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Os Maias: episodios da vida romantica cover

Os Maias: episodios da vida romantica

Chapter 28: VII
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About This Book

The narrative follows three generations of an aristocratic family as they return to Lisbon, restore an ancestral house, and navigate society's salons, rivalries, and vanities. Through rich portraits and episodic scenes the work satirizes the complacency and moral emptiness of the urban elite, alternating comedy of manners with melancholy. A young heir's cosmopolitan education and passionate affair lead to a shocking personal discovery that precipitates disillusion and domestic collapse. Interlacing family history, social observation, and vivid set pieces, the novel examines legacy, hypocrisy, and the painful consequences of private desires colliding with public reputation.

Era n'um parque. O luar
Sobre os vastos arvoredos,
Cheios de amor e segredos...


—Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovêlo do marquez. É sentimento... Aposto que é o festim!

E era com effeito o festim, já cantado na Flôr de Martyrio, festim romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam, caudas de brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas do lago sobem cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa transpareceu a severa idéa social da Poesia. Emquanto, sob as arvores radiantes de luar, tudo são «risos, brindes, lascivos murmurios»—fóra, junto ás grades douradas do parque, assustada com o latir dos molossos, uma mulher macilenta, em farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o filho que pede pão... E o poeta, sacudindo os cabellos para traz, perguntava porque havia ainda esfomeados n'este orgulhoso seculo XIX? De que servira então, desde Spartacus, o esforço desesperado dos homens para a Justiça e para a Igualdade? De que servira então a cruz do grande Martyr, erguida além na collina, onde, por entre os abetos


Os raios do sol se somem,
O vento triste se cala...
E as aguias revolteando
D'entre as nuvens estão olhando
Morrer o filho do Homem!


A sala permanecia muda e desconfiada. E o Alencar, com as mãos tremendo no ar, desolava-se de que todo o Genio das gerações fosse impotente para esta coisa simples—dar pão á criança que chora!


Martyrio do coração!
Espanto da consciencia!
Que toda a humana sciencia
Não solva a negra questão!
Que os tempos passem e rolem
E nenhuma luz assome,
E eu veja d'um lado a fome
E do outro a indigestão!


Ega torcia-se, fungando dentro do lenço, jurando que rebentava. «E do outro a indigestão!» Nunca, nas alturas lyricas, se gritára nada tão extraordinario! E sujeitos graves, em redor, sorriam d'aquelle realismo sujo. Um jocoso lembrou que para indigestões já havia o bi-carbonato de potassa.

—Quando não são das minhas! rosnou um cavalheiro esverdinhado, que alargava a fivela do collete.

Mas tudo emmudeceu ante um chut terrivel do marquez, que desapertára o cache-nez, já excitado, no enternecimento que sempre lhe davam estes humanitarismos poeticos. E entretanto, no estrado, o Alencar achára a solução do soffrimento humano! Fôra uma Voz que lh'a ensinára! Uma Voz sahida do fundo dos seculos, e que através d'elles, sempre suffocada, viera crescendo todavia irresistivelmente desde o Golgotha até á Bastilha! E então, mais solemne por traz da mesa, com um arranque de Precursor e uma firmeza de Soldado, como se aquelle honesto movel de mogno fosse um pulpito e uma barricada—o Alencar, alçando a fronte n'uma grande audacia á Danton, soltou o brado temeroso. Alencar queria a Republica!

Sim, a Republica! Não a do Terror e a do odio, mas a da mansidão e do Amor. Aquella em que o Millionario sorrindo abre os braços ao Operario! Aquella que é Aurora, Consolação, Refugio, Estrella mystica e Pomba...


Pomba da Fraternidade,
Que estendendo as brancas azas
Por sobre os humanos lodos,
Envolve os seus filhos todos
Na mesma santa Igualdade!...


Em cima, na galeria, resoou um bravo ardente. E immediatamente, para o suffocar, sujeitos sérios lançaram, aqui e além: «Chut, silencio!» Então Ega ergueu as mãos magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido:

—Bravo! Muito bem! Bravo!

E todo pallido da sua audacia, entalando o monoculo, declarou para os lados:

—Aquella democracia é absurda... Mas que os burguezes se dêem ares intolerantes, isso não! Então applaudo eu!

E as suas mãos magras de novo se ergueram, bem alto, junto das do marquez que retumbavam como malhos. Outros em volta, immediatamente, não se querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquelle fidalgo de tão grande linhagem, reforçaram os bravos com calor. Já pela sala se voltavam olhares inquietos para aquelle grupo cheio de revolução. Mas um silencio cahiu, mais commovido e grave, quando o Alencar (que inspiradamente previra a intolerancia burgueza) perguntou em estrophes iradas o que detestavam, o que receavam elles, no advento sublime da Republica? Era o pão carinhoso dado á criança? Era a mão justa estendida ao proletario? Era a esperança? Era a aurora?


Receaes a grande luz?
Tendes medo do Abecê?...
Então castigai quem lê,
Voltai á plebe soez!
Recuai sempre na Historia,
Apagai o gaz nas ruas,
Deixai as crianças nuas,
E venha a forca outra vez!


Palmas, mais numerosas, já sinceras, estalaram pela sala, que cedia emfim ao repetido encanto d'aquelle lyrismo humanitario e sonoro. Já não importava a Republica, os seus perigos. Os versos rolavam, cantantes e claros; e a sua onda larga arrastava os espiritos mais positivos. Sob aquelle bafo de sympathia Alencar sorria, com os braços abertos, annunciando uma a uma, como perolas que se desfiam, todas as dadivas que traria a Republica. Debaixo da sua bandeira, não vermelha mas branca, elle via a terra coberta de searas, todas as fomes satisfeitas, as nações cantando nos valles sob o olhar risonho de Deus. Sim, porque Alencar não queria uma Republica sem Deus! A Democracia e o Christianismo, como um lirio que se abraça a uma espiga, completavam-se, estreitando os seios! A rocha do Golgotha tornava-se a tribuna da Convenção! E para tão dôce ideal não se necessitavam cardeaes, nem missaes, nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita só de pureza e de fé, reza nos campos; a lua cheia é hostia; os rouxinoes entoam o tantum ergo nos ramos dos loureiraes. E tudo prospéra, tudo refulge—ao mundo do Conflicto substitue-se o mundo do Amor...


Á espada succede o arado,
A Justiça ri da Morte,
A escóla está livre e forte,
E a Bastilha derrocada.
Róla a tiára no lodo,
Brota o lirio da Igualdade,
E uma nova Humanidade
Planta a cruz na barricada!


Uma rajada farta e franca de bravos fez oscillar as chammas do gaz! Era a paixão meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo romantico, da imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de foguete, conquistando emfim tudo, pondo uma palpitação em cada peito, levando chefes de repartição a berrarem, estirados por cima das damas, no enthusiasmo d'aquella republica onde havia rouxinoes! E quando Alencar, alçando os braços ao tecto, com modulações de preghiera na voz roufenha, chamou para a terra essa pomba da Democracia, que erguera o vôo do Calvario, e vinha com largos sulcos de luz—foi um enternecimento banhando as almas, um fundo arrepio d'extasi. As senhoras amolleciam nas cadeiras, com a face meia voltada ao céo. No salão abrazado perpassavam frescuras de capella. As rimas fundiam-se n'um murmurio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de setim cobrissem, estrellas d'ouro coroassem. E mal se sabia já se Essa, que se invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade—ou Nossa Senhora das Dôres.

