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Os Lusíadas

Chapter 6: Canto Quarto
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About This Book

An epic narrator celebrates the maritime exploits of a seafaring people, combining lyrical praise, heroic catalogues, and narrative episodes of oceanic voyages. Classical mythology and a council of gods intervene to debate fate while the poem recounts hazardous passages, battles, and territorial expansion. Interwoven are encomia to rulers and ancestral heroes, vivid descriptions of sea and sky, and reflective digressions on national identity, courage, and providence. The poem alternates grandiose, ceremonial language with intimate lyric moments, mapping collective memory through mythic interpretation and sustained admiration of exploratory achievement.

Por muito grande espaço repetisses!


134

"Assim como a bonina, que cortada

Antes do tempo foi, cândida e bela,

Sendo das mãos lascivas maltratada

Da menina que a trouxe na capela,

O cheiro traz perdido e a cor murchada:

Tal está morta a pálida donzela,

Secas do rosto as rosas, e perdida

A branca e viva cor, coa doce vida.


135

"As filhas do Mondego a morte escura

Longo tempo chorando memoraram,

E, por memória eterna, em fonte pura

As lágrimas choradas transformaram;

O nome lhe puseram, que inda dura,

Dos amores de Inês que ali passaram.

Vede que fresca fonte rega as flores,

Que lágrimas são a água, e o nome amores.


136

"Não correu muito tempo que a vingança

Não visse Pedro das mortais feridas,

Que, em tomando do Reino a governança,

A tomou dos fugidos homicidas.

Do outro Pedro cruíssimo os alcança,

Que ambos, imigos das humanas vidas,

O concerto fizeram, duro e injusto,

Que com Lépido e António fez Augusto.


137

"Este, castigador foi rigoroso

De latrocínios, mortes e adultérios:

Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,

Eram os seus mais certos refrigérios.

As cidades guardando justiçoso

De todos os soberbos vitupérios,

Mais ladrões castigando à morte deu,

Que o vagabundo Aleides ou Teseu.


138

"Do justo e duro Pedro nasce o brando,

(Vede da natureza o desconcerto!)

Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,

Que todo o Reino pôs em muito aperto:

Que, vindo o Castelhano devastando

As terras sem defesa, esteve perto

De destruir-se o Reino totalmente;

Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.


139

"Ou foi castigo claro do pecado

De tirar Lianor a seu marido,

E casar-se com ela, de enlevado

Num falso parecer mal entendido;

Ou foi que o coração sujeito e dado

Ao vício vil, de quem se viu rendido,

Mole se fez e fraco; e bem parece,

Que um baixo amor os fortes enfraquece.


140

"Do pecado tiveram sempre a pena

Muitos, que Deus o quis, e permitiu:

Os que foram roubar a bela Helena,

E com Apio também Tarquilio o viu.

Pois por quem David Santo se condena?

Ou quem o Tribo ilustre destruiu

De Benjamim? Bem claro no-lo ensina

Por Sara Faraó, Siquém por Dina.


141

"E pois se os peitos fortes enfraquece

Um inconcesso amor desatinado,

Bem no filho de Alcmena se parece,

Quando em Ônfale andava transformado.

De Marco António a faina se escurece

Com ser tanto a Cleopatra afeiçoado.

Tu também, Peno próspero, o sentiste

Depois que uma moça vil na Apúlia viste.


142

"Mas quem pode livrar-se por ventura

Dos laços que Amor arma brandamente

Entre as rosas e a neve humana pura,

O ouro e o alabastro transparente?

Quem de uma peregrina formosura,

De um vulto de Medusa propriamente,

Que o coração converte, que tem preso,

Em pedra não, mas em desejo aceso?


143

"Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,

Uma suave e angélica excelência,

Que em si está sempre as almas transformando,

Que tivesse contra ela resistência?

Desculpado por certo está Fernando,

Para quem tem de amor experiência;

Mas antes, tendo livre a fantasia,

Por muito mais culpado o julgaria.


Canto Quarto


1

"Depois de procelosa tempestade,

Noturna sombra e sibilante vento,

Traz a manhã serena claridade,

Esperança de porto e salvamento;

Aparta o sol a negra escuridade,

Removendo o temor do pensamento:

Assim no Reino forte aconteceu,

Depois que o Rei Fernando faleceu.


2

"Porque, se muito os nossos desejaram

Quem os danos e ofensas vá vingando

Naqueles que tão bem se aproveitaram

Do descuido remisso de Fernando,

Depois de pouco tempo o alcançaram,

Joane, sempre ilustre, alevantando

Por Rei, como de Pedro único herdeiro,

(Ainda que bastardo) verdadeiro.


3

"Ser isto ordenação dos céus divina,

Por sinais muito claros se mostrou,

Quando em Évora a voz de uma menina,

Ante tempo falando o nomeou;

E como cousa enfim que o Céu destina,

No berço o corpo e a voz alevantou:

—"Portugal! Portugal!" alçando a mão

Disse "pelo Rei novo, Dom João."—


4

"Alteradas então do Reino as gentes

Co'o ódio, que ocupado os peitos tinha,

Absolutas cruezas e evidentes

Faz do povo o furor por onde vinha;

Matando vão amigos e parentes

Do adúltero Conde e da Rainha,

Com quem sua incontinência desonesta

Mais (depois de viúva) manifesta.


