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Os tripeiros / romance-chronica do seculo XIV cover

Os tripeiros / romance-chronica do seculo XIV

Chapter 15: IX. Garifa.
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About This Book

A narrativa recria uma cidade ribeirinha do século XIV abalada por uma crise dinástica e por conflitos civis, acompanhando procissões multitudinárias de cidadãos armados, mercenários, clero e nobres. Cenas detalhadas mostram armaduras desencontradas, armas improvisadas e trajes variados, enquanto magistrados municipais, juristas, corporações e facções populares disputam a autoridade. O texto alterna reportagem viva ao nível das ruas com comentários reflexivos sobre a fluidez das facções, a identidade local e os limites porosos entre a ordem cívica e a violência. Descrições de mercadores estrangeiros e bairros marginalizados evidenciam o mosaico social que molda lealdades políticas e a vida quotidiana em tempo de governo contestado.

Todo oro que se afina
Es de mas fina valia,
Porque tiene mejoria
De cuando estaba en la mina,
Ansi se apura y retina
El hombre y cobra valor
En la fragoa del amor.

gil vicente.—fragoa d'amor.


—Bofé, por aqui?!

—É verdade, João.

—Mas como? Se o não vira com estes olhos que a terra ha de comer...

—Pois eu sou.

—Como S. Thomé, parece-me que será preciso tocar-vos para crêr. E como vindes armado! Nem moço escudeiro vos leva as lampas! Mas ainda o não posso acreditar. E mestre Gonçalo?

—Meu tio...

—Sim! O bom do velho veio tambem na arrancada. É o que faltava vêr... elle que não é para estas cousas, apesar de bom portuguez. Mas, em fim, está ahi o Porto em peso; velhos e cachopos... até mouros. Por pouco vinham as mulheres! Ala fé, mestre Gonçalo Domingues...

—Meu tio não veio...

—Então...

—Ai, João, se souberas?!

—O que?

—Estou como tu; sem leira nem beira.

—S. Jorge e todos os santos batalhadores sejam commigo! Que foi o que vos succedeu, Fernando? Morreu mestre Gonçalo?

—Não morreu, não... nem Deus queira tal.

—Então, que foi?

—Ai, João, hontem foi um dia bem de mau sestro!

—Para mim tambem: por um argueiro duas vezes escapei á morte!... Pois não vi, ao sahir de Gaya, nem gato preto, nem chapim de sola para o ar, nem velha varrendo lixo: nem ouvi piar a coruja, nem uivar os cães! Valeu-me o anjo da Guarda...

—A mim não me quizeram matar; mas... parece-me que me foi peior...

—Peior?!

—Sim, João: lembras-te de me encontrares nos Banhos, e de te fallar em certos amores? ..... Fui vêl-a.

—Ah! fostes vêr a tal menina, e estava arrufada...

—Não, João; Irene...

—Irene? chama-se Irene? é um nome que não é feio.

—E ella é mais linda; mas, como te ia contando, fui vel-a. Ia a subir a um muro do lado do quintal para lhe fallar—queria tirar um peso que tinha no coração; dizer-lhe que, apesar de meu tio ralhar, lhe havia de querer muito e... nem eu sei o que mais; mas queria-lhe fallar, vel-a—ia a subir ao muro, e o muro... zas... no meio do chão, e cara a cara dou com o pae...

—Ora! E por tal é essa amofinação?

—Olhe, João, que não é o caso para folgar! Como não ralharia elle á minha pobre Irene, elle, que não tem ar de palavras de mel, e ficou com um senho... que descarregou nella... de certo...

—Isso de nada vale, Fernando.

—Ainda não ficou ahi o mal. Deitei a correr... eu sei lá para onde! Quando me lembrei de voltar para casa era tarde; pouco faltava para o sol posto. Appressei o passo, lembrado de que se meu tio me não encontrasse nos Pellames, elle, que me guardava má tenção por me haver encontrado já na maldita arvore, faria de sorte que eu não tornaria a pôr pés na rua. Ao chegar quasi a S. Domingos, havia uns alaridos, um grande vozear, e parara ao pé do arco, quando mestre Duarte, o nosso visinho, veio aonde eu estava, e contou que vira o pae de Irene fallar com meu tio, e que ambos esbravejavam, por palavras que lhes ouvira, contra mim. Voltei a Miragaya...

—Para que?

—Nem o sei dizer. Receiava de meu tio... e não receiava. Quando de novo me dirigi á porta da cidade estava fechada. Do lado da Esnoga via-se um grande clarão, e continuava o alarido...

—Era a chamusca da casa de mossem Moysés, o irmão de D. David Algaduxe; era o escote dos judeus.

—Assim me disseram de manhã.

—Passastes a noite ao relento?!

—Passei, João, e se visse sequer uma luz á janella, parece-me que ficava consolado. Ao alvorecer, como depois daquella noite assim corrida maiores razões tivesse para não voltar aos Pellames, subi a encosta em cata de mestre Pedro, e, como o não encontrei, fui pelas Hortas. No campo, a chusma das galés, os acontiados da cidade, e a gente de armas dos ricos homens vindos de fóra, estava tudo em movimento; chegava povo a todos os momentos e sahia no meio de vivas; ao pé da torre, junto á porta, do lado de dentro, distribuiam armas. Um anadel deu-me um encontrão, e disse-me que fosse buscar tambem alguma cousa, e fui; pozeram-me a caminho para aqui, e puz-me a caminho tambem...

—Amores! amores! E agora que ides fazer?

—Boa pergunta, disse, erguendo e cabeça com certo enthusiasmo, o namorado de Irene, Fernando Vasques, de certo já reconhecido, bem como João Bispo desde as primeiras linhas deste dialogo; agora é batalhar, e ou ficar para ahi, ou fazer acção de fama; e depois...

—E depois ides pôr a espada aos pés da vossa dama, como naquelle conto da Tavola-Redonda ou naquell'outro que tinha frei Gumado... Ama... Ama...

—Amadis, queres dizer?

—Isso é: um em que havia combates de gigantes e uma princeza muito formosa: deixai vêr se me lembra o nome... Oriana!...

—A dama de Amadis.

—Bonitos contos, Fernando, esses de cavallerias e amores; pena é que hoje nada succeda assim de geito.

