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Os sonetos completos de Anthero de Quental cover

Os sonetos completos de Anthero de Quental

Chapter 39: A IDEA
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About This Book

A collection of sonnets offering intense, introspective lyricism that fuses metaphysical speculation and mystic feeling with strict formal control. The poems probe inner conflict, melancholy, and existential doubt, alternating between stoic resignation, skeptical irony, and sudden tenderness. Imagery favors psychological, sculptural expression and musical diction rather than pictorial description, and recurring tensions between imagination and critical reason shape the tone. Compact and concentrated, the sonnets function as concise meditations on suffering, creative vocation, and the limits of knowledge, displaying refined technique alongside emotional urgency and philosophical questioning.

A M.C.

No céo, se existe um céo para quem chora.
Céo, para as magoas de quem soffre tanto…
Se é lá do amor o foco, puro e santo,
Chama que brilha, mas que não devora…

No céo, se uma alma n'esse espaço mora.
Que a prece escuta e encharga o nosso pranto…
Se ha Pae, que estenda sobre nós o manto
Do amor piedoso… que eu não sinto agora…

No céo, ó virgem! findarão meus males:
Hei-de lá renascer, eu que pareço
Aqui ter só nascido para dôres.

Ali, ó lyrio dos celestes valles!
Tendo seu fim, terão o seu começo.
Para não mais findar, nossos amores.

A João de Deus

Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;

É lei tambem, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.

O que ha-de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida:
Se procura, só acha… o desatino!

Só Deus póde acudir em tanto damno:
Esperemos a luz d'uma outra vida,
Seja a terra degredo, o céo destino.

A Alberto Telles

Só!—Ao ermita sósinho na montanha
Visita-o Deus e dá-lhe confiança:
No mar, o nauta, que o tufão balança,
Espera um sopro amigo que o céo tenha…

Só!—Mas quem se assentou em riba estranha,
Longe dos seus, lá tem inda a lembrança:
E Deus deixa-lhe ao menos a esperança
Ao que á noite soluça em erma penha…

Só!—Não o é quem na dor, quem nos cançaços,
Tem um laço que o prenda a este fadario.
Uma crença, um desejo… e inda um cuidado…

Mas cruzar, com desdem, inertes braços,
Mas passar, entre turbas, solitario,
Isto é ser só, é ser abandonado!

A J. Felix dos Santos

Sempre o futuro, sempre! e o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega… é presente… e só á dor assiste?…
Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delirio?… O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, peor, espectro impuro…

Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa.

A M. C.

Porque descrês, mulher, do amor, da vida?
Porque esse Hermon transformas em Calvario?
Porque deixas que, aos poucos, do sudario
Te aperte o seio a dobra humedecida?

Que visão te fugio, que assim perdida
Buscas em vão n'este ermo solitario?
Que signo obscuro de cruel fadario
Te faz trazer a fronte ao chão pendida?

Nenhum! intacto o bem em ti assiste:
Deus, em penhor, te deu a formosura;
Bençãos te manda o céo em cada hora.

E descrês do viver?… E eu, pobre e triste,
Que só no teu olhar leio a ventura,
Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?

A Alberto Sampaio

Não me fales de gloria: é outro o altar
Onde queimo piedoso o meu incenso,
E animado de fogo mais intenso,
De fé mais viva, vou sacrificar.

A gloria! pois que ha n'ella que adorar?
Fumo, que sobre o abysmo anda suspenso…
Que vislumbre nos dá do amor immenso?
Esse amor que ventura faz gosar?

Ha outro mais perfeito, unico eterno,
Farol sobre ondas tormentosas firme,
De immoto brilho, poderoso e terno…

Só esse hei-de buscar, e confundir-me
Na essencia do amor puro, sempiterno…
Quero só n'esse fogo consumir-me!

A Germano Meyrelles

Só males são reaes, só dor existe;
Prazeres só os gera a phantasia;
Em nada, um imaginar, o bem consiste,
Anda o mal em cada hora e instante e dia.

Se buscamos o que é, o que devia
Por natureza ser não nos assiste;
Se fiamos n'um bem, que a mente cria,
Que outro remedio ha ahi senão ser triste?

Oh! quem tanto pudera, que passasse
A vida em sonhos só, e nada vira…
Mas, no que se não vê, labor perdido!

Quem fôra tão ditoso que olvidasse…
Mas nem seu mal com elle então dormira,
Que sempre o mal peor é ter nascido!

A M. C.

Não busco n'esta vida gloria ou fama:
Das turbas que me importa o vão ruído?
Hoje, deus… e amanhã, já esquecido
Como esquece o clarão de extincta chama!

Foco incerto, que a luz já mal derrama,
Tal é essa ventura: eccho perdido,
Quanto mais se chamou, mais escondido
Ficou inerte e mudo á voz que o chama.

D'essa coroa é cada flor um engano,
É miragem em nuvem illusoria,
É mote vão de fabuloso arcano.

