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Pátria

Chapter 31: SCENA XV
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About This Book

A long verse work that combines biting satire and intimate lyricism to portray a nation's moral and political decline. It stages allegorical scenes in court and public life where treaties, intrigue, and complacency expose corruption and social suffering, juxtaposing violent invective with tender prayers and reflective philosophical passages. Dramatic tableaux, symbolic figures, and lyrical interludes alternate with prophetic and elegiac tones, moving between anger at decay and a persistent yearning for moral renewal and collective redemption.

SCENA XV

O ESPECTRO DE D. PEDRO II, tipo de valentão de cavalhariças, brigão de estúrdias, sanguinário e crapuloso, sifilítico e bêbado:

Tu sabes escrever? Assina. Porque não?
Ora o grande poltrão,
Que é preciso borrar-se e andar de nágoas sujas,
P'ra lançar no papel, conho! três garatujas!
Mêdo de quem? Do povo? O povo com que lidas
É cavalo velhaco e de manhas sabidas.
Monta-lo com temor? Adeus! cospe-te fóra.
Mas, sentindo-te firme e nos ilhais a espora,
Cai-te em breve a mão e a preceito o governas.
E, se escabreia, ai dele! estoira-lo entre as pernas.
Vamos nós a saber, diz-me lá sem rodeios:
És homem? quer dizer:—tem-los bons?—tem-los cheios?
Meu irmão não os tinha,
E por isso ficou sem reino e sem raínha.
Para inimigos forca; ou antes emboscadas,
Despachando-os de vez a tiro e a cutiladas.
Pedem tais aventuras
Gente rija; hás mister de quadrilhas seguras:
Mulatos, valentões, brigões, ralé feroz,
Que te adivinhe o olhar, pronta à primeira voz.
Tive-os duros de lei! homens sem embaraços
Para estoirar, de frente, o diabo a clavinaços!
À nobreza mercês e favor… mas cautela!
Desconfia, vigia… e reparte com ela.
Emfim, guarda bem paga, álerta e satisfeita,
E atrás de cada muro um cão de lôbo à espreita.
E nada mais, e nada mais! gozar, gozar
À vontade e sem mêdo, até Deus te levar:
Correr toiros, domar corceis, adestrar fôrças,
Batidas pelo monte ao javali e às corças,
Mesa opulenta, vinho antigo, cama vasta,
E fêmeas boas e a granel, de toda a casta!
Mulherio de truz, às dúzias, sejam elas
Freiras ou barregãs, com marido ou donzelas.
E agora, adeus. Assina. Os ingleses, que diabo!
É quem nos vai guardando os fagotes, e ao cabo,
A trôco duns sertões com negros de má raça,
Mercam-nos inda a pinga e vestem-nos de graça!

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

Era a raínha uma sereia,
Corpo de neve… Ameia-a e desejei-a.
Meu irmão era o rei; sem dor e sem abalo,
Mandei matá-lo.
Arranquei-lhe do peito o coração:
Batia inda por ela… Dei-o a um cão.
E fomos para a igreja iluminada
Eu, meu irmão e a minha amada.
Nós a casar,
Êle a enterrar.
Quem me casou a mim
Disse-lhe a êle o último latim.
A sepultura
Tinha quarenta braças de fundura.
Despenhado o caixão, entulhou-se o coval
De pedra e cal.
Boas noites, irmão!…
Boas noites, irmão!…
E fui-me alegremente, oh, que ventura a minha!
A noivar co'a raínha.
Deitamo-nos na cama, apagámos a luz,
E ao irmos enlaçar, furiosos e nus,
Como doidas serpentes,
Os desejos ardentes
Abraçámos, horror! na escuridão,
Entre nós dois, amortalhado e morto, meu irmão!
Meu irmão! meu irmão!… Era êle… apalpeio-o…
Lá estava escancarada a facada no seio…
Meti-lhe dentro a mão…
Não achei coração…
Era êle! era êle! era êle!
Cuidei em no matar, sem me lembrar
Que já morrera!… Louca, a raínha tremia…
Quis atirá-lo ao chão… era de bronze! era de bronze, não podia.
Quisemos-nos erguer, fugir, fugir!… e de repente
Quedamo-nos os dois paralíticamente,
Ali imóveis, sem um gesto, sem um grito,
De sentinela toda a noite ao cadáver maldito!…
Oh, noite imensa!
Oh, noite imensa!
Oh, noite imensa!
Que eternidade!… Emfim, desmaiada e gelada,
Eis a alvorada!
Erguemo-nos do leito…
E o morto, aconchegando o sudário no peito,
Cravou em nós, indo-se embora,
Aquele olhar nocturno e triste que apavora!…
Fitamo-nos então os dois amantes:
Oh, que semblantes!
Nosso cabelo em desalinho,
Alvo de arminho,
Acusava dez séculos de dor!
Brando leito d'amor!… brando leito d'amor!…
Todas as noites depois dessa, todas, todas,
Vem meu irmão às minhas bodas!
Deita-se entre nós dois amortalhado
Até ser dia… Que noivado!… oh, que noivado!…
…………………………………………..
Não te quero ver mais, ó meu algoz, ó meu espectro!
Leva a raínha… leva a c'roa… leva o scetro…
Leva-me tudo e deixa-me dormir,
Dormir em paz!… dormir! dormir! dormir! dormir!…

SCENA XVI

O ESPECTRO DE D. JOAO V, velho, asqueroso, idiota, meio paralítico. Tartamudeia desconexamente, embrulha a ladaínha com a Martinhada, engole uma hóstia santa, depois uma pastilha afrodisíaca, geme, chora, dá um arrôto, baba-se e desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

Mora num convento, com onze mil freiras,
Um bode doirado, chamado Sultão:
São môças as monjas, loiras ou trigueiras,
E o bode frascário como um garanhão.
Ao dar meia noite, com fúria insensata,
Na tôrre da igreja dobra o carrilhão;
Martelam nos sinos badalos de prata,
De imunda, de horrível configuração!…
Milheiros de luzes, brandões macerados
Tremulam no templo… que imenso clarão!
Faíscam diamantes, lampejam brocados,
Incenso da Arábia vôa em turbilhão!
Os santos e as santas, alfaias e altares,
É tudo oiro virgem, que sintilação!
Crepitando fogos de gemas solares,
Topásios da Pérsia, rubins do Indostão.
Debaixo dum pálio de lhama purpúrea
Levanta-se um leito rútilo e pagão:
O leito do bode, Senhor da Luxúria,
Com mais pedrarias que o de Salomão.
Já o órgão rebôa, frementes e nuas,
As onze mil monjas vêm em procissão…
Os olhos de chama, trazeiros de luas,
Rezando palavras de abominação!…
Mitra coruscando, sêdas fulgurosas.
A cruz sôbre o peito, báculo na mão,
Conduz a teoria das monjas ansiosas,
Um bispo castrado, que é seu guardião.
O bode rebrame no leito de pluma…
Acercam-se as freiras… e o bispo capão
Entrega-as ao bode, dá-lhas uma a uma,
Com ar de respeito, com veneração…
São onze mil noivas, são onze mil bodas…
Formidavelmente gira o corrilhão…
E o monstro lascivo padreia-as a todas,
Num delírio tremens de fornicação!
Depois do execrando, bruto cevadoiro,
O bode, desfeito de devassidão,
Toma um semicúpio numa concha d'oiro,
Em água benzida pelo capelão.
E, sinos calados, extintas as luzes,
Entregues as freiras ao seu guardião,
Persigna-se o bode, fazendo três cruzes,
E em paz adormece como bom cristão.
E ao cabo duns meses, final de tais contos,
As monjas nas celas, com toda a razão,
Parem arcebispos, mitrados e prontos,
Exemplo mui alto de gran devoção!…

SCENA XVII

O ESPECTRO DE D. JOSÉ, que vem de manso, desconfiado, olhando à volta, como temendo o quer que seja. Depois, baixinho, ao ouvido do rei:

O marquês não está?… Vê lá… Guardas segrêdo?
Então assina… Adeus… pode vir… tenho mêdo!…

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

Diz o rei à amante: «Vem para os meus braços!»
—Ardem nos teus braços nódoas do meu sangue!…

«Vem para os meus braços, dorme no meu peito…»
—Ardem no teu peito nódoas do meu sangue!…

«Dorme no meu peito, junto dos meus lábios…»
—Ardem nos teus lábios nódoas do meu sangue!…

«Oh, que ideias loucas, meu amor doirado!…
Fui à caça aos lôbos, venho ensangùentado.»