—Pena que não haja quem tenha a vontade de boas acções e famosas! O senhor Nun'Alvares, tem-se, ainda assim, havido como alguns dos mais pintados, e ouvi contar a meu tio, que o viu simples pagem, acompanhando a rainha Leonor, pela qual depois foi armado.

—Tomou o leão para o fazer lebreo de estrado; mas elle, mal chegou a idade, mostrou-lhe os dentes todos, e foi para o monte a monteal-a. Desde nado trouxe boa sina Nuno Alvares. Mestre Thomaz, grande astrologo, que andava em casa de seu pae, leu nas estrellas, e viu que empresa em que se mettesse seria boa, e elle sahiria vencedor, se fosse para bem sua tenção.

—Por isso deixou elle a rainha Leonor; pois em serviço della não andava bem, e podia-se quebrar o encanto com que foi fadado.

—A mim tambem me leram a sina; porém a maldita da moura que o fez disse uma tal embrulhada, de que só percebi que havia de entrar em grandes batalhas, e salvaria um rei...

—Não ouvis? atalhou Fernando, sobresaltado.

—Ouço.

—Além do rio...

—Um como tropear de gente, e quebrar de ramos. Estas fogueiras não deixam vêr bem. As vigias dormirão?

—Não... olha, não vês alli ao pé daquelle fraguedo, onde bate o luar, aquella que se move? está bem desperta. Ainda ha pouco se recolheu uma rolda, a que acompanhou frei Patinho.

—Escutai, tornou João Bispo, deitando-se no chão para melhor distinguir a direcção do rumor, depois de retesada a corda da sua besta.

A noite descera havia muito; os galos de algumas choças visinhas tinham já annunciado que ia alta, a meio do seu curso, e a lua erguia-se redonda, avermelhada, semelhando um escudo candente, por entre as ramas dos pinheiros, que fechavam ao nascente o horisonte, fazendo destacar a uns por contornos negros, cobrindo de uma luz phantastica os curutos de outros, e projectando sombras immensas pelas clareiras. Á proporção que ella minguava no céu, tornavam-se mais vivos os reflexos azulados com que tingia alguns objectos, fazendo contraste com os fogos dos dous acampamentos áquem e álem de Leça—fogos que em pontos ainda se mostravam vivos, fazendo ressaltar vultos negros, tocados, sobretudo nos arnezes, braçaes e grevas dos homens d'armas, de linhas ardentes, vermelhas quasi; em outros quasi extinctos, mostrando, através de uma luz vaga, fórmas indecisas, movendo-se, tregeitando. Aqui o ferro de uma azevan, volteando, espelhava um raio da lua, e imitava os fogos fátuos; acolá o bacinete polido de um bésteiro de polé lampejava, ao cruzar rápido por pé dos fogos das vigias. De vez em quando o relincho dos cavallos se reproduzia nos eccos; as vozes das roldas se alteava; erguia-se aqui uma risada, alli um clamor, e depois recahia tudo em um silencio, que só interrompia, alguma conversa a meia voz, como a que cortaram os nossos dous namorados.

Pela bocca de um delles já todos sabem que os combatentes de que podia dispôr a cidade da Virgem, homens e rapazes se tinham nessa dia de madrugada posto a caminho de Leça, e se estão lembrados da noticia dada pelo bésteiro em S. Domingos, noticia que tirou Gonçalo Rodrigues das mãos dos populares e o entregou á justiça, que lhe fez grande favor em o reter preso em Gaya; se se lembram de que D. João Manrique, arcebispo de Santiago, abalára de Braga com setecentas lanças e dous mil infantes, portuguezes, partidarios de D. Beatriz, e gallegos, e quando chegára a mensagem do Mestre acampava perto da cidade, atinarão qual o intento que ahi os levava. Alguns corredores do bando inimigo tinham, ao tempo que pecuniariamente se salvava a patria, chegado a Paranhos, alarmando os poucos camponezes não recolhidos á cidade, e os bons burguezes, que já os tinham esperado duas vezes sem verem apparecer uma só lança, haviam resolvido affugentar estes hospedes importunos.

Seis a sete mil homens, pois, acampavam áquem do Leça, occupando uma extensa linha.

Esta tropa, superior á do arcebispo em numero, era, encarada por outro lado, talvez inferior. Dos nobres que com os seus homens d'armas tinham seguido as hostes populares, em alguns não eram firmes as crenças de partido, como vimos; nos outros, em geral, havia certa má vontade por vêrem ao seu lado cavalleria burgueza, para a qual olhavam pouco mais ou menos com os mesmos olhos com que ainda hoje, no seculo XIX, olha o militar para o miliciano que marcha ao seu lado. Os bésteiros da behetria, trezentos ao todo, era gente de animo resoluto, porém fracos atiradores, e os quinhentos, tirados da esquadra e de Gaya, tinham os outros quasi na mesma conta que ás lanças que rodeavam a bandeira onde entre torres a Virgem apparecia mostrando Jesus inda menino, aquelles que seguiam balsões historiados, e mesmo ainda ao mais historiado labaro, museu de imagens santas ideado pelo futuro condestavel.

Cinco mil homens, exceptuando a chusma da armada, pertenciam a essa gente que parecia entregue a uma mascarada, quando levamos o leitor aos adarves que tinham vista para Miragaya. Eram porém estes, era o povo e os acontiados do municipio que tinham de fazer retirar os muito esforçados cavalleiros Lopo de Lira, Fernão Gomes da Silva, Martim Gonçalves de Athaide, Gonçalo Pires Coelho e outros nobres, que seguiam com elles o arcebispo de Santiago. As ascumas e os mangoaes affaziam-se, a passar aquellas entre o gorjal e a barbuda, a malhar estes em cimeiras; amestravam-se para a grande tarefa de Aljubarrota.

Como dissemos, os defensores do Mestre estendiam-se na margem do Leça por bom espaço. João Bispo e Fernando Vasques encontravam-se em uma das extremidades da linha, ou acampamento, quando extranho ruido vindo de uma mata visinha os fez interromper o dialogo que ahi fica exarado. O amante de Garifa, depois de se conservar por alguns segundos deitado, com o ouvido attento, ergueu-se, fez um signal ao seu companheiro, e, empregando o maior cuidado possivel para não fazer rumor, dirigiram-se ambos para o lado do poente, onde de novo se pozeram a escutar.

