WeRead Powered by ReaderPub
Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa cover

Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Chapter 18: A costa
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

O autor empreende passeios pelas imediações de Lisboa, oferecendo descrições topográficas e arqueológicas de igrejas, mosteiros, sepulturas e fontes, identificando estatuária, inscrições e azulejaria, e anotando transformações arquitectónicas e achados antigos. O texto combina observações de paisagem e clima com pequenas histórias locais, reconstruções de memoriais e comentários sobre restauros e deslocações de monumentos, além de recordações pessoais de companheiros de estudo e reflexões sobre erudição regional. A narrativa alterna descrições pitorescas com notas históricas e críticas, formando um guia de curiosidades e património suburbano.

Os caminhos mais seguidos para ir á Ericeira são os que partem de Mafra e de Cintra; este o mais frequentado.

A estação do caminho de ferro de Cintra está pittorescamente aconchegada na base do alteroso monte granitico, rochedos pardos entre manchas de vegetação verde escura, coroado pelas torres e quadrellas mouriscas terminadas na fina grega de ameias. Da estação partem os carros para a villa, para Collares e Ericeira.

Começa logo a descida, passa-se uma ponte; termina de subito a invasão das construcções modernas, e definem-se as modestas casas saloias da moda velha.


Lourel, a primeira aldeia; era já povoado o sitio em tempo da dominação romana; antes de gódos e de mouros, vejam lá!

Mais cinco minutos de carro e apparece, espreitando entre agrestes collinas, a torre de Ribafria; uma residencia nobre medieval, conservando a sua linha primitiva, a torre com seu brazão, palacete, grande lago e alta cerca, naquelle fundo valle aproveitado provavelmente pela abundancia de agua nativa.

São bem raras estas residencias ruraes em Portugal, todavia restam algumas que contam a sua formação pela juxtaposição dos seus cunhaes.

A residencia de Bellas, por exemplo, que é muito interessante, onde eu julgo vêr restos ainda da alta idade media.

As arvores que bordam a estrada estão inclinadas uniformemente para suéste marcando bem a corrente dos ventos dominantes.


Villa Verde, um grupo de casas com seus quintaes, muros de pedra solta, figueiras e parreiras.

A vista alarga-se pelos vastos campos, accidentados; ao longe collinas arredondadas com manchas escuras de pinhal. A serra de Cintra mostra agora a sua crista atormentada, as massas escuras de arvoredo, destoante de tudo o que a cérca; e avista-se Mafra, a enorme joia, principalmente vistosa se o sol da tarde illumina a soberba frontaria, que olha para occidente.


Terrugem, povoado alegre, amplo terreiro, egreja antiga com sua alpendrada, e seu gentil campanario do seculo XVIII; pouco adiante uma velhissima ermidinha, com portal em ogiva.

Estamos em pleno paiz saloio, onde apenas algumas pequenas explorações de pedreiras juntam fracos elementos á vida agricola. Ha poucas habitações dispersas, e nenhum povoado importante. Esta freguezia de S. João Degolado da Terrugem compõe-se de mais de vinte povos ou logares, que teem na média 10 fogos. Os mais povoados são Terrugem, Villa Verde, Alcolomba, Lameiras, Almurquim, Fajão, Cabrella, Carnessada, Goudigana, Armez. Grupos de 4, 6, 8 casaes são os logares de Toja, Da do Bispo, Alpolentim, Urmeiro, Fervença, Moleirinhos, Sequeiro, Murganhal, Alparrel, Funchal, Silva. Um ribeiro, o Fervença, corta as terras da freguezia.

Entre as designações locativas algumas merecem reparo pois mostram influencias de antigas linguagens.

E por todo o paiz saloio a população se encontra assim em pequenos grupos, sendo muito menor a parte que vive em casaes ou quintas isoladas.


Odrinhas; pára a carrinha de bancos para descanço dos animaes, e breve allivio dos passageiros.

Se o saltitante vehiculo vier completo, e entre os passageiros houver gorduchos, é caso grave; porque a diligencia foi feita para trinca-espinhas. A paragem é uma consolação, para alargar um pouco os musculos.

A um kilometro da pobre locanda, estação central! onde pára a carrinha, fica o meu adorado S. Miguel de Odrinhas, a velha egreja, com as suas veneraveis antiguidades, o primitivo alpendre, o cemiterio medieval, e as suas lendas bem interessantes.

Mais dez minutos e passamos perto de um cómoro cheio de enormes pedregulhos, ovoides uns, globulares outros; ali os muros das pequenas propriedades parecem feitos de pelouros, de grandes balas de pedra. É Alvarinhos, uma formação granitica, bem frisante entre os terrenos da grande chapada.

Segue-se um plaino pouco accidentado; casas saloias de construcção quasi cubica, escada exterior para o sobrado, e telhado de quatro aguas; grandes lages formam as divisorias; uma casa tem a sua porta abrigada por um alpendre formado por tres lages, duas a prumo e uma coberteira; cruzes de cal branca em muitas paredes, ás vezes muitas cruzes numa só parede; algumas casas mais modernas e janotas com os cunhaes pintados a azul e vermelho.

Estamos em terras da freguezia de S. João das Lampas, mais importante que a Terrugem: tem 32 povos ou logares; mas a media de fogos por logar é egual á da Terrugem.

Os povos mais importantes são: S. João das Lampas, Bolelos, Montearroio, Odrinhas, Alvarinhos, Amoreiras, Almagreira, Areias, Alfaqueques, Mouxeira, Arreganha, Seixal, Assafôra, Cortezia, Cantrivana, Arneiro, Togeira, Magute, Bolembre, Fontenellas, Gouvêa, Perningem, Codiceira.

Os ribeiros de Magute, Samarra e Barril, que vão á foz de S. Julião, cortam parte da freguezia em valles fundos, formando nos convalles pequenas veigas ferteis.

A oriente, Mafra, o soberbo zimborio, as altas torres dos sinos, os formidaveis torreões dos extremos; e a sul a serra de Cintra, decorativa por excellencia, mais azul quanto mais longe, com tons de amethysta, frequentemente variada com ligeiras neblinas.

Pouco mais e descobre-se a veiga da ribeira de Chileiros, os sulcos fortes dos seus pequenos afluentes, entre collinas de declives rapidos.

Para o poente a grande face tranquilla do Atlantico.

Uma e outra vinhasita entre muros de pedra solta; retalhos de tojaes cortados; vaccas leiteiras guardadas por creanças; grupos de pinheiros mansos de verde lustroso, poucas arvores de fructo; sobre os telhados filas de aboboras; em fins de setembro os campos estão animados, trabalha-se nas eiras na debulha do milho, e na estrada passam os carros com as uvas para as adegas.

