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Os tripeiros / romance-chronica do seculo XIV cover

Os tripeiros / romance-chronica do seculo XIV

Chapter 16: X. Uma idea.
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About This Book

A narrativa recria uma cidade ribeirinha do século XIV abalada por uma crise dinástica e por conflitos civis, acompanhando procissões multitudinárias de cidadãos armados, mercenários, clero e nobres. Cenas detalhadas mostram armaduras desencontradas, armas improvisadas e trajes variados, enquanto magistrados municipais, juristas, corporações e facções populares disputam a autoridade. O texto alterna reportagem viva ao nível das ruas com comentários reflexivos sobre a fluidez das facções, a identidade local e os limites porosos entre a ordem cívica e a violência. Descrições de mercadores estrangeiros e bairros marginalizados evidenciam o mosaico social que molda lealdades políticas e a vida quotidiana em tempo de governo contestado.

Cade in tanto dolor, che si dispone
Allora allora di voler morire......

Ariosto—Orland. fur. cant. V.

Maravilhou a todos o spectaculo
Inesperado...
Que será? disse emfim um rumor surdo
De vozes dos que tremulos pararam...

Garrett—D. Branca—cant. I.


—Para longe o agouro! Ora esta! dizia, horas depois do torneio, em Gaya, junto da fonte do rei Ramiro, a mulher de um galeote.

—Pois que é, tia Dordia? interrogava outra.

—Que ha de ser? Vindo ás vozes do lado do monte, ouvi fallar em affogado, e bem sabe que o meu Manoel anda por esses mares!

—Para longe o agouro, repetiu a outra mulher. Isto de agouros nem sempre são certos. Fé em Deus, que elle fará as cousas pelo melhor.

—Fé em Deus tenho eu; mas bem mau é que em noite de S. João se ouçam cousas destas! A velha Mafalda, o anno passado, ouviu, ao passar ao arco de S. Domingos, fallar em um justiçado, e bem sabe o que aconteceu ao filho.

—São signaes que cada um traz ao nascer. Mas ainda não é meia-noite, proseguiu a mulher, querendo consolar a senhora Dordia da crença ainda hoje existente junto da foz do Douro, de que, quando, vespera de S. João, ao cahir da meia-noite, se procura um prognostico, ou noticias da sorte de pessoa ausente, as dão as primeiras palavras de qualquer conversa.

—Deus a ouça, visinha... Deus a ouça; mas parece-me que já será: o sete-estrello vai alto!

—Não é, não. Ólá, João Canhoto, meia-noite será?

—Não é, tia Luiza. Quer ir saltar as fogueiras?

—Eu não: forças para tal Deus as déra. O meu tempo já passou. Quando rapariga!...

—Então deitou ovo em escudella?

—Para que?

—A vêr se lhe sahe arco de egreja, respondeu o homem, que dava pelo nome de João Canhoto, rindo.

—A mim agora só se me sahir tumba. Isso é bom para cachopas.

—Vamos, vamos, tia Luiza; ainda está féra, rija como um virote, e um noivo agora era mel pelos beiços.

—Seu bargante! exclamou a velha, mostrando no rosto que a mofa do galeote não era inteiramente recebida como tal.

—Então, ainda não é meia-noite? tornou a perguntar a senhora Dordia, bastante impressionada pelo agouro tomado, para delle tirar o sentido, não obstante os gracejos dirigidos pelo galeote á sua amiga.

—Qual meia-noite! Ao cantar do gallo toda a chusma, que anda por ahi, ha de vir em descante. É uma festa de estrondo cá da gente. Verá se lá os da cidade nos levam as lampas! Só violas é uma meia duzia, e os rapazes que as tangem são mestres acabados. É de se abrir a bocca. E o Safio? Se ha por ahi quem saiba deitar uma cantiga como elle, que eu beba agua toda a minha vida! O Safio vem no rancho.

—Então, temos grande descante? interrogou uma outra mulher.

—É esperar para ver.

—O sitio não é lá dos melhores.

—Dizem que por aqui...

—O que?

—Que em noite de S. João apparece na fonte uma moura encantada... Ora uma moura de não sei que rei...

—Bôa, bôa! exclamou o galeote. As mouras não se vem metter assim com um homem do mar, por mais tresloucadas que andem. Se ella quizesse bailar na festa...

—Credo! Não diga isso, que o póde ella ouvir! exclamaram duas ou tres mulheres ao mesmo tempo.

—Ai, senhor João, bem se vê que não é da terra, e não sabe que é certo o apparecer ás vezes ahi a maldicta. Minha avó, que Deus haja, quando era rapariga, viu-a, disse a tia Luiza.

—E vi-a eu, vai em tres annos, com estes que a terra ha de comer, accudiu a tia Dordia.

—E eu, disse outra.

—E eu, exclamaram em seguida mais cinco ou seis.

—Então, como é a moura?

—Ora como ha de ser a moura? É uma figura branca, toda branca, muito branca, com os cabelos, nem fios de ouro, soltos pelas costas; e apparece a bailar na agua de um para o outro lado...

—Hoje quebra-se-lhe o encanto, atalhou o galeote, que era para o seu tempo um grande incredulo ouvindo um desfinar de instrumentos do lado da povoação.

—Alli vem a festa! Lenha para ahi! exclamou em seguida, dirigindo-se a um rancho de creanças de ambos os sexos, que saltavam por cima do brazido deixado pela fogueira.

A festa annunciada não tardou com effeito a apparecer. Uma grande porção de galeotes, petintaes e espadeleiros de Gaya e Villa Nova arranhavam em violas, tocavam tamboril, ou cantavam, fazendo coro, a canção entoada por um rapaz alto e de ar jovial, que era nem mais nem menos o Safio apregoado por João Canhoto. Para se dizer toda a verdade, deve-se accrescentar que a desafinação dos instrumentos não destoava das vozes, um pouco roucas, como as de todos os embarcadiços, e demais ressentindo-se de brodio feito em tasca.

Uma voz cantava:


Em noite de S. João
Até no mar traiçoeiro
Accendem anjos ou fadas
Em cada vaga um luzeiro.

E, velas de seda ao vento,
Passa a galé encantada;
Remos de ouro batem n'agua
Ao som de branda toada.

No ceo bailam as estrellas
Bailam as mouras nas fontes...
...........................................


—Jesus! exclamou uma mulher, pallida, com os olhos espantados, lançando-se a tremer no meio da festa.

As violas calaram-se, o cantor, que desta vez dizia versos, que não eram de sua lavra; os coros, que repetiam no fim de cada estrophe um estribilho maritimo, calaram-se tambem; os rostos tornaram-se de finados, como se tornara o da mulher. Esta, com o braço estendido, designava a fonte de D. Ramiro.

Se vós, leitora, que talvez por mais de uma vez apregoastes que não credes em muita cousa natural, quanto mais nas que o não são, visseis o que Safio e os festeiros de Gaya estavam vendo, a côr do rosto vos fugira, como a elles lhes fugiu, e talvez, como a vossa organisação não é a de qualquer petintal, um desmaio vos tirasse de sustos.

