspeito mal me esteja;

E para dizer tudo, temo e creio,

Que qualquer longo tempo curto seja:

Mas, pois o mandas, tudo se te deve,

Irei contra o que devo, e serei breve.


5

"Além disso, o que a tudo enfim me obriga,

É não poder mentir no que disser,

Porque de feitos tais, por mais que diga,

Mais me há-de ficar inda por dizer.

Mas, porque nisto a ordens leve e siga,

Segundo o que desejas de saber,

Primeiro tratarei da larga terra,

Depois direi da sanguinosa guerra.


6

"Entre a Zona que o Cancro senhoreia,

Meta setentrional do Sol luzente,

E aquela que por f ria se arreceia

Tanto, como a do meio por ardente,

Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,

Pela parte do Areturo, e do Ocidente,

Com suas salsas ondas o Oceano,

E pela Austral o mar Mediterrano.


7

"Da parte donde o dia vem nascendo,

Com Ásia se avizinha; mas o rio

Que dos montes Rifeios vai correndo,

Na alagoa Meotis, curvo o frio,

As divide: e o mar que, fero e horrendo,

Viu dos Gregos o irado senhorio,

Onde agora de Tróia triunfante

Não vê mais que a memória o navegante.


8

"Lá onde mais debaixo está do Pólo,

Os montes Hiperbóreos aparecem,

E aqueles onde sempre sopra Eolo,

E co'o nome, dos sopros se enobrecem.

Aqui tão pouca força tem de Apolo

Os raios que no mundo resplandecem,

Que a neve está contido pelos montes,

Gelado o mar, geladas sempre as fontes.


9

"Aqui dos Citas grande quantidade

Vivem, que antigamente grande guerra

Tiveram, sobre a humana antiguidade,

Co'os que tinham então a Egípcia terra;

Mas quem tão fora estava da verdade,

(Já que o juízo humano tanto erra)

Para que do mais certo se informara,

Ao campo Damasceno o perguntara.


10

"Agora nestas partes se nomeia

A Lápia fria, a inculta Noruega,

Escandinávia Ilha, que se arreia

Das vitórias que Itália não lhe nega.

Aqui, enquanto as águas não refreia

O congelado inverno, se navega

Um braço do Sarmático Oceano

Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.


11

"Entre este mar e o Tánais vive estranha

Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,

Sármatas outro tempo; e na montanha

Hircínia os Marcomanos são Polónios.

Sujeitos ao Império de Alemanha

São Saxones, Boêmios e Panónios,

E outras várias nações, que o Reno frio

Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.


12

"Entre o remoto Istro e o claro Estreito,

Aonde Hele deixou co'o nome a vida,

Estão os Traces de robusto peito,

Do fero Marte pátria tão querida,

Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito

Ao Otomano está, que submetida

Bizâncio tem a seu serviço indino:

Boa injúria do grande Constantino!


13

"Logo de Macedónia estão as gentes,

A quem lava do Axio a água fria;

E vós também, ó terras excelentes

Nos costumes, engenhos e ousadia,

Que criastes os peitos eloquentes

E os juízos de alta fantasia,

Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,

E não menos por armas, que por letras.


14

"Logo os Dálmatas vivem; e no seio,

Onde Antenor já muros levantou,

A soberba Veneza está no meio

Das águas, que tão baixa começou.

Da terra um braço vem ao mar, que cheio

De esforço, nações várias sujeitou,

Braço forte, de gente sublimada,

Não menos nos engenhos, que na espada.


15

"Em torno o cerca o Reino Neptunino,

Co'os muros naturais por outra parte;

Pelo meio o divide o Apenino,

Que tão ilustre fez o pátrio Marte;

Mas depois que o Porteiro tem divino,

Perdendo o esforço veio, e bélica arte;

Pobre está já de antiga potestade:

Tanto Deus se contenta de humildade!


16

"Gália ali se verá que nomeada