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Os Pobres / Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro cover

Os Pobres / Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

Chapter 23: XVII O QUE É A VIDA?
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About This Book

The work assembles impressionistic sketches and meditative scenes that portray material deprivation alongside interior experience. Through lyrical, often visionary prose it interweaves portraits of humble lives with philosophical reflections on nature, suffering and the human soul. Structurally it favors vignette-like narratives, lyrical digressions and autobiographical reverie rather than a conventional plot, privileging psychological and sensory impressions. The tone shifts between anguished interrogation and reverent awe, probing moral unease and spiritual longing while attending closely to earthly hardship and metaphysical wonder.

XV

FALA


Falo. De subito a minha vida surgiu-me como um d'esses dias d'inverno, pardos e monotonos, em que até o resquicio de sonho, que acaso coube em sorte ás pedras, se concentra adormecido. Seccou-me na bocca o riso que ia rir, e accudiram-me idéas em que nunca tinha reflectido... Alguem abala uma arvore até ás suas ultimas raizes. Arranca-a. O grito que a terra revolvida dá foi o meu grito.


Dêm-me a vida que devem viver os sêres e as coisas, a quem ninguem ensina a vida: que bebem a largos sorvos a existencia: em quem a vida corre desordenada e esplendida. Quero emfim isto: sêr: não fingir, mas sêr, não viver da tua vida, mas da minha propria vida.


O momento em que tu deparas, a sós, com a tua alma, que até ahi não tinhas encontrado, toca a loucura--mas depois ouves falar dentro em ti tudo que estava para sempre adormecido...

O que é isto--o escarneo? D'onde vem isto ao mundo? Riem por ventura as arvores? E os montes e os rios tambem riem? O escarneo torce o coração. Riram-se de mim! riram-se de mim!


Surraram-me, seccaram-me. O que eu sei é aprendido, vão, construido de palavras que não são minhas. Nada conheço da vida.


O homem só é feliz quando é elle. Os outros é que o empurram para a desgraça. O homem precisa de se encontrar.


Entras na vida e modelam-te: mestres, amigos, livros, amassam-te e modelam-te. Para quê? Para te fazerem feliz--dizem. Deixem-me ser desgraçado á minha vontade!...


Qualquer arvore incha, cresce e por tal fórma se liga á terra, pelas suas raizes, que a esfuranca como nem o ferro do arado a lavra. Só na minha vida não ha raizes. Amigos não os tenho nem os quero, e tudo me parece pardo e inutil.

Ainda a natureza me prende: fico horas a ver um charco e nunca me commovi como deante da arvore mais humilde.


A desgraça que eu tenho encontrado não é a desgraça, nem isto é a felicidade: quero tragar a vida amarga, mysteriosa, profunda, toda a vida; quero o meu quinhão tal como o têm os miserrimos bichos, os montes ignorados e os pobres...

Ou vou morrer sem ter vivido.


Só em pequeno é que eu senti correr em mim a vida. Guardo ainda o cheiro á essencia dos pinheiros mansos, que eu vi ha muitos annos, o cheiro a bravio que o matto orvalhado tinha de manhã, e que me fazia scismar na vida feliz dos lobos e dos bichos, que respiram o ar livre e são; que dormem sem cuidados nas tocas ou nas sombras fôfas; que matam sem remorsos.

O nosso quintal! No alto ha um muro branco, uma cancella, uma mouta de pinheiros sempre verdes e em dialogo com o mar. Antes d'entrar, voltae-vos... Que immensa serenidade sahe d'esta paizagem!... Mar azul e céo azul confundem-se: tudo é poeira azul. A luz palpita. Um risco d'areal: ao largo talvez um barco e longe montes sem habitações, cobertos de pinheiros, esburacados de sombras, solitarios, fazendo pensar n'uma vida selvagem, livre, n'um paiz sem leis.

Eis o quintal: uma horta com arvores. A principio lembra um labyrintho, uma labareda verde. As couves são do tamanho d'arvores e a agua sussurra, mina por toda a parte, em carreirinhos, imbebe á farta a terra negra e gorda. Bordam os canteiros renques d'alfazema, cravos, roseiras de flor singela, e ao fundo ha uma figueira grande, de folhas espalmadas e carnudas que dá uma sombra subterranea. Todo o quintal esfurancado pela agua resôa como um cortiço. Scintillações, rumores por toda a parte, por toda a parte a solidão.

Alli as arvores eram minhas amigas, as coisas conheciam-me e eu vivia d'uma vida convencida, forte, bravia...

Vieram depois as palavras, os mestres, os amigos, e eu nunca mais achei sabor á vida, até que acordei agora com este grito: Nunca vivi!...


Ponho-me a pensar: quantas vezes a felicidade e a desgraça não são verdadeiras, nem sentidas? Mascaras, só mascaras que afivelamos em determinadas occasiões, porque os auctores, os amigos, todo o trama complicado em que nos enredam, nos ensina:--Em tal situação tu serás feliz...

E nós realmente, por habito confessamos:--Sou feliz...

Mas examina-te... No fundo qualquer coisa de amargo remexe...


Fugi. Isolei-me. Não quiz amigos, quiz isto: ser só.

Para que me chamam o Gabiru? Mettido no ultimo andar do Predio, ponho-me a escutar tudo que dentro em mim fala. Esqueci a realidade, para conhecer a realidade. Deitei fóra o que aprendêra, combati commigo mesmo...


Agora vejo a desgraça! agora encontro a desgraça!...



XVI

HISTORIA DO GEBO


Assim a miseria foi crescendo nas mansardas destelhados do Predio, para onde a sorte os atirára n'esse inverno. Muitos dias lhes faltava o pão e o frio era tanto que não sahiam da enxerga. Viviam mais pobres que os pobres e não pediam esmola. Elle sahia logo de manhã escovado, limpo, com a roupa no fio e as botas rotas sem sola. Cheia de tristeza dizia lhe ainda a mulher:

--Homem, vê se te dão um emprego...

--Anh? Eu vejo! eu vejo!... Não te afflijas, mulher.

Um emprego! quem dá ahi pão ao Gebo, amachucado e ridiculo, envelhecido e tropego, e que já mal sabe escrever, de cego e tonto? Aguilhoado, todos os dias se levantava para a humilhação e para a correria atraz d'uns miseros cobres. Era quasi esmola que elle pedia, a chorar--de cabellos brancos estacados.

Um dia andára, rondára, a tresuar d'afflicção. Todos o repelliam. Era em certa terça feira aziaga d'esse inverno enregelado e torvo. Nem andar podia de amargura e cansaço, e via chegar a noite, horas de voltar para o casebre, onde a mulher decerto o esperava anciosa:

--Então? então?.... Arranjaste?

Oh se o Senhor lhe valesse! se o Senhor que tudo vê lhe acudisse na sua miseria profunda! Nada. Todas as portas fechadas, todas as almas fechadas a sete chaves. Então, a chorar, aquelle velho ridiculo e gordo, estendeu a mão a um desconhecido que passava, dizendo palavras desconnexas. Tinham fome em casa... E pediu a um a outro, encolhido, escondido, bebendo as lagrimas, para que lh'as não vissem, n'uma afflicção de rachar pedras. Na mansarda as duas esperavam esse triste e amargurado pão, e elle nem dava pelas ruas por onde caminhava com passos incertos, de bebado. Supplicava n'um choro humilde, e n'essa noite--terça aziaga--se o Gebo ainda tinha vaidade ficou-lhe aos farrapos na lama.