Deitam-se na cama… Longe, ao pé do mar,
Centos de martelos, truz! a martelar!…

—Ai, levantam forcas!… Pesadelo horrendo!…
«Um bergantim d'oiro que te estão fazendo…»

Beija o rei a amante com lascivo ardor…
Vem da noite funda gritos de estertor…

—Matam-me os parentes!… bem lhes oiço os ais!…—
«São as rôlas, filha, pelos pinheirais…»

Beijam-se um ao outro, presos por abraços,
Sente-se nas trevas um mover de passos,

E entram degolados, arquejando arrancos,
Três fantasmas, vêde-os! com sudários brancos!…

SCENA XVIII

O ESPECTRO DE D. MARIA I, louca, furiosa, delirando:

Meu pai!… meu pai!… meu pai!… meu pai!…
Castigo eterno, chamas do inferno!…
Meu pai!… meu pai!…
Olha os diabos… olha os diabos…
Coriscos os cornos, serpentes os rabos!…
Ui! o marquês!… ui! o marquês!…
Num caldeirão em brasa, a derreter em chumbo, a ferver em pez!
Vão-me coser! já estou a arder! já estou a arder!…
Kyrie Eleyson! Kyrie Eleyson! Kyrie Eleyson!
Miserere nobis! ora pro nobis!
Jesus! Jesus! Jesus! Jesus!
Levem a purga!… levem a seringa!… não me quero purgar!
Não me quero purgar… não tenho ventre… sou feita de ar…
D. Rosa! D. Rosa! ó D. Rosa!!…
Acode depressa! anda depressa, que me deitam ao mar!…

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

Satanás, zombando, fez um rei de espadas,
Fez um rei de espadas com um cão tinhoso;
Com o cão tinhoso fez um sapo coxo;
Com o sapo coxo fez um porco bravo;
Com o porco bravo fez um bode d'oiro;
Com o bode d'oiro fez um corvo negro;
Com o corvo negro uma galinha doida…
Ko-ko-ro-có! Ka-ka-ra-cá?!…
A galinha doida que é que parirá?!…

SCENA XIX

O ESPECTRO DE D. JOAO VI:

Toca a sentar! deixa sentar esta carcassa,
Já roída do bicho e comida da traça!
Um corpo que pesou talvez seus dois quintais,
Ou mais,
Hoje é isto! olha lá, mira-me bem em tôrno:
Uns vinte arráteis d'osso e outros tantos de corno!
P'ra que diabo é que Deus fez a alma imortal,
Não me dirão?! O corpo, acho eu natural
Que engordasse e medrasse em paz na eterna glória;
Mas a alma! ora cebo! Uma alma incorpórea,
Sem bôca, sem nariz, sem barriga, sem nada,
Que não come um leitão, nem funga uma pitada,
Deus me perdôe a asneira, uma indrómina assim,
Inda que êle a engenhou, não me convêm a mim!
A morrer por morrer, antes a alma; em suma,
O desgôsto era leve, a perda era nenhuma.
E o corpo desalmado, escorreito e perfeito,
Êsse é que Deus com todo o geito
O devia levar, dando-lhe a eternidade,
P'ra comer como um porco e roncar como um frade.
Neste mundo em que'stou, nesta vida infinita,
Grande falta me faz a barriga, acredita!
Os miolos, já não… E, caso estranho, agora
Penso muito melhor do que pensava outrora…
Dão-me ideias! que espiga!… Atribuo tais factos
A andar-me na caveira uma porção de ratos.
Ideias!… Qual a ideia humana, por sublime,
Que se compare ou se aproxime
Dum peru com arroz, bem gordo e bem tostado?!
Que é a vida? jantar! E a morte? ser jantado!
Comer ou não comer, eis a eterna questão.
Mas comer com descanso e com satisfação.
Comer em paz; sem um remorso e sem fadigas.
Nada de inquietações mortais, nada de brigas!
Temor a Deus, mesa de abade, cama quente
E rir a gente!
Eu fui um infeliz como não há segundo,
Um malaventurado aos tombos pelo mundo!
A mulher uma cabra; os filhos um veneno;
Sustos; o hemorroidal, vê lá, desde pequeno!
E não parar! sempre em bolandas, sempre à tôa…
Que vida! E como a vida, apesar disso, é boa!
Oh, cantochões em Mafra!… oh, merendas no Alfeite!…
Oh, séstas de Queluz em Junho!… Que deleite!…
Manda ao demónio a guerra, a mulher e os cuidados!
Enfardela-me aí cem milhões de cruzados
Em peças d'oiro, assina o que tens de assinar,
Veste o capote, leva a c'roa e põe-te a andar!
Deixa os ingleses… Fracas bêstas!… raça vil!…
Muda-te p'ró Brasil… Muda-te p'ró Brasil!
Fruta maravilhosa e súbditos leais…
Eu, no teu caso, até não voltava cá mais.
E o povo, adeus!… que se governe… emfim, paciência…
E cá lhe fica, que mais quer? a Providência!…
…………………………………………………
Boas noites… É tarde… o sepulcro me chama…
Vou-me deitar… Que fria e triste a minha cama!
Gêlo e chumbo!… Os lençóis, farrapos com matéria,
Nem me tapam sequer os ossos, que miséria!
E depois sôbre mim, em cardumes, aos centos,
Pulgas da eternidade, os vermes fedorentos!
Ai, no jazigo escuro, a esfarelar-me em pó,
Consola-me uma ideia única, uma só:
Não tornar a sofrer (oh podridão calada!)
Nem de hemorróidas, nem de gases, nem de nada!…

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

Que noite escura! Que noite escura!
Bramem as ondas cavernosas…
A grande armada vai largar…
Oh, a armada do rei!… oh, as naus pavorosas
Na escuridão, turbilhonando, a baloiçar!…
São esquifes mortuários,
São féretros com velas de sudários,
Tumbas negras nas ondas a boiar!…
Ai que gemidos, que alaridos
De multidões na praia, olhando o mar!…
Lá vem o rei… lá vem a côrte… e luzes, luzes
De brandões, de tocheiros a sangrar…
Vai a embarcar?… vai a enterrar?… Não trazem cruzes,
Nem há sinos por mortos a dobrar…
Oh, a lúgubre, estranha comitiva
A bandada de espectros singular!…
É gente morta?… é gente viva?…
Procissões de defuntos a marchar!…
Cortesãos, cavaleiros e soldados,
Tudo esqueletos descarnados,
Olhos de treva e crânios de luar!…
Ladeiam côches fúnebres doirados…
São os côches d'El-Rei… vai a enterrar?…
Lá se apeiam as damas das liteiras…
Gestos de manequins, rir de caveiras…
Fitas e plumas sôltas pelo ar…
Olha a raínha, vem em braços, morta e doida.
Morta e doida a clamar que a vão matar!…
E o rei!… olhem o rei!… que rei de entrudo!…
Um porco em pé, com manto de veludo
E c'roa na cabeça, a andar, a andar!
Mas reparem… tem cornos! é cornudo!
Dois chavelhos de boi no seu logar!
Um rei, que é porco e tem chavelhos!
Um rei, que é porco e tem chavelhos!
Que fantasia! enlouqueci… ando a sonhar!…
Mas bem no vejo! eu bem no vejo,
C'roa de rei, tromba de porco e chifres no ar!…
………………………………………….
Cái de rastros, chorando, o povo inteiro,
Beija-lhe a côrte as patas e o trazeiro…
E êle a grunhir! e êle a roncar!…
………………………………………….
Lá vão as naus… lá vai o rei com seus tesoiros…
E lá ficam na praia, como agoiros,
As multidões soturnas a ulular!…
………………………………………….
………………………………………….
Olha uma águia rubra, uma águia bifronte,
Incendiando o horizonte,
A voar, a voar, a voar!…
Ai dos rebanhos!… ai dos rebanhos!…
Águia de extermínios, onde irás poisar?!

