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Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Chapter 24: Estuques
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About This Book

O autor empreende passeios pelas imediações de Lisboa, oferecendo descrições topográficas e arqueológicas de igrejas, mosteiros, sepulturas e fontes, identificando estatuária, inscrições e azulejaria, e anotando transformações arquitectónicas e achados antigos. O texto combina observações de paisagem e clima com pequenas histórias locais, reconstruções de memoriais e comentários sobre restauros e deslocações de monumentos, além de recordações pessoais de companheiros de estudo e reflexões sobre erudição regional. A narrativa alterna descrições pitorescas com notas históricas e críticas, formando um guia de curiosidades e património suburbano.

De Bemfica á quinta do Correio-Mór


(1905)

Sabe bem de vez em quando uma excursão fóra das estradas mui trilhadas, longe de caminhos de ferro e de electricos. Pelo meio dia cheguei a Bemfica, á cocheira do largo da Cruz da Era. Cocheira pacata, bom serviço e preço modico; arranjou-se um carrinho; e seguimos pela estrada do Poço do Chão, muito socegada, entre muros de quintas, sebes de caniços, e filas de oliveiras. Passa a quinta da Granja, a da Condessa de Carnide, a do Sarmento ou Bom Nome; deixa-se á esquerda a estrada da Correia; agora o antigo chafariz e o moderno lavadouro, ambos sem agua. Á nossa esquerda fica a egreja parochial de S. Lourenço de Carnide, muito caiada, veneravel pela sua idade; estamos no Alto do Poço, de linda vista campestre. Estes sitios de Carnide e Luz são dos melhores dos arrabaldes da capital, mas infelizmente os senhores da governança não lhes teem dado attenção. Muitas vezes nem agua teem os pacificos e modestos moradores. A hygiene, a limpeza publica é quasi nulla. Facilidade de communicações não existe. Emfim carencia completa de melhoramentos municipaes. Bons ares e contentem-se. Eis agora a egreja da Luz, isto é, a monumental capella-mór e cruzeiro, porque o corpo da egreja arruinou-se pelo terremoto de 1755.

Mas o que resta pela sua architectura e decoração, principalmente pelas pinturas, é uma joia, essa fundação da inclita infanta D. Maria. Á nossa direita o grande edificio do Collegio Militar. Estamos no amplo largo da Luz, com suas alamedas que mereciam mais attenção e cuidado; a nascente o grande palacio e quinta de Oliveira, vistosa construcção, e entramos na estrada do Paço do Lumiar. Ha um lanço entre muros e vallados, logo a estrada alarga: boas vivendas antigas e modernas.

Um modesto terreiro; a meio a egreja ou antes ermida de S. Sebastião com o seu portal manuelino. Na visinhança boas casas á antiga, a da quinta do Paço por exemplo. Segue a muito nomeada quinta do sr. duque de Palmella, principesca vivenda com seus jardins em socalcos, fontes e lagos, arvoredos antigos, raros exemplares botanicos, e grande residencia. Fica-nos á direita a egreja parochial de S. João Baptista do Lumiar, de fundação muito remota. Passa a rua do Prior, a calçada de Carriche e estamos no campo. Estrada larga, aqui em bom estado, ali em máo, já uma cova, agora um pedregulho, como todas as estradas do paiz, onde todos querem estradas e ninguem trata de as conservar. Que eu tenho grande esperança nos automoveis; os excursionistas de automovel tanto hão de soffrer e gastar que levantarão celeuma provocando reparações indispensaveis.

Em alguns pontos a estrada está bem arborisada. Estamos na Povoa de Santo Adrião: reparei em certo nicho e poço que vi á direita, e numa pedra lavrada; logo fiz tenção de parar á volta para exame mais demorado. Dilata-se a varzea de Friellas, bom torrão fecundo. O saloio é bom agricultor, eximio no hortejo. Aqui, além de trigo e milho, ha grande cultura de batata e ainda mais da hygienica cebola. Pelos telhados amarellecem enfileiradas as corpulentas aboboras machadas. Avisto algumas casas boas, antigas, agora em ruina.

Evidentemente por estes sitios em tempos idos residiram pessoas abastadas; agora quem tem meios vae para a cidade para gosar e não trabalhar, nem vigiar. Estamos em Loures, eis a egreja matriz, grande templo, de fundação mui velha e reconstrucção moderna; contiguo o antigo cemiterio num abandono vergonhoso, servindo para estendal de roupas. Mais um pouco de estrada e topa-se á esquerda uma avenida bem tratada, recatada, com suas filas de oliveiras; entramos na quinta do Correio-Mór. Ainda uns minutos e chega-se a um portico monumental, elegante e bem construido, encimado pelo brasão dos Mattas, e entramos em bello páteo, frente e alas do palacio formando os tres lados.