--Então? arranjaste?

--Valha-me Deus! cá está, mulher! cá está!... Apezar dos ralhos, todos tres se queriam d'um profundo, d'um admiravel amor. A desgraça anniquilava-os juntando-os. Deixava um de comer, fingindo-se farto, para que o outro tivesse mais pão; se qualquer adoecia, os outros nem dormir podiam, e um dia a mulher emfim tombada, inutil, sem poder erguer-se, chamou Sofia para lhe dizer baixinho:

--Olha se cuidas de teu pae. Nunca o abandones. Foi sempre um santo.

Desde então ninguem mais lhe arrancou palavra. Com os olhos aguados, seguia-os pela casa, até que ficou morta. Acabou gasta de luctar um dia e outro com a desgraça sempre, depois d'uma vida de desespero. Ella era o arrimo, a energia, a força que os sustentava a ambos e impellia para a vida; era ella quem disputava--em vão!--braço a braço com o destino ferreo tentando amparal-os, e arrancando-lhe os ultimos trapos e restos de felicidade. Em dias de fome ella a primeira a fingir-se farta. Ordenava, mandava, batalhava. Matou-a a hora em que teve de despedir-se das arvores do seu quintal, que vira crescer, da agua da bica que correra sempre inexgotavel como as suas lagrimas. Morta deram pela falta que lhes fazia, como só se medem os troncos depois de tombados.


Vestida com o seu ultimo vestido, pelas mãos do Gebo e da filha, ficára branca, mirrada, embebida de serenidade, mais feliz de que os que ficavam. O velho cahira exhausto, a chorar, a um canto, e no casebre toda a noite se ouviu aquelle ruido monotono, triste, infantil. Chorava e scismava:--Amanhã lá tenho de ir á procura de pão...--Sempre a mesma vida, sem tregoas, agora sós os dois e a Desgraça. Quando a mulher era viva, apezar de tranzidos, ainda cuidavam:--Para o anno, talvez para o anno a má sorte se canse de nos perseguir...--E assim se gastára a a ultima energia e os trapos que, de usados, nem sequer aqueciam. Toda a esperança murchára. O velho ouvia risadas na noite profunda e boccas a clamarem:

--Ó Gebo! ó Gebo!...

--Anh? ahi vou! ahi vou!...

Levaram-n'a para a valla commum n'um caixão de pinho e elle ficou abraçado á filha, soluçando.

--Se Deus nos levasse!...

Tropego, velho, cansado, só sabia chorar, e a filha tinha de o levar pela mão como quem guia uma creança.



XVII

O QUE É A VIDA?


O Gabiru não entende a existencia. A sua alma é como uma penha ferida, que se desfaz em agua. Acha-se de repente n'um pelago refervendo oiro. Descobre torrentes impetuosas de odio, torrentes d'escarneo, a Arvore, as estrellas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho. Para onde? para onde corre tudo isto? A Morte ao lado d'uma arvore cheia de flor. Um cahos. Treva e sol, oiro em borbotões, e o homem indifferente... Ao dar de cara com a existencia, transido, ao vêr-se escarnecido entre a Vida, o Gabiru gritou. Pois passa o inverno e a tempestade, vem a primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos ergue? Sob os seus pés a terra move-se, n'um borborinho, toda ella viva; sobre a sua cabeça a abobada do céu arqueja, carregadinha d'estrellas--e o homem queda-se inconsciente? Ha o escarneo, pedras, constellações e o mar profundo e o homem continúa impassivel.

O que é isto? o que é a Vida? o que é este mysterio onde o homem entra como a salamandra no fogo? Pode o homem de repente dar em uma arvore cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezivel charco se espelha o sol e tumultua a materia em combinações infinitas--e o homem segue o seu trilho inconsciente!...

O que é a Vida? o que é a Vida? Uma alma, um sonho? A vida tem realidade? O que pratico sobre a terra é indifferente ou vae repercutir-se algures? Isto é lodo ou fogo, apparencia ou temerosa realidade? E o escarneo e a agua a nascer fulgindo d'entre a terra, o amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto é um turbilhão d'almas e de pedras, d'arvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplendida caminha para um fim de belleza? Ideio n'uma cova, n'um sepulchro fechado, ou vivo da verdadeira existencia?

E os pobres? porque é que os pobres soffrem sem gritos, revolvidos como a terra por este arado ferreo--a dôr? Só se vem a este mundo para gritar?

O Gabirù via-os cheios de resignação seguirem o caminho da vida, cada um com sua cruz, feridos nas pedras asperrimas, sem pão, escarnecidos, tombando sem gritos? Porquê tudo isto? Para que soffrer? E toda a sua philosophia tombára por terra...

Reuniu os desgraçados para saber; foi perguntal-o ao Pitta, ao Sabio, ao Astronomo, aos outros, aos pobres, e n'essa noite veiu gente de todas as bandas da tristeza e do sonho, para lhe explicarem a Vida.

Partindo, para essa reunião, o Pitta e o Sabio falavam:

--Só sabem sonhar e depois...

--São homens extraordinarios, affiançou o Pythagoras.

--Veja você... Querem que se lhes explique, o quê? A Vida! Já o outro é assim.

--O homem do pacho?

--Sim, esse...--e a voz do Pitta transiu-se--Na verdade existem terras prodigiosas, chãos que só dão sonho. Ha sêres inteiramente edificados de nevoa, creaturas cuja alma subterranea se creou na humidade e no silencio, onde nem sequer tomba uma miserrima gotta de luz. A alma assim cresce á solta, branca de certo e com uma forma inexplicavel... São sapos de sonho.

--São sapos imbebidos de sonho. O que pode fazer com que uma creatura se arrede e fuja, não do homem, que não importa, mas d'isto, do convivio com isto,--a luz fulgindo sobre as coisas, a vida tumultuaria como um oceano? Não a vêr, não a ouvir, não a sentir correr continuamente, toda d'oiro e de verde, com mil formas, mil sons differentes... Você comprehende?

--Comprehendo.

--A mais mesquinha terra géra mysterio. É tão admiravel e sempre tão diversa, como isso a que você chama o infinito.

--O quê?

--O infinito. É ainda mais maravilhoso que o proprio maravilhoso, porque a realidade é sempre maior que a phantasia.

--Muito bem... Elle, porem, quer fugir. Eu bem lhe explico e vou já na trigessima licção... Esse homem nasceu com uma alma destinada a uma estatua e coube-lhe em sorte um corpo de mendigo. Eu só o vejo nas trevas...

--É horrivel?

--É. Por isso se fechou e se deitou a sonhar. Eu te conto! eu te conto!

O sabiou parou, olhando-o com admiração:

--Você, Pitta, afinal é um experimentador.

O Pitta sorriu, todo babado para a lua, e depois disse com modestia:

--Sim sou alguma coisa experimentador... Eu te conto. Fechou-se para não sentir a piedade dos outros. Na treva não se vêm olhares de piedade ou risos. Cada um pode esquecer a sua miseria, á forca de a esbrazear. O seu sonho é subterraneo, sabes?

--Sei. É como o das plantas cortadas, só raiz, e que ficam vivas debaixo da terra, com a vida sufficiente para sonharem em crescer e botar flor. No tumulo scismam no ar azul--e nunca deitam haste.

