«E entre duas costellas, no
decotte,
Tinha um bouquet de rosas!»
Tinha um bouquet de rosas!»
E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da Idéa nova, o paladino do Realismo, triumphara, cascalhara, denunciando logo n'essa simples estrophe dois erros de grammatica, um verso errado, e uma imagem roubada a Beaudelaire!
Então Ega, que bebera um sobre outro dois calices de cognac, tornou-se muito provocante, muito pessoal.
—Eu bem sei por que tu fallas, Alencar, dizia elle agora. E o motivo não é nobre. É por causa do epigramma que elle te fez:
O Alencar d'Alemquer,
Acceso com a primavera...
Acceso com a primavera...
—Ah, vocês nunca ouviram isto? continuou elle voltando-se, chamando os outros. É delicioso, é das melhores cousas do Craveiro. Nunca ouviste, Carlos? É sublime, sobre tudo esta estrophe:
O Alencar d'Alemquer
Que quer? Na verde campina
Não colhe a tenra bonina
Nem consulta o malmequer...
Que quer? Na verde campina
O Alencar d'Alemquer
Que quer? Na verde campina
Não colhe a tenra bonina
Nem consulta o malmequer...
Que quer? Na verde campina
O Alencar d'Alemquer
Quer menina!
Eu não me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que é a verdadeira critica de todo esse lyrismo pandilha:
O Alencar d'Alemquer
Quer cacete!
Alencar passou a mão pela testa livida, e com o olho cavo fito no outro, a voz rouca e lenta:
—Olha, João da Ega, deixa-me dizer-te uma cousa, meu rapaz... Todos esses epigrammas, esses dichotes lorpas do rachitico e dos que o admiram, passam-me pelos pés como um enxurro de cloaca... O que faço é arregaçar as calças! Arregaço as calças... Mais nada, meu Ega. Arregaço as calças!
E arregaçou-as realmente, mostrando a ceroula, n'um gesto brusco e de delirio.
—Pois quando encontrares enchurros d'esses, gritou-lhe o Ega, agacha-te e bebe-os! Dão-te sangue e força ao lyrismo!
Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar:
—Eu, se esse Craveirete não fosse um rachitico, talvez me entretivesse a rolal-o aos pontapés por esse Chiado abaixo, a elle e á versalhada, a essa lambisgonhice excrementicia com que seringou Satanaz! E depois de o besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o craneo!
—Não se esborracham assim craneos, disse de lá o Ega n'um tom frio de troça.
Alencar voltou para elle uma face medonha. A colera e o cognac incendiavam-lhe o olhar; todo elle tremia:
—Esborrachava-lh'o, sim, esborrachava, João da Ega! Esborrachava-lh'o assim, olha, assim mesmo!—Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a sala, fazendo tilintar crystaes e louças.—Mas não quero, rapazes! Dentro d'aquelle craneo só ha excremento, vomito, puz, materia verde, e se lh'o esborrachasse, por que lh'o esborrachava, rapazes, todo o miollo podre sahia, empestava a cidade, tinhamos o cholera! Irra! Tinhamos a peste!
Carlos, vendo-o tão excitado, tornou-lhe o braço, quiz calmal-o:
—Então, Alencar! Que tolice... Isso vale lá a pena!...
O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o ultimo desabafo:
—Com effeito, não vale a pena ninguem zangar-se por causa d'esse Craveirote da Idéa nova, esse caloteiro, que se não lembra que a porca da irmã é uma meretriz de doze vintens em Marco de Canavezes!
—Não, isso agora é de mais, pulha! gritou Ega, arremeçando-se, de punhos fechados.
Cohen e Damaso, assustados, agarraram-n'o. Carlos puchara logo para o vão da janella o Alencar que se debatia, com os olhos chammejantes, a gravata solta. Tinha cahido uma cadeira; a correcta sala, com os seus divans de marroquim, os seus ramos de camelias, tomava um ar de taverna, n'uma bulha de faias, entre a fumaraça de cigarros. Damaso, muito pallido, quasi sem voz, ía d'um a outro:
—Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no Hotel Central!...
E, d'entre os braços do Cohen, Ega berrava, já rouco:
—Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! Não, isso hei de esbofeteal-o!... A D. Anna Craveiro, uma santa!... Esse calumniador... Não, isso hei de esganal-o!...
Craft, no entanto, impassivel, bebia aos golos a sua chartreuse. Já presenceára, mais vezes, duas litteraturas rivaes engalphinhando-se, rolando no chão, n'um latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a irmã do outro fazia parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso o deixava indifferente, com um sorriso de desdem. Além d'isso sabia que a reconciliação não tardaria, ardente e com abraços. E não tardou. Alencar sahiu do vão da janella, atraz de Carlos, abotoando a sobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da sala, Cohen fallava ao Ega com auctoridade, severo, á maneira d'um pae: depois voltou-se, ergueu a mão, ergueu a voz, disse que alli todos eram cavalheiros: e como homens de talento e de coração fidalgo os dois deviam abraçar-se...
—Vá, um shake-hands, Ega, faça isso por mim!... Alencar, vamos, peço-lh'o eu!
O auctor de Elvira deu um passo, o auctor das Memorias d'um Atomo estendeu a mão: mas o primeiro aperto foi gôche e molle. Então Alencar, generoso e rasgado, exclamou que entre elle e o Ega não devia ficar uma nuvem! Tinha-se excedido... Fôra o seu desgraçado genio, esse calor de sangue, que durante toda a existencia só lhe trouxera lagrimas! E alli declarava bem alto que Anna Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em Marco de Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como mãe, Anna Craveiro era impeccavel. E reconhecia, do fundo d'alma, que o Craveiro tinha carradas de talento!...
Encheu um copo de Champagne, ergueu-o alto, diante do Ega, como um calice de altar:
—Á tua, João!
Ega, generoso tambem, respondeu:
—Á tua, Thomaz!
Abraçaram-se. Alencar jurou que ainda na vespera, em casa de D. Joanna Coutinho, elle dissera que não conhecia ninguem mais scintillante que o Ega! Ega affirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do Alencar, uma tão bella veia lyrica. Apertaram-se outra vez, com palmadas pelos hombros. Trataram-se de irmãos na arte, trataram-se de genios!...
—São extraordinarios, disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapéo. Desorganisam-me, preciso ar!...
A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais cognac. Depois Cohen sahiu levando o Ega. Damaso e Alencar desceram com Carlos—que ia recolher a pé pelo Aterro.
Á porta, o poeta parou com solemnidade.
—Filhos, exclamou elle tirando o chapéo e refrescando largamente a fronte, então? Parece-me que me portei como um gentleman!
Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade...
—Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que é ser gentleman! E agora vamos lá por esse Aterro fóra... Mas deixa-me ir alli primeiro comprar um pacote de tabaco...
—Que typo! exclamou Damaso, vendo-o affastar-se. E a cousa ía-se pondo feia...
E immediatamente, sem transição, começou a fazer elogios a Carlos. O sr. Maia não imaginava ha quanto tempo elle desejava conhecel-o!
—Oh senhor...
—Creia v. ex.a... Eu não sou de sabujices... Mas pode v. ex.a perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: v. ex.a é a cousa melhor que ha em Lisboa!
