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Pátria

Chapter 26: MAGNUS:
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About This Book

A long verse work that combines biting satire and intimate lyricism to portray a nation's moral and political decline. It stages allegorical scenes in court and public life where treaties, intrigue, and complacency expose corruption and social suffering, juxtaposing violent invective with tender prayers and reflective philosophical passages. Dramatic tableaux, symbolic figures, and lyrical interludes alternate with prophetic and elegiac tones, moving between anger at decay and a persistent yearning for moral renewal and collective redemption.

Rosnam os cães, fusilando os olhos ao cronista.

ASTROLOGUS, embaraçado e perplexo:

Quem foi?… Mistério obscuro… enigma que se esconde…
Já li sôbre isso, não sei quando, nem sei onde,
Uma lenda qualquer…

Os cães enfurecem-se.

O REI:

Iago! Judas!… caluda!

ASTROLOGUS:

Mas nesse ponto, meu Senhor, a história…

Os cães ameaçam, desvairados.

                                          é muda!…
…………………………………………….
Envenenaram-no, eis o facto, eis a verdade.
E às escuras, extinta a imortal claridade,
Louco autómato errante, alma cega e funérea,
Veio andando através do tempo e da miséria,
Mendigo como um cão e mártir como um Cristo,
Até chegar, meu Deus, vergonha eterna! a isto!!…
Vêde-o bem, vêde-o bem, o rude herói d'outrora:
Teve o mundo nas mãos, nos olhos d'águia a aurora.
E hoje, oh destino atroz! sem amparo e sem lar,
Tem andrajos no corpo e escuridões no olhar!…
Não no mandeis prender, eu vo-lo peço e requeiro!
É inofensivo… é manso e bom como um cordeiro…
Causam-vos mêdo, porventura, umas baladas
Que anda à noite a cantar, canções d'almas penadas?…
É a doudice, hórrida e má, que tumultua
Ou nas voltas do tempo ou nas fases da lua…
Não afronta ninguêm… Deixem-no ir, coitado!
Deixem-no com seu mal e seu negro cuidado,
A trovar pelo escuro e a viver pelos montes
De luz do sol, d'erva do campo e água das fontes…
…………………………………………….
Trás um livro na mão, reparai bem, Senhor:
Um livro usado, um livro gasto e sem valor…
Sem valor?!… Um tesoiro, uma história de encanto,
Que êle escreveu com sangue e hoje rega com pranto…
Não a larga da mão, anda-lhe tão afeito,
Que até dorme com ela escondida no peito…
Mas que miséria a sua e que destino o seu!
Quer ler… e não soletra o livro que escreveu!
Muitas vezes de tarde encontro-o a meditar
Sôbre rocha escarpada e nua à beira-mar…
Pega no livro então, abre-o sôfregamente,
E fica olhando, olhando, atónito e demente,
A epopeia d'outrora, a bíblia do passado,
Que lágrimas de fogo em sec'los tem queimado…
Mas ai! que serve olhar, se os olhos são janelas,
E se a alma é quem vê, quem espreita por elas!…
Fica a olhar… fica a olhar, hesitante e perplexo,
Balbucia, articula umas coisas sem nexo,
E, por fim, taciturno e torvo, aniquilado,
Como quem vislumbreia, horror!, o seu estado,
Fita as nuvens do azul… fita as ondas do mar…
E desata, em silêncio, a chorar!… a chorar!…
E depois vem a noite… e ali dorme ao relento,
Desamparado, abandonado, ao frio, ao vento,
Té que algum pescador, de manhã, pela mão
O recolha ao seu lar e lhe dê do seu pão!…
………………………………………

CIGANUS:

Bem o dizia eu… bem o dizia eu…
Êste cronista não regula… endoideceu!
Que histórias que êle inventa, o mágico!…

OPIPARUS:

                                                Perlendas
De visionário tonto, inquiridor de lendas…
Vagueiam-lhe no caco obscuro, entre miasmas,
Lemures, avejões, duendes, monstros, fantasmas…

CIGANUS:

E no entanto calcula e discorre direito,
Se lhe cheira a questão de ganância ou proveito…

O REI:

Tantas magicações, tanto grego e latim
Turvaram-lhe a razão, deram com êle assim.
Pobre cronista! anda na lua… As trapalhadas,
As pandangas que êle arquitecta!… E bem armadas!
Bem armadas!… com certo dedo… Francamente,
Às vezes o ladrão quási embarrila a gente!
Põe-se-me a fantasiar uns casos de mistério,
Com tamanho palavriado e tanto a sério,
Que fico bêsta!… Ora o ratão! ora a inzonice!
Vejam lá, vejam lá, tudo que p'raí disse!
Os maranhões, a lenga-lenga, a choradeira
Sôbre um doido, coitado, a caír de lazeira!

Designando o doido:

Coitado! meio nu, faminto, vagabundo,
De charneca em charneca, aos tombos pelo mundo,
Sem ninguêm… vê-se bem que esta doida alimária
É de família pobre, é de gente ordinária.
E eu com receios e com mêdo! Visto ao longe,
Tão alto, um vozeirão, as barbaças de monge,
Era um horror! coitado! um maluco, afinal…

Aos guardas:

Deixem-no em liberdade e não lhe façam mal.
Não o espanquem… Ninguêm lhe bata… ordens severas!
Ninguêm bate num doido; os doidos não são feras.
Tratem-no bem… com caridade… Para a ceia
Uma côdea de pão e a gamela bem cheia.
Desgraçado! E dormir… dorme perfeitamente
Na estrebaria ao pé dos cães: é limpo e é quente.
Roupa grossa… Avisai lá em baixo a canalha…
Duas mantas de lã e três feixes de palha.
Não se esqueçam! cumpram as ordens que lhes dei!

ASTROLOGUS, curvando-se humildemente:

Ó alma generosa! Oh magnánimo rei!
Que agradável não é ser o cronista obscuro
De espírito tão alto e coração tão puro!

O doido sai acompanhado dos guardas. Os cães perseguem-no, ladrando, até à porta. Desencadeia-se a tormenta. Raios, trovões, aguaceiros, ventanias lúgubres. O rei e os validos dirigem-se ao balcão. O cronista acaricia os cães, galhofeiramente, sorrindo amável.

