WeRead Powered by ReaderPub
Os Lusíadas cover

Os Lusíadas

Chapter 8: Canto Sexto
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

An epic narrator celebrates the maritime exploits of a seafaring people, combining lyrical praise, heroic catalogues, and narrative episodes of oceanic voyages. Classical mythology and a council of gods intervene to debate fate while the poem recounts hazardous passages, battles, and territorial expansion. Interwoven are encomia to rulers and ancestral heroes, vivid descriptions of sea and sky, and reflective digressions on national identity, courage, and providence. The poem alternates grandiose, ceremonial language with intimate lyric moments, mapping collective memory through mythic interpretation and sustained admiration of exploratory achievement.

Qualquer nobre trabalha que em memória

Vença ou iguale os grandes já passados.

As invejas da ilustre e alheia história

Fazem mil vezes feitos sublimados.

Quem valerosas obras exercita,

Louvor alheio muito o esperta e incita.


93

Não tinha em tanto os feitos gloriosos

De Aquiles, Alexandro na peleja,

Quanto de quem o canta, os numerosos

Versos; isso só louva, isso deseja.

Os troféus de Melcíades famosos

Temístoeles despertam só de inveja,

E diz que nada tanto o deleitava

Como a voz que seus feitos celebrava.


94

Trabalha por mostrar Vasco da Gama

Que essas navegações que o mundo canta

Não merecem tamanha glória e fama

Como a sua, que o céu e a terra espanta.

Si; mas aquele Herói, que estima e ama

Com dons, mercês, favores e honra tanta

A lira Mantuana, faz que soe

Eneias, e a Romana glória voe.


95

Dá a terra lusitana Cipiões,

Césares, Alexandros, e dá Augustos;

Mas não lhe dá contudo aqueles dois

Cuja falta os faz duros e robustos.

Octávio, entre as maiores opressões,

Compunha versos doutos e venustos.

Não dirá Fúlvia certo que é mentira,

Quando a deixava António por Glafira,


96

Vai César, sojugando toda França,

E as armas não lhe impedem a ciência;

Mas, numa mão a pena e noutra a lança,

Igualava de Cícero a eloquência.

O que de Cipião se sabe e alcança,

É nas comédias grande experiência.

Lia Alexandro a Homero de maneira

Que sempre se lhe sabe à cabeceira.


97

Enfim, não houve forte capitão,

Que não fosse também douto e ciente,

Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,

Senão da Portuguesa tão somente.

Sem vergonha o não digo, que a razão

De algum não ser por versos excelente,

É não se ver prezado o verso e rima,

Porque, quem não sabe arte, não na estima.


98

Por isso, e não por falta de natura,

Não há também Virgílios nem Homeros;

Nem haverá, se este costume dura,

Pios Eneias, nem Aquiles feros.

Mas o pior de tudo é que a ventura

Tão ásperos os fez, e tão austeros,

Tão rudos, e de engenho tão remisso,

Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.


99

As Musas agradeça o nosso Gama

o Muito amor da Pátria, que as obriga

A dar aos seus na lira nome e fama

De toda a ilustro e bélica fadiga:

Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,

Calíope não tem por tão amiga,

Nem as filhas do Tejo, que deixassem

As telas douro fino, e que o cantassem.


100

Porque o amor fraterno e puro gosto

De dar a todo o Lusitano feito

Seu louvor, é somente o pressuposto

Das Tágides gentis, e seu respeito.

Porém não deixe enfim de ter disposto

Ninguém a grandes obras sempre o peito,

Que por esta, ou por outra qualquer via,

Não perderá seu preço, e sua valia.


Canto Sexto


1

Não sabia em que modo festejasse

O Rei Pagão os fortes navegantes,

Para que as amizades alcançasse

Do Rei Cristão, das gentes tão possantes;

Pesa-lhe que tão longe o aposentasse

Das Européias terras abundantes

A ventura, que não no fez vizinho

Donde Hércules ao mar abriu caminho.


2

Com jogos, danças e outras alegrias,

A segundo a polícia Melindana,

Com usadas e ledas pescarias,

Com que a Lageia António alegra e engana

Este famoso Rei, todos os dias,

Festeja a companhia Lusitana,

Com banquetes, manjares desusados,

Com frutas, aves, carnes e pescados.


3

Mas vendo o Capitão que se detinha

Já mais do que devia, e o fresco vento

O convida que parta e tome asinha

Os pilotos da terra e mantimento,

Não se quer mais deter, que ainda tinha

Muito para cortar do salso argento;

Já do Pagão benigno se despede,

Que a todos amizade longa pede.


4

Pede-lhe mais que aquele porto seja

Sempre com suas frotas visitado,

Que nenhum outro bem maior deseja,

Que dar a tais barões seu reino e estado;

E que enquanto seu corpo o espírito reja,

Estará de contino aparelhado

A pôr a vida e reino totalmente

Por tão bom Rei, por tão sublime gente.


5

Outras palavras tais lhe respondia

O Capitão, o logo as velas dando,

Para as terras da Aurora se partia,

Que tanto tempo há já que vai buscando.

No piloto que leva não havia

Falsidade, mas antes vai mostrando

A navegação certa, e assim caminha

Já mais seguro do que dantes vinha.