Mas coroa-me tu: na fronte ingloria
Cinge-me tu o louro soberano…
Verás, verás então se amo essa gloria!

AD AMICOS

Em vão luctamos. Como nevoa baça,
A incerteza das cousas nos envolve.
Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve,
Nas suas proprias redes se embaraça.

O pensamento, que mil planos traça,
É vapor que se esvae e se dissolve;
E a vontade ambiciosa, que resolve,
Como onda entre rochedos se espedaça.

Filhos do Amor, nossa alma é como um hymno
Á luz, á liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d'um presentir divino;

Mas n'um deserto só, arido e fundo,
Ecchoam nossas vozes, que o Destino
Paira mudo e impassivel sobre o mundo.

A um crucifixo

Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste… ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojáras de nova á campa os membros lassos…

Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario…

E agora, como então, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar—de que servio o sangue
Com que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?—

Desesperança

Vae-te na aza negra da desgraça,
Pensamento de amor, sombra d'uma hora,
Que abracei com delirio, vae-te, embora,
Como nuvem que o vento impelle… e passa.

Que arrojemos de nós quem mais se abraça,
Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora
D'essa alma o sangue, com que vigora,
Como amigo commungue á mesma taça!

Que seja sonho apenas a esperança,
Emquanto a dor eternamente assiste.
E só engano nunca a desventura!

Se era silencio soffrer fôra vingança!..
Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,
Talvez sem esperança haja ventura!

BEATRICE

Depois que dia a dia, aos poucos desmaiando,
Se foi a nuvem d'ouro ideal que eu vira erguida:
Depois que vi descer, baixar no céo da vida
Cada estrella e fiquei nas trevas laborando:

Depois que sobre o peito os braços apertando
Achei o vacuo só, e tive a luz sumida
Sem ver já onde olhar, e em todo vi perdida
A flor do meu jardim, que eu mais andei regando:

Retirei os meus pés da senda dos abrolhos,
Virei-me a outro céo, nem ergo já meus olhos
Senão á estrella ideal, que a luz d'amor contém…

Não temas pois—Oh vem! o céo é puro, e calma
E silenciosa a terra, e doce o mar, e a alma…
A alma! não vês tu? mulher, mulher! oh vem!

1862—1866

AMOR VIVO

Amar! mas d'um amor que tenha vida…
Não sejam sempre timidos harpejos,
Não sejam só delirios e desejos
D'uma douda cabeça escandecida…

Amor que vive e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser—e não só beijos
Dados no ar—delirios e desejos—
Mas amor… dos amores que têm vida…

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipal-o nos meus braços
Como nevoa da vaga phantasia…

Nem murchará do sol á chama erguida…
Pois que podem os astros dos espaços
Contra debeis amores… se têm vida?

VISITA

Adornou o meu quarto a flor do cardo,
Perfumei-o de almiscar recendente;
Vesti-me com a purpura fulgente,
Ensaiando meus cantos, como um bardo;

Ungi as mãos e a face com o nardo
Crescido nos jardins do Oriente,
A receber com pompa, dignamente,
Mysteriosa visita a quem aguardo.

Mas que filha de reis, que anjo ou que fada
Era essa que assim a mim descia,
Do meu casebre á humida pousada?…

Nem princezas, nem fadas. Era, flor,
Era a tua lembrança que batia
Ás portas de ouro e luz do meu amor!

PEQUENINA

Eu bem sei que te chamam pequenina
E tenue como o véo solto na dança,
Que és no juizo apenas a criança,
Pouco mais, nos vestidos, que a menina

Que és o regato de agua mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cança,
A fronte que ao soffrer logo se inclina…

Mas, filha, lá nos montes onde andei,
Tanto me enchi de angustia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecchos,

Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E subditos, criança, em teus bonecos!

A SULAMISA

Ego dormio, et cor meum vigilat. CANTICO DOS CANTICOS.

Quem anda lá por fóra, pela vinha
Na sombra do luar meio cacoberto,
Sutil nos passos e espreitando incerto,
Com brando respirar de criancinha?

Um sonho me accordou… não sei que tinha…
Pareceu-me sentil-o aqui tão perto…
Seja alta noite, seja n'um deserto,
Quem ama até em sonhos adivinha…

Môças da minha terra, ao meu amado
Correi, dizei-lhe que eu dormia agora,
Mas que póde ir contente e descançado,

Pois se tão cedo adormeci, conforme
É meu costume, olhae, dormia embora,
Porque o meu coração é que não dorme…

Sonho oriental

Sonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsamica e fulgente
E a lua cheia sobre as aguas brilha…

O aroma da magnolia e da baunilha
Paira no ar diaphano e dormente…
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha…

E emquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto n'um scismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,

Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descanças debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.

Quinze annos

Eu amo a vasta sombra das montanhas,
Que estendem sobre os largos continentes
Os seus braços de rocha negra, ingentes,
Bem como braços colossaes aranhas.

