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OS POBRES
OBRAS DO AUCTOR
| A Arvore: | ||
| I | -- | Historia d'um palhaço. |
| II | -- | Os pobres. |
| III | -- | Raizes (em preparação). |
| Romance: | ||
| A Farça. | ||
| Theatro: | ||
| (De collaboração com Julio Brandão) | ||
| A noite de Natal, drama em 3 actos, representado no theatro de D. Maria II. | ||
RAUL BRANDÃO
OS POBRES
Precedido de uma CARTA-PREFACIO
DE
GUERRA JUNQUEIRO
LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
SOCIEDADE EDITORA
Livraria Moderna, R. Augusta, 95 | Typographia R. Ivens, 45 e
47
1906
CARTA--PREFACIO
Meu bom amigo:
O seu livro é a historia patetica d'uma alma. Qual? A do Gebo, a de Luiza, a de Sophia, a da Mouca, a dos Pobres emfim? Não. A sua. Historias diversas, que se resumem n'uma historia unica: a da sua alma, transitando almas, a da sua vida, percorrendo vidas. Autobiografia espiritual, dilacerada e furiosa, demoniaca e santa, blasfemadora e divina. Confissão verdadeira, plena, absoluta d'um organismo que sente a musica mysteriosa do universo, d'um coração que repercute a dôr eterna da natureza, mas que só ao cabo de oscilações, duvidas e desanimos, coordena a idealidade do ser com as aparencias do ser, o espirito com as formas, o Deus,--amor e beatitude, com a materia,--crime e soffrimento.
Não vejo diante de mim um poema esteril, obra dos sentidos, da imaginação e da volupia. Vejo um acto profundo, espontaneo, d'imensidade religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. Não a confissão mentirosa, a confissão vulgar, da boca que tem dentes, para o ouvido que tem sombras. Não a confissão-analise, a confissão dos criticos, rol de inteligencia, catalogo de ideias. Mas a esplendida confissão das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de eternidade e de mysterio. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, ha lavaredas ignotas que dissociam as almas. E, se taes almas se desdobram, a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da natureza. Andou o infinito, e lembra-se; andará o infinito, e já o sonha. Quando o genio explue, conta-nos a natureza a sua historia. O genio supremo é o santo. O verbo do santo, eis a lingua clara do universo.
As confissões augustas são as dos poetas e dos santos. No homem vulgar a personalidade rigida encarcera e coalha as personalidades volateis e difusas. O inconsciente imenso não acorda, porque está, como um aroma, dentro d'um bloco duro, impenetravel. É o sonho captivo n'um ovo hermetico de bronse. As almas emotivas dos grandes visionarios, essas conservam aquella graça radiante, aquella omnipresença espiritual, que as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cosmica e divina. O sonhador dos Pobres é um evocador atormentado e religioso. Busquei no seu livro a imagem ardente da sua alma. Vamos vêr se a desenho com rapidez e precisão.
Alma vibratil e fugaz, olhando a natureza, o que sentiu? Assombro, esplendor, pavor, enigma, deslumbramento. Tudo vive, deseja, estremece, palpita, murmura e sonha. Tudo vive, tudo vive: o homem, a féra, a rocha, o lodo, a agua, o ar, braseiros de mundos, aluviões de nebulosas, incorporeidade genesica do ether. Fervedoiro de vidas insondavel, que o tempo não exgota, porque a morte creadora continuamente o desorganisa e reproduz em formas novas e diversas. E todas se cruzam, beijam, penetram, correspondem. É uma teia vertiginosa de fios sem fim, de fios moveis, ondeantes, cambeantes, urdindo-se ella mesma, na eternidade impenetravel, sem ninguem ver o tecelão. Rigidez, solidez, inercia, não existem. Na fraga mais dura, no bronse mais compacto circulam desejos, dramas, turbilhões de moleculas e vontades. As cordilheiras inabalaveis são redemoinhos dentro de enxovias. O concreto dilue-se, o material evapora-se. O sol tombando, aniquilaria cardumes de planetas, e a lua do sol, que é sol volatilisado, pesa menos que uma folha de rosa na mão d'uma creança. Em cada bloco metalico latejam oceanos dormentes, de vagas fluidas, invisiveis. Acordem-n'os, e o bloco obtuso, electrisado, irradia no ether. Vêde um penedo monstruoso: Parece firme. Desagregou-se, e é lama; a raíz tocou-lhe e é seiva; a seiva gerou, e é flor e é fructo; o fructo, alimento; o alimento sangue; e o sangue vermelho, corpo que caminha, carne que fala, cerebro que pensa. Natureza! universo!... Vidas infindaveis eternamente circulando n'uma vida unica. Assombro, esplendor, pavor, deslumbramento! O homem vacila, desmaia, quer equilibrar-se... mas onde, se não ha terra em que poise, nem muro a que se encoste?! Tudo impalpavel, fugaz, incerto, ilusorio, ilimitado... tudo vida, tudo sonho, tudo voragem... Se baixa os olhos do imenso ao grão d'areia, o grão d'areia, infinitessimo, resolve-se-lhe em vidas infinitas. Quer contemple o universo, quer examine um corpusculo, a alma engolfa-se, estonteada, no mesmo abismo devorador e creador.
Abismo de aparencias ocultas, abismo de vozes que se não ouvem. A natureza taciturna exprime-se magicamente, em linguas vagas, silenciosas. E quando n'um pouco de cisco murmuram mais vontades do que bocas humanas ha na terra, o que não dirá o coloquio formidando de todas as vontades do universo! Tem cada organismo a sua lingua peculiar. Os que vivem mais proximos entendem-se melhor. O ar segreda á agua, a raiz ao lodo, a luz á folha, o polen ao ovario. Ha fluidos que se casam, raizes que se querem bem. O oxigenio é intimo do ferro, o azougue é intimo do ouro. Os orbes fraternisam, os metaes amalgamam-se, e as electricidades sexuadas buscam-se avidamente, para copular!
Materia infinita,--forças infinitas, infinitamente caminhando. E no pelago vertiginoso da mobilidade universal é cada atomo invisivel um desejo que nasce, um desejo que sente, um desejo que fala...
O lexicon sem principio nem fim, das vozes mudas do increado, das linguas tacitas da natureza, alguem o ouviu que se recorde? Alguem: o homem. O homem, crisalida do anjo, foi monstro e planta e verme e rocha e onda; foi nebulosa, foi gaz impalpavel, foi ether invisivel. Articulou todas as linguas, e d'ellas conserva, obscuramente, vagas memorias dormitando. Por isso os poetas adivinham, e raros com a intuição prodigiosa do meu amigo.
Abreviando: A sua alma, diante do universo, reagiu por tres formas ou em tres fases emotivas. Estudei a primeira,--a emoção dinamica. O mundo resolve se lhe n'um jogo de forças, n'um conflicto de vontades, brigando, casando-se, transfigurando-se em aparencias rapidas, ilusorias. Tudo se move, tudo quer e tudo vive.
Mas o que é a vida? Chega á segunda fase. Deslisa da emoção dinamica á emoção moral. Depois de ver o mundo atravez dos sentidos, julga-o atravez da rasão e da consciencia.
O que é a vida?
A vida é o mal. A expressão ultima da vida terrestre é a vida humana, e a vida dos homens cifra-se n'uma batalha inexoravel de apetites, n'um tumulto desordenado de egoismos, que se entrechocam, rasgam, dilaceram. O Progresso, marca-o a distancia que vae do salto do tigre, que é de dez metros, ao curso da bala, que é de vinte kilometros. A fera, a dez passos, perturba-nos. O homem, a quatro leguas, enche-nos de terror. O homem é a fera dilatada.
Nunca os abismos das ondas pariram monstro equivalente ao navio de guerra, com as escamas d'aço, os intestinos de bronse, o olhar de relampagos, e as bocas hiantes, pavorosas, rugindo metralha, mastigando lavaredas, vomitando morte.