O palacio está em fundo valle apertado entre altos montes vestidos de arvoredos e vinhas até meia encosta; a região inferior povoada de laranjaes, agora um pouco doentes, e de hortejo viçoso. Provavelmente edificaram o palacio naquelle covão por causa das aguas; e de facto ha agua corrente em muitos pontos da grande residencia. Um vestibulo amplissimo; começa a escadaria larga, suave, magistralmente construida; no primeiro patamar uma fonte artistica, grande taça de um só bloco de marmore, estatuas, e um lindo medalhão com busto, talvez do Matta fundador do palacio. Está bem conservado o edificio; repararam ainda ha poucos annos os telhados; não chove agora nas salas; mas antes houve abandono e perderam-se ou estragaram-se alguns trabalhos preciosos.

No Correio-Mór a construcção é boa a valer, a architectura é elegante; mas ha ainda a notar nos grandes salões, nas salas e gabinetes, a variedade e o gosto da ornamentação.

Empregaram-se ali artistas de primeira ordem no seu tempo. Houve todavia alguns concertos e enxertos de máo gosto e inferior qualidade. As salas da musica, da dança, a dos apostolos, a capella, o grande salão de jantar, teem azulejos, estuques, pinturas, e obras de talha de merecimento. A cosinha é monumental, com as suas chaminés, pias de lavagem, grandes mesas de marmore, e azulejos decorativos muito especiaes. O conjuncto é uma raridade. No jardim tambem ha obras de arte, e o enorme tanque da horta, com sua guarnição de azulejos, merece ser visto.

Este palacio tem um historia. Luiz Gomes da Matta, homem de fartos haveres, foi nobilitado por Filippe ii que lhe deu brazão:==em campo de ouro tres mattas verdes em roquette sobre penhascos verdes; timbre uma das mattas.==

Este Matta comprou tambem o fôro de fidalgo e o officio de correio-mór, e arvorou a quinta da Matta em solar. Chamaram-lhe depois a quinta da Matta do Correio-Mór. Hoje toda a gente d’aquelles sitios lhe chama o Correio-Mór. A quinta e palacio pertenceram á Casa Penafiel até ha poucos annos, e actualmente ao sr. Canha, negociante de Lisboa. Merece a pena um passeio a essa antiga residencia.

Azulejos

O alto rodapé da sala de jantar é de azulejos, azul em fundo branco, em grandes e pequenas composições conforme os espaços; é trabalho, e grande, feito propositalmente para ali, para aquelles vãos de parede, bem composto e executado. Uma serie de quadros representa, parallelamente, as phases da vida humana e a historia de um navio. Aqui se vê a criança de mama, ao colo da mãe, e o berço, as graciosas pequenas roupas; logo as scenas da primeira infancia, as ingenuas brincadeiras. Neste quadro rapazotes bem postos aprendem os exercicios da caça, noutro representa-se-nos uma aula, os meninos attentos á lição do mestre. Vae seguindo a construcção do navio, ali o fabrico do cavername, depois o assentar do forro, o trabalho do calafate; logo o erguer dos mastros. E toca a viajar sobre as aguas do mar, para a India ou para o Brazil; lá está o navio com o velame ao vento, prestes a sahir do porto.

Temos agora um casamento, e no quadro seguinte uma profissão em casa religiosa. Era o caminho necessario em familias antigas, de bens vinculados; o excesso de filhos trasbordava para as armas, ou para o claustro; meninas sem dote raras casavam, iam para freiras, e em certos conventos passava-se muito bem a vida. Em varios quadros scenas da vida caseira; o concerto musical; a dança animada; os prazeres campestres de boa sociedade.

Um naufragio agora, o navio torturado, pannos rotos, mastros partidos no vendaval furioso. Muitas outras scenas, bem desenhadas e compostas, com sufficiente minucia em trajos e utensilios, mesmo em attitudes, se nos deparam na interessante serie de azulejos.

Noutra sala os azulejos, em rodapé, representam as quatro estações. Na sala chamada dos Apostolos ha caçadas de montaria, do veado, do javali, do leão. Esta sala tem um esplendido tecto de madeira, em variados caixotões, formando grandes molduras com obra de entalhado, pintado e dourado, frisos de flores, e os lisos pintados a oleo representando scenas mythologicas.

Na capella os azulejos representam scenas de devoção; eremitas e frades oram e meditam; num d’esses quadros surge um anão risonho. No jardim vi tambem uma estatua de anão, bem executada.

Na cosinha, tambem ha azulejos a notar na cosinha, aparecem as peças culinarias, coelhos, perdizes, presuntos, chouriços, hortaliças. A cosinha do Correio-Mór é magnifico exemplar completo, com as suas grandes chaminés, grandes mesas de marmore, e agua corrente em abundancia.

Em rodapés de ante-salas, em alegretes de jardins, encontram-se frequentemente as scenas da comedia italiana, as serenatas, os jogos, casos de amores e ciumes, brigas de espadachins, cortezias de tafues, as varias combinações de Pulcinello, Arlechino e Scaramuccia, de Fracasso e Tagliacantoni, com Lucrecia, Colombina e a Signora Lavinia; não faltam os capitães Ceremonia e Cocodrillo, nem os casos comicos de medicos e barbeiros.

