Segundo o recenseamento official tem esta freguezia 737 fogos, com 2:519 habitantes.
Santa Casa da Misericordia.—Foi fundada a irmandade d’esta Misericordia em 1678.
O Compromisso actual foi approvado por alvará de 4 de outubro de 1886.
O antigo compromisso era de 7 de julho de 1697.
Capital 34:650$000 em inscripções.
Capital 4:500$000 em acções do Banco de Portugal e da companhia das Lezirias.
Na média entram no hospital uns 70 doentes, annualmente.
Ha pouco teve um legado importante, do sr. Fialho, cavalheiro respeitabilissimo da localidade.
S. Julião.—É uma ermida toda branca, com seu alpendre, erguida na escarpa maritima, a uns tres kilometros a sul da Ericeira. Celebra-se ahi uma festa annual, em setembro, com arraial, a que concorre muita gente dos povos mais visinhos. Proximo do pequeno templo ha casas para os romeiros, para um posto da guarda fiscal, e para venda das offertas.
A disposição da ermida e seus annexos leva-nos a tempos mui antigos. A influencia do convento de Mafra tambem ali chegou, e algumas reparações teem o cunho do seculo XVIII.
A porta da ermida tem a data 1768.
Proximo de S. Julião ha uma fonte milagrosa. Tem duas bicas, que deitam aguas de nascentes diversas, de modo que teem sabôres varios. E seus azulejos com as imagens de S. Julião e Santa Basilissa, e a data 1788.
Teem virtude estas aguas para doenças de olhos, e outras, para todas creio eu, mas é preciso beber, ou lavar-se com as duas aguas. São complementares.
Por occasião da festa foram muitas pessoas beber das duas aguas, outras lavar os olhos nas duas pias, outras com bilhas; mas a virtude principal das duas aguas combinadas é contra as sezões.
No arraial de S. Julião vendiam-se poucos comestiveis: bolos de S. Julião, fartes, queijadas, melões e peras, pevides, favas torradas.
Os fartes ou bolos de S. Julião são feitos de massa de trigo com assucar, me pareceu, e alguma canella. São bolos locaes que segundo me affirmaram só se fabricam por occasião da festa.
Vi ahi algumas portas com fechadura especial composta de uma haste grossa, com sua travinca, e que se abre por meio de um páosinho de feitio vario.
Na Ericeira tambem encontrei essa fechadura que eu não conhecia. Um popular explicou-me:==isto é fecho com cavilhas e chaveta.
As pedras de mysterio em S. Julião.—São umas lapides bem trabalhadas com os nomes de S. Julião, S. Basilisa, e Ave Stella matutina, e outras phrases piedosas, dispostas caprichosamente.
Assim Juliam, Basilissa e matutina, em caracteres capitaes muitas vezes repetidos enchem quadrados tendo no centro as iniciaes J. B. e M. e achando-se a palavra lendo para qualquer lado, até aos vertices da figura.
Proximo da ermida ha um logar, o fojo, grande fenda natural da escarpa, onde se deu um milagre; ahi numa lapide lavraram um monogramma que deve significar Mater Christi. E no angulo do alpendre, superiormente, um cubo de marmore com meridiana muito curiosa.
Algum frade engenhoso fez aquelles quebra-cabeças, para maravilha dos romeiros. A esta ermida se liga a historia do rei da Ericeira.
A bruxa da Arruda.—A celebre bruxa costuma visitar a Ericeira por fins de setembro. É muito respeitada; dizem que é rica, a pobres não leva nada; apresenta-se com muitos oiros. Tem uma filha que já entende de molestias. Em geral leva 300 réis pela consulta. Receita quasi sempre esfregas de aguardente e papas de pão de milho ralado. Mas isto varia em quantidade, tempo, calôr, e no sitio do corpo. Ouvi tambem chamar-lhe a mulher do Casal das Neves, no termo da Arruda dos Vinhos.
Nem precisa ver o doente, levam-lhe roupa do uso do enfermo, uma camisa ou camisola, e ella pelo cheiro conhece a molestia e logo receita. Costuma pousar numa casa do norte da villa, e a sua chegada consta logo entre a pobre gente que a venéra e teme.