SCENA XX

O ESPECTRO DE D. MARIA II:

Inclina um rei perante um rei (somos iguais)
A realeza. Perante um vassalo, jàmais!
O monarca ao monarca (é irmão com irmão)
Dobra o orgulho sem infâmia; o rei ao povo, não!
Assina, e já! Príncipe vil, que se amedronte,
Usa, mas sem direito, um diadema na fronte.
Povo em rebelião, não é povo, é canalha.
Beija-te os pés?—indulto. Ergue o braço?—metralha.
Faltam soldados e clavinas? Pouco importa:
El-Rei de Espanha os mandará; tem-los à porta

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

Tremia a raínha de me ouvir cantar…
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas são asas, fazem-nos voar…
Mandou-me prender, mandou-me espancar.

E eu desatei a rir, eu desatei a rir,
E três dias cantei com mais três noites a seguir!…

Não dormia a raínha de me ouvir cantar…
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas são graças para não chorar…
Mandou-me prender, mandou-me enforcar.

Chegaram as tropas e eu, desarmado,
Zás! desbaratei-as com o meu cajado!

E pus-me a cantar! e pus-me a cantar!

Tremendo, a raínha disse então ao rei:
«Emquanto o não matem não descansarei.
Com teus cavaleiros vai-mo tu buscar,
Traz-mo aqui de rastros para o degolar.»

Veio o rei à frente dum grande estadão,
Zás! desbaratei-o com o meu bordão!
É de temer, é de temer
Um doido varrido com um pau na mão!…

E sempre a cantar! e sempre a cantar!

Então a raínha, vileza traiçoeira!
Chamou inimigos d'alêm da fronteira…
E tantos! e tantos!… Que havia de eu fazer?…
Quebrei de raiva o meu bordão e deixei-me prender…

Levado de rastros aos pés da raínha,
Cuspiu-me na cara!
Oh, vergonha minha! por fortuna minha,
Melhor me matara!… melhor me matara!…
O gôsto que teve durou-lhe bem pouco…
Foi ela que morreu!… foi ela que morreu!…
Vi-a passar já no caixão, ia a enterrar…
E sabeis o que eu fiz? (o que é ser louco!… o que é ser louco!…)
Desatei a chorar!…

SCENA XXI

O ESPECTRO DE D. LUIS

Que remédio, meu filho! assina tudo… assina tudo…
Glória, Pátria, Dever,
Bom de dizer!
Assina tudo e vai andando… vai andando…
Do mister de reinar, que Deus te deu em sorte,
Faz, como eu fiz, modo de vida e não de morte.
E a vida é boa!
A alegria do sangue, os regalos da C'roa,
A mulher, o charuto, o livro, o leito, a mesa,
Lista civil, paz e descanso… Com franqueza,
A vida é boa, e vale a pena de a gozar,
Como néctar precioso e raro,—devagar!
Com um pouco de astúcia, um pouco de bondade,
Covardia risonha e indolência de frade,
Conseguirás viver alegríssimamente
Até ser posto de escabeche em S. Vicente.
E, se o destino te arrancar o scetro, vai-te embora
Filosóficamente, sem demora,
Dedicando no exílio uns ócios eruditos
A traduzir em português os meus escritos…

Vae a saír e retrocede.

É verdade, Pedro faltou… faltou… não veio…
Pedro! meu pobre irmão! Acordei-o, chamei-o,
Quis levantar-se, ergueu a fronte, abriu o olhar,
Exalou um suspiro… e tombou a chorar!…

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

O reino é podre… o rei é podre…
Oh, que fedor! oh, que fedor!
Quando a planta apodrece, a podridão
Germina em margaridas pelo chão…
Quando apodrece a carne, a sepultura
Touca-se de verdura…
Lepras e pus, chagas e cancros
Dão jasmineiros, dão lírios brancos…
Mas do reino e do rei apodrecido,
Oh, que fedor! oh, que fedor!… que tem nascido?
Mais podridões a fermentar,
Envenenando a terra, envenenando o ar.
A gente morreu toda envenenada…
É côr de sangue a lua, é de crepe a alvorada!…
Desfolharam-se os bosques pelos montes,
Há nas rochas gangrena, há peçonha nas fontes!
Destruíram-se os ninhos
E emigraram, chorando, os passarinhos!
Vivo, só eu fiquei neste monturo
De lôdo escuro!
O reino é podre… o rei é podre… tudo é podre…
Oh, que fedor! oh, que fedor!…

O REI, volvendo a si, atónito e desordenado:

Olho e custa-me a crer!… tonto!… a cabeça vária,
À roda… Já nem sei… Que noite extraordinária!…
Que noite!… aparições, visões, trovões, um pandemónio
De inferneiras, de bruxarias do demónio!…
Eu 'starei doido ou 'stou sonhando?!… Que aventura! oh que aventura
Monstruosa!… Perco a razão… foge-me a vista…
O ladrão do maluco e o diabo do cronista
Deram-me volta à cachimónia, esfutricada
Já de tanto banzé e de tanta noitada!…
Quem pudesse dormir!…

Vendo o pergaminho:

                        Assinemos de vez
Esta léria…

Assinando e chamando:

Marquês!

Aterrado, em altos gritos:

                        Marquês! marquês! marquês!
Raios os partam! ninguêm ouve… tudo dorme!…
Sòzinho!!…

O DOIDO, na escuridão:

Oh, que fedor!… oh, que fedor!…

O REI:

                        Ah, o mostrengo enorme,
Eu lhe darei a cantilena!… Para agoiros,
Quatro estoiros à queima-roupa! quatro estoiros!

Surge o espectro de Nunalvares, vestido de monge carmelita. O rei desfalece de novo. Os cães investem, mas, diante do olhar sôbre-humano do condestável, recuam trémulos, como obedecendo a um fluído mágico.

O ESPECTRO DE NUNALVARES:

Por teus avós chamaste. Um falta ainda,
Falta a raíz da árvore de morte,
Que em ti, vergôntea exausta, expira e finda.

Oh, miseranda, lastimosa sorte,
A dêste coração desbaratado,
Que outrora se julgou tão puro e forte!

Deu com êle a gangrêna do pecado,
Qual um bicho escondido que apodrece
Um deleitoso fruto embalsamado.

Nada valem tenções, nem vale a prece:
É das obras que vem à criatura
O galardão e a pena que merece.

Não acuso de ingrata a sorte dura;
Volvo-me contra mim únicamente
Em meu desassossêgo e má ventura.

Tamanino inda eu era, inda inocente,
Alma cândida e pura, como a rosa
Aberta junto d'água ao sol nascente

Quando uma noite uma visão fermosa
Me aparece e me diz com voz divina,
Ao mesmo tempo clara e misteriosa:

«Li numa estrêla d'oiro a vária sina
Que a esforçadas, magnânimas empresas
E a feitos não obrados te destina.

Mas que valem altíssimas grandezas,
Mas que valem as pompas e as vitórias,
Se a mundano desejo andarem presas?!

Só da fé, só do bem quedam memórias;
Tudo o mais é poeira, um vão ruído,
Uns tumultos de sombras ilusórias…

Cavaleiroso coração ardido
A grande termo levará seus feitos,
Quando ponha em Jesus alma e sentido.

Melhor que duro arnez, defendem peitos
Virtude adamantina e graça clara,
Com que Deus abroquela os seus eleitos.

Sê casto como a luz beijando a seara,
Firme qual entre as ondas o rochedo,
Manso como ovelhinha em pedra d'ara.

E, como o sol d'Abril veste o arvoredo,
D'armas resplandecentes vestirás
O teu corpo d'herói, viçoso e ledo.

Só pela Pátria e Deus batalharás.
De tua larga mão caiam na terra,
Num gesto grande a beatitude e a paz.

Seja neve dos píncaros da serra
Teu limpo coração, bondoso e humano,
Quer na tranqùilidade, quer na guerra.

A tirania ao fim pune o tirano.
Contra o injusto volta-se a injustiça,
E a maldade é aos maus que faz o dano.

Arreda para longe ódio e cubiça;
Contra fero inimigo um bravo alento,
Contra amargura e dor alma submissa.

Viva dentro da carne o pensamento,
Na pureza da virgem confinada
Dentro da cela branca dum convento.

E a carne exultará transfigurada,
Qual a nuvem escura em céu ligeiro,
Em lhe batendo a luz da madrugada.

