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Os tripeiros / romance-chronica do seculo XIV cover

Os tripeiros / romance-chronica do seculo XIV

Chapter 11: V. Irene.
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About This Book

A narrativa recria uma cidade ribeirinha do século XIV abalada por uma crise dinástica e por conflitos civis, acompanhando procissões multitudinárias de cidadãos armados, mercenários, clero e nobres. Cenas detalhadas mostram armaduras desencontradas, armas improvisadas e trajes variados, enquanto magistrados municipais, juristas, corporações e facções populares disputam a autoridade. O texto alterna reportagem viva ao nível das ruas com comentários reflexivos sobre a fluidez das facções, a identidade local e os limites porosos entre a ordem cívica e a violência. Descrições de mercadores estrangeiros e bairros marginalizados evidenciam o mosaico social que molda lealdades políticas e a vida quotidiana em tempo de governo contestado.

Aquelles cidadãos nobres praticavam n'isto com mais deliberação, como homens, que tinham mais que perder, que os plebeus que seguiam o Mestre...

chronica de d. joão 1.º


Uma cidade da peninsula, no seculo XIV, não era um aggregado de individuos vivendo, como hoje, debaixo da mesma lei—segundo reza a lei, entenda-se. Afóra as distincções de classes e senhorios diversos, havia a distincção de crenças, e a separação era visivel nas grossas cadeias que tornavam ao cahir das Ave-Marias incommunicaveis certos bairros. O Porto tinha de tudo: subditos da coroa e subditos da mitra, e no tempo em que succedia o que narramos, moradores que nem reconheciam uma, nem outra; havia christãos, mouros e judeus. Sobre um monte alteavam-se as torres da Sé, e os paços fortificados do bispo; sobre o outro mais humilde levantava-se a esnoga, ou synagoga, e na encosta, entre um e outro, a pequena aljama appresentava-se, como o symbolo da religião do propheta de Yatreb, querendo approximar-se do Evangelho e da Biblia, e lançando depois pela encosta um ou outro casebre, como transição para alguma morada de heresiarcha que se occultasse entre os foragidos do Oriente. A aljama era a mais pobre: a esnoga era a mais rica; a cruz, mais alta, dominando as duas, era a mais forte.

Aljama, municipio, cathedral, esnoga, tudo fôra cintado pela mesma muralha, como para viver em boa fraternidade; mas esta aguara entre os dous filhos de Adão, quanto mais entre tanta gente. O judeu despresava o mouro; o mouro despresava o judeu; o christão despresava a ambos, e, como fizera a lei, talhára para si mais regalias e para os outros mais tributos, reservando, para os que nada tivessem de seu, o direito de se lamentarem em particular de algum pescoção de burguez arrufado, gilvaz de cavalleiro, pedrada de garoto e praga de rascôa enraivecida, ou velha rabujenta. Era uma sorte bem agradavel, feliz, comtudo, aquella, em comparação á que lhes prepararam, aos judeus especialmente, uns beatos mettidos em politica, de que se serviam para ganhar o céu, suppunham elles, e um bando de togas, garnachas e roupetas que se serviam do céu para apanhar dinheiro. Aquella animosidade era a regra geral, mas toda a regra tem excepção, e na mouraria era ás vezes recebido com os braços abertos o mesteiral; na judearia havia mão que se estendia ao burguez em prova de amisade sincera, e um ou outro filho de Israel achava agasalho não chorado na casa do christão, mesmo quando aquelle não tinha a arca cheia de boas dobras; que em tal caso todas as portas se abriam, desde a do paço régio ou episcopal e a do solar do nobre, até á da cella do reverendo abbade, e a do leigo, e sobre elles choviam honras e mercês; como eram prova viva D. Judas e D. David, duas creaturas, que, fazendo grande arruido na côrte, jogaram com os destinos do paiz, como bons ministros de finanças—o nome, o titulo ainda não estava creado, mas a cousa já existia—não se esquecendo de tirar delle todo o succo possivel. Gonçalo Domingues vivia em boa harmonia com o arabi, ou arrabi menor, harmonia que o devia lisongear, pois era até certo ponto uma notabilidade, como chefe dos judeus da cidade e como homem de teres, e por isso se resolvera a subir a encosta, pelo lado do Olival, para fallar em certos negocios em que desejava servir um seu compadre, e tractar da compra de porção de gado. O velho Gonçalo, forçureiro nos seus principios, reunira o cabedal bastante para alargar a área do seu commercio: estendera-o ás carnes-verdes e ensacadas e a pellames de todo o genero; tornara-se em fim um negociante de consideração, como um seu collega de Coimbra, que salvou a patria, emprestando a sua senhoria, o Mestre de Aviz, alguns punhados de dobras, serviço que lhe rendeu a doação de alguns bens nacionaes e a gloria de ser o tronco de uma nobre familia. A nobreza de elmo cerrado atira-se aos fidalgos do seculo XIX, lançando-lhe em rosto o não ser com a espada que lavrassem os seus escudos; mas é porque não teem paciencia ou vagar de revolver os archivos da familia, senão deixaria de atirar pedra ao telhado dos visinhos, vendo os seus de vidro: se por tal de vidro os podem considerar. Deixemos reflexões, porém, e retrogrademos ao bom tempo, que assim se chama sempre ao tempo passado, a apanhar o rico burguez e o sobrinho á porta do Olival.