Fica ao longe a casaria branca, baixa, de S. João das Lampas, alveja a Assafôra, e outros pequenos povos; passa um fresco pinhal, e começa a descida que leva á Carvoeira, uma aldeia na encosta; em baixo o valle agora mais amplo da ribeira de Chileiros, forrado de vinhedos novos.

Ha uma ponte nova, bem lançada; e a carrinha sobe vagarosamente a longa ladeira; vê-se a Foz, a barra de areia branca, a agua do rio mui socegada entre as escarpas altas e escuras; ouve-se o rumor da arrebentação, das grandes ondas de claro verde transparente, de franjas alvissimas que o vento pulverisa, desenrolando-se espumantes sobre a barra de areia branca, ou saltando, espadanando nas escuras rochas das ribas.

O vasto oceano impõe-se agora, de fim vago se ha neblina; se o tempo é claro sempre a mesma linha de horizonte, nitida, limite implacavel e monotono.

Termina a ladeira, salvam-se umas curvas de macadam, e apparece-nos a distancia a branca villa da Ericeira, como um bando de gaivotas pousado na riba da beira-mar.

As arribas são escarpas de 30, 40 metros de altura, pittorescas em muitos pontos pelo estranho colorido, pela fórma de fragmentação; parecem ruinas de edificios gigantes.

Escuros penedos á beira-mar quebram as vagas que se empinam em cristaes, se desfazem em brancas espumas ferventes, numa lucta rithmica. Das arribas a encosta faz uma plataforma, e logo sobe rapidamente o terreno para oriente, o lado de Mafra.

Nesse largo socalco assenta a villa da Ericeira, a branca villa toda caiada, porque os habitantes até branqueam os telhados de muitas casas, e as ermidas das arribas, S. Julião, S. Antonio e S. Sebastião parecem talhadas em sal marinho.

Nenhuma vegetação agora rompe a nitidez do verde mar, do escuro das furnas, da cal branca faiscando ao sol; só umas delgadas, flexiveis araucarias conseguem erguer-se sobre a linha da casaria; outras arvores ao passar a crista dos muros desfolham-se e quebram-se pela ventania maritima; nos pequenos quintaes abrigados ha roseiras finas, jasmins viçosos e latadas de dourado moscatel.

Tambem tenho ido á Ericeira, passando por Mafra. Na estação do caminho de ferro apparece um carro de bancos, especie de americano de montanha, que nos leva á povoação, vencendo uma comprida ladeira. Proximo á estação, sobre uma collina, avista-se uma aldeia de aspecto interessante; as casas cubicas, com suas barracas ou quinchosos aos lados, coroam o monte, semelhando uma fortificação de torres e quadrellas. A estrada vae subindo pela meia encosta de um grande massiço; os largos declives dos montes povoados de culturas, vinhedos; nos sovacos mais humidos grupos de vaccas leiteiras.

Para cortar caminho, indo de trem, atravessa-se um canto de tapada, uma rua de platanos, e logo o assombro do monumento.

Ha ali primores de extraordinario merecimento. Que magestade imponente nas linhas geraes, que afinação, que equilibrio entre os corpos que compõem o grande conjuncto, que acabada execução! e na egreja que relevos de delicado lavor! e que bello horisonte!

N’este paiz accidentado quasi todos os monumentos teem moldura de grandiosa paizagem; não succede o mesmo em França, Inglaterra, Allemanha onde a vista pára em arvoredos proximos ou encontra planuras monotonas. Mafra tem moldura larga e rica, basta a decorativa Cintra, joia azul, o mar, e aquella vastidão de terras accidentadas, com seus povos e casaes, quintas, vinhedos e manchas avelludadas de pinhal.

Os sinos, um dos primeiros carrilhões do mundo, enchem de vibração religiosa aquelles campos; ouvem-se muito ao longe; uma vez passando em Odrinhas ouvi uma toada longa, mui grave, que me impressionou; era a sonoridade dos sinos de Mafra que chega a muitos kilometros de distancia. Outra vez ouvi no carrilhão a valsa do Fausto! que typo de sineiro, quando hoje ha musicas escriptas expressamente para estes grandes instrumentos de musica!

Mafra tem outra notabilidade, a velha egreja de Santo André, antiga freguezia. Cautella com os amadores, pois a vi muito abandonada.

Tem altares de azulejos mosarabes, e frontaes de couro lavrado, colorido e dourado; e duas arcas tumulares medievaes, de interesse historico e artistico. O exterior da capella mór e a torre sineira são da primitiva, e em volta está o velho cemiterio, tão pouco respeitado!

Com pequeno esforço se poderia conservar melhor essa interessante egreja de Santo André!

Muito curioso o pequeno mercado, os figos moscateis, as lindas uvas, as bellas maçãs, os aromaticos melões, as saloias com os seus cabazes de ovos. Mas que ovos saborosos! nos almoços que nas minhas passagens por Mafra consumi no Moreira ou no Duarte ou no Ricardo, eu repeti os ovos fritos na manteiga saloia.

A carrinha da Ericeira pára á porta do correio, que fica ao lado da escadaria monumental da egreja.

E partimos para o lado do mar.

Pela estrada carros com rama de pinho, rapazes com vaccas leiteiras, e grupos de crianças pedindo cincoreizinhos em cantilena nasalada.

Sobreira, logarejo com caixa de correio, e uma loja centro commercial, onde se vende tudo á gente do sitio, e vinho á gente que passa; o cocheiro aceita sempre o seu copito. Fabrica-se por aqui ceramica popular, louça de barro, vidrada ou não, com sua ornamentação especial. E não só na Sobreira, mas em outros povos proximos ha oleiros, até á Lapa da serra, pequeno logar já visinho da Ericeira.

Agora atravessamos trechos de pinhal; paisagem formidavel; na luz forte o grande mar, a serra de Cintra, amethista lavrada, os vastos campos accidentados, palhetados de logares e casaes brancos, as verdes manchas de pinhal, e Mafra, o imponente edificio avermelhado, saliente entre a pequena casaria branqueada da villa.

E quanto mais nos avisinhamos da Ericeira mais viçosos são os pinhaes; tudo pinhal novo, porque as velhas arvores foram derrubadas nos ultimos annos. O mar quanto mais proximo mais scintillante.