Carlos, baixava a cabeça, mordendo o riso. Damaso, repetia, do fundo do peito.
—Olhe que isto é sincero, sr. Maia! Acredite v. ex.a que isto é do coração!
Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera alli, n'aquelle moço gordo e bochechudo, sem o saber, uma adoração muda e profunda; o proprio verniz dos seus sapatos, a côr das suas luvas eram para o Damaso motivo de veneração, e tão importantes como principios. Considerava Carlos um typo supremo de chic, do seu querido chic, um Brummel, um d'Orsay, um Morny,—uma «d'estas cousas que só se vêem lá fóra», como elle dizia arregalando os olhos. N'essa tarde sabendo que vinha jantar com o Maia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho experimentando gravatas, perfumara-se como para os braços d'uma mulher;—e por causa de Carlos mandara estacionar alli o coupé, ás dez horas, com o cocheiro de ramo ao peito.
—Então essa senhora brazileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera dous passos, olhava uma janella allumiada no segundo andar.
Damaso seguiu-lhe o olhar.
—Vive lá do outro lado. Estão aqui ha quinze dias... Gente chic... E ella é de appetecer, v. ex.a reparou? Eu a bordo atirei-me... E ella dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar aqui, soirée acolá, umas aventurasitas... Não tenho podido cá vir, deixei-lhes só bilhetes; mas trago-a d'olho, que ella demora-se... Talvez venha cá ámanhã, estou cá agora a sentir umas cocegas... E se me pilho só com ella, zás, ferro-lhe logo um beijo! Que eu cá, não sei se v. ex.a é a mesma cousa, mas eu cá, com mulheres, a minha theoria é esta: attracão! Eu cá, é logo: attracão!
N'esse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Damaso despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a adresse da Morelli, a segunda dama de S. Carlos.
—Bom rapaz, este Damaso, dizia Alencar, travando de braço de Carlos, ao seguirem ambos pelo Aterro. É lá muito dos Cohens, muito querido na sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou muito teu pae; e a mim tambem. Mas elle assigna Salcede; talvez nome da mãe; ou talvez inventado. Bom rapaz... O pae era um velhaco! Parece que estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e do grande: «Silva judeu, dinheiro, e a rôdo!»... Outros tempos, meu Carlos, grandes tempos. Tempos de gente!
E então por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gaz dormente luzindo em fila d'enterro, Alencar foi fallando d'esses «grandes tempos» da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, atravéz das suas phrases de lyrico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado d'esse mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou rebentando pilecas de sejes em galopadas para Cintra. Cintra era então um ninho de amores, e sob as suas romanticas ramagens as fidalgas abandonavam-se aos braços dos poetas. Ellas eram Elviras, elles eram Antonys. O dinheiro abundava; a côrte era alegre; a Regeneração litterata e galante ia engrandecer o paiz, bello jardim da Europa; os bachareis chegavam de Coimbra, frementes de eloquencia; os ministros da corôa recitavam ao piano; o mesmo sopro lyrico inchava as odes e os projectos de lei...
—Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos.
—Era outra cousa, meu Carlos! Vivia-se! Não existiriam esses ares scientificos, toda essa palhada philosophica, esses badamecos positivistas... Mas havia coração, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo n'essas cousas da politica... Vê esse chiqueiro agora ahi, essa malta de bandalhos... N'esse tempo ía-se alli á camara e sentia-se a inspiração, sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeças!... E depois, menino, havia muitissimo boas mulheres.
Os hombros descahiam-lhe na saudade d'esse mundo perdido. E parecia mais lugubre, com a sua grenha d'inspirado sahindo-lhe de sob as abas largas do chapéo velho, a sobrecasaca coçada e mal feita collando-se-lhe lamentavelmente ás ilhargas.
Um momento caminharam em silencio. Depois, na rua das Janellas Verdes, o Alencar quiz refrescar. Entraram n'uma pequena venda, onde a mancha amarella d'um candieiro de petroleo destacava n'uma penumbra de subterraneo, allumiando o zinco humido do balcão, garrafas nas prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos queixos. Alencar parecia intimo no estabelecimento: apenas soube que a sr.a Candida estava com dôr de dentes, aconselhou logo remedios, familiar, descido das nuvens romanticas, com os cotovellos sobre o balcão. E quando Carlos quiz pagar a canna branca zangou-se, bateu a sua placa de dois tostões sobre o zinco polido, exclamou, com nobreza:
—Eu é que faço a honra da bodega, meu Carlos! Nos palacios os outros pagarão... Cá na taberna pago eu!
Á porta tomou o braço de Carlos. Depois d'alguns passos lentos no silencio da rua, parou de novo, e murmurou n'uma voz vaga, contemplativa, como repassada da vasta solemnidade da noite:
—Aquella Rachel Cohen é divinamente bella, menino! Tu conhecel'a?
—De vista.
—Não te faz lembrar uma mulher da Biblia? Não digo lá uma d'essas viragos, uma Judith, uma Dalila... Mas um d'esses lyrios poeticos da Biblia... É seraphica!
Era agora a paixão platonica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz...
—Tu viste ha tempos, no Diario Nacional, os versos que eu lhe fiz?
«Abril chegou! Sê
minha»
Dizia o vento á rosa.
Dizia o vento á rosa.
Não me sahiu mau! Aqui ha uma maliciasinha: Abril chegou, sê minha... Mas logo: dizia o vento á rosa. Comprehendes? Calhou bem este effeito. Mas não imagines lá outras cousas, ou que lhe faço a côrte... Basta ser a mulher do Cohen, um amigo, um irmão... E a Rachel, para mim, coitadinha, é como uma irmã... Mas é divina. Aquelles olhos, filho, um velludo liquido!...
Tirou o chapeu, refrescou a fronte vasta. Depois n'outro tom, e como a custo:
—Aquelle Ega tem muito talento... Vae lá muito aos Cohens... A Rachel acha-lhe graça...
Carlos parára, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar á severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz.
—Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou andando por aqui para a minha toca. E quando quizeres, filho, lá me tens na rua do Carvalho, 52, 3.º andar. O predio é meu, mas eu occupo o terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido trepando... A unica cousa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, é de andares...
Teve um gesto, como desdenhando essas miserias.
—E has de ir lá jantar um dia. Não te posso dar um banquete, mas has de ter uma sopa e um assado... O meu Matheus, um preto, (um amigo!) que me serve ha muito anno, quando ha que cosinhar, sabe cosinhar! Fez muito jantar a teu pae, ao meu pobre Pedro... Que aquillo foi casa de alegria, meu rapaz. Dei lá cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita d'essa canalha que hoje por ahi trota em coupé da companhia e de correio atraz... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho...
—Isso são imaginações, disse Carlos com amisade.
—Não são, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. Não são. Tu não sabes a minha vida. Tenho soffrido muito repellão, rapaz. E não o merecia! Palavra, que o não merecia.
Agarrou o braço de Carlos, e com a voz abalada:
—Olha que esses homens que por ahi figuram embebedavam-se comigo, emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora são ministros, são embaixadores, são personagens, são o diabo. Pois offereceram-te elles um bocado do bolo agora que o teem na mão? Não. Nem a mim. Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. E que diabo, eu não queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma embaixada... Mas ahi alguma cousa n'uma secretaria... Nem um chavelho! Emfim, ainda há para o bocado do pão, e para a meia onça do tabaco... Mas esta ingratidão tem-me feito cabellos brancos... Pois não te quero massar mais, e que Deus te faça feliz como tu mereces, meu Carlos!