--Assim é o seu sonho. Depois de que vida desesperada se fechou para sempre? Talvez outrora perdido buscasse á noite alguem como elle, para se amarem... Rondou com os sapos, que só apparecem a noite, porque são grotescos...

--Mas os sapos encontram sapos com quem se põem a falar d'alguma estrella e elle...

--Elle foi feito para viver na solidão. E que fome! e que sede! Agua, se ha agua no universo, o que elle mal presente, quer vel-a jorrar inexgotavel entre as suas mãos, cheia de scintillações e murmurios; montes, se ha montes, quel-os subir e calcar sob os pés; e as arvores, e o ceo, e as mulheres com toda a sua immaterialidade de flor. O pequename vê lá!... Da terra não conhecia nada, quando eu surgi. Mal entreviu o universo para logo se emparedar. Só sabe o que é o sonho. Refugiou-se em soffreguidão no sonho--e sonha tudo. Calafetou-se e ainda hontem, imagina tu, como um fio d'oiro, entrasse por uma fresta, como um cabello de maio, elle teve um sobresalto e disso:--Eis talvez ao que chamam o amor.--Mas aquillo fel-o pensar na sua miseria e tentou em vão quebrar esse fiosinho tenue e resistente. Por fim chorou... Tenho-lhe explicado tudo, a natureza, a vida, mas elle só quer sonhar.

--É que o sonho é o pão dos desgraçados. Todas as creaturas que soffrem refugiam-se no sonho. Roubar-lho seria peor do que tirar-lhes a ultima codea. Essa gente vem da vida espesinhada e sonha; calcam-nos, toca a sonhar...

Meditaram. Depois o Pitta com tristeza affiançou:

--Amigo, só nós é que já não podemos sonhar...

--Nós não, nunca mais podemos sonhar!...


Eil-os reunidos aos desgraçados e todos se põem a falar ao mesmo tempo. Nenhum quer ser o que é, e cada um para seu lado accusa a vida. Ha-os que têm inveja dos poentes, das pedras, das aguas.

--Para quê ser homem?

--Ninguem sabe.

--Quem déra não sentir, andar como anda a essencia do tição ardido, perdida no redemoinho eterno, ora na nuvem, ora na mãe de agua ou no fundo do mar.

--O que é a Vida?

--Sei lá! Talvez uma aspiração, talvez um sonho. Olhae o universo, que amalgama! Tudo se mistura e se enleia... Na raiz do teu sêr que sentes deante do temeroso universo?

--Tudo é chimica,--disse o sabio profundo.

--Eis um sonho,--affiançou gravemente o Pitta.

Só os mais pobres, arredados a um canto não diziam palavra, porque tambem só os pobres na vida sabem soffrer.

--Mas então mais vale a morte.

--Pois mais vale.

Põe-se a discutir e os pobres, sem palavra, ouvem arredados. Ha feições consumidas, olhos fartos de chorar, cabeças simples e grandes de martyres e de santos. Só elles sentem o mysterio da vida; só elles gastos, mudos e contemplativos, mergulham na vida raizes profundas. Os outros dizem palavras, constroem com nuvens. Elles edeficam.

--A vida, concluiu o Astronomo, só vale passando-a a sonhar, embevecido n'uma obra.

--A sonhar não!

--Eu queria ser poeta...--torna um.

--Se eu fosse poeta quereria isto: não fazer um livro, mas crear uma nuvem... E encadernal-a. Oh o leitor, o leitor teria um pasmo. Imagine que tintas e que sonho!... Uma nuvem, pensem n'isto...--disse o Pitta.

Soára a hora da vida, em que, todas as illusões cahidas, se scisma ou na morte ou n'um crime: a theoria em que consumimos annos vividos de existencia, parece-nos, n'essa hora, negra e ardida; o livro revolvido de paixão e de gritos, mirrado; o sonho exhausto: cada um d'esses homens assassinaria para possuir o que haviam sempre desdenhado, o oiro e o poder. Só o Pitta, outr'ora tão materialista, protestava em nome do ideal.

Voltando-se para uma tremenda mulher, toda caiada de branco como um palhaço, a quem chamavam o Corsario, o Sabio começou:

--Só a chimica existe, creia, madama. No fundo de todas as acções e de todos os phenomenos, só encontramos a chimica... Na primavera e no odio. Vocês nunca viram lá fóra onde existem arvores?... Sim ha arvores e aguas... Ahi n'estes dias de chuva a terra é como um laboratorio immenso. Tudo se envolve em agua, arvores, matto, campos ensopados: nos montes corre um oceano: as nuvens liquifazem-se... Billiões de gottas. E de toda esta lama, das folhas seccas arrasto, da terra inerte se obram prodigios: reacções, transformações, a vida emfim. Vocês nunca viram uma grande nuvem verde pousada sobre os campos?... É herva nascendo... Pois é feita de chuva e terra... Das arvores--sabem?--cahem gottas mais grossas e o cheiro a terra molhada e a pinheiro enebria. Imbebem-se os troncos, o humus, as raizes, as pedras, para se desentranharem depois ao sol, n'uma vida furiosa.

--Pois a chimicasinha, disse o Pitta, tem sua importancia... Mas não é tudo: o infinito existe...

--Onde?

--Onde? Onde não sei, mas é lá que vive a alma d'aquella pobre senhora que eu outr'ora amei desesperadamente...

Os pobres do seu canto escutam em silencio, attentos aquellas creaturas nascidas entre pedras e que passam a vida agarradas ao sonho. A cidade, a desgraça e o proprio sonho, constróem os seus typos. Marcam-nos. Triste é chegar aos quarenta annos imbebido n'uma chimera, todo em brazido, e subito haver uma hora em que a verdade irrompe como um punhal. A multidão ri, escancara-se deante do teu poema, do lume que comtigo trouxeste, da tua vida inteira. Quer dizer: se a mulher te appareceu como um fructo, arredaste-a, para só pertenceres á tua obra: o riso desprezaval-o: annos, pendurado n'um telhado, viveste absorto: queimaste o que em ti havia de melhor: déste-lhe os nervos e o cerebro, e quando surgiste emfim, exhaurido, e prégaste á multidão--eil-o o poema!--tudo se riu em torno, e tu mesmo, o que é peor, viste que o brazido da tua obra era apenas terra inutil--pedras. N'essa hora amarga, a tua alma desmoronada e a tua physionomia adquiriram um endurecimento e uma tristeza inexprimiveis: dir-se-hia que ficaste com uma physionomia dilacerada. Começas a fugir de ti mesmo. Nenhum outro sonho te é possivel: só o alcool te dá ainda illusões, e as conversas desesperadas, monologos, gritos, como os teus eguaes, todos os que tombaram do sonho para a terra, agarrados a farrapos d'esse passado radioso, que ainda os illumina, como a mendigos que envolvessem a sua nudez em pedaços arrancados ao poente.

Para o Corsario chegára a velhice: desdenhavam-n'a e ella mergulhava no odio; ao Sabio cahira a sua theoria; o Pitta empobrecera; só o Astronomo vivia alheado. Se haviam pensado no suicidio?... Quantas vezes todos juntos tinham discutido a morte!...

--A nossa desgraça, rompeu o Pitta, é a falta de dinheiro. Com oiro triumphariamos ainda.

--Com oiro! berrou o Corsario.