No campo, que, extra-muros, por aquelles lados se estendia, ainda se viam alguns individuos, que, com os olhos postos no rio, pareciam analysar as galés chegadas; mas era visivel que, de todos os portuenses, estes, que assim ainda pasmavam, eram os menos curiosos, os mais indifferentes á lucta travada. A boa parte, farrapos, que em bom tempo tinham formado uma aljuba, denunciavam como decendentes de Tarik; a outros distinguia-os um circulo de lã amarella pregado nos grosseiros tabardos; o resto não se distinguia por cousa alguma da roupa, porque naquelle cerzido de trapos nada se podia distinguir. Os curiosos, os verdadeiros curiosos tínham, como vimos, descido á baixa da cidade, e mais crescera o numero depois que se soubera que nada havia que receiar das galés, e que Ruy Pereira e os outros capitães desembarcaram e seguiram processionalmente para os paços municipaes. Gonçalo Domingues, intercalando as combinações de seu negocio com reflexões sobre a descoberta feita dos amores de seu sobrinho, reflexões que faziam com que a este mostrasse gesto carregado, e interiormente se sorrisse, avivando na memoria os seus verdes annos: medindo de tempos a tempos a altura do sol, que não eram depois de Ave-Marias seguras certas paragens, passeava de um para o outro lado do campo: Fernando acompanhava-o, voltando a todo o instante a cabeça para Miragaya; procurando aproximar-se de sitio d'onde podésse ao menos vêr a casa do mercador; reprehendendo-se por não ter aproveitado melhor o tempo que passára junto de Irene, dizendo uma fineza daquellas do livro de cavallerias, que frei Gumeado lhe deixára lêr; descoroçoado por aquelle final, que de certo o rebaixaria no conceito da linda moça. O sobrinho andava tão embebido, que nem sentia os pés tocar no chão, e o campo não era jardim areado; o tio cançava-se já de aguardar seu compadre, que não encontrára em casa, quando a apparição de um personagem veio pôr em movimento os frequentadores do campo: uns deslisaram-se, o mais sorrateiramente que lhes foi possivel, pela encosta e por entre o arvoredo, outros perfilaram-se, e levaram as mãos aos barretes, os que os tinham, mostrando, comtudo, pelo gesto, que não era a estima, mas o temor que os levava a esta delicadesa.

O recem-chegado, personagem lhe chamamos, e mostrava-o ser de conta entre aquella gente, era uma figura notavel. Um barrete de tela vermelha de forma exquisita rematava, assentado sobre um capirote, uma fronte um pouco crescida e saliente, complemento de um rosto ossudo, moreno, em que dous olhos desesperados com a proeminencia de um nariz, que se mettia em tudo de permeio, tinham acabado por enviar as pupillas, cada uma para o seu lado, a tomar conhecimento com as orelhas; o lábio superior era adornado por um bigode esfarrapado, de côr duvidosa, ou de todas as côres possiveis—preto, branco, castanho, louro e ruivo—e de egual mescla eram os pellos que deixava crescer no queixo. Da cabeça não desdiziam o resto do corpo e o vestuario: trajava um gibão bipartido preto e vermelho, e uma das longas pernas enfiava-se em uma calça e borzeguim vermelho, a outra em calça e borzeguim preto; do pescoço pendia-lhe uma medalha de metal amarello, com as armas da cidade, da cinta um grande punhal e uma enorme bolsa de couro, e na mão sustinha um bastão, terminado por uma cabeça de metal cinzelada, ao que parecia, por artista que tomára a delle por modello. Medalha e bastão apregoavam que Tello Rabaldo era o pae dos velhacos, cargo que não tem hoje correspondente, por não tolerarem as luzes do seculo absurdos. Tello superintendia, governava tão sómente cidadãos que em noites serenas teem o docel do leito recamado de estrellas, jejuam sem devoção, deixam crestar o corpo pelo sol de Agosto e gelar o sangue pelo frio de Janeiro, e chamar-lhes velhacos era alterar a significação das palavras, se não era malicia de legislador, que assim arrebanhava e baptisava alguns centos de creaturas, para que se persuadissem as de boa fé que na terra não havia mais, como os hospitaes de doudos lisongeam muita gente que não é forçada a não ter lá moradia. Os velhacos, os verdadeiros, então, como hoje, não se deixavam governar, sempre governavam tambem, e havia-os anafados, vestindo custosas telas e abrigados em paços soberbos.

—Eh! boa gente! exclamou Tello, dirigindo-se aos individuos que tractavam de lhe evitar a presença; então assim querem fugir a seu pae! Vamos, venham receber a benção, como bons filhos, e com a benção uma boa nova. Olá, Pedro Choca! accrescentou, depois de honrar com um sorriso a facecia que servira de exordio, dirigindo-se a um dos que se desbarretava; que nenhum dos teus falte depois de ámanhã na Ribeira. Onde está o João Bispo?

—João Bispo, redarguiu o interrogado, ha dias que desappareceu.

—O velhaco voltaria para o convento farto de estar deitado de barriga ao sol, ou se metteu outra vez com a filha do velho Humeia, e está a fazer penitencia por ter peccado com moura?

—Ou se foi lançar com os scismaticos...

—Para que? Toma conta em ti! Chegou-me aos ouvidos que te travaste com elle de razões por umas nonadas, e se me déste cabo do rapaz, em boa te metteste! Se não me trouxeres em breve novas delle, a tua pelle m'as dará. A polé do aljube está nova, e poderá bem comtigo.

Choca resmungou por entre dentes algumas palavras, e o pae dos velhacos proseguiu:

—Avisa aos compadres para que ou vão comtigo e mais a sua gente, ou a levem para as tercenas. Que não falte ninguem! Quero duzentos homens, bons pulsos...

—Duzentos homens, bem sabe sua mercê que não podemos reunir. A melhoria da gente levou-a o senhor conde Gonçalo; o senhor alcaide tem boa porção, e se creanças, mulheres e aleijados não servem...

—E esses perros de cabeça amarrada! exclamou Tello, designando um mouro que a curiosidade trouxera para junto de Pedro Choca, capataz de uma turma de vádios. Quanto aos aleijados, sei de uma mésinha que os põe sãos como um pero, ajuntou, mostrando o seu bastão; o manco da porta da Sé que o diga. Vamos: sua senhoria (uma barretada) appellidou os bons homens da sua boa cidade (outra barretada) para que o ajudassem a dar cabo dos perros de Castella, e os alvazires dão-vos honra mettendo-vos na conta dos bons homens... fazendo-vos trabalhar. Que ninguem falte, e viva sua senhoria!

—Viva sua senhoria! repetiram os vádios e com elles Gonçalo Domingues, que se approximára da roda formada ao pae dos velhacos, roda desfeita a um signal por este dado com a vara, deixando a importante, incansavel e incorruptivel auctoridade, como lhe chamariam hoje, que todos os encargos teem um ou mais adjectivos annexos, face a face com o burguez, que abria a bocca para indagar quaes os serviços que o filho de Thereza Lourenço reclamava dos portuenses.