Domina sempre n’esta alegre ornamentação o typo italiano, o que não se estranha attendendo aos muitos artistas de Italia que vieram a Portugal no seculo XVIII, e á tendencia dos artistas portugueses a irem a Roma procurar a perfeição artistica. Mas ha excepções; uma bem saliente na quinta dos marquezes de Fronteira em S. Domingos de Bemfica; ha ahi azulejos hespanhoes e hollandezes de merecimento e excellente conservação.

O Matta, Correio-Mór

Foi Luiz Gomes da Matta o instituidor do vinculo ou morgado da quinta da Matta, não me parece todavia que elle fizesse o grande palacio. Seu filho e successor Antonio Gomes da Matta fez grande testamento que por quaesquer questões foi impresso:==Testamento que fez Antonio Gomes da Matta, correyo mór que foi deste Reyno de Portugal. Lisboa, off. Craesbeeckiana, 1652, in-4.ᵒ, 136 pag.==

A pag. 62 do testamento, mencionando varias propriedades, diz simplesmente==quinta da Matta com suas terras e azenha e mais pertenças propriedade que Luiz Gomes da Matta, meu pae, deixou vinculada.==

E nada mais; não falla do palacio, das obras d’arte, etc.; quando é minucioso relativamente a outras cousas menores.

É testamento interessante; o testador era homem piedoso, devoto, muito rico.

Possuia grandes predios em Lisboa, quintas na Luz, em Loures, em Almada, grandes herdades no Alemtejo, no termo de Elvas. Grande capitalista, emprestava dinheiro sobre penhores.

A sua casa de morada em Lisboa estava posta com fausto; menciona os pannos de raz, e brocateis que forravam as paredes das salas; tinha joias de grande valor, e enorme quantidade de pratas.

Fazia festas religiosas; dava cera, azeite, dinheiro para muitas imagens; no testamento contempla dezenas de corporações religiosas, de parentes, de creados, e de empregados do correio, amigos e compadres. Mas não falla de grande residencia na Matta. Por esta razão, e pelo edificio que vejo agora, creio que o palacio actual foi erguido em tempo de D. João V, soffrendo algumas modificações em época mais recente.

Mas temos em Volkmar Machado um dado importante; ao tratar do conhecido pintor José da Costa Negreiros, conta que foi discipulo do famoso André Gonçalves==cujo estylo seguia com mais sisudeza mas com menos agrado==, e que fez alguns tectos em Loures, na quinta do Correio-Mór.

Negreiros morreu em 1759.

É possivel que as pinturas da sala dos Apostolos sejam, em parte, de Negreiros; outras serão de seus discipulos Bruno José do Valle, ou Simão Baptista; mas as decorações de outras salas, e especialmente os grandes trabalhos a estuque, devem ser da segunda metade, adiantada, do seculo XVIII, pois que a furia da decoração a estuque foi posterior ao terremoto de 1755.

O officio de Correio-Mór

Parece que antes de 1520 não havia em Portugal serviço de correio organisado regularmente.

Mandavam-se proprios, e dispunham-se postas quando assim era preciso. Nos caminhos de maior transito, em intervallos de 3 a 4 leguas, as estalagens tinham cavallos para muda, que alugavam.

Em 1520 el-rei D. Manuel criou o officio de correio-mór; foi Luiz Homem, ao que dizem, o primeiro a exercer o cargo.

Em tempo de D. João III appareceu a primeira lei ou regimento postal.

O segundo correio-mór chamava-se Luiz Affonso; seu genro Francisco Coelho, foi o terceiro.

O cargo conservou-se na familia até 1606 em que falleceu Manuel Gouvêa, o quarto no cargo.

Então Filippe II mandou vender o officio; que foi comprado por 70:000 cruzados, por Luiz Gomes da Matta, em 19 de julho de 1606.

O correio-mór tinha a seu serviço estafetes, mestres e creados de posta, e varios assistentes. O serviço do correio foi sempre augmentando, sem alteração fundamental do regime até 1852, embora este ramo pertencesse ao Estado desde 1797. Neste anno, em alvará de 16 de março, D. Rodrigo de Sousa Coutinho foi encarregado de tratar com o Correio-Mór a cedencia do officio.

Manuel José da Maternidade Matta de Sousa Coutinho, o ultimo correio-mór, recebeu em indemnisação pela cedencia do officio o titulo de conde em tres vidas, a renda annual de 40:000 cruzados, pensões vitalicias a diversas pessoas, cuja somma andava por 400:000 cruzados, e um ou dois postos no exercito.

Foi este o primeiro conde de Penafiel.

O segundo conde e primeiro marquez de Penafiel foi Antonio José da Serra Gomes pelo seu casamento, em 1861, com a segunda condessa desse titulo.