D'ali o nosso olhar vê tão estranhas
Cousas, por esse céo! e tão ardentes
Visões, lá n'esse mar de ondas trementes!
E ás estrellas, d'ali, vê-as tamanhas!

Amo a grandeza mysteriosa e vasta…
A grande idea, como a flor e o viço
Da arvore colossal que nos domina…

Mas tu, criança, sê tu boa… e basta:
Sabe amar e sorrir… é pouco isso?
Mas a ti só te quero pequenina!

IDYLLIO

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos valles lyrios e boninas,
E galgamos d'um folego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar, das ermas cumiadas,
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem phantasticas ruinas
Ao longe, no horisonte, amontoadas:

Quantas vezes, de subito, emmudeces!
Não sei que luz no teu olhar fluctua;
Sinto tremer-te a mão, e empallideces…

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das cousas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.

NOCTURNO

Espirito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo da noite que fluctua,
Tu só entendes bem o meu tormento…

Como um canto longinquo—triste e lento—
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento…

A ti confio o sonho em que me leva
Um instincto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Genio da Noite, e mais ninguem!

SONHO

Sonhei—nem sempre o sonho é cousa vã—
Que um vento me levava arrebatado,
Atravez d'esse espaço constellado
Onde uma aurora eterna ri louçã…

As estrellas, que guardam a manhã,
Ao verem-me passar triste e calado,
Olhavam-me e dixiam com cuidado:
Onde está, pobre amigo, a nossa irmã?

Mas eu baixava os olhos, receoso
Que trahissem as grandes magoas minhas,
E passava furtivo e silencioso,

Nem ousava contar-lhes, ás estrellas,
Contar ás tuas puras irmansinhas
Quanto és falsa, meu bem, e indigna d'ellas!

AMARITUDO

Só por ti, astro ainda e sempre occulto,
Sombra do Amor e sonho da Verdade,
Divago eu pelo mundo e em anciedade
Meu proprio coração em mim sepulto.

De templo em templo, em vão, levo o meu culto,
Levo as flores d'uma intima piedade.
Vejo os votos da minha mocidade
Receberem sómente escarneo e insulto.

Á beira do caminho me assentei…
Escutarei passar o agreste vento,
Exclamando: assim passe quando amei!—

Oh minh'alma, que creste na virtude!
O que será velhice e desalento,
Se isto se chama aurora e juventude?

ABNEGAÇÃO

Chovam lyrios e rosas no teu collo!
Chovam hymnos de gloria na tua alma!
Hymnos de gloria e adoração e calma,
Meu amor, minha pomba e meu consolo!

Dê-te estrellas o céo, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palmar.
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!

E nem sequer te lembres de que eu chóro…
Esquece até, esquece, que te adoro…
E ao passares por mim, sem que me olhes,

Possam das minhas lagrimas crueis
Nascer sob os teus pés flores fieis,
Que pises distrahida ou rindo esfolhes!

APPARIÇÃO

Um dia, meu amor (e talvez cedo,
Que já sinto estalar-me o coração!)
Recordarás com dor e compaixão
As ternas juras que te fiz a medo…

Então, da casta alcova no segredo,
Da lamparina ao tremulo clarão,
Ante ti surgirei, espectro vão,
Larva fugida ao sepulcral degredo…

E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos
E afflictos ais, estenderás os braços
Tentando segurar-te aos meus vestidos…

—«Ouve! espera!»—Mas eu, sem te escutar,
Fugirei, como um sonho, aos teus abraços
E como fumo sumir-me-hei no ar!

ACCORDANDO

Em sonho, ás vezes, se o sonhar quebranta
Este meu vão soffrer; esta agonia,
Como sobe cantando a cotovia,
Para o céo a minh'alma sobe e canta.

Canta a luz, a alvorada, a estrella santa,
Que ao mundo traz piedosa mais um dia…
Canta o enlevo das cousas, a alegria
Que as penetra de amor e as alevanta…

Mas, de repente, um vento humido e frio
Sopra sobre o meu sonho: um calafrio
Me accorda.—A noite é negra e muda: a dor

Cá vela, como d'antes, ao meu lado…
Os meus cantos de luz, anjo adorado,
São sonho só, e sonho o meu amor!

MÃE…

Mãe—que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas ate o fio
Do meu pobre existir, meio partido…

Que me leve comsigo, adormecido,
Ao passar pelo sitio mais sombrio…
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido…

Eu dava o meu orgulho de homem—dava
Minha esteril sciencia, sem receio,
E em debil criancinha me tornava.

Descuidada, feliz, docil tambem,
Se eu podesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!

Na capella

Na capella, perdida entre a folhagem,
O Christo, lá no fundo, agonisava…
Oh! como intimamente se casava
Com minha dor a dor d'aquella imagem!