A interrogação não foi formulada. Tello Rabaldo, cheio da sua importancia, fez uma leve saudação, carregou o barrete sobre um dos olhos em rebeldia, e girou sobre os calcanhares ao mesmo tempo que um outro individuo assentava nos hombros do forçureiro uma grande palmada. Gonçalo Domingues voltou-se a vêr quem segundava a amabilidade do marinheiro, e se não reconheceu logo o seu compadre, foi porque um abraço de metter costellas dentro o suffocou. O bom homem vinha lisongeado com a carta de que Ruy Pereira fôra portador, lisongeado em extremo no seu patriotismo de localidade, e expandia o seu contentamento daquella sorte e em exclamações, que fizeram suspeitar ao tio de Fernando, que não estava em bom arranjo aquella cabeça. D. João chamava aos portuenses o seu bom povo, mimoseára-o além disso com outros epythetos taes como—leal, esforçado, etc., e o portador, resolvido, apesar do seu enfado, a ser amavel e popular, pintára a amisade e reconhecimento do Mestre, pela espontaneidade da sua acclamação na cidade da Virgem, com taes côres, descera da sua dignidade prodigalisando sorrisos ao corpo municipal, batendo no hombro de Luiz Giraldes de um modo, que o nosso homem esteve por um triz a deixar cahir uma lagrima de commoção. Era uma alma candida e enthusiastica, apesar do involucro grosseiro, o compadre do senhor Gonçalo Domingos; tão candida que acreditava no desinteresse do Mestre de Aviz, suppondo que defendia a coroa para a entregar ao filho de Ignez de Castro; tão enthusiastica e patriotica que, quando, á força de lhe perguntar o marchante se encontrára o arrabi, seccas as goellas e já sem alento para descrever a reunião nos paços municipaes e mais epysodios da embaixada, se recordou do seu negocio, era tarde. O sol ia quasi a mergulhar no oceano, e era provavel não só que, na judearia estivessem fechadas as ruas, mas até que se lá fossem, encontrassem as portas da cidade cerradas no regresso. Os dous burguezes separaram-se, pois: o patriota, compadre de Gonçalo Domingues, seguiu pelos campos em direcção ao povoado de Cedofeita; est'outro, despertando o sobrinho de pensamentos em que não entravam nem compras, nem vendas, nem os direitos que os filhos de Henrique 2.º de Castella e D. Pedro 1.º de Portugal, podiam ter á terra que pisava, tomou com elle o caminho de casa.

As nuvens, que o norte espalhára no ar, como flocos de algodão, ornadas pelas tintas que formam a gradação entre o rubro e o amarello vivo, davam ao céu a apparencia de um marmore, um todo que em pintura seria inverosimil; os edificios de Villa Nova e de Gaya cortavam com o perfil o horisonte, vestindo pouco a pouco uma côr uniforme, o cinzento-escuro. De um destes edificios, o que mais se avantajava, do castello de Gaya, as janellas esguias voltadas para o poente pareciam dar sahida aos fogos de um incendio. De que não era, porém, este chamejar mais que um reflexo do sol no occaso, se poderia desenganar quem, mesmo nunca tendo presenceado este phenomeno, se nos anticipasse na residencia do tenente do conde D. Gonçalo, onde uma hora depois lhe provariamos que a reflexão, ao appresentar Tello Rabaldo, não fôra de leve feita: velhacos não eram só os que não tinham nem leira nem beira.

Em uma das salas que no castello serviam de apposento ao alcaide, revestida de apainelados de carvalho, em que a luz do dia, coada pelos miudos vidros de côr, formando losangos, embaçava, e embaçava egualmente a que davam as tochas sustentadas por braços de ferro, passeava de um para outro lado um homem de alguma edade já, magro e de estatura mediana. No peito de uma especie de camisola de panno de curtas fraldas, cujas mangas, farpadas nas orlas, pendiam até ao joelho, viam-se bordadas a verde com nervuras de ouro tres folhas de figueira; o mesmo distinctivo se reproduzia em uma bolsa de couro, que, do lado contrário ao estoque, acompanhava um punhal, nos fartos reposteiros das duas portas, que para a sala davam serventia, e na manga da jornea de um pagem, creança de dez annos, que cabeceava com somno a um canto. O barrete adornava-se com duas pennas de aguia, presas em fecho de ouro, e os borzeguins apresentavam uns longos bicos, moda que um epysodio da guerra travada deixou assignalada na historia. Encostados, no vão de uma janella, conversavam, em voz baixa, uma dama e um individuo que se tornava notavel por usar crescido o cabello, raro e de côr avermelhada, e por uma longa espada, de que affagava o punho. Do lado opposto havia seis individuos, um dos quaes vestia hábito monastico, e outro se acobertava com uma velha armadura de malha.

O homem que passeava era Ayres Gonçalves de Figueiredo; a dama era a esposa deste, D. Catharina; o individuo, que lhe fazia companhia, o irlandez Guilherme Down-Patrick; os restantes eram quatro cavalleiros, homens de solar de Entre-Douro-e-Minho, o capitão de besteiros, Pero Bedoido, e frei Garcia.

As passadas do alcaide soavam mais alto do que as poucas palavras que toda aquella gente trocava entre si, e visivelmente preoccupava-o negocio, que não era para os outros estranho, a não enganar o modo porque de tempos a tempos se fitavam e a meditação que se seguia. Duas pessoas se subtrahiam á influencia geral, a castellã e o irlandez: se se calavam era, ella para amimar uma galga branca, que se enroscava sobre um escabello, elle para com a vista percorrer a laçaria e penduróes do tecto.

Segredos e silencio, aquelles olhares e gestos tinham um todo mysterioso, que houve por bem quebrar Ayres Gonçalves.

—Que me dizeis, senhores? exclamou, estacando no meio do passeio, como a procurar alvitre que viesse pôr termo á sua irresolução, parecer que se conformasse com o que tinha na mente.

Ninguem respondeu, porém, e o castellão, lançando á volta de si um olhar de quem queria lêr nas physionomias dos hospedes as suas intenções, proseguiu:

—Sua senhoria quer em volta de si todas as lanças do reino, e não se lembra, ou não se quer lembrar de que fica desguarnecida uma terra tão importante como esta, e cercada por tantos senhores que levantaram voz pela rainha D. Beatriz. Deixa a cidade aos peões, aos peões, que tracta como a gente de prol?!

—Em boa confusão vae pondo as cousas! Um dia, veremos, senão lhes pozer cobro ás ousadias, vir arraya tomar-nos os solares; atalhou, abanando a cabeça com ar sentencioso, um velho fidalgo de Riba-Tua. Bem altaneiros andam já burguezes e mesteiraes!