A lua no extremo da sua carreira, redonda, mergulhava no mar, marcando nas aguas uma esteira tremula, de um brilho duvidoso. O disco, meio embaciado pelos vapores do occeano, podia servir para uma imagem funebre: dir-se-hia que era o espectro do sol. Na outra margem, para o lado da cidade, por entre fogos vermelhos, appareciam e desappareciam figuras negras, como possuidas de uma vertigem, de frenesi, e a aragem trazia nas azas humidas pelo orvalho, um concerto de rizadas em todas as notas possiveis da escala, e uma discordancia de instrumentos, como em ronda de feiticeiras. O rosto tornava-o negro uma immensa fogueira feita na praia. Os reflexos da luz davam ao rosto dos marinheiros de Gaya, tomados de assombro, um todo phantastico, assustador. Toda esta scena momentos antes era alegre. Uma só cousa bastára para a transtornar. Entre o fundo escuro em que se mergulhava a margem opposta, em consequencia da fogueira que fizera avivar João Canhoto, e o lanço do rio tocado pelos derradeiros raios da lua, junto da fonte, á beira da agua, via-se uma figura branca, indefinida em tudo que não era o contorno, movel, conforme as oscillações e intensidade dos fogos, accesos que parecia, mais do que a pousar na terra, suspensa do ar, baloiçada por fio invisivel.

Aquella apparição, como transtornára o aspecto da scena, como déra aos cantos e aos risos um tom sobrenatural, tornára immoveis quasi os collegas de Safio. Se não fosse o movimento que faziam para se aconchegar uns aos outros, dir-se-hia que ella os havia petrificado. O suor innundara-lhes a fronte, e o frio corria-lhes pela espinha dorsal.

A campa do convento de Corpus-Christi dobrou compassada marcando a meia-noite, e ao mesmo tempo quasi uma nota plangente vibrou no ar. Marinheiros, que tinham affrontado a tempestade com o coração sereno, que nas galés reaes ouviram sibilar os pelouros, sentiram perto do craneo o embate do machado no machado tremeram como as folhas dos alamos. Das mulheres nem fallamos. Todas as orações, todas as fórmas de esconjuros se lhes embaralhavam na memoria, e os lábios negavam-se a pronuncial-as.

—Meia-noite, tartamudeou João Canhoto, momentos antes emprazador de phantasmas, e fazendo ao soar a ultima badalada o signal da cruz ás avessas.

—Valham-me os santos e santas do céu!

—Jesus! bento nome de Jesus!

O silencio que estas exclamações interrompiam era tal que se ouvia o respirar não muito desembaraçado daquella boa gente, e o terror tambem era tamanho, que as passadas e mesmo a apparição de um homem junto do rancho dos festeiros não foi por elles notada. Daquelle pasmo pasmou o recem-chegado, mas não por muito tempo.

—Ui, Canhoto, exclamou elle; que mau olhado vos deu, e em toda essa gente, que tendes cara de quem viu o trêpo em encruzilhada?!

—Jesus! bento nome de Jesus! repetiram as mulheres, deitando a correr para o lado da povoação, como se a presença daquelle homem quebrára o encanto de terror em que estavam.

—Ui! tornou elle, que demonio se lhes metteu no corpo?! Nem bando de cotovias que farejaram besta armada. Eh! Canhoto, que feio esgar que estás a fazer! Estás mudo, homem? Aquelles pergaminhos velhos de saias que fugiram a grasnar eram bruxas? Em noite de S. João...

João Bispo, pois era o nosso conhecido o recem-chegado calou-se, e recuou espantado, fitando um gesto dos galeotes de Gaya a apparição phantastica que os atemorisára, e quasi ao mesmo tempo dous gritos se confundiram com o baque de um corpo no rio. O phantasma branco, a moura encantada durante a enfiada de perguntas de João Bispo, approximara-se da margem do Douro, erguera os braços ao céo, como em supplica, e precipitara-se na corrente. Durante este movimento o bésteiro reconhecera naquelle vulto um ente querido, e ao grito, soltado como em adeus extremo ao mundo, juntara-se outro de angustia tambem. O pasmo produzido pelo reconhecimento feito em taes circumstancias não foi longo, porém; ao baque na agua do corpo da moura seguiu-se outro, o do bésteiro.

—João! João! exclamaram alguns galeotes perplexos; sem saber como traduzir na sua intelligencia o passo do condiscipulo de Fernando.

João não ouviu sequer aquelles gritos.

—A moura saltou ao rio! disse um espadeleiro, que se attrevera a procurar com a vista a causa do terror geral.

—Foi para casa de Brazabu! redarguiram dous ou tres, tomando de um folego o ar necessario para cem homens, e limpando com as costas da mão o suor frio que lhe banhava o rosto.

—João! João! tornaram os que mais perto estavam da praia.

—Arrastou-o a maldita. Não viram os olhos que ella deitava. Eram dous luzeiros.

—Guay delle! Aquillo não era moura; era o tinhoso, resmungou o espadeleiro, fazendo o signal da cruz, o vigessimo talvez nessa noite.

—A modo que sim, tio Vasco. Cheira aqui a não sei que.

—Olhem! olhem! disse com voz abafada outro marinheiro, que se attrevera a approximar-se da margem, e de novo recuára atterrado. Olhem! olhem! Não veem na agua aquelle marulhar? A moura filou o bésteiro.

—A Virgem santa seja com elle! murmuraram tres ou quatro a um tempo, dando o nosso homem como perdido de corpo e alma.

No rio, mesmo na esteira que prateava a lua, com effeito apparecia e desapparecia, para de novo surgir á flor d'agua, um vulto, a bracejar. De uma das vezes não veio só. O vestido da moura alvejou, tocado por um raio de luz, e a crença, dos marinheiros, de que João Bispo era arrastado por um espirito ou pelo demonio, mais se confirmou, levando-os a novos esconjuros. O bésteiro sobraçando o corpo e segurando com os dentes as vestes da infeliz, embaraçado nos movimentos, luctava com a corrente afim de alcançar a margem.

—A mim! a mim! gritou elle de uma das vezes em que veio ao lume d'agua; porém os marinheiros olhando espantados uns para os outros não se moveram em seu auxilio.

—S. Pedro seja com sua alma, murmurou o velho Vasco, recuando ao passo que o bésteiro se approximava da margem, um pouco escarpada naquelle sitio e então mais do que hoje. Que se apegue com a Virgem, não com a gente, que nada póde com encantos.

—Oh de terra! soccorro, por Deus, que se me fina esta desgraçada! tornou João Bispo com uma inflexão de voz, que denotava o desespero que ia naquelle coração.

Safio e Canhoto, por um impulso sobre o qual nem tempo tiveram de reflexionar, correram á praia. Safio approximou-se da rocha junto da qual o bésteiro se debatia, segurando sempre a mulher de branco.

—Uma mão a esta pobre, que já mal respira.