E nada da Ericeira; para esse lado, a quem vem de Mafra nem uma casa, nem uma torre de egreja mostra a villa; porque ella está no grande socalco da ribamar; quasi ao terminar a ladeira surge a casaria branca alastrada, projectando-se sobre o oceano.

Ora vamos ouvir o padre Antonio Carvalho da Costa, bom author que eu sempre recommendo, na sua mui excellente «Corografia portugueza, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal», impressa em 1712: escreve o prestimoso clerigo e mathematico lisbonense, a pag. 42 do tomo terceiro:

Da Villa da Eyriceyra

Uma legua ao noroeste de Mafra (será escusado lembrar que havia então leguas pequenas, e leguas da Póvoa), tres ao sudoeste da villa de Torres Vedras, e sete ao Sul de Peniche, tem seu assento a villa da Eyriceyra, a quem banham pela parte do occidente as salgadas e ceruleas aguas do cubiçoso Oceano, que a faz abundante de bom pescado e excellente marisco, especialmente eyriços, donde a villa tomou o nome, o que approvam suas armas, que são um eyriço em campo branco.

Elrei D. Diniz lhe deu foral (o primeiro foral é mais antigo), que confirmou depois elrei D. Manuel, fazendo doação della ao infante D. Luiz seu filho, de quem a herdou o sr. D. Antonio, seu filho illegitimo, ao qual (sendo expulsado da successão do reino por el Rei D. Fillippe o de Castella, e vencido na ponte de Alcantara pelo duque de Alba, que com poderoso exercito entrou neste reino) lhe confiscaram todas suas rendas, e entre ellas a villa da Eyriceyra, a qual deu em satisfação de divida a Luiz Alvares de Azevedo de juro, e herdade para elle, e seus descendentes, com que ficou excluida da Corôa, como bens patrimoniaes; e pertencendo ella a uma sua filha, religiosa de S. Bernardo no mosteiro de Odivellas, a vendeu a abbadessa por 8:000 cruzados a D. Diogo de Menezes com todas suas rendas e direitos reaes, e a quinta parte do morgado da villa de Mafra, e a vintena do peixe, que se paga aos senhores da dita villa, que é em todas as partes em que fóra della pescam seus naturaes, mui exercitados neste officio.

Tem 250 visinhos com uma egreja parochial da invocação de S. Pedro, curado, que apresenta o conego da Sé de Lisboa, o qual tambem apresenta a vigairaria de Mafra: tem mais Casa da Misericordia, e estas ermidas, o Espirito Santo, Nossa senhora da Boa Viagem, S. Sebastião, e S. Martha, e ha nesta villa tres fontes perennes.

Assistem ao seu governo civil um ouvidor posto pelos condes (que nesta terra tem os oitavos do pão e vinho), dois vereadores, um procurador do conselho, um escrivão da Camara annual, que o é tambem da almotaçaria, outro escrivão dos orfãos, que o é tambem dos direitos reaes e do judicial e notas. Tem uma companhia da Ordenança, e um forte com cinco peças de artilharia, que sustentam os moradores, e os condes consultam o governador. É hoje senhor e conde desta villa D. Francisco Xavier de Menezes, cuja illustre varonia é a seguinte:==e segue uma noticia da genealogia d’essa bella familia dos condes da Ericeira, D. Diogo de Menezes, 1.ᵒ, D. Fernando de Menezes, 2.ᵒ, D. Luiz de Menezes, 3.ᵒ, D. Francisco Xavier de Menezes, 4.ᵒ, série brilhante na fidalguia portugueza.

Foi este ultimo que animou Carvalho da Costa a escrever a sua chorographia que tantos serviços presta ainda agora.

A respeito da villa de Mafra conta-nos Carvalho da Costa: o seu termo é abundante de pão, gado, e caça: tem uma egreja parochial dedicada a S. Izidoro, curado, que apresentam os moradores (note-se isto, eram os moradores que apresentavam o cura), os quaes passam de cento e sessenta divididos por estes lugares, Azambujal, Quintal Gonçalvinhos, Grocinhos, Lombo da Villa, Almada, Ribeira, Murteira, Pinheiro, Murgeira, Cachossa, Roxeira, Amoreira, Póvoa, Valle de Carreira, Caeiros, Fonte Santa, Relva, Sobreiro, Fonte Boa dos Nabos, Figueiredo, Picanceira, Penagache, Lagôa, Montegudel, Ribamar de cima e de baixo, com muitos casaes. Tem mais este termo o forte de Milreu, e o de Santa Susana com duas peças d’artilharia.

A corographia de Carvalho da Costa imprimiu-se em 1712; estava-se longe da importancia posterior de Mafra, realçada pelo seu colossal monumento.

O que me chama a attenção na descripção de Mafra, feita por tal authoridade em 1712 (isto é em 1709, porque 1712 é a data da impressão) é que nesse tempo, em que se conservavam ainda vigorosas as antigas instituições, no termo da villa de Mafra a freguezia mais importante era a de Santo Isidoro; e que o seu parocho curado era apresentado pelos moradores. Isto mostra que esta freguezia ou parochia era uma entidade muito sobre si: e abrangia um territorio vasto e importante, como o é ainda agora.

Em 1844 temos outra noticia a respeito da Ericeira no famoso Panorama (Serie 2.ᵃ Vol. 3.ᵒ pag. 335).

É um artigo de Henriques Nogueira. Acompanha-o uma gravura ingenua mas curiosa; mostra os rochedos, a alta escarpa, a ladeira que vem ao pequenino porto, as paredes do forte, agora em parte desmoronado, e ao longe a ermida de S. Sebastião.

==Em documentos antigos é conhecida por Oyriceira e Eyriceyra, e d’aqui vem serem as armas do concelho um ouriço.

==Os mais antigos assentos da separação da parochia de Mafra são de 1406. D. João V prestou grande auxilio á reedificação de S. Pedro.

==O estabelecimento mais importante que esta villa possue é a casa da Misericordia a qual foi fundada onde havia uma ermida do Espirito Santo, por Francisco Lopes Franco, em 1678. Este doou-lhe um padrão de juro de 480$000 réis, e os pescadores obrigam-se a pagar-lhe annualmente todo o ganho d’uma rede de pesca, cujo onus solveram pela quantia de 6$400 réis que ainda hoje pagam cada um dos dez barcos de pesca. O rendimento actual (1844) em juros e fóros é de 1:679$700 réis. Despende com encargos pios e despezas do culto 725$300 réis e com o hospital 479$300 réis. O excedente da receita é empregado em esmolas e vestuario aos pobres. Os habitantes empregam-se pela maior parte nas pescarias ao longo do nosso littoral, na costa de Marrocos, e tambem já fizeram tres expedições ao Banco de Terra Nova n’estes ultimos annos (como isto passou!). O numero de embarcações de todos os lotes, incluindo as do commercio de cabotagem é de 98, empregando 670 individuos. A população orça por 2:769 almas com 750 fogos; no principio d’este seculo tinha apenas 600.==(lembro ainda que isto se escrevia em 1844).

