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Pátria

Chapter 3: PROPRIEDADE DOS EDITORES
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About This Book

A long verse work that combines biting satire and intimate lyricism to portray a nation's moral and political decline. It stages allegorical scenes in court and public life where treaties, intrigue, and complacency expose corruption and social suffering, juxtaposing violent invective with tender prayers and reflective philosophical passages. Dramatic tableaux, symbolic figures, and lyrical interludes alternate with prophetic and elegiac tones, moving between anger at decay and a persistent yearning for moral renewal and collective redemption.

The Project Gutenberg eBook of Pátria

This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.

Title: Pátria

Author: Abílio Manuel Guerra Junqueiro

Release date: April 24, 2007 [eBook #21209]

Language: Portuguese

Original publication: Porto: Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, editores--Rua das Carmelitas, 144, 1915

Credits: Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK PÁTRIA ***

Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online

Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net

[Figura: Guerra Junqueiro]

GUERRA JUNQUEIRO

Nasceu em Freixo de Espada á Cinta em 12 de Setembro de 1850. Guerra Junqueiro é o nosso maior poeta vivo e um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. O seu génio profundo e vasto, a sua sensibilidade lírica verdadeiramente excepcional, o seu maravilhoso poder de expressão e de evocação, permitiram-lhe ser grande em todos os géneros de poesia. Desde as sátiras violentas que são a «Velhice do Padre Eterno» e a «Morte de D. João» até ao lirismo enternecido e humano dos «Simples», foi sempre um poeta original e forte, absolutamente incomparável; mas onde o seu génio se manifesta em toda a sua gloriosa expansão é na «Pátria», sátira e lirismo amalgamados na mais imprevista grandeza épica, grito de esperança dum povo, redimido emfim da sua decadência antiga. Depois de publicar a «Pátria», Junqueiro evolucionou para uma mais larga compreensão do mundo e da vida; daí as suas «Orações», dum intenso lirismo panteista e cristão, no mais nobre sentido desta palavra: daí tambêm «A Unidade do Ser», livro em que a sua prodigiosa e sempre moça imaginação se alia a um seguro conhecimento dos fenómenos biológicos.

*EÇA DE QUEIROZ*

O Crime do Padre Amaro, 1 vol. 1$20 Primo Basílio, 1 vol. 1$00 O Mandarim, 1 vol. $50 Os Maias, 2 vol. 2$00 A Relíquia, 1 vol. 1$00 Correspondência de Fradique Mendes $60 A Cidade e as Serras, 1 vol. $80 A Ilustre Casa de Ramires, 1 vol. 1$00 Prosas Bárbaras, 1 vol. $60 Contos, 1 vol. $60 Cartas de Inglaterra, 1 vol. $50 Ecos de Paris, 1 vol. $50 Cartas familiares e bilhetes postais de Paris, 1 vol. $50 As Minas de Salomão (tradução) $60 Notas Contemporâneas (ideias sôbre literatura e arte), 1 vol. 1$00 Ultimas páginas, 1 vol 1$00

*COELHO NETO*

Sertão, 1 vol. $60 A Bico de Pena, 1 vol. $70 Agua de Juventa, 1 vol. $70 Romanceiro, 1 vol. $50 Teatro, vol. I $80 Teatro, vol. II $40 Teatro vol. IV $50 Fabulário, 1 vol. $50 Jardim das Oliveiras, 1 vol. $50 Esfinge, 1 vol. $60 gravuras, 1 vol. $50 Inverno em Flor. 1 vol. $70 Mistérios do Natal, contos para crianças, 1 vol. $50 Morto (O), memórias de um fuzilado $60 Rei Negro (O), 1 vol. $80 Miragem, 1 vol. $60 Capital Federal, 1 vol. $60 Apólogos, contos para crianças, com A Conquista, 1 vol. $70 A Tormenta, 1 vol. $60 Tréva, 1 vol. $70 Banzo, 1 vol. $50 Teatro, vol. V. $50 O Turbilhão $70

[Figura: Guerra Junqueiro]

GUERRA JUNQUEIRO

PÁTRIA

Esta é a ditosa pátria minha amada.

Camões.

TERCEIRA EDIÇÃO

PORTO Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, editores—Rua das Carmelitas, 144

1915

Todos os direitos reservados

DO MESMO AUTOR

(Edições de LÉLO & IRMÃO)

A Velhice do Padre Eterno (edição profusamente ilustrada por Leal da Câmara), 1 vol. br. 1$00 A Vitória da França $10 Pátria, 3.^a edição, 1 vol. br. $80 Finis Patriae $30 O Crime $20 Lágrima $10 Oração ao Pão $12 Oração à Luz $20 Marcha do ódio $30

A ENTRAR NO PRÉLO:

Oração à Flor.—Oração ao Homem.

A SAIR BREVEMENTE:

Unidade do Sêr (estudo filosófico e scientífico).

PROPRIEDADE DOS EDITORES

A propriedade literária e artística está garantida em todos os países que aderiram á Convenção de Berne—(Em Portugal, pela lei de 18 de Março de 1911. No Brasil, pela lei n.^o 2577 de 17 de Janeiro de 1912).

Porto—Imprensa Moderna

_Á alma do meu amigo

Dr. José Falcão_

_Aos meus amigos

Basílio Teles

José Pereira de Sampaio_

ACTORES

Um doido.
O rei.
Magnus, duque de S. Vicente de Fóra.
Opiparus, príncipe d'Oiro Alegre.
Ciganus, marquês de Saltamontes.
Astrologus, cronista-mór de el-rei.
Iago, antigo cão de fila, dentes pôdres, obeso, gordura flácida.
Judas, cão mestiço de lôbo, carcunda, sarnento, olhar falso, injectado de bílis.
Veneno, fraldiqueirito anão, ladrinchador e lambareiro.

*PÁTRIA*

Noite de tormenta. Céu caliginoso, mar em fúria, ventanias trágicas, relâmpagos distantes. O castelo do rei à beira-mar. Sala de armas. Nos muros, entre panóplias, os retratos em pé da dinastia de Bragança. Agachados ao lume, os três cães familiares de el-rei,—Iago, Judas, Veneno. Entram Opiparus, Magnus e Ciganus. Sentam-se, afagando os cães. Magnus poisa na mesa um pergaminho com o sêlo rial. É o tratado com a Inglaterra.

SCENA I

CIGANUS, apontando o pergaminho e rindo:

Necrológio a assinar pelo defunto!