—É uma rapariga! exclamaram os dous marinheiros, estendendo os braços a segurar aquella que, momentos antes, tomavam todos por um ente sobrenatural.

Os petintaes, galeotes e mais festeiros pouco a pouco se tinham approximado, ouvida esta exclamação, e vendo que se não tratava de mais do que de arrancar á morte uma creatura, o exemplo de Safio e Canhoto foi seguido, e, instantes depois, João Bispo a depositava em terra a sua preciosa carga.

De novo reinou o silencio. Os marinheiros atordoados com as sensações diversas experimentadas em tão curto espaço de tempo, formaram roda ao corpo da mulher, que inane, desmaiada haviam conduzido para junto de uma fogueira, e deitado sobre um monte de trevo, alfombra improvisada das moças da terra, dispersas pouco havia. João Bispo com o olhar fixo, espantado, as mãos pendentes, os lábios entreabertos contemplava o rosto da moura, pois moura era a desfallecida. Parecia ter-se-lhe apagado completamente da memoria o que acabava de se passar: o corpo alli prostrado era uma surpresa. De repente deu um grito; lançou-se de joelhos junto da moura, tomou-lhe a cabeça no regaço, e palpou-lhe as faces e o seio, a vêr se encontrava o calor da vida, e, curvando-se, entre carinhos, como se com elles a quizesse acordar daquelle lethargo, exclamou:

—Garifa! Garifa!

Garifa não respondeu. Os lábios contrahidos, lividos, perdido o fogo que animava aquelle rosto moreno, quando, pelas grandes festas, nas danças e folias, com que as da sua raça contribuiam, fazia girar sobre a cabeça o adufe, ou agitava os cascaveis que lhe adornavam o curto saio; os olhos cerrados; as longas cilias cheias de gotas d'agua, como se a morte a surprehendesse entre prantos, nem um suspiro desprendia; nem um movimento, por leve que fosse, se lhe notava.

—Morta! tornou a meia-voz, atterrado, o bésteiro, tirando do cinto o punhal, e chegando-lhe a folha aos lábios depois de a ter limpado.

Um raio de luz, um raio de alegria passou pelos olhos do magoado amante, quando o fraco alento da moça formou uma mancha na folha luzidia.

—Garifa! Garifa! tornou elle a exclamar.

—É viral-a de cabeça para baixo! resmungou o velho Vasco; é a mésinha dos afogados.

—Garifa... minha pobre Garifa! murmurava o bésteiro.

—Safio, chega-lhe vinho; um trago não lhe fará mal, gritou João Canhoto; e em seguida, tomando o pichel que o seu companheiro trazia á cinta, derramou algumas gotas sobre os lábios da desfallecida moça, ao passo que este resmungava, vendo correr o licôr a que não parecia desaffeiçoado:

—Boa cera com ruins defuntos!

João Bispo lançou-lhe um olhar terrivel, e fez um movimento, como se tentasse desafogar em cólera contra o imprudente marinheiro todo o peso do coração, e estallar, quando Garifa moveu os lábios fazendo um gesto de repugnancia.

—Basta, Canhoto, basta! acudiu Safio, que não reparara no bésteiro; vais fazer perder a alma á rapariga. No céu dos mouros... que é o inferno, accrescentou por entre dentes... não entra quem prova do sumo da uva, ouvi dizer.

O bésteiro arredára Canhoto, e, com um braço debruçando-se sobre o corpo da sua namorada, tomava-lhe as mãos entre as suas, quando ella abriu os olhos, murmurou algumas palavras inintelligiveis, e tornou a fechál-os, soltando um suspiro.

—Garifa! Garifa! tornou a exclamar o amigo de Fernando.

—Quem me chama? perguntou a moura, como se acordára de um somno, com voz fraca, descerrando de novo as palpebras, e fazendo um esforço para se erguer.

—Eu, eu, Garifa! acudiu João Bispo cheio da alegria.

—Porque me não deixaram morrer? murmurou a filha de Humeia cobrindo o rosto com as mãos.

—Morrer, Garifa?! E que querias depois que eu fizesse no mundo! exclamou o mancebo affastando-lhe com brandura as mãos do rosto. Que faria eu? proseguio... Morrer... morrer tambem!

A moura meneou a cabeça; fixou a vista, como admirada no besteiro; estremeceu toda, e dos olhos rebentou-lhe o pranto ao mesmo tempo que os soluços do peito. João Bispo, que, em alguns minutos apenas experimentara os mais contrariados affectos, a extrema dôr e a alegria, redobrou os seus carinhos, as palavras affectuosas; mas as lagrimas continuavam a correr em fio dos olhos de Garifa.

—Garifa, minha Garifa, porque choras? Deixa esse pranto com que me amofinas. Eu estou aqui, Garifa, e ninguem nos ha de agora separar. Tu cumpres a tua promessa... e teu pae, que não espera já vêr-te...

—Oh, meu pae, exclamou a moça interrompendo-o, e de novo cobrindo as faces; com que rosto lhe poderei eu apparecer?!...

—Elle perdoará tudo, Garifa; esquecerá tudo... e que não perdôe, eu...

—Nem elle, nem tu; João... Oh! porque me não deixaram morrer!

—Eu? Garifa? Eu não te entendo... Que mal me fizestes? porque te hei de malquerer?...

João Bispo estacou, e de um salto ficou de pé. O que se passara causara-lhe um violento abalo, para dar logar a reflexões, e esquecera-se de que a mulher, que assim tentava pôr termo á vida, tinha, duas semanas havia, desapparecido; esquecera-se do que lhe dissera o petintal e das suspeitas que o levaram ao castello de Gaya. Tudo, porém, resumido em uma idea unica acabára de lhe passar pela mente.

—Rausada?! exclamou, abaixando-se a arredar-lhe de novo as mãos das faces, procurando vêr se dos olhos mais depressa do que dos lábios obtinha uma resposta.

A moça só redarguiu:

—Porque me trouxeram á vida... porque?

—Rausada! tornou João, passando uma das mãos pela fronte, em quanto com a outra apertava o cabo do punhal. O nome desse homem, e pela hostia consagrada juro que dentro em dias o repetirão em resa de finados. Falla, Garifa: o nome desse homem? Vilão ou cavalleiro que seja, eu me pagarei em sangue de quanto elle me roubou. Garifa, Garifa!

Soluços e lagrimas foi a resposta que obteve da filha de Humeia.

—Garifa, não respondes? Dize... dize que não te pozeram mão, dize, proseguiu o mancebo fóra de si; livra-me desta idea que me faz perder a cabeça; livra-me della ou aponta-me um homem em quem desafogue todo o desespero que sinto. Tu não me atraiçoaste, não; não era possivel... Empregaram a força; empregarei a força, e hei-de esmagar quem quer que seja o rausador. Garifa, não respondes? Uma palavra!

—Que queres que te diga, João? Esmagaram o nosso amor, tornando-me indigna de ti: a filha de Humeia não póde mais apparecer com a face descoberta!

—E o refece, o maldito?! gritou o bésteiro apertando com violencia os pulsos da moura.