==Já teve questões com padres e medicos, já foi aos tribunaes, me disse alguem, e ficou sempre victoriosa!==
O brazão da Ericeira.—Tenho visto representado no brazão da Ericeira um ouriço cacheiro, e outras vezes um ouriço do mar, inteiro, com sua armadura de espinhos, visto de lado, o que me parece mais logico. Na Fonte do Cabo sobre a inscripção está uma pedra esculpida que deve ser a representação mais antiga das armas da villa, e, se me não engano, quizeram ali representar a boca do ouriço maritimo, donde divergem séries de linhas formando cruz, e um lavor ponteado que allude aos espinhos, admittindo o engano ou convenção das quatro fachas divergentes que deveriam ser cinco se o canteiro fosse mais cauteloso.
O primeiro foral da Ericeira.—Do primeiro foral da Ericeira guarda-se o autographo na Torre do Tombo; está publicado na integra no Port. Mon. Hist. na parte respectiva a foraes, pag. 620. E por esta razão não o transcrevo aqui. É da era 1267 que corresponde ao anno 1229. Foi concedido por D. Fernando mestre da ordem d’Aviz: Ego frater F. magister Avis una cum omni meo conventu do atque concedo populatoribus de Eyrizeira... Note-se que a pronuncia local de hoje é Eiriceira embora toda a gente escreva Ericeira.
Como todos os foraes das povoações da costa maritima este se refere a barcos, a maritimos e pescadores, á pescaria, e aos impostos especiaes do pescado: por exemplo aos pescadores do alto mar, e á baleacion, ou pesca da baleia, então commum a todo o mar português. Faz menção especial de congros, toninhas e golfinhos; e dos apparelhos de pesca, bigeiro, udra et rete de costana; do pescado fresco, recente e secco. No porto entravam mercadorias: de tota merchandia que per mare ad portum venerit et voluerint vendere dent quarentena. Havia revendedores de peixe: de coloneiro qui comparar piscatum pro a revender det I denarium.
O mesmo imposto para o bofon, ou bufarinheiro.
Á vista do foral a condição dos pescadores não tem variado do seculo XIII para cá. Os mesmos perigos, egual miseria, e a mesma incuria, a mesma falta de protecção.
Sentindo a brisa fortemente salgada, alargando o olhar pela magestosa amplidão do oceano, vem o desejo de saber alguma cousa do que se passa ahi, no meio aquatico, onde pullula a vida. O dr. Augusto Filippe Simões fez um livro bem interessante de vulgarisação scientifica com algumas observações pessoaes, as Cartas da beira-mar (Coimbra, 1867).
Simões era um sabio e um litterato erudito, escrevendo com muita consciencia. Em linguagem facil, corrente mas cuidada, descreve-nos o oceano, os seus problemas, a salsugem, os movimentos, as marés; e a vida que se agita n’essas aguas, a zoologia e a botanica marinhas.
Um livro que recommendo para a temporada da Ericeira é o Estado actual das pescas em Portugal, pelo distincto official da armada, sr. A. A. Baldaque da Silva (Lisboa, 1892). Tem estampas coloridas representando peixes, crustaceos, molluscos, muitas gravuras de barcos e apparelhos de pesca; não olvidando a focinhada ou focinheira ericeirense, e a antiga rasca que passou á historia; descreve tambem a costa maritima, tão variada em aspectos e circumstancias.
Recentemente vi um livro bem interessante, de sciencia moderna; é L’Océan. Ses lois et ses problèmes, por J. Thoulet (Paris, Hachette, 1904).
Thoulet é um oceanographo que estuda o mar e sabe expôr com clareza as muitas questões da sciencia do mar, a oceanographia, tão moderna e já tão vasta. A chimica do mar, a formação de sedimentos de origens varias, a temperatura e a pressão nos abysmos, a formação da vaga e a razão das marés, as correntes, a vida nas grandes profundidades quietas e sem luz, apparecem-nos tratadas em largos capitulos de leitura que prende a attenção, sem fatigar o espirito.
No 4.ᵒ volume das Maravilhas da natureza, segundo o plano de Brehm, obra celebre, revista e ampliada na parte relativa a Portugal pelo sr. dr. Balthasar Osorio, sabio lente da Escola Polytechnica de Lisboa, trata-se de peixes, em leitura facil e agradavel.
Como tambem desperta a attenção o aspecto raro das arribas, das suas curvaturas, fendas, aberturas, cavernas, onde apparecem rochas brancas, vermelhas, negras, esverdeadas, cinzentas, umas cheias de fosseis, outras sem vestigio de vida animal ou vegetal, eu lembro a leitura no vol. 2.ᵒ de La face de la terre por Ed. Suess (trad. de E. de Margerie. Paris, 1900), do capitulo intitulado: Os contornos do Oceano Atlantico.