MAGNUS, com gravidade:

            É urgente:
Salvamo-nos…

OPIPARUS, acendendo um charuto:

            Perdendo a honra… felizmente!
Inda bem! inda bem! vai-se a ária das Quinas

MAGNUS, convicto:

Glorioso pendão sôbre um castelo em ruínas…

OPIPARUS:

O pendão! o pendão!… um trapo bicolor,
A que hoje o mundo limpa o nariz… por favor.

CIGANUS:

Emquanto a mim, que levem tudo, o reino em massa,
Pouco importa; o demónio é que o levem de graça.
Mas agora acabou-se!… e, em logar de protesto,
Vejamos antes se o ladrão nos compra o resto…
Um bom negócio… hein?!… manobrado com arte…

OPIPARUS, soprando o fumo do charuto:

Dou por cem libras, quem na quer? a minha parte…

MAGNUS, grandioso:

Quando d'ânimo leve o príncipe assim fala,
Não se queixem depois que a dinamite estala,
Nem se admirem de ver o país qualquer dia
Na mais desenfreada e tremenda anarquia!
Prudência! haja prudência, ao menos, meus senhores…
É grave a ocasião… gravíssima!… Rumores
De medonha tormenta andam no ar… Cuidado!
Não desanimo, é certo… Um povo que deu brado,
Uma nação heróica entre as nações do mundo,
Há-de viver… É longo o horizonte e é fecundo!…
Creio ainda no meu país, na minha terra!…
Guardo a esp'rança…

OPIPARUS:

            Bem sei, no Banco de Inglaterra…
A esp'rança e dois milhões em oiro, tudo à ordem…
Não é isto?…

MAGNUS, embaraçado:

            Exagêro… exagêro… Concordem…
Sim, concordem… pouco me resta e pouco valho…
Mas o suor duma vida inteira de trabalho…
Economias… bagatela… um nada… era mister…
No dia d'àmanhã, com filhos, com mulher…
Entendem, claro está… era preciso, emfim,
Segurança… Não me envergonho… Emquanto a mim,
Posso falar de cara alta… o meu passado…

OPIPARUS:

Se é mesmo a profissão do duque o ser honrado!
É o seu modo de vida, o seu ofício… Creio
Que é daí… que é daí que a fortuna lhe veio:
Ninguêm lho nega… O duque é dos bons, é dos puros…
E a virtude a render, a dignidade a juros
Acumulados… Francamente, eu noto, eu verifico
Que era caso de estar muitíssimo mais rico…
O duque foi modesto: a honra de espartano
Não a deu nem talvez a dois por cento ao ano!

MAGNUS, sorrindo constrangido:

Má língua!…

CIGANUS, com seriedade irónica:

            O nosso duque a ofender-se… que asneira!
O príncipe graceja… histórias… brincadeira…
À honradez do duque, inteiriça e macissa,
Todo o mundo lhe faz a devida justiça…
Mas vamos ao que importa,—ao bom pirata inglês…

MAGNUS:

El-rei assinará?… o que julga, marquês?

OPIPARUS:

El-rei nesse tratado é rei como Jesus,
E, portanto, vão ver que o assina de cruz.

CIGANUS:

Sem o ler. Quem duvída? Assinatura pronta!
Paris vale uma missa e Lisboa uma afronta.
E, em suma, concordemos nós que um mau reinado,
Por um bom pontapé, fica de graça, é dado.
A el-rei àmanhã nem lhe lembra. Tranqùilo,
Dormirá, jantará, pesará mais um kilo.
Uma bóia de enxúndia; um zero folgazão,
Bispote português com toucinho alemão,

OPIPARUS:

Sensualismo e patranha, indif'rença e vaidade,
Gabarola balofo e glutão, sem vontade,
Às vezes moralista, (acessos de moral,
Que lhe passam jantando e não nos fazem mal)
Eis el-rei. Um egoismo obeso, alegre e loiro,
Unto já de concurso e de medalha d'oiro.
Termina a dinastia; e Deus, que a fez tamanha,
Põe-lhe um ponto final de oito arrobas de banha…
Laus Deo!

MAGNUS:

            Que má língua! El-rei, coitado! uma criança,
Nem leve culpa tem nos encargos da herança…
Não se aprende num dia a governar um povo…
E em casos tais, em tal momento, um homem novo,
Habituado á lisonja, habituado ao prazer…
Maravilhas ninguêm as faz… não pode ser!…
El-rei é bom! El-rei é um espírito culto,
Ilustrado… Não digo, emfim, que seja um vulto,
Um talento, uma coisa grande de espantar;
Mostra, porêm, cordura, o que não é vulgar…
Cordura e senso… Eu falo e falo com razão…
Não minto… sou cortês, nunca fui cortesão!
Duque e plebeu… vim do trabalho honrado que magôa…
Não lisonjeio o povo e não adulo a C'roa.
Os defeitos d'el-rei?… Não me custa o dizê-lo:
Eu quisera maior int'resse… maior zêlo…
Mais idade, afinal… Deixem correr os anos,
E hão-de ver o arquetipo exemplar dos sob'ranos.

OPIPARUS, sorrindo:

Ingénua hipocrisia, duque… Olhe que el-rei
Conhece-nos a nós, como nós a el-rei…

CIGANUS:

Sabem? Dá-me cuidado el-rei… dá-me cuidado…
Melancolia… um ar de nojo… um ar de enfado…
Sem comer, sem dormir, não repousa um minuto,
E é raríssima a vez que êle acende um charuto.

OPIPARUS:

Indício bem pior: ha já seguramente
Três dias que não vai à caça e que não mente.
Ora, se el-rei não mente e não fuma e não caça,
É que não anda bom, não anda…

MAGNUS:

            Que desgraça!
Pudera! hão-de afligi-lo, e com toda a razão,
As tremendas calamidades da nação.
Cada hora um desastre, um infortúnio… Eu scismo,
Eu olho… e vejo perto o cairel dum abismo!

OPIPARUS:

Oh, nunca abismo algum tolheu el-rei, meu amo
De aldravar uma pêta ou de caçar um gamo.

CIGANUS:

E depois o cronista-mór, tonto e velhaco,
A insinuar-lhe, a embeber-lhe endróminas no caco,
Telepatias, bruxarias, judiarias
Do Livro das Visões, Sonhos e Profecias.
O que vale é que el-rei, um gordo hereditário,
Pesa de mais para profeta ou visionário.
Não me assusta…

MAGNUS, confidencial:

            Marquês… dum amigo a um amigo!
Entre nós… fale franco: a ordem corre p'rigo?…
O mal-estar… desassocêgo… uma aventura…
Os quarteis… Diga lá: julga a C'roa segura?…

CIGANUS:

Segura e bem segura. Equivocar-me hei,
No entretanto, parada feita: jógo ao rei!
Neste lance… No outro… A inspiração é vária,
E bem posso mudar para a carta contrária.

