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Os Lusíadas

Chapter 7: Canto Quinto
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About This Book

An epic narrator celebrates the maritime exploits of a seafaring people, combining lyrical praise, heroic catalogues, and narrative episodes of oceanic voyages. Classical mythology and a council of gods intervene to debate fate while the poem recounts hazardous passages, battles, and territorial expansion. Interwoven are encomia to rulers and ancestral heroes, vivid descriptions of sea and sky, and reflective digressions on national identity, courage, and providence. The poem alternates grandiose, ceremonial language with intimate lyric moments, mapping collective memory through mythic interpretation and sustained admiration of exploratory achievement.



79

—"Eu vos tenho entre todos escolhido

Para uma empresa, qual a vós se deve,

Trabalho ilustre, duro e esclarecido,

O que eu sei que por mi vos será leve."—

Não sofri mais, mas logo:—"Ó Rei subido,

Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,

É tão pouco por vós, que mais me pena

Ser esta vida cousa tão pequena.


80

—"Imaginai tamanhas aventuras,

Quais Euristeu a Alcides inventava,

O leão Cleoneu, Harpias duras,

O porco de Erimanto, a Hidra brava,

Descer enfim às sombras vãs e escuras

Onde os campos de Dite a Estige lava;

Porque a maior perigo, a mor afronta,

Por vós, ó Rei, o espírito e a carne é pronta."


81

"Com mercês sumptuosas me agradece

E com razões me louva esta vontade;

Que a virtude louvada vive e cresce,

E o louvor altos casos persuade.

A acompanhar-me logo se oferece,

Obrigado d'amor e d'amizade,

Não menos cobiçoso de honra e fama,

O caro meu irmão Paulo da Gama.


82

"Mais se me ajunta Nicolau Coelho,

De trabalhos mui grande sofredor;

Ambos são de valia e de conselho,

De experiência em armas e furor.

Já de manceba gente me aparelho,

Em que cresce o desejo do valor;

Todos de grande esforço; e assim parece

Quem a tamanhas cousas se oferece.


83

"Foram de Emanuel remunerados,

Porque com mais amor se apercebessem,

E com palavras altas animados

Para quantos trabalhos sucedessem.

Assim foram os Mínias ajuntados,

Para que o Véu dourado combatessem,

Na fatídica Nau, que ousou primeira

Tentar o mar Euxínio, aventureira.


84

"E já no porto da ínclita Ulisseia

C'um alvoroço nobre, e é um desejo,

(Onde o licor mistura e branca areia

Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)

As naus prestes estão; e não refreia

Temor nenhum o juvenil despejo,

Porque a gente marítima e a de Marte

Estão para seguir-me a toda parte.


85

"Pelas praias vestidos os soldados

De várias cores vêm e várias artes,

E não menos de esforço aparelhados

Para buscar do inundo novas partes.

Nas fortes naus os ventos sossegados

Ondeam os aéreos estandartes;

Elas prometem, vendo os mares largos,

De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.


86

"Depois de aparelhados desta sorte

De quanto tal viagem pede e manda,

Aparelhamos a alma para a morte,

Que sempre aos nautas ante os olhos anda.

Para o sumo Poder que a etérea corte

Sustenta só coa vista veneranda,

Imploramos favor que nos guiasse,

E que nossos começos aspirasse.


87

"Partimo-nos assim do santo templo

Que nas praias do mar está assentado,

Que o nome tem da terra, para exemplo,

Donde Deus foi em carne ao mundo dado.

Certifico-te, ó Rei, que se contemplo

Como fui destas praias apartado,

Cheio dentro de dúvida e receio,

Que apenas nos meus olhos ponho o freio.


88

"A gente da cidade aquele dia,

(Uns por amigos, outros por parentes,

Outros por ver somente) concorria,

Saudosos na vista e descontentes.

E nós coa virtuosa companhia

De mil Religiosos diligentes,

Em procissão solene a Deus orando,

Para os batéis viemos caminhando.


89

"Em tão longo caminho e duvidoso

Por perdidos as gentes nos julgavam;

As mulheres c'um choro piedoso,

Os homens com suspiros que arrancavam;

Mães, esposas, irmãs, que o temeroso

Amor mais desconfia, acrescentavam

A desesperarão, e frio medo

De já nos não tornar a ver tão cedo.


90

"Qual vai dizendo:—"Ó filho, a quem eu tinha

Só para refrigério, e doce amparo

Desta cansada já velhice minha,

Que em choro acabará, penoso e amaro,

Por que me deixas, mísera e mesquinha?

Por que de mim te vás, ó filho caro,

A fazer o funéreo enterramento,

Onde sejas de peixes mantimento!"—


91

"Qual em cabelo:—"Ó doce e amado esposo,

Sem quem não quis Amor que viver possa,

Por que is aventurar ao mar iroso

Essa vida que é minha, e não é vossa?