--É que, respeitavel madama, hoje elle é o unico poder, a grande força. Permitta-me que lhe affiance: é Deus. O oiro é tudo!

Cada um ruminava as suas idêas sem se importar com o Gabiru. Do saguão vinha um rumor de papeis velhos: folhas d'arvore, coisas apodrecidas á sombra, queriam entrar na alluvião eterna.

--Sem oiro mais vale a gente enforcar-se.

--Enforcado não. Lembra um palhaço. É a morte a deitar a lingua de fóra aos vivos, um trapo pendurado... É afflictivo e dá vontade de rir.

--Já tenho pensado n'isso. Eu, por mim, escolheria a agua.

--Um horror, a agua!... O corpo arrolado, a lama das marés...

--Perdão, no mar largo...

--Uma bala, uma bala seria mais prompto. É até elegante. Repare que é a morte dos namorados.

--E o veneno?

--Sempre escolhido pelos principes aborrecidos da existencia, pelos banqueiros fallidos, por todos os que se querem ir embora sem rumor, o veneno a mim atterra-me.

Ficavam um pedaço a scismar. O que os prendia afinal á vida? em que criam? N'esse fim da tarde, chovia e aquillo era lugubre: como que as coisas os empurravam para a morte. Na vida tudo lhes falhára e aos quarenta annos já se não constróem nuvens. Só o Astronomo todo se consummia em sonho: os outros, sentindo-o ainda feliz, puxavam-n'o para o fundo, como os afogados aos que se querem salvar.

--Sonhar! sonhar!--prégava.

--Sonhar, deixe-se d'isso!... Na vida só o oiro vale.

--Que querem se eu nasci para isto? Eu só vivo na solidão, e a vida para mim é sonhar. Como hei-de eu, que vivo lá em cima, pobre, com este casaco que de gasto nem sequer me aquece, comprehender a existencia?.... D'um lado estou eu, miserrimo, do outro um turbilhão d'astros... Quantas riquezas! Astros todos d'oiro, astros de crime, plagas d'uma areia fina e rubra e depois largos oceanos desertos... Talvez o céu seja uma arvore sempre na primavera... Infinitos mundos, colossos mudos, que passam, e eu pobre, transido de frio, comprehendo e vejo!... Depois, se desço cá p'ra baixo, nu, a vida parece-me triste e logo corro a refugiar-me no céu.

--Mas a natureza...--disse o Pythagoras.

--Eu sei, eu vejo do meu quarto: havendo sol é bello: é tudo d'oiro e verde. Sei que ha arvores, o mar, rios, mas nunca ninguem os viu ao pé...

--Perdão! mas já muita gente... O amigo confunde!

--Na minha pobre cabeça tudo se confunde.

--Sempre sonhar, sempre sonhar! Eu por mim já estou farto de nuvens!

--E que querem que faça, se eu não sei mais nada? Nem me sei rir, nem sei falar...


Falavam do suicidio, riam do Astronomo--um sonhador!--e no fundo todos temiam a morte e quereriam ser como elle. Morrer sem ter vivido!... Era desesperador. O que haviam tentado realisar, esse esforço para materializarem a propria alma, que outra coisa não é crear, déra-lhes como resultado um bloco gelido e informe, talvez vivo mas em bloco. Porquê? Porque a sua alma era assim, sem harmonia. Por isso a morte os aterrava, a morte que era o nada para todos, até para o Pitta então idealista. Sabiam que iam morrer sem ter vivido. A existencia não era de certo como elles a haviam comprehendido: alguma coisa lhes falhára. Tinham rido de tudo. Só a Morte ainda restava intacta, sem dedadas na sua roupagem negra, com todo o seu mysterio e toda a sua belleza. Ella põe, até no homem que na terra representa a omnipotencia, o banqueiro, arrepios de allucinação e terror, quando acaso a Havas diz á Terra que um Rotschild acabou de uma fórma identica á d'um pobre diabo ou d'um poeta, ou d'um santo. Ella iguala, porque emfim é indifferente ir apodrecer n'um palacio de marmore ou na valla commum: ella mistura pobres com ricos, heroes e scepticos, egoistas e santos, e d'esse oceano negro não sahem nem gritos, nem bençãos, nem palavras. É o formidavel, o mysterioso silencio. Nem o sol, nem a morte, se podem olhar fixamente, diz La Rochefoucauld.

Morrer, dormir, dormir! Sonhar talvez!...--Ella impõe-se ao homem, negra e ferrea: quasi sempre, porem, sob o seu manto tem claridades de relampago. Nada lhe escapa, e, se para uns é madrastra, para outros é noiva. Ora avança como uma furia, ora coberta de flores como abril.

As creaturas grotescas, os que nascem para soffrer, escravos, párias, esperam-na como a redempção. De tanta lagrima, de tanta aspiração, alguma cousa se deve ter creado no infinito...

Os humildes, que vêm ao mundo para gritar, aquelles para quem a vida é aziaga e que vão de rastros até essa praia, onde o mar desconhecido rola as suas ondas silenciosas, vêm-no dourado, cheio de claridade, n'uma madrugada eterna. Apenas cahidos, exangues, sem fibra que não tenha sido torcida e despedaçada, sem bocca para gritar--elles sabem-no--vão erguer-se e, transfigurados, embarcar nas naus que os esperam para uma viagem de maravilhoso sonho. Para os scepticos esse mar é negro, tumultuario, de horror, como aquelle oceano nunca d'antes navegado, onde só monstros cresciam.

Para elles a morte era o fim da vida, porque nenhum tinha vivido da verdadeira existencia. Eil-a a cova, a immobilidade, o Nada.

A differença é simples: ella é termo de miserias, ou o termo do goso.

Ha pobres e tristes que passam a vida a esperal-a, a sonhal-a. Os humilhados, os offendidos, amam-n'a porque ella eguala, os escravos porque ella liberta, e até os incompletos, aquelles a quem não é dado nem sonhar nem amar, porque n'ella deve existir o Sonho e o Amor. Cada um encontra n'esse pelago o que lhe falta na vida...

--Este fim para que nós caminhamos, com terror e angustia quasi sempre, é o termo da vida? é o inicio da vida?--perguntava o Pitta.

--As philosophias e as religiões respondem. Cada uma assegura a fala. O mais certo, porem, é seguir o conselho de Platão: escolher a melhor opinião e embarcar n'ella como n'uma jangada, para atravessar a existencia,--dizia o Pythagoras.

Só o Astronomo lhes explicava:

--A morte é a vida,--cadinho onde tudo se refaz e renova. Da morte do que é materia resultam bellas fórmas, arvores, nuvens, côres; da transformação do que é espirito alguma cousa de radioso deverá surgir...

Ha muito que eu conheço duas figuras, que atravez das edades, vem prégando ao homem as suas doutrinas: ri uma, a outra chora.

Em certas horas de tristeza, em certas horas de crepusculo, as palavras d'uma, como murmuradas, empoeiram de sonho a alma; a outra préga, a outra fala entre desesperos e ruinas. Vós, meus amigos, conheceil-as--a figura do Sceptico e a figura do Idealista. Representam os dois grandes typos da humanidade. Ás vezes confundem-se, misturam-se: cabeças de idealistas e corações de pedra. Acontece tambem que, quasi sempre, uma segue a outra, para derrubar ou para construir. Têm assim vindo pelas philosophias, pelos systemas, ora nas palavras de Platão, ora nas palavras de Epicuro. Creio bem que, quando o immorredoiro espirito precisa de falar aos homens, cria uma bocca--Jesus; quando a materia quer prégar--apparece Falstaff.