OPIPARUS:

De maneira que apenas eu, sublime idiota,
Guardo fidelidade ao rei nesta batota!
Alapardou-se em mim o dever e a virtude!
Quando o trono de Afonso Henriques se desgrude,
Eu cá vou com el-rei… Isto da pátria e lar
É boa fêmea, bom humor e bom jantar,
O ditoso torrão da pátria!… que imbecis!
No globo não há mais que uma pátria: Paris.
A nossa então, que choldra! Infecta mercearia,
Guimarães, Policarpo, Antunes, Braga & C.^a!
Um horror! um horror! Não temam que proteste,
Se emigrando me vejo livre de tal peste.
Fico por lá… não torno mais… fico de vez…
O que é preciso é bago… Ora, você, marquês,
Adorável canalha e salteador galante,
Não me deixa embarcar el-rei como um tunante,
El-rei que vai viver por côrtes estrangeiras,
Sem duas dúzias de milhões nas algibeiras…
Eu sou trinchante-mór, e conservo o lugar,
Havendo, claro está, faisões para trinchar!…

MAGNUS, imponente:

Incrível! No momento grave em que a Nação
Dorme (ou finge dormir!) à beira dum vulcão,
Nesta hora tremenda, hora talvez fatal,
Há quem graceje como em pleno carnaval!
E assim vamos alegremente, que loucura!
Cavando a todo o instante a própria sepultura…
No dia d'àmanhã ninguêm pensa, ninguêm!
Os resultados vê-los hão… caminham bem…
Divertem-se com fogo… Olhem que o fogo arde…
E extingui-lo depois (creiam-me) será tarde…
Já não é tempo… As lavaredas da fogueira
Abrasarão connosco a sociedade inteira!
A mim o que me indigna e ruborisa as faces
É ver o exemplo mau partir das altas classes,
Sem se lembrarem (doida e miserável gente!)
Que as vítimas seremos nós… infelizmente!
Não abalemos, galhofando, assim à tôa,
A égide do Scetro, o prestígio da C'roa!
Quando a desordem tudo infama e tudo ameaça,
A Rialeza é um penhor…

CIGANUS:

                        Destinado a ir à praça.
Questão d'anos, questão de mês ou questão d'hora,
Segundo ronde a ventania lá por fora…
Observemos o tempo… anda brusco, indeciso…
Não arme o diabo algum ciclone d'improviso!…
O trono, defendê-lo emquanto nos convenha;
Depois… trono sem pés já não é trono, é lenha.
Queima-se; e no braseiro alegre a chamejar
Cozinhamos os dois, meu duque, um bom jantar!…
O duque a horrorizar-se!… Eu conspiro em segrêdo…
Pode ouvir, pode ouvir… duque, não tenha mêdo!
A república infame, a república atroz,
Uma bela manhã será feita por nós,
Meu caro duque!… E o presidente…
Ora quem… ora quem, duque de S. Vicente?!…
O duque! Não há outro, escusado é lembrar!…
Um prestígio europeu… a independência… o ar…
Não há outro!… d'arromba!… à verdadeira altura!…
Todas as condições, todas… até figura!
Parece um rei! que nem já sei como se move
Com as trinta gran-cruzes…

MAGNUS, lisonjeado:

Upa!… trinta e nove!

CIGANUS:

Trinta e nove gran-cruzes, hãn! no mesmo peito…
Caramba, duque!… é bem bonito… é de respeito!
E o povo gosta, deixe lá… De mais a mais
Duque e plebeu…

MAGNUS, com dignidade:

            Não me envergonho de meus pais!
Filho dum alfaiate… Honra-me a origem!…

CIGANUS:

                                    Sei…
E nobreza tão nobreza é que a não dá el-rei.
Nobreza d'alma! Emfim, meu duque, nem pintado
Se encontraria igual para chefe do Estado!
Queira ou não queira, pois, o meu ilustre amigo…

MAGNUS, solene:

Eu lhe digo, marquês… eu lhe digo… eu lhe digo…
Devagar… devagar… Um problema importante,
Que exige reflexão, maturação bastante…
Sou monárquico… Fui-o sempre!… Inda hoje creio
O trono liberal o mais sólido esteio
Do Progresso e da Paz e a melhor garantia
Da justa, verdadeira e sã Democracia.
Não precisamos outras leis… Há leis à farta!
Executem-nas!… Basta executar a Carta!
Cumpram as leis!… Dentro da Carta, realmente,
Cabem inda à vontade o futuro e o presente…
É êste o meu critério… e já agora não mudo!…
Honrosas convicções, filhas dalgum estudo
E muitas brancas… Mas, emfim, se as loucuras alheias…
Desvairamentos… circunstâncias europeias…
Derem de si em conclusão regímen novo,
Acatarei submisso os ditames do Povo!
Monárquico e leal… no entretanto, marquês,
Antes de tudo, sou e serei português!!
Ao bem da Pátria em caso urgente, em horas críticas
Não duvido imolar opiniões políticas!
Darei a vida até, quando preciso fôr!!

CIGANUS:

El-rei que chega…

MAGNUS, curvando-se:

Meu Senhor!

CIGANUS:

Meu Senhor!

OPIPARUS:

Meu Senhor!

SCENA II

*Os mesmos e o rei*

Os três cães acodem festivos ao monarca

O REI, sombrio e melancólico, repelindo os cães:

Que noite!

CIGANUS:

Vendaval furioso!

OPIPARUS:

                        Noite rara
Para uma ceia de champagne e mulher cara…

O REI:

Faz-me nervoso a noite…

MAGNUS:

                        É da atmosfera espessa…
Eléctrica… Atordôa e desvaira a cabeça…

O REI, apontando o pergaminho:

O tratado?

CIGANUS:

O tratado.

MAGNUS:

Um pouco duro… El-rei…

O REI, indiferente:

Seja o que fôr… seja o que fôr… assinarei…

Vai ao balcão, ficando abstracto, a olhar a noite.

MAGNUS:

Não há dúvida; el-rei anda enfêrmo… é evidente…

OPIPARUS:

Galhofeiro, jovial, bom humor permanente,
Scéptico, dando ao demo as paixões e a tristeza,
Caçador, toireador, conviva heróico à mesa…
Pobre do rei… quem o diria!… que mudança!
Oxalá que a loucura, a vir, lhe venha mansa…

CIGANUS:

O ratão do cronista é que o tem posto assim,
Com mistérios em grego e aranzeis em latim…

Trovão formidável.