De tal guisa, vencendo-te primeiro,
A todos vencerás como um leão,
Formidável e nobre cavaleiro.

E de Cristo e da Pátria em defensão
Brilhará tua lança como um raio,
Mandará tua voz como um trovão!»

Assim falou (se me abalou julgai-o!)
A graciosa visão, que se desfez
Pouco a pouco em suavíssimo desmaio.

Donzel eu era já, quando outra vez
As mesmas falas ela, de improviso,
Me repete co'a mesma candidez.

Todo cheio de lágrimas e riso,
Num enlevo quedei, numa ansiedade,
Mais que da terra já, do paraíso.

E à celeste, benéfica deidade
Jurei suas razões maravilhosas
Puramente cumprir e de vontade.

Jurei que nunca minhas mãos culposas
Mulher manceba haviam de tocar,
Feita que fôra de luar e rosas.

Jurei, unido em Cristo à luz do altar,
Pôr batalha de morte a meus desejos
E meus vícios da carne assossegar.

Anos do mundo, breves ou sobejos,
Fadigações da vida tão mesquinha,
Com seus ais, com seu pranto, com seus beijos,

Tudo votei sem pena e bem asinha
À cruz do Redentor e à cruz da espada,
Ao meu Deus verdadeiro e à pátria minha,

Jurando guardar sempre, e bem guardada,
[~U]a alma pura em natureza pura,
Qual em âmbula d'oiro hóstia sagrada.

Ai, de mim! ai, de mim! faltei à jura!
Ai, de mim! ai, de mim! porque uma peste
Logo te não queimou, língua perjura?!

Ah, donosa visão, visão celeste,
Bem devera de ter descortinado
Naquelas altas falas que me deste,

Que eu, em vício d'amor sendo gerado,
Remiria na carne aborrecida
Pela grã penitência o grã pecado.

Madre senhora! ó madre estremecida!
Antes ficaras tu noiva e donzela,
E eu não abrisse o olhar à luz e à vida!

Ó padre carinhoso! ó madre bela!
Vossa culpa caíu no vosso fruto,
E, com a culpa amarga, o nojo dela!

Queixa não hei de vós; a mim imputo
Lástima e dano, que me só provêm
Dêste bichoso coração corrupto.

Por vós criado fui, como ninguêm;
Vós me guiastes com suave geito,
Desde menino a alma para o bem.

Remidor dum pecado eu fôra eleito;
Assim mo disse a cândida visão,
E mo escreveu com lágrimas no peito.

Quando tu, padre meu, alto varão,
Mulher me cometeste, logo ansioso
Se me agastou, nublado, o coração.

E toda a noite o arcanjo luminoso
Repetindo: Não deixes, filho meu,
Glória celestial por triste gôzo!

E a miséria da carne me venceu!
Ó padres! perdoai, chorai comigo,
Que o vosso algoz tirânico fui eu!

Eis aqui vosso algoz, vosso inimigo;
Por mim no purgatório estais sofrendo,
E eu sofro, alêm do meu, vosso castigo.

Oh, destino cruel! oh, caso horrendo!
A livrar-vos da falta me hei proposto,
E sou o Judas negro que vos vendo!

Nem pára aqui meu transe e meu desgôsto.
Como de olhar-me, ó sol deslumbrador,
Não se te muda em noite a côr do rosto?

Como não gelas, dize, de pavor,
Vendo que em fraco peito miserável
Cabe tromenta assim de nojo e dôr?!

Ó terra triste! ó céu inexorável!
Que ventre de mulher pariu um dia
Desaventura a esta assemilhável?!

Nobres guerras armei, como cumpria,
D'ânimo afoito a rudes castelhanos,
Desbaratando-os Deus por minha via.

Contra seu vão furor, contra seus danos,
Batalhei desde a alva alegradora,
Ao derribado ocaso de meus anos.

Sangue de irmãos verti… Vertido fôra
Novamente mil vezes, sem piedade,
Que alma não é de irmão alma traidora.

Pátria minha gostosa, quem não há-de,
Em risonho sabor, vida e fortuna
Dar por teu livramento e majestade!

Como a de fogo altíssima coluna
Vai do povo de Deus na dianteira,
Afim que se não perca ou se desuna,

Tal na frente das hostes, sobranceira,
Contra duro inimigo acovardado,
Tremeu sempre no ar minha bandeira.

É que nela Jesus ia pregado,
Jesus, rei das estrêlas, rei do mundo,
Meu capitão fermoso e sublimado.

Ordenara, porêm, o céu profundo,
Que em tal cometimento era mister
Carne sem nódoa e coração jucundo.

E estas mãos (ai do feito em que as puser!)
Tocado haviam já, tornadas lama,
Com vil desejo, em corpo de mulher.

Fôsse a Virgem celeste a minha dama,
Se, como Galaaz, herói invito,
Alcançar me propunha honrada fama.

Deus castigou-me o coração maldito:
Pois que sôbre êle ainda vem pesando
O carrêgo mortal do meu delito.

Ó cidadela da pureza, quando
Um vício te faz brecha, sem tardança,
Prestes os mais acodem galopando.

Em minha carne, um dia honesta e mansa,
Por onde entrou luxúria malfazeja,
Entrou ira e soberba, entrou vingança.

Inda me sangue o peito lagrimeja da boa e má tenção, que, desvairadas, Armaram nele horrífica peleja.

Oh, pelejas da alma encarniçadas!
São as outras uns jogos inocentes,
Com o furor das tuas comparadas.

Anjos d'asas de luz resplandecentes,
Séculos dia e noite a batalhar
Com demónios, com tigres, com serpentes!

Ah, nem ouso de espanto relembrar
Essa guerra feroz, que já não arde,
Entre meu crime duro e meu pezar…

Tão animoso, nela fui covarde;
Tão vencedor, a miúdo fui vencido,
E a vitória, se a hei, me chegou tarde.

Uma noite em que mais me vi perdido,
Com afincada raiva e crua sanha
Dos demónios ardentes combatido.

A visão me ressurge em forma estranha,
E em tão grande e mortal melancolia,
Que nunca em mim a houve assim tamanha.

Um longo véu de dó ela vestia,
Numa tal soledade e desconfôrto,
Que a disséreis a Virgem na Agonia.

Meiga, sem me falar, o olhar absorto
Pousou em mim então, como se fôsse
[~U]a madre encarando um filho morto.

No seio me verteu, divina e doce,
Lagrima d'oiro, e, com suspiro etéreo,
Silenciosa esmaiando, evaporou-se.

Ó lágrima de dôr, por que mistério
Súbitamente ao ânimo torvado
Me deste paz, clareza e refrigério?…

Todo eu me senti purificado:
Num ditoso sofrer o meu tromento,
Numa pena bemvinda o meu cuidado…

Tal o mísero rei, que vai sangrento
De perdida batalha, alfim se lança
Em ditoso e profundo acostamento.

Descobrira que a dôr é irmã da esp'rança;
E que ao alto perdão, no azul divino,
Só a humildade, a rastros, se abalança.

Já liberto de espírito malino,
Com as veras palavras de Jesus
Assentei de acordar o meu destino.

De mundanários bens fácil dispuz;
Que só virtude é oiro, e a mór grandeza
Da terra são três pregos numa cruz.

Dentro de mim, numa fogueira acesa,
Queimei glória e valor: não ficou nada
Mais que melancolia e que tristeza.

Parti a lança; pendurei a espada;
Com bordão de pastor ou de ceguinho,
Bem andamos de noite esta jornada.

Fama grande do mundo tão mesquinho,
Dando às trombetas com ardor, não vôa,
Onde vôa, cantando, um passarinho.

E onde há, ó meu Jesus, se a dor te crôa,
Se é teu vestido sangue e o vinho fel,
Pena digna de nós, que bem nos dôa?!

Sem escudo, sem cota, sem laudel,
Minha triste nudez arrecolhida
Numa samarra triste de burel,

Determinei findar miséria e vida
Lá em partes inóspitas, distantes,
Entre gente comum desconhecida.

Êstes olhos, que arderam relumbrantes,
Verteriam de dor sangue coalhado,
Qual os olhos de Job verteram d'antes.

Êstes pés, que no vício hão caminhado,
Manariam gangrêna, já desfeitos,
Como os pés de Jesus Crucificado.