O CRONISTA, afagando Iago:

Iago, meu bom amor! faz'as pazes comigo!
Sabes quanto te quero e sei que és meu amigo…
Não te zangues… perdão… congracemo-nos, vá!
O doido foi-se embora e não torna a vir cá…
Havia de eu perder afeições como a tua,
Por causa dum maluco a divagar na lua?!…
Anda, não sejas mau… faz'as pazes comigo…
Meu protector… meu defensor… meu vélho amigo!…

Ameigando Judas:

E êste Judas!… tão bom… tão leal… tão sincero!…
Como eu gosto de ti, Judas! como eu te quero!…

Pegando no Veneno ao colo:

E o meu Veneno! o meu bijou! a rica prenda!…
Que amor de cão!… que perfeição!… Nem de encomenda!…
É de apetite o meu Veneno, o meu tesoiro…
Uma beijoca, vá, no focinhito loiro!…

Afagando os três cães simultaneamente:

E, para liquidar agravos duma vez,
Disponho-me esta noite a cear com vocês!

O REI, despedindo o cronista:

Cronista, vai dormir… boa noite… Deus queira
Que o sono te refresque um pouco a maluqueira…

O CRONISTA sai, pensando:

Na batalha da vida evidente se torna
Que ou havemos de ser martelo ou ser bigorna.
Conclusão natural do dilema singelo:
Evitar a bigorna triste… e ser martelo.
Monstruoso, feroz, horrível, mas em suma
Ponderemos que a vida é curta,—e que há só uma!

SCENA IX

O REI, sentando-se cómodamente ao fogão:

Ora do doido estou eu livre! Agasalhei-o,
Matei-lhe a fome, e agora quente, o ventre cheio,
Cama bem farta, vai dormir e repousar,
E não volta por certo esta noite a cantar…

Repotreando-se alegremente.

Uff! sinto-me bem! volto a mim…

Trincando um charuto e voltando-se para Ciganus:

                                          Dá-me lume.
Ia perdendo o vício… É da regra… é o costume…
Em não fumando, mau negócio! ando esquisito…
Pois àmanhã caçada e toirada, 'stá dito!
Hei-de abater, e sem fazer lá grandes fôrças,
Dôze toiros, trezentas lebres e cem corças.

OPIPARUS, àparte:

Já mente… Vai melhor!

Tiros ao longe. Clamor distante. Os cães ululam.

O REI, sobressaltado:

                                    Ouvi… ouvi!… ouvi!…
Tiros… detonações… é próximo daqui…
Fusilaria!… Ouvi… Que demónio se passa?!…

CIGANUS:

São os guardas d'El-Rei, que andam de noite à caça…

O REI:

De noite à caça!

CIGANUS:

Montaria aos lôbos, meu Senhor…

O REI:

Dei cabo dum aqui há tempos… Que vigor,
E que tamanho! Era de noite… foi na estrada…
Caíu logo no chão à primeira mòcada!
Tenho morto dúzias de lôbos e de lôbas,
Nenhum assim: pesava umas quarenta arrobas.

OPIPARUS, àparte:

Sim senhor, eis El-Rei já no estado normal!

Ouvem-se marteladas cavas e repetidas nos subterrâneos profundos do palácio.

O REI:

Que barulho lá baixo!… Um estrondo infernal
De marteladas!… Santo Deus! nem trinta diabos juntos,
Pregando a toda a pressa esquifes de defuntos!

OPIPARUS, rindo:

Gente carpinteirando em tábuas e barrotes,
Não para esquifes, meu Senhor; para caixotes!
Mandei encaixotar (a providência é boa)
Os milhões do tesoiro e as baixelas da c'roa.
E em quanto à c'roa, Senhor meu,
Ninguêm lha roubará, ninguêm!, defendo-a eu.
O trono… o que é um trono? uma simples cadeira
De veludo já gasto e de vélha madeira.
É, pois, minha profunda e sábia opinião
Deixá-lo ir sem resistência… A c'roa, não!
A c'roa é d'oiro fino, esmeraldas, diamante,
Turquezas e rubins… (uns dois milhões cantantes!)
E portanto, Senhor, havemos de levá-la,
Há-de ir connosco, ao pé de nós, dentro da mala!

CIGANUS, pensando e rindo:

C'roa de procissão… rica para um andor:
Pedras falsas; troquei-lhas eu; vidros de côr.

OPIPARUS, continuando:

E comido o banquete e devorada a presa,
Bem nos importa a nós erguermo-nos da mesa!
Partiremos a rir, terminado o dessert,
Levando cada qual na algibeira o talher…
Com três milhões de renda, um pecúlio feliz,
Grande vida a dum rei destronado em Paris!…

O REI:

É cínico, mas tem pilhéria êste demónio!…

OPIPARUS:

Bom estômago e ventre livre: um património!
A vida é bôa ou má, faz rir ou faz chorar,
Conforme a digestão e conforme o jantar.
Pode crê-lo, Senhor, toda a filosofia,
Ou tristonha ou risonha ou alegre ou sombria,
Deriva em nós, tão orgulhosas criaturas,
De gastro-intestinais combinações obscuras.

O REI:

E a moral?

OPIPARUS:

            Rica farça a moral! Não me ilude.
Examinem qualquer vendedor de virtude,
Casto como um carvão, magro como um asceta:
A abstinência é impotência, o jejum é dieta.
O diabo, meu Senhor, já vélho e desdentado,
Sifilítico, a abanar como um gato pingado,
O trazeiro sarnoso, em gangrena a medula,
Exaurido a chupões de luxúria e de gula,
Sentindo-se perdido e rabiando, afinal
Quis vingar-se do mundo… e inventou a moral!

O REI, pensando:

E, se eu ós pontapés desancasse esta corja,
Ia às malvas… adeus! tinha banzé na forja!…

Fundeou na praia uma galera de corsários. Desembarcam.

O DOIDO, na escuridão:

A lua morta bóia nas nuvens toda amarela…
Corvos marinhos, corvos daninhos poisam sôbre ela…

Tiram-lhe os olhos, comem-lhe a bôca, já com grangrena…
Astros errantes, agonizantes, choram de pena…

Choram de pena, tremem de mágoa, morrem de dôr…
Na noite escura canta a Loucura, grita o Pavor…

Lôbas tinhosas d'olhos d'enxofre saltam valados…
Pobres dos gados!… pobres dos gados pelos montados!…

O REI:

Olha o doido!… Lá torna o doido… Eu logo vi…
Canta p'raí até 'stoirar… canta p'raí!…
Bom telhudo! em pelote e com êste nordeste,
A ladrar cantochões à lua!… Que lhe preste!

CIGANUS:

Deixe lá! faz-lhe bem… faz-lhe bem… P'rá mania
Não há nada melhor do que o vento e água fria.

Rebenta, fora, um grande tumulto. O rei e os validos assomam-se ao balcão. Vem debandando, clamorosa, a revolta vencida. Soldados, prisioneiros, feridos, moribundos em macas. Ais de estertor, pragas, vivas avinhados, gritos de mulheres, choros de crianças. Os cães, truculentos, ululam na varanda.