O REI, voltando do balcão:

Que noite!

MAGNUS:

Uma trovoada enorme!… Causa horror!…

Ciganus desdobra o pergaminho e vai ler o tratado.

O REI:

Leitura inútil… Deixa lá… Seja o que fôr…
Seja o que fôr… adeus!… assinarei…

CIGANUS:

                                    Perfeito.
Não há balas? Resignação; não há direito.
Se entra no Tejo de surpresa um coiraçado,
Quem vai metê-lo ao fundo, quem? A nau do Estado
Com bispos, generais, bachareis, amanuenses,
Pianos, pulgas, mangas d'alpaca e mais pertences?
A esquadra? vai a esquadra rial, um meio cento
De alcatruzes, bidés e banheiras d'assento?
Sacrificar a vida à honra? Acho coragem,
Mas a honra sem vida é de pouca vantagem;
Não se goza, não vale a pena. A vida é boa…
Defendamos a vida… e salvemos a C'roa.

MAGNUS, eloqùente:

E salvemos a C'roa! A vida eu da-la-ia
Pela honra da Pátria e pela Monarquia!
Somos filhos de heróis! mas nesta conjuntura
A resistência é um crime grave, uma loucura!
Um país decadente, isolado na Europa,
Sem recursos alguns, sem marinha e sem tropa,
Tendo no flanco, àlerta, o velho leão de Espanha,
Arrojar doidamente a luva à Gran-Bretanha,
Oh, pelo amor de Deus! digam-me lá quem há-de
Assumir uma tal responsabilidade?!!…
A pátria de Albuquerque, a pátria de Camões
Abolida era emfim do mapa das nações!
Guardemos nobremente uma atitude calma!
Recolhamos a dôr ao íntimo da alma,
E o castigo do insulto, o prazer da vingança
A nossos netos o leguemos, como herança!
Que Deus há-de punir (é justiceiro e é bom)
A moderna Cartago, a triunfante Albion!
Saiba, porêm, El-rei que o brio português
O defendemos nós ante o leopardo inglês,
À fôrça de critério e sisuda energia,
No campo do direito e da diplomacia!
Com as Instituìções por norte e por escudo,
Fizemos tudo quanto era possível!—tudo!!

OPIPARUS, ao rei, galhofando:

Quer o duque dizer que ambiciona o colar
Do Elefante Vermelho e do Pavão Solar…

MAGNUS, com indignação e nobreza:

Não requeiro mercê tão grandiosa e tão alta,
Conquanto seja ela a que ainda me falta.
O Elefante e o Pavão! Um colar e uma cruz
A que sómente os reis e os príncipes tem jus!
Não ouso… Mas, se um dia a gran munificência
Da C'roa houver por bem, (florão duma existência!)
Conceder-ma!……………………………..
Que, deixem-mo explicar: eu, medalhas e fitas,
Não é por ser vaidoso ou por serem bonitas,
Que as ostento… Plebeu nasci, de bom quilate…
Não o escondo a ninguêm: meu pai era alfaiate.
Ora, num peito humilde e franco uma medalha,
Como que atesta e diz ao homem que trabalha,
Ao povo que moireja em seu ofício duro,
Que hoje na monarquia é dado ao mais obscuro
Guindar-se à posição mais alta e mais egrégia,
Por direito,—que é nosso! e por mercê,—que é régia!
Escritura de luz que em vivo amplexo abarca
O Povo e a Sob'rania augusta do Monarca!

CIGANUS:

Meu caro duque, muito bem… Vamos agora,
Resolvida a questão, assinar sem demora
O pergaminho…

O REI:

Assinarei… Deixem ficar.

CIGANUS:

E emquanto às convulsões do leão popular,
Como diria o nobre duque, afoitamente
Respondo pelo bicho: um cão ladrando à gente:
Dobrei guardas, minei as pontes à cautela,
E fica a artilharia em volta à cidadela.
Não há p'rigo nenhum. Durma El-rei sem temor.
Boa noite, Senhor…

MAGNUS, curvando-se até ao chão:

Meu Senhor!

OPIPARUS:

Meu Senhor…

Saem os três.

MAGNUS, vai pensando:

Ora, se o filho do alfaiate qualquer dia
Inaugurava ainda a quinta dinastia!…
Eu sentado no trono!… Eu rei de Portugal!!…
Que, rei ou presidente, emfim é tudo igual…
Muita finura agora e muita vigilância,
Observando e aguardando as coisas a distância!…
Magnus! lume no ôlho e não te prejudiques…
Eu suceder, caramba! a D. Afonso Henriques!!…

SCENA III

*O rei, só*

O temporal aumenta. Relâmpagos e trovões.

O REI:

Não me lembra de ver uma tormenta assim!…
Que demónio de noite!… Ando fora de mim,
Desvairado… Um veneno oculto me afogueia,
Que há três dias que trago uma cabeça alheia
Nestes ombros… Que inferno!… É esquisito… é esquisito!…
Foi beberagem má… droga horrenda… acredito!
Uns vágados de louco, um frenesim medonho…
Sonharei, porventura, e será tudo um sonho?!…
Acordado ando eu, acordado a valer,
Que há três noites não pude ainda adormecer!…
Peçonha?… não!… A causa disto… a causa é o doido
O raio do fantasma, êsse maldito doido
Que me persegue!… tenho mêdo… e vergonha em dizê-lo!…
E depois o cronista-mór, um pesadelo
Ambulante, um maluco agoireiro e scismático,
Com aquelas visões estranhas de lunático,
Faz-me mal… faz-me mal… Que o leve o diabo… O certo
É que há dentro de mim desarranjo encoberto…
Uma insónia danada… um nervoso… um fastio…
Misantropia tal que não bebo, nem rio,
Nem de toiros me lembro emfim, nem de ir à caça!
Mau sangue… Árvore má… Podre… podre… É de raça!…

UMA VOZ TRAGICA, na escuridão:

Ai, na batalha destroçado,
Ai, na batalha destroçado,
Rôta a armadura, ensangùentado,
Debaixo duma árvore funesta
Fui-me deitar, fui-me deitar… dormir a sésta…
Fui-me deitar… dormi… dormi…
Endoudeci, enlouqueci
Debaixo duma árvore funesta!…

Uivam os cães, espavoridos e furiosos.

O REI:

O doido! o doido! o doido!… Há três noites a fio
Que êste vélho alienado, horroroso e sombrio,
À volta do palácio, ave negra d'azar,
Anda a cantar!… anda a cantar!… anda a cantar!…

Indo ao balcão:

Ei-lo!