—Deixae, accudiu Affonso Darga, as encamizadas dos peões, que terão seu cabo. O Mestre precisa de sustentar a guerra, e lisongea por isso quanto mercador tem a arca bem provida de boas dobras, tornezes, gentis, florins e pilartes. Aos do Porto pede elle agora uma armada, mantimentos e dinheiro.

—Armada que nos levará a vêr o rosto ás hostes de Castella; tornou Ayres Gonçalves.

—Se se fizer.

—O povo do Messias de Lisboa a arranjará. Não viram como os alvazires propozeram logo uma derrama, e juraram a Rui Pereira que teriam antes de um mez a nado algumas naus e outras se armariam dos melhores navios do commercio com Flandres?! Estão inchados com o valimento que lhes dão.

—Por ahi se conhecem os vilões...

—É que dão elles ao Mestre? Grande cousa! Em campo se verá de que servem, e no campo é que a contenda tem de se decidir. Irão com béstas, virotes e azevans fazer frente ás lanças de Castella? Lingua teem elles; mas brio é que nem toda a algaravia desses mestres em leis e clerigos, que o regedor tomou para seus conselhos, esses falladores de Pisa e Bolonha, poderá metter nessa gente.

—Mas nella se estriba D. João, disse, meneando a cabeça, um dos cavalleiros.

—Para elles appella com boas palavras; a nós manda-nos, não recado, mas ordem! exclamou o alcaide. É dessas garnachas sahidas do nada que vem a desconsideração em que nos tem.

—Tempos do rei D. Fernando! suspirou Down-Patrick, recordando-se talvez de quando as hostes do duque de Lencastre faziam, entre os alliados portuguezes e os inimigos de Castella, de tudo roupa de francez.

—Era um bom rei o que Deus tem! ajuntou frei Garcia, fazendo uma momice de piedade.

—Rei, e creado como rei, bem sabia elle onde estava a força e grandesa do reino e sua.

—E melhor agasalho não nos fazem sempre no campo do marido da rainha D. Beatriz. Aos de sua casa aconselhou D. Leonor que fossem para o Mestre, que ao menos não era soffrego.

—Com isso perdeu D. João: perdeu-o a altivez.

—E ao Mestre não approveitarão as mercês rastejadas.

—Elle não precisa de nós, tornou o velho, o mais desappontado dos hospedes do alcaide, ao que perecia; faz cavalleiros a seu capricho do primeiro peão que se lhe antolha.

—Bons cavalleiros! observou, rindo, o mais moço da reunião. Por lá andam montados em mulas fazendo rir com os seus ares de importancia. Não será preciso, para os derribar, erguer clava ou montante: andam tão mal a geito com arnez e grevas, tão abafados pelos elmos, os que os teem, que ao primeiro arranco das azes vão ao chão.

—Em se tractando de lançadas é comnosco que se haverão, bem o vêdes, disse Ayres de Sá.

—E ireis, senhor alcaide? interrogou Affonso Darga.

—Eu, senhores, respondeu Ayres depois de alguma hesitação, levantei voz pelo Mestre, mas recebi o castello do conde D. Gonçalo: obedecerei a sua senhoria em tudo, mas só abandonarei o castello...

A phrase do alcaide não terminou. D. Catharina, approximando-se de seu marido, e impondo-lhe com um relance d'olhos a conveniencia de não proseguir, atalhou:

—Largos dias tendes para tomar conselho, cavalleiros; alegrae o sarau com outros contos. Cousas de tanta importancia não se devem tractar de salto: o tempo que se leva a pensar em casos taes não é perdido. Tomai exemplo de D. Gonçalo Telles, ajuntou mais baixo, dirigindo-se ao esposo.

D. Catharina de Figueiredo era, até certo ponto, uma dona prudente, como chama um historiador, por egual conselho fabiano, a Beatriz Gonçalves de Moura, aia depois da excellente rainha D. Philippa. O exemplo do conde era um grande exemplo, pois era de homem que sabia, ou parecia ter de memoria o Sic vos non vobis de Virgilio, e dar-lhe o valor devido nas cousas do mundo. D. Gonçalo fechara-se em Coimbra, jogára com sua irmã um jogo pouco leal e parecia aguardar que a sorte decidisse qual dos pretendentes á corôa tinha razão e direito, ou força e geito para a segurar na cabeça. O alcaide approveitou o conselho e abandonou o thema em que o lançára o mau humor causado pela mensagem de Ruy Pereira.

Palestra sobre outro assumpto era naquella occasião difficil de sustentar. Os cavalheiros pouco a pouco deixaram a sala, e quando só restavam o aventureiro, Henrique Fafes, o mais moço dos da reunião, e frei Garcia, indicou este ultimo com o olhar o pagem quasi adormecido, tirando ao mesmo tempo da manga uma tira de pergaminho dobrada. Ayres de Figueiredo, sacudindo com violencia a creança de quem o reverendo parecia recear a indiscripção, a poz, extremunhada, fóra da porta, ordenando-lhe que se recolhesse, e em seguida percorreu com os olhos o escripto, que lhe appresentaram.

—O alcaide de Monsaraz veio? disse elle terminando a leitura e dirigindo-se ao frade.

—Senhor, sim, veio.

—E não desconfiaram de nada?

—Penso que de nada. As galés castelhanas não appareceram.

—E de boa fonte houvestes esta proposta?

—Do irmão do arrabi-mór, esse judeu a quem sua real senhoria acaba de fazer mercê.

—Misser Guilherme, senhor Henrique, disse o alcaide depois de fitar os dous por um momento, se pouco caso se faz de nós em Lisboa, no campo dos que a sitiam teem-nos em apreço. D. João não é tão soffrego como o pintavam, e a prova é este pergaminho.

Down-Patrick fez uma visagem e soltou um «oh» guttural, que expressava a pouca admiração que lhe causava o apreço em que o poderiam ter, como certo dos seus muitos merecimentos.

—Gonçalo Rodrigues vos fallará depois d'ámanhã em S. Domingos, disse frei Garcia, attrahindo o alcaide para junto de uma das portas, a opposta áquella por onde sahira o pagem. E depois, accrescentando algumas palavras em voz baixa, sahiu pelo outro lado.