—São os nossos, disse o bésteiro novel a Fernando; são os nossos, que estão abrindo caminho no bosque.

Palavras não eram ditas, um grito sahia da selva, e um bésteiro levantava quasi debaixo da cara do sobrinho de Gonçalo Domingues a sua besta armada, mirando-o.

—Eh! Gil! abaixa lá isso, gritou João Bispo: guarda os teus virotes para os gallegos! Que desbravar de matto é esse?

—Eramá! estás ahi, João? tomei-vos por esculcas desses condemnados! Abrimos caminho na mata, e vamos passar o rio. João Ramalho está lá em baixo com trezentos dos da cidade.

—Começa o folguedo?

—Boa festa! Vamos fazer dançar os do arcebispo ao som de assobiar de virotes, e ranger de polés e garruchas. Os malditos deste lado dormem, ao que parece, e não é mau despertal-os.

O amante de Garifa deu alguns passos para se internar na mata. Fernando reteve-o.

—Espera, João, eu sei um sitio onde se póde passar melhor do que ahi.

—Sabes?

—Além, abaixo daquelle casal que está a alvejar, pelo açude.

—Bom discorrimento teve o cachopo! exclamou o bésteiro, com um sorriso de escarneo. Vão lá passar pelo açude! É o mesmo que fazer caminho para o outro mundo. Dous homens na outra margem tragam-vos uma hoste, como a uma tigella de migas.

—E se de lá não houver ninguem?

O bésteiro, como unica resposta, voltou as costas, encolhendo os hombros; João Bispo, depois de curta reflexão, tomando a mão do seu companheiro, exclamou:

—Vámos ao açude!

O desbaste do arvoredo continuou com affinco, e uma hora passada, havia uma soffrivel clareira aberta, onde tinham já penetrado alguns homens d'armas. No campo inimigo, em frente, não se ouvia senão o ciciar da aragem. Um troço de bésteiros e populares, armados estes com toda a sorte de armas, desde o montante farpeado e o machado, a maça de puas, até ao chuço e mangoal, começaram a passar o pequeno rio pouco abaixo do mosteiro dos Hospitaleiros. Cem homens teriam tomado pé na outra margem, quando um sibilo se ouviu, e um virote se veio cravar em um velho roble, ao pé do qual João Ramalho dava ordens aos acontiados da cidade. Em seguida, a outro sibilo juntou-se um grito, o som da queda de um corpo na agua, e logo um alarido immenso. Bésteiros de pé e a cavallo, burguezes e mesteiraes, que se tinham lançado ao Leça, recuaram.

Do campo do arcebispo haviam notado o movimento da gente do Mestre, e o silencio guardado fôra alliciente para os chamar além. Cem homens estavam na outra margem prisioneiros, se o grosso da força não avançasse.

—Santiago! Santiago! gritaram os castelhanos; e a margem appareceu como por encanto coberta de frecheiros, e d'ahi a momentos o relinchar dos ginetes e o som das trombetas eccoava pelos valles.

—S. Jorge e Portugal! gritou João Ramalho, arrebatando a bandeira da cidade das mãos de um cavalleiro do municipio, e lançando-se ao rio. Ávante, filhos, ávante!

Um troço de mesteiraes lançou-se em seguida do caudilho popular; porém recuou de novo.

As folhas das arvores cahiam, como varejadas, e os troncos lascavam aqui e alli, que os bésteiros de Garcia Manrique faziam a sua obrigação.

—Assim deixaes os vossos nas mãos daquelles perros?! exclamou Nicolau Domingues, apontando para a outra margem onde havia um concerto de pragas, vivas e morras. Bésteiros! bésteiros, pela Virgem de Vandoma, ávante!

—Ávante! responderam alguns mesteiraes e acontiados, seguindo o exemplo de João Ramalho.

A lucta travada além do Leça era uma temeridade. O luar alto já, allumiava o necessario para o inimigo vêr o inimigo que tinha junto de si, para uma lucta quasi corpo a corpo; e os homens d'armas do arcebispo, avançando sobre o ponto invadido, iam dar cabo dos attrevidos portuenses; demais, os fundibularios e bésteiros d'aquem temiam ferir os seus, ao passo que os gallegos, prolongando-se de lado opposto pela margem, enviando tiros mesmo ao acaso, difficultavam a passagem. Martim Correia, o escrivão da chancellaria, Gonçalo Pires, e o filho do Mestre de Santiago, D. Pedro de Transtamara, com alguns escudeiros e um troço de cavalleria da cidade, forcejavam em vão por enfiar mais além a estreita ponte, ainda hoje existente naquellas paragens. O grosso dos homens d'armas e cavalleiros embaraçavam-se uns e outros, nos vallos, fraguedos e silvados, pelos sitios onde tinham acampado, alarmados pelo rebate extemporaneo.

No rio, se se ouvia o chapejar, era o de um ou outro burguez fugitivo; no bosque o estallar dos ramos, o rumorejar dos fetos não era só produzido pela queda de virotes; era tambem pela queda de homens. Nicolau Domingues gritava a bom gritar; mas a chusma da esquadra, vinda de reforço, não se resolvia a ir juntar-se aos acontiados do Porto, quando um sucesso inesperado deu um fim brilhante ao que até então não se podia dizer mais que uma imprudencia do pae de Irene, e da sua gente.

O mosteiro dos Hospitaleiros appareceu illuminado por uma luz avermelhada: nas ameias da egreja e das torres veria quem dellas se approximasse vultos negros correndo de um para outro lado açodados, e um alarido immenso se casava ao fragor do combate da margem.