Pelourinho
O concelho da Ericeira foi extincto em 1855, e reunido a Mafra. Tinha o seu pelourinho.
Certas pessoas praticas entenderam que não havendo concelho não era preciso o monumento municipal, e que os degráos de pedra eram bem bons; e aproveitaram os degráos lá para o que bem quizeram, e a columna partida, o capitel e o ornato superior foram enterrados. Isto foi por 1863. Agora (outubro de 1905), o dr. Eduardo Burnay, enthusiasta da branca villa, indagou o sitio onde ficaria o resto do pelourinho, mandou excavar, achou as pedras, e vae mandar reerguer a decorativa columna.
Pela photographia que me mostrou creio que o symbolo municipal da Ericeira pertence ao genero do de Collares, ainda completo e aprumado, e do de Cintra ha muito desfeito, mas de que ha desenho cuidadoso. Sobre este caso do pelourinho de Cintra publicou recentemente o sr. Mena Junior uma Noticia historica, interessante, com estampas notaveis, e uma planta do Paço da villa, no Boletim da Real Associação dos Archeologos Portugueses.
A columna do pelourinho da Ericeira tinha annel, a meio, como se vê no de Collares, e na estampa do de Cintra; o capitel e ornato superior são do mesmo desenho. Taes pelourinhos são do começo do seculo XVI, reinado de D. Manuel, e correspondem á grande reforma foraleira d’este monarcha.
A respeito da villa da Ericeira varios escriptos teem apparecido publicados, artigos de jornaes, ou revistas, ou capitulos de recordações.
O sr. Eduardo da Rocha Dias no tomo 1.ᵒ e Addenda do seu valioso trabalho Noticias archeologicas, ao tratar da Ericeira, apresenta a bibliographia da interessante villa.
Grande serviço tem prestado á villa da Ericeira o sr. dr. Eduardo Burnay alcançando os meios precisos para a construcção da muralha de supporte na arriba do porto. Se esta obra tardasse haveria desmoronamento prejudicial á villa, á concha do porto, e á praia apertada onde labutam os pescadores. Actualmente ha tres armações de sardinha, empregando uns duzentos homens, e todo o trabalho se faz na breve praia onde ás vezes as companhas se embaraçam. Não está ainda terminada a obra, pouco falta ao que parece; o que está feito é já muito util.
Muito melhorado tem sido ultimamente o caminho para a praia do sul, e, ao que ouvimos affirmar, vae tratar-se da rampa da praia do norte, que é muito linda tambem. Seria bom melhorar o caminho para Ribamar, que não offerece difficuldades, facilitando assim um bello passeio, util para os povos do sitio, e estabelecendo communicação facil e agradavel com a região dos pinhaes. A primeira parte da estrada de Mafra é de forte declive, uma ladeira de tres kilometros, incommoda para passeio. Assim como seria para desejar o arranjo do caminho para a Lapa da Serra, sitio pittoresco, accidentado, com arvoredo viçoso.
Na Lapa da Serra tem-se desenvolvido nos ultimos annos a industria ceramica: fabrica-se louça vidrada com seus lavôres especiaes, ás vezes de phantastica ornamentação.
Pinhaes, mais pinheiros, é que eu gostaria de vêr na moldura agreste da interessante villa.
O sr. Adolpho Loureiro, inspector geral de obras publicas, publicou recentemente o volume segundo da sua excellente e muito util obra: Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes.
A pag. 303 começa a parte relativa ao porto da Ericeira, representado minuciosamente na estampa sexta do respectivo atlas.
Segundo se vê do consciente trabalho do sr. Loureiro é para desejar:==a construcção de obras de drenagem dos terrenos, consolidação das ribas, conclusão das rampas tornando-as aptas para varar os barcos de pesca, e desobstrucção do porto, removendo-se as pedras soltas que se acham na area d’elle a menos de 1ᵐ,5 a 2ᵐ abaixo da baixa-mar, e, finalmente, estudar-se a possibilidade da construcção de um pequeno molhe para abrigo das embarcações de pesca, no caso de poder aproveitar-se qualquer restinga ou pedras que possam servir-lhe de apoio==.
Parece facil a construcção de um pequeno molhe acostavel, que seria de grande vantagem para aquelles pobres pescadores.