Êstes braços, altivos de seus feitos,
De logar em logar, côdeas de pão
Buscariam, rendidos e sujeitos.

E esta abatida alma de cristão,
No cárcere da carne prisioneira,
À mingoa mór, à mór tribulação,

Gostosa sorriria e prazenteira,
Qual o bom lavrador, em vélha idade,
Sorri festivalmente ao pão na eira.

E, já em Deus o espírito e a vontade,
Me acolheria às solidões dum ermo,
Na derradeira angústia e pouquidade.

Lá houvera afinal benigno termo,
Se, em tão grande, humildosa desventura,
Prouvera a meu Jesus de conceder-mo.

D'El-Rei me veio o embargo; e na clausura
D'A que, chorando estrêlas, nos conforta,
Em silêncio, escondi minha amargura.

Vida do mundo, junto dessa porta,
Com o rouco fragor que tudo abala,
Aos pés, em sombra vã, me caíu morta.

Dir-se-ia que o mar perdera a fala,
E a terra se volvera em nuvemsinha,
Bastando um ai de dor a evaporá-la.

Já diversa era ali a pátria minha;
Que o trono do meu rei era uma cruz,
E o chão, banhado em sangue, o da raínha.

Ó Raínha da Angústia! ó Rei Jesus!
Venha a nós êsse império onde reinais,
Todo amor, todo esp'rança e todo luz!

Venham a nosso peito os vossos ais!
A nossas mãos, ó Cristo, os vossos cravos!
Maria, à nossa alma os teus punhais!

Venham a nós as chagas, que são favos!
Venham tua agonia e teu madeiro,
A nós, ó Rei do Céu, a teus escravos!

Dias de soledade e de mosteiro
Eu os vivi, na temerosa esp'rança
Da alva do meu dia derradeiro.

Esta dôr, que abrandou, que se fez mansa,
Ali chorou aos ais, como perdida
Num deserto, de noite, uma criança.

E oh, alívio da alma arrependida!
Quanto mais afincado era o tromento,
Mais nos ombros ligeira a cruz da vida!

Como no ar o vento sôbre o vento,
Como no mar a vaga sôbre a vaga,
Só na dôr tem a dôr sossegamento.

E com a fôlha nua duma adaga
Todo eu me prazia em revolvê-la
Dentro do coração a hedionda chaga!

Qual as tuas, Jesus, quisera eu vê-la,
De purpurina abrir-se numa rosa,
De inflamada acender-se numa estrêla.

Toda imunda, porêm, toda verdosa,
Só matéria escorria peçonhenta,
Só gangrêna letal, cadaverosa.

E eu a escarnava com a mão cruenta,
E eu lhe metia, para não sarar,
Carvões a arder na bôca pestilenta.

Mas a Virgem tristíssima, a chorar,
Lhe derramava, bálsamo divino,
O lumioso perdão daquele olhar.

Era assim, irmãmente cristalino,
O da visão angélica e suave,
Que amistosa me foi desde menino.

E, a tão cândida luz, meu pezar grave
Ia alvorando, como rocha bruta,
Que pouco a pouco se fizesse em ave.

Já da úlcera ardente, quási enxuta,
Manava um soro apenas, filho ainda,
De podridão tão negra e tão corrupta.

Hora do livramento, hora bemvinda,
Uma noite, em um sonho d'esplendor,
Ma predizeu, chorando, a Virgem linda.

E, abraçando e beijando o Redentor,
Sem angústia enfadosa, sem quexume,
Dei a alma nas mãos do Criador.

Esbulhada de vício e de azedume,
Às regiões celestes foi voando,
Como pálida luz solta do lume.

Numa névoa, a boiar, quedou sonhando:
Sonho de dôr feliz, dôr sem memória,
Névoa d'ante-manhã que vem raiando.

Não era ainda ali perpétua glória;
Mas falecera já da vida ausente
A remembrança amarga e merencórea.

Sono d'alma levíssimo, inocente,
Em músicas de estrêlas embalado,
Quem o dormir pudera eternamente!

E um véu de lua cheia, engrinaldado,
A Virgem desdobrou, em ar divino,
Sôbre a encantada paz do meu cuidado.

Era uma graça, um bem que eu não defino…
Jucundo enlêvo… candidez airosa…
Num presepe, a sonhar, feito menino…

E uma luzinha ao longe, misteriosa,
Cantando-me as canções que me cantava
Minha madre no berço, em Frol da Rosa…

Oh, descuidado alívio!… não cuidava
Que das culpas do mundo temeroso
Esta essência revel jazia escrava.

Deus a espertou do sono deleitoso,
E, por mais a punir, inda um momento
A banhou, ao de leve, em claro gôzo.

Só as estrêlas, só o firmamento
Recontar poderiam, se quisessem,
Meu desvairo, meu nojo e meu tromento!

Convinháveis palavras me falecem,
As que as bôcas dos homens deitam fóra
Tribulações daquelas não conhecem.

Lá d'alta estância donde venho agora,
Lá donde o Eterno me elegeu pousada,
Duzentos anos grandes, hora a hora,

Vi eu, alma em tromento, alma calada,
Minha pátria, a meu sangue redimida,
Por meu sangue afinal desbaratada!

Por sangue do meu sangue foi traída;
Eu que alentos lhe dei, lhe dei nobreza
Ao cabo lhe arranquei nobreza e vida!

Os filhos dos meus filhos, oh, tristeza!
A danaram com raiva tão medonha,
Que nem lôbos a hão contra uma presa.

Descendentes da míngua e da vergonha,
Réprobos eram, pois é justa a lei
Que do câncaro mau cria a peçonha.

Feze-os a sina herdeiros do meu rei,
Por que um a um no trono dessem conta
Dêste perdido reino, que eu livrei.

E eu lá daquela altura que amedronta,
Sem poder abalar, correr asinha,
Vingar com mão sanhosa a dura afronta!

Em vão, oh, dôr cruel! oh, dôr mesquinha!
Alevantava súplicas piedosas,
À dos anjos tristíssima Raínha!

Ela vertia lágrimas fermosas…
E nasciam estrêlas como flores,
Canteiros de boninas e de rosas…

Porêm, Deus era surdo a meus clamores!
Mais pesavam meus crimes na balança,
Que os teus olhos de luz, ó Mãe das Dores!

Tal um peito rasgado duma lança,
Que em torvação eterna agonizara,
Sem alívio, sem morte e sem esp'rança!

Ó filha! ó anjo pulcro! ó alva clara!
Antes em leda e tenra meninice
Uma víbora má te envenenara!

Antes bôca de monstro te engulisse,
E daquele êrro o fruto miserando
Teu ventre criador nunca o parisse!

Vozes tais eu gemia, senão quando
Oiço como o ruir d'[~u]a montanha,
Como um trovão de súbito estoirando!

Deus arrasara a nobre flor da Espanha!
Nem a Virgem do Carmo em seu mosteiro
O defendeu de cólera tamanha!

Virgem do Carmo! vê-la num braseiro,
Misturada com pedras e destroços,
Vê-la eu! seu algoz, e seu còveiro!!…

A igreja, que por môr dos olhos vossos
Alevantei, ó Virgem da Piedade,
Minha infâmia a ruíu contra os meus ossos!

Grito d'alma naquela imensidade
Tão agudo expedi súpitamente,
Que fez branca de dôr a Eternidade!

Assim horrenda, assim direitamente,
Em quejanda e cruel desaventura
Não foi posto no orbe um ser vivente!

Já dois séculos idos de amargura,
Acreditei que emfim o Criador
Houvera dó da triste criatura:

Do meu sangue de lástima e de horror
Cavaleiroso príncipe foi nado,
Qual nasce duma campa ebúrnea flor.

Ah, o nobre donzel, d'olhar fadado,
A imagem de mim mesmo era talvez,
Quando isento do vício e do pecado.

Risonha aurora em noite se desfez…
Breve expirou, qual expiraram breve
Dentro em mim a virtude e a candidez.

Não perdôa o Eterno a quem lhe deve:
De culpa grande a ofensa lhe devia,
E o castigo aturado, o julgou leve.

Minha dôr empenosa acabaria
Com teu acabamento e sorte infanda,
Último rei de infanda dinastia.

Criatura nojenta e miseranda!
Ó vítima final! já na procela
Descubro o raio, a arder, que Deus te manda!