Fernando Vasques e João Bispo tinham passado o açude e approximado, fazendo um rodeio, do acastellado mosteiro, pelo lado do norte, lado desguarnecido, e bastante custára ao namorado da filha do velho Humeia a suster o seu companheiro, que na effervescencia do seu amor, cheio de enthusiasmo, imbuido de mais na leitura dos livros de cavallerias, para conquistar renome se dispunha a commetter temeridades, que serviriam apenas para alarmar os castelhanos e arriscar a vida. João persuadiu-o a voltar á outra margem, a procurar reforço para uma ideada surpresa, e não tinham do lado de áquem dado muitos passos quando lhes chegou aos ouvidos um vozear confuso, e toparam com uma mulher, que, soluçando, com os olhos arrasados de lagrimas, conduzia pela mão uma creança, chorosa tambem. Guiados por essa mulher, a quem Fernando, condoido, perguntára a causa daquelle pranto, foram ter a um casal. As portas todas da casa estavam arrombadas: por uma sahia um grande clarão. Uma velha arca e outros trastes ardiam ao canto de uma adega, e á volta das pipas tripudiava um troço de bésteiros. O vinho derramado em uma grande celha de pau, e que, trasbordando, se esbanjava pelo chão, mostrava em que estado tinham as cabeças, e mais ainda o modo porque recebiam as admoestações de micer Guilherme: dançavam, tregeitavam, grunhiam e berravam em várias linguas e dialectos, chegando alguns dos que se mostravam menos firmes nas pernas ao nariz do nobre aventureiro uma escudella a trasbordar. Para bem da verdade deve-se dizer que o irlandez, pretendendo conter os seus patricios, os inglezes, escocezes, gascões e normandos, que, recrutados pelo chanceller em Londres, tinham vindo nas galés, deitava á escudella um olhar tão terno, que não era para delle esperar grande sanha contra os indisciplinados, nem grande vontade de se metter á agua.

João Bispo via no meio de gargalhadas e motejos desfazer-se o plano combinado com o sobrinho de Gonçalo Domingues, quando este se lembrou de notar aos nossos fieis alliados por palavras e gestos que o vinho dos cavalleiros de S. João devia de ser cousa muito superior ao de pobre lavrador. Um hurrah saudou Fernando, e, cambaleando, a turma tomou o caminho do açude, apesar dos protestos de Down-Patrick.

Vinte homens, se tanto, seguiam aos dous namorados: uma duzia de archeiros de Gilles de Montferrand e alguns subordinados de Tello Rabaldo, encontrados tambem na adega do casal: os demais, embriagados, tinham ficado pelo caminho, e uns dous ou tres afogados no Leça. Bésteiros e vádios penetraram na cerca com o maior silencio em quanto João e Fernando rodeavam um páteo junto da igreja, onde os do arcebispo tinham amontoada bagagem, carros e grande porção de escadas, com que ameaçavam um assalto á cidade. A sentinella, posta desse lado, dormia, cabeceando, encostada á lança, quando Fernando deitou mão de uma das escadas para a encostar ao muro. O pobre archeiro, extremunhado, abriu os olhos, esgaziados logo pelo terror, e a bocca para dar o signal de alarme; porém aquelles embaciaram, e desta sahiu apenas uma golphada de sangue; deu umas outras duas passadas, cambaleando, estendendo as mãos como a procurar appoio, e cahiu no chão soltando um som rouco e um assobio, como de homem que desperta de pezadello. O castelhano, não despertava; adormecia para sempre: aquelle estertor sahia pela garganta e feridas abertas no peito por João Bispo.

—S. Jorge e Portugal! exclamou o namorado de Irene, abraçando-se ás ameias do eirado, e arrancando a bandeira dos partidarios de D. Beatriz, que tremulava ao pé da vermelha dos cavalleiros. S. Jorge e Portugal!

—Estamos perdidos! resmungou João, ouvindo o grito do mancebo; e estropeando o nome do aventureiro irlandez, gritou: Micer D. Patrico! micer D. Patrico, por aqui! por aqui! A mim, bésteiros!

Nas torres ergueu-se um alarido immenso: alguns penedos cahiram do eirado no páteo, e uma nuvem de virotes sibilava nos ares. Ao chamamento de João apenas tinham acudido Pedro Choca e tres vádios. O sobrinho de Gonçalo Domingues, com a haste da bandeira defendia-se dos castelhanos, que, alarmados, mais tratavam de lançar a escada a terra do que de se desfazerem do temerario inimigo.

—Abaixo, Fernando, abaixo! gritou João; e no alto das torres appareceram algumas luzes.

—Viva o Mestre de Aviz! gritou o mancebo quasi ao mesmo tempo que lhe fugia a escada debaixo dos pés, deixando-o suspenso das ameias e estribado em uma enorme salamandra de granito, que servia de goteira ao eirado.

—Ahi vem ginetes, disse Pedro Choca, fazendo um esgar. Recommendemos a alma a Deus!

—Se elle t'a quizer! redarguiu um dos vádios soprando a uns tições alli deixados em rescaldo, que embrulhára em uma pouca de palha.

—Fernando! exclamou João Bispo, encostando outra escada ao muro, apesar dos arremessos; afferra-te, Fernando, que eu sou comtigo.

—S. Jorge! S. Jorge! se ouviu do outro lado do mosteiro em altas vozes.

—A mim, bésteiros, a mim! tornou João Bispo, em quanto o seu amigo se defendia na goteira, procurando saltar no eirado.

—Hurrah! S. Jorge!

—Malditos! aquelles odres onde estarão! Micer D. Patrico!

—Arriba, João, arriba! accudiram os vádios, marinhando pela escada, que de novo tinham erguido. Aquelle endemoninhado cachopo vai morrer!

Uma grande lavareda, de repente, illuminou a lucta travada entre Fernando Vasques, os seus companheiros e alguns homens d'armas do eirado. Pedro Choca tinha lançado fogo a uns carros de palha, e este ateava-se aos enormes pavezes de vime, proprios para assalto, amontoados entre as escadas e bagagens. Era uma fogueira soberba que dentro em pouco faria estalar o travejamento dos aposentos de D. Mafalda, ao mesmo tempo que os castelhanos abandonavam o eirado da egreja.

—Os do Mestre! os do Mestre! se ouvia por todos os lados; e nas torres, besteiros e fundibularios perdiam os seus tiros.

—Hurrah! continuavam, já roucos, a berrar, do outro lado da cerca, os inglezes.

—S. Jorge e Portugal! gritaram algumas vozes, com boa clara, pronuncia portugueza, do lado do rio, apparecendo por entre os castanheiros, retirando os homens d'armas de Garcia Manrique.

—Ter! gritou um dos seus caudilhos, ameaçando com o estoque os mais medrosos; ter, rapazes! Não se diga que retiramos diante de meia duzia de villões!

—Ter, ter! exclamou o guerreiro arcebispo, apparecendo no meio dos fugitivos.