Alencar no emtanto via-a descer, espalhando um perfume. Já Ella tocava com os seus pés divinos os valles humanos. Já do seu seio fecundo trasbordava a universal abundancia. Tudo reflorescia, tudo rejuvenescia:


As rosas têm mais aroma!
Os fructos têm mais doçura!
Brilha a alma clara e pura,
Solta de sombras e véos...
Foge a dôr espavorida,
Foi-se a fome, foi-se a guerra,
O homem canta na terra,
E Christo sorri nos céos!...


Uma acclamação rompeu, immensa e rouca, abalando os muros côr de canario. Moços exaltados treparam ás cadeiras, dois lenços brancos fluctuavam. E o poeta, tremulo, exhausto, rolou pela escada até aos braços que se lhe estendiam frementes. Elle suffocava, murmurava: «filhos! rapazes!...» Quando Ega correu do fundo, com Carlos, gritando—«Fôste extraordinario, Thomaz!»—as lagrimas saltaram dos olhos do Alencar, quebrado todo d'emoção.

E ao longo da coxia a ovação continuou, feita de palmadinhas pelo hombro, de shake-hands da gente séria, de «muitos parabens a v. exc.a!» Pouco a pouco elle erguia a cabeça, n'um altivo sorriso que lhe mostrava os dentes maus, sentindo-se o poeta da Democracia, consagrado, ungido pelo triumpho, com a inesperada missão de libertar almas! D. Maria da Cunha puxou-lhe pela manga quando elle passou, para murmurar, encantada, que achára—«lindissimo, lindissimo». E o poeta, estonteado, exclamou: «Maria, é necessario luz!» Telles da Gama veio bater-lhe nas costas affirmando-lhe que «piára esplendidamente». E Alencar, inteiramente perdido, balbuciou: «Sursum corda, meu Telles, sursum corda

Ega no emtanto, através do tumulto, farejava buscando Carlos que desapparecera depois dos abraços ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que Carlos passára para o botequim. Depois em baixo um garoto jurou que o snr. D. Carlos tomára uma tipoia e ia já virando o Chiado...

Ega ficou á porta hesitando se aturaria o resto do sarau. N'esse momento o Gouvarinho, trazendo a condessa pelo braço, descia rapidamente, com a face toda contrariada e sombria. O trintanario de ss. exc.as correu a chamar o coupé. E quando o Ega se acercou, sorrindo, para saber que impressão lhes deixára o grande triumpho democratico do Alencar—a profunda cólera do Gouvarinho escapou-se-lhe, mal contida, por entre os dentes cerrados:

—Versos admiraveis, mas indecentes!

O coupé avançou. Elle teve apenas tempo de rosnar ainda, surdamente, apertando a mão ao Ega:

—N'uma festa de sociedade, sob a protecção da rainha, diante d'um ministro da corôa, fallar de barricadas, prometter mundos e fundos ás classes proletarias... É perfeitamente indecente!

Já a condessa enfiára a portinhola, apanhando a larga cauda de sêda. O ministro mergulhou tambem furiosamente na sombra do coupé. Junto ás rodas passou choutando, n'uma pileca branca, o correio agaloado.

Ega ia subir. Mas o marquez appareceu, abafado n'um gabão d'Aveiro, fugindo a um poeta de grandes bigodes que ficára em cima a recitar quadrinhas miudinhas a uns olhinhos galantinhos: e o marquez detestava versos feitos a partes do corpo humano. Depois foi o Cruges que surgiu do botequim, abotoando o paletot. Então, perante essa debandada de todos os amigos, Ega decidiu abalar tambem, ir tomar o seu grog ao Gremio com o maestro.

Metteram o marquez n'uma tipoia—e elle e Cruges desceram a rua Nova da Trindade, devagar, no encanto estranho d'aquella noite d'inverno, sem estrellas, mas tão macia que n'ella parecia andar perdido um bafo de maio.

Passavam á porta do Hotel Alliança quando Ega sentiu alguem, que se apressava, chamar atraz: «Ó snr. Ega! V. exc.a faz favor, snr. Ega?...»—Parou, reconheceu o chapéo recurvo, as barbas brancas do snr. Guimarães.

—V. exc.a desculpe! exclamou o demagogo esbaforido. Mas vi-o descer, queria-lhe dar duas palavras, e como me vou embora ámanhã...

—Perfeitamente... Ó Cruges, vai andando, já te apanho!

O maestro estacionou á esquina do Chiado. O snr. Guimarães pedia de novo desculpa. De resto eram duas curtas palavras...

—V. exc.a, segundo me disseram, é o grande amigo do snr. Carlos da Maia... São como irmãos...

—Sim, muito amigos...

A rua estava deserta, com alguns garotos apenas á porta alumiada da Trindade. Na noite escura a alta fachada do Alliança lançava sobre elles uma sombra maior. Todavia o snr. Guimarães baixou a voz cautelosa:

—Aqui está o que é... V. exc.a sabe, ou talvez não saiba, que eu fui em Paris intimo da mãi do snr. Carlos da Maia... V. exc.a tem pressa, e não vem agora a proposito essa historia. Basta dizer que aqui ha annos ella entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia, continha papeis importantes... Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras coisas em que pensar, os annos correram, ella morreu. N'uma palavra, porque v. exc.a está com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse deposito, e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negocios da herança de meu irmão... Ora hoje justamente, alli no theatro, comecei a reflectir que o melhor era entregal-o á familia...

O Cruges mexeu-se impaciente:

—Ainda te demoras?

—Um instante! gritou Ega, já interessado por aquelles papeis e pelo cofre. Vai andando.

Então o snr. Guimarães, á pressa, resumiu o pedido. Como sabia a intimidade do snr. João da Ega e de Carlos da Maia, lembrára-se de lhe entregar o cofresinho para que elle o restituisse á familia...

—Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no Ramalhete.

—Ah, muito bem! Então v. exc.a manda um criado de confiança ámanhã buscal-o... Eu estou no Hotel de Paris, no Pelourinho. Ou melhor ainda: levo-lh'o eu, não me dá incommodo nenhum, apesar de ser dia de partida...

—Não, não, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo a mão ao democrata.

Elle estreitou-lh'a com calor.

—Muito agradecido a v. exc.a! Eu junto-lhe então um bilhete e v. exc.a entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou á irmã.

Ega teve um movimento d'espanto:

—Á irmã!... A que irmã?

O snr. Guimarães considerou Ega tambem com assombro. E abandonando-lhe lentamente a mão:

—A que irmã!? Á irmã d'elle, á unica que tem, á Maria!

Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado gritou da esquina:

—Bem, eu vou andando para o Gremio.

—Até logo!

O snr. Guimarães, no emtanto, passava os dedos calçados de pellica preta pelos longos fios da barba, fitando o Ega, n'um esforço de penetração. E quando Ega lhe travou do braço, pedindo-lhe para conversarem um pouco até ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentidão desconfiada.

—Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que nós estamos aqui a enrodilhar-nos n'um equivoco... Eu conheço o Maia desde pequeno, vivo até agora em casa d'elle, posso afiançar-lhe que não tem irmã nenhuma...

Então o snr. Guimarães começou a rosnar umas desculpas embrulhadas que mais enervavam, torturavam o Ega. O snr. Guimarães imaginava que não era segredo, que todas essas coisas da irmã estavam esquecidas, desde que houvera reconciliação...

—Como vi, ainda não ha muitos dias, o snr. Carlos da Maia com a irmã e com v. exc.a, na mesma carruagem, no caes do Sodré...

—O quê! Aquella senhora! A que ia na carruagem?