Ayres de Sá, chamando Henrique Fafes e o irlandez, seguiu-o.

Quando a sala ficou deserta, o reposteiro, junto do qual frei Garcia fallára com o alcaide de Gaya, oscillou e appareceu entre elle e a hombreira da porta um rosto, onde a curiosidade e a malicia se pintavam.

—A mulher tem razão, disse, referindo-se ás palavras de D. Catharina, o curioso, depois de ter o ouvido á escuta por alguns segundos; o tempo que se gasta em certas cousas não se perde, e eu não perdi o meu. Ah! Garifa, minha pobre Garifa! exclamou em seguida, mudando de expressão e ajuntando á exclamação um suspiro, de ti é que não apanho novas.



IV.

Dous namorados.



... Donde amor se atraviesa
No hay padres reverenciados.

(romances de gazul.)


Fernando, chegando a casa, o melhor predio da rua dos Pellames, ao toque de Angelus, viu seu tio devorar com todo o appetite uma grande posta de carneiro e um tassalho de toucinho, capaz do pôr em debandada um exercito mahometano, regado tudo com o summo da uva. Gonçalo Domingues, se dava descanço aos dentes, não o dava á lingua, pois incetou, ao benedicite, um sermão, que, ao gratias, ainda não estava concluido. O velho fallou na creação do seu tempo, na obediencia da gente moça á mais idosa em geral, e em especial áquella de quem se recebe o pão do corpo e o pão do espirito; discorreu sobre as passadas travessuras do sobrinho, e foi cahir na ultima, terminando pela ameaça de um sevéro castigo, em caso de reincidencia. Fernando, ao inverso do tio, não tocava sequer em uma mealha do pão alvo, que a criada com um prato de figos passos servira por mimo, e, com os olhos fixos na toalha, não soltava uma palavra de desculpa. O bom velho, notando aquelle extraordinario fastio e sizudez, tomou tudo por effeito da sua eloquencia, conversão e compunção do rapaz, e por um triz esteve, no final, a addicionar ao sermão um palliativo, tirando o exemplo de casa, pois que o podia fazer; mas a necessidade da disciplina, de conservar sempre perante o sobrinho um todo de soberania, um sobrecenho, que julgava indispensavel, embora não quadrasse com a affeição que lhe tinha, o detiveram. Fernando era, segundo elle, um estouvado, um leviano como seu pae, do que déra já provas exuberantes, abandonando, depois dos estudos, o convento de S. Francisco, então extra-muros, para onde um outro parente o chamára, a fim de o metter na estrada do céu e do mundo pela clausura. O que nisto amofinava mais o forçureiro era a boa disposição que mostrava o mancebo para as letras, a intelligencia desenvolvida, que nos primeiros tempos fizera dizer a frei Gumeado, grande sabedor para aquellas epochas, que bem podia vir a aspirar a grandes dignidades da egreja e do seculo, a ser geral, bispo, ou chanceller. Todo o rigor, pois, que empregasse era pouco, e despediu-se do mancebo com toda a solemnidade, para dizer á cuvilheira que, como por seu voto e lembrança, lhe levasse ao quarto alguma cousa de comer.

Se Gonçalo Domingues soubera qual a attenção que lhe dava o sobrinho, de certo não fizera semelhante recommendação. É bem certo que os annos trazem, ás vezes, experiencia e algum saber; mas não é menos certo que á proporção que vão passando se esquece muita cousa egualmente: aos sessenta perde-se a memoria dos vinte, senão das acções praticadas, dos pensamentos havidos; um mancebo póde muito bem avaliar o que não apreciará, não conseguirá distinguir um homem a quem o inverno da vida tenha gelado o coração. A prédica entrava tanto na absorpção de Fernando, como entrava a mensagem do Defensor: as palavras do tio eccoavam-lhe aos ouvidos como sons vagos, que se não reproduziam no machinismo regulador chamado intelligencia e outros nomes, segundo a face por onde é visto, porque sons diversos o impressionavam. As fallas de Irene, as inflexões, os mais leves gestos preoccupavam-no: de uns e outros tirava esperanças agora, logo motivos de amofinação; traduzia agora uma phrase, das poucas obtidas de Irene, por um modo que o coração trasbordava de alegria, e logo parecia-lhe que o timbre de voz, um nada sonhado lhe dava bem diverso valor; assignalava aquelle dia como o mais feliz da vida, e recordando-se do desfecho do colloquio, em seguida; entristecia-se e amaldiçoava o tio, que o fizera descer do galho da arvore e dos braços da felicidade. O puxão de orelhas, sobretudo, doia-lhe, quando o recordava, mais do que lhe doera em Miragaya, julgando-se aos olhos da sua namorada deshonrado... mais que deshonrado, ridiculo. Este combate entre o desejo e o receio, durou, trazendo a insomnia, até altas horas da noite; mas, a final, venceu o desejo, e a alegria espelhou-se-lhe no rosto. Fernando, nas azas da imaginação; voava do passado ao futuro, e deste áquelle, amontoando as pedras do seu castello de felicidade. Deitando-se e apagando a luz sorria a todos os sonhos creados; sentia como nova vida a inflar-se no peito, e parecia querer affogar-se em ar, tanto era o que respirava de momentos a momentos. Junto com a imagem da linda filha de João Ramalho toda a natureza era risonha naquella miragem: as arvores reproduziam-se mais verdes, mais cheias de perfumes e mais bellas as flores; as aves nos cantos diziam todas—alegria; o céu transparente deixava adivinhar além do manto azul uma segunda vida toda amor. O mancebo vira, bem o podem acreditar, bastantes vezes o céu, as arvores e as flores, mas nunca se lhe tinham affigurado assim: como á estatua de Pygmalião, faltava-lhe o fogo no peito. A lavareda ateára-se naquelle dia, posto que incubasse havia muito.

Fernando Vasques amava Irene desde que a vira, e vira-a nessa edade em que se sente um vacuo no coração; a si mesmo confessára já esse amor; mas definido, claro, só então rebentára: o vácuo enchera-se, e a trasbordar, e para o encher talvez o amaldiçoado puxão de orelhas, a primeira grande contrariedade, entrasse por muito: «talvez» dizemos, e podiamos dizer «certamente.» O amor vive de contrariedades, de luctas, diz um phisiologista; e como um malicioso accrescentou que por isso só elle nas mulheres se creava, saibam, acreditem as leitoras que todo o homem tem no coração o seu tanto ou quanto de mulher, na mocidade sobretudo, e por isso não perde. As mulheres lucram menos com o que recebem do homem em geral: não as compensamos. Como diziamos, porém, deixando reflexões, a correcção de Gonçalo Domingues, e ainda, se quizerem, as poucas palavras trocadas entre os dous namorados, tinham ateado a lavareda no peito do mancebo, e um dos effeitos della fôra, de fazer acordar homem quasi quem se deitára creança.