==O forte está sobranceiro á calçada que dá para a praia, e hoje acha-se desguarnecido. Segundo se deprehende de uma inscripção sobre a porta foi edificado por D. Pedro 2.ᵒ

==No chafariz chamado a Fonte do Cabo existe uma pedra embutida na parede com um emblema e legenda em caracteres gothicos em relevo, que parece significar: «Feita na era de mil e quatrocentos e cincoenta e sete annos.»

==Ainda existem restos do palacio do senhorio d’esta villa, o conde da Ericeira: pela parte superior de algumas janellas veem-se pedras com um leão esculpido. Estas paredes a que o povo chama o Paço, são dignas de veneração por terem servido de residencia, e quem sabe se de academia, ao nosso douto escriptor D. Francisco de Menezes.

==A meia legua ao nascente d’esta villa está aberta uma mina de barro branco no sitio chamado a Avesseira, que já tem sido explorada por conta das fabricas de louça das Janellas Verdes e Vista Alegre (Actualmente os finissimos barros dos arredores da Ericeira, que eu saiba, são explorados muito rudimentarmente pelos louceiros da Sobreira, Lapa da Serra, etc., que fabricam a louça chamada de Mafra).

==Tambem por este mesmo sitio é situado o chamado Pinhal dos frades, por ter pertencido ao convento de Mafra.

==É uma importante propriedade nacional assim pelo numero como pela bondade e prestimo das arvores, que excedem em diametro e altura as de todos os outros pinhaes circumvisinhos.==Agora o Pinhal dos frades não tem um só pinheiro fradesco; tudo foi reduzido a lenha; é todo novo o pinhal; e que bom seria alarga-lo porque daria aos arredores da Ericeira um encanto a mais, principalmente agora que tanto se louva o ar do pinhal. Esses novos pinhaes que eu percorri seguindo a estrada de Mafra, e no lindo caminho para a quinta dos Chãos e Santo Isidóro, são viçosos, e recebem em primeira mão a viração pura do mar; dá prazer respirar no ar do pinhal!

Achei muito curiosa esta noticia da Ericeira, em 1844! Ora vejam como isto muda; o forte está em grande parte destruido, a escarpa tem falhado em muitas partes, desappareceram as navegações longinquas, diminuiu a pescaria em muito, e o pinhal dos frades perdeu as arvores venerandas.

O rei da Ericeira

Vou transcrever do Portugal cuidadoso e lastimado do padre José Pereira Bayão (paginas 732-734), a narrativa do caso estranho do rei da Ericeira; um dos varios episodios da nevrose, naturalissima, que assaltou o povo portuguez nos primeiros annos da dominação hespanhola. Este, a meu ver, é dos que melhor representa o estado ancioso e tumultuario das almas; ha n’elle o mysticismo, o vago anceio, o estonteamento no começo, inconsciente, ingenuo; depois a exploração d’esses sentimentos pelo espirito patriotico, e pela influencia do meio, que leva a incidentes comicos, á desordem, á loucura sinistra, ao crime; logo, naturalmente, á intervenção da politica dominante, á força, até ao final do morticinio em massa, e do supplicio tremendo.

==Succedeu isto no anno de 1584, no mez de julho, e podendo servir de exemplo (refere-se ao caso do rei de Penamacor) para emenda de outros taes atrevimentos, foi ao contrario; pois logo no anno seguinte se viu outro ainda mais estravagante pelos mesmos termos, fingindo-se ser el-rei D. Sebastião, um moço chamado Matheus Alvares, natural da ilha Terceira, filho de um pedreiro, o qual saindo-se do noviciado dos frades arrabidos do mosteiro de S. Miguel junto á villa de Obidos, se fez tambem hermitão em uma ermida de S. Julião, junto á villa da Ericeira. Aqui fazia uma vida ao parecer mui penitente, e se introduziu a ser rei antes que ninguem o imaginasse; disciplinava-se fortemente onde pudesse ser ouvido, e dizia com triste lamentação: Portugal, Portugal, que é feito de ti, que eu te puz no estado em que estás, oh! triste de ti Sebastião, que toda a penitencia é pouca em respeito de tuas culpas. Começaram alguns a crer, que elle era el-rei; e entre elles um lavrador rico chamado Pedro Affonso; juntaram-se até oitocentos homens, de que se fez general, accrescentando ao seu nome o apellido de Menezes; poz o fingido Rei Casa Real, e fortificou-se, casando-se com uma filha do dito Pedro Affonso, moça bem parecida, coroando-a como Rainha, com uma corôa de prata de uma imagem de Nossa Senhora, fazendo marquez de Torres Vedras a seu pae, e conde de Monsanto, Senhor de Cascaes, e alcaide mór de Lisboa.

E assim fazia outras mercês, passando provisões e alvarás com solemnidade de sellos reaes, occultando-se sempre, e mostrando-se a mui poucos por grande favor, aos quaes contava algumas particularidades da batalha, para os ter mais seguros n’esta presumpção, e mandando recado a D. Diogo de Sousa, general da armada, que lhe fosse fallar; tanto que soube, que elle perguntára ao mensageiro pelo signal, que lhe déra, receando-se que se descobrisse o engano, ou por outra alguma razão, que não consta, lhe tornou a mandar dizer, que não fosse; e comtudo indo lá, lhe não quiz fallar, dizendo, que o fazia assim porque não ia só.

Escreveu depois ao cardeal Alberto, que lhe desoccupasse o seu paço, e se fosse embora para Castella: porque já era tempo de que abrissem os olhos tantos enganados.

Foi preso o embaixador; e soltando-o logo cobrou mais forças a opinião de ser elle el-rei, por onde, o que assim se fingia se foi ensoberbecendo, e fazendo alguns graves castigos em todos aquelles, que o não queriam reconhecer, e lhe negavam a obediencia, sendo executor o marquez, seu sogro, que era homem cruelissimo, e deshumano; e agora muito mais com a vangloria dos titulos que lhe foram dados, e considerar-se sogro de el-rei.