Como por um caminho duvidoso

Vos esquece a afeição tão doce nossa?

Nosso amor, nosso vão contentamento

Quereis que com as velas leve o vento?"—


92

"Nestas e outras palavras que diziam

De amor e de piedosa humanidade,

Os velhos e os meninos os seguiam,

Em quem menos esforço põe a idade.

Os montes de mais perto respondiam,

Quase movidos de alta piedade;

A branca areia as lágrimas banhavam,

Que em multidão com elas se igualavam.


93

"Nós outros sem a vista alevantarmos

Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,

Por nos não magoarmos, ou mudarmos

Do propósito firme começado,

Determinei de assim nos embarcarmos

Sem o despedimento costumado,

Que, posto que é de amor usança boa,

A quem se aparta, ou fica, mais magoa.


94

"Mas um velho d'aspeito venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

C'um saber só de experiências feito,

Tais palavras tirou do experto peito:


95

—"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C'uma aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades neles experimentas!


96

—"Dura inquietação d'alma e da vida,

Fonte de desamparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinos e de impérios:

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,

Sendo dina de infames vitupérios;

Chamam-te Fama e Glória soberana,

Nomes com quem se o povo néscio engana!


97

—"A que novos desastres determinas

De levar estes reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promessas de reinos, e de minas

D'ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? que histórias?

Que triunfos, que palmas, que vitórias?


98

—"Mas ó tu, geração daquele insano,

Cujo pecado e desobediência,

Não somente do reino soberano

Te pôs neste desterro e triste ausência,

Mas inda doutro estado mais que humano

Da quieta e da simples inocência,

Idade d'ouro, tanto te privou,

Que na de ferro e d'armas te deitou:


99

—"Já que nesta gostosa vaidade

Tanto enlevas a leve fantasia,

Já que à bruta crueza e feridade

Puseste nome esforço e valentia,

Já que prezas em tanta quantidades

O desprezo da vida, que devia

De ser sempre estimada, pois que já

Temeu tanto perdê-la quem a dá:


100

—"Não tens junto contigo o Ismaelita,

Com quem sempre terás guerras sobejas?

Não segue ele do Arábio a lei maldita,

Se tu pela de Cristo só pelejas?

Não tem cidades mil, terra infinita,

Se terras e riqueza mais desejas?

Não é ele por armas esforçado,

Se queres por vitórias ser louvado?


101

—"Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe,

Por quem se despovoe o Reino antigo,

Se enfraqueça e se vá deitando a longe?

Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a fama te exalte e te lisonge,

Chamando-te senhor, com larga cópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?


102

—"Ó maldito o primeiro que no mundo

Nas ondas velas pôs em seco lenho,

Dino da eterna pena do profundo,

Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!

Nunca juízo algum alto e profundo,

Nem cítara sonora, ou vivo engenho,

Te dê por isso fama nem memória,

Mas contigo se acabe o nome e glória.


103

—"Trouxe o filho de Jápeto do Céu

O fogo que ajuntou ao peito humano,

Fogo que o mundo em armas acendeu

Em mortes, em desonras (grande engano).

Quanto melhor nos fora, Prometeu,

E quanto para o mundo menos dano,

Que a tua estátua ilustre não tivera

Fogo de altos desejos, que a movera!


104

—"Não cometera o moço miserando

O carro alto do pai, nem o ar vazio

O grande Arquiteto co'o filho, dando

Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.

Nenhum cometimento alto e nefando,

Por fogo, ferro, água, calma e frio,

Deixa intentado a humana geração.

Mísera sorte, estranha condição!"—


Canto Quinto


1

"Estas sentenças tais o velho honrado

Vociferando estava, quando abrimos

As asas ao sereno e sossegado

Vento, e do porto amado nos partimos.

E, como é já no mar costume usado,

A vela desfraldando, o céu ferimos,

Dizendo: "Boa viagem", logo o vento

Nos troncos fez o usado movimento.


2

"Entrava neste tempo o eterno lume

No animal Nemeio truculento,

E o mundo, que com tempo se consume,

Na sexta idade andava enfermo e lento:

Nela vê, como tinha por costume,

Cursos do sol quatorze vezes cento,

Com mais noventa e sete, em que corria,

Quando no mar a armada se estendia.


3

"Já a vista pouco e pouco se desterra

Daqueles pátrios montes que ficavam;

Ficava o caro Tejo, e a fresca serra

De Sintra, e nela os olhos se alongavam.

Ficava-nos também na amada terra

O coração, que as mágoas lá deixavam;

E já depois que toda se escondeu,

Não vimos mais enfim que mar e céu.


4

"Assim fomos abrindo aqueles mares,