Eu tenho-as ouvido dentro da minha propria alma, tenho assistido aos seus combates dentro do meu coração. Uma affirma, a outra nega. São duas grandes vozes, que nasceram com o homem.

Uma crê apenas na realidade, no universo tangivel, a outra põe mais longe os seus olhos--no Sonho. O espectaculo doloroso da miseria humana, desola-a, mas não a faz descrer:--Lá, lá, tudo se realiza e os proprios gritos são necessarios á Harmonia.

Uma é feita de sacrificio. Arde. Morre e renasce, aponta a terra como lôdo, o infinito como fogo; a outra affirma-te que depois só o nada existe.

E assim é: o nada para que os que crêem no nada, a belleza eterna para os que para ella vivem. Nem era admissivel que milhares d'espiritos tivessem soffrido, cheios de abnegação, sem a terem creado, á immortalidade. Se ella não existia formou-se, desde que os desgraçados e os simples o quizeram. Do nada nada se cria, e da immortalidade tem sahido forças e palavras, que espantaram homens e abalaram mundos. Desde que o primeiro humilhado viveu para ella e n'ella pôz a justiça eterna e a sua fé--o infinito creou a.

Elles, porém, ouviam com temor estas palavras. Esse problema da morte, que vem desde os tempos perdidos, como um largo rio, trazendo á tona idéas, explicações, theorias, apavorava-os. As suas aguas acarretavam idolos, religiões, mantos purpuras de homens, que se debatiam, a gesticular, querendo comprehender, vêr. Ao pé d'essa figura negra e indecifravel, como no sôco d'uma estatua, havia sangue amalgamado com theorias, brazidos, lama, desesperos, que não conseguiam sequer pôr uma ruga na sua impenetrabilidade bronzea. Ella enchia o céu, tragica e muda, e da fila de homens, que lentamente, inexoravelmente, para lá caminhava, n'uma caravana infinita, se algum erguia os olhos, sceptico, desesperado ou resignado, sentia-se sempre desvairado de pavor...

--Então a quem morre...--perguntou alguem.

--Acabou-se-lhe o sonho.

--Quem sabe? O sonho consome-os. Ardem.

--Sempre sonhar. E vem a morte e leva-os!... Que vale tudo isto? Ah o oiro, sim, o oiro filhos, o oiro respeitavel Corsario, o oiro Gabiru!...

--O dinheiro!...--exclamou o Corsario e quedou-se a meditar.

--Podesse eu ir á terra arrancar-lhe as entranhas d'oiro até a fazer gritar!--exclamou o Pitta.--O oiro é a vida. Tivesse-o eu! Gargalharia do alto d'uma montanha d'oiro da humanidade e dos sonhos que ella cria. Botam as arvores flor e as creaturas emoção... Tudo isso seria meu. Poderia destruir, conquistar, mandar. Eu, Pitta da Conceição, seria talvez nomeado Imperador do Mundo. Ó filhos lembrae-vos!... O mal a imperar, o mal a rir do alto d'assombrosas montanhas d'oiro da dor, do heroismo, da piedade! E o pequename a subir a montanha. Porque notem bem: tinha o pequename todo, estava-se todo a crear para mim!...

E como o Pythagoras fosse a sahir:

--Espera. Para onde é a ida, philosopho?

--Prégo a revolução. Ando a prégal a...

E curvou-se sobre o ouvido do Pitta, que exclamou sobresaltado:

--Ao pequename! Rica idêa! E philosophica! Um grande elemento. Pois é atiçar-lhe!...

E sahiram ambos.


Então o Gabiru ficou sósinho com os pobres. Elles não sabiam explicar a vida: sentiam-n'a e soffriam. De pé explicou-lhes:

--Foi assim... Disseram-me um dia:--Eis aqui um thesouro, cava! E eu puz-me a cavar. D'um lado e d'outro accumulou-se a terra. As minhas mãos eram negras, os meus vestidos cheiravam a terra e eu cavava. A mina era profunda como um poço. O céu esquecera-o, as arvores esquecera-as. Um dia topei pedras, que me pareciam luzir como oiro puro e embebido a contemplal-as esqueci-me do tempo, da terra, do mundo... Subito, cá fóra, ouvi rir. Trepei pela terra acima e achei-me com pedras negras nas mãos, cheio de terra, feio e cego como os bichos que nunca viram o sol... E tudo era bello! Tudo o que esquecera, tudo o que desprezara!... Attonito, com as pedras inuteis na mão, olhei... E assim desperdiçára a vida á procura d'um thesouro que tinha alli á mão!...

Ninguem lhe respondeu. Só o Corsario, curvando-se-lhe sobre o ouvido:

--Eu sei o que tu tens, eu sei o que tu tens...

--Que é?

--É pena. A vida não se torna a viver. Perdeste-a. Esqueceste-te d'ella a sonhar... A sonhar!... Trocaste, o sol, o odio, trocaste a realidade por nuvens.

E, ai! a vida não se torna a viver! A vida para ti foi como a agua que passa limpida pelas mãos d'uma d'essas estatuas que tu vês nas fontes. Nunca cessa, egual, fresca, cheia de scintillações, e nunca tambem estanca a seccura d'essas figuras de pedra... Ai, não se torna a ter na bocca o sabor a sangue e a mocidade, nem agora as arvores são as mesmas arvores e o riso o mesmo riso. Queria ter fome e ser moça... Perdeste-a! perdeste-a!...

--E tu?

--Eu?.... Eu fui nova e todos dariam a vida por mim. Amaram-me, mas o que elles queriam era o marmore do meu corpo e a minha bocca moça e viva. As rugas vieram, mirrou-se-me o collo, secco e inutil, e então arredaram me. E dentro do meu peito ardia ainda o mesmo amor. Como póde metter-se uma nuvem dentro d'uma pedra resequida? Desci á humilhação, a procurar o amor que se paga. Isto! isto!... Só então entendi que os homens nos aproveitam e usam para nos deitarem fóra depois de servidas... Olha para mim... Envelheci. Ha muito tempo que móro com o odio. Deante do espelho, ao ver-me mirrada, tornei-me ainda mais secca. Escarnecida, deitei-me a odiar... Oh fazer gritar os homens que nos desfructam, para depois se rirem... E sonhei... Eu sou inutil, o meu odio murchará commigo, sem poder florir. Inutil, velha, cahida, quem toma ahi a serio o meu odio?.... O que eu tenho sonhado!... O que eu daria para ter uma filha!... Tivesse eu fome que o pão iria arrancal-o ás mãos dos pobres; seccos os meus peitos o leite iria roubal-o. Ella seria o meu odio vivo. E bella, para que me vingasse. Era forçoso que fosse creada como um lyrio de sonho e que ao mesmo tempo tivesse uma alma de pedra, peor que a minha, mais má que a minha. Dir-lhe-hia tudo, ensinar-lhe-hia tudo, tudo o que sei, tudo o que do mundo aprendi. Explicar-lhe-ia o egoismo, a vaidade e que no fundo de cada sêr só existe seccura e interesse. As mulheres se são honestas é por vaidade, e quantas ao pé do tumulo choram uma virgindade inutil!... Ella seria minha filha! A semente germinaria, cahida n'um coração mais duro que as pedras. Por dentro d'um corpo lacteo, haveria uma velha mais offendida, mais rancorosa que eu, a prégar-lhe o odio. Odiar-me-ia a mim propria, sua mãe--e havia de sustentar se de lagrimas e gritos!...