(Ao clarão dum relâmpago, destaca-se, de súbito, fronteiro ào castelo o vulto trágico do doido. Um gigante. Rôto, cadavérico, longa barba esquálida, olhos profundos de alucinado, agitando no ar um bordão em círculos de agoiro, cabalísticos. O manto esvoaça-lhe tumultuoso, restos duma bandeira vélha ou dum sudário).

      Morro de mêdo!… Há não sei que de extravagante,
De inquietador, na voz, nas feições, no semblante
Dêste doido… Será um doido porventura?…
Mal a sua voz acorda, rouca, a noite escura,
Logo os cães a ladrar, a ladrar e a gemer,
Como se entrasse a morte aqui sem eu a ver!…
Que raio de fantasma!… É coisa de bruxedo…
Não ando em mim… não ando bom, tremo de mêdo…
Esquisito!…

Sentando-se ao fogão:

      Ora adeus! É do tempo… é da lua…
Nervoso… Passa… Mas, se o diabo continua
Com as trovas de agoiro, eu forneço-lhe o mote,
Mandando-o escorraçar a cacete e a chicote.

Vendo o pergaminho sôbre a mesa:

O tratado… Uma léria… Enfastia-me já…
Mais preto menos preto, a mim que se me dá?!
Por via agora duma horrenda pretalhada
Mil barafundas e alvorotos… Que massada!
Que massada!… Fazem-me doido, não resisto…

Desenrolando o pergaminho:

É assiná-lo, e pronto! acabemos com isto!

Lendo alto:

«Eu, rei de Portugal, súbdito inglês, declaro
Que à nobre imperatriz das Índias e ao preclaro
Lord Salisbury entrego os restos duma herança
Que dum povo ficou à casa de Bragança,
Dando-me, em volta, a mim e ao príncipe da Beira
A desonra, a abjecção, o trono… e a Jarreteira.»
Cáspite! um pouco forte… Ora adeus!… uma história…
Chalaças… Devo a c'roa à raínha Vitória!

O DOIDO, na escuridão:

Tive castelos, fortalezas pelo mundo…
Não tenho casa, não tenho pão!…
Tive navios… milhões de frotas… Mar profundo,
Onde é que estão?… onde é que estão?!…
Tive uma espada… Ah, como um raio, ardia, ardia
Na minha mão!…
Quem ma levou? quem ma trocou, quando eu dormia,
Por um bordão?!…
E tive um nome… um nome grande… e clamo e clamo,
Que expiação!
A perguntar, a perguntar como me chamo!…
Como me chamo? Como me chamo?…
Ai! não me lembro!… perdi o nome na escuridão!…

O REI, desvairado, erguendo-se:

O doido!… Aquela voz de fantasma titânico
Gela-me o sangue e petrifica-me de pânico!
Porque?… Ignoro… O mesmo instinto singular,
Que faz ladrar os cães, mal o ouvem cantar…
Parece-me um algoz, um carrasco sangrento
D'alêm campa, a marchar no escuro a passo lento,
Direito a mim!… Lá vem!… lá vem vindo… não tarda!…
Quem me defende?… a minha côrte? a minha guarda?
A minha guarda!… a minha côrte!… Ah, bons amigos,
Como hei-de crer em saltimbancos e em mendigos,

Sentando-se ao fogão, junto dos cães:

Se nem mesmo nos cães tenho confiança já!…

Os três cães, agachando-se-lhe aos pés, acariciam-no e lambem-no.

O REI, enxotando Iago bruscamente:

Iago… Iago!… Então… basta de festas, vá!…
Safado! cachorro imundo!… Olhem o odre
De gordura, já meio leso e meio podre!
Biltre! À fôrça de comesainas e de enchentes
Emprenhou-te a barriga e caíram-te os dentes!
As unhas foi meu pai quem tas cortou de vez…
Já nem és cão… és porco; e inda em porco és má rês!
E lembrar-me eu de o ver, canzarrão duro e bruto,
O ventre magro, o olhar em sangue, o pêlo hirsuto,
Capaz de trincar ferro e mastigar cascalho!…
E ei-lo agora: poltrão! ventrudo-mór! bandalho!

Iago redobra de festas. O rei dá-lhe um pontapé.

O bandalho! o bandalho!…

                                    E êste Judas esperto,
Êste Judas, filho de lôba e cão incerto!…
Um chacal remeloso e sarnento e pelado,
Todo carcunda, esguio e vêsgo, a olhar de lado!…
E acredita, o pandilha sorna, o safardana,
Sempre a beijar-me os pés, sempre a tossir de esgana,
Que me ilude!… Cachorro!… Ora diz lá, meu traste:
Por quanto hás-de vender El-rei? já calculaste?…
E um Veneno, que é tão pequeno e que é tão mau!
Fraldiqueiro e feroz, pulgasita e lacrau!
Com ganas de trincar a humanidade inteira,
Vai trincando pasteis e barrigas de freira…

Erguendo-se:

E são três cães, três cães! Iago, Judas, Veneno,
Um odre imundo, um chacal torto e um rato obsceno,
O meu amparo! Que vergonha!… Ao que eu cheguei!…
Três podengos de esquina a tutelar um rei!
Mas, que demónio! sou injusto… a verdade, a verdade
É que guardam o prédio e fazem-me a vontade…
Por amor à ração e não amor ao dono?
Inda bem…. inda bem… tem de salvar o trono,
Se quiserem jantar… perdida a monarquia,
Adeus o regabofe e adeus a conesia!
Por isso estão, como dragões, de sentinela
Junto do rei, junto da copa e da gamela.
Defendem-me. E eu ainda os insulto!… coitados!
Mandriões e glutões, gostam de bons bocados…
Tambêm eu… Porque os hei-de, afinal, descompor?
É da bílis, da inquietação, do mau humor
Em que eu ando… Nem sei… que demónio! foi praga…
Raios partam o doido e essa abantesma aziaga
Do cronista!… Não há que ver, fazem-me tonto!…

Vendo o pergaminho:

Mais esta geringonça inda por cima!

Indo a assinar:

Pronto!