Pelas quantias indicadas se vê o augmento de importancia do correio entre 1606 e 1797, ainda que nessa época pequeno progresso tivera a viação publica.

Estuques

O uso do estuque é muito antigo; ha exemplos no velho Egypto, na remota Assyria; os romanos o empregaram vulgarmente; em Pompeia ha tectos, frisos, cornijas de gesso. Bysantinos e arabes usaram do estuque, principalmente os arabes de Hespanha; os estuques pintados da Alhambra são admirados no engenho da decoração geometrica, no effeito da combinação de tons. Durante largo tempo esqueceu o estuque, para reviver no meiado do seculo XVI. Mas então renasceu e logo se desenvolveu em processo e applicação; fizeram-se frescos sobre estuque de gesso, modificaram-se as pastas, formaram-se grandes composições em alto relevo.

Em Portugal ha noticia de estuques no seculo XVII, de pouca importancia.

Poucos annos antes do grande terremoto de 1755 appareceu em Lisboa um artista italiano de grandes aptidões, João Grossi, que iniciou grandes trabalhos neste genero. Outro estucador, primeiramente simples ajudante de Grossi, Gommassa, se tornou notavel.

O marquez de Pombal empregou-os nas suas propriedades. O terremoto tornou necessarios trabalhos rapidos e os estucadores prosperaram; e vieram mais estucadores italianos, Chantoforo, Agostinho de Quadri, que introduziram novos processos. Nas Janellas Verdes, no palacio pombalino da rua Formosa, na egreja dos Paulistas, etc., ha trabalhos d’estes italianos.

O marquez de Pombal chegou mesmo a fundar uma escola de estucadores, de que foi mestre o Grossi (1766).

Trabalhou-se immenso em estuque, bem e mal, com arte ou sem ella; João Paulo da Silva trabalhou no palacio na quinta das Laranjeiras (por 1798), assim como Felix Salla, outro italiano discipulo do celebre milanez Albertoli, que fez reviver a grande ornamentação dos gregos e do imperador Augusto.

É certo que por este tempo estucadores portuguezes foram trabalhar a Hespanha, tanto se tinha aqui progredido neste ramo.

Por 1805 entrou em Lisboa um estucador suisso de grande habilidade, Vicente Tacquet que trabalhou com Francisco Espaventa e outros.

Vieram os desastres da guerra, e alguns dos melhores artistas refugiaram-se no norte do paiz, no Porto, e em Vianna do Castello, Caminha, Affife que nos tempos modernos, nos ultimos 40 annos, tem produzido bons artistas estucadores.

De Rodrigues Pitta são os tectos do palacio do marquez de Vianna (1846) ao Rato, hoje propriedade do sr. Marquez da Praia.

Em 1855 e 1856 ornamentou o salão de baile do palacio da Junqueira (actual palacio Burnay) e dois salões do palacio Costa Lobo, no campo de Sant’Anna.

Deixou trabalhos de grande folego nos palacios de José Maria Eugenio d’Almeida, a S. Sebastião da Pedreira, Gandarinha que tem magnificas escaiolas na galeria, e no do Marquez de Penafiel.

A esplendida sala do conselho de Ministros, no Ministerio do Reino, tem o tecto muito trabalhado, não de grande effeito.

Cinatti introduziu em Lisboa um artista, seu parente, Joanni, notavel imitador de marmores, e bom artista em estuque lucido.

Nos ultimos vinte annos a mania pelo estuque, especialmente pelas imitações de marmores, tem sido, a meu vêr, exaggerada.

E, o que é grave, na maioria esses trabalhos são mal dirigidos e executados. Tem sido um desastre.

Ha estuques carregados de relevos que em tres ou quatro annos estão fendidos e estragados.

Imitações de marmores, quasi tão caras como os modelos, estaladas em poucos mezes. Mas a mania pelos estuques não é só na capital; ao norte do paiz ainda foi, e é, mais intensa.

No Porto ha estuques antigos, dos melhores, no palacio dos Carrancas, e modernos na Bolsa.

No Minho citam-se como notaveis os do palacio da Brejoeira, obra dos Alves, de Fafe, por 1850.

Em Evora temos os mais recentes no theatro Garcia de Resende, fino trabalho do Meira.

Será rara a egreja da Provincia, onde tenha havido reparos nos ultimos annos, que não possua amostras de estuque moderno, de facil execução e de mau effeito passado o lustro dos primeiros mezes.

Nas salas do Correio-Mór ha tectos estucados a baixo relevo muito distinctos e paredes ornamentadas a esgrafito de algum effeito.

Volkmar Machado deixou-nos algumas noticias sobre estucadores, que Liberato Telles utilisou no seu trabalho publicado no Boletim da Associação dos Conductores de Obras Publicas. Vol. IV. 1900.

Egreja de S. Lourenço de Carnide

O logar de Carnide, que faz parte agora da capital, é muito antigo; existia já povoado e cultivado no meiado do seculo XIII.