Fernando, no dia seguinte, não era o mesmo rapaz; o tio notou aquella differença e attribuio-a ao jejum da vespera, com a mesma prespicacia com que attribuira a causa delle á sua predica; e para contentar o rapaz, levou-o de manhã, depois de tractar dos seus negocios e da politica do dia, a visitar frei Gumeado, que o costumava regalar, apesar da sua deserção, com gulodices, em que não tocou dessa vez, e de tarde, a passeio até aos Carvalhos do monte, que assim se chamava o local onde o cabeçudo parodiador do marquez de Pombal no Porto, o corregedor Almada, edificou um theatro. O effeito destas amabilidades é facil de adivinhar. O namorado de Irene, que, voltando com a luz da madrugada á lucta de esperanças e receios, anceava por occasião de ir buscar um desengano nos olhos da donzella, preso assim todo o dia, revoltou-se interiormente contra a tutella do tio e desappontou-o com desabrimentos. O velho pasmou, benzeu-se, e da compaixão, do arrependimento da aspereza da vespera cahiu com um mau humor verdadeiro, tomando aquelle procedimento por ingratidão, protestou que a severidade, que até ahi lhe ficava nos lábios, ia ser posta em acção, e como assim se revoltára pelo leve castigo de uma travessura, elle trataria em primeiro logar de as impedir, não lhe deixando uma hora para folias, nem arredar pé da loja de pellames; em segundo, se se furtasse á sua vigilancia, de passar além do puxão de orelhas, dando causa verdadeira a amuos.

No outro dia, um domingo, não se esqueceu do seu protesto o velho forçureiro, e o desespero do sobrinho augmentou, tanto quanto augmentava o receio de perder o amor da linda moça; que, se até ao dia em que conseguira trocar algumas palavras com Irene, muitos se passaram em que não descera a Miragaya, sem que tanto se amofinasse, aquella meia declaração e o desfecho mudára as circumstancias: daquellas em que se encontrava bem podem fazer ideia as leitoras e os leitores, aos quaes a memoria ainda conserva vivas as paginas da mocidade.

Depois de jantar, porém—refeição que se tomava nessas epochas, mesmo entre aristocratas, desde as onze ao meio dia, exactamente á hora em que hoje almoça muita gente—quando Gonçalo Domingues executava, dormindo a sesta, uma musica que se assemelhava a tempestade em chaminé na combinação de assobios e notas de contrabasso, appareceu Luiz Geraldes, o mais respeitavel individuo da burguezia, a procural-o para irem a S. Domingos, onde se devia tractar do meio de corresponder á confiança que o mestre de Aviz depositára nos bons cidadãos da terra, assumpto em que o alvitre do forçureiro era valioso, por se poder traduzir na linguagem sonora das boas dobras de el-rei D. Pedro; appareceu Luiz Geraldes e com elle a occasião que desde madrugada esperava e provocára á sombra de todos os pretextos. Mestre Gonçalo, pois, a sahir, e Fernando a procurar na arca o seu melhor gibão e o barrete, a alindar-se, e a bater com a porta da rua na cara da velha creada, que lhe recordava as ordens dadas pelo tio, avivadas segundos antes, e a trovoada que sobre elle e sobre ella descarregaria se ou o encontrasse na rua, ou o não achasse em casa, regressando.

O namorado moço deitou a correr; mas, como em certo apologo, a pressa foi causa de vagares. Tal era o estado daquella cabeça que tomou o caminho seguido por seu tio e o grande amigo do Mestre, e ao cabo da rua da Bainharia esbarrava com elles se um encontrão de um homem d'armas o não obrigasse a uma pausa, e na pausa a um espadeiro, que se sentava em um desses balcões ou mostradores que fechavam uma das portas das estreitas e escuras lojas, conservando nas ruas mais estreitas e não menos escuras os freguezes, não ouvisse dizer para um visinho que deitava a cabeça por uma adufa:

—Lá vae em cata de mestre Gonçalo, que dobrou agora mesmo para o terreiro, o sobrinho... o filho de Vasco, que Deus haja.

Fernando, quiz retroceder; porém, como o bom do espadeiro lhe gritasse que perto ia Gonçalo Domingues, se o procurava, não teve remedio senão responder que ia a recado para as Aldas, e enfiar pelo arco de Sant'Anna, tomar caminho pelo lado da judearia e descer aos Banhos, onde lhe tolheu o passo o personagem que no capitulo antecedente vimos no castello de Gaya, surdir por entre o reposteiro.

—Vindes de S. Domingos? interrogou elle, pondo-se diante do mancebo.

—Oh! és tu João Bispo! exclamou Fernando, depois de examinar o rosto do individuo, assombrado por um farto capuz. Ha muitos dias que te não vejo.

—É verdade, redarguiu o recem-chegado, dando pelo nome, que ouvimos já da bocca do pae dos velhacos. É verdade, repetiu; e á palavra ajuntou um profundo suspiro.

—Que tens, tu? Estás tão triste como quando nos tinham no convento.

—D'onde nunca devêra ter sahido! tornou João, soltando outro suspiro.

—Bem mudado estás, meu folião, ou é isso momice nova?

—Antes fôra, Fernando! antes fôra! mas finaram-se as alegrias.

—Mas, ao que parece, a vida não te vae peor. Gibão novo de barregana... boa adaga! disse o mancebo, medindo-o de alto a baixo.

—Vesti isto; mas embrulhade em almafega respirava melhor: o saio e as calças riam-se por todas as costuras, mas eu tambem ria, e agora bem vedes....

—Vejo que estás sizudo como eremitão, ou mestre em leis, é verdade... Mas onde assim te pozeram? d'onde vens?

—Do castello.

—Do castello? Tomaste lá moradia e serviço?

—Ou cousa parecida... que não se pode assim dizer de praça...