—Sim! exclamou o snr. Guimarães irritado, farto emfim d'essa confusão em que se debatiam. Aquella mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria Eduarda Maia, como quizer, que eu conheci de pequena, com quem andei muitas vezes ao collo, que fugiu com o Mac-Gren, que esteve depois com a besta do Castro Gomes... Essa mesma!

Era ao meio do Loreto sob o lampeão de gaz. E o snr. Guimarães de repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma terrivel pallidez cobrir-lhe a face.

—V. exc.a não sabia nada d'isto?

Ega respirou fortemente, arredando o chapéo da testa sem responder. Então o outro, embaçado, terminou por encolher os hombros. Bem, via que tinha feito uma tolice! A gente nunca se devia intrometter nos negocios alheios! Mas acabou-se! Imaginasse o snr. Ega que aquillo fôra um pesadêlo, depois da versalhada do sarau! Pedia desculpa sinceramente—e desejava ao snr. João da Ega muitissimo boas noites.

Ega, como a um clarão de relampago, entrevira toda a catastrophe: e agarrou avidamente o braço do snr. Guimarães, n'um terror que elle abalasse, desapparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses papeis, o cofre da Monforte, e com elles a certeza—a certeza por que agora anciava. E através do Loreto, vagamente, foi balbuciando, justificando a sua emoção, para tranquillisar o homem, poder lentamente arrancar-lhe as coisas que soubesse, as provas, a verdade inteira.

—O snr. Guimarães comprehende... Isto são coisas muito delicadas, que eu suppunha absolutamente ignoradas de todos... De modo que fiquei embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim de repente fallar d'ellas com essa simplicidade... Porque emfim, aqui para nós, essa senhora não passa em Lisboa por irmã de Carlos.

O snr. Guimarães atirou logo a mão n'um grande gesto. Ah, bem! Então era jogo com elle? Pois tinha feito o snr. Ega perfeitamente... Com certeza eram coisas muito sérias, que necessitavam toda a sorte de véos... Elle comprehendia, comprehendia muito bem!... E realmente, dada a posição dos Maias em Lisboa, na sociedade, aquella senhora não era irmã que se apresentasse.

—Mas a culpa não a teve ella, meu caro senhor! Foi a mãi, foi aquella extraordinaria mãi que o Diabo lhe deu!...

Desciam o Chiado. Ega parou um momento, devorando o velho com olhos de febre:

—O snr. Guimarães conheceu muito essa senhora, a Monforte?

Intimamente! Já a conhecera em Lisboa—mas de longe, como mulher de Pedro da Maia. Depois viera essa tragedia, ella fugira com o italiano. Elle abalára tambem para Paris n'esse anno, com uma Clemence, uma costureira da Levaillant: e, umas coisas enfiando n'outras, negocios e desgraças, por lá ficára para sempre! Emfim, não era a sua vida que lhe ia contar... Só mais tarde encontrára a Monforte, uma noite, no baile Laborde: e d'ahi datavam as suas relações. A esse tempo já o italiano morrera n'um duello, e o velho Monforte espichára da bexiga. Ella estava então com um rapaz chamado Trevernnes—n'uma casa bonita, no Parc Monceaux, em grande chic... Mulher extraordinaria! E não se envergonhava de confessar que lhe devia obrigações! Quando essa rapariga, a Clemence, que era um encanto, adoecera do peito, a Monforte trazia-lhe flôres, frutas, vinhos, fazia-lhe companhia, velava-a como um anjo... Porque lá isso coração largo e generoso até alli! Esta, a filha, a D. Maria, tinha então sete ou oito annos, linda como os amores... E houvera uma outra pequena do italiano, muito galantinha tambem. Oh! muito galantinha tambem! Mas morrera em Londres, essa...

—E com esta Maria andei muitas vezes ao collo, meu caro senhor... Não sei se ella ainda se lembra d'uma boneca que eu lhe dei, que fallava, dizia Napoléon... Era no bello tempo do Imperio, até as desavergonhadas das bonecas eram imperialistas! Depois, quando ella estava em Tours, no convento, fui lá duas vezes com a mãi. Já então os meus principios me não permittiam entrar n'esses covis religiosos: mas emfim fui acompanhar a mãi... E quando ella fugiu com o irlandez, o Mac-Gren, foi commigo que a mãi veio ter, furiosa, a querer que eu chamasse o commissario de policia para se prender o irlandez. Por fim metteu-se n'um fiacre, foi para Fontainebleau, lá fez as pazes, viviam até juntos... Emfim uma série de trapalhadas.

Um suspiro cansado escapou-se do peito do Ega, que arrastava os passos, succumbido:

—E esta senhora, está claro, não sabia então de quem era filha...

O snr. Guimarães encolheu os hombros:

—Nem suspeitava que existissem Maias sobre a face da terra! A Monforte dissera-lhe sempre que o pai era um fidalgo austriaco com quem ella casára na Madeira... Uma mixordia, meu caro senhor, uma mixordia!

—É horrivel! murmurou Ega.

Mas, dizia o snr. Guimarães, que podia tambem fazer a Monforte? Que diabo, era duro confessar á filha: «Olha que eu fugi a teu pai, e elle por causa d'isso matou-se!» Não tanto pela questão de pudor; a rapariga devia perceber que a mãi tinha amantes, ella mesma aos dezoito annos, coitadinha, já tinha um; mas por causa do tiro, do cadaver, do sangue...

—A mim mesmo! exclamou o snr. Guimarães, parando, alargando os braços na rua deserta. A mim mesmo nunca ella fallou do marido, nem de Lisboa, nem de Portugal. Lembra-me até uma occasião em casa da Clemence, que eu alludi a um cavallo lazão, um cavallo de Pedro da Maia, em que ella costumava montar. Animal soberbo! Mas nem mencionei o marido, fallei só do cavallo. Pois senhores, bate com o leque em cima da mesa, grita como uma bicha:—Dites donc, mon cher, vous m'embêtez avec ces histoires de l'autre monde!... Com effeito, bem o podia dizer, eram historias do outro mundo! Para encurtar: estou convencido que nos ultimos tempos ella mesmo julgava que Pedro da Maia nunca existira. Uma insensata! Por fim até bebia... Mas acabou-se! Tinha grande coração, e portou-se muito bem com a Clemence. Parce sepultis!

—É horrivel! murmurou outra vez o Ega, tirando o chapéo, correndo a mão tremula pela testa.

E agora o seu unico desejo era a accumulação incessante de provas, de detalhes. Fallou então d'esses papeis, d'esse cofre da Monforte. O snr. Guimarães não sabia o que elles continham; e não se admiraria se fossem apenas contas de modista, ou pedaços velhos do Figaro em que se fallava d'ella...

—É uma caixita pequena que a Monforte me deu, na vespera de partir para Londres com a filha. Era no tempo da guerra... Já a Maria vivia com o irlandez, tinha mesmo uma pequena, a Rosa. Depois veio a Communa, todos aquelles desastres. Quando a Monforte voltou de Londres eu estava em Marselha. Foi então que a pobre Maria se metteu com o Castro Gomes, creio que para não morrer de fome... Eu recolhi a Paris, mas não vi mais a Monforte, que já estava muito doente... Á Maria, collada então a essa besta do Castro Gomes, um pedante, um rastaquouère mesmo a calhar para a guilhotina, não tornei tambem a fallar. Se a encontrava era um comprimento de longe, como n'outro dia, quando a vi na carruagem com v. exc.a e com o irmão... De sorte que fui ficando com os papeis. Nem a fallar a verdade, com estas coisas todas de politica, me lembrei mais d'elles. E agora ahi estão, ás ordens da familia.