O REI:

Que é isto?!… que estardalhaço!… que chinfrineira!…
Gritarias… um rodilhão… Temos asneira…
Temos coisa… não há que ver, temo-la armada…

CIGANUS, rindo:

É a guarda d'El-Rei, de volta da caçada.
Os monteiros são bons… a matilha é valente…

OS SOLDADOS, em clamor:

Viva El-Rei! viva El-Rei!

O REI:

                        Compreendo. Excelente!
Ora que espiga! por um triz, hãn! por um triz,
Não vou às malvas! Ando em sorte!… fui feliz!…
Iam-me empandeirando! um cheque e mate ao rei!
Ora a cáfila! ora a cambada!… Se eu o sei,
Com mil bombas! que os desfazia!… Eu lhes diria!
Oh, que porradaria! oh, que porradaria!
Rebentava-os! dava-lhes conta do bandulho
E dos cornos, mas à paulada! era a 'stadulho!
Quando o trono cair, sem lenha é que não cai…
Mostarda rija! O banazola de meu pai
Tinha-os em mau costume… Isto agora é p'rigoso…
Aqui há unhas p'ros coser… olá, se os coso!

Entra um cavaleiro, portador duma mensagem.

CIGANUS, depois de a ler:

Montaria real! Foi covil por covil:
Feras mortas oitenta e prisioneiras mil.

O REI:

Dois gajões duma cana! Obra de lei!… Entrego
Nas vossas mãos o meu destino, como um cego.
Marquês, faço-te duque; e ao ducado acrescento
Quinze milhões… Encaixa a história no orçamento…
Opiparus, a ti, reinadio e marau,
Pago-te os cães: trezentos contos…

OPIPARUS:

                                    Não é mau;
Recebendo eu o bôlo e fazendo a partilha;
O meu grande credor sou eu. Quanto à matilha,
Que se esfalfe a ganir… Não me incomoda nada…

O REI, voltando-se para os cães:

Iago, aboca! Olha o petisco: uma embaixada!
Faço-te embaixador! hãn, que empanzinadelas!…
Que vidinha!… Um sultão num harem de cadelas!…
A êste Judas circunspecto que hei-de eu dar?
O Conselho d'Estado; é próprio e é bom logar.
Conselheiro, portanto. E o Veneno? O Veneno,
Conde e ministro. Um felizardo o meu pequeno!
Um catita!

Acendendo um charuto e indo à varanda:

            Perfeitamente! Ora Deus queira
Que abichemos um dia bom p'ra pagodeira!
Um dia alegre! O tempo muda… ronda ao norte…
Magnífico! hão-de ver dôze toiros de morte,
Desembolados! Inauguro emfim a minha praça:
Vai o Botas, o Pintassilgo e o Calabaça.

O DOIDO, na escuridão:

Ao luzir d'alva semeei de flores
Uma encosta deserta ao pé do mar
Cravos, lírios, jasmins, goivos, amores,
Açucenas e rosas de toucar.
Ao redor vinha verde e trepadeiras,
Medronheiros, figueiras, romanzeiras…
Lindo jardim! Lindo pomar!
Como no monte não havia fonte,
Desatei a chorar para o regar…
Depois, oh meus feitiços!
Enchi de abelhas d'ouro cem cortiços
E dez pombais com pombas de luar…
Olha o lindo jardim!… olha o lindo pomar!…
E enxada ao ombro, já raiava a aurora,
Abalei a cantar!…
Foi há mil anos… Venho mesmo agora
De ver a linda encosta à beira mar…
Lindo jardim! lindo pomar!
As açucenas deram-me gangrenas
E os jasmins podridões a fermentar!…
Os cravos deram cravos… mas de cruzes!
E as roseiras espinhos de toucar…
Sôbre as ervas no chão crepitam luzes,
Fogos fátuos de larvas a bailar…
Só dos goivos, Senhor, brotaram goivos,
Destilando loucura e rosalgar…
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
Os figos das figueiras são caveiras
E os medronhos são balas de matar…
Oh, que lindas romãs nas romanzeiras!
Corações fusilados a sangrar!…
Inda bem, que em vez d'uvas nas videiras
Há rosários de dor para eu rezar…
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
De dentro dos cortiços, que feitiços!
Voam corvos e c'rujas pelo ar…
E dos pombais, aos centos,
Nuvens de abutres agoirentos,
Que sôbre as romanzeiras vão poisar!…
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
…………………………………..
…………………………………..
É de encantar a natureza!… ai que beleza!
Quantas florinhas para a minha mesa!…
Deus, quanta fruta para o meu jantar!…
Lindo jardim… lindo pomar!…

SCENA X

*Os mesmos e Magnus*, que entra majestoso e solene.

O REI:

Chega ao calhar… Então, meu duque, a trabuzana
Foi bôa… Por um triz, iam-nos à pavana!

MAGNUS, grandioso:

Valeu-lhe, meu Senhor, (dôa isto a quem dôa!)
Haver três homens, como nós, junto da C'roa,
Para a salvar dum grande abismo!… A situação…

O REI:

Ganhou hoje, meu duque, o Elefante e o Pavão.

MAGNUS:

Nem sei como exprimir a Vossa Majestade
A alegria que sinto!… É de mais! que bondade!
A grã-cruz do Pavão!… Nunca o julguei… Em suma,
Feliz!… morro feliz… Já não há mais nenhuma!

O REI, a Ciganus:

E agora?

CIGANUS:

            Meu Senhor, é dormir sem cuidados!
Os mortos cemitério e os vivos…

OPIPARUS:

Enforcados.

CIGANUS:

Talvez que sim, talvez que não…
É conforme: o rigor, a clemência, o perdão,
Tudo às vezes convêm, tudo tem seu logar…
Enforco-os, claro está, se os puder enforcar.
Não podendo, enxovia; e, se a nação revôlta
Clama contra a prisão… deixá-los hei à solta.
Enforcados, melhor. Eu, gente que deteste,
Quero em vez de canhões a guardá-la um cipreste.
Mas, se matando arrisco a própria vida, não:
Converto-me, de algoz furioso em bom cristão…
Reinar, eis o importante; o modo é secundário.
É conforme se pode; é dia a dia; vário.
Fica melhor um rei num corcel de batalha,
O chicote na mão, contemplando a canalha.
Inspira assim terror, incute mêdo e fé.
Não há, porêm, cavalo? É governar a pé.
E, se ainda precisa atitudes mais chatas,
É governar de toda a forma,—até de gatas!
O caso é governar, seja lá como fôr:
Com manhas de toupeira ou vôos de condor,
Por caminho sinuoso ou caminho direito…
Eu, para governar, a tudo me sujeito,
Indo de cara alegre até ao sacrifício
De ser exemplarmente honesto… por ofício!