A pata prehistorica do atlantosauro esmagava o rochedo. As dinamites do chimico estoiram montanhas, como nozes. Se a preza do mastodonte escavacava um cedro, o canhão Krup rebenta baluartes e trincheiras. Uma vibora envenena um homem, mas um homem, sosinho, arraza uma capital.
Os grandes monstros não chegam verdadeiramente na epoca secundaria; aparecem na ultima, com o homem. Ao pé d'um Napoleão um megalosauro é uma formiga. Os lobos da velha Europa trucidam algumas duzias de viandantes, emquanto milhões e milhões de miseraveis cahem de fome e de abandono, sacrificados á soberba dos principes, á mentira dos padres e á gula devoradora da burguezia christã e democratica. O matadoiro é a formula crua da sociedade em que vivemos. Uns nascem para rezes, outros para verdugos. Uns jantam, outros são jantados. Ha creaturas lobregas, vestidas de trapos, minando montes, e creaturas esplendidas, cobertas d'oiro e de veludo, radiando ao sol. No cofre do banqueiro dormem pobresas metalisadas. Ha homens que ceiam n'uma noite um bairro funebre de mendigos. Enfeitam gargantas de cortesans rosarios d'esmeraldas e diamantes, bem mais sinistros e lutuosos que rosarios de craneos ao peito de selvagens.
Vivem quadrupedes em estrebarias de marmore, e agonisam parias em alfurjas infectas, roidos de vermes. A latrina de Vanderbilt custou aldeolas de miseraveis. E, visto os palacios devorarem pocilgas, todo o boulevard grandioso reclama um quartel, um carcere e uma forca. O deus milhão não digere sem a guilhotina de sentinella. Os homens repartem o globo, como os abutres o carneiro. Maior abutre, maior quinhão. Homens que têm imperios, e homens que não têm lar.
Os pés mimosos das princezas deslizam lusentes d'oiro por alfombras, e os pés vagabundos calcam, sangrando, rochedos hirtos e matagaes. Bebem champagne alguns cavalos do sport, usam anneis de brilhantes alguns cães de regaço, e algumas creaturas, por falta d'uma codea, acendem fogareiros para morrer. Bemdito o oxido de carbone, que exhala paz e esquecimento! E a natureza, insensivel ao drama barbaro do homem! Guerras, odios, crimes, tiranias, hecatombes, desastres, iniquidades, deixam-na tão indiferente e inconsciente, como o rochedo imovel, bulindo-lhe a asa d'uma vespa. O clamor atroador de todas as angustias não arranca um ai da imensidade inexoravel. A aurora sorri com o mesmo esplendor aos campos de batalha ou ao berço infantil, e as hervas gulosas não distinguem a podridão de Locusta da podridão de Joana d'Arc. Reguem vergeis com sangue de Iscariote ou com sangue de Christo, e os lyrios inocentes (estranha inocencia!) desabrocharão, egualmente candidos e nevados.
A humanidade, emfim, é a victoria dos arrogantes sobre os humildes, dos fortes sobre os debeis, da besta sobre o anjo. E tendo de escolher entre vencidos e vencedores, entre o amor e o odio, o mal e o bem, o riso e as lagrimas, o seu coração misericordioso de poeta inclinou-se espontaneamente para a Dor, como as vergonteas para a luz.
A dôr é o seu deleite. Busca-a, desejo febril!--por hospitaes, por cadeias, por antros, por alcoices. Fareja-a de noite nos bairros leprosos, cloacas de humanidade, vasadoiros d'almas, onde crimes, virtudes, vicios, angustias, raivas, desesperos, fermentam promiscuamente, aglomerados e abandonados, como esterqueiras, como entulhos. Pesquisa dedalos caliginosos, cafurnas sem fundo, abismos hiantes, boqueirões de sombra. Explora desvãos, trapeiras, minas, covas, esconderijos. Louco de piedade, engolfa-se nas trevas mudas e soturnas, que gotejam sangue, nas roucas escuridões tumultuosas, pavidas de gemidos, cortadas de clamores, anavalhadas de blasfemias.
E do amago d'essas noites insondaveis pululam turbas espectraes de crucificados, hordas de monstros, bandos de miserias, cardumes de abominações e de agonias. Ullulam tropeis disformes e sangrentos, regougam fauces patibulares, choram, coroadas de ulceras, Magdalenas lividas, bocas de escarneo crocitam sem dentes e sem pudor, arquejam ralas estorturantes, gemem creanças vagabundas, tossem tisicos, ardem febres, lusem gangrenas e podridões... E tudo vago, indistincto, confuso, n'um rumor longo e subterraneo. Não se destacam, não se desenham as formas. Olhos, bocas, gestos, relampeando na sombra... Nada mais. A sombra voraz esbate as linhas e os contornos. É o mundo cahotico da miseria, que a noite putrida gerou e a noite soturna ha-de engulir... É o seu mundo, o mundo dos pobres, meu grande visionario, quasi desconhecido e genial.
Homens de gosto colecionam quadros ou estatuas. O meu amigo coleciona dôr. Não em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biologico das varias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surprehende, não a invasilha n'um frasco, guarda-a no coração.
Conta-lhe os ais, não os microbios. Em vez de a analisar, decompondo-a, analisa-a beijando-a. No seu laboratorio chimico existe apenas um reagente, que dissolve tudo: lagrimas.
O poeta dos Pobres não é um romancista. A alma do evocador fluidicamente se desagrega nas almas de sonho que elle evoca. Dir-se-hiam espelhos, brancos, verdes ou azues, planos, concavos ou convexos, reflectindo todos elles um unico semblante, que julgamos distinto, porque aparece deformado.
Chamei aos Pobres uma confissão religiosa. Não ha duvida. Os seus pobres, meu amigo, são bocas de visões, articulando a alma d'um vidente. Falam a sua lingua e contam-nos a sua historia. Não a historia, no minuto e na rua, do homem-sicrano, mas a historia, no espaço e no tempo, do homem infinito, que vem de Deus e para Deus caminha.
No drama dos Pobres ha duzias de actores e um só personagem: o dramaturgo. As suas figuras não constituem individualidades reaes, caracteres verosimeis, logicamente architetados e definidos pelas inumeras causas de existencia, conglobados em duas ordens genericas,--a herança e o meio. Os seus ladrões, assassinos e meretrises, não roubam, não matam, não copulam: sofrem. Sofrer, eis o seu mister. Mouca, Luiza, Gebo, Golim,--pseudonimos. O nome real, o nome verdadeiro de todos elles é um só: a Dôr.
Inevitavel. Desde que o meu amigo rasgou as mascaras enganadoras ao Universo, para lhe descobrir a essencia e natureza intima, e desde que a lei do Universo é o predominio do mais feroz e do mais forte, toda a imensa humanidade, tumultuosa e vária, se resume logicamente em dois homens apenas: o algoz e a vitima, o homem que sofre e o homem que faz sofrer. Os bons são os que padecem. A miseria, mesmo sinistra e delinquente, é já um principio de virtude. Nenhum dos ladrões, nenhuma das prostitutas do seu poema resvalaram ao vicio ou ao crime por vontade propria, por fatalidade fisiologica. Obrigou-os a fome, calcou-os a injustiça. A sua infamia e a sua ignominia é a avareza ou a luxuria dos homens opulentos e devassos. Todos os ricos, ainda os caridosos, são perversos, e todos os miseraveis, ainda roubando ou esfaqueando, são creaturas boas, porque são vitimas dos primeiros. Os retratos dos bemfeitores do seu hospicio (pag. 59) parecem-lhe «uma galeria de afogados, todos solemnes, ricos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.» E as alfurjas, cadeias e prostibulos, onde se amontoam, n'um horror tenebroso, os vicios alucinados e os crimes exorbitantes, afiguram-se-lhe á imaginação misericordiosa como templos de angustias, santuarios sagrados de tribulações e de martirios. É um flos-sanctorum da miseria, a dor do enxurro canonisada e sublimada.