Filhos ambos do amor, igual miragem
Nos roçou pela fronte, que escaldava…
Igual traição, que o affecto mascarava,
Nos deu supplicio ás mãos da villanagem…

E agora, ali, em quanto da floresta
A sombra se infiltrava lenta e mesta,
Vencidos ambos, martyres do Fado,

Fitavamo-nos mudos—dor igual!—
Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual
Mais pallido, mais triste e mais cançado…

Velut Umbra

Fumo e scismo. Os castellos do horizonte
Erguem-se, á tarde, e crescem, de mil cores,
E ora espalham no céo vivos ardores,
Ora fumam, vulcões de estranho monte…

Depois, que formas vagas vêm defronte,
Que parecem sonhar loucos amores?
Almas que vão, por entre luz e horrores,
Passando a barca d'esse aereo Acheronte…

Apago o meu charuto quando apagas
Teu facho, oh sol… ficamos todos sós…
É n'esta solidão que me consumo!

Oh nuvens do Occidente, oh cousas vagas,
Bem vos entendo a cor, pois, como a vós,
Belleza e altura se me vão em fumo!

MEA CULPA

Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto o seixo.

Não chamo a Deus tyranno, nem me queixo,
Nem chamo ao céo da vida noite fria;
Não chamo á existencia hora sombria;
Acaso, á ordem; nem á lei desleixo.

A Natureza é minha mãe ainda…
É minha mãe… Ah, se eu á face linda
Não sei sorrir: se estou desesperado;

Se nada ha que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza…
É de crer que só eu seja o culpado!

O Palacio da Ventura

Sonho que sou um cavalleiro andante.
Por desertos, por sóes, por noite escura,
Paladino do amor, busco anhelante
O palacio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exhausto e vacillante.
Quebrada a espada já, roda a armadura…
E eis que subito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aerea formosura!

Com grandes golpes bato á porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Desherdado…
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silencio e escuridão—e nada mais!

JURA

Pelas rugas da fronte que medita…
Pelo olhar que interroga—e não vê nada…
Pela miseria e pela mão gelada
Que apaga a estrella que nossa alma fita…

Pelo estertor da chama que crepita
No ultimo arranco d'uma luz minguada…
Pelo grito feroz da abandonada
Que um momento de amante fez maldita…

Por quanto ha de fatal, que quanto ha mixto
De sombra e de pavor sob uma lousa…
Oh pomba meiga, pomba de esperança!

Eu t'o juro, menina, tenho visto
Cousas terriveis—mas jamais vi cousa
Mais feroz do que um riso de criança!

IDEAL

Aquella, que eu adoro, não é feita
De lyrios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas languidas, divinas
Da antiga Venus de cintura estreita…

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortaes entre ruinas,
Nem a Amazona, que se agarra ás crinas
D'um corcel e combate satisfeita…

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino…

É como uma miragem, que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpavel do Desejo…

Emquanto outros combatem

Empunhasse eu a espada dos valentes!
Impellisse-me a acção, embriagado,
Por esses campos onde a Morte e o Fado
Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!

Respirariam meus pulmões contentes
O ar de fogo do circo ensanguentado…
Ou cahira radioso, amortalhado
Na fulva luz dos gladios reluzentes!

Já não veria dissipar-se a aurora
De meus inuteis annos, sem uma hora
Viver mais que de sonhos e anciedade!

Já não veria em minhas mãos piedosas
Desfolhar-se, uma a uma, as tristes rosas
D'esta pallida e esteril mocidade!

DESPONDENCY

Deixal-a ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade…
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as azas partidas a levaram…

Deixal-a ir, a vela, que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgio da immensidade,
Quando os ventos do Sul levantaram…

Deixal-a ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
Á morte queda, á morte silenciosa…

Deixal-a ir, a nota desprendida
D'um canto extremo… e a ultima esperança…
E a vida… e o amor… deixal-a ir, a vida!

Das Unnennbare

Oh chimera, que passas embalada
Na onda de meus sonhos dolorosos,
E roças co'os vestidos vaporosos
A minha fronte pallida e cançada!

Leva-te o ar da noite socegada…
Pergunto em vão, com olhos anciosos,
Que nome é que te dão os venturosos
No teu paiz, mysteriosa fada!

Mas que destino o meu! e que luz baça
A d'esta aurora, igual á do sol posto,
Quando só nuvem livida esvoaça!

Que nem a noite uma illusão consinta!
Que só de longe e em sonhos te presinta…
E nem em sonhos possa ver-te o rosto!

Metempsychose

Ausentes filhas do prazer: dizei-me!
Vossos sonhos quaes são, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
Do que fostes, em vós se agita e freme?

N'outra vida e outra esphera, aonde geme
Outro vento, e se accende um outro dia,
Que corpo tinheis? que materia fria
Vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes nas florestas bravas feras,
Arrastando, leôas ou pantheras,
De dentadas de amor um corpo exangue…

Mordei pois esta carne palpitante,
Feras feitas de gaze fluctuante…
Lobas! leôas! sim, bebei meu sangue!