—Segredo! Ora vejam João Bispo feito escrivão da puridade do alcaide! exclamou o mancebo, sorrindo e dando alguns passos para seguir seu caminho.

João segurou-o por um dos braços, e encolhendo os hombros respondeu á zombaria:

—Mofai, que a vez a todos chega. Algum dia haveis de querer bem a alguem....

—E por isso te amofinas, quando não tens quem te empeça de a vêr a todo o momento! redarguiu Fernando, que se não recordou naquelle instante de outro contratempo em amores, senão do que com elle se dava.

—Vêl-a!... vêl-a! exclamou, tornando a suspirar o vadio. Oh! minha pobre Garifa!

—Garifa, repetiu Fernando; Garifa... ora espera... Garifa não era aquella rapariga moura que vinha ao terreiro vender fructa?

João Bispo fez com a cabeça um aceno affirmativo.

—Uma rapariga sempre alegre, que na procissão de Corpus tangia pandeiro e dançava com tanta desenvoltura, trazendo o vestido cheio de cascaveis?

—Sim.

—Que tão bem cantava umas cantigas castelhanas?

—Sim.

—Pois bonita era... pena que fosse moura! E tu, João...

—Eu quero-lhe, quero-lhe como se em noite de S. João me fizessem feitiço...

—E feitiço foi de certo; porque uma moura...

—Não sei se é grande peccado o querer-lhe bem; mas cá para mim tenho que não. Ella é moura, é; mas...

—É por isso que tão magoado te vejo? Querial-a christã, e casavas.

—Não é, não; é porque m'a roubaram!

—Roubaram-ta?

—Roubaram. Ha uma semana, no sabbado, estava eu na encosta do Olival, ao pé do regato, á espera della, e eis que vejo o pae, o velho Humeia, vir direito a mim. O pobre homem chorava como uma creança; as lagrimas eram como punhos pela cara abaixo e os soluços pareciam affogál-o; cortava o coração! disse João Bispo, limpando com a manga do gibão os olhos, sensibilisado ou pela recordação da scena, que narrava, ou pela desapparição de Garifa. O velho proseguiu, quando pôde começar a fallar, a pedir-me a filha, dizendo que lh'a entregasse; que bem tinha visto andar-lhe no seguimento, e na vespera a encontrára ainda alli mesmo a fallar commigo. Olha, Fernando, fiquei como quando me vieram dizer que meu pae—Deus o tenha—era finado, e jurei áquelle pobre homem que não fôra eu que lhe tirára a filha... e commigo pela hostia consagrada jurei tambem descobrir-lhe a rapariga. O velho acreditou-me, e disse-me cousas, que não poderei repetir; que não sei bem o que foram; mas que pelo modo de as dizer me deram um nó na garganta: parecia que tinha engolido uma maçã inteira. Procurei Garifa. Dous homens foram vistos a passar o rio nessa noite com uma mulher, me disse um petintal, e corri tudo em Gaya; alistei-me no troço de Pero Bedoido, para ter occasião de esquadrinhar todos os cantos do castello; mas vêl-a... vêl-a... ainda a não vi! Desconfio, porém, que lá esteja, e se lá estiver, ai do rausador! Olhai, elles deram-me esta adaga, e eu trago-a bem afiada, os ouvidos attentos e os olhos abertos!

João Bispo, ao soltar estas ultimas palavras, baixou a voz e um veo sinistro lhe assombrou a fronte; por alguns instantes permaneceu calado, e proseguiu depois, vendo que o sobrinho de Gonçalo Domingues parecia atterrado com semelhante confidencia:

—A alegria não póde durar sempre. Desde que, morto meu pae, que por força me queria vêr tonsurado, fiz uma reverencia ao guardião, dei um cascudo no porteiro e me fiz velhaco, visto que no convento não apprendi officio e de sujeição estava farto, bem vestido, mal vestido, mais trapo, menos trapo, barriga mais cheia ou menos, tinha quasi todo o santo dia os dentes á amostra; agora veio um revez...

—Não és só tu, João, que os tens; eu...

—Que lhe fizeram, atalhou o vadio; diga, que eu dou uma ensinadella, e...

—É negocio em que nada podes. Não sabes, João, disse o mancebo, pondo a mão no hombro do seu antigo companheiro, e chegando-lhe a bocca perto do ouvido, como em segredo; não sabes... eu tambem quero a uma rapariga como ás meninas dos meus olhos. Oh! é mais bonita que a tua!

—É, disse João Bispo, com um meio sorriso.

—Muito mais; porém, meu tio, tenho eu para mim...

—Não quer?

—Parece-me que não.

—É pobre?

—Pobre!... repetiu Fernando Vasques, encolhendo os hombros.

—Mestre Gonçalo Domingues é rico, e...

O namorado de Irene, ouvindo o nome do tio, lançou em torno de si os olhos, como se receiasse que alli apparecesse; lembrou-se que passava o tempo e elle podia, de volta a casa, não o encontrar, se fosse grande a demora; recordou a causa do seu passeio, e fazendo um gesto de despedida, deu alguns passos em direcção á porta da cidade.

—Se fôr necessario o antigo companheiro das folias, não o poupeis. Os meus trapos nunca vos fizeram voltar o rosto, quando nos encontramos, e hei de mostrar que não tendes feito mal, Fernando, disse o ex-noviço, estendendo ao mancebo um pulso que não era fraco. Ah! exclamou em seguida; não vindes do lado de S. Domingos?

—Não.

—Nem pelo caminho vistes o alcaide de Gaya?

—Não.

—E que tens a vêr com o senhor alcaide, meu velhaco? disse uma voz, que logo João Bispo reconheceu por ser de Tello Rabaldo.

—Ah! sois vós! murmurou o interpellado, visivelmente contrariado por aquella apparição, em quanto Fernando deitava a correr pela rua abaixo.

—Vosso servo, tornou o pae dos velhacos, tirando com ar zombeteiro o seu barrete e segurando pelo capuz a João Bispo. O fidalgo de certo que só com fidalgos tem tracto e por elles procura; porém como está em behetria, para não haver desaguisado, pondo-o fóra, dou-lhe companhia mais chã; mas que lhe fará bom agasalho. Vamos! exclamou mudando de tom; para as tercenas já!

—Senhor Tello, porém...

—Vais seccar a goella sem proveito.

—Senhor Tello, quizera fallar a Ruy Pereira.