Mas se a lei da natureza é iniqua e feroz, visto os maus triunfarem e os bons sucumbirem, d'onde vem essa lei, quem a gerou, quem a impoz ao universo? Quer a creasse, com o universo, uma vontade alheia, quer ella seja imanente ao universo infinito, é, nos dois casos, uma lei monstruosa, negadora da suprema ideia do espirito do homem, a ideia do bem e da justiça. Contradição inexplicavel: A natureza é iniquidade, porque a lei que a rege assegura o predominio e a sobrevivencia do mais forte. Mas quem me leva a dizer que a natureza é iniqua? O sentimento do bem e da justiça, desenraisavel do meu coração e do meu cerebro. Logo existe tambem na natureza, pois que eu sou natureza, a lei do amor e da justiça, contraposta á lei da força e da violencia. Se Christo morreu na cruz, a natureza é o mal. Mas sendo a natureza o mal, como é que d'ella nasceu o mesmo Christo, afirmação de todo o bem?
A ideia do bem e da perfeição, levada ao infinito, é a ideia de Deus. Mas como hamornisar o absoluto perfeito com a natureza imperfeita? Como fazer sahir a diversidade da identidade, o complexo do simples, o mal do bem, o universo de Deus?
Chegamos á terceira e ultima fase do seu espirito: á fase religiosa, á emoção divina.
A natureza desagregada em movimento, traduziu-se-lhe em dôr e resolveu-se lhe em amor. Movimento infinito, dôr infinita, amor infinito, eis os tres rostos da natureza no espelho cada vez mais profundo da sua consciencia, nos olhos cada vez mais abertos da sua alma. O dinamismo atomico do universo reduziu-o,--pavorosa sinteze!--á dôr sem fim, á dôr universal. Viver é sofrer, e tudo vive, tudo sofre. Vida infinita egual á dôr eterna, eis a equação matematica da natureza. Pandiabolismo, satanaz-universo. Um circulo infernal, hermeticamente inexoravel. Não ha, pois, evasiva? Ha. D'esse inferno sobe uma escada de chamas tenebrosas, que vae ao purgatorio, e do purgatorio uma espiral de luz radiante, que nos leva ao céo. A dôr, que se lhe afigurou a essencia intima da vida e sua unica expressão, não era, ao cabo, o substracto ultimo da natureza, o fundo irredutivel do universo. A dôr não era irredutivel. A alma, vencendo-a, converteu-a em amor. Não ha bellesa esplendente, que não fosse dôr caliginosa. A flor é a dôr da raiz, a lua a dôr das estrellas, e a virtude ou o genio a dor ascendente do ether luminoso, cristalisando no homem, ao fim de um calvario inenarravel de milhões e milhões de seculos sem conta. A alma de Jesus proclama o triunfo da santidade sobre o crime, como o corpo de Venus entoa a victoria da linha viva e musical sobre a linha inerte, a linha brúta e desharmonica. Bellesa de essencia ou bellesa de aparencia, virtude de Jesus ou formosura de Venus, tem, ancestralmente, a inicial-as o mesmo horror e a mesma imperfeição. Do verbo odiar nasceu, evolutivamente, o verbo amar. Se o homem foi tigre, o beijo foi dentada. Toda a alegria vem do amor, e todo o amor do sofrimento. A alegria é o sofrimento amoroso, o sofrimento espiritualisado. Deus é, pois, o amor infinito, vencendo infinitamente a infinita dôr. E, vencendo a infinita dôr, elle é a infinita alegria, a paz absoluta, a gloria eterna, a bemaventurança ilimitada. Deus sustenta-se realmente, como diz o meu amigo, do sofrimento universal.
Nos meus Ensaios Espirituaes, ainda ineditos, eu exprimo inumeras vezes a mesma ideia. Quer vêr? Destaco uma pagina:
«Só a dor infinita produz o amor absoluto. Deus, amor absoluto, sustenta-se do sofrimento do universo. É uma luz eterna, alimentada por um incendio eterno. Deus, amor absoluto, projeta-se em dôr infinita da natureza. Para ser a perfeição absoluta, encarnou se na imperfeição ilimitada do universo. Deus não se comprehende sem universo. O perfeito vive do imperfeito, como a chama vive do combustivel. O mal é a condição do bem, o erro a condição da verdade, o crime a condição da virtude. O santo é santo, porque venceu o demonio. Sem o demonio, o santo não se comprehende. Sem universo imperfeito não ha Deus perfeito. Satanaz é uma das faces de Deus. Mais ainda: Satanaz é o corpo de Deus. Deus é Deus, isto é infinita perfeição, infinito amor, porque vence eternamente infinitas imperfeições e infinitas dôres. Deus é a completa affirmação do Bem, pela completa e continua victoria sobre o mal. No instante em que o mal acabasse, acabava Deus. Deus não é idéa, pensando-se infinitamente: é acto infinito, amor infinito, a realisar-se pela infinita vontade na duração infinita. Eliminando o imperfeito, o perfeito evapora-se. Destruindo o relativo, destruireis o absoluto: o absoluto que fica é o absoluto não-ser. O infinito amor de semelhante Deus seria o infinito amor de si proprio, o infinito egoismo. É como se quizessemos resumir a infinidade dos numeros em um numero unico, infinito, eterno, inalteravel, o numero absoluto perfeito, e realizassemos a sinteze da infinidade numerica no absoluto do zero. Tudo egual a nada. Não! Deus é infinito amor, esforço infinito, actividade infinita. O universo é o corpo de Deus, é a carne de Deus. Deus é absolutamente perfeito na diversidade infinita, porque sem essa diversidade infinita não ha, nem póde haver, a união suprema. Mas a sinteze da vida é irrealisavel na ideia de numero e quantidade, na ideia concreta de materia. Só na ordem moral se unifica absolutamente a vida varia do universo. As quantidades, traduzidas em imperfeições, os numeros traduzidos em egoismos, são reductiveis ao absoluto na ideia unica d'amor. Ahi o imperfeito torna-se a condição matematica do perfeito. Deus, amor absoluto, vive e sustenta se dos egoismos infinitos, continuamente evolucionando para elle. Deus, beatitude eterna, vive e sustenta-se das dôres infinitas do universo. Deus como corpo, como natureza, sofre infinitamente; mas Deus, espirito puro, Deus, amor absoluto, não sente dôr, nem sofrimento. É a bemaventurança e a gloria eterna, porque eternamente triunfa dos sofrimentos eternos do seu corpo. O santo verdadeiro dá-nos a imagem palida de Deus. Deus é o santo perfeito, o Christo absoluto e universal.»
Adoramos, pois, o mesmo Deus, unificamos a vida na mesma sinteze. Mas o auctor dos Pobres não desvendou, ideologicamente, abstractamente, o segredo da natureza, a explicação religiosa e intima da vida universal. Não a estudou como filosofo, descarnando-a, dissecando-a, até lhe descobrir as leis inalteraveis e reconditas da sua estructura evolutiva. Não fez do cerebro um instrumento de visão, agudo e claro, gelido e penetrante, com elle interrogando, dia a dia, no sorvedoiro cosmico, o borbulhar infinitiforme da existencia. Não mediu a vida a compasso, não a formulou em theoremas ou equações. Viveu-a. O seu livro não é a historia dialetica da razão d'um homem, sistematisando e codificando a natureza. Não é a historia d'um encefalo, desdobrada em ideias. É a historia d'um homem, a historia plena e formidavel d'um organismo inteiro,--da carne e dos ossos, do sangue e das lagrimas, das mãos que abençoam e que destroem, dos olhos que choram e que fulminam, da boca que resa e que tritura, da alma do lobo, que vem de Satanaz, da alma do anjo que se encaminha para Deus. Sim, a historia universal d'um homem, gemida e rugida, furiosa e candida, não para que o mundo lha ouça (então seria hipocrita) mas para que Deus lha escute, na eternidade e no silencio. É a confissão clamorosa, satanica ou celeste, das energias infinitas, evolutivamente amalgamadas e condensadas no misterio pavido d'um homem. O abismo insondavel, retrahindo-se, cristalisou n'um ponto; e esse ponto, adquirindo voz, confessou o abismo, revelou o insondavel. Almas inumeras se agrupam na alma sintetica e central. Ha em cada alma infinidades d'almas. E umas tão horriveis e loucas, que as escondemos para que as não vejam, e outras tão inconscientes e profundas, que, habitando comnosco, as não chegamos sequer a conhecer. O poeta dos Pobres conheceu-as e confessou-as todas. Desde a mais clara á mais crepuscular e tenebrosa, irradiou-as todas plenamente, no estado nascente, ingenuas e vivas, sem occultar uma unica.