—A aguia vôa tão alto que não a alcança a garrocha, murmurou meneando a cabeça, depois de alguns instantes de silencio, a namorada de João Bispo.

—Quem foi, Garifa, quem foi?

—Deixa-me, João.

—O nome desse homem!... o nome desse homem!

—Não, não posso.

—Não pódes?...

—Não, não posso: dizer-te o nome era fazer-te açoutar ámanhã no pelourinho... era matar-te...

—Ayres Gonçalves... Henrique Fafes!... gritou João Bispo.

—Não... não m'o perguntes...

—Qual delles, Garifa; qual delles? Affonso Darga?

—Ninguem!

—Ninguem?! O nome desse homem, ou tu és tão vil como elle!

—Serei, João... sou. A moura do Olival, que te queria tanto como á luz dos olhos, morreu no dia em que lhe pozeram uma mordaça na bocca e ataram os pulsos: atiraram depois o corpo ao monturo... como de moura que era. Garifa morreu, João: o que aqui está é uma desgraçada corrida por palafreneiros... a quem a lançaram...

—Calai-vos, calai-vos! exclamou o moço bésteiro, pondo a mão na bocca da sua namorada. Não póde ser... é impossivel!

—Antes fôra!... murmurou Garifa.

—Em má hora vim ao mundo!

João Bispo calou-se e deixou pender a cabeça sobre o peito. Quando de novo a ergueu, as palpebras estavam vermelhas, mas seccas; os olhos vagavam-lhe incertos; o rosto estava pállido, e uma contracção nervosa dos musculos parecia emagrecer-lhe, avelhentar as feições. O amigo de Fernando Vasques, occultava sob as vestes grosseiras um grande coração, cheio de fogo, de energia, e toda essa energia empregára-a no amor da filha de Humeia. A moura do Olival era tambem a unica mulher que topára no seu trilho capaz de não esfriar essa paixão. Não prendia, não captivava sómente com a bellesa do corpo; captivava com os dotes do coração, da intelligencia. Garifa tivera na infancia faixas bem superiores ás telas grosseiras dos vestidos que trajava no Porto. Para corresponder á exaltação, que a vida ociosa e ao mesmo tempo cheia de sobresaltos e de incertesas produzia na mente do escolar de S. Domingos, era necessaria a exaltação do sangue arabe, fervente nas veias de Garifa. É facil de avaliar qual o abalo que o mancebo recebeu no caes de Gaya. Aquella desventura, receara-a, temera-a; mas não se afizera á idem de que se realisásse; achára sempre a providencia a estender a mão á sua namorada, a protegel-a. Na maré mais negra seguindo-a com o pensamento, depois que ella desapparecera do Olival vira-a morta; mas se encontrasse no Douro o seu cadaver, a mágoa não fôra tamanha como a que sentia.

Mesteiraes e marinheiros fitavam commovidos os dous amantes, que se conservavam mudos affastando as vistas um do outro: João de pé, sombrio, pensativo; Garifa de joelhos, lacrimosa, tremulla, branca como a roupa que vestia por baixo do roto gabão, que um marinheiro lhe lançara aos hombros.

—Rausada! murmurou passados momentos o mancebo, sacudindo a cabeça, como se assim podesse repellir aquella ideia.

Depois, estendendo a mão á pobre moura, ajuntou:

—Vem, Garifa; já não sou tambem o mesmo que era. Vem commigo.

A moça, levada pela solemnidade da voz e do gesto do mancebo, e ajudada por elle, levantou-se machinalmente, e com passos mal seguros, seguiu-o, perdendo-se os dois na escuridão da estreita rua que guiava ao povoado.

Os marinheiros ficaram olhando uns para os outros.

—Pobre rapaz! murmurou um delles.

—A rapariga era a que chegou a noite passada, quasi nua e toda magoada á taberna do tio Pero, e que elle abrigou por caridade, e livrou de dous mal encarados que a seguiam.

—Deu-me os seus ares della.

—Era a mesma, sem tirar nem pôr.

—Mal a puzeram em terra, conheci-a: era a moura do Olival.

—Coitado do Bispo, resmungou o velho Vasco. Bem enfeitiçado o traz a tal moura. Estas condemnadas teem taes artes, que, se vos lançam olhado, fica-se perdido de todo. Teem feitiços para tudo. Um rapaz conheci eu no meu tempo, que se myrrou de todo, e morreu por causa de uma destas maldictas. Em casa da rapariga, uma moura, e linda até alli, encontraram uma figura de cera feita a imagem d'elle com os olhos pregados, e um alfinete enterrado no sitio do coração.

—Qual feitiço, nem meio feitiço! resmungou João Canhoto.

—Não acreditas! accudiu outro mesteiral. As mouras todas sabem de feitiçaria, e quando querem querem que um homem lhes queira, a ellas ou a quem isso lhe pede, apanham um sapo, e cozem-lhe os olhos.

—Não digo que se não façam desses maleficios; mas a rapariga do Bispo...

—Homem, é moura e basta.

—Moura ou christã, se enfeitiçava, era com os olhos. Não precisava de outra cousa, accudiu João Canhoto. A bôa gente vi ficar de bocca aberta para ella, este anno ainda na procissão de Corpus, e depois não tem sido nem a um, nem a dous senhores de alta linhagem que tenho visto seguil-a, todos requebrados. A um dos que está no castello ainda ha semanas encontrei em seu alcance pela aljama, era já noite cahida. Não disse nada ao Bispo, por que elle faria alguma!

—Feitiços, feitiços, para nos perder a alma, resmungou o velho.

—Ora, mestre Vasco! Tambem enfeitiçou ella a quem o poz naquelle estado? A pobre, que se queria finar por se vêr assim, é porque não foi por sua vontade que a tiraram de casa. Christãs conheço eu, como as palmas das mãos, que não a valem. Se mestre Vasco estivesse mais novo, e ella lhe dissesse palavras de bem querer...

—Credo! era um peccado!

—Deus me perdôe; mas eu não o tenho por peccado; se o é, muita gente pecca.

João Canhoto não deixava de dizer a verdade: as mouras por aquelles tempos roubavam ás christãs bastantes corações, tanto de nobres, como de peões, o que as obrigava a crêr em poderes occultos, para não se confessarem derrotadas nos encantos. Nos paços dos cavalheiros e ricos-homens, muita descendente de Agar, forjava dos ferros que lhes lançára a escravidão cadeias para os seus senhores: nas cidades as mais jovens e formosas eram como Garifa forçadas quasi a mostrarem as suas graças em publico nas grandes solemnidades: eram as bailarinas da epocha, e as bailarinas teem feito dançar muita cabeça desde Herodiade até aos nossos dias. Os escrupulos do velho Vasco não eram partilhados senão pelos que se viam no seu estado. Os legisladores, entretendo-se a impedir relações ou ligações entre as duas raças com penas mais ou menos sevéras, não quizeram, ao que parece, mais do que deixar prova de que ellas eram um pouco frequentes, e que já então se faziam leis para ficarem letra morta, salva uma ou outra excepção feita com algum pobre de Christo. Nos principios do seculo XVI ainda apparecem trovadores, que, apregoando o seu affecto por descendentes de Azharat e de Shobeia, não nos deixam ficar por mentiroso.