—Tu não queres subir um bocado, Alencar?
Tanta franqueza enterneceu o poeta.
—Obrigado, rapaz, disse elle, abraçando Carlos. E agradeço-te isso, porque sei que vem do coração... Todos vocês teem coração... Já teu pae o tinha, e largo, e grande como o d'um leão! E agora crê uma cousa: é que tens aqui um amigo. Isto não é palavriado, isto vem de dentro... Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto?
Carlos acceitou logo, como um presente do ceu.
—Então ahi tens um charuto, filho! exclamou Alencar com enthusiasmo.
E aquelle charuto dado a um homem tão rico, ao dono do Ramalhete, fazia-o por um momento voltar aos tempos em que n'esse Marrare elle estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo triste. Interessou-se então pelo charuto. Accendeu elle mesmo um phosphoro. Verificou se ficava bem acceso. E que tal, charuto rasoavel? Carlos achava um excellente charuto!
—Pois ainda bem que te dei um bom charuto!
Abraçou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando elle emfim se affastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de fado.
Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do Alencar estirado n'uma chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma chavena de chá, ficou pensando n'esse estranho passado que lhe evocara o velho lyrico...
E era sympathico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao fallar de Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores d'então, elle evitara pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro fóra, estivera para lhe dizer:—pódes fallar da mamã, amigo Alencar, que eu sei perfeitamente que ella fugiu com um italiano!
E isto fêl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentavel historia lhe fôra revelada, em Coimbra, n'uma noite de troça, quasi grotescamente. Por que o avô, obdecendo á carta testamentaria de Pedro, contara-lhe um romance decente: um casamento de paixão, incompatibilidades de naturezas, uma separação cortez, depois a retirada da mamã com a filha para a França, onde tinham morrido ambas. Mais nada. A morte de seu pae fôra-lhe apresentada sempre como o brusco remate d'uma longa nevrose...
Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega muito bebedo, e n'um accesso de idealismo, lançara-se n'um paradoxo tremendo, condemnando a honestidade das mulheres como origem da decadencia das raças: e dava por prova os bastardos, sempre intelligentes, bravos, gloriosos! Elle, Ega, teria orgulho se sua mãe, sua propria mãe, em logar de ser a santa burgueza que resava o terço á lareira, fosse como a mãe de Carlos, uma inspirada, que por amor d'um exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas não poude interrogar o Ega, que já taramellava, agoniado, e que não tardou a vomitar-lhe ignobilmente nos braços. Teve de o arrastar á casa das Seixas, despil-o, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, até que o deixou abraçado ao travesseiro, babando-se, balbuciando—«que queria ser bastardo, que queria que a mamã fosse uma marafona!...»
E elle mal podera dormir essa noite, com a idéa d'aquella mãe, tão outra do que lhe haviam contado, fugindo nos braços d'um desterrado—um polaco talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe, pela sua grande amisade, a verdade toda...
Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenço que tinha amarrado na cabeça com pannos de agua sedativa: e não achava uma palavra, coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco, tranquillisou-o. Não vinha alli offendido, vinha alli curioso! Tinham-lhe occultado um episodio extraordinario da sua gente, que diabo, queria sabel-o! Havia romance? Para alli o romance!
Ega, então, lá ganhou animo, lá balbuciou a sua historia—a que ouvira ao tio Ega—a paixão de Maria por um principe, a fuga, o longo silencio d'annos que se fizera sobre ella...
Justamente as ferias chegavam. Apenas em S.ta Olavia, Carlos contou ao avô a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquella revelação vinda entre arrotos. Pobre avô! Um momento nem poude fallar—e a voz por fim veiu-lhe tão debil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse morrendo o coração. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance todo até áquella tarde em que Pedro lhe apparecera, livido, coberto de lama, a cahir-lhe nos braços, chorando a sua dôr com a fraqueza d'uma creança.—E o desfecho d'esse amor culpado, accrescentara o avô, fôra a morte da mãe em Vienna d'Austria, e a morte da pequenita, da neta que elle nunca vira, e que a Monforte levara... E eis ahi tudo. E assim, aquella vergonha domestica estava agora enterrada, alli, no jazigo de S.ta Olavia, e em duas sepulturas distantes, em paiz estrangeiro...
Carlos recordava-se bem que n'essa tarde, depois da melancolica conversa com o avô, devia elle experimentar uma egoa ingleza: e ao jantar não se fallou senão da egoa que se chamava Sultana. E a verdade era que d'ahi a dias tinha esquecido a mamã. Nem lhe era possivel sentir por esta tragedia senão um interesse vago e como litterario. Isso passara-se havia vinte e tantos annos, n'uma sociedade quasi desapparecida. Era como o episodio historico de uma velha chronica de familia, um antepassado morto em Alcacer-Kebir, ou uma das suas avós dormindo n'um leito real. Aquillo não lhe dera uma lagrima, não lhe pozera um rubor na face. De certo, prefiriria poder orgulhar-se de sua mãe, como d'uma rara e nobre flôr de honra: mas não podia ficar toda a vida a amargurar-se com os seus erros. E porque? A sua honra d'elle não dependia dos impulsos falsos ou torpes que tivera o coração d'ella. Peccara, morrera, acabou-se. Restava, sim, aquella idéa do pae, findando n'uma poça de sangue, no desespero d'essa traição. Mas não conhecera seu pae: tudo o que possuia d'elle e da sua memoria, para amar, era uma fria tela mal pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moço moreno, de grandes olhos, com luvas de camurça amarellas e um chicote na mão... De sua mãe não ficara nem um daguerreotypo, nem sequer um contorno a lapis. O avô tinha-lhe dito que era loura. Não sabia mais nada. Não os conhecera; não lhes dormira nos braços; nunca recebera o calor da sua ternura. Pae, mãe, eram para elle como symbolos d'um culto convencional. O papá, a mamã, os seres amados, estavam alli todos—no avô.
Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara;—e elle continuava na chaise-longue, como amollecido n'estas recordações, e cedendo já, n'um meio adormecimento, á fadiga do longo jantar... E então, pouco a pouco, diante das suas palpebras cerradas, uma visão surgiu, tomou côr, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria n'uma paz elysia. O peristillo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no collo. Uma mulher passava, alta, com uma carnação eburnea, bella como uma Deusa, n'um casaco de velludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu lado très-chic. E elle sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de cousas vivas.
Eram tres horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escuridão dos cortinados de seda, outra vez um bello dia de inverno morria sem uma aragem, banhado de côr de rosa: o banal peristillo de Hotel alargava-se, claro ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadellinha nos braços; uma mulher passava, com um casaco de velludo branco de Genova, mais alta que uma creatura humana, caminhando sobre nuvens, com um grande ar de Juno que remonta ao Olympo: a ponta dos seus sapatos de verniz enterrava-se na luz do azul, por trás as saias batiam-lhe como bandeiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia très-chic. Depois tudo se confundia, e era só o Alencar, um Alencar colossal, enchendo todo o céu, tapando o brilho das estrellas com a sua sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaçando ao vendaval das paixões, alçando os braços, clamando no espaço:
Abril chegou, sê minha!