O seu Deus não é o ultimo termo d'uma cadeia logica de silogismos. Não o descobre pela razão, atinge-o pela emoção. O meu amigo não raciocina, isoladamente, com o encefalo. Raciocina de chofre e com todo o corpo. As ideias brotam-lhe espontaneas, como o sangue da facada ou a flor da haste. Palpitam de vida, mas vida viva,--no estado genesico. Não falam, não discursam, não discorrem. Gritam, uivam, ululam, gemem, resam, blasfemam. Ciclones d'ais, de orações, de imprecações, de furias, de lamentos. O meu amigo pensa, forma juizos, como as eletricidades formam raios.
O seu Deus é a expressão da sua emotividade. Ou, bem no fundo, da sua moralidade. Só crê em Deus, só descobre Deus, quando em si, pela virtude, momentaneamente o realisa, ou tenta realisar. Se a bondade e a paz lhe existem no coração, a natureza resolve se-lhe em Deus, em amor supremo. Mas, d'ahi a instantes, o egoismo invade-o, e não é já em Deus, é na chimica, que a explicação do mundo lhe apparece. Qual a fonte do ser, a rasão da vida? É o acaso, é o apetite, é o amor, é Deus ou Satanaz, conforme as horas ou os dias conforme o equilibrio instavel da sua carne e do seu espirito. Logo de começo, a paginas 29 e 30, define Deus abrazadoramente n'uma lingua de chamas, n'um paroxismo de dor e de misericordia, n'um extase candente e lagrimoso, tão fervido e tão lucido, que arrebata e deslumbra. Fulgiu-lhe subito, no amago da alma, a verdade da vida. A vida é um calvario. Sóbe-se ao amor pela dôr, á redempção pelo sofrimento. Christo é um redemptor humano, Deus o redemptor universal. É o ser infinito, porque é o amor ilimitado. E a natureza tenebrosa, vista de Deus, divinisou-se por encanto. Guerras, lutas, crimes, catastrofes, desordens, evaporam se e fundem-se em harmonia magica e perfeita.
Mas logo adiante, a paginas 42, a natureza, divinisada, reverte e regressa á sua forma demoniaca, de materia bruta.
«Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre, que sonho!»
Do altruismo absoluto, do absoluto amor, que é Deus, retrogradou ao individualismo anarquista, ao egoismo feroz, que é Satanaz. Do polo positivo saltou ao polo negativo. Entre os dois polos, entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, vae oscilar e flutuar a sua alma, ora aproximando-se de um, ora aproximando-se do outro, ora imobilisando-se quasi, pelo hausto indutivo das duas correntes antagonicas.
Tal um Christo, penosa e religiosamente escalando o calvario, e que, a meio da encosta, varado de dôr, esvahido o animo e evolada a fé, arrojasse a cruz dos hombros, exclamando n'um impeto: «Basta! Se o caminho do céo é um martirio abrupto, uma inferneira ingreme, desisto do céo e volto para traz para o conchego do meu lar, para a ternura de minha mãe, para o afecto dos meus parentes e meus irmãos. Antes risonho e feliz, junto do meu pae humano, que é carpinteiro, a aplainarmos cruzes, do que, morto e crucificado, na gloria infinita do meu divino Pae celestial!»
E assim blasfemando, retrocederia na encosta do sofrimento e da amargura, para já lá no fundo, voltar a subil-a novamente, a cruz nos hombros, com maior fé e maior ancia.
O seu poema é a historia da escalada tragica do seu calvario. Mil vezes o meu amigo tomou nos hombros a cruz da dôr e da paixão, e outras tantas a deixou cahir, exhausto, com ais de desanimo, ou a sacudiu exasperado, cuspindo invectivas no lenho duro do resgate. Mas por fim, sangrando e chorando, galgou a montanha do erro e do sofrimento. Chegou a Deus, e em Deus ficaram imoveis e serenos os olhos tristes da sua alma. Polarisou-se em Deus, de vez e de vontade. Livre, emfim! Libertou-se.
Não volte á servidão, á escravatura negra e demoniaca. Mantendo-se liberto, a obra d'hoje, patetica, mas angustiosa e desigual, a obras futuras, vastas, claras e radiantes, servirá de entrada e de prefacio. A arte vale mais ou menos, segundo a porção de amor que abrange e que revela. A arte soberana é a que conjuga a natureza toda,--homens e monstros, aguas e arvores, pedras e nuvens, soes e nebulosas, com o verbo infinito e perfeito, o unico verbo creador, que é o verbo amar. O universo atomico, particulas inumeras e vagabundas, fraternisa em Deus, unificado n'uma só alma e n'um só corpo.
Resar o universo é polarisal-o no infinito amor. Cantar não basta. Resar é mais. Resar é o superlativo divino de cantar. A oração é a canção angelisada, a canção chorada e de mãos postas. O universo absorve a, comprehende-a. Ouve-a Deus, os homens escutam-na, e as ondas, as aguas e os rochedos, vagamente a percebem, como um halito amigo, uma caricia branda e luminosa. Rese todas as dôres, pobresas, miserias, lutos, soffrimentos. Rese o lodo e o sangue, o ninho, o covil, o hospital, o carcere, a enxovia, a terra tragica, ulcerada de mortes, e a noite concava e funebre, ulcerada de soes e de nebulosas. Rese a dôr, mas rese tambem a alegria, que é dôr vencida e desbaratada pelo amor. Rese o triunfo do amor, a alegria ascendente da natureza, a marcha épica da vida pelo caminho eterno, que não tem fim. Rese chorando, mas lagrimas fecundas, que façam parir a terra, palpitar o seio e germinar a semente. Lagrimas d'aurora, orvalho vivo e creador. Resar e chorar, mas heroicamente, na acção e na luta, no mundo e para o mundo. Resar, como Nuno Alvares, entre o fogo ardente da batalha. Enganam-se os que vão para Deus, voltando as costas á natureza. Quem se quizer salvar, ha de salvar os outros. Quem renegar a natureza, renega Deus. A ascese egoista, eis o atheismo verdadeiro. A imobilidade é sacrilega, a escuridão é sacrilega, o silencio é sacrilego. A vida é som, é luz, é movimento. A vida marcha por abismos, tragica e formidavel, mas ruidosa e simfonica, vestida de luz e de mil côres. Amortalhal-a de negro, arrancar-lhe a lingua, para que não cante, e os olhos, para que não deslumbre e não dardeje, é como se lhe cravassemos no coração uma facada sinistra. O quietismo beato, apagando o universo, apaga Deus. Quietismo e nihilismo,--dois zeros, dois sinonimos. O frade catolico, na concha da mão, exangue e paralitica, sustenta uma caveira. É o nada olhando o não ser. O monge ideal, na dextra poderosa, em vez da caveira, tem um globo d'oiro constelado. Tem o universo. É o monge futuro.
Seja elle o tipo a que se encaminhe, embora de longe, a nossa fé e a nossa arte. Resemos, vivificando e sublimando. Arte creadora, que seja pão e seja luz.