Para crédito das nossas avós christãs, attribuamos a maior recato dellas, as conquistas das moças do Islam. O leitor, comtudo, não fique pensando que estas não tinham sobre a virtude, sobre o pudor e sobre o amor ideas identicas ás professadas por aquellas. Garifa não era uma excepção unica feita para João Bispo: as ideas com que hoje são creadas as mulheres no Oriente, não eram as das mulheres arabes de Hespanha. Com pequenas excepções, o amor no seculo XIV tinha em Granada as mesmas leis que na côrte da condessa de Champagne.

O leitor poderá agora dizer-nos o mesmo que Safio a Vasco e João Canhoto:

—Deixemo-nos dessas cousas.

O marinheiro accrescentou:

—Vamos: a noite de S. João é para descantes e folias! Venham as moças para o terreiro. Eia! mãos á obra: avivar as fogueiras e tanger as violas, que as cachopas acudirão! Ehuh! Mafalda! Joanna!

Pouco depois ninguem diria que na praia da velha Cale se tinha passado uma scena de lagrimas; que uma pobre rapariga tentára pôr termo aos seus dias; que um coração se despedaçára. Um bando de raparigas, de marinheiros e mesteiraes, dando as mãos uns aos outros, dançavam, ou melhor, giravam, formando circulo, em volta de uma grande fogueira, e entoavam todos esta cantiga, que os musicos da festa faziam por acompanhar:


«Todas as hervas são bentas
Em noite de S. João
Só o trevo, coitadinho!
Anda a rasto pelo chão.»


E o sol, nascendo, ainda os encontrava no mesmo local.



X.

Uma idea.



Não falta com razões quem desconcerte
Da opinião de todos na vontade.
Em quem o esforço antigo se converte
Em desusada e má deslealdade.

Camões. Lusiad. Cant. IV.


Os burguezes do Porto tinham desempenhado a sua palavra: os navios promettidos estavam a nado nos aguas do Douro, promptos para dar á véla. Os cavalleiros e ricos-homens nem todos procediam do mesmo modo; o fogo do amor da patria era em alguns, tibio, em outros nullo. Ayres Gonçalves de Figueiredo era deste numero. Approveitara os conselhos de sua mulher, e fazia todo o possivel por aguardar que a situação se definisse para entrar com segurança na contenda. Martim Gil, mandado pelos portuenses, ao conde D. Gonçalo, delle recebera uma resposta favoravel, depois de feita, entende-se, a concessão das terras da rainha D. Leonor a sua mercê, e a das de Lordello e Bouças seu filho D. Martinho, fóra outras miudesas, taes como dinheiro e peças de panno; porém o conde adiava, sob pretexto de aprestes, a sua partida, quanto lhe era possivel. O Mestre lembrava continuamente os apuros em que estava a sua boa cidade de Lisboa; mas os nossos homens não se queriam metter tambem nelles, sem a certesa de bom resultado. Ayres Gonçalves tinha os olhos no conde de Neiva; Affonso Darga e outros cavalleiros aguardavam a resolução do alcaide de Gaya. Ruy Pereira, no entanto, enfastiara-se de tanta delonga, e tendo Alvaro da Veiga, Luiz Giraldes e Domingos Pires lembrado que se enviasse a armada receber o conde á Figueira, o alvitre fôra acceite, com grande amofinação dos Fabios politicos, que trataram logo de procurar embaraços á sua realisação.

Uma circumstancia os favoreceu.

Quando, pouco depois do S. João, a municipalidade tratava não só de abastecer as galés, mas até de enviar alguns viveres para os sitiados, como fôra requerido, alguns companheiros de Fernando Affonso de Zamora, deslembrados da lição dada em Santo Thyrso, ou outros aventureiros similhantes appareceram nas visinhanças da cidade. Mal a noticia se espalhára, frei Garcia fora ter com Pedro Choca, e causára nas tercenas um alvoroço extraordinario, pintando as cousas o mais feias possivel. Este alvoroço, graças a outros individuos, se tornou contagioso; o temor calou nos animos fracos, e na tarde desse mesmo dia nas ruas, terreiros e praças lamentações não faltavam.

—Eis de novo esses malditos gallegos! más terçães os colham! dizia um mercador. Não nos deixam tomar folego os hereges, e em bem mau estado vão já os negocios. O tempo vai bom para espadeiros; que os outros não veem pogea. Tudo são guerras, agora, e desordens. Dantes não era assim. No tempo do rei D. Pedro!... suspirou o bom homem, e concluiu meneando a cabeça, e fitando os olhos no tecto da loja.

Este gesto queria dizer que no tempo do pae do Defensor a paz florescia na terra, e era, talvez, copiado de outro identico, feito pelo senhor seu progenitor quando o amante de Ignez de Castro talava o Douro e o Minho, e mesmo de algum feito por seu avô, affectado pelas desavenças de D. Diniz com o pae do rei D. Pedro.

—Não foram bem sangrados, e veem por mais esses castelhanos ou acastelhanados, redarguia um visinho; pois terão o seu escote, como o teve o de Zamora e o arcebispo.

—Mal haja quem mal faz!

—Ruy Pereira, Ayres Gonçalves, ou qualquer os receberão como merecem.

—Assim creio; e por isso, como me dizia ha pouco mestre Lourenço, é que não acho muito acertado mandarem para Lisboa quanta bôa lança ha por ahi. É dever acudir ao proximo; mas em primeiro logar estão os da casa.

Quasi todos os dialogos, travados em diversos pontos appresentavam, espremidos, o mesmo succo que o do bom mercador quando pelo lado das Hortas entrava uma grande manada de bois, e rebanhos de ovelhas e cabras, destinados ao abastecimento das galés. Alguns ociosos, encontrando-se com a manada fizera-lhe cortejo; alguns mesteiraes, vendo os ociosos, pousaram a ferramenta e engrossaram-no; os garotos, que possuem o faro dos grandes ajuntamentos, conhecendo que se formava um, surdiram de todos os bêcos, para o completar. Ao chegar o gado a S. Domingos, caminho das tercenas, onde deviam os carniceiros preparar as carnes, a procissão era solemne pelo numero. A ideia que presidia a todas as lamentações ia ser formulada de outra sorte: frei Garcia e alguns outros apaniguados do alcaide, achavam-se entre as turbas; Pedro Choca, desembocára do lado da Esnoga, sahido de uma taberna, onde, junto com individuos que deviam estar debaixo da jurisdição de Tello Rabaldo, tinha enxugado algumas medidas de vinho, e não era pelo menos destituido da manha necessaria para certas empresas.