Vendo o Cardeal Governador que se devia atalhar tão grande desordem antes que passasse a mais, deu ordem ao corregedor de Torres Vedras para que os fosse prender, e querendo-o executar foi morto arrebatadamente com os seus officiaes por aquella gente, que os seguia: e sendo isto reprehendido por Gaspar Pereira, ouvidor d’aquella comarca, o mataram tambem; e a um filho, e a um sobrinho; saqueando-lhe a casa como em guerra justa; passando já n’este tempo de mil a gente asoldada que o seguia: vindo todos a comprar polvora e bala á cidade, diziam publicamente, que era para acompanhar a el-rei D. Sebastião.

Pelo que, e porque não crescesse mais o damno, e insolencia, foi necessario acudir com mais forte remedio. Deu-se ordem ao corregedor da côrte, e se mandáram ajuntar todos os ministros da justiça com os seus officiaes, e com quatrocentos soldados castelhanos bem armados, foram fazer a diligencia; e chegando perto do couto do novo rei, ficaram os soldados embuscados em um valle, indo a justiça adiante, e sendo descoberta pela guarda, arremeteram a elles como lobos.

Fugiu a justiça com muita pressa até os irem metter na embuscada, donde saindo com furia lhe deram uma carga de tiros com que mataram e feriram a muitos dos fautores do rei, fazendo fugir aos outros pelos montes e valles; foi preso o rei, e alguns do seu conselho, e trazido a Lisboa fez confissão, de que não era el-rei, nem pretendia sel-o, e que só intentava dar sobre Lisboa com as armas dos seus seguidores, na madrugada do dia de S. João, e vencida ella, como esperava, pertendia dizer ao reino que já o havia posto em liberdade para que fizessem rei. Foi enforcado em 14 de junho do dito anno, cortando-lhe primeiro a mão direita no Pelourinho, onde ficou pendurada, por passar provisões e alvarás falsos, fingindo-se el-rei D. Sebastião; a cabeça esteve um mez pregada na forca, e os quartos foram postos pelas portas da cidade; e no dia seguinte enforcaram e esquartejaram os outros, que foram presos com elle, um que fazia o officio de védor, que seria de quarenta annos, e outro que era pagem privado, que seria de edade de vinte annos.

Na Ericeira foram enforcados vinte homens que eram deste bando, muitos foram lançados a galés; e Pedro Affonso, marquez e conde general, e secretario do triste rei, fugiu no dia da prisão dos mais; mas pouco depois foi preso, fazendo-lhe em Lisboa o mesmo, que tinha feito ao seu soberano, e os pobres moradores d’aquelle contorno despovoaram a terra com medo, por terem seguido a voz do rei enganoso. Foram tambem presos e castigados muitos, que enganados o favoreciam de Lisboa, e lhe mandavam dinheiro, e peças de valor, como foram Antonio Simões, escrivão dos armazens, e Gregorio de Barros, ourives d’el-rei, pagando miseravelmente o zelo, com que cuidavam servir ao seu rei.

Parece que foi o intento de mandar chamar D. Diogo de Sousa, saber delle se era certo, como se dizia, que el-rei veiu na armada, porque sendo assim, e sabendo delle onde estava, e se estava prompto para entrar a governar, ajustariam ambos a fórma de occupar Lisboa e desoccupal-a dos castelhanos com aquella sua gente, e entregal-a ao dito rei, com o que ficava restituido ao seu reino, e aquelles servidores seriam bem gratificados por elle e agradecidos de todo o reino. Isto se colhe da sua confissão, e outra cousa se não deve imaginar, pelos descaminhos ou impossibilidades, a que se expunha por todas as vias; o que qualquer mediano entendimento conheceria mui bem.==

Antiguidades romanas e medievaes

Na Ericeira e seus arredores não vi antiguidades romanas; nem um signal, nenhuma pedra empregada em muro velho que denunciasse lavor de alta antiguidade; o trabalho agricola tem sido grande, o mar sabe Deus quantas escarpas tem demolido, elle que todos os dias está destruindo e abatendo os rochedos da costa. Mas n’um aro de raio de seis a dez kilometros surgem vestigios notaveis. As inscripções lapidares romanas são conhecidas; a região a norte de Cintra e Collares é rica de taes letreiros. Antiguidades pre-romanas são sabidas tambem. Não podemos esquecer o collar da Penha Verde, a grande joia prehistorica (que hoje está ennobrecendo, ao que me dizem, um muzeu inglez), o famoso dolmen de André Nunes ou Adrenunes, monumentos que provam a existencia por estes sitios de antiquissima civilisação pre-romana. Estacio da Veiga estudou as antiguidades d’estes sitios; no Corpus estão transcriptas em grande numero as inscripções romanas. Na Cintra pinturesca (pag. 192), se diz: «encontram-se com frequencia urnas e lapides sepulcraes em varios sitios especialmente em S. Miguel de Odrinhas, Morelino, Montelavar, etc.»

D’essas veneraveis pedras sepulcraes muitas desappareceram, ainda porém existem algumas importantes. Para as ver dei uns passeios a Odrinhas e á quinta dos Chãos.

Odrinhas fica a meio caminho entre Cintra e Ericeira. Ha ahi uma venda onde costumam parar os carros para descanço; abre-se em frente d’essa venda um caminho de aldeia que leva á egreja, S. Miguel de Odrinhas, a menos de um kilometro. É filial da parochia de S. João das Lampas. A porta principal diz a poente, uma alpendrada segue na frente e no lado sul; atrás da capella mór um espaço que serviu largos annos de cemiterio; muitas pedras de cabeceira nos seus logares, tendo nos circulos superiores esculpidas cruzes de varias fórmas, sinos saimões, e estrellas de seis pontas. Encostado á egreja um ediculo do seculo XIV. Junto da pequena porta lateral uma casa, talvez de antigo ermitão, a que chamam a casa dos ratos, que serve para metter medo a rapazes máos; sob o alpendre a grande mesa de pedra para as offertas. Ao norte da egreja, uma construcção circular, isolada, em ruina, mostrando ainda a nascença da abobada, feita de pedra miuda, vestigios de porta, e um vão na parede, que parece, seria destinado a ter um armario.

—É casa de mouros, disse alguem.

—Era onde guardavam os ossos tirados das covas do cemiterio, o ossuario, disse outro.

—Dizem que está ahi um thesouro escondido, disse uma mulher.