Sahiu. Só os desgraçados ficaram encostados uns aos outros--e a um canto os pobres, gastos, com physionomias de santos e olhos murchos de tantas lagrimas choradas. Não sabiam queixar-se. Alguns puzeram-se entontecidos a narrar, n'uma voz amarga--a voz da desgraça. Erguiam os braços e de cansados e sinistros, acredital-os-hieis foragidos do hospital e da guerra.

Um disse:

--Eu gosto de vêr soffrer! eu quero vêr soffrer!... Como elle anda a espreitar illusões a vêr se as calca! Onde nascem flores logo as esmigalha, nada lhe sabe, nem o sol ás levadas. Calca tudo e ri, tudo o que nasce, mesmo a ponta verde da herva que rompe d'entre as lages.

Um velho gasto e de botas rotas queixa-se. Quer viver e exclama:

--Fui sempre como as toupeiras, como os bichos que, no fundo da terra, minam e minam e scismam sempre na claridade e nunca chegam a vêr o sol.

--Ha desgraças e dôres que fazem rir,--diz alguem.

Outro ri, ri sempre d'afflicções, de catastrophes. Procura dores para se rir e doido eil-o a rir e a clamar:

--Calcamos terra, hein, calcamos dor... A terra está farta de soffrer. Ris-te, hein, ou sou eu que me rio?

--Queremos ter saude e ter risos. Eu nunca me ri, eu nunca me pude rir,--préga uma bocca na escuridão.

O Gabiru sente-se agarrado pelo homem do pacho.

O olhar luz-lhe odiento e a sua voz, atravez do pacho, parece provir d'um tumulo.

--Leve-nos! mostre-nos o oiro, as arvores, os montes todos d'oiro...

--É impossivel...

--Oh não saber nunca o que é amar, viver como os outros que se pódem rir--e ser só, ser differente!... Eu vi! eu vi!... O Pitta mostrou-me e depois, sabes? tive odio. Odio... Não eu não sou amigo do sol nem das arvores. Tenho a minar-me a alma uma ferida como esta... Os risos com os outros se riem, os seus risos--e eu sem bocca para rir!... Esta ferida come-me a vida--e triste vida d'afflicção a minha! Fui sempre doente. Até em pequeno senti a piedade agazalhar-me. Porque é que Deus faz nascer creaturas com vida e dá a outras um quinhão de negrura? Tenho frio e fome de sol, de saude, de forças, e vivo gelado, sempre gelado, e sem poder olhar nada no mundo sem sentir rancor. Tenho inveja até da terra onde nascem pedras e cardos, porque ella ao menos não soffre. Dêem-me o quinhão de risos que me pertence!... Se eu te escancarasse a minha alma, tu a verias transida, negra, mirrada... Ouvi dizer--é certo?--que até as arvores noivam... Eu apenas sei que existe a inveja, a dôr e a enfermaria, onde o proprio sol requentado sabe a hospital. E nunca ninguem quiz saber de mim, nunca! Quem me dera beijar! ter bocca para beijar! Dize-me: ha porventura pedras nojentas?

Arrancou o pacho e uma physionomia de tumulo, onde os dentes surdiam pela carne dilacerada, rompeu dentre os trapos que a cobriam.

--Olha! olha p'ra mim!...

Sahiram--e atraz de todos, não tendo dito palavra, caminharam os pobres, curvos, descalços, resignados. Havia-os gastos pela dor; havia-os tirando o pão da bocca, para o repartirem; havia-os com uma vida de lagrimas. Sahiram uns atraz dos outros, sem queixas nem gritos.


Afinal todos se tinham ido; só na escuridão ficára uma velha prostituta. Era quasi uma coisa--a podridão. Não sabia falar, nem sabia queixar-se. Tinha apparecido para dizer o quê? Que accusação tremenda contra a vida?

Chegou-se a ella o Gabiru e poz-se a olhal-a. Depois perguntou-lhe:

--Tu que tens? tu que queres? Vae-te!...

Ella não respondeu, e elle esquecido ficou muito tempo a scismar. O que era a Vida afinal?... Pouco e pouco um clarão se fazia na sua alma... O Gabiru absorto sonhou, até que a seu lado uma voz rouca lhe disse:

--Mas então p'ra quê? p'ra que criam a gente. Eu tenho amargado a vida e nem posso gritar... E tu?

--Eu tambem... Mas olha: eu gosto de soffrer... Escuta: soffrer é afinal reanimar uma labareda, um fogo que se extingue... Possuir um sonho e vel-o calcado!...

--Eu cá fui sempre assim, andei sempre assim... Quem se importa? Não me lembro de ter sido feliz... Não me lembro... Sempre se riram de mim e toda a vida me bateram.

--Tu sim, pobre de ti... E amaste?

--Lembro-me... muito longe... amei. Mas o que elles se riram! Depois de servida batiam-me. Eu fui sempre menos que nada. Quem se importa d'uma desinfeliz? Inda se a gente encontra o pão de cada dia... Agora sempre anda um frio!...

--Tu, sim... Pobre, pobre de ti! Eu fui feliz, fui sempre feliz afinal. E batiam-te?

--Punham-me o corpo negro... Mas era para se rirem, não fazia mal... E a ti?

--Puzeram-me a alma negra.

--E tu?

--Eu soffria.

--Pois se a gente tem pão e uma enxerga ainda ao menos é feliz.

Encostados um ao outro, para se aquecerem, scismavam enregelados, quasi cobertos pelos mesmos trapos. Noite escura, mas no sitio onde elles encolhidos sonhavam, pareciam arder faúlas, restos d'um lar a apagar-se.

--Ouve, não chores... Tens frio?

--Estou gelada de frio.

--Olha: soffrer não importa, soffrer na vida que importa? Tu imaginas que o que se soffre se perde? As lagrimas e as dores vão crear, para depois, alguma coisa d'extraordinario. Do que se espesinha vem sempre a nascer. E se tu amaste e se riram de ti alguma coisa brotou, que se não extingue e germina com as tuas lagrimas e os teus gritos. Amaste?

--Amei. Muito longe... Mas tudo perdi! tudo perdi!... Não fales! oh não fales! não me lembres!...

--Se tu amaste e soffreste nada é perdido. As tuas mãos estão geladas, mas as minhas ardem.

--Eu já não sinto o frio... Só me sinto de rastros, pequenina e perdida... Oh doe-me e tenho pena de mim. Tu para que falas? De que serve a gente lembrar-se? Para chorar? É melhor dormir, dormir sempre...

--Soffre. Nada é perdido. Olha: vae-se creando com as nossas afflicções e os nossos gritos, uma outra terra!...

--Aonde?

--Uma terra toda alma, cria-se, para depois, quando á ultima dor, aos ultimos gritos, se esbrazear...

--Conta! conta-me!

--Escuta: quando se traz um sonho... Sabes um sonho?

--Um sonho?!

--Um sonho é como se tivessemos na alma um mundo maior que este. Todo em fogo... Quando se traz um sonho e se soffre mais elle cresce. Tanto mais puida é a materia, mais elle arde!... Isto não se perde... Constroe-se das nossas lagrimas... É um palacio. As pedras de que é feito são os gritos... Sabes?