Se o concurso era grande, tambem era ruidoso. Os conductores da manada gritavam, vendo que uma ovelha tresmalhava, picada por algum rapaz travesso, ou um boi estacava, atemorisado por negaças; os homens d'armas da escolta praguejavam no meio de tantos embaraços; aqui uma mulher queixava-se de que a pizavam; além alguns homens altercavam com os bésteiros, que os repelliam do transito; mais longe chorava uma creança. Os garotos e os vádios praguejavam, gritavam, riam-se, assobiavam, cantavam e imitavam o balido de ovelhas e cabras, e o mugido dos bois, como se os animaes se recusassem a tomar parte naquelle concerto.

Entrando no terreiro a multidão, crescera a algazarra. Uma chusma de homens cobertos de andrajos, bem similhante á que estacionava no Olival, no dia da chegada da mensagem, correra para as boccas das ruas que iam dar ao rio, obstruindo-as completamente. Quando os guardas dos rebanhos quizeram abrir caminho para as tercenas, os vadios demonstraram a sua má vontade com apodos a que responderam os acontiados da behetria com os contos das azevans, ou as béstas, manejadas em ar de clava. Nesta destribuição de pancadas foram, como succede muita vez em casos taes, contemplados bastantes innocentes. Um bésteiro, querendo chegar a um velhaco, feriu no rosto uma mulher, levada para o centro do motim pelas ondas de povo. O sangue, correndo pelas faces da pobre creatura, indignou alguns circumstantes, que só a curiosidade alli trouxera.

—Fazei praça, exclamou d'entre elles um burguez, fazei praça, mas com tento. Guardai os virotes para castelhanos escismaticos. Em recontro ou batalha talvez o braço não ande tão destro.

O acontiado fez um gesto como de quem ia empregar syllogismo contundente; mas a prudencia o aconselhou melhor, e contentou-se com redarguir:

—Cuidai no vosso mester, bom homem, e deixae-me. Onde pozeram a mira estes velhacos sei eu. Não lhes passa ha mezes pelas goelas bocado de cabrito, e querem fazer bôdo com algum que filem.

—Olha o outro! gritou um petintal. Se não comemos cabrito todos os dias, comemos pão; mas amassamol-o com o nosso suor: não o vamos roubar pelas padeiras. Os tagantes do aljube ainda teem a pelle de dous dos vossos! Nós não nos servimos das adagas para cortar escarcellas de mercadores encontrados fóra d'horas.

—Muito nos custa a viver! acudiu uma gôrda cidadôa, e mais custará agora que levam todo isso para Lisboa.

—E não parará ahi, disse um dos companheiros de Pedro Choca do meio da turba: vai quanto mantimento se encontra pela redondesa e ha na cidade.

—Se os de Lisboa estão cercados pelos de Castella, que façam como fizemos em Leça: se por lá estão minguados de mantimentos, tambem não nos sobejam.

—E os do arcebispo ainda não foram desta tão malferidos, que não possam voltar, disse uma voz. Alguns corredores teem sahido de Braga.

—É verdade, é verdade! berraram ao mesmo tempo dez ou doze mesteiraes. Os de Lisboa que se avenham como poderem.

—Teem braços como nós.

—E não havemos de finar-nos á mingua. Os mercadores mandam boas dobras.

—E a prata da Sé vai tambem!

—Já os alvazires carregaram uma galé de armas, e de Coimbra e Montemór vieram outras.

—Que se contentem com isso, e com o biscouto e farinha que embarcaram!

—Deixai que não faltará, louvado Deus, mantimento na cidade, embora levem tudo isso ao Mestre.

—Fallais assim redarguiu um dos queixosos, voltando para o ordeiro, que proferira estas ultimas palavras, porque se um pão de praça vos custar dous reaes brancos, tendel-os na arca! Nem mealha deixaremos embarcar.

—Nem mais tanto como uma unha negra!

Este dialogo, ou esta scena, que se passava ao pé do arco, como nas tragedias antigas tinha o seu côro n'uma gritaria descompassada de que seria difficil dar uma ideia. O que sobresahia no meio de tudo, eram os vivas e os morras. Se se perguntasse a cada um dos coristas em separado porque davam essas vozes, nenhum talvez vol-o diria, a não ser que confessassem que sentiam a necessidade de gritar, e que na falta de melhor cousa, aquellas palavras serviam perfeitamente para tudo: enthusiasmavam, animavam o tumulto, e de mais apregoavam que eram muitos bons patriotas. Os vivas eram ao Mestre; os morras aos scismaticos: levar a mal aquella berraria, ninguem podia levar.

Do lado opposto a algazarra era a mesma, com pequenas variantes.

Os conductores de gado e os guardas embrulhados pela chusma não tratavam já senão de se deslimdarem della, e de acudir aos rebanhos.

Alguns amotinados tinham, para desembaraçar o terreiro, conduzido a maior parte do gado graúdo para as azenhas: ovelhas e cabras, essas corriam em todas as direcções. Para cumulo da confusão, quando Pedro Choca e os seus companheiros persuadiam o povo a que se dirigissem ao paço episcopal ou á casa do municipio, dous touros, enfurecidos ou assustados pelo ruido e negaças d'alguns garotos, tinham aberto caminho para o lado da Esnoga, derribando e maltractando algumas creanças e mulheres. A culpa do desastre era dos amotinados; mas todos elles á uma tinham procurado origem mais remota, e lançaram aos vereadores e bons homens que tinham ordenado a remessa dos mantimentos. Um velhaco lembrara-se de juntar aos «morras» da ordem um aos «alvazires, que queriam matar o povo á fome» e entre multidão, mesteiraes, que horas antes teriam dado a sua ultima pogea, se para sua senhoria lh'a pedissem, repetiram aquelle grito.

Uma voz ampliou-o:

—Morram os traidores, que querem dar cabo da arraia miuda para entregar a cidade aos de Castella!

—Morram os traidores! uivou a chusma.

E apparecia já o alvitre de se ir em procura de alguns alvazires, e até mesmo de os tractarem como ao arrabi-menor, quando dois daquelles appareceram no terraço do arco de S. Domingos. Ruy Pereira, que vira rebentar o alvoroço, mandara-os chamar e a alguns bons homens para que socegassem os animos como podessem. O tio de Nuno Alvares, a principio tivera, ao ouvir o arruido, vontade de baixar ao terreiro e cortar naquella villanagem, que de cabeça tão levantada, insolente e turbulenta trazia o Deffensor; mas, apenas mandara sellar o seu cavallo, a reflexão lembrou-lhe a inconveniencia de um tal passo, e a reminiscencia poz-lhe diante dos olhos os tumultos de Lisboa e Evora e tantas outras terras do reino. O mensageiro do mestre, contentou-se, pois, em desabafar em pragas, em dar duas grandes punhadas sobre a mesa, e desappareceu pelo lado da cerca do convento onde pousava, para não se ver obrigado a aturar o bom povo, deixando as authoridades municipaes em apuros. Não eram fortes em rhetorica os bons homens, e a pouca que lhes concedera a natureza fugira assustada.

Os velhacos, dando por elles saudaram-nos com uma ladainha de apôdos que faria pasmar ao leitor pela quantidade e pelo desusado.