VII
No Ramalhete, depois do almoço, com as tres janellas do escriptoro abertas bebendo a tepida luz do bello dia de março, Affonso da Maia e Craft jogavam uma partida de xadrez ao pé da chaminé já sem lume, agora cheia de plantas, fresca e festiva como um altar domestico. N'uma facha obliqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifacio, enorme e fôfo, dormia de leve a sua sesta.
Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e elle, tendo muitas similitudes de gosto e de idéas, o mesmo fervor pelo bric-a-brac e pelo bibelot, o uso apaixonado da esgrima, egual dilettantismo d'espirito, uniram-se immediatamente em relações de superficie, faceis e amaveis. Affonso, por seu lado começara logo a sentir uma estima elevada por aquelle gentleman de boa raça ingleza, como elle os admirava, cultivado e forte, de maneiras graves, de habitos rijos, sentindo finamente e pensando com rectidão. Tinham-se encontrado ambos enthusiastas de Tacito, de Macaulay, de Burke, e até dos poetas lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carater ganhara nas longas e trabalhadas viagens a rica solidez d'um bronze; para Affonso da Maia «aquillo era deveras um homem». Craft, madrugador, sahia cedo dos Olivaes a cavallo, e vinha assim ás vezes almoçar de surpreza com os Maias; por vontade de Affonso jantaria lá sempre;—mas ao menos as noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo emfim, como elle dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem sentado, no meio de idéas, e com boa educação.
Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de clientella que lhe dera esperanças d'uma carreira cheia, activa, tinha passado miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no bairro; e sentia agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete, os habitos de luxo, o condemnavam irremediavelmente ao dillettantismo. Já o fino dr. Theodosio lhe dissera um dia, francamente: «você é muito elegante p'ra medico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem é o burguez que lhe vae confiar a esposa dentro d'uma alcova?... Você aterra o pater-familias!» O laboratorio mesmo prejudicara-o. Os collegas diziam que o Maia, rico, intelligente, avido de innovações, de modernismos, fazia sobre os doentes experiencias fataes. Tinha-se troçado muito a sua idéa, apresentada na Gazeta Medica, a prevenção das epidemias pela inoculação dos virus. Consideravam-no um phantasista. E elle, então, refugiava-se todo n'esse livro sobre a medicina antiga e moderna, o seu livro, trabalhado com vagares d'artista rico, tornando-se o interesse intellectual de um ou dous annos.
N'essa manhã, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida de xadrez, Carlos no terrasso, estendido n'uma vasta cadeira india de bambu, á sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma Revista ingleza, banhado pela caricia tepida d'aquelle bafo de primavera que avelludava o ar, fazia já desejar arvores e relvas...
Ao lado d'elle, n'uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca, o sr. Damaso Salcede percorria o Figaro. De perna estirada, n'uma indolencia familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao terrasso as rosas das roseiras de Affonso, sentindo por trás, atravez das janellas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete—o filho do agiota saboreava alli uma d'essas horas deliciosas que ultimamente encontrava na intimidade dos Maias.
Logo na manhã seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fôra ao Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, tendo ao angulo, n'uma dobra simulada, o seu retratosinho em photographia, um capacete com plumas por cima do nome—DAMASO CANDIDO DE SALCEDE, por baixo as suas honras—Commendador de Christo, ao fundo a sua adresse—Rua de S. Domingos, á Lapa; mas esta indicação estava riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa—Grand Hotel, Boulevard des Capucines, Chambre N.º 103. Em seguida procurou Carlos no consultorio, confiou ao creado outro cartão. Emfim, uma tarde, no Aterro, vendo passar Carlos a pé, correu para elle, pendurou-se d'elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete.
Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admirações extaticas, como dentro d'um museu, lançando, diante dos tapetes, das faienças e dos quadros, a sua grande phrase—«chic a valer!» Carlos levou-o para o fumoir, elle aceitou um charuto; e começou a explicar, de perna traçada, algumas das suas opiniões e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin, e só estava bem em Paris—sobre tudo por causa do genero «femea» de que em Lisboa se passavam fomes: ainda que n'esse ponto a Providencia não o tratava mal. Gostava tambem do bric-a-brac; mas apanhava-se muita espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, não lhe pareciam commodas para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguem o pilhava sem livros á cabeceira da cama; ultimamente andava ás voltas com Daudet, que lhe diziam ser muito chic, mas elle achava-o confusote. Em rapaz perdia sempre as noites, até ás quatro ou cinco da madrugada, no delirio! Agora não, estava mudado e pacato; emfim, não dizia que de vez em quando não se abandonasse a um excessozinho; mas só em dias duples... E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava chic ter um cab inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade que quizesse ir passar o verão lá fóra, Nice ou Trouville?... Depois ao sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou ao sr. Maia (se o sr. Maia não fazia segredo) quem era o seu alfaiate.
E desde esse dia, não o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro, Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, ás vezes na solemnidade d'uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros, amarrotando a compostura das damas, abalava, abria d'estalo a claque, vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada, camelia na casaca, exhibindo os botões de punho que eram duas enormes bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Gremio, Damaso abandonou logo a partida, indifferente á indignação dos parceiros, para se vir collar á ilharga do Maia, offerecer-lhe marrasquino ou charutos, seguil-o de sala em sala como um rafeiro. N'uma d'essas occasiões, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Damaso rompendo em risadas soluçantes, rebolando-se pelos sophás, com as mãos nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle, suffocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o; respondia-lhe só com monossyllabos; dava voltas perigosas com o dog-cart se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa roliça. Debalde: Damaso Candido Salcede filara-o, e para sempre.
Depois, um dia, Taveira appareceu no Ramalhete com uma extraordinaria historia. Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, elle não presenceara) um sujeito, um Gomes, n'um grupo onde se commentavam os Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Damaso, que estava ao lado mergulhado na Ilustração, levantou-se, muito pallido, declarou que, tendo a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava a cara com a bengala ao sr. Gomes se elle ousasse babujar outra vez esse cavalheiro; e o sr. Gomes tragou, com os olhos no chão, a affronta, por ser rachitico de nascença—e porque era inquilino de Damaso e andava muito atrasado na renda. Affonso da Maia achou este feito brilhante: e foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr. Salcede uma tarde a jantar ao Ramalhete.
Este dia pareceu bello a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco incommodado e ainda deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... D'ahi datava a sua intimidade: começou a tratar Carlos por você. Depois, n'essa semana, revelou aptidões uteis. Foi despachar á alfandega (Villaça achava-se no Alemtejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo apparecido n'um momento em que Carlos copiava um artigo para a Gazeta Medica offereceu a sua boa letra, letra prodigiosa, de uma belleza lithographica; e d'ahi por diante passava horas á banca de Carlos, applicado e vermelho, com a ponta da lingua de fóra, o olho redondo, copiando apontamentos, transcripções de Revistas, materiaes para o livro... Tanta dedicação merecia um tu de familiaridade. Carlos deu-lh'o.
Damaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde a barba que começava agora a deixar crescer até á forma dos sapatos. Lançara-se no bric-a-brac. Trazia sempre o coupé cheio de lixos archeologicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza rachada de um bule... E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a portinhola como um addito de sacrario, exhibia a preciosidade:
—Que te parece? Chic a valer!... Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto, hein! Pura meia edade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vae-se roer de inveja!
N'esta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. Não era divertido assistir em silencio, do fundo d'uma poltrona, ás infindaveis discussões de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia. E, como elle confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o levaram ao laboratorio para fazer no seu corpo experiencias de electricidade...—«Pareciam dois demonios engalphinhados em mim, disse elle á sr.a condessa de Gouvarinho; e eu então que embirro com o spiritismo!...»
Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando á noite, n'um sophá, do Gremio, ou ao chá n'uma casa amiga, elle podia dizer, correndo a mão pelo cabello:
—Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, bric-a-brac, discutimos... Um dia, chic! Ámanhã tenho uma manhã de trabalho com o Maia... Vamos ás colxas.
N'esse domingo, justamente, deviam ir ás colxas, ao Lumiar. Carlos concebera um boudoir, todo revestido de colxas antigas de setim, bordadas a dous tons especiaes, perola e botão d'ouro. O tio Abrahão esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos suburbios; e n'essa manhã viera annunciar a Carlos a existencia de duas preciosidades, so beautiful! oh! so lovely! em casa de umas senhoras Medeiros que esperavam o sr. Maia ás duas horas...
Já tres vezes Damaso tossira, olhara o relogio,—mas, vendo Carlos confortavelmente mergulhado na Revista, recahia tambem na sua indolencia de homem chic, investigando o Figaro. Emfim, dentro, o relogio Luiz XV cantou argentinamente as duas...
—Esta é boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa. Olha quem aqui me apparece! A Suzanna! A minha Suzanna!
Carlos não despegara os olhos da pagina.
—Oh Carlos, accrescentou elle, fazes favor? Ouve. Ouve esta que é boa. Esta Suzanna é uma pequena que eu tive em Paris... Um romance! Apaixonou-se por mim, quiz-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o Figaro que debutou nas Folies-Bergeres. Falla n'ella... É boa, hein? E era rapariguita chic... E o Figaro diz que ella teve aventuras, naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo o mundo sabia em Paris. Ora a Suzanna!... Tinha bonitas pernas. E custou-me a vêr livre d'ella!
—Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da Revista.
Damaso era interminavel, torrencial, inundante a fallar das «suas conquistas», n'aquella solida satisfação em que vivia de que todas as mulheres, desgraçadas d'ellas, soffriam a fascinação da sua pessoa e da sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na sociedade, com coupè e parelha, todas as meninas tinham para elle um olhar doce. E no démi-monde, como elle dizia, «tinha prestigio a valer.» Desde moço fôra celebre, na capital, por pôr casas a hespanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mez; e este fausto excepcional tornara-o bem depressa o D. João V dos prostibulos. Conhecia-se tambem a sua ligação com a viscondessa da Gafanha, uma carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens validos do paiz: ía nos cincoenta annos, quando chegou a vez do Damaso—e não era decerto uma delicia ter nos braços aquelle esqueleto rangente e lubrico; mas dizia-se que em nova dormira n'um leito real, e que augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou Damaso, e collou-se-lhe ás saias com uma fidelidade tão sabuja, que a decrepita creatura, farta, enojada já, teve de o enxotar á força e com desfeitas. Depois gozou uma tragedia: uma actriz do Principe Real, uma montanha de carne, apaixonada por elle, n'uma noite de ciume e de genebra, engoliu uma caixa de phosphoros; naturalmente d'ahi a horas estava boa, tendo vomitado abominavelmente sobre o collete do Damaso que chorava ao lado—mas desde então este homem de amor julgou-se fatal! Como elle dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi tremia, tremia verdadeiramente de fitar uma mulher...
—Passaram-se scenas com esta Suzanna! murmurou elle depois de um silencio em que estivera catando pelliculas nos beiços.
E, com um suspiro, retomou o Figaro. Houve outra vez um silencio no terrasso. Dentro, a partida continuava. Para lá da sombra do toldo, agora, o sol ía aquecendo, batendo a pedra, os vasos de louça branca, n'uma refracção d'ouro claro em que palpitavam as azas das primeiras borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim verdejava, immovel na luz, sem um bolir de ramo, refrescado pelo cantar do repuxo, pelo brilho liquido da agoa do tanque, avivado, aqui e além, pelo vermelho ou o amarello das rosas, pela carnação das ultimas camelias... O bocado de rio que se avistava entre os predios era azul ferrete como o céu: e entre rio e céu o monte punha uma grossa barra verde-escura, quasi negra no resplendor do dia, com os dois moinhos parados no alto, as duas casinhas alvejando em baixo, tão luminosas e cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique d'um sino.
—O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso n'um tom entendido e traçando a perna. O duque de Norfolk é chic, não é verdade, ó Carlos?
Carlos, sem erguer os olhos, lançou para os céus um gesto, como exprimindo o infinito do chic!
Damaso largara o Figaro para metter um charuto na boquilha; depois desapertou os ultimos botões do collete, deu um puchão á camisa para mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma corôa de conde, e de palpebra cerrada, com o beiço trombudo, ficou mamando gravemente a boquilha...
—Tu estás hoje em belleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambem a Revista e o contemplava com melancolia.
Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, á meia côr de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita:
—Eu agora ando bem... Mas, muito blazè.
E foi realmente com um ar blazè que se ergueu a ir buscar a uma mesa de jardim, ao lado, onde estavam jornaes e charutos, a Gazeta Illustrada, «para vêr o que ia pela patria.» Apenas lhe deitou os olhos soltou uma exclamação.
—Outro debute? perguntou Carlos.
—Não, é a besta do Castro Gomes!
A Gazeta Illustrada annunciava que «o sr. Castro Gomes, o cavalheiro brasileiro que no Porto fôra victima da sua dedicação por occasião da desgraça occorrida na Praça Nova, e de que o nosso correspondente J. T. nos deu uma descripção tão opulenta de colorido realista, acha-se restabelecido e é hoje esperado no Hotel Central. Os nossos parabens ao arrojado gentleman.»
—Ora está s. ex.a restabelecida! exclamou Damaso, atirando para o lado o jornal. Pois deixa estar, que agora é a occasião de lhe dizer na cara o que penso... Aquelle pulha!
—Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e relia a noticia.
—Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria vêr, se fosse comtigo... É uma besta! É um selvagem!
E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua chegada de Bordeus, logo que o Castro Gomes se installara no Hotel Central elle fôra deixar-lhe bilhetes duas vezes—a ultima na manhã seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, s. ex.a não se dignara agradecer a visita! Depois elles tinham partido para o Porto; fôra ahi que, passeiando só na Praça Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada, duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lançára ao freio dos cavallos—e, cuspido contra as grades, tinha deslocado um braço. Teve de ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E elle immediatamente (sempre com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegrammas: um de sentimento, lamentando; outro de interesse, pedindo noticias. Nem a um, nem a outro, o animal respondeu!
—Não, isso—exclamava Salcede, passeiando pelo terraço, e recordando estas injurias—hei de lhe fazer uma desfeita!... Não pensei ainda o quê, mas ha de amargar-lhe... Lá isso, desconsiderações não admitto a ninguem! a ninguem!