Se nos acusarem de hipocritas, deixal-os accusar; mentem. E a mentira só aos mentirosos prejudica. Se nos amesquinharem a fama e cercearem a gloria, desviando de nós as multidões, que não pensam e vão para onde as levam, melhor. Os que nos querem, os que nos amam, os que nos entendem, ficarão comnosco. Os outros, deixando-nos, prestam-nos favor. Lezam-nos sómente na vaidade, que é vicio ruim, grama que custa a deitar fóra. Portanto, melhor. E se nos insultarem e injuriarem, melhor. E se nos perseguirem, melhor. E se nos apedrejarem e ensanguentarem, melhor ainda, muito melhor. Quando a alma, ao termo de mil hesitações e desenganos, cravou as raizes para sempre n'um ideal de amor e de verdade, pódem calcal-a e tortural-a, pódem-na ferir e ensanguentar, que quanto mais a calcam, mais ella penetra no ideal que busca, mais ella se entranha no seio ardente que deseja.
Seu amigo e camarada cordealissimo
1902.3
Guerra Junqueiro.
OS POBRES
I
O ENXURRO
Vem o inverno e os montes pedregosos, as arvores despidas, a natureza inteira envolve-se n'uma grande nuvem humida que tudo abafa e penetra. As coisas dil-as-hieis recolhidas e scismaticas.
É como um rôlo mysterioso e profundo que vem d'um mar desconhecido. E a chuva começa. É um ruido dôce o da chuva. Faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra imbebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara na terra, põe raizes á mostra, arrasta n'alluvião o humus, as folhas seccas das arvores, os cadaveres dos bichos, os detrictos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reune, atira, entre a baba da agua, para um destino ignoto.
Assim a vida. É um rio de lagrimas, de brados, de mysterio. A onda turva põe as mais fundas raizes á mostra, a torrente leva comsigo de roldão a desgraça e o riso; sem cessar carreia este terriço humano para uma praia, onde as mãos esqualidas dos que soffreram encontram emfim a mão que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar, ficam attonitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se converte em realidade...
Vêde... É noite. A ventania redobra e nas lufadas que passam viajam gritos, catastrophes, lamentos. Sou pobre e transido e nada sei da vida, mas sou um principe. De que terra? direis.--Do sonho. E assim n'este predio revolvido me quédo, sósinho e triste, a escutar... Ouço um rio que os mais não sentem. Cada creatura nascida traz comsigo uma fonte, fio de agua humedecendo a frincha d'uma pedra ou levada impetuosa e aos jorros. É ella que tira á vida a sua seccura. Em certas creaturas pobres e simples quasi se ouve essa agua correr e tão amoravelmente, que dá vontade de nos chegarmos á sua sombra. É emoção. Minae, não na deixeis seccar: se finda torna-se a vida como os chãos sequiosos.
N'este casarão onde móro a toda a hora se ouve o ruido da levada; corre sempre como as torrentes desordenadas e esplendidas. Escutae!... Préga o inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutae, escutae!...
São meus visinhos, lá em baixo mulheres perdidas, ao pé de mim dois casados, e na trapeira um gato pingado, a quem chamam S. José. As mulheres passam ás vezes na rua, com chales purpuras a rasto; o gato pingado só sahe á noitinha, á hora dos morcegos. Mais timido que eu, encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e rôto.
Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados, para cavar, para berrar, para que lhes deem um pedaço de pão e só se deitam no sepulchro. Caminho sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o cansaço, a humilhação e a fome.
Se passam pelas arvores, n'um dia de primavera, tão lindo, que até as proprias macieiras de commovidas se vão desentranhando em flor, sabeis o que acontece? As arvores retrahem-se, as coisas callam-se ao vel-os passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que é que elles vivem aos gritos, offendidos, ralé, pedras, sapos? para que é que Deus os cria?
O gato pingado... Eil-o que sobe. Cada passo me lembra uma pázada de terra. É soturno este homem, esguio e magro, com o chapeu alto embrulhado no lenço do rapé e a casaca dobrada no braço. Nunca fala. Estou mesmo em dizer que não pensa, este avejão que só sahe para os enterros. Deve ser máo, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos apedrejam-n'o quando elle passa pela rua, esguio, vesgo, de chapeu alto e casaca, rigido clown da morte, que em logar de gargalhadas toda a sua vida ouvisse lagrimas. Aposto que, quando arrancam das casas os caixões como quem arranca o coração dos vivos, ao ouvir gritos, tem um riso interior, jubilo de quem está farto de viver só, arredado, humilhado... Gato pingado! gato pingado! Vive de lagrimas, sustenta-se de dôres. E quando vai, de tocha accesa, esguio, a galgar atraz d'um carro funerario, na reles mascarada, em que irá elle a pensar, esbaforido e triste?....
Outros... Casaram ha muito. Chamam-lhe a Rata. Pobre e sem mãe atiraram-n'a um dia para um collegio d'orphãos, onde cresceu entre maus tratos. Riam-se d'ella. Era um aborto que crescia por caridade. Passava a vida na enfermaria e os medicos--acho que de proposito--livraram-n'a da morte, para que depois soffresse.
Encontro-a nas escadas, com as botas do homem, os cotovellos rôtos, e magra e desleixada que faz piedade.
--O melhor tempo que eu vivi foi o da enfermaria. Havia lá uma Irmã que me beijava e fazia festas...
Mais felizes são os cães vadios, mais felizes, incomparavelmente, são as arvores.
O homem desanca-a. Chega a casa e bate-lhe, faz-lhe tratos. Se ella chora e se queixa desanca-a mais. E agora, como ella não dá palavra e só pensa:--Antes eu fosse para creada de servir!--elle quer que a Rata grite e chore.
Antes tu fosses para mulher da vida, digo-t'o eu!...
Esta manhã appareceu com os olhos inchados e pisaduras na cara. O vestido já lhe não serve. E como está frio, reparei, traz os pés mettidos nos sapatões do marido, sem meias e roxos. Aprende na vida, soffre! Nada te valerá. Até á morte, até que te acabe de matar com maus tratos. Ás vezes, se elle sahe, põe-se á janella, a scismar na Irmã, que, quando cahia doente, lhe dava beijos, lhe fazia festas--e pergunta-se:
--Porque não morri então?....
Calla-te e soffre. E até á morte, até o teu pobre corpo cahir exhausto, moido, negro de pancadas. Assim será irremediavelmente, inexoravelmente.
Este velho que pára nos patamares das escadas, gordo e molle, de cabellos brancos estacados, é o Gebo. Todo curvo, olha-vos com um olhar aguado e tonto.
--Ó Gebo!
E elle, erguendo o carão afflicto:
--Anh?...
E como este, outros assim. A toda a hora vae o enxurro humano polindo as pedras. A ventania açouta o casarão e passa, levando poeira de scisma, ais, para outro mundo ignoto. Com a noite a vida redobra. Eis uma multidão feita de terriço, de creaturas tendo arrancado a mascara: certos homens são sonhos, outros dil-os-hieis gritos. Põe-se o Gebo a contar a sua historia, surge o Corsario, uma velha tragica, com o caio dos palhaços, o Astronomo, um sabio hirsuto, o Gabirú, philosopho esguio e hirto como uma taboa, que tem descoberto mundos e ignora as coisas mais simples d'esta vida. Remexe n'um brazido de idéas e nunca olhou cara a cara a existencia. Anda attonito na rua, perdido n'um mundo que descobriu á prôa do seu barco como um navegador. No subterraneo do predio mora--ha quantos annos?--o homem do pacho, de quem ninguem sabe a historia. Emparedou-se. Odeia a luz: essa poeira azul, que imbebe os seres e as coisas, março, a arvore, a vida tumultuaria e larga como um rio, nunca mais a viu. Está vivo n'um tumulo: só as paredes esbrazeadas, á força d'elle sonhar, a rubro como as pedras d'uma forja, conhecem a sua historia. Pára no patamar o Gebo contando o que soffreu aos pobres que o querem ouvir. Muitos fazem roda e elle, picaro, desata a chorar e narra pedaços d'uma triste existencia de humilhação e de esmola, sempre esbaforido e escorraçado, a filha a sustentar, o desprezo do mundo, as suas correrias, desorientado e com lagrimas, atraz do pão para os seus. E termina sempre:
--Tenho pena de ter sido honrado...