O DOIDO, na escuridão

Ai, a minh'alma anda perdida, anda perdida
Ou pela terra, ou pelo ar ou pelo mar…
Ai não sei dela… ai não sei dela… anda perdida,
E eu há mil anos correndo o mundo sem na encontrar!…
Pergunto às ondas, dizem-me as ondas:
—Pergunta ao luar…—
E a lua triste, branca e gelada,
Não me diz nada… não me diz nada…
Põe-se a chorar!
Pergunto aos lôbos, pergunto aos ninhos,
E nem as feras, nem os passarinhos
Me dizem onde habita, em que logar!…
Sangram-me os pés das fragas dos caminhos…
Não tenho alma, não tenho pátria, não tenho lar!…
Ai, quanta vez! ai, quanta vez!
Não passará talvez
A minh'alma por mim sem me falar!
Quem reconhece o cavaleiro antigo
Neste mendigo
Rôto e doido… quem há-de adivinhar?!…
Adivinhava ela… adivinhava!…
O cão no escuro, pela serra brava,
Não vai direito ao dono a farejar?
Adivinhava… É que está presa… é que está presa!
Ontem sonhei… (lembro-me agora!) que está presa
Naquela bruta fortaleza,
Numa cova sem luz, num buraco sem ar,
E que os carrascos esta noite, de surpresa,
A vão matar! a vão matar! a vão matar!…
…………………………………..
Por isso o mar anda a rezar!…
Por isso a lua desmaiada,
Sem dizer nada… sem dizer nada…
A olhar p'ra mim, branca de dor, fica a chorar!…

    Ribombam trovões, fusilam relâmpagos. Os cães, espavoridos, ululam
    sinistramente.

O REI, alucinado, clamando:

É demais! é demais!… Põe-me o caco do avesso!…
Um frenesim… Que fúria!… irrita-me… endoideço…
E anda às soltas êste ladrão dêste espantalho!…
Eu já o ensino, já o arranjo… um bom vergalho…
Marquês! marquês! marquês!

SCENA IV

*O rei, Opiparus e Ciganus*, acudindo

OPIPARUS:

Meu Senhor!…

CIGANUS:

Meu Senhor!…

O REI, alucinado:

Vão-no prender!… vão-no prender!… Um salteador…
Tragam-mo aqui aos pés, de rastros, maniatado!…
Tragam-no aqui!…

OPIPARUS, à parte:

El-rei endoideceu, coitado!

CIGANUS:

Meu Senhor! meu Senhor, que indignação!… Dizei,
Alguem desacatou a pessoa d'el-rei,
Por acaso?

O REI:

Um fantasma louco entre o arvoredo…

OPIPARUS:

Um fantasma?!… Ilusão… O ar atordôa…

CIGANUS:

                                                Mêdo
De que? de agoiros infantis, de sonhos vagos?
Com ministros leais e escudeiros bem pagos,
Que teme el-rei?!…

O REI:

                        Não foi vertigem, não foi sonho…
Um brutamontes alienado, um gigante medonho
Que me não deixa… Quero vê-lo… Ide prendê-lo… andai…

CIGANUS:

Mas que fantasma é êsse aterrador?

O REI, levando-os ao balcão e apontando:

                                                Olhai!
Alêm!… alêm!… alêm!…

CIGANUS:

                                    Strambótica figura!…
É singular… é singular…

OPIPARUS:

                              Crime ou loucura…
Por certo um doido…

O REI:

                        Há já três noites, sem descanso,
Uivando loas sôbre loas…

OPIPARUS:

Doido manso…

O REI:

Ide prendê-lo!… amordaçai-o, maniatai-o!
Não me larga esta insónia há três noites!… Um raio
Dum profeta a grunhir cantochões de defuntos!…
Boa carga de pau… bom marmeleiro aos untos…
Mas vejam lá que o diabo às vezes, com a telha,
Não arme algum chinfrim… Peguem-no de cernelha!

SCENA V

O rei, inquieto, preocupado, senta-se ao fogão. Os cães abeiram-se, uivando medrosos. Redobra a tormenta. Pestanejam, contínuos, relâmpagos formidáveis.

O DOIDO, no escuro, em voz plangente de embalar crianças:

Os vivos tem mêdo aos mortos,
Que andam de noite ao luar…
Fantasmas de mortos
São enganos mortos…
Deixem-nos andar… deixem-nos andar!…

Os vivos tem mêdo aos mortos,
Que andam sonhando a penar…
Quimeras de mortos
São desejos mortos…
Deixem-nos sonhar… deixem-nos sonhar!…

Os vivos tem mêdo aos mortos,
Que andam cantando a chorar…
As canções dos mortos
São suspiros mortos…
Deixem-nos cantar… deixem-nos cantar!…

O REI:

O doido! o doido! o doido!

A MESMA VOZ, na escuridão:

Não lhes tenham mêdo… deixem-nos cantar…

SCENA VI

Entram Ciganus e Opiparus acompanhando o fantasma, em meio de escudeiros armados e com archotes. O doido aparece tal qual o descrevemos: enorme, cadavérico, envolto em farrapos, as longas barbas brancas flutuando. Numa das mãos o bordão. Na outra um vélho livro em pedaços. Lembra um doido e um profeta, D. Quixote e o rei Lear. O olhar, cavo e misterioso, é de sonâmbulo e de vidente. O rei empalidece como um sudário. Os cães ululam, furiosos e trémulos.

CIGANUS:

Eis o doido… É curioso êste Matusalem…
Como se chama? onde nasceu? de onde vem?
Ignora tudo… Canta e soluça…

OPIPARUS:

                                                De resto,
Não tem fúrias, nem anda armado: um doido honesto.

O REI:

Que estafermo!… que monstro!… Um espião, talvez…

OPIPARUS:

Deixou-se maniatar, prender, qual uma rês
Submissa… Não, um doido…

CIGANUS:

                                    Um doido extravagante…
Quem és? Despacha a língua… olha que estás diante
D'el-rei… Diz o teu nome…

OPIPARUS:

O teu nome, vilão!

O DOIDO, absorto:

Como me chamo… como me chamo?…
Ai! não me lembro… perdi o nome na escuridão…

CIGANUS:

Sempre a mesma resposta inalterável…

O REI:

                                                Diz
De donde vens? onde nasceste? em que país?
Nada temas… El-rei é bom, podes falar…

O DOIDO, sonâmbulo:

Não tenho alma… não tenho pátria… não tenho lar…

O REI:

Traz um livro na mão, reparai…

CIGANUS, tomando o volume, que o doido entrega, pesaroso:

                                                Deixa ver…
Deixa-mo ver… um livro antigo… Sabes ler?
Tu sabes ler?

OPIPARUS:

Anda, responde, não te encolhas…

CIGANUS, abrindo o livro:

Nem princípio, nem fim; trapos todas as fôlhas.