UMA AMIGA

Aquelles, que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo…
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que á noite evoca o sentimento…

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos… que eu invejo…
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

D'aquella primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa…
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel—tu, como d'antes,
Inda volves teus olhos radiantes…
Para ver o meu mal… e escarnecel-o!

A uma mulher

Para tristezas, para dor nasceste.
Podia a sorte por-te o berço estreito
N'algum palacio e ao pé de regio leito,
Em vez d'este areal onde cresceste:

Podia abrir-te as flores—com que veste
As ricas e as felizes—n'esse peito:
Fazer-te… o que a Fortuna ha sempre feito…
Terias sempre a sorte que tiveste!

Tinhas de ser assim… Teus olhos fitos,
Que não são d'este mundo e onde eu leio
Uns mysterios tão tristes e infinitos,

Tua voz rara e esse ar vago e esquecido,
Tudo me diz a mim, e assim o creio,
Que para isto só tinhas nascido!

Voz do Outomno

Ouve tu, meu cançado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
—«Mais te valera, nú e sem defeza,
Ter nascido em asperrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel
deveza, Do que emballar-te a Fada da Belleza,
Como emballou, no berço da Illusão!

Mais valera á tua alma visionaria
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba varia,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com odio e raiva e dor… que ter sonhado
Os sonhos ideaes que tu sonhaste!»—

Sepultura romantica

Ali, onde o mar quebra, n'um cachão
Rugidor e monotono, e os ventos
Erguem pelo areal os seus lamentos,
Ali se ha-de enterrar meu coração.

Queimem-no os sóes da adusta solidão
Na fornalha do estio, em dias lentos;
Depois, no inverno, os sopros violentos
Lhe revolvam em torno o arido chão…

Até que se desfaça e, já tornado
Em impalpavel pó, seja levado
Nos turbilhões que o vento levantar…

Com suas luctas, seu cançado anceio,
Seu louco amor, dissolva-se no seio
D'esse infecundo, d'esse amargo mar!

1864—1874

A IDEA

I

Pois que os deuses antigos e os antigos
Divinos sonhos por esse ar se somem,
E á luz do altar da fé, em Templo ou Dolmen,
A apagaram os ventos inimigos;

Pois que o Sinai se ennubla e os seus pacigos,
Seccos á mingua de agua, se consomem,
E os prophetas d'outrora todos dormem
Esquecidos, em terra sem abrigos;

Pois que o céo se fechou e já não desce
Na escada de Jacob (na de Jesus!)
Um só anjo, que acceite a nossa prece;

É que o lyrio da Fé já não renasce:
Deus tapou com a mão a sua luz
E ante os homens velou a sua face!

II

Pallido Christo, oh conductor divino!
A custo agora a tua mão tão doce
Incerta nos conduz, como se fosse
Teu grande coração perdendo o tino…

A palavra sagrada do Destino
Na bocca dos oraculos seccou-se:
A luz da sarça ardente dissipou-se
Ante os olhos do vago peregrino!

Ante os olhos dos homens—porque o mundo
Desprendido rolou das mãos de Deus,
Como uma cruz das mãos d'um moribundo!

Porque já se não lê seu nome escrito
Entre os astros… e os astros, como atheus,
Já não querem mais lei que o infinito!

III

Força é pois ir buscar outro caminho!
Lançar o arco de outra nova ponte
Por onde a alma passe—e um alto monte
Aonde se abre á luz o nosso ninho.

Se nos negam aqui o pão e o vinho,
Avante! é largo, immenso esse horizonte…
Não, não se fecha o mundo! e além, defronte,
E em toda a parte ha luz, vida e carinho!

Avante! os mortos ficarão sepultos…
Mas os vivos que sigam, sacudindo
Como o pó da estrada os velhos cultos!

Doce e brando era o seio de Jesus…
Que importa? havemos de passar, seguindo,
Se além do seio d'elle houver mais luz!

IV

Conquista pois sósinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado,
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem—proscrito rei—mendigo escuro!

Se não tens que esperar do céo (tão puro,
Mas tão cruel!) e o coração magoado
Sentes já de illusões desenganado,
Das illusões do antigo amor perjuro:

Ergue-te, então, na magestade estoica
D'uma vontade solitaria e altiva,
N'um esforço supremo de alma heroica!

Faze um templo dos muros da cadeia,
Prendendo a immensidade eterna e viva
No circulo de luz da tua Idea!

V

Mas a Idea quem é? quem foi que a vio,
Jámais, a essa encoberta peregrina?
Quem lhe beijou a sua mão divina?
Com seu olhar de amor quem se vestio?

Pallida imagem, que a agua de algum rio,
Reflectindo, levou… incerta e fina
Luz, que mal bruxulêa pequenina…
Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumio…

Estendei, estendei-lhe os vossos braços,
Magros da febre d'um sonhar profundo,
Vós todos que a seguis n'esses espaços!