--Assim quando eu amei e se riram, maior se tornou o meu amor... Consummiu-me.

--Assim...

--Um sonho!...

--Tudo se illumina dentro em nós. E a cada humilhação elle se torna maior. Depois que soffri, é que comecei a vêr o que nunca tinha presentido. Tudo. Sabes as arvores, as nuvens, as estrellas? Vejo-as agora transformadas, de fogo. Arde... Nunca é noite. E tanto mais soffro, mais se ateia o meu sonho.

Ambos se perdiam, unidos, gelados, na escuridão. Por fim só a voz d'elle corria: ella escutava-o suffocada, unida contra a terra.



XVIII

HISTORIA DO GEBO


Para nada me importa a historia banal que esse homem gasto conta, abalado pela dor, a suar de afflicção... Morta a mulher, o lar ficou gelado. Por onde a Morte passa deixa muito tempo um frio de tumulo que transe os corações. A filha cahira a um canto sem palavra, e o Gebo poz-se a engordar e a chorar. Se tudo acabasse!... Mas não, era preciso tornar á mesma vida de desespero, pizar sempre o mesmo chão, atraz de esmolas para a sustentar. Nos dias, agora amiudados, de fome, já ninguem o esperava n'uma ancia como outrora:

--E então? então? Arranjaste?....

Sofia, essa pobre rapariga que da vida só conhecia afflicções, não tinha para o Gebo nem más palavras, nem queixas. Amava-o. Aquelle velho todo branco, gordo e chorão, era o seu pae. Escondia as lagrimas para não o affligir.

--Não se consumma! não se consumma!

--Que ha-de ser de ti se eu te falto, filha?

--Sempre havemos de viver. Ha gente mais pobre.

--Acho que não! acho que não!...

Depois da morte da mãe, ella o cuidava como quem cuida um filho. E o Gebo d'olhos postos em Sofia, embevecido, só sabia dizer, n'uma voz molhada de lagrimas:

--A minha filha! a minha pobre filha!...

Fazia falta a mulher, que o atirava para a vida, e muitos dias, sem um exaspero, sem um grito, embrulhado nos farrapos, quieto na enxerga, elle era como uma bola de gordura, d'onde corria um ruido de choro resignado e triste. Se sahia chegava se a todos, pedindo pão, com os cabellos em pé e um ar desorientado, de doido, que fazia rir. Perdera a timidez. Arrastava-se pelos amigos, que o achavam pittoresco, sempre a carpir desgraças, afflicto, cambado, exhausto, e cada vez mais pedinchão e mais gordo. Divertiam-se. Tinham-lhe posto essa alcunha--o Gebo, e perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:

--Hein, dize lá, ó Gebo, então tu não tens uma filha?

E elle logo com um riso no olhar:

--Tenho, sim, uma filha, a minha filha...

--E que tal, hein, boas pernas, dize, boas pernas?

Humilde, cossado, á espera da esmola, sem forças para protestar, respondia com um sorriso e lagrimas á mistura:

--Boas pernas... boas pernas...

Vida negra, de cão, a que nem sequer resistir podia. Lá ia levado, enlameado e de rastros, a chorar. Illusões? já as não tinha, se illusões não servem senão para se soffrer. Quando viva, a mulher, era quem ainda arcava com a desgraça. Esbracejava. E juntos aquecia-os no mesmo lar, com pedaços de sonho, como quem, depois de repartir os ultimos farrapos, agazalha com a propria alma. Um sonho cahe por terra? Estreia-se outro sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ella, secca e nervosa, prégava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os, e, juntos, todos tres illudidos ficavam n'aquella negrura e desespero, todos tres a scismar.

Mas agora nem isso... Enregelados não apellavam para a illusão. Elle chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambos sem palavras que dissessem. Oh seria tão bom morrer, descançar, dormir por uma vez sem mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridiculo, aquelle homem picaro, apegava-se como um desesperado á vida. Ainda por cima o Gebo era cobarde: tinha um grande medo á morte.

Assim comiam o pão negro, ajuntando-lhe as lagrimas que choravam. Sob este solo que calcamos atraz, das nossas ambições, anda um humilde rio de lagrimas, um rio subterraneo de dor, de gritos, que se alastra e corre sem ruido...

Já não sahia a pedir todas as madrugadas. Agora cansava, mal podia andar; embrulhado e tiritando de frio, não se erguia da enxerga. Quereis crêr que estava mais gordo e mais picaro?

E como elle dormia! com fome, afflicto, tombava n'um somno de sepulchro, espapaçado, os cabellos todos brancos e a physionomia cansada e amargurada. Nunca se queixava; apenas repetia a miudo:

--Tenho pena de ter sido honrado...

Porque é que a desgraça se não cansava de o perseguir? Este aguilhão cravado no peito não lhe deixava um minuto de descanço: a sorte da filha. Nada lhe custava mais do que deixal-a no mundo ao desamparo.

--Tenho pena de ter sido honrado.

Para que serve ser bom? Os máos que conhecera, estavam ricos e escarneciam-no, os bons espesinhados. Creaturas a quem o Gebo salvára acolhiam-no com risos e só fizera ingratos.

O Gebo não entendia a vida.

--Ó Gebo! ó Gebo!--gritavam-lhe.

E elle meio tonto:

--Anh? anh?.... Se eu não tivesse sido honrado...

Ella era uma creaturinha triste, resignada e pallida. Falava pouco. Scismava. Da vida tudo ignorava, a não ser a historia dos seus: o lar apagado, a afflicção da mãe, o choro do pae ao voltar para casa sem pão. A velha dizia ás vezes más palavras ao Gebo, quando lhe perguntava anciosa:

--Arranjaste?

E elle a bufar, exclamava succumbido:

--Valha-me Deus, mulher!

N'esses dias aziagos ella dizia improperios á vida e ao Gebo, que nem sequer tinha forças para as sustentar a ambas.

--Olha os outros! olha os outros!

E elle atrapalhado:

--Mas que hei-de eu fazer, mulher?

--Vae roubal-o! vae roubal-o!...

Aquillo terminava por lagrimas e por o velho perguntar, perdido de fome, todo o dia na negra faina:

--E agora como ha-de ser?

A mãe tinha escondidos alguns vintens tirados á bocca e em torno do pão, esquecidos, lá se deitavam a falar da sua miseria. Ella dizia que não havia honra nem Deus--tudo no mundo era questão de dinheiro--oiro! Mas quantas vezes a velha repartia com os pobres o pão que lhes fazia falta!... O que a tornava amarga era a lucta exasperada com a má sorte.

De fórma que Sofia nada sabia da vida, e assim fôra crescendo sem queixas, resignada e pura. A Deus resava todas as noites pela vida do velho, pela saude d'aquelle sêr offegante e grotesco, que passava horas e horas a chorar.

--...O pão nosso de cada dia nos dae hoje...

--Filha que ha-de ser de ti!

Engordára, não se podia mexer. Faltavam-lhe de todo as forças. Extendia a mão na rua como os mendigos. Um dia foi preso, e expulsavam-n'o das lojas. A idêa da filha abandonada e com fome, allucinava-o:

--Eu já não posso mais! eu já não posso mais!...