—Se isso não fosse incommodo para v. exc.a, acudiu Ega, eu passava agora pelo seu hotel e levava-os logo commigo...

—Incommodo nenhum! Estamos em caminho, é negocio que fica feito!

Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acabára. Um bater de carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto d'elles passaram duas senhoras, com um rapaz que bracejava, fallando alto do Alencar. O snr. Guimarães tirára lentamente do bolso a charuteira: depois parando, para raspar um phosphoro:

—Então a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como soube ella? Como foi isso?

Ega, que caminhava com a cabeça cahida, estremeceu como se acordasse. E começou a tartamudear uma historia confusa, de que elle mesmo córava na sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. Fôra o procurador que descobrira. Ella rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os Maias davam-lhe uma mezada; e vivia nos Olivaes, muito retirada, como filha d'um Maia que morrera na Italia. Todos gostavam muito d'ella, Affonso da Maia tinha grande ternura pela pequena...

E de repente indignou-se com estas invenções por onde arrastava já o nome do nobre velho, exclamou como se abafasse:

—Emfim, nem eu sei, um horror!

—Um drama! resumiu gravemente o snr. Guimarães.

E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento emquanto elle corria acima buscar os papeis da Monforte.

Só, no largo, Ega ergueu as mãos ao céo n'um desabafo mudo d'aquella angustia em que caminhava, como um somnambulo, desde o Loreto. E a sua unica sensação, bem clara—era a indestructivel certeza da historia do Guimarães, tão compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse e se fizesse cahir aos pedaços. O homem conhecera Maria Monforte em Lisboa, ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavallo lazão; encontrára-a em Paris já fugida, depois da morte do primeiro amante, vivendo com outros; andára então ao collo com Maria Eduarda a quem se davam bonecas... E desde então não deixára mais de vêr Maria Eduarda, de a seguir: em Paris; no convento de Tours; em Fontainebleau com o irlandez; nos braços de Castro Gomes; n'uma tipoia de praça emfim com elle e com Carlos da Maia, havia dias, no caes do Sodré! Tudo isto se encadeava, concordando com a historia contada por Maria Eduarda. E de tudo resaltava esta certeza monstruosa:—Carlos amante da irmã!

Guimarães não descia. No segundo andar surgira uma luz viva, n'uma janella aberta. Ega recomeçou a passear lentamente pelo meio do largo. E agora, pouco a pouco, subia n'elle uma incredulidade contra esta catastrophe de dramalhão. Era acaso verosimil que tal se passasse, com um amigo seu, n'uma rua de Lisboa, n'uma casa alugada á mãi Cruges?... Não podia ser! Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia-Idade! Mas n'uma sociedade burgueza, bem policiada, bem escripturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papeis, com tanto registro de baptismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser! Não! Não estava no feitio da vida contemporanea que duas crianças separadas por uma loucura da mãi, depois de dormirem um instante no mesmo berço, cresçam em terras distantes, se eduquem, descrevam as parabolas remotas dos seus destinos—para quê? Para virem tornar a dormir juntas no mesmo ponto, n'um leito de concubinagem! Não era possivel. Taes coisas pertencem só aos livros, onde vêm, como invenções subtis da arte, para dar á alma humana um terror novo... Depois levantava os olhos para a janella alumiada—onde o snr. Guimarães decerto rebuscava os papeis na mala. Alli estava porém esse homem com a sua historia—em que não havia uma discordancia por onde ella pudesse ser abalada!... E pouco a pouco aquella luz viva, sahida do alto, parecia ao Ega penetrar n'essa intrincada desgraça, aclaral-a toda, mostrar-lhe bem a lenta evolução. Sim, tudo isso era provavel no fundo! Essa criança, filha d'uma senhora que a levára comsigo, cresce, é amante d'um brazileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. N'um bairro visinho vive outro filho d'essa mulher, por ella deixado, que cresceu, é um homem. Pela sua figura, o seu luxo, elle destaca n'esta cidade provinciana e pelintra. Ella por seu lado, loura, alta, esplendida, vestida pela Laferrière, flôr d'uma civilisação superior, faz relêvo n'esta multidão de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho pessoal, muito fatalmente se attrahem! Ha nada mais natural? Se ella fosse feia e trouxesse aos hombros uma confecção barata da loja da America, se elle fosse um mocinho encolhido de chapéo côco, nunca se notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o conhecerem-se era certo, o amarem-se era provavel... E um dia o snr. Guimarães passa, a verdade terrivel estala!

A porta do hotel rangeu no escuro, o snr. Guimarães adiantou-se, de boné de sêda na cabeça, com o embrulho na mão.

—Não podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.a É sempre assim quando ha pressa... E aqui temos o famoso cofre!

—Perfeitamente, perfeitamente...

Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulhára n'um velho numero do Rappel. Ega metteu-a no bolso largo do seu paletot: e immediatamente, como se qualquer outra palavra entre elles fosse vã, estendeu a mão ao snr. Guimarães. Mas o outro insistiu em o acompanhar até á esquina da rua do Arsenal, apesar de estar de boné. A noite, para quem vinha de Paris, tinha uma doçura oriental—e elle, com os seus habitos de jornalista, nunca se deitava senão tarde, ás duas, tres horas da madrugada...

E então, caminhando devagar, com as mãos nos bolsos e o charuto entre os dentes, o snr. Guimarães voltou á politica e ao sarau. A poesia do Alencar (de que esperára muito por causa do titulo, A Democracia) sahira-lhe consideravelmente chôcha.

—Muita flôr, muita farofia, muita liberdade, mas não havia alli um ataque em fórma, duas ou tres boas estocadas n'esta choldra da monarchia e da côrte... Pois não é verdade?

—Sim, com effeito...—murmurou Ega, olhando ao longe, na esperança d'uma tipoia.

—É como os jornaes republicanos que por ahi ha... Tudo uma palhada, senhores, tudo uma balofice!... É o que eu lhes digo a elles:—«Ó almas do diabo, atacai as questões sociaes!»

Felizmente um trem avançava, rolando devagar, do lado do Terreiro do Paço. Ega, precipitadamente, deu um aperto de mão ao democrata, desejou-lhe uma «boa viagem», atirou ao cocheiro a adresse do Ramalhete. Mas o snr. Guimarães ainda se apoderou da portinhola—para aconselhar ao Ega que fosse a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o apresentar a toda aquella gente... E o snr. Ega veria! Não era cá a grande pose portugueza, d'estes imbecis, d'estes pelintras a darem-se ares, torcendo os bigodes. Lá, na primeira nação do mundo, tudo era alegria e fraternidade e espirito a rodos...

—E a minha adresse, na redacção do Rappel! Bem conhecida no mundo! Emquanto ao embrulhosinho fico descançado...

—Póde v. exc.a ficar descançado!

—Criado de v. exc.a... Os meus comprimentos á snr.a D. Maria!

Na carruagem, através do Aterro, a anciosa interrogação do Ega a si mesmo foi—«que hei de fazer?» Que faria, santo Deus, com aquelle segredo terrivel que possuia, de que só elle era senhor, agora que o Guimarães partia, desapparecia para sempre? E antevendo com terror todas as angustias em que essa revelação ia lançar o homem que mais estimava no mundo—a sua instinctiva idéa foi guardar para sempre o segredo, deixal-o morrer dentro em si. Não diria nada; o Guimarães sumia-se em Paris; e quem se amava continuava a amar-se!... Não crearia assim uma crise atroz na vida de Carlos—nem soffreria elle, como companheiro, a sua parte d'essas afflicções. Que coisa mais impiedosa, de resto, que estragar a vida de duas innocentes e adoraveis creaturas, atirando-lhes á face uma prova de incesto!...