E emtanto, oh alma triste, alma chorosa,
Tu não tens outra amante em todo o mundo
Mais que essa fria virgem desdenhosa!

VI

Outra amante não ha! não ha na vida
Sombra a cobrir melhor nossa cabeça,
Nem balsamo mais doce, que adormeça
Em nós a antiga, a secular ferida!

Quer fuja esquiva, ou se offereça erguida,
Como quem sabe amar e amar confessa,
Quer nas nuvens se esconda ou appareça,
Será sempre ella a esposa promettida!

Nossos desejos para ti, oh fria,
Se erguem, bem como os braços do proscrito
Para as bandas da patria, noite e dia.

Podes fugir… nossa alma, delirante,
Seguir-te-ha a travez do infinito,
Até voltar comtigo, triumphante!

VII

Oh! o noivado barbaro! o noivado
Sublime! aonde os céos, os céos ingentes,
Serão leito de amor, tendo pendentes
Os astros por docel e cortinado!

As bodas do Desejo, embriagado
De ventura, a final! visões ferventes
De quem nos braços vae de ideaes ardentes
Por espaços sem termo arrebatado!

Lá, por onde se perde a phantasia
No sonho da belleza: lá, aonde
A noite tem mais luz que o nosso dia;

Lá, no seio da eterna claridade,
Aonde Deus á humana voz responde;
É que te havemos abraçar, Verdade!

VIII

Lá! Mas aonde é ?—Espera,
Coração indomado! o céo, que anceia
A alma fiel, o céo, o céo da Idea.
Em vão o buscas n'essa immensa esphera!

O espaço é mudo: a immensidade austera
De balde noite e dia incendeia…
Em nenhum astro, em nenhum sol se alteia
A rosa ideal da eterna primavera!

O Paraiso e o templo da Verdade,
Oh mundos, astros, sóes, constellações!
Nenhum de vós o tem na immensidade…

A Idea, o summo Bem, o Verbo, a Essencia,
Só se revela aos homens e ás nações
No céo incorruptivel da Consciencia!

A um crucifixo

     Lendo, passados 12 annos, o soneto da parte 1.^a que tem o mesmo
     titulo

Não se perdeu teu sangue generoso,
Nem padeceste em vão, quem quer que foste,
Plebeu antigo, que amarrado ao poste
Morreste como vil e faccioso.

D'esse sangue maldito e ignominioso
Surgio armada uma invencivel hoste…
Paz aos homens e guerra aos deuses!—poz-te
Em vão sobre um altar o vulgo ocioso…

Do pobre que protesta foste a imagem:
Um povo em ti começa, um homem novo:
De ti data essa tragica linhagem.

Por isso nós, a Plebe, ao pensar n'isto,
Lembraremos, herdeiros d'esse povo,
Que entre nossos avós se conta Christo.

DIALOGO

A cruz dizia á terra onde assentava,
Ao valle obscuro, ao monte aspero e mudo:
—Que és tu, abysmo e jaula, aonde tudo
Vive na dor e em lucta cega e brava?

Sempre em trabalho, condemnada escrava.
Que fazes tu de grande e bom, comtudo?
Resignada, és só lodo informe e rudo;
Revoltosa, és só fogo e horrida lava…

Mas a mim não ha alta e livre serra
Que me possa igualar!.. amor, firmeza,
Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!

Sou o espirito, a luz!.. tu és tristeza,
Oh lodo escuro e vil!—Porêm a terra
Respondeu: Cruz, eu sou a Natureza!

MAIS LUZ!

(A Guilherme de Azevedo)

Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossiveis,
E os que inclinam, mudos e impassiveis,
Á borda dos abysmos silenciosos…

Tu, lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensiveis,
Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heroes!

These e Antithese

I

Já não sei o que vale a nova idea,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, á luz da barricada,
Como bacchante após lubrica ceia…

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa de alma vasta e socegada
Eil-a presa das furias de Medea!

Um seculo irritado e truculento
Chama á epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obuz…

Mas a idea é n'um mundo inalteravel,
N'um crystallino céo, que vive estavel…
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

N'um céo intemerato e crystallino
Póde habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectaculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulmão possante…
Cá da terra blasphema ou ergue um hymno…

A idea encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos soes!

Combatei pois na terra arida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da lucta,
Té que a fecunde o sangue dos heroes!

Justitia Mater

Nas florestas solemnes ha o culto
Da eterna, intima força primitiva:
Na serra, o grito audaz da alma captiva,
Do coração, em seu combate inulto:

No espaço constellado passa o vulto
Do innominado Alguem, que os soes aviva:
No mar ouve-se a voz grave e afflictiva
D'um deus que lucta, poderoso e inculto.

Mas nas negras cidades, onde sôlta
Se ergue, de sangue medida, a revolta,
Como incendio que um vento bravo atiça,

Ha mais alta missão, mais alta gloria:
O combater, á grande luz da historia,
Os combates eternos da Justiça!