E a pátria! o meu amor! a pátria bela!…
Em que míngua eu a vejo!… Quem a abraça,
Quem vai lidar até morrer por ela?!…

Já o mundo a meus olhos se adelgaça!…
Montes, fraguedos, tudo se evapora…
São nuvens… sonho… sombra vã que passa…

Quási liberto já!… não tarda a hora…
Sorri-me a Virgem!… como vem brilhante!…
Deus! quanta luz!… que mar de luz! que aurora!…

Queda enlevado, extático, sôbre-humano. Irradia oiro. Descortina, súbito, numa panóplia, a vélha espada de Aljubarrota. O gládio heróico entre cutelos de verdugos! Como eximi-lo à afronta, se já mãos de eleito não devem tocar em ferros homicidas! Embora! Arranca-o, beija-o, ergue-o na dextra, e, da varanda, olhando a noite, em voz soturna de trovão:

Cavaleirosa espada relumbrante!
Se nesse lôdo amargo um braço existe
De profeta e de herói, que te alevante!

Inda bem que na lâmina persiste,
Em crua remembrança e galardão,
Do sangue fraternal a nódoa triste.

Descobre o gládio a quem o houver na mão,
Que ante a justiça recta e verdadeira,
Não há padre, nem madre, nem irmão!

Porêm, se a pátria, já na derradeira
Angústia e míngua onde a lançou meu dano,
Terra d'escravos é, terra estrangeira,

Rútila espada, que brandi ufano!
Antes um vélho lavrador mendigo
Te erga a custo do chão, piadoso e humano!

Volte à bigorna o duro aço antigo;
E acabes, afinal, relha de arado,
Pelos campos de Deus, a lavrar trigo.

Arrojando a espada ao abismo da noite:

Deus te acompanhe! Seja Deus louvado!

Desaparece. O rei fica no chão, imóvel e sem acôrdo.

SCENA XXII

O espectro de Nunalvares atravessa, resplandecendo, a escuridão nocturna. Enxerga a distância, o vulto fantástico do doido. Pára, surpreendido. Contemplam-se.

O ESPECTRO DE NUNALVARES, melancólico, fitando o doido:

Se esta alma, há três séculos gemendo,
Em carne humana andasse, e, dia a dia,
A perdição da pátria fôra vendo,

No semblante de louca amostraria
Aquela dôr soturna e tenebrosa,
Aquele olhar de pasmo e de agonia!…

O DOIDO, absorto:

Oh, que figura estranha e luminosa!…
Que aparição aquela!…
E eu já a vi… eu já a vi… lembro-me dela…
Mas onde foi?… Cabeça tonta!… Onde seria?!…
Ah, ah, já me recordo!… quando eu vivia,
Tive assim um parente… um irmão… Um irmão?
Eu nunca tive irmão!…
Oh, que loucura! oh, que loucura!
Mas eu conheço êste fantasma… esta figura…
Aquele ar singular de guerreiro e de monge…
Eu conheço-o… Mas onde foi?… quando é que foi?… lá muito ao longe…
Muito ao longe… Ora espera!… Já sei! Não era irmão, não era!…
Fui eu próprio!… Fui eu assim!… Fui eu! fui eu! fui eu!
É tal e qual… é exacto,
O meu retrato!…
Fui eu!…
………………………………………………………
Ah, fui eu… um outro eu… que andou no mundo e já morreu!…

SCENA XXIII

Corre, de braços abertos, para o espectro, que súbitamente se evapora. Relâmpago abrasador. Trovão medonho. Chovem os raios no castelo. O incêndio, num minuto, veste-o de lavaredas fabulosas. Estrondos de explosões, derrocamentos de muralhas, gritos de angústia, alaridos de pânico.

O DOIDO, triunfante, num regosijo de criança, vendo as lavaredas a brilhar:

Olha o palácio a deitar chamas dos telhados!…
A arder!… a arder!…
Lá arde o rei, o trono, a côrte, os cães… Ah, cães danados,
Ides morrer queimados!
Tudo a arder!… tudo a arder!…
Que lavaredas! Que esplendor! Ai, que alegria!
Parece dia!…
Vão os galos cantar
E trinar, de surpresa, a cotovia!…
Rolos de fumo em sangue pelo ar…
Desabamentos… vigamentos a estoirar…
Oh, que fogueira!… oh, que fogueira!… Ai, que alegria!
Que chamas d'oiro relumbrantes!… Andem vê-las…
Olha a subirem para o céu milhões de estrêlas.
Tantas estrêlas, tantas, tantas,
Que o castelo abrasado
Vai-nos deixar o céu azul todo estrelado!
Ó lavaredas d'oiro! ó lavaredas santas!
Subi! subi! subi!… dai luz e dai calor!…
Vós que não tendes fogo em vossas casas,
(Que lindas brasas! que lindas brasas!)
Vinde assentar-vos e aquecer-vos ao redor!
Oh, surdi de tropel, em alcateias,
Miseráveis, famintos, vagabundos!
Surdi das tocas negras das aldeias,
Dos matagais profundos,
Das pocilgas, dos antros, das cadeias,
E em turba-multa, em debandada, aos milhões, aos milhões,
Vinde aquecer as mãos neste braseiro,
Vinde aquecer as mãos, vinde aquecer os tristes corações!…
Já vai florir nas sebes o espinheiro,
Já vão florir nas bôcas virgens as canções!…
……………………………………………………
Dobram os sinos… dobram os sinos… Deixa dobrar!
Foi Deus que deitou fogo àquilo tudo…
Quem no há-de apagar?!…
Repica os sinos, meu sineiro campanudo,
Que à volta da fogueira as môças todas vão bailar!…
……………………………………………………
E eu vou ter, que prazer!
Mal sabeis… mal sabeis o que eu vou ter!…
A minha alma! a minha alma!… nova… nova,
Como um sol de aleluía a refulgir!
Ela estava ali presa numa cova…
Ardeu o rei, ardem os cães… e vai fugir!

O incêndio devorou o palácio. Ardeu tudo: mármore e madeira, rei e cortesãos, oiros e brocados, alfaias e baixelas. Salvaram-se os cães; nada mais. De entre os escombros, fumegando, ergue-se religiosamente, em ascensão eucarística, um vulto angélico de mulher. O corpo é de luar de opala, a túnica de luar de neve, e os olhos, fundos e dolentes, de luar de lágrimas. Peito manando sangue, olhos chorando estrêlas, caminha suspensa, direita ao doido, num sonambulismo vago e melancólico. Poisa em terra, com a graça aérea dum arcanjo. É a alma do doido. Trezentos anos sem se verem! Contemplam-se. Como estão mudados!…

O DOIDO, em frente da alma, já recuperando a lucidez:

Ó alma vagabunda, alma exilada,
Eis teu corpo infeliz, tua triste morada:
Vê, que abandôno e que pobreza!
Ninguêm te espera! nem candil na escada,
Nem banquete na mesa!
Vens tranzida de frio a tiritar?…
Não há lume no lar!
Vens morta de miséria e de aflição?…
Não há vinho, nem pão!
Vens fatigada repousar?… Porêm,
Não há leito tambêm!
Tua casa deixaste,
Teu albergue natal desamparaste,
Numa noite d'horror…
E os ventos e as procelas
Desmantelaram portas e janelas,
Desmoronaram tetos com furor…
Restam negras paredes lastimosas
Do teu ninho d'amor!…
Há cardos na varanda em vez de rosas,
Luto e morte nas salas pestilentes…
Na alcova onde dormias,
(Oh, mal dirias! mal dirias!)
Hoje dormem as c'rujas e as serpentes!…
E tu, ó alma triste, alma exilada,
Branca, da alvura mesta dos sudários,
De que prisões, de que galés, de que calvários,
Vens a rastros assim crucificada!
Quem te cobriu de lágrimas e sangue?
Quem trespassou teu coração exangue
De tanta dòr e tanta punhalada?!
Regressas ao teu lar, alma divina,
Para morrer aqui;
E no teu lar contemplas uma ruína,
E êle uma sombra em ti!…
………………………………………..
Entra no lar… entra no túmulo… descansa,
Alma pobre, varada de amarguras,
Alma sem fé e sem esp'rança!
Entra no lar abandonado… entra às escuras…
Deita-te a um canto sonolentamente,
E extinta e muda, vulto vago, informe,
Nunca mais abras teu olhar silente,
Dorme! repousa eternamente… dorme!
………………………………………..