A ventania présaga augmenta, abalando o Predio. De que é construida uma casa? De pedra. Todo o globo é revolvido para abrigar o homem. A arvore e a ossada da terra são arrancadas para o servirem. Juntem a isto gritos. De pedra, d'arvores e de gritos fôra construido o Predio. Juntem a isto sonho, que transforma as coisas. Um gritava nos subterraneos, outro de tanto sonhar empoeirára d'oiro o granito negro. De fórma que toda a casa gasta, amolgada, revolvida, tinha tomado alguma feição d'aquellas existencias. É a habitação do Gebo, das prostitutas, do Gabiru, do Pitta. Escancara-se o portão, cahem-lhe os telhados, mas se, em cima, nas mansardas arrombadas dá de chapa o sol, acredital-a-heis a scismar, a cantar. É effectivamente de pedra--e de sonho.
Chove, mas em torno a terra arida, não tem agua nem plantas.
Só uma arvore cresce n'aquelle solo infecundo. Sustenta-se de dor. As suas raizes foram minando até ao Hospital, construido em frente da casaria, para sugar a vida dos pobres. Se um raio de lua, escoado pelas nuvens, a toca--eis um phantasma d'arvore todo de pó de luar.
Quédo-me sósinho nas noites estiradas, ouvindo este enxurro vivo. Muitas vezes são lagrimas que correm ou emoção que brota com o ruido d'um fio de bica cheio de scintillações e rumores. O cahir de lagrimas é sempre d'uma tristeza pacifica... Na noite negra o Hospital entaipa a cidade: arvores, nóras humedecidas, donde sahe a frescura do chão, montes solitarios, parece que os prohibe aos desgraçados: como um velho sumidouro espera, guarda, construido de pedra e n'um brazido por dentro, todos os que soffrem, santos, pobres, mulheres perdidas e heroes.
O Pitta, embrulhado no seu chale-manta, murmura ás vezes ao contemplal-o:
--A misericordia humana constroe d'estes castellos, para que os ricos não assistam ao soffrimento dos pobres. E fal-os de pedra, de granito bem solido, para que se não ouçam os gritos cá fóra.
II
O GEBO
Heis de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados e um ar d'afflicção que faz riso e piedade. Tomba ás vezes na rua, levanta se, e, todo enlameado, olha p'ra os lados e chora; depois caminha esbaforido. Parece que vae gritar, esse ser molle e gordo, de cabellos brancos estacados, e, de subito, baixinho, pede-vos esmola. Tem um riso de humilhado e o aspecto d'uma bola de sebo--de cabellos brancos estacados. É o Gebo. É um gebo por ser picaro e rôto e por a desgraça o ter calcado aos pés até o tornar ridiculo.
Triste existencia sem odio e sem gritos. A vida não n'a entendia e a cada empurrão tinha um ar espantado e afflicto de quem não comprehende. Que mal fizera? que mal fizera? Pois a desgraça faz rir? o soffrimento faz rir?
E em torno as boccas escancaravam-se, ao verem-n'o gordo, pedinchão e desgraçado.
As peores ruinas resumem-se n'esta secca phrase--ser infeliz. Ha seres que nascem com uma sina--amargar a vida. Tudo lhe corria tôrto, até as coisas mais banaes e mais reles, as coisas que para os outros nem mesmo existem, e elle punha-se a olhar para a desgraça, atarantado e estupido. Que mal fizera para soffrer?
Alem de desgraçado, este homem fôra sempre picaro: assim no globo passam existencias ignoradas de soffrimento e de bondade, que não deixam o mais simples vestigio, como os veios d'agua escondidos e que no emtanto são a vida da terra.
Mesmo posto a chorar, a sua mascara, de cabellos brancos estacados, fazia rir.
Sempre a suar, quasi sem saber gritar nem saber queixar-se, o Gebo tinha um coração igneo. Era d'estas creaturas a quem um montão de desgraças torna ainda mais ridiculas: a ruina, a quebra, a miseria, a fome. Enlameado pela vida fóra, resignado e chorão, elle ahi vae...
--Ó Gebo!
E todos se riam ao vel-o chorar d'afflicção. Diziam uns:--Que não fosse tolo!--E os pobres, a quem elle tanta vez valera, gostavam de o vêr calcado e humilde como a terra dos caminhos. Qual é a razão porque a desgraça alheia consola a nossa propria desgraça, dizem-me?...
A tresuar, afflicto, depois de espesinhado, ainda esse sêr molle e gordo, aos quarenta annos, cria na existencia como as arvores e as creanças crêem.
Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o deixou? Ha creaturas em quem a desgraça se escarrancha no cachaço, e é p'ra sempre! p'ra toda a vida! Nunca mais as larga. Viera a quebra, afflicções sem conto, ainda mais negras que o coração dos outros. Enganavam-n'o, com a alegria de o verem rebaixado e perdido, empurrão d'aqui, empurrão d'acolá, aos tombos por esse mundo.
Era casado o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha!... Uma filha sempre prende a existencia! uma filha pequenina sempre tem nas mãosinhas uma força!
Assim esse velho ridiculo e gordo tambem fôra feliz outr'ora. Era d'estes lares apagados e sumidos, onde a vida corre com a monotonia d'uma fonte, sempre egual e prompta a apagar todas as boccas sequiosas. Uma casinha velha, um quintalorio com seis arvores, um fio rumoroso d'agua e as janellas abrindo para a sombra amiga das fructeiras. Alli era a felicidade. Dão-nos as arvores toda a sua sombra: nunca nos enganam.
Muito tempo mentira á mulher, que ia vivendo illudida. Ria o Gebo em casa, com o coração torcido, para que ellas fossem felizes mais algumas horas--ultimas horas tiradas á desgraça. Até que um dia succumbiu:
--Eu não te queria dizer... Mas ó mulher! ó mulher!...
--Que é? que foi?
--Estamos perdidos, estamos perdidos...
--Perdidos?!
--Sim, estamos... E agora? agora? Ninguem me vale, ninguem se importa. Tenho pedido, tenho andado... e já não posso! Estamos perdidos, mulher!...
--Estamos perdidos?
--Sim...
--Tu é que tens a culpa, não tens mesmo finura nenhuma. Riem-se de ti. Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. Anda, vae!... Tu que queres? Que ha-de ser de mim e da pequena? Nós temos culpa das tuas tolices, das tuas desgraças?...
--Não, mulher, não, bem sei...
--Anda!
E elle voltava, todo o dia corria esbaforido, até que uma noite a mulher viu-o entrar, sem chapéu, enlameado, exhausto--e de cabellos brancos estacados. A ingratidão embranquecera-o. Era ao crepusculo. Tombado, como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando baixinho:
--Oh a minha filhinha!... E todos se riram de mim, todos!... Ninguem se importa. Quem quer saber da desgraça dos outros? Ai a minha filha!
Começou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos os lados havia vozes a clamar, a escarnecel-o:--ó Gebo! ó Gebo!--Nunca mais houve paz na terra para elle: mesmo no seu lar tinha certo a toda a hora os ralhos da mulher desvairada e as lagrimas silenciosas da filha. Oh essas horas ferreas em que olhára em torno perdido e só vira seccura e risos! essas horas tinham-lhe deixado suor d'afflicção para o resto dos seus dias. Tudo se arrazára. E curvava-se sob as palavras da mulher, amachucado, sem forças para luctar, quebrado pelos desenganos e pela indifferença dos outros.
--E agora? agora? perguntava-lhe ella.
E elle cahido:
--Agora não sei... Agora morremos todos á fome.
Batera em vão a todas as portas, anniquilado, sem idéas e sem forças. Só sabia chorar, molle e grotesco, emquanto a mulher, que a desgraça seccára, lhe atirava improperios, gritos:
--Mas levanta-te! procura! salva-nos!
Anda Gebo! E elle lá sahia, tornava aos amigos, pedinchão, desnorteado, atraz de emprestimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de subito a esbracejar com gritos e soluços.
Heis-de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados, aos empurrões na vida e com um ar d'afflicção que faz riso e piedade.
--Ó Gebo!
--Anh?
--Conta!
E elle logo, em palavras rôtas, precipitadas, bebendo as lagrimas:
--Ó Senhor!... Tanto tenho andado e tanto tenho soffrido! Quanto mais faço peor, inda é peor... E já não posso mais... Acabou-se! Só Deus sabe pelo que tenho passado, as desgraças que tenho rapado e as afflicções, para arranjar ao menos o triste pedaço de pão para a bocca... O peor é d'ellas. O meu coração estala, tanto tenho soffrido. Trago a noite cá dentro. Que se lhe hade fazer? Curtir a desgraça. Anh? Tenho pena de ter sido honrado...
E fica com a bocca aberta, chorão, de cabellos brancos estacados.
III
AS MULHERES
Ao vir a noite põem-se as prostitutas a cantar; entre as pedras resequidas e o ruido humano põem-se as prostitutas a cantar. São pobres, tristes, sêres de descalabro e piedade, lama que o homem géra de proposito para o goso. A treva leva e dispersa essa toada em farrapos, flocos de tristeza, que são como a alma, a afflicção da noite, a soluçar. Noite... Andae, vinde, remorsos, sonhos, soou a vossa hora! De blócos negros se constroe uma cidade. Ha ainda claridades esparsas, neblinas, que a Sombra callada, a tactear, de subito affoga sem rumor. E d'entre as meias portas surgem physionomias como só o remorso as cria: dirieis, de tristes e cansadas, que se vão diluir como as das mortas.
É a hora do gato pingado descer as escadas a passos cavos, do Gebo contar sempre a mesma historia desconnexa, dos pobres sahirem á procura de pão.
No escuro as mulheres falam para se esquecerem. Ás vezes somem-se as boccas e da treva rompe aquella voz de tragedia, como se a treva falasse, ao que d'um canto a escuridão responde:
--Ó tu!...
--Que é?
--Lembrou-me agora uma coisa.
--O quê?
--N'esta vida sabeis o que ha de peor? É nem a gente poder estar triste.
--Ahi começas tu...
Lento e lento, a noite que cahe as affoga e na escuridão sente-se pairar a Desgraça... Callam-se e depois a mesma voz começa:
--Vem um e quer que eu me ria, vem outro e quer-me triste. Quem entra que se lhe importa?
--E então?
--Nada. Mas inda assim olhae que é triste a gente não poder ao menos lembrar-se...
--De quê?
--Do que lá vae...
--Melhor é a gente não se lembrar do que passou.
--Tomára eu ser como morta--affirma outra voz.
--E tu?
--Eu? Tu falas p'ra mim?--pergunta uma magra surgindo do escuro.--Tomára eu não ter memoria, p'ra não tornar a vel-a, como quando a vi estirada no caixão, por vê de mim...
--Quem?
--Á minha mãe.
--Ah!...
--Pois é...--diz a primeira voz--N'esta vida a gente não se deve lembrar. Toca a cantar raparigas... Cantae!
E as mulheres continuam a cantar, n'uma toada esfarrapada, d'uma tristeza immensa. Depois calam-se e uma torna a falar. Dizem sempre as mesmas palavras, mais para fazerem ruido do que para que as ouçam. Ha uma que ri de tudo. É magra, pallida e gasta. Traz um pacho negro n'um olho e ri sempre, com um ar de mascara, de si, das outras, de todas as suas desgraças.
--Eu sou a Mouca--começa ella ás risadas.--A minha mãe deitou-me fóra era eu pequenina, e eu, se tivesse uma filha, botava-a á roda p'ra ganhar a vida. Tomaram conta de mim os ladrões, cresci na rua e a minha cama eram as pedras dos portaes... Tomaram conta de mim os ladrões. Vidas! vidas!...
--Tu não te calarás!
--Em pequena andei todo um inverno com uma camisa rôta. Até foi bom, agora não sinto o frio. Depois moeram-me. Vocês não querem saber? Calcavam-me aos pés por nada. Aprendi. Muito custa a levar a vida... Aos treze annos um ladrão desfructou-me. Era um velho careca que parecia um S. Pedro. Chamavam-lhe o Lesma, vocês hão-de ter ouvido falar. A gente só aprende á sua custa. Vidas! vidas!... Eu sou feita de terra, da terra que todo o mundo piza, mas tambem já tenho calcado. Elle ha desgraças peores, eu sei que ha. Já vi gente morrer por não ter uma codea p'ra a bocca. Olhae que eu conheço a desgraça. Tenho-a encarado... Faz mal quem se abaixa... Um dia a gente põe-se a gostar d'um homem e inda é peor. Que se lhe hade fazer? Todas temos de nos sujeitar, todas somos o mesmo, as ricas e as que não tem uma sêde d'agua. O peor é quando se começa a gostar d'um homem...
Vocês sabem o que é o amor? O amor é cada qual ser como um cão. É a gente ser menos que nada e elles serem tudo. Ahi têm o que é o amor. Elle a bater-me e eu a dizer cá commigo:--Tu que me bates é porque gostas de mim...--Ahi têm o que é o amor, é a gente ser menos que um cão... Eu escrava, elle o senhor. Acabou-se! todas temos de soffrer.
--Todas. Não ha nada peor do que nascer mulher.
--Eu nunca tive sorte. Que me importava a mim que elle me batesse? Punha-me a olhar p'r'as nodoas do meu corpo e a dizer cá por dentro:--Este é meu amigo.--Um dia partiu-me um braço, mas a gente é como os cães, que só gostam d'um dono que lhes dê pontapés. O peor foi que elle botou-me ao desprezo. Os homens são todos o mesmo... Vidas! vidas! Um dia disse-me:--Estou farto de ti.--E sabeis? nunca mais falou p'ra mim. Ai, quanto mais se pena p'r'amor d'um homem mais se lhe vem a querer!--Mas deixa-me gostar de ti...--Vae elle disse-me:--Fóra!--E eu fiquei passada. O meu comer eram lagrimas. E bebia a toda a hora para atormentar uma dor que se me pozera no coração. Mas elle vem! elle torna!... Qual!...
--Como se chamava?
--Que te importa? Não é bom allumiar os mortos. Deixae estar quem está quieto. Ah, se vós o visseis morto como eu vi!... Vêr morto um corpo que se teve nos braços é como vêr no caixão um filho. Por mais que a gente grite não lhe dá vida! Trazia sempre no coração a mesma dôr... Vae uma vez vesti-me socegada e fria como defunta e fui ter com elle.
--A que vens? disse elle. E eu disse-lhe:--A servir-te.--E ri-me.--Já sei que me não podes vêr, acabou-se! não me importo. O que te peço é que me deixes servir-vos. Venho ser vossa creada.--Elle poz-se a rir. Depois veio ella e eu puz-me a rir tambem.--Venho ser vossa moça, quanto me daes de soldada?--Elles cochicharam.--Onde vocês pozerem os pés ponho eu a bocca. Aqui estou, aqui me têm.--Elles riram-se de mim.--Anda escrava!--Vae eu e ria-me.--Que quereis de mim?--Rua, escrava!--e eu ia-me embora. Um dia peguei e dei-lhes rosalgar a comer. Comeram-no. Então, quando o vi morto, puz-me a rir, a rir, que era uma dor do coração. Levaram-me em braços. Na cadeia chamaram-me a perguntas e eu só me ria. Já me doia a cara de tanto rir e via-o sempre morto a meu lado.--Porque o mataste? E eu desatava a rir-me... Aqui têm, cada qual cumpre o seu fado. Todas temos de nos sujeitar e de soffrer. Eu sou a Mouca--terminou ás risadas.
Aquella porta aberta para a tragedia e para o escarneo fica em frente do Hospital. As mulheres dos ladrões e dos soldados moram ao pé da dor. As paredes são negras e humidas: mãos ao roçarem-nas deram-lhes afflicção, gritos abalaram-nas. Acredital-as-hieis construidas do mesmo sonho e da mesma pedra de que é feita a vida.
Lá dentro, a uma luz enfumaçada e oleosa, as mulheres expõem-se como farrapos d'adelo ou mascaras: direis retratos feitos a tresuar d'afflicção, tanto desespero resumam as boccas que gargalham. Duas á porta espreitam, uma scisma com a physionomia petrificada, d'imbebida em magoa, outra canta, e a patroa gorda e desdentada, calcula o ganho. É dura, espremida, de feições crueis e coleras subitas. Ás vezes prega-lhes horas e horas:
--O amor sabe a zinagre. É peor do que a morte... Não no queiram, ouviram?
--A senhora fala! fala!... Bem triste é achar-se a gente sósinha no mundo,--diz uma derreada e tisica.
--E ter o quê? Escarneo, só se fõr...--accrescenta outra.
--Eu de mim, se fosse sósinha no mundo, cuido que me affogava.
--Pois andae! andae!--diz a patroa--Fartae-vos de desgraça. É só fartar. Que sois vós? Menos que terra... Ireis d'este mundo fartas de desgraças. Antes morrer no rio!
--Eu cá--diz outra--tenho o corpo negro, mas que m'importa? Se o meu me deixasse antes queria acabar... Pela minha salvação que ia direitinha ao rio.
--Depois queixae-vos...--ameaça a velha.--Sereis peor do que arroladas.
--Nem as pancadas d'elle me doem, e mais o meu faz-me comer terra,--affiança outra.
--A gente não tem mais ninguem no mundo. Quem quer saber d'uma desinfeliz?
--A gente não tem pae nem mãe, nem folego vivo.
--Se choro, os outros riem-se. Quem entra e sahe que se importa?
--E ninguem n'este mundo póde chorar sósinho...
--Eu cá--diz a Mouca--eu cá estou tão habituada a que me dêm dinheiro, que se o meu amigo fica commigo, escondo moedas no lençol... Quando acordo e as encontro, parece que me pagaram.
As outras riem-se com risos que destoam, e a patroa prega-lhes:
--Vocês nem sequer vêm... O que aconteceu á Maria? Affogou-se e o amante ri. Helia lá foi p'ra o Hospital. É morta. E todas morrem se se deixam ter coração.
--Ás vezes mais vale morrer.
--Morrer!...--exclama a tisica.
--Eu já me matei... E depois? Foi quando me vi sósinha no mundo. Elle tinha-me desprezado. Peguei e bebi um quarteirão de agua-ardente com lumes. Pensaes que estou arrependida? Ah, se a senhora soubesse o que se sente!... Quando me vieram dizer--foi a Mouca--que o meu amigo estava com outra, foi como se tornasse a resurgir deante de mim a mãe que eu matei á força de lagrimas, por me vêr na triste vida. Nem podia gritar. Tinham-me seccado os gritos aqui--na bocca... Sahi, andei...
A porta d'ella estava fechada e alli fiquei até de manhã ao frio. Os homens que passavam diziam o que lhes parecia, porque ninguem ideia o que cada um traz dentro do coração. Scismei, passei a noite ora a scismar, ora a chorar. N'esse dia poz-me elle o corpo negro, como este lenço que trago na cabeça. Olhae... Ainda tenho as marcas. Estas só na cova me passam.--Farta-te, se queres, mas não me deixes...--Vae elle e disse:--Fica-te p'ra ahi, estupor, que te não posso vêr.--Vejam vocês!... Se isto é assim no mundo, se a gente cá vem p'ra isto, p'ra nos deitarem fóra, e não ha mais nada, era melhor morrer... E antes tivesse morrido p'ra não ter mais que penar...
--O Hospital está á espera, raparigas--diz a patroa d'um canto.
--Ouvi dizer que os estudantes cortam a gente p'ra estudar?...
--E a mim que me importa?
--Eu já ouvi a um... E o que elles se riem uns com os outros!...
--Depois da morte a gente não sente.
--Quem é pobre acho que vae sempre p'ra elles aprenderem a estudar.
--Pois a mim é o que me entristece... O meu pobre corpo ser retalhadinho!
--Lá está o Hospital á espera, raparigas!...
--Tu não te calarás!
Riem-se, uma fica scismatica e a patroa continua:
--Filhas inda podeis enriquecer. O que é preciso é muita experiencia da vida. Olhae que na terra só ha dor e vaidade. Não ha nada peor do que envelhecer pobre... O que elles se riem! Se lhes pedis pão, dão-vos escarneo. E põem-se a rir até do nosso odio, ouviram?
--Quem nasce p'ra esta vida mais lhe valia morrer.
--E tu p'ra que vieste?
--Foi o meu fado.
E a velha continua:
--Haveis de querer comer e tereis...
--O quê? diz uma anciosa.
--Pedras.
--Acabou-se! diz outra.
E fica scismatica.
--Mais nos valia morrer.
--Mais valia.
--Andae, andae! Lá está o Hospital á espera. Lá tendes todas uma enxerga e o lençol. E o cemiterio póde sempre com gente. Aquelle nunca se farta.
--Tem sempre fome,--murmura do lado uma sorrindo.
--Pois tem,--affiança a companheira.
--Deixal-o ter!--exclama a Mouca.
--Envelhecei pobres e vereis! vós vereis!...--ameaça a patroa pondo-se de pé.
--O quê senhora?
--Para sempre, traz-se para sempre uma pedra no coração sem se poder arrancar.
--Então para que nasce a gente? Só para soffrer?--pergunta Sofia.
--Só. A este mundo vem-se para soffrer.
--Ah!...
--Enganae-os. Tratae do ganho, de juntar, de juntar muito dinheiro. O resto tudo é fingido...
Mas uma, triste e magra, a tisica:
--N'esta vida todos nos rebaixam e a gente precisa de encontrar alguem, um pobre como a gente...
--Inda que seja um ladrão...--interrompe Luiza.
--Ao pé de quem se não sinta desprezada.
--Metteu-se a gente na triste vida e nunca mais pode sahir--affiança outra.--Olhae que me lembro... Cada qual aqui é menos que nada, é como a terra...
Callam-se e scismam ou passam as longas noites de inverno a cantar, em frente do Hospital tragico. De dia pela porta escancarada vê-se o banco do hospital. Nada mais poído do que essas miseras taboas de pinho seccas, gastas, destingidas, e nada tambem mais commovente. Vivem, estremecem. Ha coisas que á força de serem tocadas por mãos humanas, ganham alma, criam physionomia. Antes da morte alli tombaram os corpos que, como uma pua, a dor brocou. Aquellas taboas mirradas, de se sentirem a toda a hora roçadas pelas mãos de naufragos (todos os que entram no Hospital alli passam, santos, poetas, pobres com a bocca cheia de gritos) começaram uma outra existencia.
Foi a arvore arrancada á terra para amparar os pobres. É ainda mais bella do que levantada no topo do solitario monte, ao nevão, ao sol, á tempestade, ás estrellas. Eil-a emfim sómente erguida para a dôr. Taboas que já deram sombra na floresta, imbebidas de seiva e de azul, vieram servir de encosto a miseros: tem nodoas de sangue, dedadas d'afflicção e suor de desgraçados que se entranhou na madeira.