Continua a tormenta. Prosseguem os vivas. Os cães ladrando sempre.

MAGNUS, sentencioso:

Nas vistas do marquês há pontos em que abundo,
Pontos em que discordo. O mal é mais profundo!
Talhemos com firmeza o mal pela raíz!
Nas circunstâncias desastrosas do país,
Quando um vento de insánia brava nos arrasta,
Quando abusos de toda a ordem, toda a casta,
Andam impunes; quando a moral e o direito
Já não levam sequer à noção de respeito,
Á noção do dever, urge com brevidade
Dar fôrça à C'roa e dar prestígio à autoridade!
Eu com rude franqueza o digo: o caso é sério!
Nós vivemos (se isto é viver!) num baixo império!
Olhem bem ao redor: uma orgia! um entrudo!
Abocanha-se tudo, emporcalha-se tudo,
Nem o sacrário da família se venera,
Não há reputação, ainda a mais austera,
Que a não manchem… um lodaçal, um tremedal de escombros,
E nós a vermos isto e a encolhermos os ombros!
É de mais! é de mais! Vamos todos a pique!
É necessário um termo! é necessário um dique!
Sursum corda! Que El-Rei leve a bandeira em punho!
E inda há gente… inda há gente! inda há homens de cunho!
Inda há muita aptidão, muita capacidade
E muita honra!… O que é mister é uma vontade!
Obre El-Rei com firmeza! obre El-Rei sem demora!
Qual o cancro que dia a dia nos devora?
Toda a gente que vê, toda a gente que pensa
Põe o dedo na chaga e conclue: a descrença!
Se o mal vem da descrença, ataque-se a questão!
Religião, Senhor e mais religião!
Deus e mais Deus! tendo nós Deus e a fôrça armada,
Não há receio algum; dormirá descansada
A monarquia. Deus, embora neste meio,
Queiram ou não, é sempre Deus!… é ainda um freio!

OPIPARUS, galhofeiro:

E o profeta, que nos censura e nos fulmina,
Tem palácio, grande estadão, mesa divina,
É joisseur como dez banqueiros elegantes,
E, facto escandaloso! a respeito de amantes
Cultiva sobretudo (às vezes com seus p'rigos…)
Esta especialidade: a mulher dos amigos!

MAGNUS, furioso:

Safa! que língua! que veneno!…

O REI:

                        E o duque atomatado!
Como se não pudesse um ministro d'estado
Regalar-se com vinhos bons ou fêmea alheia!
Deixe-os morder de raiva. É tudo inveja, creia.
Gosto dum vélho assim, danado e atiradiço…
Um vélho folgazão… Simpatiso com isso.
É cá dos meus… é cá dos meus…

MAGNUS, risonho e vaidoso:

                                    Na juventude,
Rapaz… como rapaz… vamos! fiz o que pude!…
A crónica inda o lembra… Hoje o caso é diverso…
Aos sessenta já custa a endireitar um verso!

O REI:

Maganão!

MAGNUS:

            Hoje não!… Só em pequenas dozes…
Falta o melhor… São mais as vozes do que as nozes…

O REI, gracejando:

Mas o que a mim me espanta, e não entra na bola,
É sair-nos o duque um perfeito carola!
Se a raínha estivesse, inda d'acôrdo, admito…
Mas entre homens prègar sermões acho esquisito,
Meu caro duque… Estou a vê-lo qualquer ano,
Entrapado em burel, frade varatojano!

MAGNUS, solene:

Distingo, meu Senhor, distingo: sou cristão,
Co'as rédeas do govêrno e do poder na mão.
Católico e de lei, sob o ponto de vista
Administrativo, e nada mais. Como estadista,
Eu considero a Igreja uma pedra angular
Da ordem! Quero o trono achegado ao altar!
A Igreja tem prestígio! a Igreja é um sustentáculo!
Convêm ao scetro ainda a amizade do báculo!
O homem público em mim, o defensor da C'roa,
É desta opinião. Sustento-a e julgo-a bôa.
Mas cá dentro, no fôro interno, a sós comigo,
Eu, o particular e o filósofo, digo-o
Alto e bom som, digo-o de cara e sem temor:
Não há ninguêm! ninguêm! mais livre pensador!
Eu admiro Voltaire!… Eu encontro-me em dia
Com a marcha do globo e da filosofia.

O REI, galhofando:

Se a Raínha lhe sente ideas desordeiras…

MAGNUS:

Leio Voltaire, mas quero os frades!…

OPIPARUS:

E eu as freiras…

CIGANUS:

Por mim desejo tropa, em logar de irmandades.
Mas, se a raínha quer os frades, venham frades.
Com certo geito e condições, inda afinal
Se atamanca de Deus um bom guarda rural…

Trovão retumbante. A caverna da noite incendeia-se de oiro, abrasada a relâmpagos. Ais e lamentos. Gritos ferozes de soldados. Uivam os cães. Sente-se ao longe um rumor imenso de multidões que debandam.

MAGNUS, meditando:

Que demónio!… cheira a chamusco… Volta a dança…
Olha que brincadeira!… Isto, se a coisa avança,
Vai tudo raso, vai tudo em cacos pelo ar!
Não me sinto aqui bem… Nada! ponho-me a andar!…
Uma história qualquer…

Ao rei:

                        Meu Senhor, a duquesa…
(Foi dêste abalo repentino, esta surpresa…)
Achou-se mal, deu-lhe um febrão… em tal estado,
Que não gosto… não gosto… inspira-me cuidado…
E se El-Rei o permite…

O REI:

                        Ignorava… Ora essa,
Meu caro duque! Ande ligeiro, vá depressa…
Boa noite… Dormir um pouco, e às cinco e meia
Na toirada. Curro catita! É de mão cheia!

    O rumor longínquo, de maré humana, avança, trágico, na escuridão
    profunda. Surge na praia uma nau gigante, embandeirada de negro.
    Uivam os cães.

SCENA XI

O REI:

Ouvi!

OPIPARUS:

O mar.

CIGANUS:

Não é o mar; a ventania.