6

As ondas navegavam do Oriente

Já nos mares da Índia, e enxergavam

Os tálamos do Sol, que nasce ardente;

Já quase seus desejos se acabavam.

Mas o mau de Tioneu, que na alma sente

As venturas, que então se aparelhavam

A gente Lusitana, delas dina,

Arde, morre, blasfema e desatina.


7

Via estar todo o Céu determinado

De fazer de Lisboa nova Roma;

Não no pode estorvar, que destinado

Está doutro poder que tudo doma.

Do Olimpo desce enfim desesperado;

Novo remédio em terra busca e toma:

Entra no úmido reino, e vai-se à corte

Daquele a quem o mar caiu em sorte.


8

No mais interno fundo das profundas

Cavernas altas, onde o mar se esconde,

Lá donde as ondas saem furibundas,

Quando às iras do vento o mar responde,

Netuno mora, e moram as jocundas

Nereidas, e outros Deuses do mar, onde

As águas campo deixam às cidades,

Que habitam estas úmidas deidades.


9

Descobre o fundo nunca descoberto

Das areias ali de prata fina;

Torres altas se vêem no campo aberto

Da transparente massa cristalina:

Quanto se chegam mais os olhos perto,

Tanto menos a vista determina

Se é cristal o que vê, se diamante,

Que assim se mostra claro e radiante.


10

As portas douro fino, e marchetadas

Do rico aljôfar que nas conchas nasce,

De escultura formosa estão lavradas,

Na qual o irado Baco a vista pasce;

E vê primeiro em cores variadas

Do velho Caos a tão confusa face;

Vêem-se os quatro elementos trasladados

Em diversos ofícios ocupados.


11

Ali sublime o Fogo estava em cima,

Que em nenhuma matéria se sustinha;

Daqui as coisas vivas sempre anima,

Depois que Prometeu furtado o tinha.

Logo após ele leve se sublima

O invisível Ar, que mais asinha

Tomou lugar, e nem por quente ou f rio,

Algum deixa no mundo estar vazio.


12

Estava a terra em montes revestida

De verdes ervas, e árvores floridas,

Dando pasto diverso e dando vida

As alimárias nela produzidas.

A clara forma ali estava esculpida

Das águas entre a terra desparzidas,

De pescados criando vários modos,

Com seu humor mantendo os corpos todos.


13

Noutra parte esculpida estava a guerra,

Que tiveram os Deuses com os Gigantes;

Está Tifeu debaixo da alta serra

De Etna, que as flamas lança crepitantes;

Esculpido se vê ferindo a terra

Netuno, quando as gentes ignorantes

Dele o cavalo houveram, e a primeira

De Minerva pacífica oliveira.


14

Pouca tardança faz Lieu irado

Na vista destas coisas, mas entrando

Nos paços de Netuno, que avisado

Da vinda sua, o estava já aguardando,

As portas o recebe, acompanhado

Das Ninfas, que se estão maravilhando

De ver que, cometendo tal caminho,

Entre no reino d'água o Rei do vinho.


15

"Ó Netuno, lhe disse, não te espantes

De Baco nos teus reinos receberes,

Porque também com os grandes e possantes

Mostra a Fortuna injusta seus poderes.

Manda chamar os Deuses do mar, antes

Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;

Verão da desventura grandes modos:

Ouçam todos o mal, que toca a todos."


16

Julgando já Netuno que seria

Estranho caso aquele, logo manda

Tritão, que chame os Deuses da água fria,

Que o mar habitam duma e doutra banda.

Tritão, que de ser filho se gloria

Do Rei e de Salácia veneranda,

Era mancebo grande, negro e feio,

Trombeta de seu pai, e seu correio.


17

Os cabelos da barba, e os que descem

Da cabeça nos ombros, todos eram

Uns limos prenhes d'água, e bem parecem

Que nunca brando pentem conheceram;

Nas pontas pendurados não falecem

Os negros misilhões, que ali se geram,

Na cabeça por gorra tinha posta

Uma muito grande casca de lagosta.


18

O corpo nu, e os membros genitais,

Por não ter ao nadar impedimento,

Mas porém de pequenos animais

Do mar todos cobertos cento e cento:

Camarões e cangrejos, e outros mais

Que recebem de Febe crescimento,

Ostras, e camarões do musgo sujos,

As costas com a casca os caramujos.


19

Na mão a grande concha retorcida

Que trazia, com força, já tocava;

A voz grande canora foi ouvida

Por todo o mar, que longe retumbava.

Já toda a companhia apercebida

Dos Deuses para os paços caminhava

Do Deus, que fez os muros de Dardânia,

Destruídos depois da Grega insânia.


20

Vinha o padre Oceano acompanhado

Dos filhos e das filhas que gerara;

Vem Nereu, que com Dóris foi casado,

Que todo o mar de Ninfas povoara;

O profeta Proteu, deixando o gado

Marítimo pascer pela água amara,

Ali veio também, mas já sabia

O que o padre Lieu no mar queria.


21

Vinha por outra parte a linda esposa

De Netuno, de Celo e Vesta filha,

Grave e Ieda no gesto, e tão formosa

Que se amansava o mar de maravilha.

Vestida uma camisa preciosa