Mas, a esta idéa de incesto, todas as consequencias d'esse silencio lhe appareceram, como coisas vivas e pavorosas, flammejando no escuro diante dos seus olhos. Poderia elle tranquillamente testemunhar a vida dos dois—desde que a sabia incestuosa? Ir á rua de S. Francisco, sentar-se-lhes alegremente á mesa, entrevêr através do reposteiro a cama em que ambos dormiam—e saber que esta sordidez de peccado era obra do seu silencio? Não podia ser... Mas teria tambem coragem de entrar ao outro dia no quarto de Carlos, e dizer-lhe em face—«Olha que tu és amante de tua irmã?»

A carruagem parára no Ramalhete. Ega subiu, como costumava, pela escada particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Accendeu a sua palmatoria; entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos; deu alguns passos timidos no tapete, que pareceram já soar tristemente. Um reflexo d'espelho alvejou ao fundo na sombra da alcova. E a luz cahiu sobre o leito intacto, com a sua longa colcha lisa, entre os cortinados de sêda. Então a idéa que Carlos estava áquella hora na rua de S. Francisco, dormindo com uma mulher que era sua irmã, atravessou-o com uma cruel nitidez, n'uma imagem material, tão viva e real, que elle viu-os claramente, de braços enlaçados, e em camisa... Toda a belleza de Maria, todo o requinte de Carlos desappareciam. Ficavam só dois animaes, nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como cães, sob o impulso bruto do cio!

Correu para o seu quarto, fugindo áquella visão a que o escuro do corredor, mal dissipado pela luz tremula, accentuava mais o relêvo. Aferrolhou a porta; accendeu á pressa sobre o toucador, uma depois da outra, com a mão agitada, as seis velas dos candelabros. E agora apparecia-lhe mais urgente, inevitavel, a necessidade de contar tudo a Carlos. Mas ao mesmo tempo sentia em si, a cada instante, menos animo para chegar, encarar Carlos, e destruir-lhe a felicidade e a vida com uma revelação d'incesto. Não podia! Outro que lh'o dissesse! Elle lá estava depois para o consolar, tomar metade da sua dôr, carinhoso e fiel. Mas o desgosto supremo da vida de Carlos não viria de palavras cahidas da sua boca!... Outro que lh'o dissesse! Mas quem? Mil idéas passavam na sua pobre cabeça, incoherentes e tontas. Pedir a Maria que fugisse, desapparecesse... Escrever uma carta anonyma a Carlos, com a detalhada historia do Guimarães... E esta confusão, esta anciedade ia-se resolvendo lentamente em odio ao snr. Guimarães. Para que fallára áquelle imbecil? Para que insistira em lhe confiar papeis alheios? Para que lh'o apresentára o Alencar? Ah! se não fosse a carta do Damaso... Tudo provinha do maldito Damaso!

Agitando-se pelo quarto, ainda de chapéo, os seus olhos cahiram n'um sobrescripto pousado sobre a mesa de cabeceira. Reconheceu a letra do Villaça. E nem a abriu... Uma idéa sulcára-o de repente. Contar tudo ao Villaça!... Porque não? Era o procurador dos Maias. Nunca para elle houvera segredos n'aquella casa. E esta complicação singular d'uma senhora da familia, considerada morta e que surge inesperadamente—a quem a pertencia aclarar senão ao fiel procurador, ao velho confidente, ao homem que, por herança e por destino, recebera sempre todos os segredos e partilhára todos os interesses domesticos?... E sem pensar, sem aprofundar mais, fixou-se logo n'esta decisão salvadora,—que ao menos o socegava, lhe tirava já do coração um peso de ferro, suffocante e intoleravel...

Devia acordar cedo, procurar Villaça em casa. Escreveu n'uma folha de papel—«Acorda-me ás sete». E desceu abaixo, ao longo corredor de pedra onde dormiam os criados, dependurou este recado na chave do quarto do escudeiro.

Quando subiu, mais calmo,—abriu então a carta do Villaça. Era uma curta linha lembrando ao amigo Ega que a letrinha de duzentos mil reis, no Banco Popular, se vencia d'ahi a dois dias...

—Sêbo, tudo se junta! exclamou Ega furioso, atirando a carta amarrotada para o chão.


VII



Pontual, ás sete horas, o escudeiro acordou Ega. Ao rumor da porta elle sentou-se na cama com um salto—e logo todos os negros cuidados da vespera, Carlos, a irmã, a felicidade d'aquella casa acabada para sempre, se lhe ergueram n'alma em sobresalto, como despertando tambem. A portada da varanda ficára aberta; um ar silencioso e livido de madrugada clareava através do transparente de fazenda branca. Durante um momento Ega ficou olhando em redor, arrepiado; depois, sem coragem, remergulhou nos lençoes, gozando aquelle bocado de calor e de conchêgo antes d'ir affrontar fóra as amarguras do dia.

E pouco a pouco, sob o tepido conchêgo dos cobertores em que se atabafára, começou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos util, essa correria estremunhada a casa do Villaça... De que servia procurar o Villaça? Não se tratava alli de dinheiro, nem de demandas, nem de legalidade—de nada que reclamasse a experiencia d'um procurador. Era apenas introduzir um burguez mais n'um segredo tão terrivelmente delicado que elle mesmo se assustava de o saber. E acochado mais sob a roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava comsigo: «É uma tolice ir ao Villaça!»

De resto não poderia elle ajuntar em si bastante coragem para contar tudo a Carlos, logo, n'essa manhã, claramente, virilmente? Era por fim aquelle caso tão pavoroso como lhe parecera na vespera—um irreparavel desabamento d'uma vida de homem?... Ao pé da quinta da mãe, em Celorico, no logar de Vouzeias, houvera um successo parecido, dois irmãos que innocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para os banhos. Os noivos ficaram uns dias «embatucados», como dizia o padre Seraphim; mas por fim já riam, muito amigos, muito divertidos, quando se tratavam de «manos». O noivo, um rapagão bonito, contava depois «que ia havendo uma mixordia na familia». Aqui o engano seguira mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus corações permaneciam livres de toda a culpa, innocentes absolutamente. Porque ficaria pois a existencia de Carlos para sempre estragada? A inconsciencia impedia-lhe o remorso: e passado o primeiro horror, de que lhe podia, na realidade, vir a definitiva dôr? Sómente do prazer ter findado. Era então como outro qualquer desgosto d'amor. Bem menos atroz do que se Maria o tivesse trahido com o Damaso!

De repente a porta abriu-se, Carlos appareceu exclamando:

—Então que madrugada foi esta? Disse-me agora lá em baixo o Baptista... É aventura? duello?

Trazia o paletot todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a gravata branca da vespera; e decerto chegára da rua de S. Francisco na tipoia que havia instantes Ega sentira parar na calçada.

Elle sentára-se bruscamente na cama; e estendendo a mão para os cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na véspera combinára uma ida a Cintra com o Taveira... Por precaução mandára-se chamar... Mas não sabia, acordára cansado...

—Que tal está o dia?

Justamente Carlos fôra correr o transparente da janella. Ahi, na mesa de trabalho, collocada em plena luz, ficára a caixa da Monforte embrulhada no Rappel. E Ega pensou n'um relance:—«Se elle repara, se pergunta, digo tudo!»—O seu pobre coração pôz-se a bater anciosamente no terror d'aquella decisão. Mas o transparente um pouco pêrro subiu, uma facha de sol banhou a mesa—e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um immenso allivio para o Ega.