Parece-me que a causa principal da ruina é esta crença, com a esperança de achar o metal precioso têm nocturnos exploradores arruinado o singular edificio. E eu achei no montão de pedregulhos, e fiz destacar, em marmore lavrado, nada menos que a pedra superior de uma ara romana com seus ornatos, volutas e folhagens, de bom estylo, com a grande cavidade destinada ao fogo. No terreno proximo, nos velhos muros de pedra solta, vi tijolos pequenos, fragmentos de grossas telhas, e ainda mais cabeceiras de sepulturas com suas cruzes e saimões. É unico o que ali está, n’aquelle modesto recinto onde se conservam vestigios antigos, de epocas entre si muito afastadas.

Sob o alpendre, solta, a grande pedra com lettreiro romano onde se mencionam individuos da tribu Galeria, e entre elles o de Elio Séneca. Dentro da egreja, á direita da porta principal, a enorme lapide, fixa, de Plocio Capito. Dizem que era de homem santo, e raspam-na para com o pó curar enfermidades. Pelo visto temos aqui um exemplo nitido de cultos continuados no mesmo local desde a antiguidade romana até agora. Mas ha lendas, velhas tradições aqui. Disse-me um homem que esta egreja era tão importante em tempos antigos que a gente de Santo Isidóro, Paço d’Ilhas e Quinta dos Chãos vinha enterrar os seus mortos n’este cemiterio, fazendo a longa caminhada de quatro leguas. E logo outro companheiro, um tanto a medo, me perguntou se eu julgava possivel que uma mulher fosse capaz de trazer ás costas aquella grande pedra, a do Séneca, desde Santo Isidóro, com o cadaver do filho. É lenda mui velha que eu vim encontrar agora nesta ultima terra da Europa.

Santo Isidóro é egreja parochial que fica a uma legua além da Ericeira; fica-lhe a pouca distancia a quinta dos Chãos, que desperta a curiosidade pelo seu isolamento, a sua represa d’aguas, os pequenos aqueductos, pateo, jardim, casa de residencia e officinas, um bello exemplo de habitação rural, modificada pelo tempo e variedade de usos, mas no todo lembrando uma antiga villa rustica. Ahi, n’uma varanda sobre um arco, servindo de meza, vi a bella lapide sepulcral dos Terencianos; e no jardim ha uma pia que me pareceu uma urna ou sarcophago romano, coberto em parte de cal. Segundo uma tradição a ribeira de Paço d’Ilhas que corre no profundo valle proximo era antigamente navegavel, e um velho paredão arruinado seria o resto do caes.

A costa

Da ponta da Lamparoeira corre a costa de norte a sul, por mais de 8 milhas, quasi toda de rocha escarpada até á foz da ribeira do Porto. A 1,5 milhas a N. da dita foz fica a Ericeira. A sul da villa uma pequena enseada com boa praia, a norte outra praia; ambas separadas pela grande massa de rochedos do portinho onde entram os barcos de pesca. Este porto é desabrigado dos ventos NNE a SSO por O.

Ha duas luzes de enfiamento, branca e vermelha, a 37,ᵐ7 de altitude.

O monumento de Mafra com suas elevadas torres e zimborio, a 270 metros sobre o nivel do mar, serve de reconhecimento e marca para este porto, avistando-se a 30,5 milhas.

Da foz da ribeira do Porto a costa a S 25° O, até ao cabo da Roca, a 10,3 milhas, quasi toda escarpada e elevada, apenas rota na praia das Maçãs na foz da ribeira de Collares, e na praia Grande a S d’esta. No Focinho da Roca o rochedo levanta-se a mais de 125 metros; sobre essa escarpa está o pharol da Roca, a 137 metros acima do nivel do mar. A meia milha ao mar do cabo está a pedra d’Arca: ha outros recifes que tornam perigosa a approximação.

A serra de Cintra eleva-se sobranceira ao Cabo, correndo para o interior na direcção de ENE. A sua maior altitude é no seu estremo E no castello da Pena, que tem 529 metros de cota.

O convento da Peninha, no extremo SO, está a 488 metros, e deve avistar-se a 42 milhas. A serra de Cintra é ponto excellente para reconhecimento da costa. Os pescadores da Ericeira dão nomes ás saliencias principaes da serra, e pelo enfiamento e aspecto marcam approximadamente a sua posição no mar.

A pesca na Ericeira chegou a grande decadencia, parece querer levantar-se agora. Antigamente, ha 50 annos, não só a pescaria tinha ali grande importancia, mas a Ericeira era um viveiro de homens do mar; chegou a ser celebre pelos seus maritimos pedidos para os melhores navios da nossa marinha mercante. Eu conheço a Ericeira ha quatro annos apenas, em rapidas visitas na época dos banhos. Ha quatro annos havia uma armação, em frente do porto, e os botes de pesca, as focinheiras, pouco iam ao mar. Não havia pescada, muitos dias só havia sardinha e carapau apanhado na armação. Agora ha duas armações, e todos os dias vão barcos ao alto, que por vezes trazem muito peixe. A exploração da lagosta tambem augmentou.

Os pescadores das armações são quasi todos estranhos á Ericeira; e tem vida áparte dos naturaes da villa. É no norte, quer dizer no bairro do norte da villa, em casas abarracadas, caiadas, algumas com o chão forrado de plantas aromaticas, que habitam os pescadores. Casas pobres, aceiadas, com estampas de navios e santinhos nas paredes. A grande embarcação de pesca, antiga, era a rasca, que eu vi pintada em quadros de milagres, na egreja de Santa Martha.

Era um barco seguro e veleiro, de borda alta, pôpa redonda e prôa arrufada; convez corrido de vante á ré, cinginda em volta do costado por um espesso cinto com forte pregaria, apparelhando com quatro vélas latinas triangulares, traquete, véla grande, véla de prôa, e catita; com tripulação numerosa para a manobra.

O mastro de traquete pendia para vante, o de ré era vertical, da prôa lançava um páo para amurar a véla de prôa, á ré encostado á amurada um pequeno mastro para a verga da catita, que caçava no laes de um páo deitado pela popa servindo de retranca: singrava veloz, chegando-se muito ao vento, e aguentando-se bem nas borrascas.

A focinheira é typo unicamente usado na Ericeira, para a pesca costeira, e que vae tambem ao largo. Tem um mastro á prôa que apparelha com um latino; a prôa e a pôpa da pequena embarcação teem fórma especial, e no fundo chato e arqueado tem umas reguas ou reforços longitudinaes. É differente da chata de Cascaes ainda que se lhe avisinha.

Tenho visto na Ericeira sardinha, fataça, carapau, faneca, goraz, pargo, capatão, pescada, peixe espada, peixe gallo, cação, moreia, arraia, polvo e lagosta.