O REI:

Tambêm não… Escutai… escutai…

OPIPARUS:

                                    Dir-se-ia
O confuso estridor, desordenado e vário
Dum exército louco, em tropel tumultuário…

O rei com os validos assoma-se ao balcão. Hordas inúmeras de esfarrapados, multidões de mendigos, turbas espectrais, homens e mulheres, vélhos e crianças, ululando, gritando, praguejando, baixam a montanha em direcção à praia, numa torrente caudalosa, numa levada contínua de sofrimento e de miséria. E o porão tenebroso do navio-fantasma engulindo, aos cardumes, vertiginosamente, aquela humanidade enlouquecida. E a enxurrada sinistra, avolumando, alastrando, cada vez mais tumultuária e bramidora. Dir-se-ia um povo de malditos, debandando a um cataclismo inexorável! Povo imenso, não tem fim, mas o navio não tem fundo. Cabe tudo lá dentro. Os cães, na varanda, rosnam, sombrios e provocantes.

O REI:

Que quer isto dizer?! que chinfrineira é esta?!…
Que balbúrdia!… que multidões sombrias!… temos festa!…
Oh, com mil raios! temos festa… Há banzé novo…
Que 'stardalhaço… Um mar de gente!… um mar de povo,
A correr, a crescer… Gritos, uivos, bramidos…
Era uma vez, marquês!… Pronto! estamos perdidos!…

CIGANUS, fleumático, acendendo um charuto:

Coisa vulgar, Senhor: emigrantes, miséria…

O REI:

Cuidei que era chinfrim de novo… Ora a pilhéria!
Cuidei que era chinfrim… E antes o fôsse! Ao cabo,
Zurzia-os duma vez a pontapés no rabo!
Punha-os de môlho! A garotada jacobina
Hei-de-lhe eu amolgar as trombas numa esquina!
Chegando-me ó nariz os vinagres, cautela!
Dá-me a fúria… e caramba! é d'alto lá com ela!
Em Évora uma vez, há coisa de dois anos,
Salta-me num caminho um bando de ciganos,
Era de noite, mais escuro do que um prego,
Atiro-me, arremeto às doidas como um cego,
E esbandulhei quarenta e quatro!… Um bom chinfrim!…

OPIPARUS:

A canhão Krup?

O REI, sacando, da algibeira, um navalhão de ponta e mola:

A naifa!

Com um gesto esfaqueante:

Eu cá é isto: assim!

O DOIDO, na escuridão:

A fome e a Dor escaveiradas
Ululam roucas nas estradas,
Irmãs sinistras de mãos dadas…
Misericórdia! Misericórdia!
Na escuridão, entre lufadas,
Que pavorosas debandadas
De multidões desordenadas…
Misericórdia! Misericórdia!
Turbas gemendo esfarrapadas,
Por ventanias e nevadas,
Filhos ao colo, ao ombro enxadas,
Sem luz, sem pão e sem moradas!…
Misericórdia! Misericórdia!
E em salas d'oiro, iluminadas,
Há beijos, risos, gargalhadas…
Misericórdia! Misericórdia!
E, por outeiros e quebradas,
Tombam choupanas arruìnadas…
Mortas… desfeitas em ossadas…
Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia!

OPIPARUS:

Que bela voz! Dava um barítono estrondoso
O diabo do maluco!…

O REI:

                  A mim faz-me nervoso,
Não sei porque… Faz-me nervoso… Embirro, é doença…
Mas quanto poviléu! que turbamulta imensa
De esfaimados, de miseráveis no abandôno,
Rafeiros a latir, sem albergue e sem dono!
Vejam isto…

CIGANUS:

            A miséria é lama, é sangue, e é pranto,
A fermentar em crime e em veneno. Portanto
Precisa esgôto; quer-se um esgôto e despejá-la
Contínuamente num porão ou numa vala.
Emigrar ou morrer; degrêdo ou cemitério.
O hálito da pobreza imunda é deletério.
De trapos de mendigo e lençóis de vilão
Faz a anarquia flamejante o seu pendão.
Curta distância vai da indigência à rapina,
Da mão que implora à que estrangula e que assassina.
Dorme em cada esfaimado um tigre. Há que evitar
Na rua aglomerações de ventres sem jantar.
A miséria despeja-a Deus, a Providência,
Do seu vaso nocturno ao saguão da existência.
Que fazer contra a lei de Deus, contra o Destino?
Arredar para longe o excremente divino,
Para bem longe, de maneira que a infecção
Não nos perturbe a nós, Senhor, a digestão…

O REI:

É triste, mas emfim que remédio lhe dar?!

OPIPARUS:

Comer, beber, dormir, jogar, caçar, dançar!
Festas, Senhor! Muitas e vãs, loucas e várias!
Não há jantar? Função. Não há pão? Luminárias.
A pobreza anda rôta, a canalha anda nua?
Girândolas ao ar e músicas na rua.
A fome e a dor bramem de noite, uivam nas eiras?
Matinadas, clarins, vivas ao rei, bandeiras.
Alegria! gozar! folgar! nada de luto!
Bombas! Salvem canhões de minuto a minuto!
E a cada grito de miséria ou de estertor
O cantar dum Te-Deum e o rufar dum tambor.
Dê-se à plebe faminta uma estrondosa orgia,
Um banquete real, monstro,—em scenografia!
Que bela idéa! Armar de improviso um galeão,
—Tábuas, cinábrio, gêsso, andrinopla e cartão,—
Pô-lo em rodas, tirado a parelhas d'Alter,
A côrte dentro, o patriarca, o chanceler,
El-rei de c'roa d'oiro, a raínha taful,
Asas novas de arcanjo, uma branca outra azul,
Eu ao leme, pendões, músicas, auriflamas,
Bispos e generais, o núncio, arautos, damas,
Com brilhantes a arder em veludo e em brocado,
—Tripulação emfim de baixel encantado,
A navegar de rua em rua, e praça em praça,
Atirando à miséria, à nudez, à desgraça,
A carga inteira a plenas mãos: lôdo em confeitos,
Gargalhadas, sermões de entrudo (alguns perfeitos!)
Drogas de charlatães, ditos de saltimbanco,
Cinza, areia, impudor, fome… e notas de banco!
…………………………………………
E por último a rir sentamo-nos à mesa,
A despejar champagne em favor da pobreza!

O REI:

Despovoa-se tudo!

CIGANUS:

Um êxodo…

OPIPARUS:

                                    Senhor,
Grande mimo de Deus para um rei caçador!
Terra despovoada e morta, sem ninguêm,
É terra inculta. Bem, perfeitamente bem.
Ora uma terra inculta, (é, meu Senhor, um facto)
Não dá vinho, nem pão, nem meloais,—dá mato.
E o mato bravo e as brenhas virgens dão a caça
Com mais fartura, variedade e doutra raça.
Pelos jardins d'agora, em dez anos talvez,
Andaremos ao lôbo e ao cabrito montês.
Olivedos, vergeis, campos, lezírias, prados
Criarão a raposa, aninharão veados.
E onde hoje há couves e maçãs, El-Rei, feliz,
Galopando a primor, monteará javalis!