Arredondava o olho, ameaçador. Desde o seu feito no Gremio, quando o rachitico apavorado emmudecera diante d'elle, Damaso ia-se tornando feroz. Pela menor cousa fallava em «quebrar caras.»
—A ninguem! repetia elle, com puxões ao collete. Desconsiderações, a ninguem!
N'esse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega—e quasi immediatamente elle appareceu, com um ar de pressa, e atarantado.
—Olá, Damasosinho!... Carlos, dás-me aqui em baixo uma palavra?
Desceram do terraço, penetraram no jardim, até junto de duas olaias em flôr.
—Tu tens dinheiro?—foi ahi logo a exclamação anciosa do Ega.
E contou a sua terrivel atrapalhação. Tinha uma letra de noventa libras que se vencia no dia seguinte. Além d'isso, vinte e cinco libras que devia ao Eusebiosinho, e que elle lhe reclamara n'uma carta indecente: e era isto que desesperava o Ega...
—Quero pagar a esse canalha, e quando o vir collar-lhe a carta á cara com um escarro. Além d'isso a letra! E tenho para tudo isto quinze tostões...
—O Eusebiosinho é homem de ordem... Emfim, queres cento e quinze libras, disse Carlos.
Ega hesitou, com uma côr no rosto. Já devia dinheiro a Carlos. Estava-se sempre dirigindo áquella amisade, como a um cofre inexgotavel...
—Não, bastam-me oitenta. Ponho o relogio no prego, e a pelissa, que já não faz frio...
Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque—em quanto Ega procurava cuidadosamente um bonito botão de rosa para florir a sobrecasaca. Carlos não tardou, trazendo na mão o cheque, que alargara até cento e vinte libras, para o Ega ficar armado...
—Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com um bello suspiro de allivio.
Immediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse villão! Mas tinha já uma vingança. Ia remetter-lhe a somma toda em cobre, n'um sacco de carvão, com um rato morto dentro, e um bilhete, começando assim:—ascorosa lombriga e immunda osga, ahi te atiro ao focinho, etc...
—Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o teu ar, aquelle ser repulsivo!...
Mas era até sujo mencionar o Eusebiosinho!... Quiz saber dos trabalhos de Carlos, do grande livro. Fallou tambem do seu Atomo:—e, por fim, n'uma voz differente, applicando o monocolo a Carlos:
—Dize-me outra cousa. Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?
Carlos tinha só esta rasão: não se divertia lá.
Ega encolheu os hombros. Parecia-lhe aquillo uma puerilidade...
—Tu não percebeste nada, exclamou elle. Aquella mulher tem uma paixão por ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue á cara.
E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de honra. Ainda na vespera, estava-se fallando de Carlos, e elle espreitara-a. Sem ser um Balzac, nem uma broca de observação, tinha a visão correcta: pois bem, lá lhe vira na face, nos olhos, toda a expressão de um sentimento sincero...
—Não estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tenl-a quando quiseres.
Carlos achava deliciosa aquella naturalidade mephistophelica com que Ega o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes, domesticas...
—Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa blague da cartilha e do codigo, então não fallemos mais n'isso! Se apanhaste a sarna da virtude, com comichões por qualquer cousa, então era uma vez um homem, vae para a Trappa commentar o Ecclesiastes...
—Não—disse Carlos, sentando-se n'um banco sob as arvores, ainda com uns restos da preguiça do terraço—o meu motivo não é tão nobre. Não vou lá, porque acho o Gouvarinho um massador.
Ega teve um sorriso mudo.
—Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores...
Sentou-se ao lado de Carlos, começou a riscar em silencio o chão areado; e sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com melancolia:
—Antes de hontem, toda a noite, a pé firme, das dez á uma, estive a ouvir a historia da demanda do Banco Nacional!
Era quasi uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que se debatia, n'aquelle mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista. Carlos enterneceu-se.
—Meu pobre Ega, então toda a demanda?
—Toda! E a leitura do relatorio da assembléa geral! E interessei-me! E tive opiniões!... A vida é um inferno.
Subiram ao terraço. Damaso reoccupara a sua cadeira de vime, e, com um canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas.
—Então decidiu-se? perguntou elle logo ao Ega.
—Decidiu-se hontem! Não ha cotillon.
Tratava-se de uma grande soirée mascarada que íam dar os Cohens, no dia dos annos de Rachel. A idéa d'esta festa sugerira-a o Ega, ao principio com grandes proporções de gala artistica, a ressurreição historica de um sarau no tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era irrealisavel em Lisboa—e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples baile costumé, a capricho...
—Tu, Carlos, já decidiste como vaes?
—De dominó, um severo dominó preto, como convém a um homem de sciencia...
—Então, exclamou Ega se se trata de sciencia, vae de rabona e chinellas de ourello!... A sciencia faz-se em casa e de chinellas... Nunca ninguem descobriu uma lei do Universo mettido dentro de um dominó... Que sensaboria, um dominó!...
Justamente a sr.a D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa monotonia dos dominós. E em Carlos não havia desculpa. Não o prendiam vinte ou trinta libras; e, com aquelle esplendido physico de cavalleiro da Renascença, devia ornar a sala pelo menos com um soberbo Francisco I.
—É n'isto, ajuntava elle com fogo, que está a belleza de uma soirée de mascaras! Não lhe parece, você, Damaso? Cada um deve aproveitar a sua figura... Por exemplo, a Gouvarinho vae muito bem. Teve uma inspiração: com aquelle cabello ruivo, o nariz curto, as maçãs do rosto salientes, é Margarida de Navarra...
—Quem é Margarida de Navarra? perguntou Affonso da Maia, apparecendo no terraço com Craft.
—Margarida, a duqueza d'Angouleme, a irmã de Francisco I, a Margarida das Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da Renascença, a sr.a condessa de Gouvarinho!...
Rio muito, foi abraçar Affonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos Cohens. E appellou logo para elle, para o Craft tambem, acerca do nefando dominó de Carlos. Não estava aquelle mocetão, com os seus ares de homem d'armas, talhado para um soberbo Francisco I, em toda a gloria de Marignan?
O velho deu um olhar enternecido á belleza do neto.
—Eu te digo, John, talvez tenhas razão; mas Francisco I, rei de França, não se póde apear de uma tipoia e entrar n'uma sala, só. Precisa côrte, arautos, cavalleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso é difficil.
Ega curvou-se. Sim senhor, d'accordo! Alli estava uma maneira intelligente de comprehender o baile dos Cohens!
—E tu, de que vaes? perguntou-lhe Affonso.
Era um segredo. Tinha a theoria de que, n'aquellas festas, um dos encantos consistia na surpreza: dois sujeitos por exemplo que tendo jantado juntos, de jaquetão, no Bragança, se encontram á noite, um na purpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandido da Calabria...
—Eu cá não faço segredo, disse ruidosamente Damaso. Eu cá vou de selvagem.
—Nú?
—Não. De Nelusko na Africana. Oh sr. Affonso da Maia, que lhe parece? Acha chic?
—Chic não exprime bem, disse Affonso sorrindo. Mas grandioso, é, decerto.
Quizeram então saber como ía Craft. Craft não ía de cousa nenhuma; Craft ficava nos Olivaes, de robe de chambre.