A arraia do terreiro tinha grande vantagem sobre os burguezes do arco: para o attaque bastavam palavras soltas, ou mesmo gritos inarticulados; para a defesa, para satisfazer as exigencias de Ruy Pereira, era necessario um discurso, pequeno ou grande, mas um discurso.

Os alvazires e mais cidadãos que os acompanhavam, depois de se empuxarem e acotovellarem uns aos outros, por bom espaço de tempo, tinham resolvido, ou antes forçado o mais bojudo e o mais endinheirado d'entre elles a tomar a palavra, e o nosso homem depois de um gesto bastante solemne feito ao bom povo; depois de tossir e escarrar, como o faria, ao encetar um sermão, o frade mais sabedor do convento de a pár, balbuciára uma ou duas duzias de palavras. É de crêr que fossem boccados de ouro; mas asseverál-o ninguem, a não serem os collegas, o poderia fazer, pois, quasi nada perceberam no terreiro os que lhe quizeram prestar attenção. Uma grande parte não lh'a dava, e continuava a formular as suas queixas ou accusações.

—Querem dar cabo do povo, e entregar a cidade aos de Castella!

—Morram os traidores!

—Morram os scismaticos.

—Amigos, tornou o alvazir levantando a voz, logo que a tempestade popular serenou mais; o Mestre nosso regedor e defensor se encomendou ás vossas boas lealdades, e vos mandou dizer que, como este reino andava todo revolto com desvairadas tenções...

—E bem desvairadas são as que tendes! exclamou cortando a palavra ao orador, um amotinado, pouco reverente para com o plagio da mensagem de Ruy Pereira, de que em apuros aquelle se valera.

O pobre homem, olhou em torno de si espantado; limpou o suor, que lhe corria em bagas pela fronte; tossiu de novo; poz a mão no peito para tomar um ar mais solemne, e começou novo aranzel:

—Todos vós sabeis que esta cidade levantou voz pelo Mestre...

—Viva o Mestre! Alcacere por sua senhoria! gritou a chusma...

—Todos vós sabeis, repetiu o alvazir, que esta cidade deu voz pelo Mestre, que jurou defender-nos e amparar-nos, e tambem sabeis que el-rei de Castella veio sobre Lisboa com toda a sua gente...

—Morram os castelhanos! gritaram do terreiro.

O illustre orador, como hoje lhe chamariam, se ele vivesse, as gazetas, orgãos ou respiradouros do partido em que se tivesse lançado; o illustre orador, vendo que não havia com tal gente meio de atar duas phrases sem uma interrupção, tratou, já desesperado, de resumir o seu discurso:

—O regedor mandou pedir a esta boa cidade que lhe enviassem todas as galés e barcos que fosse possivel armar e equipar, e bem assim mantimentos e dinheiros, os quaes—ajuntou o bom do alvazir, como se entre os amotinados houvesse alguem que com tal se importasse—como filho de el-rei que é, por toda a sua verdade jurou pagar muito bem...

—E ressuscita os que tiverem morrido á fome? perguntou um velhaco, que subira acima de um poial, arrimado ao arco, e de braços cruzados, com gesto zombeteiro encarava o orador.

—Morram os traidores!

—O regedor não quer que matem o povo!

—Viva o Mestre!

—Fora os alvazires, gritou Pedro Choca.

—Fora, fora! vozearam d'entre a multidão.

O orador tornou a limpar o suor, que se tornava copioso e frio cada vez mais, e ainda tentou proseguir; mas a sua má estrella quiz que ao examinar o seu auditorio désse de novo com os olhos no velhaco do poial. O maldito riu-se, e fez-lhe um esgar; e risada e esgar seccaram-lhe completamente a prosa na garganta. O bojudo cidadão bateu com a lingua nos dentes, soltou dous ou tres sons, estendeu os braços, e meneou-os, como se pertencesse á seita dos mestres pedreiros que, pouco havia, tinham concluido os muros da cidade, ou quizesse nadar em secco; mas nem uma palavra mais conseguiu formular, nem com todos aquelles tregeitos exprimir uma ideia.

A atrapalhação do orador deu incremento ao alvoroço, e os bons-homens que tentaram substituir aquelle na tribuna, não conseguiram um momento de attenção. Era este o estado das cousas, quando Gonçalo Domingues e Fernando, appareceram no terreiro, vindos do lado do Palmeirim. Mestre Gonçalo e o compadre, que já encontramos no campo do Olival, tinham sido os encarregados de arranjar o gado, e portanto a sua apparição trouxe áquellas cabeças desorientadas a ideia de que uma boa parte da culpa dos males que receiavam, delles provinham. O acolhimento foi pois o menos amavel possivel. As relações de mestre Gonçalo com o judeu Moyses, em quem o povo já fizera justiça a seu modo, foi a primeira pecha que lembrou a alguns dos amotinados, e mal lhes lembrou, logo foi lançada em rosto. A chusma fez côro, como fazia a todas as lembranças, e o bom burguez ficou perplexo: fez-se vermelho e fez-se amarello quasi ao mesmo tempo, e o caso não era para menos. Quem não respeitava nem bispos, nem abbadessas, não era muito que desacatasse um forçureiro, por mais endinheirado que fosse. Não era mesmo naquellas circumstancias o dinheiro carta de seguro; bem pelo contrario: era mais uma razão para temores.

Gonçalo Domingues, impallidecendo, agarrou-se ao braço do sobrinho e quiz retroceder; mas a rectaguarda estava-lhe já cortada, e entre ameaças foi levado pela multidão até junto do paiol, onde se empoleirára o vadio que seccára a eloquencia ao orador do arco. Fernando tomado de assombro seguiu o tio. O sangue do mancebo, porém, não era o do velho, e a vozearia, os insultos bem depressa o fizeram ferver. O primeiro impulso do namorado de Irene, recuperada a exaltação que o dominava desde o recontro de Leça, e levado por assomos de cholera foi o de se lançar contra os amotinados. Desembaraçando-se das mãos de seu tio, atirou-se a um mesteiral, que junto do rosto daquelle erguera o punho cerrado, e ia ser victima talvez dos seus brios, quando dous braços musculosos seguraram o seu antagonista, e uma voz, que devia ser conhecida de alguns dos que se mostravam mais enfurecidos contra mestre Gonçalo, exclamou:

—Ter mão rapazes!

Pedro Choca vira Fernando Vasques ameaçado e correra em seu auxilio. O velhaco, apesar de tudo, não deixava de ser um bom patriota, de ter o seu enthusiasmo pelos defensores da arraia meuda. Conhecia Fernando do assalto ao bailiado, e o denodo do mancebo fizera com que elle o tivesse na conta de um heroe, contra o qual não levantára mão, nem consentira que se levantasse por todo o dinheiro que lhe dessem.