Uma vez entrou na armação um cardume de grandes pargos e capatões; e eu vi na pequena praia a fila de oitenta grandes peixes vermelhos de que os menores tinham 7 ou 8 kilos.

Este anno foi fisgado de uma focinheira um grande peixe agulha que pesou nove arrobas.

Havia muitos annos que não apparecia um peixe agulha na Ericeira, e é trivial em Setubal.

Quem visitar reparando os mercados de peixe na Ericeira, Cascaes, Setubal nota singulares differenças; nesse bocado de oceano que se avista do Cabo da Roca, ha regiões definidas, onde apparecem ou não determinadas especies de peixe.

O generoso mar dá ainda outro producto que elle traz do seu seio e vem depôr, arrumar, na areia da praia; chamam-lhe sargaço e moliço ou golfo; são as algas, os corriões, bodelha, verdelho e sebas, que o agricultor utilisa para adubo.

Em todas as praias aqui d’esta costa, Baleal, Peniche de cima e de baixo, Portinho da areia, Consolação, Seixal, Atalaya, Ribamar, Porto novo, Santa Cruz e Assenta andam os sargaceiros apanhando os vegetaes arrojados á areia, escolhem um pouco, carregam, formam medas, que entram em fermentação e se transformam em excellente adubo.

Em outros pontos do paiz a rapeira é uma furia louca que prejudica a creação do peixe, mas aqui não se dá esse caso, os sargaceiros não chegam para arrecadar a massa enorme de algas que o mar lhes offerece.


Banheiros.—Praia do sul: Antonio Garamanha, Braulio da Silva, Francisco Piloto, Francisco Jorge Alturas e Servando da Silva.

Praia do norte: Agostinho Alves Camacho, José Alves Camacho, José Coco e José d’Almeida Rato.

As praias são muito frequentadas nos mezes de agosto, setembro e outubro. Ha duas series de banhistas: a mais tardia é a que vem depois da vindima.

Bons typos estes banheiros, nadadores de primeira ordem, valentes sem precipitação.

Na praia do norte o mar bate um pouco mais; na do sul a força da vaga é em parte quebrada por uma restinga que surge a pouca distancia, 80 a 100 metros da praia de areia.

Na praia do norte em manhã de vaga um tanto rija vi espectaculo raro; os banhistas não tomaram banho, e os banheiros resolveram ir brincar nas vagas; brincadeira um tanto forte.

Eram tritões mythologicos, peixes não, porque estes não caem em taes experiencias; por vezes sumiam-se no concavo da vaga proxima a desabar, logo appareciam, o corpo meio fóra da agua, na cabelleira cristallina, logo destacavam na branca espumarada fervente.

É arriscado, ha movimentos enrolantes na vaga d’arrebentação, e ai do que se deixar enrolar pela onda.


No termo da Ericeira, na encosta voltada ao mar, ha grande numero de pequenas propriedades, e muitos muros de pedra solta. Fazem esses muros para arrumar a pedra e tambem para defeza contra a rajada do mar, e não bastam; fazem ainda sebes de urzes, de ramos de pinho, de caniço; e nesses canteiros vi cepas boas, com bellos cachos.

A phylloxera estragou os vinhedos, mas nos ultimos annos teem replantado; nas chans da ribeira de Chileiros ha vinhas de importancia. Para os lados da Fonte dos Nabos, Santo Isidoro, Paço d’Ilhas vi culturas mimosas. Na Ericeira só as flexiveis hastes das araucarias resistem á furia do vendaval. Ás vezes quando no temporal as grandes vagas estouram nas arribas passam flocos de espuma por cima da povoação.


Nomes de barcos.—S. Joaquim, vulgo o Bailharito, Feliz Raul, Boa Viagem, Flor da Ericeira, Pombinho, etc.


Pombos-bravos.—São raros nesta costa; numa época vi dois casaes que pousavam nas altas rochas, sob a villa. Pouco adiante de S. Sebastião tenho-os visto tambem, poucos. São pardos-escuros, esguios, muito desconfiados; creio que é na costa algarvia, Sagres, S. Vicente, que apparecem mais; na costa da Arrabida são raros.


Pharoes.—Berlenga. Começou em 1840. Alcance 30 milhas.

Cabo Carvoeiro. Data de 1790. Alcance 9 milhas.

Ericeira. Luzes de direcção, anterior branca, posterior vermelha. Começaram em 1864. Avistam-se a 5 milhas.

Cabo da Roca. Data de 1772. Alcance 30 milhas.


Soccorros a naufragos.—Dizem que existe um posto montado, com espingarda Delvine para lançamento do cabo de vae-vem.

De barco salva-vidas nunca ouvi fallar, nem de qualquer melhoramento do acanhado portinho entre bravias rochas, muito pittorescas e perigosissimas.

Numa das ribas vi uma caixa verde com letreiro branco, assim:

Secorros

a

naufragus

Deve ser orthographia official. (Este anno, 1905, vi o letreiro já emendado).


O facho do peixe.—Se o barco que vem do alto, ou da armação, traz peixe, arvóra á prôa o facho, que é uma japona ou oleado de marujo; logo que das arribas avistam o reclamo descem homens e mulheres com as gigas e burrinhos para transporte da mercadoria.


Aroeira.—É com o suco da aroeira que tingem as redes. A planta verde é moida num lagar, por galgas movidas a braço. Na Ericeira vi um lagar, que não trabalhava. É em Ribamar que hoje moem mais. Em Santo Isidoro encontrei eu umas saloias com seus burrinhos carregados de aroeira, que iam para Ribamar.

E vi tambem ramos de aroeira ornamentando carros carregados de tojo; o verde viçoso da aroeira alegrando o tom escuro do tojo secco.


Phosphorescencia.—Na costa da Ericeira o mar apparece algumas vezes phosphorescente; acho isto notavel; porque no littoral portuguez em muitos sitios nunca se dá este phenomeno, na costa do Algarve é rarissimo.

A gente do mar chama-lhe ardencia. Nas noites de 24 e 25 de agosto de 1900 o espectaculo foi admiravel. As grandes ondas luminosas, de brilho e intensidade differentes, produziam effeito phantastico. Durou muitas horas o esplendido aspecto do mar, especialmente na arrebentação.

Em setembro de 1902 tambem houve ardencia, mas fraca e durando apenas umas tres horas. No livro de A. F. Simões: Cartas da beira-mar, descreve-se um caso de ardentia ou ardencia observado por elle na Figueira da Foz no mez de setembro de 1864.