—Os do Mestre estão no bailiado! disse uma voz d'entre a multidão. Vêde, o mosteiro está a arder, e foi derribada a bandeira!

—Por Sanctiago! tornou o arcebispo para os seus companheiros, espantado da audacia dos portuenses, embrulhados já com os gallegos, e suppondo-se cortado por forças immensas; estes excommungados estão decididos a morrer, e trazem comsigo o poder do mundo. A caminho de Braga, senhores! Temos tempo sobejo para desforra.

—Covarde! resmungou João Rodrigues Portocarreiro, esporeando o seu ginete para se lançar sobre os do Mestre. Covarde! repetiu; e o fogoso animal, ferido nos peitos por um virotão, ergueu-se com as mãos no ar, e cahiu, arrojando com ruido o portuguez rebelde a alguns passos de distancia, abollando-lhe a armadura e o capacete e fracturando-lhe o craneo.

—Covarde! repetiu tambem o arcebispo com um sorriso de mofa, voltando-se para um dos seus capitães, e designando o fidalgo portuguez: temeridades não aproveitam.

A ponte tinha sido forçada ao mesmo tempo quasi, e a cavallaria de D. Pedro de Transtamara cortava já pelo meio dos gallegos, atterrados.

—A caminho de Braga! tornou a gritar o arcebispo D. João, que, lançando-se na estrada partiu, a galope, seguido de grande porção de cavalleiros, e pouco depois de todo o exercito, deixando os apprestes d'assalto, viveres e bagagens nas mãos dos burguezes do Porto.

—Senhor conde, senhor conde, aqui está a bandeira de Castella, exclamava momentos depois, attravessando no meio de vivas por entre as hostes do Mestre, o sobrinho de Gonçalo Domingues, com as mãos cheias de sangue, de feridas do corpo e da cabeça, mas tão contente, que nada lhe doia naquelle instante, e, em vez do perigo corrido, se recordava tão sómente de Irene, alegrava-se por saber que o seu nome lhe havia de chegar aos ouvidos na historia daquelle recontro.

Era um heroe feito pelo amor .............................................................


O mosteiro dos Hospitalarios tinha sido abandonado, mal o incendio mostrou aos seus guardas as hostes portuenses além já do Leça, abatida a bandeira e em fuga Garcia Manrique. No entanto, ainda do lado da cerca, sol já nascido, as mesmas vozes roucas gritavam:

—Hurrah! S. Jorge!

—Onde demonio estarão estes bargantes? perguntou o namorado de Garifa, procurando o sitio donde sahia aquelle vozear.

Uma gargalhada estrondosa se seguia, pouco depois, á pergunta. Os besteiros encontrados no casal, não se esqueceram, chegados ao mosteiro dos cavalleiros de S. João, que vinham para humedecer a garganta com bom vinho, e foi a adega a primeira cousa que procuraram. Era de lá que tinham, com os seus hurrahs, ajudado a alarmar os gallegos.

Desta vez micer Guilherme Down-Patrick não resistira á tentação.



VIII.

Torneio.



E elles no Porto por ledice de sua vinda ordenarão hum torneo vespora de S. Iohão, que era em que os moradores daquella cidade costumavam fazer gram festa.

(fernão lopes. Chronic.)


Por uma tarde de mez de Junho, pouco mais de uma hora seria, caminhavam em direcção ás Hortas, no meio de extraordinario concurso, mestre Gonçalo Domingues e Fernando Vasques. O feito de Leça, tornando um heroe, entre os patriotas da terra, o moço namorado, os gabos por elle publicamente recebidos de Martim Correa e do conde D. Pedro, a ovação feita pelos populares, que em charola, o conduziram, quando perdidas as forças, pelo sangue derramado, cahira ao voltar do recontro; tudo fizera passar por alto ao bom tio a fuga da loja. O velho abraçou-o enthusiasmado tambem, com o riso nos labios e ao mesmo tempo umas duas lagrimas nos olhos e só se lembrou de fazer algumas reflexões sobre as imprudencias da mocidade, quando em casa notou a necessidade de chamar um medico, ou physico, como então se dizia.

Gonçalo Domingues tinha, como muita gente, na cabeça uma boa dóse de ideas em opposição com as inspirações e sentimentos do coração, sobretudo a respeito de seu sobrinho. Se dissessemos que queria ao mancebo tanto como ás suas dobras, diriamos que lhe tinha affeição de pae; porém, ia mais longe o velho: queria-lhe mais; pois bom dinheiro sem dó com elle tinha dispendido. E comtudo dava-se de vez em quando a perros por causa de certas travessuras e inclinações do filho de seu irmão, sobre as quaes fazia observações muito sisudas, cheias de um positivismo tal, que obrigava a dizer aos que o ouviam que elle era um homem de grande tino e prudencia. Reflexões e ralhos, terminavam quasi sempre por aquelle sorriso que lhe viram os leitores quando elle voltava de Miragaya.

Fernando vinha ainda alguma cousa pállido, debilitado, ao que no corpo mostrava; porém nos olhos havia um fogo extraordinario, uma alegria pintada em todo o semblante, e nos movimentos uma força, uma rapidez, que não parecia de quem entrára pouco havia em convalescença. O tio bem lhe dizia que moderasse o passo, pois lhe fazia mal aquella violencia, e elle mesmo a custo o poderia seguir sem correr; mas o mancebo, se o affrouxava, era por instantes.

O sol, ainda quasi a prumo, podendo, dardejar os raios por entre as esguias e altas edificações das estreitas ruas, que percorriam, rarefazia o ar, appresentando nos terreiros á vista a illusão de um como doudejar de átomos no ambiente, um tremor que fere os olhos; porém Fernando nada sentia. Ia vêr Irene, Irene que não vira desde o esboroamento fatal do muro; Irene, que João Ramalho, em vesperas de se fazer de véla para a Figueira, d'onde seguiria para Lisboa, recolhera ao castello de Gaya, recommendando-a a D. Catharina. A nobre senhora era bastante astuciosa para não affagar em quanto fosse conveniente um homem popular como o piloto mercador, e fallando elle em metter a joven em um convento, em quanto ia servir o Mestre, para a guardar dos riscos a que a idade a expunha, se offerecera para a tomar como donzella sua «e tel-a como filha» palavras della. D. Catharina devia ir ao campo das Hortas nessa tarde, e por João Bispo soubera o mancebo que á sua namorada fôra concedida a honra de formar parte do seu cortejo. Em logar do sol que fazia, podia queimar o dos tropicos, que o mancebo o sentiria tanto como a aragem fagueira por sesta do outomno, ou a gellos de hinverno.