As suggestões e os tornezes do capellão de Ayres Gonçalves, e mesmo o prazer de fazer arruido não eram as unicas causas que o tinham feito estafar os pulmões; frei Garcia gastára tempo e algumas malgas de vinho para o convencer de que entre os alvazires havia partidarios de Castella, que tinham tido o negregado pensamento de se vingarem do povo, por meio da fome, fingindo que serviam ao mestre. Que Fernando pactuasse com traidores não acreditava porém, o velhaco, e por isso repetiu com ar ameaçador, vendo que alguns animos ainda se mostravam hostis ao mancebo:

—Que ninguem lhe toque em um cabello da cabeça, senão commigo tem de se haver!

—A traidor, como a traidores! gritou o mesteiral, querendo desembaraçar-se da prisão em que estava.

—Traidor, quem tomou uma bandeira aos gallegos, quem eu vi atirar-se a esses perros como se os virotes fossem palheiras?!

—Se não é traidor, é por elles, que vale o mesmo. Que tem elle com esse forçureiro de má morte!

—Que enriqueceu furtando ao peso.

—E mais sabe Deus se era cabrito ou cão o que dantes vendia!

—E agora comprou o gado todo, para nos deixar á fome!

—Mentis! exclamou Fernando, respondendo a estes capitulos de accusação; mentis!

—Ahi o tendes! ponde a mão no fogo por elle! resmungou um dos vadios, dirigindo-se a Pedro Choca.

—Se tão bom é um como o outro! ajuntou uma mulher. O rapazelho é filho, ou cousa que o valha do forçureiro.

Pedro Choca coçou a cabeça, e olhou para Fernando com ar indeciso, mas logo formulou este raciocinio:

—O mancebo era incapaz de pactuar com os inimigos do Defensor, e protegia Gonçalo Domingues logo a não quadrava tambem o appellido de traidor.

—Se é pae do meu homemsinho é outro caso, exclamou em seguida, voltando-se para os circumstantes. Deve ser dos nossos.

[**P1 texto reconstituído a partir do original do Google] Gonçalo Domingues, vendo que alguem mais de que o sobrinho vinham em seu auxilio, tartamudeou.

—Domingues Pires ou Affonso Eannes, se aqui estivessem vol-o diriam!

—Que resmunga elle?

—Acoberta-se com o trato que tem com Domingues Pires?

—Sim, sim; mas tambem era dos amigos do perro Moyses! se ouviu dentre a multidão.

A arraia meuda, como se baptisára o povo naquella quadra, tresvairada, estreitára o circulo formado á volta do burguez e as suas intenções pareciam ser bem pouco pacificas, quando Fernando, saltou acima do poial, abandonado pelo companheiro de Pedro Choca. A vis oratoria, molestia que se dá em quadras revoltas como sezões em terrenos alagadiços, acommettera tambem o namorado de Irene. O rapaz emprehendia tarefa espinhosa, como os respeitaveis edis o podiam attestar, commettia, pode-se avançar uma loucura; mas é sabido que neste mundo por vezes as loucuras aproveitam mais do que as cousas pensadas. Fernando tivera uma idea, que vos fará rir talvez leitor, e que podia ter entre os amotinados o mesmo, ou peior acolhimento; porem que foi agua em fervura, como diz o povo. Fora uma idea feliz, uma idea luminosa a do mancebo.

—Metteram-vos em cabeça que vos queriam matar á fome... porque se embarca alguma carne na esquadra! exclamou elle: mas não se lembrou ninguem de que todos os miudos cá ficam.

—É verdade?! acudiu com outros Pedro Choca, que desfazia agora, por causa do seu heroe, a obra para que concorrera; é verdade!

—E depois? interrogou um mesteiral, embasbacado.

—E depois com tanta forçura, com tanta miudagem de todo esse gado não se morre á fome.

—E a carne não é cousa que engasge a arraia muita vez no anno! observou o vadio.

—Demais, proseguiu o mancebo, aos corredores gallegos nós os ensinaremos, e haverá ahi mantimentos de sobra. Para dez scismaticos basta um portuguez. A gente que foi a Leça e Santo Thyrso está ahi, e antes da chegada das galés os do Porto esperaram a pé quedo os do arcebispo, sem que elles se atrevessem a vir ás mãos comnosco. Deixai ir as galés...

—Quem as quita? exclamou um mesteiral, a quem aquellas palavras tinham inflamado o orgulho patrio. Se os de Lisboa carecem de nós, nós não carecemos delles. Não nos atraiçoem os de casa...

—De casa... aqui neste boa cidade não ha traidores, atalhou o namorado de Irene; aqui, ninguem põe o seu braço em almoeda: as lanças e ascumas dos populares não teem preço!

—Como certas espadas.

O mancebo apesar das interrupções, de approvação agora, não se calou. Surprehendendo, como vimos, os amotinados com a primeira lembrança que tivera, lançando por instincto mão dos argumentos melhores em taes circumstancias, proseguiu appellando para os brios do povo, appellando com a convicção de ser attendido, e o rumor levantado pouco a pouco em torno de si provar-lhe-hia, se a isso désse attenção, se elle mesmo não se enthusiasmasse com as suas palavras, que senão havia enganado. Quando terminou o descontentamento da arraia, estava convertido em abnegação civica, em enthusiasmo patriotico. O povo tem, como o oceano, destas mudanças repentinas. Pedro Choca, cuja bossa decididamente era a de vivorio, encarregou-se de dar expansão aos sentimentos que o agitavam.

—Viva Fernando Vaz! que... gritou elle; mas não pôde proseguir, porque o distrahiu e engasgou uma pancada em um hombro e uma voz zombeteira, que lhe dizia ao ouvido:

—Assim é que sua mercê trabalha nas tercenas?

O impulso estava porém dado, e Choca, desapparecendo, pois bem reconhecera pela amabilidade da pancada e da voz a presença do pae dos velhacos, deixava de novo o rico forçureiro em suores nos apertos da ovação do sobrinho. O nome de Fernando Vasques era bastante popular desde o recontro de Leça... pelo que demonstravam os successos, mais do que a pessoa.

Quando Pedro se eclypsava com os seus companheiros, os acontiados do municipio, ha pouco apupados, arrebanhavam sem a menor opposição o gado que se espalhára pelos campos das azenhas. Os planos de Ayres Gonçalves goravam completamente, graças sobretudo ao namorado de Irene. O rapaz, tivera, repetimos, uma ideia feliz, e soubera tocar no fraco dos amotinados melhor do que os alvazires, que no convento ainda discutiam, embaraçados, a maneira de darem conta da sua missão. Falho o expediente do alcaide de Gaya, as indecisões dos seus nobres companheiros tinham de ser cortadas pela emulação dos caudilhos.

Os portuenses davam o primeiro passo para obterem em chrisma uma alcunha que tinha de durar seculos; mas a honra da cidade estava salva. O pae dos velhacos capitaneava os vadios, que, juntos com os besteiros, levavam o gado ás tercenas, e os mesteiraes, que momentos antes tão descontentes se mostravam acompanhavam-nos, berrando:

—Viva o Mestre de Aviz! Viva a arraia meuda do Porto!


FIM