—Então, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos pés da cama. Com effeito não é má idéa... A Maria ainda hontem esteve tambem a fallar d'ir a Cintra... Espera! Podiamos fazer a patuscada juntos... Iamos no break, a quatro!

E olhava já o relogio, calculando o tempo para atrellar, avisar Maria.

—O peor, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monoculo, é que o Taveira fallou em irmos com umas raparigas...

Carlos encolheu os hombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres para Cintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, vá... Mas á luz do Senhor! Talvez com a Lola gorda, hein?...

Ega embrulhou-se n'uma complicada historia, limpando o monoculo á ponta do lençol. Não eram hespanholas... Pelo contrario, umas costureiras, raparigas sérias... Elle tinha um compromisso antigo d'ir a Cintra com uma d'ellas, filha d'um Simões, um estofador que fallira... Gente muito séria!...

Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da idéa de Cintra.

—Bem, acabou-se!... Vou então tomar banho e depois a negocios... E tu, se fôres, traze-me umas queijadas para a Rosa, que ella gosta!...

Apenas Carlos sahiu, Ega cruzou os braços desanimado, descorçoado, sentindo bem que não teria coragem nunca de «dizer tudo». Que havia de fazer?... E de novo, insensivelmente, se refugiou na idéa de procurar o Villaça, entregar-lhe o cofre da Monforte. Não havia homem mais honesto, nem mais pratico; e, pela mesma mediocridade do seu espirito burguez, quem melhor para encarar aquella catastrophe sem paixão e sem nervos?... E esta falta de nervos do Villaça fixou-o definitivamente.

Saltou então da cama, n'uma impaciencia, repicou a campainha. E emquanto o criado não entrava, foi, com o robe-de-chambre aos hombros, examinar o cofre da Monforte. Parecia com effeito uma velha caixa de charutos, embrulhada n'um papel de dobras já sujas e gastas, com marcas de lacre onde se distinguia uma divisa que seria decerto a da Monforte—Pro amore. Na tampa tinha escripto n'uma letra de mulher mal-ensinada—Monsieur Guimaran, à Paris. Ao sentir os passos do criado deitou-lhe por cima uma toalha, que pendia ao lado, n'uma cadeira. E d'ahi a meia hora rolava pelo Aterro n'uma tipoia descoberta, mais animado, respirando largamente aquelle bello ar da manhã, fino e fresco, que elle tão raras vezes gozava.

Começou por uma contrariedade. Villaça já sahira: e a criada não sabia bem se elle fôra para o escriptorio, se a uma vistoria ao Alfeite... Ega largou para o escriptorio, na rua da Prata. O snr. Villaça ainda não viera...

—E a que horas virá?

O escrevente, um rapaz macilento que torcia nervosamente sobre o collete uma corrente de coral, balbuciou que o snr. Villaça não devia tardar, se não tivesse atravessado, no vapor das nove, para o Alfeite... Ega desceu desesperado.

—Bem, gritou ao cocheiro, vai ao café Tavares...

No Tavares, ainda solitario áquella hora, um moço areava o sobrado. E emquanto esperava o almoço Ega percorreu os jornaes. Todos fallavam do sarau, em linhas curtas, promettendo detalhes criticos, mais tarde, sobre esse brilhante torneio artistico. Só a Gazeta Illustrada se alargava, com phrases sérias, tratando o Rufino de grandioso o Cruges de esperançoso: no Alencar a Gazeta separava o philosopho do poeta; ao philosopho a Gazeta lembrava com respeito que nem todas as aspirações ideaes da philosophia, bellas como miragens de deserto, são realisaveis na pratica social; mas ao poeta, ao creador de tão formosas imagens, de tão inspiradas estancias, a Gazeta desafogadamente bradava—«bravo! bravo!» Havia ainda outras abominaveis sandices. Depois seguia-se a lista das pessoas que a Gazeta se recordava de ter visto, entre as quaes «destacava com o seu monoculo o fino perfil de João da Ega, sempre brilhante de verve.» Ega sorriu, cofiando o bigode. Justamente o bife chegava, fumegante, chiando na frigideirinha de barro. Ega pousou a Gazeta ao lado, dizendo comsigo: «Não é nada mal feito, este jornal!»

O bife era excellente:—e depois d'uma perdiz fria, d'um pouco de dôce de ananaz, d'um café forte, Ega sentiu adelgaçar-se emfim aquelle negrume que desde a vespera lhe pesava n'alma. No fim, pensava elle, accendendo o charuto e lançando os olhos ao relogio, n'aquelle desastre praticamente encarado só havia para Carlos a perda d'uma bella amante. E essa perda, que agora o angustiava, não traria depois compensações? O futuro de Carlos até ahi tinha uma sombra—aquella promessa de casamento que irreparavelmente o collava pela honra a uma mulher muito interessante, mas com um passado cheio de brazileiros e de irlandezes... A sua belleza poetisava tudo: mas quanto tempo mais duraria esse encanto, o seu brilho de deusa pisando a terra?... Não seria por fim aquella descoberta do Guimarães uma libertação providencial? D'ahi a annos Carlos estaria consolado, sereno como se nunca tivesse sofrido—e livre, e rico, com o largo mundo diante de si!

O relogio do café deu dez horas. «Bem, vamos a isto», pensou Ega.

De novo a tipoia bateu para a rua da Prata. O snr. Villaça ainda não viera, o escrevente estava realmente pensando que o snr. Villaça fôra ao Alfeite. E diante d'esta incerteza, de repente, Ega ficou de novo descorçoado, sem coragem. Despediu a tipoia: com o embrulho do cofre na mão foi andando pela rua do Ouro, depois até ao Rocio, parando distrahidamente diante d'um ourives, lendo aqui e além a capa d'um livro na vitrine dos livreiros. Pouco a pouco o negrume da vespera, um momento adelgaçado, recahia-lhe n'alma mais denso. Já não via as «libertações» nem as «compensações». Só sentia em torno de si, como fluctuando no ar, aquelle horror—Carlos a dormir com a irmã.

Voltou pela rua da Prata, de novo subiu a suja escadaria de pedra; e logo no patamar, diante da porta de baeta verde, deu com o Villaça que sahia, atarefado, calçando as luvas.

—Homem, até que emfim!

—Ah! Era o amigo que me tinha procurado?... Pois tenha paciencia, que está o visconde do Torral á minha espera...

Ega quasi o empurrou. Qual visconde!... Tratava-se d'uma coisa muito urgente, muito séria! Mas o outro não se arredava da porta, acabando de calçar a luva, com o mesmo ar vivo de negocio e de pressa.

—O amigo bem vê... Está o homem á espera! É um rendez-vous para as onze!

Ega, já furioso, agarrou-lhe a manga, murmurou-lhe junto á face, tragicamente, que se tratava de Carlos, d'um caso de vida ou de morte! Então o Villaça, n'um grande espanto, atravessou bruscamente o escriptorio, fez entrar Ega n'um cubiculo ao lado, estreito como um corredor, com um canapé de palhinha, uma mesa onde os livros tinham pó, e um armario ao fundo. Fechou a porta, atirou o chapéo para a nuca:

—Então que é?

Ega, com um gesto, indicou fóra o escrevente que podia escutar. O procurador abriu a porta, gritou ao rapazola que voasse ao Hotel Pelicano pedir ao snr. visconde do Torral a fineza de esperar meia hora... Depois, fechada a porta no ferrolho, foi a mesma exclamação anciosa:

—Então que é?