O mosteiro de S. Vicente possuia aqui uma vinha e uma herdade, como se lê nas inquirições do reinado de D. Affonso III. Por esse documento, importante para a historia de Lisboa e seus termos, se vê que em tão remota época já nestes logares de Carnide, Charneca, Queluz, Falagueira, Odivellas, Palma e Telheiras havia culturas, vinhas e povoados que contribuiam para o rei, para as ordens militares, e para os grandes mosteiros.

Em 1342, o bispo de Lisboa, D. João, mandou edificar a egreja á honra de S. Lourenço, por Pedro Sanches, chantre da sua sé, e a deu a seu capellão João Dor. Era já egreja parochial no seculo XIV.

Em meio de amplo terreiro, murado, orlado de oliveiras, com larga vista de campos e collinas ergue-se a egreja com o seu campanario, em linhas de singela construcção. A orientação e disposição da egreja é antiga, todavia pouco se vê do seu estado primitivo.

Está bem reparada, de ha poucos annos.

É um templo alegre, com as suas obras de talha dourada, as paredes forradas com azulejos, de azul sobre branco, em grandes quadros, allusivos á vida de S. Lourenço.

Tem cinco altares, o maior, o da Senhora do Rosario, do Crucificado, de S. Miguel, e o de Jesus-Maria-José.

No altar-mór ha um quadro bom, o lavapedes, mal restaurado, infelizmente; algumas campas com lettreiros no chão da capella-mór; duas pias d’agua benta que são dois capiteis do seculo XIV, escavados; na sacristia um arcaz de boa madeira, com metaes bem cinzelados.

O terreiro ao redor da egreja era d’antes o cemiterio; campas e ossadas foram removidas para o cemiterio dos Arneiros (Bemfica). Ficou apenas uma grande pedra, com inscripção latina, que era o tumulo de José João de Pinna de Soveral e Barbuda, fallecido em 1710.

Para o novo cemiterio de Bemfica foi removida a campa de D. Anna Maria Guido, marqueza de Ravara, fallecida em 1752.

No alto de um cunhal, do lado do sul, está uma pedra com lettreiro em caracteres gothicos (seculo XV, talvez) que diz:—Esta sepultura he de Luis d’Abreu e de todos seus herdeiros.

Na capella-mór ha bastantes campas.

—Esta sepultura é de Joam da Costa de Mendonça e de quem nela se quizer enterrar.

—Sepultura de Francisco Jorze e de sua molher e de seus herdeiros... de 1569.

—Sepultura de George Pires e de sua molher e herdeiros. 1616.

—Sepultura de Jozeph da Costa e de sua mulher Catharina da Costa a coal faleceo a 28 doutubro de 1712 e pera todos os seus herdeiros.

—Sepultura de Guilherme Street Arriaga Brum da Silveira e Cunha e familia. 28 de outubro de 1826. P. N. A. M.

—Esta sepultura mandou fazer João Correa pera se enterrar nella e seus herdeiros.

—Sepultura de Antonio de Almeida e seus herdeiros faleceu a 14 de mayo de 1601 anos.

—Sepultura de Luiz Ramalho Pre... e de sua mulher Francisca de Almada Tiba e de seus herdeiros faleceu a X d. de junho de 1637.

—Sepultura de Bastião criado de S. M. e de seu herdeiro. Faleceo a 5 doutubro de 1796.

—Sepultura do P.ᵉ H.ᵐᵒ Machado cura que foi nesta igreja muitos annos e de seu herdeiro.

—Sepultura perpetua de Simão Moreira e sua molher Domingas Francisca e de seus herdeiros a qual lhe mandou pôr seu filho o P.ᵒ Luiz Moreira. 1678.

—Sepultura de Lianor Jorze molher que foi de Luiz Glz d’Oliveira provedor dos contos do reino faleceo a 21 doutubro de 1567, e de seus herdeiros.

Transcrevi estes lettreiros porque são ineditos.

Na frontaria da egreja está uma inscripção referente á fundação; e uma pedra com escudo d’armas que não sei explicar; não me parece portuguez, nem hespanhol esse curioso brazão em que se vê uma perna com bota, por baixo de uma estrella.

É bem interessante a modesta egreja, agora parochia da capital.

Luz

Da egreja de Nossa Senhora da Luz resta-nos o cruzeiro, e a capella-mór; o corpo da egreja abateu por occasião do terremoto de 1755. É da fundação da infanta D. Maria, senhora opulenta e de alta cultura d’espirito. Nesta egreja ha obras d’arte notaveis em esculptura de madeira e pedra, em architectura, e em pintura. A capella-mór tem 12 x 8 metros; o cruzeiro 21 x 10.

A capella-mór é ampla, alta, coberta de abobada revestida, assim como as paredes, de marmores diversos formando quadrellas; é o conhecido estylo classico dominante no findar do seculo XVI. Nichos com estatuas animam as grandes paredes. Na parede que olha ao sul estão rasgadas janellas que dão bastante claridade.