A alma embebe-se-lhe no corpo.

Alma a expirar, clarão sombrio,
Porque vieste
Iluminar um túmulo vazio?!…
Porque vieste
Ressuscitar de novo, inda um momento,
A poeira do meu nada?!… Antes o vento
A sacudisse inânime e delida
Na eterna paz do eterno esquecimento!
Memória! espelho fúnebre da vida,
Porque me vens de súbito trazer
A apagada, a esquecida
Imagem tormentosa do meu ser!
Que despertar medonho
Da caótica noite do meu sonho!…
Antes o sonho louco, o sonho vão!
Cavaleiro magnânimo de outrora,
Contempla o teu retrato… olha-o agora…
Nem a ti próprio te conheces, não!
E és tu, és tu, ó cavaleiro antigo,
Êste pálido e trôpego mendigo,
Êste mendigo ensangùentado e nu!…
Nem semelhança leve achas contigo?
Repara bem… repara bem… és tu!…
…………………………………………………

Num ímpeto de orgulho e de vanglória:

E astros do céu, povos da terra, ondas dos mares,
Viram passar, como [~u]a águia ovante,
O meu pendão quimérico nos ares!
Retumbaram meus feitos de gigante
Pelo universo, em ecos seculares!
Cavaleiro e argonauta vagabundo,
Gravaram sôbre terra e mar profundo
Mil roteiros de luz os passos meus,
Como se houvera circundado o mundo,
Listrando-o a fogo, o Espírito de Deus!
Minha abrasada crença visionária,
Medindo o globo inteiro, achou-o estreito…
E a alma da humanidade, imensa e vária,
N[~u]a maré de assombros, tumultuária,
Bateu um dia junta no meu peito!
Vinham bandos de frotas portentosas
Páreas de reis trazer-me alegremente:
Maravilhas estranhas, caprichosas,
De longínquas cidades fabulosas,
Berços d'oiro do sol resplandecente!…
Nas mil tôrres, mais altas do que a Fama,
Do meu empório vasto olhando o mar,
Via-se o globo e a cruz como auriflama,
E sôbre globo e cruz, d'asas de chama,
Minha epopeia homérica a cantar!…
………………………………………
Ah, do sono da morte enregelado
Porque havias de, ó alma, despertar?!…
Que é da grandeza heróica do passado,
Que é das tôrres d'outrora olhando o mar?!…
Blocos no chão, vestidos d'heras,
Ameias, gárgulas, esferas,
Poeiras de sonhos, de quimeras,
Luto, nudez, desolação,
Eis os restos de tantos extermínios,
De tanta dôr e tanta maldição!…
Já nem cabe sequer em meus domínios
À magra sombra vã do meu bordão!
Régios palácios, fortalezas,
Mosteiros, campas, catedrais,
Orgulhosos padrões de mil empresas,
Conspurcados de lama e de impurezas,
Entre montes de entulho e silveirais!
Meus impérios distantes divididos,
Minha terra natal inculta e só!…
Loucos de dôr, em torvos alaridos,
Correm bandos de aldeões espavoridos,
Miseráveis tropeis de luta e dó…
Por mim passam atónitos, julgando
Ver um monstro maldito,
Um espectro soturno e formidando…
Da escuridão do nada ressuscito…
Abro os olhos na treva… estendo as mãos…
E de mim fogem com horror, clamando,
Meus parentes, meus filhos, meus irmãos…
……………………………………..
Deus, onde estás?!…
Deus! a mentira eterna!…
Algum lôbo voraz,
Mais piedoso que o céu que nos governa,
Pode emprestar-me um antro, uma caverna,
Onde se durma e se agonize em paz?!…
……………………………………..

Ao cabo dum longo e meditativo silêncio:

Oh justiça do Espírito divino,
Pensando bem, bem clara te revelas
Na trágica lição do meu destino!
Minhas glórias passadas!… É por elas,
Que eu hoje estou sofrendo e me crimino!
Minhas glórias!… infâmias e vergonhas
De ladrão, de pirata e de assassino!
Que bárbaras, que atrozes, que medonhas,
A escorrer sangue negro e pestilento,
As vejo em tôrno a mim neste momento,
Essas glórias nefandas, que eu supus
D'oiro e de luz!
A epopeia gigante!
Empresas imortais! feitos sublimes!
Grandeza louca dum instante…
Miséria eterna… meus eternos crimes!
…………………………………………….
Novos mundos eu vi, novos espaços,
Não para mais saber, mais adorar:
A cubiça feroz guiou meus passos,
O orgulho vingador moveu meus braços
E iluminou a raiva o meu olhar!
Não te lavava, não, sangue homicida,
Nem em mil milhões d'anos a chorar!…
Cruz do Gólgota em ferro traduzida,
Minha espada de herói, ó cruz de morte,
Cruz a que Deus baixou por nos dar a vida;
Vidas ceifando, desumana e forte,
Ergueste impérios, subjugando o Oriente,
Mas Deus soprou… ei-los em nada…
E te cravou a ti, vermelha espada,
Nesta alma de lôbo eternamente!
Ó espada de dôr, abre-me o peito!
Rasga de lado a lado o coração!
Rasga-o, meu Deus, e torna-mo perfeito,
Que eu te bemdigo e louvo e me sujeito,
Sem uma queixa, aos golpes da tua mão!
Seja feita, Senhor, tua vontade,
Venha o remorso igual à iniquidade,
Deus de justiça e luz, Deus de perdão!
……………………………………
Nunca nascido houvera o resplendor
Do dia, em que no abeto milenário
Pus o gume do aço com furor!

Antes aparelhara o meu calvário,
Antes a minha tumba silenciosa
Com o tronco do roble funerário!

Antes mil vezes, do que a aventurosa
Barca ligeira, que levou seu guia
Dos desastres à praia fabulosa!

E, a meus golpes crueis, eu bem ouvia
Uma alma no roble que chorava,
Um coração lá dentro que gemia!

Um coração de avô que perdoava,
Só com ais de amargura respondendo
A cada novo golpe que eu lhe dava.

Eu os traduzo hoje, eu os entendo,
Os merencóreos ais vaticinantes
Das lágrimas de fel que estou bebendo!

À sombra de teus ramos verdejantes,
Ó árvore formosa, bem quisera
Adormecer eu inda como dantes!…

Não abatessem minhas mãos de fera
O teu corpo sagrado, roble augusto,
Patriarca da lei vestido de hera!

Fôsse eu ainda o camponês adusto,
Lavrador matinal, risonho e grave,
D'alma de pomba e coração de justo!

Sentisse eu inda a música suave
Da candura feliz no peito agreste,
Qual em rórida brenha um trino de ave!

Em vez do mundo (fome, guerra e peste!)
Conquistasse, por única vitória,
Os tesoiros sem fim do amor celeste.

Nunca de feitos meus cantasse a História;
Ignorasse o meu nome a voz da Fama
E a minha sombra humilde a luz da Glória.

Vivesse obscuro e triste, erva da lama;
Nas alturas, porêm, fôsse contado
Entre os que Deus aceita, os que Deus ama.

No mundo, bicho ignoto e desprezado;
Mas, nos reinos là luz adamantina,
Um cavaleiro grande e sublimado.

Cai-lhe o livro das mãos. Erguendo-o e beijando-o com fervor:

E contudo, alma infame e libertina,
Em teu horror, esquálido e sangrento,
Uma luz existiu, que era divina!

Uma luz existiu, que num momento
Fez o dia mais claro e mais jucundo,
Pôs mais cêrca da terra o firmamento!

Ó lira d'oiro que abalaste o mundo!
Sonho d'astros!… ó fúlgida epopeia!
Canta, dá vida nova ao moribundo!

Da cólera do Eterno a maré cheia,
Naus, barbacãs, palácios, de imprevisto
Levou tudo nas ondas, como areia…

Levou tudo nas ondas… ficou isto!
Ficou na mão exangue a lira d'oiro,
E é por ela existir que eu inda existo!…

Lira de Orfeu! meu único tesoiro!
Bem como a voz do mar enche uma gruta,
Encheu o azul teu canto imorredoiro!