—É um horror, Villaça, um grande horror... Nem eu sei por onde hei de começar.

Villaça, já muito pallido, pousou lentamente o guardachuva sobre a mesa.

—É duello?

—Não... É isto... Você sabia que o Carlos tinha relações com uma snr.a Mac-Gren que veio o inverno passado a Portugal, ficou ahi?...

Uma senhora brazileira, mulher d'um brazileiro, que passára o verão nos Olivaes?... Sim, Villaça sabia. Fallára até n'isso com o Eusebiosinho.

—Ah, com o Eusebio?... Pois não é brazileira! É portugueza, e é irmã d'elle!

Villaça cahiu para o canapé, batendo as mãos n'um assombro.

—Irmã do Eusebio!

—Qual do Eusebio, homem!... Irmã de Carlos!

Villaça ficára mudo, sem comprehender, com os olhos terrivelmente arregalados para o outro, que se movia pelo cubiculo, repetindo: «irmã! irmã legítima!» Ega por fim sentou-se no canapé de palhinha; e baixo, muito baixo, apesar da solidão do escriptorio, contou o seu encontro com o Guimarães no sarau, e como a verdade terrivel estalára casualmente, n'uma palavra, á esquina do Alliança... Mas quando fallou dos papeis, entregues pela Monforte ao Guimarães, ha tantos annos guardados, nunca reclamados, e que o democrata agora, tão de repente, tão urgentemente, queria restituir á familia—Villaça, até ahi esmagado e como emparvecido, despertou, teve uma explosão:

—Ahi ha marosca! Tudo isso é para apanhar dinheiro!...

—Apanhar dinheiro! Quem?

—Quem!? exclamou Villaça de pé, arrebatadamente. Essa senhora, esse Guimarães, essa tropa!... É que o amigo não percebe! Se apparecer uma irmã do Maia, legitima e authentica, são quatrocentos contos e pico que cabem á irmã do Maia!...

Então os dois ficaram-se devorando com os olhos, na forte impressão d'aquella idéa inesperada que a seu pezar abalava o Ega. Mas como o procurador, tremulo, voltava á grande somma de quatrocentos contos, lembrava a Companhia do Olho Vivo, Ega terminou por encolher os hombros:

—Isso não tem verosimilhança nenhuma! Ella é incapaz, absolutamente incapaz, de semelhante intriga. Além d'isso, se é uma questão de dinheiro, que necessidade tinha de se fazer passar como irmã desde que Carlos lhe promettera casar com ella?

Casar com ella! Villaça erguia as mãos, não queria acreditar. O quê! o snr. Carlos da Maia dar a sua mão, o seu nome, a essa creatura amigada com um brazileiro!?... Santissimo nome de Deus! E através do assombro recrescia-lhe a desconfiança, via ahi um novo feito do Olho Vivo.

—Não senhor, Villaça, não senhor! insistiu Ega, já impaciente. Se a questão é de documentos e se ella os tinha, verdadeiros ou falsificados, apresentava-os logo, não ia primeiro dormir com o irmão!

Villaça baixou lentamente os olhos para o sobrado. Um terror invadia-o diante d'aquella grande casa, que era o seu orgulho, partida em metade, empolgada por uma aventureira... Mas como o Ega, muito nervoso, lembrava que de resto a questão não era de documentos, nem de legalidade, nem de fortuna—o procurador teve outro grito, com a face de novo alumiada:

—Espere, homem, ha outra coisa!... Talvez ella seja filha do italiano!

—E então?... Vem a dar na mesma.

—Alto lá! berrou o procurador, batendo com o punho na mesa. Não tem direito á legitima do pai, e não apanha um real d'esta casa!... Irra, ahi é que está o ponto!

Ega teve um gesto desolado. Não, nem isso, desgraçadamente! Esta era a filha do Pedro da Maia. O Guimarães conhecia-a de a trazer ao collo, de lhe dar bonecas quando ella tinha sete annos, e quando apenas havia quatro ou cinco annos que o italiano estivera em Arroios, de cama, com uma chumbada... A filha d'esse morrera em Londres, pequenina.

Villaça recahiu no canapé, succumbido.

—Quatrocentos contos, que bolada!

Então Ega resumiu. Se não existia ainda uma certeza legal, havia já uma forte suspeita. E desde logo não se podia deixar o pobre Carlos, innocentemente, a chafurdar n'aquella sordidez. Era pois indispensavel revelar tudo a Carlos n'essa noite...

—E você, Villaça, é que tem de lh'o dizer.

Villaça deu um salto que fez bater o canapé contra a parede.

—Eu!?

—Você, que é o procurador da casa!

Que havia alli, senão uma questão de filiação, portanto de legitima? A quem pertenciam esses detalhes legaes senão ao procurador?

Villaça murmurou com todo o sangue na face:

—Homem, o amigo mette-me n'uma!...

Não. Ega mettia-o apenas n'aquillo em que o Villaça, como procurador, logicamente e profissionalmente devia estar.

O outro protestou, tão perturbado que gaguejava. Que diabo! Não era esquivar-se aos seus deveres! Mas é que elle não sabia nada! Que podia dizer ao snr. Carlos da Maia? «O amigo Ega veio-me contar isto, que lhe contou um tal Guimarães hontem á noite no Loreto...» Não tinha a dizer mais nada...

—Pois diga isso.

O outro encarou Ega com olhos que chammejavam:

—Diga isso, diga isso... Que diabo, senhor, é necessario ter topete!

Deu um puxão desesperado ao collete, foi bufando até ao fundo do cubiculo, onde esbarrou com o armario. Voltou, tornou a encarar o Ega:

—Não se vai a um homem com uma coisa d'essas sem provas... Onde estão as provas?...

—Ó Villaça, desculpe, você está obtuso!... A que vim eu aqui senão trazer-lhe as provas, as que ha, boas ou más, a historia do Guimarães, essa caixa com os papeis da Monforte?...

Villaça, que resmungava, foi examinar a caixa, virando-a nas mãos, decifrando o mote do sinete Pro amore.

—Então, abrimol-a?

Já Ega puxára uma cadeira para a mesa. Villaça cortou o papel, gasto nos cantos, que envolvia o cofre. E appareceu effectivamente uma velha caixa de charutos pregada com duas taxas, cheia de papeis, alguns em maços apertados por fitas, outros soltos dentro de sobrescriptos abertos que tinham o monogramma da Monforte sob uma corôa de marquez. Ega desembrulhou o primeiro maço. Eram cartas em allemão, que elle não percebia, datadas de Buda-Pesth e de Carlsruhe.

—Bem, isto não nos diz nada... Adiante!

Outro embrulho, a que Villaça cuidadosamente desapertou o nó côr de rosa, resguardava uma caixa oval com a miniatura d'um homem de bigodes e suissas ruivas, entalado na alta gola dourada d'uma farda branca. Villaça achou a pintura «linda».

—Algum official austriaco, rosnou Ega. Outro amante... Ça marche.

Iam tirando os papeis por ordem, com a ponta dos dedos, como tocando em reliquias. Um largo enveloppe atulhado de contas de modistas, algumas pagas, outras sem recibo, interessou profundamente o Villaça—que percorria os items, espantado dos preços, das infinitas invenções do luxo. Contas de seis mil francos! Um só vestido, dois mil francos!... Outro maço trouxe uma surpreza. Eram cartas de Maria Eduarda á mãi, escriptas do convento, n'uma letra redonda e trabalhada como um desenho, com phrasesinhas cheias de gravidade devota, dictadas decerto pelas boas Irmãs; e n'estas composições, virtuosas e frias como themas, o sincero coração da rapariga só transparecia n'alguma florzinha, agora sêcca, pregada no alto do papel com um alfinete.