5

"Mas ele enfim, com causa desonrado,

Diante dela a ferro frio morre,

De outros muitos na morte acompanhado,

Que tudo o fogo erguido queima e corre:

Quem, como Astianás, precipitado,

(Sem lhe valerem ordens) de alta torre,

A quem ordens, nem aras, nem respeito;

Quem nu por ruas, e em pedaços feito.


6

"Podem-se pôr em longo esquecimento

As cruezas mortais que Roma viu

Feitas do feroz Mário e do cruento

Sila, quando o contrário lhe fugiu.

Por isso Lianor, que o sentimento

Do morto Conde ao mundo descobriu,

Faz contra Lusitânia vir Castela,

Dizendo ser sua filha herdeira dela.


7

"Beatriz era a filha, que casada

Co'o Castelhano está, que o Reino pede,

Por filha de Fernando reputada,

Se a corrompida fama lhe concede.

Com esta voz Castela alevantada,

Dizendo que esta filha ao pai sucede,

Suas forças ajunta para as guerras

De várias regiões e várias terras.


8

Vem de toda a província que de um Brigo

(Se foi) já teve o nome derivado;

Das terras que Fernando e que Rodrigo

Ganharam do tirano e Mauro estado.

Não estimam das armas o perigo

Os que cortando vão co'o duro arado

Os campos Lioneses, cuja gente

C'os Mouros foi nas armas excelente.


9

"Os Vândalos, na antiga valentia

Ainda confiados, se ajuntavam

Da cabeça de toda Andaluzia,

Que do Guadalquibir as águas lavam.

A nobre Ilha também se apercebia,

Que antigamente os Tírios habitavam,

Trazendo por insígnias verdadeiras

As Hercúleas colunas nas bandeiras.


10

"Também vem lá do Reino de Toledo,

Cidade nobre e antiga, a quem cercando

O Tejo em torno vai suave e ledo

Que das serras de Conca vem manando.

A vós outros também não tolhe o medo,

Ó sórdidos Galegos, duro bando,

Que para resistirdes vos armastes,

Aqueles, cujos golpes já provasses.


11

"Também movem da guerra as negras fúrias

A gente Biscainha, que carece

De polidas razões, e que as injúrias

Muito mal dos estranhos compadece.

A terra de Guipúscua e das Astúrias,

Que com minas de ferro se enobrece,

Armou dele os soberbos moradores,

Para ajudar na guerra a seus senhores.


12

"Joane, a quem do peito o esforço cresce,

Como a Sansão Hebréio da guedelha,

Posto que tudo pouco lhe parece,

Co'os poucos de seu Reino se aparelha;

E não porque conselho lhe falece,

Co'os principais senhores se aconselha,

Mas só por ver das gentes as sentenças:

Que sempre houve entre muitos diferenças.


13

"Não falta com razões quem desconcerte

Da opinião de todos, na vontade,

Em quem o esforço antigo se converte

Em desusada e má deslealdade;

Podendo o temor mais, gelado, inerte,

Que a própria e natural fidelidade:

Negam o Rei e a pátria, e, se convém,

Negarão (como Pedro) o Deus que têm.


14

"Mas nunca foi que este erro se sentisse

No forte Dom Nuno Alvares; mas antes,

Posto que em seus irmãos tão claro o visse,

Reprovando as vontades inconstantes,

Aquelas duvidosas gentes disse,

Com palavras mais duras que elegantes,

A mão na espada, irado, e não facundo,

Ameaçando a terra, o mar e o mundo:


15

—"Como! Da gente ilustre Portuguesa

Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?,

Como! Desta província, que princesa

Foi das gentes na guerra em toda a parte,

Há-de sair quem negue ter defesa?

Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte

De Português, e por nenhum respeito

O próprio Reino queira ver sujeito?


16

—"Como! Não seis vós inda os descendentes

Daqueles, que debaixo da bandeira

Do grande Henriques, feros e valentes,

Vencestes esta gente tão guerreira?

Quando tantas bandeiras, tantas gentes

Puseram em fugida, de maneira

Que sete ilustres Condes lhe trouxeram

Presos, afora a presa que tiveram?


17

—"Com quem foram contino sopeados

Estes, de quem o estais agora vós,

Por Dinis e seu filho, sublimados,

Senão co'os vossos fortes pais, e avôs?

Pois se com seus descuidos, ou pecados,

Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,

Torne-vos vossas forças o Rei novo:

Se é certo que co'o Rei se muda o povo.


18

—"Rei tendes tal, que se o valor tiverdes

Igual ao Rei que agora alevantastes,

Desbaratareis tudo o que quiserdes,

Quanto mais a quem já desbaratasses.

E se com isto enfim vos não moverdes

Do penetrante medo que tomastes,

Atai as mãos a vosso vão receio,

Que eu só resistirei ao jugo alheio.


19

—"Eu só com meus vassalos, e com esta

(E dizendo isto arranca meia espada)

Defenderei da força dura e infesta

A terra nunca de outrem sojugada.

Em virtude do Rei, da pátria mesta,

Da lealdade já por vós negada,

Vencerei (não só estes adversários)

Mas quantos a meu Rei forem contrários."—


20