O altar-mór está elevado, sobre o pavimento da capella; quatro degraus se sobem para lá chegar.

Além do altar-mór abre-se um grande arco que abriga o sacrario, soberba obra d’arte muito elegante, em madeira entalhada e dourada; atraz fica o vasto côro, agora sacristia, no mesmo nivel da egreja. Proximo do grande altar, no chão, ha uma abertura circular que diz para a fonte de agua milagrosa.

A meio da capella-mór o singelo tumulo da fundadora.

Na capella-mór ha duas capellas lateraes; outras duas no cruzeiro.

Empregaram na construcção marmores branco e vermelho, servindo-se da pedra d’Arrabida na ornamentação; nos frisos e molduras sobresahem quadrados, losangos, ellipses feitos n’essa pedra, bem trabalhada e polida. A pedra vermelha fórma o fundo, a branca a parte saliente e ornamental.

Nos grandes nichos da capella-mór estão dezesete estatuas em marmore: Nossa Senhora com o Menino de Jesus, S. Thomé, S. André, S. João, S. Lucas, S. Matheus, S. Marcos, S. Simão, S. Mathias; estas á direita, olhando para o altar-mór; á esquerda, S. Filippe, S. Thiago Maior, S. Pedro, S. Judas Thadeu, S. Thiago Menor e S. Bartholomeu. As estatuas da Virgem e dos Evangelistas são maiores.

Estas estatuas são em marmore branco d’Estremoz, lindo marmore; o trabalho é muito pegado, os artistas não se atreveram a desligar, a destacar braços ou mãos.

No exterior do edificio, lado sul, ha outra estatua de Nossa Senhora com o Menino e, ainda uma terceira na frontaria do Collegio Militar; todas da mesma época e do mesmo estylo acanhado. São todavia de bom trabalho, e representam excellentemente o estado da estatuaria em Portugal naquelle tempo.

No altar-mór admiramos alguns baixos relevos em fino jaspe, em seis pequenas pilastras; são figuras symbolicas da Fé, Justiça, Fortaleza, etc.

Sobre a figura da Fortaleza ha um medalhão com Hercules, o leão e o centauro finamente executado.

Uma das figuras é a Astronomia, outra a Medicina. Nas pilastras que formam as esquinas do altar, as faces lateraes mostram fructas e flores, escudos e peças d’armadura. Estes bellos baixos relevos são de pura renascença, d’um estylo muito anterior ao frio classicismo da capella-mór.

Alguns dos symbolos destoam da ideia christã, parecem deslocados na ornamentação d’um altar-mór. É possivel que sejam peças destinadas a outra obra d’arte, que foram aqui aproveitadas. Nas duas capellas lateraes do cruzeiro de Santa Maria de Belem (Jeronymos) ha uns lindos baixos relevos nos altares, pouco vistos, que passam mesmo despercebidos porque teem luz escassa, que, me parece, se relacionam com estes da Luz na qualidade da pedra, e no estylo do trabalho. E no portico do poente, nos Jeronymos, superiormente, ha duas pilastras que dizem com estas da Luz[1].

[1] Devemos lembrar que Jeronymo de Ruão, architecto da Luz, tambem o foi da capella-mór dos Jeronymos

Na alta parede da frente da capella-mór ha oito quadros em disposição symetrica; o maior occupa o centro, é Nossa Senhora da Luz com o Menino, que apparecem ao pobre Pedro Martins; o milagre que deu origem á fundação da ermida primitiva.

Este quadro está assignado: Franciscus Venegas, Regius pictor faciebat.

Sobre este quadro está outro painel de moldura circular, que representa a Coroação da Virgem; está tambem assignado: F. Venegas. f. Como estes dois quadros estão bastante altos as assignaturas não se descobrem á primeira vista, mas é facil a leitura com um binoculo regular.

Á esquerda da Coroação está a Adoração dos Reis, á direita a Apresentação no Templo, em molduras ellipticas; não lhes descubro assignatura. Aos lados do grande quadro do milagre de Pedro Martins, está a Visitação á esquerda, e á direita a Adoração dos pastores; não lhes vejo assignatura; por baixo á esquerda Nossa Senhora e S. Joaquim, á direita a Annunciação, este assignado: F. Venegas f.

Os paineis não assignados podem ser do mesmo artista Venegas; são pinturas em madeira, bem desenhadas e pintadas, em boa conservação. Á primeira vista estas pinturas destoam, divergem entre si; a meu vêr porque o pintor, que era excellente executante, não tratou de inventar, contentando-se em copiar, ou quasi, os bons quadros que conhecia.

Assim este quadro recorda Raphael, outro o Sarto, aquelle o Parmesão; na Coroação da Virgem, singelo grupo em fundo dourado, parece vêr-se a reproducção de quadro muito antigo de um primitivo; na grande composição central lembra logo a Transfiguração de Raphael; na Annunciação, que tem grande vigor de colorido, e luz intensa de grande effeito, recorda o Mazuoli. Isto é, este Venegas, excellente pintor, está completamente dominado pela escola italiana.