Palavras d'um certo Morto

Ha mil annos, e mais, que aqui estou morto,
Posto sobre um rochedo, á chuva e ao vento:
Não ha como eu espectro macilento,
Nem mais disforme que eu nenhum aborto…

Só o espirito vive: vela absorto
N'um fixo, inexoravel pensamento:
«Morto, enterrado em vida!» o meu tormento
É isto só… do resto não me importo…

Que vivi sei-o eu bem… mas foi um dia,
Um dia só—no outro, a Idolatria
Deu-me um altar e um culto… ai! adoraram-me.

Como se eu fosse alguem! como se a Vida
Podesse ser alguem!—logo em seguida
Disseram que era um Deus… e amortalharam-me!

A UM POETA

Surge et ambula!

Tu, que dormes, espirito sereno,
Posto á sombra dos cedros seculares,
Como um levita á sombra dos altares,
Longe da lucta e do fragor terreno,

Accorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio d'esses mares,
Um mundo novo espera só um aceno…

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções…
Mas de guerra… e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Hymno á Razão

Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz d'um coração que te appetece,
D'uma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e soes e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroismo medra e viça.

Por ti, na arena tragica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões:
E os que olham o futuro e scismam, mudos,

Por ti, podem soffrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

1874—1880

HOMO

Nenhum de vós ao certo me conhece,
Astros do espaço, ramos do arvoredo,
Nenhum adivinhou o meu segredo,
Nenhum interpretou a minha prece…

Ninguem sabe quem sou… e mais, parece
Que ha dez mil annos já, neste degredo,
Me vê passar o mar, vê-me o rochedo
E me contempla a aurora que alvorece…

Sou um parto da Terra monstruoso;
Do humus primitivo e tenebroso
Geração casual, sem pae nem mãe…

Mixto infeliz de trevas e de brilho,
Sou talvez Satanaz;—talvez um filho
Bastardo de Jehovah;—talvez ninguem!

Disputa em familia

Dixit insipiens in corde suo: non est Deus.

I

Sae das nuvens, levanta a fronte e escuta
O que dizem teus filhos rebellados,
Velho Jehovah de longa barba hirsuta,
Solitario em teus Céos acastellados:

«—Cessou o imperio emfim da força bruta!
Não soffreremos mais, emancipados,
O tyranno, de mão tenaz e astuta,
Que mil annos nos trouxe arrebanhados!

Emquanto tu dormias impassivel,
Topámos no caminho a liberdade
Que nos sorrio com gesto indefinivel…

Já provámos os fructos da verdade…
Ó Deus grande, ó Deus forte, ó Deus terrivel.
Não passas d'uma van banalidade!—»

II

Mas o velho tyranno solitario,
De coração austero e endurecido,
Que um dia, de enjoado ou distrahido,
Deixou matar seu filho no Calvario,

Sorrio com rir extranho, ouvindo o vario
Tumultuoso côro e alarido
Do povo insipiente, que, atrevido,
Erguia a voz em grita ao seu sacrario:

«—Vanitas vanitatum! (disse). É certo
Que o homem vão medita mil mudanças,
Sem achar mais do que erro e desacerto.

Muito antes de nascerem vossos paes
D'um barro vil, ridiculas crianças,
Sabia em tudo isso… e muito mais!—»

Mors liberatrix

(A Bulhão Pato)

Na tua mão, sombrio cavalleiro,
Cavalleiro vestido de armas pretas,
Brilha uma espada feita de cometas,
Que rasga a escuridão como um luzeiro.

Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo involto na noite que projectas…
Só o gladio de luz com fulvas betas
Emerge do sinistro nevoeiro.

—«Se esta espada que empunho é coruscante,
(Responde o negro cavalleiro-andante)
É porque esta é a espada da Verdade.

Firo, mas salvo… Prostro e desbarato,
Mas consólo… Subverto, mas resgato…
E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»

O Inconsciente

O Espectro familiar que anda commigo,
Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ancioso espreito e sigo.

É um espectro mudo, grave, antigo,
Que parece a conversas mal disposto…
Ante esse vulto, ascetico e composto
Mil vezes abro a bocca… e nada digo.

Só uma vez ousei interrogal-o:
Quem és (lhe perguntei com grande abalo)
Phantasma a quem odeio e a quem amo?

Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos,
Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos…
Mas eu por mim não sei como me chamo…

MORS-AMOR

(A Luiz de Magalhães)

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me apparece
Da noite nas phantasticas estradas.

D'onde vem elle? Que regiões sagradas
E terriveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavalleiro de expressão potente,
Formidavel, mas placido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera extranha sem temor.
E o corcel negro diz: «Eu sou a Morte!»
Responde o cavalleiro: «Eu sou o Amor!»