Pudesse eu, d'alma livre e resoluta,
Olhos no fogo da manhã nascente,
Erguer ainda os braços para a luta!

Não, como outrora, para a luta ardente
Da riqueza e grandeza, que é vaidade…
Da fortuna, que é sombra que nos mente…

Seja a hora do prélio a Eternidade!
E o globo estreito a arena, onde não cansa
A batalha do Amor e da Verdade!

Cavaleiro de Deus, ergue-te e avança!
Põe na bigorna os cravos de Jesus;
Bate-os cantando… É o ferro da tua lança!

Faz a hástea da lança duma cruz;
Vai, cavaleiro, de viseira erguida,
Dá lançadas magnânimas de luz!…

E hão-de estrêlas sangrar de cada f'rida,
Que em rosários, ardendo, chorarão
Uma a uma no Gólgota da Vida.

Ah, sonho de esplendor, que sonho em vão!
Põe os olhos em ti, alma de hiena,
Em teu rebaixamento e escuridão!…

Como nascer em pútrida gangrêna,
Sob os olhos de Deus, a flor de encanto,
Vaso de ideal, a mística açucena!

Como? chorando; derretendo em pranto
As máculas do crime; e o criminoso,
Vestido de esplendor, ficará santo.

A Dôr, a eterna Dôr, eis o meu gôzo.
O pão do meu banquete, cinza escura,
E o meu vinho jovial, fel amargoso.

É a Dôr quem liberta a criatura:
Ou em miséria humana ande encarnada,
Ou em tigre feroz ou rocha dura.

Oh, abrasa-me a alma envenenada,
Faz em carvão meu coração perverso,
Dôr temerosa, Dôr idolatrada,

Ó Dôr, filha de Deus, mãe do universo!

    Longo silêncio. Transe-lhe a alma, de repente, um frémito de
    angústia. Adivinha no escuro, marchando, a Fatalidade inexorável.
    Suor de Agonia. Com um ai cruciante:

A hora grande, a hora imensa,
Já por um fio está suspensa…
Não tarda muito que ela dê!…
Carne medrosa, porque tremes?…
Ó alma ansiosa, porque gemes?…
Porque?!…
Arde na Dôr, carne maldita!
Revive em Dôr, alma infinita!
Na Dôr bemdita espera e crê!…

Marcha de tropel, na escuridão, um bando de corsários, gigantes espadaúdos e membrudos, rosto sanguíneo, cabelos de oiro fulgurando. Entoam, epilépticos de alcool, uma canção infrene e vagabunda. Relampeiam as armas, à claridade vermelha dos archotes. O andar é deliberado e resoluto, como o de quem trilha, às escuras, uma vereda já sabida. É que na dianteira, a escaminhá-los, Iago e Judas trotam sombrios e ofegantes. Um dos marinheiros, brincando, meteu o Veneno no bôlso. Os cães, pelo instinto, levam a horda temerosa em direcção ao doido. Apenas o descobrem, estacam de súbito, ladrando raivosos e covardes, como a dizer:—Ei-lo! Aí o tendes.—O vélho herói, pálido de morte, fita-os soberanamente desdenhoso. Rodeiam-no, tumultuando e clamorando. Brilham adagas, lâminas frias de cutelos. Deitam-lhe algêmas, dão-lhe bofetões, insultam-no, mascarram-no de lôdo, cospem-lhe na cara. E a face do herói sobre-humanamente resplandece, como zurzida por estrêlas. Em meio de chufas e labéus o arrastam ao alto da montanha, onde a cruz negra e sanguinolenta lhe estende os braços para a Dôr. Com vilipêndio o desnudam, por escârnio lhe cingem uma tanga de cafre, e, a marteladas truculentas, desumanos o pregam no madeiro bárbaro. Ao tôpo da cruz, desenhada a sangue, esta ironia:—Portugal, rei do Oriente!—Expele o seio do mártir um ai agudo, lança angustiosa de varar infinitos. E a Dôr o exalta, a Dôr o diviniza: É de alabastro o corpo macerado, as longas barbas ondeantes de luar choroso, e os olhos fundos e proféticos, duas cavernas de noite, com estrêlas. Á volta, os verdugos tripudiam e cantam. Bôcas aguardentadas rugem blasfêmias e sarcasmos. Atiram-lhe pedras, que se convertem em rosas. Atiram-lhe estêrco, e chegam-lhe lírios e açucenas. Os cães, furibundos, pulam em vão, desaustinados, a ver se o mordem; e, insaciáveis, abocanham o toro do madeiro, lambendo ávidamente o sangue fresco a gotejar. Depois, escumantes de raiva, ladram à cruz, hienas possessas e diabólicas. Varreu a tormenta. A noite desmaia. Já os aventureiros, levando os cães, embarcam na galera. Os olhos do moribundo pairam em volta, suplicantes. Cemitério deserto. Ninguêm. Campos revoltos, carcavões tenebrosos, ossadas de penedias, um castelo derruído fumegando, esqueletos de gente em esqueletos de árvores, terra de pavor, terra de morte, onde a única vida, bruxoleante, é uma agonia numa cruz. Quási a expirar, soltando um gemido:

Pranto, que manas dos meus olhos,
Bemdito és!
Bemdito és, porque és o mar de pranto
Que os meus crimes verteram pelo mundo…
Sangue a correr das minhas f'ridas,
Bemdito és!
Bemdito és, porque és o mar de sangue
Do meu orgulho e minha iniquidade…

Súbito, numa visão interior, descobre em roda dele as nações armadas, cêrco de lôbos à volta duma presa. Já no estertor, agonizando:

Deus! abandonas-me!…

Expira. Clareia, roxa, a manhã de Novembro, triste lençol de misericórdia, a que limpassem forcas ou calvários. Um aldeão senil e vagabundo, caminha ao longe, trôpegamente, como um fantasma, em direcção à cruz. Rôto, cheio de lama e de sangue, no bordão aos ombros uma taleiga, e, escondida no peito, aninhada nos braços, uma criancinha forte e luminosa. Vélho e doente, perdeu-se de noite na debandada trágica, não alcançou o navio, já o não enxerga… onde irá êle!… onde irá êle!… Por montes e mares circundeia os olhos, enublados de horror, desorbitados de loucura… Ninguêm! ninguêm! ninguêm! Campos desertos, ondas sem uma vela, e nos bosques, mirrados, sem uma fôlha, carcassas pútridas… ninguêm!… Dum povo exilado ficára êle só, cadáver ambulante, espectro bisonho, a chorar num ermo, com o seu netinho nos braços. Aproximando-se da cruz, reconhece o doido, o estranho doido inofensivo, que a horas mortas vagueava, ululando, por cerros e quebradas, e a quem êle tantas vezes, benignamente, dera agasalho e dera pão. Quem o crucificou?!… Porque seria?!… Mete mêdo e respeito… Que estatura de homem!… que gigante!… Morto, semelha um Deus!… E, fronte descoberta,—Avé-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bemdita sois vós entre as mulheres…—E os olhos da criança devoram a cruz, estrêlas inocentes, cheias de angústia e cheias de alma… Há naquele olhar uma inconsciência misteriosa, que adivinha… Luz enigmática, vem de longe, do fundo do passado, morrendo ao longe, em sonho, nas obscuridades do porvir… Esse vélho fantasma, com êsse menino ao colo, lembra a derradeira árvore dum bosque, árvore núa e carcomida, com uma florinha última no tronco. Flor de morte!… flor d'esp'rança!… Nasceu dum cadáver, e dela se hão-de gerar, talvez, os rumorosos bosques de àmanhã!… O aldeão, assombrado, meio louco, procura o castelo do rei… evaporou-se… já o não avista. Em frente, na montanha, só lavaredas e ruínas. Vai descendo, descendo, descendo, e lá ao fundo estaca de improviso, inclina-se, e vê no chão, abandonada, uma arma guerreira. É o montante de Nunalvares. Empolga-o a custo. Os braços da criancinha estendem-se com avidez, numa alegria doida… Nobre montante, qual o teu destino? Sulcarás, relha de arado, a gleba deserta dêsse camponês? Nas mãos dessa criança, um dia homem, brilharás acaso, espada de fogo e de justiça? Mistério… mistério… Invisivelmente, saùdando a luz, as cotovias gorgeiam…

FIM