Trovão formidando. Um relâmpago lívido abrasa as profundidades cavas do horizonte. As árvores, de súbito, aparecem nuas e hirtas, sem uma fôlha. Dos ramos, batidos do vento, pendem enforcados. Dir-se-iam esqueletos de árvores gente. Nuvens de abutres pairam em volta, crucitando.

O REI:

Pavoroso!

OPIPARUS:

            Ora adeus! nada mais natural:
A fome trás a morte, os mortos cheiram mal,
E o cheirete dum morto, assim dependurado,
Para um corvo é melhor que o dum faisão trufado.

O DOIDO, na escuridão:

Olha as macieiras que maçãs que dão:
Gangrena por fora, dentro podridão!

Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,
As maçãs escusam de ir ao madureiro…

Oh, que estranhos figos que há nos figueirais:
Mordidos d'abutres!… Figos que dão ais!…

Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,
Colhe-me essas bebras que já teem mau cheiro…

Se é fruta de embarque, vai pelo caminho
Desfazer-se toda nos caixões de pinho…

Fruta de tal raça, cavador lunar,
Só a quer a Morte para o seu jantar!…

O REI:

Dou às vezes razão ao tonto do cronista…
Que lhe querem! não é agradável à vista,
Por noite negra uma bandada de milhafres,
Grasnando e devorando, à maneira de cafres,
Uma ceia de carne podre…

CIGANUS:

                        Que limpeza!
Deixe-os comer… deixe-os comer… Varrem a mesa.
Mortos e mortos na floresta à dependura,
Um açougue… Não há còveiro, nem há cura,
Nem tochas, nem latim para tanta carcassa…
Os corvos, meu senhor, enterram-nas de graça.
Admiráveis glutões, em bambocha funérea
Liquidam numa noite a questão da miséria.
Jantam-na. Devorado o problema. Afinal
Restam ossos; convêm: tem fosfato de cal,
Bom adubo…
            E no entanto o país, meu Senhor,
É uma beleza! uma beleza! encantador!
Trinta portos ideais, um céu azul marinho,
A melhor fruta, a melhor caça, o melhor vinho,
Balsâmicos vergeis, serranias frondosas,
Clima primaveral de mandriões e rosas,
Uma beleza! Que lhe falta? Únicamente
Oiro, vida, alegria, outro povo, outra gente.
Raça estúpida e má, que por fortuna agora
Torna habitável êste encanto… indo-se embora!
Deixe morrer, deixe emigrar, deixe estoirar:
Dois boqueirões de esgôto,—o cemitério e o mar.
Que precisamos nós? Libras! libras, dinheiro!
Libras d'oiro a luzir! Onde as há? No estrangeiro?
Muito bem; o remédio é claríssimo, é visto:
Obrigar o estrangeiro a tomar conta disto.
Impérios d'alêm-mar, alquilam-se, ou então
Sorteados,—em rifa, ou à praça,—em leilão.
E o continente é dá-lo a um banqueiro judeu,
Para um casino monstro e um bordel europeu.
Fazer desta cloaca, onde a miséria habita,
Um paraíso por acções,—cosmopolita.
Dar jôgo ao mundo, ao globo! uma banca tremenda!
Calculo eu daí uns mil milhões de renda.
O comércio, dez mil… O trânsito, sem conta…
Cifras, Senhor, de pôr uma cabeça tonta!
De minuto a minuto, expressos e vapores,
Sempre a golfar carregações de jogadores,
Montões de malas, sacos d'oiro, (libras, luíses!)
Nuvens de cortesãs, dançarinas e actrizes,
Equipagens, Barnoums, touristes, saltimbancos,
Vinte raças,—mongóis, negros, mestiços, brancos,
Um ruidoso vaivêm humano que circula,
Todo fausto, esplendor, alta luxúria e gula,
O mylord, o nababo, a Rússia, a Índia, a América,
Numa promiscuìdade esplêndida e quimérica!
E todo êste país, éden de regabofe,
Iluminado à noite a faróis Jablokoff!
Que maravilha! que surpresa! que grandeza!
E que tesoiros nesta rica natureza,
Cultivando-a a primor! Em logar d'erva e searas,
Plantas de luxo: coisas finas, coisas caras.
Eu imagino, (dando os máximos descontos)
Que o reino lucrará uns trezentos mil contos,
Sómente a produzir, ao ar livre e em estufas,
Ananazes, faisões, ópio, champagne e trufas.

Relâmpagos e trovões. Paisagem deserta. A nau fantasma, cortada a amarra, bamboleia nas ondas, prestes a largar. Uma sombra disforme, como de ave gigante, voa na escuridão.

O REI:

Um bacamarte! uma clavina! uma escopeta!…
Cheguem daí… salta depressa uma escopeta!
Salta depressa! que vão ver como rebento
Às escuras aquela águia… É num momento
Já duma ocasião, (que pontaria a minha!)
Com um balásio matei oito: iam em linha.
A escopeta, marquês!

CIGANUS:

                        Não lhe serve de nada;
É a bandeira do castelo. Uma rajada
Sem dúvida, Senhor, quebrou o mastro e leva
Num frangalho o pendão errante pela treva.

OPIPARUS:

Óptimo! de manhã flutuará no baluarte
Pendão novo. Tem cinco quinas o estandarte;
Uma quina de mais; suprime-se, é evidente:
Nos baralhos, Senhor, há quatro únicamente.

O navio fantasma, que levantou ferro, desaparece ao longe.

O DOIDO, na escuridão:

Ó nau gigante, ó nau soturna,
Galera trágica e nocturna,
Que levas, dize, no porão?…

O vento chora sôbre o mundo,
Chora de raiva o mar profundo…
Que levas, dize, no porão?…

A lua, aziaga e macilenta,
Olha-te exânime e sangrenta…
Que levas, dize, no porão?…

Asas carnívoras em bando
Poisam nas vêrgas crucitando…
Que levas, dize, no porão?…

Teu cavername exala miasmas,
Teus marinheiros são fantasmas…
Que levas, dize, no porão?…

Teu pendão negro vai a rastros,
São cruzes negras os teus mastros…
Que levas, dize, no porão?…

—Dentro do esquife, amortalhada,
Levo uma pátria assassinada,
No meu porão!…

O REI:

Êste ladrão do doido irrita-me! é demais!
Não se cala, caramba! é demais! é demais!
Já não posso… Marquês, se o diabo me enfernisa,
Outra noite co'a lenga-lenga; uma camisa
De fôrças, bom vergalho, e, sem dó nem piedade,
Enxòvia ou masmorra onde grite à vontade.