Ega encolheu os hombros com tedio, quasi com colera. Aquellas indifferenças pelo baile dos Cohens feriam-n'o como injurias pessoaes. Elle estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na bibliotheca, um trabalho fumegante de imaginação; e pouco a pouco ella tomava aos seus olhos a importancia de uma celebração d'arte, provando o genio de uma cidade. Os «dominós», as abstenções, pareciam-lhe evidencias de inferioridade de espirito. Citou então o exemplo do Gouvarinho: alli estava um homem de occupações, de posição politica, nas vesperas de ser ministro, que não só ía ao baile, mas estudara o seu costume: estudara, e ía muito bem, ía de marquez de Pombal!
—Reclame para ser ministro, disse Carlos.
—Não o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condições para ser ministro: tem voz sonora, leu Mauricio Block, está encalacrado, e é um asno!...
E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:
—Mas é muito bom rapaz, e não se dá ares nenhuns! É um anjo!
Affonso reprehendia-o, risonho e paternal:
—Ora tu, John, que não respeitas nada...
—O desacato é a condição do progresso, sr. Affonso da Maia. Quem respeita decahe. Começa-se por admirar o Gouvarinho, vae-se a gente esquecendo, chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata tem descido a venerar o Todo-Poderoso!... É necessario cautela!
—Vae-te embora, John, vae-te embora! Tu és o proprio Anti-Christo...
Ega ía responder, exhuberante e em veia—mas dentro o tinir argentino do relogio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emmudeceu-o.
—O que? quatro horas!
Ficou aterrado, verificou no seu proprio relogio, deu em redor rapidos, silenciosos apertos de mão, desappareceu como um sopro.
Todos de resto estavam pasmados de ser tão tarde! E assim passara a hora de ir ao Lumiar vêr as colxas antigas das senhoras Medeiros...
—Quer você então meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos.
—Seja: e é necessario dar a lição ao Damaso...
—É verdade, a lição...—murmurou Damaso, sem enthusiasmo, com um sorriso murcho.
A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos, com janellas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das arvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessario accender os quatro bicos de gaz. Damaso seguiu, atraz dos dois, com uma lentidão de rez desconfiada.
Aquellas lições, que elle sollicitara por amor do chic, íam-se-lhe tornando odiosas. E n'essa tarde, como sempre, apenas se enchumaçou com o plastrão d'anta, se cobriu com a caraça de arame, começou a transpirar, a fazer-se branco. Diante d'elle Craft, de florete na mão, parecia-lhe cruel e bestial, com aquelles seus hombros de Hercules sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Damaso estremeceu todo.
—Firme, gritou-lhe Carlos.
O desgraçado equilibrava-se sobre a perna roliça; o florete de Craft vibrou, rebrilhou, voou sobre elle; Damaso recuou, suffocado, cambaleando e com o braço frouxo...
—Firme! berrava-lhe Carlos.
Damaso, exhausto, abaixou a arma.
—Então que querem vocês, é nervoso! É por ser a brincar... Se fosse a valer, vocês veriam.
Assim acabava sempre a lição; e ficava depois abatido sobre uma banqueta de marroquim, arejando-se com o lenço, pallido como a cal dos muros.
—Vou-me até casa, disse elle d'ahi a pouco, fatigado de tanto crusar de ferro. Queres alguma cousa, Carlinhos?
—Quero que venhas cá jantar ámanhã... Tens o marquez.
—Chic a valer... Não faltarei.
Mas faltou. E, como toda essa semana aquelle moço ponctual não appareceu no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi uma manhã a casa d'elle, á Lapa. Mas ahi, o creado (um gallego achavascado e triste, que, desde as suas relações com os Maias, Damaso trazia entalado n'uma casaca e mortalmente aperreado em sapatos de verniz) affirmou-lhe que o sr. Damasosinho estava de boa saude, e até sahira a cavallo. Carlos veiu então ao tio Abrahão; o tio Abrahão tambem não avistara, havia dias, aquelle bom senhor Salcede, that beautiful gentleman! A curiosidade de Carlos levou-o ao Gremio: no Gremio nenhum creado vira ultimamente o sr. Salcede. «Está por ahi de lua de mel com alguma bella andaluza» pensou Carlos.
Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que se dirigia ao Aterro, a pé, seguido da sua vittoria a passo. Era a segunda vez que o diplomata fazia exercicio depois do seu desgraçado ataque de entranhas. Mas não tinha já vestigios da doença: vinha todo rosado e loiro, muito solido na sua sobrecasaca, e com uma bella rosa de chá na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava «más forrte». E não lamentava os soffrimentos, porque elles lhe tinham dado o meio de apreciar as sympathias que gosava em Lisboa. Estava enternecido. Sobre tudo o cuidado de S. M.—o augusto cuidado de S. M.—fizera-lhe melhor que «todos os drogues de botique»! Realmente nunca as relações entre esses dois paizes, tão estreitamente alliados, Portugal e a Filandia, tinham sido «màs firmes, pur assi dizerre, màs intimes, que durrante seu ataque de intestinaes»!
Depois, travando do braço a Carlos, alludiu commovido ao offerecimento de Affonso da Maia, que pozera á sua disposição S.ta Olavia, para elle se restabelecer n'esses ares fortes e limpos do Douro. Oh, esse convite tocara-o au plus profond de son cœur. Mas, infelizmente, S.ta Olavia era longe, tão longe!... Tinha de se contentar com Cintra, d'onde podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Legação. C'était ennuyeux, mais... A Europa estava n'um d'esses momentos de crise, em que homens d'estado, diplomatas, não podiam affastar-se, gosar as menores ferias. Precisavam estar alli, na brecha, observando, informando...
—C'est très grave, murmurou elle, parando, com um pavor vago no olhar azulado... C'est excessivement grave!
Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a parte uma confusão, um gachis. Aqui a questão do Oriente; alem o socialismo; por cima o Papa, a complicar tudo... Oh, très grave!
—Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambetta. Oh, je ne dis pas non, il est très fort, il est excessivement fort... Mais... Voilà! C'est très grave...
Por outro lado os radicaes, les nouvelles couches... Era excessivamente grave...
—Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous!
Mas Carlos não escutava, nem sorria já. Do fim do Aterro approximava-se, caminhando depressa, uma senhora—que elle reconheceu logo, por esse andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha côr de prata que lhe trotava junto ás saias, e por aquelle corpo maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de marmore antigo, uma graça quente, ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, n'uma toilette de serge muito simples que era como o complemento natural da sua pessoa, collando-se bem sobre ella, dando-lhe, na sua correcção, um ar casto e forte; trazia na mão um guarda-sol inglez, apertado e fino como uma cana; e toda ella, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha, n'aquelle caes triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como o requinte raro de civilisações superiores. Nenhum véo, n'essa tarde, lhe assombreava o rosto. Mas Carlos não poude detalhar-lhe as feições; apenas d'entre o esplendor eburneo da carnação sentiu o negro profundo de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem vêr nada, estava achando Bismarch assustador. Á maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior, mais bella: e aquella imagem falsa e litteraria de uma deusa marchando pela terra prendia-se-lhe á imaginação. Steinbroken ficara aterrado com o discurso do Chanceller no Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o chapéo, n'uma fórma de trança enrolada, apparecia o tom do seu cabello castanho, quasi louro á luz; a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas direitas.