Folheando e lendo:

«Esta é a ditosa pátria minha amada… …………………………………. Alguns traidores houve algumas vezes… …………………………………. Porque essas honras vãs, êsse oiro puro Verdadeiro valor não dão… …………………………………. A que novos desastres determinas De levar êstes reinos, esta gente?… …………………………………. …………..apagada e vil triteza…»

O REI:

Parece verso…

CIGANUS, restituindo o livro:

                                    Um alfarrábio fedorento,
Coisa de prègador, talvez… cheira a convento…

CIGANUS:

Quem sabe se algum vélho ermitão alienado,
Dêsses que vivem sós, longe do povoado,
Em ermos alcantis ou cavernas de fera…

OPIPARUS:

Onde dormes?

O DOIDO:

            Dormir!… dormir!… Oh, quem me dera
Dormir!… Oh, quem me dera esta cabeça vaga,
Esta cabeça tonta, arrimá-la a uma fraga,
E quedar-me p'ra sempre esquecido no chão!…
E os mortos dormem… e eu morri… então… então
Porque não durmo?!…

    Vagueando os olhos esgazeados pelos retratos da dinastia de
    Bragança, e como que recordando-se gradualmente, em sonho, dum
    escuro passado, abolido e longínquo:

                        Olha os bandidos… os traidores!…
Bem nos conheço!… fôram êles… subtilmente

Rosnam os cães, enfurecidos.

Com drogas más e com venenos de serpente,
Sem eu saber, de noite e dia, a pouco a pouco,
Me levaram a alma e me tornaram louco…
Enlouqueceram-me, endoidaram-me os bandidos!…
A minha alma!… a minha alma!… Ouço gemidos…
São talvez dela… tem-na aqui encarcerada…
Onde estás, onde estás, alma desamparada?!…
Grita por mim!… onde é que estás?!… Ai, quero emfim
Ver-te comigo… Onde é que estás?!…

Os cães, truculentos, investem com êle. Resignado e com desprêzo:

Ah, cães danados… cães d'el-rei… mordei, mordei
Êste corpo sem alma!… Ah fôsse outrora… outrora!…
E ai dos cachorros e do dono!… Assim… agora…
Mordei, mordei, ladrai, despedaçai sem p'rigo
A minha carne e os meus andrajos de mendigo!…

CIGANUS:

Coitado! um noitibó maluco e mansarrão…

OPIPARUS:

Delírio de tristeza e de perseguição…

O REI:

Astrologus talvez o conheça…

CIGANUS:

                                    O farçante!
Prègador, impostor, mágico, nigromante,
Meio raposa e meio c'ruja…

O REI:

                        É tal e qual… perfeito…
Mas o demónio do mostrengo tem seu geito
Para enigmas… Quem sabe!… Ide-o chamar… talvez…

SCENA VII

Opiparus vai em procura do cronista. O doido, sonâmbulo, vagueia em tôrno do salão, contemplando os retratos. O rei ao lume, junto dos cães, segue-o com os olhos.

CIGANUS, meditando:

Bem complicado êste cronista!… Quem o fez
Teve artes de engendrar singular criatura,
Contraditória, ondeante, incerta, ambígua, obscura…
Há duas almas no mostrengo: a que arquitecta
Quimeras vãs e sonhos vãos, a do poeta
Lunático, imbecil, místico, iluminado,
Essa deixá-la andar, que me não dá cuidado!,
Mas a outra, a ambiciosa, a gulosa, a mesquinha,
A refalsada, (a verdadeira!) a igual à minha,
Essa mais devagar, Saltamontes… cautela!…
Ôlho nela… ôlho nela…
O rei é tudo, o rei fraco… êste cronista
Discursa bem… convem não o perder de vista…
Inútil. Afinal as duas almas ao cabo
Destroem-se uma à outra, é como Deus e o Diabo.
E emquanto que ambas a ferver, drogas contrárias,
Em mil combinações, imprevistas e várias,
Se desagregam, eu, tranqùilo e resoluto,
Como tenho uma só, imagino e executo.
Ah, o cronista ambíguo e magro e macilento
Não pasmarei de o ver ainda num convento…
Bem capaz de morrer, jejuando, ermitão…
A loucura subtil envolve-o…
                                                Que trovão!
Que relâmpago!… Brada o vento… ulula o mar…
E êste doido esquisito e singular, a olhar…
A olhar… Que leve o demo a noite e a ventania…

O REI, seguindo o doido com os olhos:

Pois agora embirrou! não larga a dinastia…

O DOIDO, absorto:

Fantasmas de mortos
São enganos mortos…
Não lhes tenham mêdo… deixem-nos sonhar…

SCENA VIII

Entram Opiparus e Astrologus.

O REI, ao cronista-mór:

                              Conheces porventura
Êste doido?

ASTROLOGUS:

Conheço.

O REI:

É doido?

ASTROLOGUS:

                                                Na figura,
Na voz, no olhar, em tudo o podeis ler, Senhor.

O REI:

E como endoideceu?

ASTROLOGUS:

De miséria e de dôr.

O REI:

Há muito?

ASTROLOGUS:

Vai fazer três séculos…

CIGANUS:

                                    A vista
Do espantalho endojou a mioleira ao cronista…

O REI:

Três séculos!… caramba! então que idade tem?
Mil anos?…

ASTROLOGUS:

Quási…

OPIPARUS:

Pronto! endoideceu tambêm!

ASTROLOGUS:

A mil não chega ainda; oitocentos…

CIGANUS:

                                    Coitado!
Endoideceu! doido varrido e confirmado!

O REI:

Gracejas?

ASTROLOGUS:

                  Não perdi a razão, nem gracejo…
Acaso, meu Senhor, não vedes, como eu vejo,
Neste gigante, em seu aspecto e seu fadário,
O quer que seja de extra-humano e de lendário?
Maior que nós, simples mortais, êste gigante
Foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
Seu torrão dilatou, inóspito montado,
Numa pátria… E que pátria! a mais formosa e linda
Que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro,
Hortas a rir, vergeis noivando em frutos d'oiro,
Trilos de rouxinóis, revoadas de andorinhas,
Nos vinhedos pombais, nos montes ermidinhas,
Gados nédios, colinas brancas, olorosas,
Cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas,
Selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
D'olivais, por nogais frautas de pegureiros,
Rios, noras gemendo, azenhas nas levadas,
Eiras de sonho, grutas de génios e de fadas,
Riso, abundância, amor, concórdia, juventude,
E entre a harmonia virgiliana um povo rude,
Um povo montanhês e heróico à beira-mar,
Sob a graça de Deus, a cantar e a lavrar!
Pátria feita lavrando e batalhando: Aldeias
Conchegadinhas sempre ao torreão de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
Por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas.
E a dar a fé, a dar vigor, a dar o alento,
Grimpas de catedrais, zimbórios de convento,
Campanários de igreja humilde, erguendo à luz,
Num abraço infinito, os dois braços da cruz!
E êle, o herói imortal duma empresa tamanha,
Em seu tuguriosinho alegre na montanha
Simples vivia,—paz grandiosa, augusta e mansa,
Sob o burel o arnês, junto do arado a lança.
Ao pálido esplendor do ocaso na arribana,
Di-lo-íeis, sentado à porta da choupana,
Ermitão misterioso, extático vidente,
Olhos no mar, a olhar sonambólicamente…
—«Águas sem fim! ondas sem fim!… Que mundos novos
De estranhas plantas e animais, de estranhos povos,
Ilhas verdes alêm… para alêm dessa bruma,
Diademadas de aurora, embaladas de espuma!…
Oh, quem fôra, através de ventos e procelas,
Numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas,
A demandar as ilhas d'oiro fulgurantes,
Onde sonham anões, onde vivem gigantes,
Onde há topázios e esmeraldas a granel,
Noites de Olimpo e beijos d'âmbar e de mel!»
E scismava e scismava… As nuvens eram frotas
Navegando em silêncio a paragens ignotas…
—«Ir com elas… fugir… fugir!…»—[~U]a manhã,
Louco, machado em punho, a golpes de titã
Abateu impiedoso o roble familiar,
Há mil anos guardando o colmo do seu lar.
Fez do tronco num dia uma barca veleira,
Um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira…
Manhã d'heróis… levantou ferro… e, visionário,
Sôbre as águas de Deus foi cumprir seu fadário.
Multidões acudindo ululavam de espanto.
Vélhos de barbas centenárias, rosto em pranto,
Braços hirtos de dor, chamavam-no… Jàmais!
Não voltaria mais!… oh, jàmais… nunca mais!…
E a barquinha, galgando a vastidão imensa,
Ia como encantada e levada suspensa
Para a quimera astral, a músicas de Orfeus…
O seu rumo era a luz, seu piloto era Deus!
Anos depois volvia à mesma praia emfim
Uma galera d'oiro e ébano e marfim,
Atulhando, a estoirar, o profundo porão
Diamantes de Golconda e rubins de Ceilão.
Naiades e tritões e ninfas, ao de leve,
Moviam-na a cantar sôbre espáduas de neve.
No estandarte uma cruz esquartelando a esfera;
E Vénus, voluptuosa, à proa da galera

Com o anjo cristão, virgem risonha e nua,
A mamar alvorada em seus peitos de lua!…
O argonauta imortal, quimérico gigante,
Voltava dos confins da epopeia radiante,
Estasiados ainda os olhos vagabundos
D'astros de novos céus, floras de novos mundos!

Epopeia inaudita! Herói, êle a viveu,
Sonhador, a cantou: Éschilo e Prometeu!
Inda em hinos de bronze, em estrofes marmóreas
Vibra eterno o clangor dessas passadas glórias…
Mas a glória entontece e mata… Deslumbrado,
Trocou por armas d'oiro as armas de soldado,
Vestiu veludo e sêda e lhamas rutilantes,
Estrelou de rubins, aljófares, diamantes
Sua espada de côrte e seu gibão de gala,
E, em vez do catre duro e pão negro de rala,
As molesas do Oriente e as orgias faustosas,
Com baixelas d'Olimpo e emanações de rosas…
Perdida a antiga fé, morta a virtude antiga,
Seu ânimo d'herói, caldeado na fadiga
De mil empresas, mil combates de titãs,
Domaram-no por fim braços de cortesãs.
Com o ferro vencera o oiro; em desagravo,
O oiro, que é mau, venceu-o a êle, tornando-o escravo.
Ingrato abandonara o teto paternal,
Em cuja mesa à ceia aldeã, herói frugal,
Eram de sua estreme e rústica lavoira
O pão moreno, o vinho claro e a fruta loira.
Deixou morrer o armento; e campos e vinhedos
Cobriram-se de tojo, ortigas e silvedos.
Em seus castelos e palácios rendilhados,
Sôbre leitos de arminho e veludo e brocados,
Entre beijos de harem e pompas de rajá,
Desfalecera o velho herói, caduco já.
Mas era bravo ainda, e por vezes nas veias,
Acordava-lhe o sangue, alvorando epopeias…
Num ímpeto de febre, aceso, arrebatado
Na visão deslumbrante e fulva do passado,
Ergueu-se um dia, louco e triste, alma quimerica,
Olhos em brasa a arder na face cadavérica…
Aparelhou galeões, velas brancas arfantes,
Cavaleiros aos mil, juvenis e brilhantes,
Galopando a cantar, descuidados e ledos
Lanças na mão, a pluma ao vento, aneis nos dedos,
Cada bôca uma flor, cada arma um tesoiro,
Rodelas d'oiro, arnezes d'oiro, espadas d'oiro,
Pedrarias astrais em setins e em veludos,
Drapejar de pendões, reverberos de escudos,
E as trombetas varando o céu leve de anil
Co'o estridente clangor do seu furor febril!
E, olhos em brasa a arder na face cadavérica,
Lá partiu, lá partiu, alma errante e quimérica,
À epopeia da glória, ao sonho aventureiro,
Ao sonho lindo… oh, sonho triste o derradeiro!…
Num mar d'areia, fogo em pó turbilhonando,
Sob o vitríolo da luz redardejando,
Entre as carnagens do combate desvairado,
Já trucidado, espostejado, aniquilado
Seu exército louco,—oh sonho louco e vão!—
O calmo herói, noite no olhar, gládio na mão,
Negro de fumo e pó, rubro de chama e sangue,
Os ilhais estoirando ao seu corcel exangue,
Arrojou-se, como um destino, erecto e forte,
À sangrenta hecatombe, à paz de Deus, à morte!
E a morte não no quis: exânime e desfeito,
De lançadas crivado o arnez, crivado o peito,
Sob o corcel tombou, por milagre inda vivo!
Levaram-no depois sem acôrdo e cativo.
Meio século preso e débil… De repente,
Num assomo de fúria e de cólera ardente,
Partiu grilhões, abriu o ergástulo fatal
E voltou livre, livre! ao seu torrão natal!…
Mas então, oh tristeza, oh desonra, oh desgraça!
Feras do mesmo sangue, homens da mesma raça
Envenenaram-no!…

Iago atira-se furioso ao cronista.

O REI, dando-lhe um pontapé:

                        Silêncio! deixa ouvir…
Tem cada uma êste cronista!…

Iago não obedece. Outro pontapé.

                                    Deixa ouvir!
E quem foi?… e quem foi?…