Abre um relâmpago o horizonte. As carcassas nuas dos enforcados baloiçam ao vento nas árvores despidas. Nem viv'alma. No cêrro dum monte erguem os piratas uma cruz descomunal, manchada de sangue. Uivam os cães.

O REI:

Uma cruz negra alêm!…

CIGANUS:

Onde?… Não vejo nada…

O REI:

Uma cruz toda negra e toda ensangùentada!…

CIGANUS:

Foi decerto ilusão…

Rindo:

                  É calvário feroz
Que espera alguêm…

OPIPARUS:

                  Nenhum de nós… nenhum de nós…
Poderemos dormir tranqùilos, sem receio
Dum calvário onde apenas haja a cruz do meio…

Uivam os cães sinistramente.

O DOIDO, na escuridão:

Em noite sem lua, numa nau sem leme, fui descobrir mundos,
Mundos pelo mar…
O vento sopra, o vento sopra…
Quanta areia negra faz turbilhonar!
—Mundos a voar… mundos a voar…

Por manhã doirada, galeão doirado vinha cheio d'oiro!…
Rubins scintilantes,
Pérolas, diamantes…
Vinha cheio d'oiro…
O vento sopra, o vento sopra…
Que cinza de campas se alevanta ao ar…
—Meu oiro a voar… meu oiro a voar…
Castelos nas praias, galeras nas ondas, reinos d'alêm-mar!…
O vento sopra, o vento sopra…
Que bandos de nuvens!… vão-se a desmanchar!…
Castelos… galeras… reinos d'alêm-mar…

Foi um sonho lindo… foi um sonho lindo…
Como é bom sonhar!…
Acordei sem alma… quem me encontra a alma…
Quem ma torna a dar!
Queimou-se o casebre… só tições escuros, só carvões escuros,
Inda a fumegar…
(Quem ma torna a dar!)
Que bem dormiria debaixo dos muros…
Tão quente!… debaixo das pedras do lar!
Oh, que inverneira! oh, que inverneira!
Crestou-me o vinhedo, secou-me o pomar!
A terra levou-a… deixou-me só fragas…
Deixou-me só fragas, para as eu calcar…
Peguei na minha dor, botei-a às fragas…
Não tinha mais que semear!
O que viria, o que viria
Da minha dor na primavera a rebentar?…
Um tronco despido me brotou das fragas,
(Que singular! que singular!)
Um tronco despido,
Sem ramos, sem fôlhas… um tronco no ar!
Depois medrou tanto, como por encanto,
Que andadas três luas era secular!
E nem uma fôlha e nem um raminho,
Onde um passarinho poisasse a cantar!…
Um tronco no ar!
Mas de repente, de repente
Deitou dois braços, logo um par!
Braços estendidos, abertos e nus,
Como que a chamar… como que a chamar…
Mas, oh Deus! que vejo! uma perfeita cruz,
Uma cruz erguida sôbre um grande altar!…
Minha dor nas fragas, entre uns estilhaços
De rochedos duros no que veio a dar!…
………………………………………
Inda bem! Ora inda bem que já no mundo há braços,
Para me abraçar!…

O REI:

Já 'stou farto de cantochões, de ventania
E dos agoiros!… Passa das três; é quási dia…
Vamos dormir…

Apontando o pergaminho:

                        Cá deixo esta léria assinada.
Falaremos depois. Rendez-vous na toirada.

SCENA XII

O REI, só, ao fogão, olhando o pergaminho:

Belo! toca a assinar o papelucho e cama.
Vão-se os pretos! Adeus, pretangada e moirama!
Inda bem! Já ninguêm desde hoje me seringa,
Levantando questões dum cafre ou duma aringa.
Durmo esta noite como um odre. Para insónias
O remédio é mandar à tubúa as colónias.
Que se governem! tudo ós quintos! tudo à fava!

Olhando os retratos da dinastia:

O que diriam disto os maganões?… Gostava
Duma palestra com vocês… Vinha n'altura…

Trovão retumbante. Os cães ululam. Diante do rei, varado de assombro, ergue-se de improviso o fantasma de D. João IV. O rei quer falar, quer fugir, mas paralítico de mêdo, olhar atónito, nem um gesto, nem um ai, nem um grito. Desfalece, caíndo imóvel.

SCENA XIII

O ESPECTRO DE D. JOAO IV, ar untuoso, manhoso, beato, falso e pusilânime:

Tens mêdo de assinar? Pesa-te a assinatura?
Vais ouvir meu conselho:
                        Ânimo bravo e ardente,
Em lacaios fieis predicado excelente.
Num monarca já não… A fraqueza traiçoeira,
D'olhos de lince e passos mortos de toupeira,
Vence tudo… Precisa um rei de heroismo audaz?
Serve-se dos heróis e fica êle em paz.
Nada que nos perturbe a digestão e o sono;
Para dar bom assento é que se fez o trono.
Os reis são reis e os homens cães, em vário estado:
Ou cães de caça ou cães de fila ou cães de gado…
Mas tudo cães. Chicote a uns e a outros festa,
Eis do govêrno a arte; é bem clara; só esta.
Com os homens, assim. Com Deus, trato diverso.
Tu és o rei dum povo, êle o rei do universo.
Depois da morte há inferno e paraíso; então
Lida sempre com Deus, como bom cortesão.
Vale a pena. Medita as chamas infernais,
As mil cobras de fogo em doudas aspirais,
Enleiadas a nós!… que tortura! que horror!
Ah, vale a pena servir Deus e ter-lhe amor!
Não só a Deus; aos santos todos! E a Maria,
À Virgem-Mãe, oh filho! a essa, noite e dia
É rezar; é rezar de joelhos na capela!
A nada atende Deus como a um pedido dela.

Firma o tratado. Firma-o de pronto e sem receio.
Entre as hostes iguais a dúvida, no meio,
Hesita, é bem de ver… Mas neste caso, em suma,
Não encontra a razão hesitação alguma.
O teu povo dum lado e o bretão do outro lado;
Ora, entre um borrego e um leopardo esfaimado,
Não há brio a atender, há vida a defender.
O leopardo é o mais forte: assina… tem de ser.
A fera vem bramindo e quer do teu jantar;
Chicoteá-la? Não; pode-te estrangular.
Dividirás com ela; e tu, quietinho e manso,
Fica à mesa comendo o resto com descanso.
Creio que para ti e para herdeiros teus
Há-de ainda chegar talvez, graças a Deus.
Graças a Deus e à Virgem-Mãe, a quem eu dei
A tutela do reino e o coração do rei.