ESTOICISMO

(A Manoel Duarte de Almeida)

Tu que não crês, nem amas, nem esperas,
Espirito de eterna negação,
Teu halito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras…

Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como n'um sonho mau, só oiço um não,
Que eternamente ecchoa entre as espheras…

—Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Oppor á Sorte a queixa do egoismo…

Deixa aos timidos, deixa aos sonhadores
A esperança van, seus vãos fulgores…
Sabe tu encarar sereno o abysmo!

ANIMA MEA

Estava a Morte alli, em pé, diante,
Sim, diante de mim, como serpente
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.

Era de ver a funebre bacchante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?»

—Não temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a bocca fria).

Eu não busco o teu corpo… Era um tropheu
Glorioso de mais… Busco a tua alma—
Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»

Divina comedia

(Ao Dr. José Falcão)

Erguendo os braços para o céo distante
E apostrophando os deuses invisiveis,
Os homens clamam:—«Deuses impassiveis,
A quem serve o destino triumphante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inestinguiveis,
Dor, peccado, illusão, luctas horriveis,
N'um turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem:—«Homens! porque é que nos criastes?»

Espiritualismo

I

Como um vento de morte e de ruina,
A Duvida soprou sobre o Universo.
Fez-se noite de subito, immerso
O mundo em densa e algida neblina.

Nem astro já reluz, nem ave trina,
Nem flor sorri no seu aereo berço.
Um veneno sutil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.

E, no meio da noite monstruosa,
Do silencio glacial, que paira e estende
O seu sudario, d'onde a morte pende,

Só uma flor humilde, mysteriosa,
Como um vago protesto da existencia,
Desabroxa no fundo da Consciencia.

II

Dorme entre os gelos, flor immaculada!
Lucta, pedindo um ultimo clarão
Aos soes que ruem pela immensidão,
Arrastando uma aureola apagada…

Em vão! Do abysmo a bocca escancarada
Chama por ti na gélida amplidão…
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada…

Tu morrerás tambem. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Ha-de ecchoar, e teu perfume extremo

No vacuo eterno se esvahirá disperso,
Como o alento final d'um moribundo,
Como o ultimo suspiro do Universo.

O CONVERTIDO

(A Gonçalves Crespo)

Entre os filhos d'um seculo maldito
Tomei tambem o logar na impia meza,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D'uma ancia impotente de infinito.

Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza…
Mas, um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!

Erma, cheia de tedio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para Deus minha alma triste!

Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inercia e esquecimento…
Só me falta saber se Deus existe!

ESPECTROS

Espectros que velaes, emquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus somnos curtos e cançados
Me encheis as noites de agonia e susto!…

De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados
Disputar dia a dia á mão dos Fados
Uma parcella do saber augusto,

Se a minh'alma ha-de ver, sobre si fitos,
Sempre esses olhos tragicos, malditos!
Se até dormindo, com angustia immensa,

Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma verter sobre o meu peito
As lagrimas geladas da descrença!

Á Virgem Santissima

Cheia de Graça, Mãe de Misericordia

N'um sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizivel anciedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da belleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as ha na natureza…

Um mystico soffrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

NOX

(A Fernando Leal)

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, á luz cruel do dia,
Tanto esteril luctar, tanta agonia,
E inuteis tantos asperos tormentos…

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exhalam da tragica enxovia…
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descança e esquece, alguns momentos…

Oh! antes tu tambem adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalteravel,
Cahindo sobre o mundo, te esquecesses,

E elle, o mundo, sem mais luctar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolavel,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

EM VIAGEM

Pelo caminho estreito, aonde a custo
Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte,
Mas só bruta aridez de aspero monte
E os soes e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem susto
E sem susto encarei, vendo-os defronte,
Phantasmas que surgiam do horizonte
A accommetter meu coração robusto…

Quem sois vós, peregrinos singulares?
Dor, Tedio, Desenganos e Pesares…
Atraz d'elles a Morte espreita ainda…

Conheço-vos. Meus guias derradeiros
Sereis vós. Silenciosos companheiros,
Bemvindos, pois, e tu, Morte, bemvinda!

Quia aeternus

(A Joaquim de Araujo)

Não morreste, por mais que o brade á gente
Uma orgulhosa e van philosophia…
Não se sacode assim tão facilmente
O jugo da divina tyrannia!

Clamam em vão, e esse triumpho ingente
Com que a Razão—coitada!—se inebria,
É nova forma, apenas, mais pungente,
Da tua eterna, tragica ironia.

Não, não morreste, espectro! o Pensamento
Como d'antes te encara, e és o tormento
De quantos sobre os livros desfallecem.

E os que folgam na orgia impia e devassa
Ai! quantas vezes ao erguer a taça,
Param, e estremecendo, empallidecem!

No turbilhão

(A Jayme Batalha Reis)

No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus proprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões…

N'uma espiral, de estranhas contorsões,
E d'onde sáem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições…

—Phantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitaes com formidavel calma,
Levados na onda turva do escarceo,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões miserrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!…