O recontro de Leça deixára desassombrada a cidade, e os bons burguezes entregaram-se todos aos cuidados de aprestar as embarcações e mais soccorros pedidos pelo Mestre de Aviz, posto em apuros pelo aperto do sitio e bloqueio. Em quanto o abbade de Paço de Sousa se dirigia a Coimbra, transtornada, como vimos, a embaixada do alcaide de Monsaraz, as galés vindas de Lisboa e outras do Porto, já prestes, para não perderem tempo tinham-se feito de véla pela costa da Galliza, capitaneadas pelo conde D. Pedro, lançando contribuições aos povos que não queriam experimentar o nosso ferro. Destruido completamente o Ferrol e queimadas algumas naus, pelos fins de Junho de novo a frota appareceu nas aguas do Douro, rebocando umas sete presas, e carregada de despojos.

Os sinos de todas as torres da cidade balouçaram-se, atroando os ares; berrou-se em todas as escalas os vivas do costume, e os edis, no fogo do enthusiasmo, decretaram uma festa esplendida, como appensa á de S. João, santo sempre popular e mais nessa quadra, por ser o do nome do Mestre, que o povo tinha por um Messias, como diziam os partidarios de D. Beatriz. A vespera da commemoração do nascimento do Baptista, morto por ter desdenhado da dança, devia ser celebrada com danças, guinolas, touras, momos e por um vistoso torneio, que tinha de ser o assombro da terra, pouco affeita a tão graúdos folguedos.

Desde o amanhecer do dia 23 o campo das Hortas estava cheio de gente embasbacada para o tablado levantado na vespera, que alguns operarios cobriam com tapeçarias, em quanto outros davam a ultima demão ao circo, ou estacada, adornando-a com bandeiras, panoplias e festões de ramagem.

Aos gritos e cantigas dos trabalhadores, aos commentos dos curiosos, ás risadas pouco e pouco se juntavam os pregões das vendilhonas de fructa, dos taberneiros, fritadeiras e padeiras, que assentavam as suas mezas, as suas tendas, ou os carros enramados por todos os lados, que o circo deixava devolutos, e pouco antes do meio-dia era já difficil mover-se no campo, apinhando-se além disso um gentio immenso nos adarves e torres da cidade, por aquelle lado, e na encosta dos dous montes do Olival e Batalha. Se até ahi os bons burguezes tinham aberto a bocca para as tapeçarias onde a agulha ou a lançadeira traçara os episodios dos contos de cavallerias, mostrando o rei Arthur, Amadis, Lisuarte, Galaor, a duqueza Iguerna, Mabilia, Oriana, Urganda, Brisena e outras muitas personagens, que para maior illucidação dos seus feitos e ditos tinham a sahir pela bocca o texto da «illustração»; se ficavam embellesados nos grandes pannos de ouro, trazidos da cathedral para enfeitar o esperavel do estrado das damas, nos estandartes, onde havia divisas de toda a sorte, bordadas ou pintadas, mais pasmaram quando começaram a apparecer os mantenedores das justas, os improvisados arautos, mestres e juizes de campo, passavantes, sergentes, menestreis e trovadores, que para a festa tinham sido igualmente apenadas as musas.

O Porto, behetria havia muito, entregue todo ao commercio, quando não se divertia a jogar as cristas com os seus bispos e a pugnar pelas suas liberdades, o Porto tinha visto passar os cortejos de alguns reis e principes; mas de fugida, meios envergonhados, como o de D. Fernando, ou em som de guerra, e em devota romagem e peregrinação: cortejo assim, festa egual nunca se déra, pois nunca, como então, se reuniram de muros a dentro tantos e taes elementos: tinha uma côrte de seu. Os mesteiraes e os burguezes nesse dia, tão enlevados estavam nas louçanias que se desenrolavam, que abriam caminho com a melhor vontade aos cavalleiros, e alguns mesmo suspiravam por que fosse levantado o interdicto a quem com tanto garbo soffreava um ginete, vestia tão airosamente, e fazia tão acabadas mesuras.

Tinham as corporações apparecido com as suas bandeiras, precedidas pelas figuras que davam para abrilhantar o acto, como na procissão de Corpus: tinham-se reunido, amontoado os trajes mais variados, desde as vestes negras, compridas dos juizes, alvazires e meirinhos, as jorneas partidas, de panno bristol, de seda e velludo, os briaes blasonados, as marlotas dos mouros dançarinos, as olandilhas, as opas dos foliões e jograes, os arnezes polidos, espelhando o sol, adamascados ou tingidos de vivas cores, os vestidos de brocado, de panno de ouro e prata, os arminhos e zibelinas das damas e donzellas, a almafega e o burel de certos momos; casavam-se os preludios de todos os instrumentos; o arrabil e o tiorba, a charamela e o clarim, o tambor e o pandeiro, estrugiam, chiavam, rangiam; mas tudo aquillo dava vida e animação, afinava, no meio da sua desafinação, permitta-se dizer, com o ressalte das côres, que como em brazão pareciam postas, com os alaridos, as risadas e os vivas, quando Fernando penetrou no palanque, onde seu tio, como notabilidade da terra, conseguira bom logar.

O mancebo, mal entrou, estendeu a cabeça, a procurar com a vista não os arautos improvisados, que se pavoneavam de ambos os lados da liça, vistosamente trajados de branco e azul, com as armas da cidade bordadas no peito, nem os mestres de campo, montados já em bem ajaesados corceis, e correndo de um para o outro lado: foi para o estrado ou cadafalso das damas. Estava porém cerrada a cortina, e, que não estivesse, no palanque era tal o reboliço, tanta gente estava de pé, que não seria facil descobrir lá alguem, a não estar em logar eminente. Mestre Gonçalo Domingues, parte por natural curiosidade, parte por desejo de ostentar perante os visinhos, como os paes costumam, quando se embellesam nas prendas dos filhos, inquiria a significação de todas aquellas tapeçarias, e amofinava-se por ver que o sobrinho mal lhe prestava attenção, respondendo de tal sorte, que facil era ver que nem sequer olhava para o sitio indicado.