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

Dum duque fiz um rei; e o rei me disse: Vamos
Ouvir à igreja (era de noite) o meu Te-Deum laudamus.
Era de noite… era de noite… na encruzilhada,
Quando me viu, cantou um galo preto uma alvorada.
Bonita festa, (disse eu entrando) bonita festa!
Que igreja esta
Tantos panos escuros… tantos panos escuros,
Velando os muros!
E um esquife sombrio
Num catafalco… um grande esquife negro, inda vazio!…
Mas coisa horrenda e de pasmar,
O altar! o altar!
Crucificado num madeiro um cordeirinho branco exangue
E treze tochas de gangrena azul, chorando sangue!…
Veio da sacristia a cleresia… Olhai, olhai
O padralhame que aí vai!
Raposas sarnentas e lôbos gordos ulcerados,
—Dominus vobiscum!—todos paramentados e mitrados.
E era um bode de andaina vermelha o sacristão,
Um bode carcunda, ventrudo e lanzudo, galhetas na mão.
E quem cantou a missa de pontifical
Foi o rei! era o rei… tal e qual! tal e qual!
Mas tinha rabo de raposa e tinha olhos de chacal!
Cantava de papo, cantava de papo,
E a bôca imunda, sem tirar nem pôr, uma bôca de sapo!
O Espírito baixou então divinamente,
Poisou no rei, e o rei lhe disse:—Olá! olá, Vicente—
E as dois órgãos ao fundo, que rouquidões!
Grunhindo trovões por entre os cantochões!
E toda a padralhada, no seu cartimpácio,
—Oremus! Oremus! Santo Inácio e mais Santo Inácio!—
E ao levantar a Deus emfim,
De hóstia e cálix na mão, o rei voltou-se para mim:
—Êste vinho é o meu sangue. Êste pão negro é o meu corpo:
Toma lá o meu sangue, toma lá o meu corpo.—
Cuspiu no cálix, deu-mo a beber, bebi… bebi…
E a hóstia impura, nem sei de azêda como a enguli!
E envenenado fiquei… envenenado fiquei
Pelo corpo do rei, pelo sangue do rei!
Envenenado e paralisado,
Mas inda a ver, inda a sentir… como um dormir
De defunto acordado…
Então o rei pegou num cutelo, abriu-me o peito,
Meteu as mãos… e tirou-me a alma com todo o geito!
Era uma virgem, corpo de deusa, branca e nua,
Como que feita, num sonho triste, do alvor da lua…
A minha alma aquela! a minha alma aquela!
Oh, nunca a imaginei assim, tão formosa e tão bela!
Mas que ar de nojo e de amargura
Envolvendo-a, pálida e branca, em noite escura!
Deitaram-na ao caixão, pregaram-lhe a tampa às marteladas,
E o rei,—Oremus! Oremus! Oremus!—
Às gargalhadas.
E no madeiro o cordeiro manso, dolorido,
Deu o seu último gemido…
E expiraram no altar
As treze velas bentas de rosalgar…
E a cleresia pela noite, em chusma, como assombros,
Debandando e levando o esquife, aos encontrões, nos ombros…
E a mim deitaram-me a dormir num fraguedo deserto,
Sem alma, com o peito um rasgão de sangue, todo aberto!…
Ei-lo aqui… ei-lo aqui… Nunca o deixei cicatrizar…
Que é para a alma, quando me volte, poder entrar…
As almas não morrem…
As almas não morrem…
Nem Deus, tendo-as feito, é capaz de as matar!…

SCENA XIV

O ESPECTRO DE D. AFONSO VI, que entra alucinado, hemiplégico, azorragando, furioso, uma matilha de cães imaginária:

Ah, marotos! ladrões!… ladrões!… perros danados!…
Vão inda perseguir-me à tumba êstes malvados!
Assassinos! ladrões! Nem no sepulcro existe
Repouso para um morto, alívio para um triste!
Nem debaixo da terra emfim, víboras más,
Me deixais, me deixais apodrecer em paz!
Nem morto dormirei… coitada criatura!
E como o sono eterno é bom, ó noite escura!…
Ah, como é bom dormir… dormir… dormir… dormir!…
Não ter alma, não ver, não gemer, não sentir!…
Sem reino, sem mulher, sem irmão, sem cuidado,
Dormir… dormir!… Que brando leito de noivado!…
……………………………………………..
Mas foram-me acordar, os malditos!… Já sei…
O que querem de mim… Já sei… Já sei… És tu, El-Rei?
Foi mandado d'El-Rei… Já sei… lembro-me agora!…
……………………………………………..
Assina tudo… assina tudo e sem demora.
Tens mêdo de perder o trono, de o largar?
Ah, deixa-o ir, deixa levar, deixa roubar!…
Que leve trono e scetro e c'roa quem quiser…
Para ti… para ti… guarda os cães e a mulher.
Guarda a mulher… guarda a mulher! Bem conta nela!
Tens irmão? Tens irmão!… Pobre de ti!… cautela!…
Não há crer em irmãos, nem há fiar em mães!
Que levem tudo, tudo… excepto a amante e os cães!…
Oh, as noites d'amor!… oh, as manhãs de caça!…

Indo a saír e parando de repente, ao ver os cães:

Tens fracos cães… Adeus… Fracas ventas… má raça!…

O DOIDO, na escuridão:

Quem me roubou da fronte o meu diadema?…
Quem ostenta na fronte o meu diadema?…
—Teu irmão!
Teu irmão!

Quem abraça a raínha no meu leito?…
Alva, loira e mimosa no meu leito?…
—Teu irmão!
Teu irmão!

Quem bate as brenhas com meus cães de caça,
Ao luzir d'alva com meus cães de caça?…
—Teu irmão!
Teu irmão!

Quem nesta campa me enterrou em vida?!…
Quem nesta campa me enterrou em vida?!…
—Teu irmão!
Teu irmão!

Ai, arranca-me os olhos por piedade!
Ai, arranca-me a vida por piedade!
Irmão! irmão! irmão!!…

……………………………………..

O ESPECTRO DE D. AFONSO VI, assomando ao balcão:

Um doido enorme! alêm… na escuridão… alêm…
Doido sou eu tambêm… doido sou eu tambêm…
Pobre doido!… infeliz… coitado! algum irmão
Lhe roubou a mulher…

Ao rei:

                        Tens mulher?… Tens irmão?…
Não há crer em irmãos, nem há fiar em mães…
Guarda a mulher…

Desaparecendo:

Oh, que estupor de cães!… oh, que estupor de cães!…