—Isto põe-se de parte, murmurou Villaça.

Então Ega, já impaciente, esvaziou toda a caixa sobre a mesa, alastrou os papeis. E entre cartas, outras contas, bilhetes de visita, um grande sobrescripto destacou com esta linha a tinta azul:—Pertence a minha filha Maria Eduarda. Foi Villaça que lançou os olhos rapidamente á enorme folha de papel que elle continha, luxuosa e documental, com o monogramma d'ouro sob a corôa de marquez. Quando o passou em silencio para a mão do Ega parecia suffocado, com todo o sangue nas orelhas.

Ega leu-o alto, devagar. Dizia:—«Como a Maria teve a pequena e anda muito fraca, e eu tambem me não sinto nada boa com umas pontadas, parece-me prudente, para o que possa vir a succeder, fazer aqui uma declaração que te pertence a ti, minha querida filha, e que só sabe o padre Talloux (Mr. l'abbé Talloux, coadjuteur à Saint-Roch) porque lh'o disse ha dois annos quando tive a pneumonia. E é o seguinte: Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assignar Maria Calzaski, por suppôr ser esse o nome de seu pai, é portugueza e filha de meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a commigo para Vienna, depois para Paris, e que agora vive em companhia de Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem vai casar. E o pai de meu marido era meu sogro Affonso da Maia, viuvo, que vivia em Bemfica e tambem em Santa Olavia ao pé do rio Douro. O que tudo se póde verificar em Lisboa pois devem lá estar os papeis; e os meus erros de que vejo agora as consequencias não devem impedir que tu, minha querida filha, tenhas a posição e fortuna que te pertencem. E por isso aqui declaro tudo isto que assigno, no caso que o não possa fazer diante d'um tabellião, o que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier a morrer, o que Deus não permitta, peço perdão a minha filha. E assigno com o meu nome de casada—Maria Monforte da Maia

Ega ficou a olhar para o Villaça. O procurador só pôde murmurar, com as mãos cruzadas sobre a mesa:

—Que bolada! Que bolada!

Então Ega ergueu-se. Bem! Agora tudo se simplificava. Havia unicamente a entregar aquelle documento a Carlos, sem commentarios. Mas o Villaça coçava a cabeça, retomado por uma duvida:

—Eu não sei se este papelinho faria fé em juizo...

—Qual fé, qual juizo! exclamou Ega violentamente. É o bastante para que elle não torne a dormir com ella!...

Uma pancada timida na porta do cubiculo fêl-o estacar, inquieto. Desandou a chave. Era o escrevente, que segredou através da frincha:

—O snr. Carlos da Maia ficou agora lá em baixo no carrinho quando eu entrei, perguntou pelo snr. Villaça.

Houve um pânico! Ega, atarantado, agarrára o chapéo do Villaça. O procurador atirava ás mãos ambas, para dentro d'uma gaveta, os papeis da Monforte.

—É talvez melhor dizer que não está, lembrou o escrevente.

—Sim, que não está! foi o grito abafado de ambos.

Ficaram á escuta, ainda pallidos. O dog-cart de Carlos rolou na calçada; os dois amigos respiraram. Mas agora Ega arrependia-se de não terem mandado subir Carlos—e alli mesmo, sem outras vacillações nem pieguices, corajosamente, contarem-lhe tudo, diante d'aquelles papeis bem abertos. E estava saltado o barranco!

—Homem, dizia o Villaça passando o lenço pela testa, as coisas querem-se devagar, com methodo. É necessario preparar-se a gente, respirar para dar bem o mergulho...

Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros papeis da caixa perdiam o interesse depois d'aquella confissão da Monforte. Só restava que Villaça apparecesse á noite no Ramalhete ás oito e meia, ou nove horas, antes de Carlos sahir para a rua de S. Francisco.

—Mas o amigo ha de lá estar! exclamou o procurador, já aterrado.

Ega prometteu. Villaça teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde viera acompanhar o outro:

—Uma d'estas, uma d'estas!... E eu ainda, tão contente, a jantar no Ramalhete...

—E eu, com elles, na rua de S. Francisco!...

—Emfim, até á noite!

—Até á noite.

Ega não se atreveu n'esse dia a voltar ao Ramalhete, a jantar diante de Carlos, a vêr-lhe a alegria e a paz—sentindo aquella negra desgraça que descia sobre elle á maneira que a noite descia. Foi pedir as sopas ao marquez, que desde o sarau se conservava em casa, de garganta entrapada. Depois, ás oito e meia, quando calculou que Villaça devia estar já no Ramalhete, deixou o marquez que se enfronhára com o capellão n'uma partida de damas.

Aquelle lindo dia, toldado de tarde, findára n'uma chuvinha miuda que transia as ruas. Ega tomou uma tipoia. E parava no Ramalhete, já terrivelmente nervoso, quando avistou Villaça no portal, de guardachuva sob o braço, arregaçando as calças para sahir.

—Então? gritou-lhe o Ega.

Villaça abriu o guardachuva, para murmurar debaixo, mas em segredo:

—Não foi possivel... Disse que tinha muita pressa, que não me podia ouvir.

Ega bateu o pé, desesperado:

—Oh homem!

—Que quer o amigo? Havia de o agarrar á força? Ficou para ámanhã... Tenho de cá estar ámanhã ás onze horas.

Ega galgou as escadas, rosnando entre dentes: «Irra! não sahimos d'esta!» Foi até ao escriptorio de Affonso. Mas não entrou. Através d'uma fenda larga do reposteiro meio franzido, um canto da sala apparecia, quente e cheio de conchêgo, no dôce tom côr de rosa da luz cahindo sobre os damascos: as cartas esperavam na mesa do whist: no sofá bordado a matiz D. Diogo, murcho e molle, olhava o lume, cofiando os bigodes. E, travadas n'alguma questão, a voz do Craft, que perpassou de cachimbo na mão, e a voz mais lenta de Affonso, tranquillo na sua poltrona, misturavam-se, abafadas pela do Sequeira, que berrava furiosamente:—«Mas se ámanhã houvesse uma bernarda, esse exercito com que os senhores querem acabar por ser uma escóla de vadiagem é que lhes havia de guardar as costas... É bom fallar, ter muita philosophia! Mas quando ellas chegam, se não ha meia duzia de baionetas promptas, então são as cólicas!...»

Ega foi d'alli aos quartos de Carlos. As velas ardiam ainda nas serpentinas: um aroma errava de agua de Lubin e charuto: e o Baptista disse-lhe que o snr. D. Carlos «sahira havia dez minutos». Fôra para a rua de S. Francisco! Ia lá dormir! Então enervado, com a longa e triste noite diante de si, Ega teve um appetite de se atordoar, dissipar n'uma excitação forte as idéas que o torturavam. Não despedira a tipoia, abalou para S. Carlos. E findou por ir cear ao Augusto com o Taveira e duas raparigas, a Paca e a Carmen Philosopha, prodigalisando o champagne. Ás quatro da manhã estava bebedo, estatelado sobre o sofá, gemendo sentimentalmente, só para si, as estrophes de Musset á Malibran... O Taveira e a Paca, juntinhos na mesma cadeira, elle com o seu ar terno de chulo, ella muy caliente tambem, debicavam copinhos de gelatina. E a Carmen Philosopha, empanturrada, desapertada, com o collete embrulhado já n'um Diario de Noticias, repicava a faca na borda do prato, cantarolando d'olhos perdidos nos bicos de gaz: