Qualquer nobre trabalha que em memória
Vença ou iguale os grandes já passados.
As invejas da ilustre e alheia história
Fazem mil vezes feitos sublimados.
Quem valerosas obras exercita,
Louvor alheio muito o esperta e incita.
93
Não tinha em tanto os feitos gloriosos
De Aquiles, Alexandro na peleja,
Quanto de quem o canta, os numerosos
Versos; isso só louva, isso deseja.
Os troféus de Melcíades famosos
Temístoeles despertam só de inveja,
E diz que nada tanto o deleitava
Como a voz que seus feitos celebrava.
94
Trabalha por mostrar Vasco da Gama
Que essas navegações que o mundo canta
Não merecem tamanha glória e fama
Como a sua, que o céu e a terra espanta.
Si; mas aquele Herói, que estima e ama
Com dons, mercês, favores e honra tanta
A lira Mantuana, faz que soe
Eneias, e a Romana glória voe.
95
Dá a terra lusitana Cipiões,
Césares, Alexandros, e dá Augustos;
Mas não lhe dá contudo aqueles dois
Cuja falta os faz duros e robustos.
Octávio, entre as maiores opressões,
Compunha versos doutos e venustos.
Não dirá Fúlvia certo que é
mentira,
Quando a deixava António por Glafira,
96
Vai César, sojugando toda França,
E as armas não lhe impedem a ciência;
Mas, numa mão a pena e noutra a lança,
Igualava de Cícero a eloquência.
O que de Cipião se sabe e alcança,
É nas comédias grande experiência.
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.
97
Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega, ou Bárbara
nação,
Senão da Portuguesa tão somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque, quem não sabe arte, não na estima.
98
Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem
Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Eneias, nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez, e tão austeros,
Tão rudos, e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.
99
As Musas agradeça o nosso Gama
o Muito amor da Pátria, que as obriga
A dar aos seus na lira nome e fama
De toda a ilustro e bélica fadiga:
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Calíope não tem por tão amiga,
Nem as filhas do Tejo, que deixassem
As telas douro fino, e que o cantassem.
100
Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, é somente o pressuposto
Das Tágides gentis, e seu respeito.
Porém não deixe enfim de ter disposto
Ninguém a grandes obras sempre o peito,
Que por esta, ou por outra qualquer via,
Não perderá seu preço, e sua valia.
Canto Sexto
1
Não sabia em que modo festejasse
O Rei Pagão os fortes navegantes,
Para que as amizades alcançasse
Do Rei Cristão, das gentes tão possantes;
Pesa-lhe que tão longe o aposentasse
Das Européias terras abundantes
A ventura, que não no fez vizinho
Donde Hércules ao mar abriu caminho.
2
Com jogos, danças e outras alegrias,
A segundo a polícia Melindana,
Com usadas e ledas pescarias,
Com que a Lageia António alegra e engana
Este famoso Rei, todos os dias,
Festeja a companhia Lusitana,
Com banquetes, manjares desusados,
Com frutas, aves, carnes e pescados.
3
Mas vendo o Capitão que se detinha
Já mais do que devia, e o fresco vento
O convida que parta e tome asinha
Os pilotos da terra e mantimento,
Não se quer mais deter, que ainda tinha
Muito para cortar do salso argento;
Já do Pagão benigno se despede,
Que a todos amizade longa pede.
4
Pede-lhe mais que aquele porto seja
Sempre com suas frotas visitado,
Que nenhum outro bem maior deseja,
Que dar a tais barões seu reino e estado;
E que enquanto seu corpo o espírito reja,
Estará de contino aparelhado
A pôr a vida e reino totalmente
Por tão bom Rei, por tão sublime gente.
5
Outras palavras tais lhe respondia
O Capitão, o logo as velas dando,
Para as terras da Aurora se partia,
Que tanto tempo há já que vai buscando.
No piloto que leva não havia
Falsidade, mas antes vai mostrando
A navegação certa, e assim caminha
Já mais seguro do que dantes vinha.
6
As ondas navegavam do Oriente
Já nos mares da Índia, e enxergavam
Os tálamos do Sol, que nasce ardente;
Já quase seus desejos se acabavam.
Mas o mau de Tioneu, que na alma sente
As venturas, que então se aparelhavam
A gente Lusitana, delas dina,
Arde, morre, blasfema e desatina.
7
Via estar todo o Céu determinado
De fazer de Lisboa nova Roma;
Não no pode estorvar, que destinado
Está doutro poder que tudo doma.
Do Olimpo desce enfim desesperado;
Novo remédio em terra busca e toma:
Entra no úmido reino, e vai-se à corte
Daquele a quem o mar caiu em sorte.
8
No mais interno fundo das profundas
Cavernas altas, onde o mar se esconde,
Lá donde as ondas saem furibundas,
Quando às iras do vento o mar responde,
Netuno mora, e moram as jocundas
Nereidas, e outros Deuses do mar, onde
As águas campo deixam às cidades,
Que habitam estas úmidas deidades.
9
Descobre o fundo nunca descoberto
Das areias ali de prata fina;
Torres altas se vêem no campo aberto
Da transparente massa cristalina:
Quanto se chegam mais os olhos perto,
Tanto menos a vista determina
Se é cristal o que vê, se diamante,
Que assim se mostra claro e radiante.
10
As portas douro fino, e marchetadas
Do rico aljôfar que nas conchas nasce,
De escultura formosa estão lavradas,
Na qual o irado Baco a vista pasce;
E vê primeiro em cores variadas
Do velho Caos a tão confusa face;
Vêem-se os quatro elementos trasladados
Em diversos ofícios ocupados.
11
Ali sublime o Fogo estava em cima,
Que em nenhuma matéria se sustinha;
Daqui as coisas vivas sempre anima,
Depois que Prometeu furtado o tinha.
Logo após ele leve se sublima
O invisível Ar, que mais asinha
Tomou lugar, e nem por quente ou f rio,
Algum deixa no mundo estar vazio.
12
Estava a terra em montes revestida
De verdes ervas, e árvores floridas,
Dando pasto diverso e dando vida
As alimárias nela produzidas.
A clara forma ali estava esculpida
Das águas entre a terra desparzidas,
De pescados criando vários modos,
Com seu humor mantendo os corpos todos.
13
Noutra parte esculpida estava a guerra,
Que tiveram os Deuses com os Gigantes;
Está Tifeu debaixo da alta serra
De Etna, que as flamas lança crepitantes;
Esculpido se vê ferindo a terra
Netuno, quando as gentes ignorantes
Dele o cavalo houveram, e a primeira
De Minerva pacífica oliveira.
14
Pouca tardança faz Lieu irado
Na vista destas coisas, mas entrando
Nos paços de Netuno, que avisado
Da vinda sua, o estava já aguardando,
As portas o recebe, acompanhado
Das Ninfas, que se estão maravilhando
De ver que, cometendo tal caminho,
Entre no reino d'água o Rei do vinho.
15
"Ó Netuno, lhe disse, não te espantes
De Baco nos teus reinos receberes,
Porque também com os grandes e possantes
Mostra a Fortuna injusta seus poderes.
Manda chamar os Deuses do mar, antes
Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;
Verão da desventura grandes modos:
Ouçam todos o mal, que toca a todos."
16
Julgando já Netuno que seria
Estranho caso aquele, logo manda
Tritão, que chame os Deuses da água fria,
Que o mar habitam duma e doutra banda.
Tritão, que de ser filho se gloria
Do Rei e de Salácia veneranda,
Era mancebo grande, negro e feio,
Trombeta de seu pai, e seu correio.
17
Os cabelos da barba, e os que descem
Da cabeça nos ombros, todos eram
Uns limos prenhes d'água, e bem parecem
Que nunca brando pentem conheceram;
Nas pontas pendurados não falecem
Os negros misilhões, que ali se geram,
Na cabeça por gorra tinha posta
Uma muito grande casca de lagosta.
18
O corpo nu, e os membros genitais,
Por não ter ao nadar impedimento,
Mas porém de pequenos animais
Do mar todos cobertos cento e cento:
Camarões e cangrejos, e outros mais
Que recebem de Febe crescimento,
Ostras, e camarões do musgo sujos,
As costas com a casca os caramujos.
19
Na mão a grande concha retorcida
Que trazia, com força, já tocava;
A voz grande canora foi ouvida
Por todo o mar, que longe retumbava.
Já toda a companhia apercebida
Dos Deuses para os paços caminhava
Do Deus, que fez os muros de Dardânia,
Destruídos depois da Grega insânia.
20
Vinha o padre Oceano acompanhado
Dos filhos e das filhas que gerara;
Vem Nereu, que com Dóris foi casado,
Que todo o mar de Ninfas povoara;
O profeta Proteu, deixando o gado
Marítimo pascer pela água amara,
Ali veio também, mas já sabia
O que o padre Lieu no mar queria.
21
Vinha por outra parte a linda esposa
De Netuno, de Celo e Vesta filha,
Grave e Ieda no gesto, e tão formosa
Que se amansava o mar de maravilha.
Vestida uma camisa preciosa