Cartas nauticas.—Conversando uma vez a respeito de antigas cartas nauticas, indicaram-me uma senhora que possuia algumas, de parentes que tinham navegado em largas viagens. Eu pedi o favor de as vêr.

Um dia, na sua casa de jantar, escolhida por ser mais facil na grande meza desdobrar as cartas maiores, a senhora D. Maria disse á serviçal que fosse lá acima, ao quarto do Oratorio, buscar as pastas e os rolos, forrados de linhagem.

A creada voltou ajoujada porque era pesado o fardo da papelada. Eram as cartas que tinham servido ao avô, ao pae, aos tios e aos irmãos na vida maritima, porque durante gerações, n’aquella familia, fôra tradicional a vida do mar; ora de pilotos, ora de capitães de navio, muitos dos parentes daquella senhora fizeram longas viagens. As cartas usadas, amarelladas, conservavam o cheiro a breu; tinham as rotas marcadas a lapis, em linhas onduladas ou em zig-zagues, com pequenas cruzes e datas, nas mudanças dos rumos ou marcando singraduras; viagens da Ericeira para Larache ou Casa Branca na costa marroquina, á Terra Nova, á Irlanda, ou de Lisboa para o Brazil, Açores, Madeira, por essa costa d’Africa fóra, ou entre o Funchal e Demerára.

Ha coisas d’estas, ás vezes; começa-se por simples curiosidade, entre phrases banaes e logares communs, e de subito surge o drama. Se eu visse aquellas cartas n’uma loja nada sentiria, mas lentamente mostradas pela santa mulher! Eu ia dizendo o que via e lia, e ella ia lembrando. A carta passou a ser um documento vivo. E quanto mais recordava mais subia a commoção, avivavam-se saudades, as lembranças de anciedades passadas, as longas espéras de noticias. Certa cruz marcava um grande golpe de mar, outra o sitio em que faltou agua de beber, e a comida; esta agora um incendio a bordo.

De uma vez não houve noticias do parente nem do navio por mais de seis mezes.

Eu dobrava ou enrolava lentamente a carta, e passava-se a outra. Agora era a que servira a bordo do palhabote onde o irmão ia por piloto na sua primeira viagem, e surgiam outras recordações.

Desdobrava-se nova carta, era a de um segundo tio, capitão do navio tal, que andou trinta annos no mar, soffrendo vendavaes e calmarias, e terminou em naufragio em longinqua paragem.

E assim estivemos a ver cartas, algumas horas, e a lembrar anciedades passadas; saudades, receios, que é o manjar de quem tem parentes queridos no mar. Depois a serviçal foi levar, com muita cautella, como cousas sagradas, a pasta e os grandes rolos para o quarto de cima, ao pé do Oratorio.


Os primeiros christãos.—As duas inscripções romanas que ainda hoje felizmente se conservam em S. Miguel de Odrinhas teem servido de base a dissertações de auctores considerados sobre o apparecimento do christianismo n’esta região a norte de Lisboa. Principalmente a do Seneca.

O nosso D. Rodrigo da Cunha na Historia ecclesiastica da egreja de Lisboa, disserta sobre a pregação de S. Pedro de Rates pela beira mar até Cintra, e dá muita attenção ás duas inscripções romanas.

A razão de julgar que taes inscripções commemoram pessoas christans é porque lhes falta o D. M. S. (consagrado aos deuses manes), inicio vulgar dos lettreiros pagãos.

Base ou principal ponto de partida a respeito da existencia de christãos logo no 1.ᵒ seculo, neste extremo da peninsula, é a chronica de Flavio Dextro, que diz: Lucius Seneca Centurio verus christianus Sintriae occumbit. (Ann. Chr. 50).

Numa edição de 1619, vê-se Senticae, emendado para Sintriae na edição de Leão (Lugduni, 1627 pag. 103).

Ora esta chronica de ha muito está mal afamada, mas percorrendo-a quasi me convenço de que merece alguma attenção; parece-me um texto antigo muito alterado e interpolado.

Ambrosio de Morales, continuador de Floriam de Ocampo, na Coronica general de Hespana (Alcalá de Henares, 1575, 2.ᵒ vol. pag. 245 e segg.) consagra um capitulo a esta questão:==El tiempo del Emperador Neron con todo lo de Seneca (Lib IX. C. 9) e reproduz a inscripção grande de Odrinhas. Não acho base alguma para affirmar a existencia de christãos logo no primeiro seculo no occidente da peninsula; porque é certo que os lettreiros sepulcraes de individuos christãos começam muito mais tarde; lendas, tradições devotas, sim; mas é difficil tambem marcar datas á creação de lendas piedosas.


Bolos.—As confeiteiras fazem cavacas, pão de ló, esquecidos, suspiros, biscoitos e marmelada. Tambem fazem queijadas, inferiores ás de Cintra. A região da queijada é outra, vae de Cintra a Bemfica, conservando o mesmo typo. Tambem ha queijadas no Alemtejo, excellentes, mas de esthetica mui diversa. O dominio do pão de ló é ao longo da costa maritima ao norte do Tejo, e o da cavaca quasi na mesma região, variando de fórma e densidade, de villa para villa; quasi se póde dizer cada terra com sua cavaca.

S. Antonio.—É uma pequena ermida, toda caiada, que está sobre a muralha da arriba do porto.

Está ahi na parede do occidente voltada ao mar uma cruz formada por azulejos, e tambem em azulejos as imagens de Nossa Senhora da Boa Viagem e a de Santo Antonio, e data 1789.

No nicho ardia d’antes uma grande lanterna, guia dos pescadores, e ainda lá está a sineta que toca quando ha nevoeiro na costa.

Egreja de S. Pedro.—Foi restaurada em tempo de D. João v. As pinturas do tecto teem o caracter d’essa época. O cruzeiro ante a porta principal está datado de 1782. O prior Manuel Maria Ferreira fez obras na egreja, e o arcaz da sacristia em 1660.

Creio que a obra d’arte mais antiga que existe nesta egreja é a pequena estatua de S. Pedro, em marmore, com o seu livro e grande chave, que está sobre a porta lateral. Proximo a esta porta está o seguinte letreiro:


—Aqui jazem José Pereira da Cruz e sua mulher Eulalia da Costa e a filha d’estes Maria Rosa e seu marido o professor Antonio Luiz Delgado e alguns filhos d’estes, entre elles o padre Octaviano Augusto Pereira Delgado primeiro e principal promotor do acrescentamento e reforma d’esta egreja o qual pede por esmola se compadeçam das almas dos que aqui jazem, 1872.—