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Os Lusíadas

Chapter 9: Canto Sétimo
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About This Book

An epic narrator celebrates the maritime exploits of a seafaring people, combining lyrical praise, heroic catalogues, and narrative episodes of oceanic voyages. Classical mythology and a council of gods intervene to debate fate while the poem recounts hazardous passages, battles, and territorial expansion. Interwoven are encomia to rulers and ancestral heroes, vivid descriptions of sea and sky, and reflective digressions on national identity, courage, and providence. The poem alternates grandiose, ceremonial language with intimate lyric moments, mapping collective memory through mythic interpretation and sustained admiration of exploratory achievement.

Vendo ora o mar até o inferno aberto,

Ora com nova fúria ao céu subia,

Confuso de temor, da vida incerto,

Onde nenhum remédio lhe valia,

Chama aquele remédio santo é forte,

Que o impossível pode, desta sorte:


81

"Divina Guarda, angélica, celeste,

Que os céus, o mar e terra senhoreias;

Tu, que a todo Israel refúgio deste

Por metade das águas Eritreias;

Tu, que livraste Paulo e o defendeste

Das Sirtes arenosas e ondas feias,

E guardaste com os filhos o segundo

Povoador do alagado e vácuo mundo;


82

"Se tenho novos modos perigosos

Doutra Cila e Caríbdis já passados,

Outras Sirtes e baixos arenosos,

Outros Acroceráunios infamados,

No fim de tantos casos trabalhosos,

Por que somos de ti desamparados,

Se este nosso trabalho não te ofende,

Mas antes teu serviço só pretende?


83

"Ó ditosos aqueles que puderam

Entre as agudas lanças Africanas

Morrer, enquanto fortes sostiveram

A santa Fé nas terras Mauritanas!

De quem feitos ilustres se souberam,

De quem ficam memórias soberanas,

De quem se ganha a vida com perdê-la,

Doce fazendo a morte as honras dela!"


84

Assim dizendo, os ventos que lutavam

Como touros indómitos bramando,

Mais e mais a tormenta acrescentavam

Pela miúda enxárcia assoviando.

Relâmpados medonhos não cessavam,

Feros trovões, que vêm representando

Cair o céu dos eixos sobre a terra,

Consigo os elementos terem guerra.


85

Mas já a amorosa estrela cintilava

Diante do Sol claro, no Horizonte,

Mensageira do dia, e visitava

A terra e o largo mar, com leda fronte.

A densa que nos céus a governava,

De quem foge o ensífero Orionte,

Tanto que o mar e a cara armada vira,

Tocada junto foi de medo e de ira.


86

"Estas obras de Baco são, por certo,

Disse; mas não será que avante leve

Tão danada tenção, que descoberto

Me será sempre o mil a que se atreve."

Isto dizendo, desce ao mar aberto,

No caminho gastando espaço breve,

Enquanto manda as Ninfas amorosas

Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.


87

Grinaldas manda pôr de várias cores

Sobre cabelo; louros à porfia.

Quem não dirá que nascem roxas flores

Sobre ouro natural, que Amor enfia?

Abrandar determina, por amores,

Dos ventos a nojosa companhia,

Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,

Que mais formosas vinham que as estrelas.


88

Assim foi; porque, tanto que chegaram

A vista delas, logo lhe falecem

As forças com que dantes pelejaram,

E já como rendidos lhe obedecem.

Os pés e mãos parece que lhe ataram

Os cabelos que os raios escurecem.

A Bóreas, que do peito mais queria,

Assim disse a belíssima Oritia:


89

"Não creias, fero Bóreas, que te creio

Que me tiveste nunca amor constante,

Que brandura é de amor mais certo arreio,

E não convém furor a firme amante.

Se já não pões a tanta insânia freio,

Não esperes de mi, daqui em diante,

Que possa mais amar-te, mas temer-te;

Que amor contigo em medo se converte."


90

Assim mesmo a formosa Galateia

Dizia ao fero Noto, que bem sabe

Que dias há que em vê-la se recreia,

E bem crê que com ele tudo acabe.

Não sabe o bravo tanto bem se o creia,

Que o coração no peito lhe não cabe,

De contente de ver que a dama o manda,

Pouco cuida que faz, se logo abranda.


91

Desta maneira as outras amansavam

Subitamente os outros amadores;

E logo à linda Vénus se entregavam,

Amansadas as iras e os furores.

Ela lhe prometeu, vendo que amavam,

Sempiterno favor em seus amores,

Nas belas mãos tomando-lhe homenagem

De lhe serem leais esta viagem.


92

Já a manhã clara dava nos outeiros

Por onde o Ganges murmurando soa,

Quando da celsa gávea os marinheiros

Enxergaram terra alta pela proa.

Já fora de tormenta, e dos primeiros

Mares, o temor vão do peito voa.

Disse alegre o piloto Melindano:

"Terra é de Calecu, se não me engano.


93

"Esta é por certo a terra que buscais

Da verdadeira Índia, que aparece;

E se do mundo mais não desejais,

Vosso trabalho longo aqui fenece."

Sofrer aqui não pode o Gama mais,

De ledo em ver que a terra se conhece:

Os geolhos no chão, as mãos ao céu,

A mercê grande a Deus agradeceu.