—Evidentemente, disse Carlos, Bismarck é inquietador...
Steinbroken porém já deixara Bismarck. Steinbroken agora atacava lord Beaconsfield.
—Il est très fort... Oui, je vous l'accorde, il est excessivement fort... Mais voilà... Ou va-t-il?
Carlos olhava para o caes de Sodré. Mas tudo lhe parecia deserto. Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos negocios estrangeiros aquillo mesmo: lord Beaconsfield é muito forte, mas para onde vae elle? O que queria elle?... E s. ex.a tinha encolhido os hombros... S. ex.a não sabia...
—Eh, oui! Beaconsfield est très fort... Vous avez lu son speech chez le Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voilà... Où va-t-il?
—Steinbroken, não me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a arrefecer no Aterro...
—Devérras? exclamou o diplomata, passando logo a mão rapidamente pelo estomago e pelo ventre.
E não se quiz demorar um instante mais! Como Carlos ía recolher tambem, offereceu-lhe um logar na vittoria até ao Ramalhete.
—Venha então jantar comnosco, Steinbroken.
—Charmé, mon cher, charmé...
A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n'um grande plaid escossez:
—Pôs, Maia, fezemos um bello passêo... Mas este Atêrro no é deverrtido.
Não era divertido o Aterro!... Carlos achara-o n'essa tarde o mais delicioso logar da terra!
Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as arvores, viu-a logo. Mas não vinha só; ao seu lado o marido, esticado, apurado n'uma jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de diamantes no setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e trazia a cadellinha debaixo do braço. Ao passar, deu um olhar surprehendido a Carlos—como descobrindo emfim entre os barbaros um ser de linha civilisada, e disse-lhe algumas palavras baixo, a ella.
Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas não lhe parecera tão bella; trazia uma outra toilette menos simples, de dois tons, côr de chumbo e côr de creme, e no chapéo, d'abas grandes á ingleza, vermelhava alguma cousa, flôr ou penna. N'essa tarde não era a deusa descendo das nuvens d'ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel.
Voltou ainda tres vezes ao Aterro, não a tornou a vêr; e então envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o trazia assim, n'uma inquietação de rafeiro perdido, farejando o Aterro, da rampa de Santos ao caes de Sodré, á espera de uns olhos negros e de uns cabellos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da Royal Mail levaria uma d'essas manhãs...
E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a meza! E que todas as tardes, antes de sahir, se demorava ao espelho, estudando a gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza...
Ao fim d'essa semana, Carlos estava no consultorio, já para sahir, calçando as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou com alvoroço:
—Uma senhora!
Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de velludo preto—e atraz uma mulher, toda de negro, com um véo justo e espesso como uma mascara.
—Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr. Carlos da Maia ía sahir...
Carlos reconheceu a Gouvarinho.
—Oh senhora condessa!
Desembaraçou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho; depois sentou-se á borda e de leve, com o pequeno junto de si.
—Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o véu, como fallando do fundo d'aquella toilette negra que a dissimulava. Não o mandei chamar, por que realmente pouco é, e tinha hoje de passar por aqui... Além d'isso, o meu pequeno é muito nervoso; se vê entrar o medico, parece-lhe que vae morrer. Assim é como uma visita que se faz... E não tens medo, não é verdade, Charlie?
O pequeno não respondeu; de pé, quedo ao lado da mamã; mimoso e debil sob os caracoes d'anjo que lhe cahiam até aos hombros, devorava Carlos com uns grandes olhos tristes.
Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta:
—Que tem elle?
Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pescoço. Além disso, por traz da orelha, tinha como uma dureza de caroço. Aquillo inquietava-a. Ella era forte, de uma boa raça, que dera athletas e velhos de grande edade. Mas na familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia hereditaria. O conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um achacado. E ella, receiando que a influencia debilitante de Lisboa não conviesse a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa da avó.
Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braços a Charlie:
—Ora venha cá o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico cabello elle tem, senhora condessa!...
Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do medico de que fallara a mamã, veio logo, desapertou delicadamente o seu grande collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoço macio e alvo como um lyrio.
Carlos vio apenas uma pequena mancha côr de rosa desvanecendo-se; do «caroço» não havia vestigio; e então uma ligeira vermelhidão subiu-lhe ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo tudo, querendo vêr n'elles a confissão do sentimento que a trouxera alli com um pretexto pueril, sob aquella toilette negra, aquelles véos que a mascaravam...
Mas ella permaneceu impenetravel, sentada á borda do divan, com as mãos crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n'um vago susto de mãe.
Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse:
—Não é absolutamente nada, minha senhora.
No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de Charlie. A condessa, n'um tom pesaroso, queixou-se de que a educação da creança não fosse, como ella desejava, mais forte e mais viril; mas o pae oppunha-se ao que elle chamava «a aberração ingleza», a agua fria, os exercicios a todo o ar, a gymnastica...
—A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor reputação do que merecem... É o seu unico filho, senhora condessa?
—É, tem os mimos de morgado, disse ella passando a mão pelos cabellos louros do pequeno.
Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado, Charlie não devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momento callados.
—Não imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando um geito ao veu. De mais a mais é um gosto vir consultal-o... Não ha aqui o menor ar de doença, nem de remedios... E realmente tem isto muito bonito...—accrescentou, dando um olhar lento em redor aos velludos do gabinete.
—Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. Não inspira nenhum respeito pela minha sciencia... Eu estou com idêas d'alterar tudo, pôr aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas d'in-folios...
—A cella de Fausto.
—Justamente, a cella de Fausto.
—Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que brilhou sob o véo.
—O que me falta é Margarida!
A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros, como duvidando discretamente; depois tomou a mão de Charlie, e deu um passo lento para a porta, puxando outra vez o véo.
—Como v. ex.a se interessa pela minha installação, acudiu Carlos querendo retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala.
Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras, approvando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o piano fel-a sorrir.
—Os seus doentes dançam quadrilhas?
—Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, não são bastante numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para uma valsa... O piano está simplesmente alli para dar idêas alegres; é como uma promessa tacita de saude, de futuras soirèes, de bonitas arias do Trovador, em familia...
—É engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala, com Charlie collado aos vestidos.
E Carlos, caminhando ao lado d'ella:
—V. ex.a não imagina como eu sou engenhoso!
—Já n'outro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito inventivo quando odiava.
—Muito mais quando amo, disse elle rindo.
Mas ella não respondeu: parára junto do piano, remexeu um momento as musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado.
—É um chocalho.
—Oh, senhora condessa!
Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer—um focinho de cão de S. Bernardo, macisso e bonacheirão, adormecido sobre as patas. Quasi roçando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de verbena que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons negros que a cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce á vista, e attrahindo como um setim.
—Este é um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega que ha quadros lindos no Ramalhete... Fallou-me sobretudo d'um Greuze e d'um Rubens... É pena que se não possam vêr essas maravilhas.
Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteirões lhes impedisse, a elle e ao avô, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que se sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer a herva pelos tapetes.
—É por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o avô a casar-se.
A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do véo.
—Gosto da sua alegria, disse ella.
—É uma questão de regimen. V. ex.a não é alegre?
Ella encolheu os hombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro, murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, n'um tom d'intimidade e de confidencia: