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Os Simples

Chapter 24: REGRESSO AO LAR
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About This Book

Uma colecção de poemas líricos que retrata cenas rurais e itinerâncias, alternando manhãs luminosas e crepúsculos de regresso. As peças misturam ritmo popular e linguagem direta, ora festivas e ingênuas, ora meditativas, e reflectem sobre a inocência, a nostalgia, a transitoriedade da vida e a morte. Imagens naturais — campos, moinhos, árvores — e vozes simples compõem pequenos episódios e reflexões, enquanto a musicalidade verbal e o tom conversacional aproximam o leitor da experiência quotidiana e do apelo emocional das memórias e das paisagens.

*EPILOGO*

REGRESSO AO LAR

Ai, ha quantos anos que eu parti chorando
D'este meu saudoso, carinhoso lar!…
Foi ha vinte?… ha trinta?… Nem eu sei já quando!…
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para me eu lembrar!…

Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida…
Só achei enganos, decepções, pesar…
Oh! a ingenua alma tão desiludida!…
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!…

Trago d'amargura o coração desfeito…
Vê que fundas maguas no embaciado olhar!
Nunca eu sahira do meu ninho estreito!…
Minha velha ama, que me déste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!…

Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar…
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!…
Minha velha ama, sou um pobresinho…
Canta-me cantigas de fazer chorar!…

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!…) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…

Canta-me cantigas, manso, muito manso…
Tristes, muito tristes, como á noite o mar…
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanço,
Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!…

90.

*NOTA*

NOTA

É este o primeiro dos tres volumesinhos, que hão-de encerrar as minhas liricas ineditas. Os outros dois—Flores de Ideal—e Infinito (Livro d'orações) virão a lume successivamente, com intervalos de mezes.

Duas palavras sobre os Simples.

Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do alem (como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, á minha natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da morte é, no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li com sofreguidão milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes, revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi á historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das coisas. Questionei a razão, ouvi a consciencia. Dei balanço a mim proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? Não é este o momento de dizel-o, nem isso interessa seguramente.

A minha metafisica é para uso proprio. Não construi um sistema de filosofia humana. Tratei de responder apenas ás duvidas e curiosidades do meu espiríto. Não cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes, muitissimo diversos dos que já tinha anteriormente. Mas o que era intuição tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia ás cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e resoluto.

D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda literaria, meramente verbal e de superficie.

No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as conclusões ultimas do meu exame de consciencia, não pelo seu merito intrínseco, repito, mas como util comentario da minha obra poetica, de que ellas são verdadeiramente a alma essencial e geradora.

Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento fisico, esbocei e dei começo a este pequenino poema lirico d'Os Simples.

Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustiças, de vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bíblicos, na mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavarêdas d'oiro do castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa, d'abnegação e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldeões na terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e desejaram.

É claro que essas figuras não são inteiramente reaes, da realidade estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a minha alma, com o meu proprio ideal.

Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a paisagem, a pintura rustica, não o entendeu, nem o soube ler.

É muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros campestres e bucolicos.

A feição, por assim dizer, regional, do livro é, embora importante, subordinada e secundaria. A Moleirinha é mínhota. O Prestito funebre minhoto é. Mas coisa curiosa, o segundo canto—In Pulvis é já de todo transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao pé da sua chama…

Engana-se quem entre Os Simples e a Velhice do Padre Eterno descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso d'aquella satira. Aquella indignação é o comentario d'esta elegia. O christianismo dos Simples é o innocente e meigo christianismo popular, feito com a ignorancia absoluta do dogma e com a intuição humana dos Evangelhos. A exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, é por vezes d'uma penetração sublime e reveladora.

As minhas antigas opiniões religiosas, em vez de se modificarem, acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento progressivo de misticismo naturalista, a aversão e a hostilidade á egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e divino espirito de Jesus.

Em quanto á tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota não fosse escripta rapidamente, á ultima hora, com o impressor á espera.

A forma poetica encaminha-se á evolução final. Horisonte imenso. O pouco que fiz de novo, em tal sentido, não deve nada a ninguem. É meu, pertence-me.

E, de passagem, uma ligeira observação. Este livro, só hoje dado a publico, é d'ha muito conhecido entre homens de letras e poetas. E valha a verdade exerceu, aqui e alem, ainda inedito, uma certa influencia, que, embora leve, é inegavel e manifesta. Podia apontar, citar. Inutil. Desejo apenas estabelecer o facto, mais nada.

Concluindo: tentei uma obra d'arte, que fosse ao mesmo tempo absolutamente individual, ingenitamente portugueza e vasta e fundamentalmente humana. Alcancei-o? O tempo o dirá.

14 de Maio de 1892.

G. J.

*INDICE*

PRELUDIO
I—A Caminho
II—De Volta

I—A MOLEIRINHA

II—CADAVER
I—Prestito funebre
II—In Pulvis

III—EIRAS AO LUAR
IV—AS ERMIDAS
V—CANÇÃO PERDIDA
VI—O PASTOR
VII—O CAVADOR
VIII—OS POBRESINHOS
IX—CAMPO SANTO

EPILOGO
Regresso ao lar

NOTA

ERRATA

Passaram desapercebidos varios erros, principalmente ortograficos, de facil emenda para o leitor.

PREÇOS DA TIRAGEM ESPECIAL

Exemplar unico em pergaminho 45$000
Exemplares em papel Wathman 4$000

A 1.^a edição d'este livro, destinada a Portugal, pertence ao snr. Baptista Domingues, Vianna do Castello, a quem devem dirigir-se todas as requisições.