Na capella da esquerda está o quadro da Circumcisão. O fundo é formado por apparatoso edificio do renascimento. A figura da Virgem é admiravel; á esquerda, a Caridade, mulher com duas creanças, de bom effeito; á direita, no fundo escuro, a Humildade. No primeiro plano vê-se um tapete persa e um cãosinho felpudo, de luxo, pintado com muito cuidado.

Na capella á direita a Sacra Familia, Anjos coroando: fundos claros, edificio do renascimento em ruina. Detalhes minuciosos.

O trabalho d’esculptura em madeira dourada que reveste a grande parede da capella-mór faz bom effeito; é desegual, talvez em parte material aproveitado para encher o vão. Mas o sacrario é uma peça de grande elegancia; renascença classica de cuidadosa execução.

Na capella esquerda do cruzeiro está um quadro notabilissimo. S. Bento dá a regra aos seus monges. No primeiro plano á esquerda el-rei D. Manuel, á direita a infanta D. Maria. Um fidalgo e diversos monges formam grupo atraz da figura do rei, uma dama e muitas freiras estão depois da infanta. Todas as figuras estendem o braço direito, a palma da mão para cima como signal de acceitação da regra. O pintor para evitar monotonia variou muito as posições dos dedos; foi um verdadeiro esforço, um trabalho habilidoso e paciente o desenho de tantas mãos; a mão fina e lisa das damas novas, a nodosa e enrugada das velhas, a robusta e a gorducha dos fortes monges. D. Manuel tem o collar de Christo. A infanta veste com fausto; vestido de tissu lavrado, apertado na frente com laços de fitas com agulhetas; joias com pedras preciosas, gorgeira de fina renda, gola muito alta, collar com fita pendente de ouro e pedras. O lindo rosto juvenil da dama de côrte, vestida mais modestamente, pintado n’um tom menos brilhante, succede muito bem á magestosa grande dama, e prepara para o aspecto ascetico do grupo de freiras. Tanto estas como os frades teem phisionomias estudadas; são retratos. Por isto este painel tem o duplo valor de obra d’arte, e de documento historico, dando-nos ainda preciosos elementos de indumentaria. Ha outros retratos da infanta; e o busto de prata que se conserva em Santa Engracia (antiga egreja dos Barbadinhos) harmonisa com este em aspecto e vestuario.

As grades da capella-mór e das outras capellas são em pau santo com torcidos.

No cruzeiro á direita fica outro altar. É a capella do Senhor dos Afflictos; é a imagem de Jesus Crucificado, esculptura em madeira de boa execução, corpo robusto com anatomia estudada. Sob a imagem, n’um friso, ha duas taboas pintadas que merecem attenção. Em uma Santo Antonio e S. João Baptista; na outra as santas Agueda e Luzia, com os seus emblemas. São pinturas talvez do começo do seculo XVI alli applicadas.

No cruzeiro, á direita, uma porta singela dá para uma pequenina capella, agora sem culto; construcção do começo do seculo XVII. Tem rodapé de azulejos, altar e chão de boa pedra. Está aqui um tumulo com escudo de armas sem lettreiro; outro com brazão e a seguinte legenda:

—Aqui está sepultado o religiosiss.ᵒ varão da ordem de Chr.ᵒ D. F. Martinho de Ulhoa bispo que foi de S. Thomé, Congo e Angola juntamente que mandou fazer esta capella em a qual se lhe diz missa quotidiana falleceo a 8 d’agosto de 1606.—

Guarda-se na sacristia (antigo côro) um grande retabulo que servia de tapar o vão do arco da capella-mór. Representa o milagre de Nossa Senhora a Pedro Martins. É fraca pintura. Está assignado e datado: Anno de 1714. Henrique Ferreira fez.

Sobre o altar da sacristia está a imagem de Nossa Senhora dos Remedios.

É esculpida em madeira, e por nesta ter dado o caruncho a vestiram de seda para occultar as lesões. Merece toda a attenção. É pintada e dourada; luxuoso vestido rodado de mangas perdidas, fita de joias em relevo com imitação de pedras finas. No vestido o artista imitou rico tissu floreado.

O vestuario d’esta imagem recorda o do retrato da infanta. Deve ser esculptura do fim do seculo XVI.

Da mesma época deve ser um grande frontal com o brazão da infanta bordado no centro e aos lados; tem fachas de velludo vermelho com bordado alto a ouro e prata, sendo os vãos ou entrefachas de seda branca.


Junto do altar-mór a abertura do poço ou fonte da agua milagrosa, um simples bocal raso com tampa de madeira.

A fonte é bem curiosa. A entrada deita para um quintal contiguo. Descemos a escada e na parede vemos alguns azulejos antigos, mouriscos, de fino esmalte e relevos. Um portico em estylo manuelino dá para o espaço onde nasce a agua; uma abobada forrada de azulejos brancos com estrellas azues; outros revestem os rodapés e paredes, em pequenos quadros formados de quatro azulejos, de diversos typos, alguns raros. O portico tem columnas torcidas e no intercolumnio uma facha com romans.