Os dias passaram-se desesperados, identicos, ferozes. Todos os dias se pareciam, como a desgraça se assemelha á desgraça. Até que cahiu por terra e durante a noite inteira correu na mansarda aquelle ruido de lagrimas baixinho e monotono; toda a noite infinita o Gebo chorou prostrado. Quiz tentar, quiz ainda erguer-se, mas a desgraça havia-o emfim aniquilado: engordára-o, exhaurira-o e pregára-o para sempre a chorar n'um colxão de trapos.

Então Sofia, que um dia e uma noite o viu chorar sem tregoas, d'olhos postos n'ella; que outro dia e outra noite, sem gritos nem phrases, o viu todo branco e com fome, d'olhos aguados, no mesmo choro d'afflicção--alheada, mais alta, desceu as escadas e entrou em casa das prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com pão para o Gebo, que só lagrimejava prostrado, gordo e ridiculo, como uma bola de sebo--e de cabellos brancos estacados.

Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos, é a voz dos desgraçados, dos pobres, dos que não têm pão, nem felicidade, nem arrimo na terra!...



XIX

O GABIRU TRESLÊ


Noite de luar. A Arvore mergulha os braços n'um oceano de luar translucido, biliões de atomos luminosos errando. É um collosso de verdura e de bondade, uma construcção cheia de frescura e rumores. Cruzam-se as pernadas solidas, torcidas, esgalhadas, d'onde partem ramos, folhas que se agitam e vivem uma vida mysteriosa e grande. E o luar é tanto que faz afflicção. Sente-se a satisfação gigantea da Arvore, por mergulhar as raizes no seio da terra e por ser forte, simples e bondosa. Por pouco ouvil-a hieis falar... Escutae-a na noite callada, branca e cheia de tanto luar que faz afflicção. Por entre os raminhos tremuleiam fios de luar esquecidos, coados por entre as folhas sobrepostas. No chão a sombra faz mancha e os fios de luar dão-lhe vida. Dirieis que alli anda folego vivo. Fóra da Sombra é tanto o luar que só se vê uma brancura.

O Gabiru scisma. Os olhos abertos, todo elle dolorido, deita-se ainda a scismar. Vivera sempre tão transido e pobre, tão sosinho--que lhe não fugisse o seu sonho--e nada lhe ficara entre as mãos. Só escarneo! só escarneo!...


Bate o luar em cheio n'aquella figura exotica e transforma-a. Não é ridiculo. Corre-lhe o luar nos olhos, nas mãos estendidas, e cheio de luar sorri extasiado...


Hein, que queres tu? Nasce uma creatura para a desgraça. Em pequena anda rôta, quasi nusinha, e o pão da vida dão-lh'o os ladrões e soldados. Maltratam-n'a, irmã da terra, raza como a terra. Nada sabe do sonho--e que culpa tem ella de não sonhar? Violam-n'a, tornam-n'a egual das pedras, secca como as pedras, mesquinha, e arrancam-lhe todas as aspirações, cospem-lhe em todos os sonhos. Só soffre. Vêm uns, vêm outros para a fazerem gritar, e ella um dia põe se a rir e ri-se até da desgraça.


Julgarieis que na sombra, sob a arvore, o luar constroe e tece, á medida que o Gabiru vae tecendo. É não sei o quê de incerto que mexe--fio de luar ou vento que passa e vae transir a sombra mysteriosa. O Gabiru olha extasiado.


Da terra dilacerada surgem fórmas de prodigio. Quanto mais revolvida a materia, mais bella é a eclosão do sonho. Da vida da Mouca que começou a soffrer em pequenina, logo a principio se creou algo de radioso. Ella ri, a Mouca, escarnecida e calcada, sem ter tido quem a ampare senão prostitutas e ladrões. Nasceu para gritar--e ri. Mas nada se perde na vida. Ella que tudo ignora, rolada como as pedras no enxurro, conhecerá o extraordinario sonho. D'aquella materia espesinhada vae nascendo uma maravilhosa forma de luar.


O philosopho sorri extasiado para a Sombra. Eil-a! Uma physionomia pallida, onde os olhos cegos se perdem, tenue, construida de luar ou construida de sonho. Dirieis que essa figura esguia, sustentada a luar, de negros cabellos de sombra, desapparece no escuro, torna a surgir nos fios de luar...


--Fui eu que te criei, és minha!--diz elle absorto, erguendo-se. Caminhas para mim alheada, não me querendo olhar e não me podendo fugir, pallida e tremendo. Vens sob o tecido do luar. Oh que palavras te hei-de dizer, ajoelhado, que singulares monologos feitos de nada e enormes, arrancados á via lactea, com palavras que nunca aprendi, nem soube dizer, mas que me brotam da alma como nascentes! Quem me déra ser a noite, a arvore, o luar, que me enche d'afflicção! Juro-o, as arvores falam com o luar, as montanhas namoram-se ao luar. Brilham perdidas tantas estrellas pelo céu, meu amor!... Os sapos, confundidos deante da gigantea natura, cantam n'esses pios que, ao longe, na solidão, magoam como ais d'alguem a quem aconteceu desgraça...

Olha: eu sento-me distante de ti, para que não fujas desfeita em luar. Gostava tanto de sentir a tua mão pousada na minha cabeça, tanto! Olha!...


Sob a Arvore--realidade ou illusão?--uma figura se constroe de luar, na sombra opaca uma tremulina toma forma. Juntam-se os fios de luar, amontoam-se nevoas e alguma coisa treme, prestes a fugir--mas viva! viva!... Dirieis que é só um sorriso, um olhar muito triste... O Gabirú corre e tudo se esvae... Só a Sombra resta e um ruido de gotas de luar tombando sobre folhas.

Elle sorri e diz:

--Eis como se cria uma alma!


Todas as noites, muito tarde, volta para ao pé da Arvore.

--Uma é terra, outra é luar,--murmura. Quanto mais a Mouca soffre, mais esta se cria. Oh, não me fujas! Vens com a noite, melancholica e pallida como as mortas arrancadas ao sepulchro. Criei-te de lagrimas. Os teus cabellos esparsos perdem-se na sombra. Nunca vi na escuridão os teus olhos, mas sinto a irradiação da tua alma!...

O Gabiru, na noite branca e callada, sente-a approximar-se e olhal-o muito tempo.

--Minha alma!

Nem um murmurio. Noite a noite era mais o luar. Absorvia tudo. A sua claridade mysteriosa diluia a terra e as coisas. A Arvore, esmaecida, toda se desfazia em pó claro. E noite a noite tambem a Sombra opaca se tornava mais espessa e funda. A certas horas o silencio estremecia, n'um ai baixinho e triste. Era a creação! A alma da Sombra acordava. Eil-a! eil-a!...

--Minha vida!

Via-a perfeitamente. O oval do rosto pallido, os negros cabellos compridos, inteiramente feita de sonho e de lagrimas. Só os olhos se perdiam em duas sombras, cega talvez de tanto ter chorado--por a outra rir.

--Não fujas!

Correu um dia para a Sombra. Lua cheia, lua alta. O mundo, todo imbebido em luar, era como um grande sonho de belleza. Logo a imagem se esvaiu e na sombra funda, na sombra opaca, restavam apenas manchas vagas e dispersas, luar desfeito... Apalpou a terra. Havia um ruido ainda--pelo chão corria um fio de agua ou um fio de choro...

--Meu amor! meu amor!