94

As graças a Deus dava, e razão tinha,

Que não somente a terra lhe mostrava,

Que com tanto temor buscando vinha,

Por quem tanto trabalho experimentava;

Mas via-se livrado tão asinha

Da morte, que no mar lhe aparelhava

O vento duro, fervido e medonho,

Como quem despertou de horrendo sonho.


95

Por meio destes hórridos perigos,

Destes trabalhos graves e temores,

Alcançam os que são de fama amigos

As honras imortais e graus maiores:

Não encostados sempre nos antigos

Troncos nobres de seus antecessores;

Não nos leitos dourados, entre os finos

Animais de Moscóvia zebelinos;


96

Não com os manjares novos e esquisitos,

Não com os passeios moles e ociosos,

Não com os vários deleites e infinitos,

Que afeminam os peitos generosos,

Não com os nunca vencidos apetitos

Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,

Que não sofre a nenhum que o passo mude

Para alguma obra heróica de virtude;


97

Mas com buscar com o seu forçoso braço

As honras, que ele chame próprias suas;

Vigiando, e vestindo o forjado aço,

Sofrendo tempestades e ondas cruas;

Vencendo os torpes frios no regaço

Do Sul e regiões de abrigo nuas;

Engolindo o corrupto mantimento,

Temperado com um árduo sofrimento;


98

E com forçar o rosto, que se enfia,

A parecer seguro, ledo, inteiro,

Para o pelouro ardente, que assovia

E leva a perna ou braço ao companheiro.

Destarte, o peito um calo honroso cria,

Desprezador das honras e dinheiro,

Das honras e dinheiro, que a ventura

Forjou, e não virtude justa e dura.


99

Destarte se esclarece o entendimento,

Que experiências fazem repousado,

E fica vendo, corno de alto assento,

O baixo trato humano embaraçado.

Este, onde tiver força o regimento

Direito, e não de afeitos ocupado,

Subirá (como deve) a ilustre mando,

Contra vontade sua, e não rogando.


Canto Sétimo


1

Já se viam chegados junto à terra,

Que desejada já de tantos fora,

Que entre as correntes Indicas se encerra,

E o Ganges, que no céu terreno mora.

Ora, sus, gente forte, que na guerra

Quereis levar a palma vencedora,

Já sois chegados, já tendes diante

A terra de riquezas abundante.


2

A vós, ó geração de Luso, digo,

Que tão pequena parte sois no inundo;

Não digo ainda no mundo, mas no amigo

Curral de quem governa o céu rotundo;

Vós, a quem não somente algum perigo

Estorva conquistar o povo imundo,

Mas nem cobiça, ou pouca obediência

Da Madre, que nos céus está em essência;


3

Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,

Que o fraco poder vosso não pesais;

Vós, que à custa de vossas várias mortes

A lei da vida eterna dilatais:

Assim do céu deitadas são as sortes,

Que vós, por muito poucos que sejais,

Muito façais na santa Cristandade:

Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!


4

Vede-los Alemães, soberbo gado,

Que por tão largos campos se apascenta,

Do sucessor de Pedro, rebelado,

Novo pastor, e nova seita inventa:

Vede-lo em feias guerras ocupado,

Que ainda com o cego error se não contenta,

Não contra o soberbíssimo Otomano,

Mas por sair do jugo soberano.


5

Vede-lo duro Inglês, que se nomeia

Rei da velha e santíssima cidade,

Que o torpe Ismaelita senhoreia,

(Quem viu honra tão longe da verdade?)

Entre as Boreais neves se recreia,

Nova maneira faz de Cristandade:

Para os de Cristo tem a espada nua,

Não por tomar a terra que era sua.


6

Guarda-lhe por entanto um falso Rei

A cidade Hierosólima terrestre,

Enquanto ele não guarda a santa lei

Da cidade Hierosólima celeste.

Pois de ti, Galo indigno, que direi?

Que o nome Cristianíssimo quiseste,

Não para defendê-lo, nem guardá-lo,

Mas para ser contra ele, e derrubá-lo!


7

Achas que tens direito em senhorios

De Cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,

E não contra o Cinífio e Nilo, rios

Inimigos do antigo nome santo?

Ali se hão de provar da espada os fios

Em quem quer reprovar da Igreja o canto.

De Carlos, de Luís, o nome e a terra

Herdaste, e as causas não da justa guerra?


8

Pois que direi daqueles que em delícias,

Que o vil ócio no mundo traz consigo,

Gastam as vidas, logram as divícias,

Esquecidos de seu valor antigo?

Nascem da tirania inimicícias,

Que o povo forte tem de si inimigo:

Contigo, Itália, falo, já submersa

Em Vícios mil, e de ti mesma adversa.


9

Ó míseros Cristãos, pela ventura,

Sois os dentes de Cadmo desparzidos,

Que uns aos outros se dão a morte dura,

Sendo todos de um ventre produzidos?

Não vedes a divina sepultura

Possuída de cães, que sempre unidos

Vos vêm tomar a vossa antiga terra,

Fazendo-se famosos pela guerra?


10

Vedes que têm por uso e por decreto,

Do qual são tão inteiros observantes,

Ajuntarem o exército inquieto

Contra os povos que são de Cristo amantes;

Entre vós nunca deixa a fera Aleto