De repente notou-se um marulhar de cabeças, e á algazarra succedeu o silencio. Os alvazires appareceram no estrado para elles preparado, e em outro, contiguo ao das damas, os juizes do campo—Ruy Pereira e Ayres Gonçalves de Figueiredo.

As trombetas soaram; alvazires e juizes tomaram assento, e depois de feitas as costumadas ceremonias, um dos trovadores ergueu-se, desenrolou um pergaminho cheio de illuminuras, e começou em voz alta a recitar o seu poema, que era nada menos que um elogio aos guerreiros da espedição maritima. A poesia nessa epocha era tida em grande conta, e as attenções, por tanto, da assemblea voltaram-se todas para o bardo. Uma cabeça, uma só se volvia attenta para outro lado, e esta cabeça era a de Fernando.

A cortina de cadafalso das damas fora corrida por dous pagens, e D. Catharina e mais umas oito damas da nobresa das visinhanças da cidade tinham apparecido rodeadas pelas suas donzellas.

Os trovadores podiam dizer bocados de ouro sobre façanhas militares, que as palavras eccoavam como sons vagos aos ouvidos do namorado moço; os versos de amores, esses, como se affinados pelo sentimento que o dominava, ligados por uma corrente magnetica, faziam-no sorrir e córar, sem comtudo desviar os olhos do estrado.

Depois que as palmas de todos os lados, e as trombetas soaram, quando o vencedor proclamado, appresentando o seu manuscripto a Gonçalo Pires, escrivão da chancellaria, com uma corôa de louros, recebeu em soberba bandeja um bonito sacco de argempel, rico pelo bordado, e mais ainda pelas boas dobras que o pejavam, premio votado pela municipalidade, segundo antigas usanças, appareceu no meio da liça o mantenedor das justas.

D. Pedro de Transtamara vinha, sobre garrido, aprimorado, formoso.

Bem fraca figura fazem hoje nas nossas festas e folguedos, com a esguia casaca preta e a gravata branca de rigor, os alindados do seculo XIX á vista da que faziam os nossos avós. Para o namorado de hoje em dia no baile não ha meio de se distinguir, de lisongear o amor da sua dama, como então nos torneios, nos jogos de cannas e argolas, nos bafurdios e cavalgadas; não apparecem hoje os vistosos trajes de seda, ouro e prata, as mangas bordadas, de honra, as charpas ou bandas, nas quaes em cores preferidas pela donzella querida se via a tenção ou divisa, que recordava a ambos um protesto, uma confidencia, ou descobria um pensamento. O amor tinha, sobretudo no cavalheiresco seculo a que transportamos o leitor, um culto, que hoje não tem, hoje em que arrancaram a aljava a Eros, o facho ao Hymeneo, e a ambos deram por distinctivo um saquitel de lona, como a imagem globulosa de bemfeitor de confraria. (Entre parenthesis, faço aqui excepção dos meus leitores: os que são casados, o são por amor, e os solteiros e as solteiras ainda não deram um sorriso, um olhar a dote algum de boa somma, simplesmente pelo dote e nada mais. São a nata das creaturas.)

O conde D. Pedro vestia sobre ricas armas de Toledo cheias de relevos, esmaltes e embutidos, um brial côr de cereja, onde, em vez do brasão proprio, havia bordadas chammas de ouro, e no escudo, esmaltado da mesma côr rubra, e taxeado de ouro, lia-se a palavra «Cuydado» entre duas palmas, que enramavam um sol feito de espadas. Um malicioso notou que o desenho do escudo podia figurar a roda de navalhas de Santa Catharina, e que a esposa de Ayres Gonçalves trajava um corpete de tela, da côr favorita do mantenedor do torneio, adornado com um peitilho e fraldilhas de arminho; todos poderiam notar egualmente que, quando, ao fazer caracolar o seu ginete, o conde deu uma volta á roda do circo, antes de tomar das mãos do escudeiro que o seguia o elmo, a lança e o escudo, entre elle e a nobre castellã se cruzára um olhar expressivo; porém, o governador de Gaya mostrava-lhe um sorriso de agrado, e eram tão sabidos os recentes amores, que o tinham feito abandonar a côrte de seu tio, que a maledicencia achava-se um pouco embaraçada nos vôos.

O mantenedor do campo foi saudado com tanto enthusiasmo ou mais que o trovador, e da mesma sorte foram acolhidos, em seguida, os contendedores, que se appresentaram: Vasco Martins de Mello, Gil Esteves, Affonso Darga, Henrique Fafes, um dos irmãos Alvalade, micer Manoel Pessanha, Affonso Henriques de Transtamara, e outros mancebos, todos tão adornados e vistosos, que á multidão iam-se-lhe os olhos nelles, não sabendo a qual dar primazia. Depois das ceremonias do costume e de um bafurdio, jogo em que cada um mostrava a destreza no arremesso das lanças, diversão tomada dos arabes, começou o combate. Vasco Martins, Henrique Fafes e Alvalade perderam a sella, não supportando o embate das lanças; micer Manoel, como mais affeito ao mar que á terra, ao dar a volta em um dos extremos da liça, para arremetter contra o seu antagonista, o fez de sorte, que, roçando pela barreira com o cavallo, o arremessou este para o outro lado, deixando-o menos maltractado que a uns dous burguezes, que lhe amacearam a queda com o corpo.

As damas debruçavam-se curiosas na balaustrada do cadafalso, e mais curiosas do que as damas as donzellas de honra e as burguesas, para quem tudo aquillo era inteiramente novo e de fortes impressões, como hoje se diria. D. Catharina de Figueiredo, entre as do seu sexo, era a excepção, como Fernando entre os homens. Alguma cousa lhe prendia a attenção, e essa cousa ficava perto da bancada onde estava o mancebo. Seguindo a direcção dos olhares frequentes da bella dama, encontrar-se-hiam as vistas do sobrinho do forçureiro, e ao primeiro relance dir-se-hia que se provocavam e comprehendiam. D. Catharina notara Fernando; notara nos olhos os reflexos do incendio ateado no coração, e illudira-se, como se poderia illudir muita gente. Extranhar a audacia a principio, podia-a extranhar; porém, mulher, havia de achar-lhe indulgencia, por virtuosa que fosse. Não o era. De sangue ardente, fogosa por temperamento pertencera, demais, á corte de Leonor Telles; era uma das damas com que a astuta rainha jogara, para formar partido, cativar a benevolencia dos cavalleiros a principio um pouco do parecer do povo que apedrejara os paços de apar S. Martinho, e não desdissera depois da escóla em que se criara. Nos seus galanteios não encontrara nunca um olhar de adoração como o que interceptava; Fernando Vasques fizera-lhe mesmo uma impressão mais que extraordinaria: fizera-lhe não só, alli, esquecer o conde; mas, depois, ainda mais, a distancia em que estava ella, dama de alta linhagem, de um simples burguez, um peão.