—Agora é com Ruy Pereira! Grandes são os negocios! Bravo! continuou o pae dos velhacos, medindo João Bispo de cima abaixo, como minutos antes fizera o sobrinho de Gonçalo Domingues, e como elle admirando a mudança que na roupa havia; bravo! Parece que vamos ter contas graves a ajustar! Cortaste bolsa, ou arrombaste a porta a mercador ou algibebe para vires assim garrido?

—Sou bésteiro do rei.

—Bésteiro do rei desde quando, velhaco? desde que fugiste com a filha do velho Humeia?

—Está excommungado! crédo! gritou uma velha do pequeno ajuntamento que se fizera á volta dos dous interlocutores. Ter contractos com aquella condemnada moura, aquella...!

A mulher disse nome que lhe valeu de João Bispo um murro, que levava a força proporcional á raiva que lhe causára a abelhuda comadre, insultando Garifa.

—Olhem o maldito! gritaram duas companheiras da aggredida. Onde está a justiça? Que faz o senhor bispo que o não manda açoutar bem açoutado? E attreve-se em rosto do senhor Tello...

—Calem a bocca, serpentes! berrou o pae dos velhacos, fazendo um gesto e meneando o seu bastão.

—Serpentes? grunhiu a velha, segurando com a mão os dentes que o socco pozera em vesperas de despedida.

—Serpentes? pipilou uma das novas, esganiçando-se.

—Serpentes? resmungou a outra, ferrando os pulsos nas ancas.

—Serpentes! gritaram, grunhiram e pipitaram entre gargalhadas e em todos os tons os garotos que já embaraçavam o transito.

Tello Rabaldo viu a sua dignidade compromettida, o que não poucas vezes acontecia, e tractou de a salvar pelos meios usados ainda hoje em embaraços—pela força; e como á mão não tivesse se não a sua, foi dessa que se serviu. Segurando sempre o namorado da moura pela extremidade do capirote, fez rodizo com o seu bastão; tomando-o pela parte superior, e uma escala salteada de «ais» e «uis» sahiu dentre a roda de curiosos e curiosas, que augmentava.

—O senhor alcaide! Ahi vem Ayres Gonçalves! gritaram duas vozes quasi ao mesmo tempo.

—Tolhido sejas tu, maldito! resmungou João Bispo, lançado em apuros com semelhante apparição.

—Senhor Pero! senhor Pero Bedoido! berrou o pae dos velhacos, para o capitão de bésteiros, que, seguindo o alcaide de Gaya, se dispunha a embarcar para o castello, e desepparecia por um dos postigos.

—Já nada faço, disse comsigo o ex-noviço deitando o olho a vêr se o capitão accudia ao chamamento. A pelle corre-me agora grande risco, se desconfiam de mim. Com a bocca no pixel não os apanho já!

—Olé, senhor Pero! sua mercê não me diz se este velhaco tomou serviço? proseguiu Tello, querendo arrastar comsigo João Bispo, mais talvez para á sombra do capitão dos bésteiros se fazer acatar, do que pela curiosidade de saber se o namorado de Garifa lhe mentira, ao que estava bastante affeito, para regular a sua justiça pelo humor em que o apanhavam e não por depoimentos e confissões. Em materia de confissões dava fé ás feitas em potro, ou de borzeguins, quando estava de boa feição, e felizmente não era isto raro.

—Grande velhaco! continuou, dirigindo a palavra ao seu prisioneiro; ainda ha pouco não tinhas que dizer a todos os fidalgos? Mais depressa se pilha um mentiroso do que um côxo.

Pero Bedoido, ouvindo a voz do pae dos velhacos, parára junto do postigo, que dava sobre a margem do rio, e retorcendo o bigode piscava os olhos para concentrar os raios visuaes afim de melhor reconhecer quem o chamava. Ayres de Figueiredo parára igualmente.

Quem não deve não teme. João Bispo sentia os seus arripios pelos lombos, porque um pensamento, que o leitor experto, e que de certo se recorda do dialogo apanhado atraz do reposteiro, adivinhará, o punha, na consciencia, em hostilidade com o nobre alcaide, e se na presença delle Tello Rabaldo de novo se referisse á entrevista que pretendia ter com o tio de Nuno Alvares, a vida corria-lhe grave risco. João não tinha, porém, cursado em vão os estudos em S. Francisco e a eschola pratica de velhacarias dos terreiros, praças e bitesgas da cidade da Virgem, para não achar um expediente bom ou mau com que se sahisse de apuros, momentaneamente que fosse. Tello segurava-o, tendo-o quasi esganado pela extremidade do capirote, e o cabeção deste fechava no peito e garganta por meio de quatro grossos botões. Desabotoado estava livre.

—Senhor Tello, senhor D. Tello?! murmurou o rapaz, levando as mãos já aos botões, e esgotando no submisso, no plangente da voz, e naquelle «dom», o ultimo recurso oratorio.

—Ah! perro, velhaco! Eu te...

O pae dos velhacos não concluiu a phrase: um cascudo que preparava como paga da nobilitação dada ao seu nome, deu-o no ar, e com o costado no mesmo momento apalpou o chão, depois de abalroar com as canellas de alguns curiosos.

Um côro formado de um unisono de gargalhadas e de gritos ensurdeceu os visinhos que enchiam as janellas e atulhavam as portas. As gargalhadas provocara-as o desastre de Tello; os gritos soltaram-nos os que abriam caminho a João Bispo. O amante de Garifa deixando o capirote na mão do pae dos velhacos, que perdera o equilibrio, mettera mãos á adaga e corria na direcção da Ferraria.

Ao passar em frente do postigo um acontiado da behetria tomou um virote para lhe embargar o passo.

Ayres Gonçalves, ao mesmo tempo que Pero Bedoido, reconhecendo no fugitivo um dos seus homens, lhe sustava o arremesso, gritou em voz bem alta para chegar aos ouvidos de João:

—Perro, villão, se tocas n'um dos meus homens!...

E a mão do fidalgo pousou como complemento de phrase no punho do estoque.

O acontiado fez uma careta de despeito, baixou o virote, e quando o fidalgo voltou costas, deu com elle com uma força tal d'encontro á parede, que o fez voar em hastilhas, resmungando:

—Perros e villões... perros e villões! A nossa vez ha de chegar, traidores, scismaticos!



V.

Irene.