A illustre dama não contava com Irene, que se occultava, córando, atraz da poltrona em que se sentava: o filho do mestre de Santiago não contava tambem com o sobrinho de Gonçalo Domingues; mas via claramente que as côres e divisas que tomara podiam ser taxadas de vaidade, presumpção e nada mais.

Quando um novo contendor entrou na liça, estava tão preoccupado o nobre mantenedor, a procurar quem lhe podia roubar completamente as attenções, que não reparou que era esse o mais destro de todos, affeito aos jogos dos arabes de Granada, a medir-se com os cavalleiros da Africa ao serviço dos Alhamarides; que era seu proprio irmão, Affonso Henriques. O moço castelhano, passando junto do conde guiou tão destramente o cavallo, que lhe roçou pelas joelheiras, e dando um geito á lança, na carreira, desviou completamente a do seu antagonista e tocou com a sua no escudo de tal sorte, que o braço que o segurava, estendeu-se; a mão abriu-se e aquella arma defensiva foi ao chão. D. Pedro, ao ouvir os applausos levantados a seu irmão, e com a cabeça perdida pela distracção da sua dama, ergueu-se furioso nos estribos e arremetteu contra elle. A sua lança desfez-se desta vez em hastilhas no arnez do mancebo; porém este não saltou da sella, e em poucos instantes estava outra vez em frente do conde. A lucta tornou-se então um verdadeiro duello, e as regras do cartel apresentado no principio, consentindo tudo que fosse destresa, e mandando parar ao primeiro ferimento ou queda, pois que não era justo que grande mágoa enlutasse tão grande festejo, foram despresadas. O conde tinha sido desappontado nos seus galanteios como homem, e nos seus brios como cavalleiro. Ás lanças succedeu a espada; e as espadas como a lança quebraram, amolgando os elmos, disjuntando e torcendo peças dos braçaes. Tomaram um a maça, outro o machado, e furiosos correram um para outro.

O tio de Nuno Alvares Pereira e Ayres Gonçalves de Figueiredo, estavam tomados de assombro para intervirem na lacta; os mestres de campo, que a principio haviam tentado manter com os arautos as condições do cartel, tinham-se, embaraçados, por noviços, retirado para junto das bancadas, e olhavam uns para os outros e para os juizes, procurando conselho, que não viam nos olhos de ninguem. Os espectadores, homens e mulheres, esses applaudiam os epysodios da lucta.

A massa ressoou na armadura de Affonso Henriques, e a um rugido, um regougo seguiu-se um fio de sangue a correr por entre as fendas do gorjal sobre o arnez. Os contendores tinham-se esquecido de que eram irmãos. D. Pedro, sobretudo, estava cego. O brial do conde fez-se em farrapos, enrodilhado pela machadinha; o ginete em que montava D. Affonso, ferido na cabeça, apesar de acobertado de ferro, cahiu na arena levando o cavalleiro. Os gritos da multidão, como nos circos romanos, eccoaram pelos montes visinhos.

—A pé, a pé! gritaram alguns cavalleiros enthusiasmados, exigindo a egualdade de combate.

Não foi preciso repetir a exigencia: ou melhor fôra ella escusada: o conde de Transtamara lançara-se abaixo do cavallo, e corria direito para o irmão, que, já erguido, com o machado no ar o esperava.

—Cavalleiros, cavalleiros! exclamou Ruy Pereira ao mesmo tempo que Ayres Gonçalves, querendo sustar o combate.

Os passavantes e o mestre de campo correram para a arena, porém quando chegaram junto dos irmãos, um delles, D. Pedro, soltáva um grito doloroso, e cahia com todo o peso do corpo, fazendo ranger e estallar todas as peças da armadura.

O guante de ferro que lhe guarnecia a mão direita estava despedaçado, e despedaçado o pulso. O sangue tingiu a areia da liça.

—Jesus! se ouviu do lado das damas e depois uma borborinha correu pela assemblea; pois a queda do sobrinho do rei de Castella, tomada como o baquear extremo, produzira no povo uma impressão desagradavel.

Aquelle rumor e assombro fizeram cahir em si Affonso Henriques.

Os momos que se seguiram ao torneio foram sem interesse para os espectadores entretidos a commentar o combate extraordinario dos dous nobres castelhanos. Se recrearam alguem foi a Fernando Vasques e a Irene, e pela duração; não por outra cousa.

D. Catharina não havia tambem despregado os olhos do mancebo. Ao cavalleiro que a invocára no torneio, se concedera um olhar, fôra de curiosidade. Quando este tornára a si do desmaio em que a dôr e o sangue perdido o haviam feito cahir, passando junto delle, ao entrar para as andas em que viera de Gaya, teve algumas palavras; mas ainda, se não dirigidas, allusivas ao sobrinho de Gonçalo Domingues, que tratára de seguir Irene, apesar das exclamações do velho forçureiro, pouco amigo de se metter em apertos, lembrado do desembarque de Ruy Pereira.

—Bello pagem se fizera daquelle mancebo... se fôra de linhagem! Não é certo, micer Guilherme? disse ella.

—Bello pagem! disse o irlandez, que de certo devia ter achado a festa menos divertida que o recontro de Leça, e sem mesmo olhar para o joven que D. Catharina designava com a vista.

Fernando, perto da linda filha de João Ramalho, mais formosa agora e esbelta com as galas que lhe consentira a castellã, embellecido o rosto pelo amor; Fernando não ousára erguer os olhos, e sustentára assim a illusão para a antiga donzella de Leonor Telles, que repetio:

—Bello pagem!



IX.

Garifa.