Os pintores da Luz

Filippe I (II de Hespanha) n’uma carta de 14 de março de 1583 chama a Francisco Venegas, meu pintor.

(Sousa Viterbo, Noticia de alguns pintores, Lisboa, 1903, pag. 153).

D. Sebastião, em alvará de 6 de maio de 1577, diz: Diogo Teixeira hum dos melhores pintores de imaginarya dolio que ha nestes reynos.

(Ibidem, pag. 142).

Na collecção de desenhos expostos no Museu das Janellas Verdes, os n.ᵒˢ 307 e 308 parecem-me representar as duas figuras que estão em baixo relevo no altar-mór da Luz.

O desenho n.ᵒ 346 (Museu das Janellas Verdes) é de Venegas; uma rubrica indica que é o projecto de um quadro para S. Vicente de Fóra, e que se executou uma réplica, menor, para S. Domingos de Setubal.

A collecção de desenhos do Museu das Janellas Verdes é muito importante, e vista com attenção dá elementos unicos para a historia da arte em Portugal. Ha mais collecções de desenhos em Portugal em estabelecimentos publicos, e na posse de particulares, que insta tornar conhecidas.

Creio que o n.ᵒ 268 é o esquisso do quadro da capella lateral, a Circumcisão; architectura á romana; o sacerdote no faldistorio, etc., nem falta o cãosinho felpudo.


Jeronymo de Ruão foi architecto da infanta D. Maria; entre outras obras fez a capella da Luz e a capella-mór dos Jeronymos.

Nos dois capitulos O lindo sitio de Carnide e Noticias de Carnide dei outras noticias e publiquei lettreiros d’esta egreja da Luz, que julgo escusado repetir agora.

Para a historia da inclita infanta D. Maria é fundamental a—Vida de la serenissima infanta dona Maria, por fr. Miguel Pacheco (Lisboa, 1675).—Modernamente appareceu á luz um trabalho a respeito da infanta e de suas damas pela Sr.ᵃ D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos. Escusado dizer, é bem conhecida a alta intelligencia e a intensa investigação da auctora, que é escripto fóra da bitola vulgar. Nelle se dá noticia dos differentes retratos da infanta D. Maria.

Transcrevo a curta biographia que vem nos Elogios de varões e donas por ser menos conhecida agora, pois esta obra tornou-se pouco vulgar.

Biographia da infanta D. Maria

A Infanta D. Maria tão illustre pelo dote da formosura, como pelo engenho, erudição, graça, e todo o genero de heroicas virtudes, que a constituiram uma das mais recommendaveis princezas do seu seculo, foi filha d’El-Rei D. Manoel, e da Rainha D. Leonor de Austria sua 3.ᵃ mulher. Seu nascimento foi na cidade de Lisboa, em sabbado 8 de junho de 1521 nos paços da Ribeira; e a 17 do mesmo mez foi baptizada pelo Arcebispo de Lisboa, D. Martinho Vaz da Costa, escolhendo El-Rei seu pai para padrinho em nome de Carlos III, Duque de Saboia, o Barão de S. Germano, Senhor de Balaison, enviado então por Embaixador a este Reino para solicitar o cazamento da Infanta D. Brites com o dito Duque; e madrinhas a mesma Infanta D. Brites e D. Isabel suas meias irmãs. Com a morte d’El-Rei seu pai no mesmo anno de 1521, e por se auzentar para Castella a Rainha sua mãi deixando-a ainda no berço, foi entregue para ser educada em idade competente á direcção da Rainha D. Catharina sua tia, tanto que chegou a este Reino, de cuja escola saiu eminente. Como era dotada de estranha viveza, memoria, e grande juizo aprendeu com facilidade as linguas especialmente a Grega, e a Latina que soube com perfeição, e escreveu com tanta propriedade como se lhe fôra natural e materna. Teve por mestres a insigne Dama Toledana Luiza Segéa exquizitamente douta em muitas linguas, e raro prodigio de sciencia, que mereceu ser celebrada dos maiores letrados d’aquella idade; e a Fr. João Soares de Urró da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, depois Bispo de Coimbra, que tambem o foi dos Principes D. Filippe, e D. João seus sobrinhos.

Ao contar dezaseis annos El-Rei D. João III seu irmão lhe deu caza propria, e separada do paço Real, composta das principaes pessoas do Reino: a qual com riquissimo dote, que seu pai lhe deixou, foi de tão grande renda e estado, que para ser igual á das maiores Rainhas da Europa não lhe faltou mais, que haver o nome de uma d’ellas. Foi Senhora de Vizeu, e de Torres Vedras de juro, e teve por El-Rei D. João III seu irmão muitas mercês, e privilegios, e consta por alguns Documentos que se guardam no Real Archivo, como são: uma carta em data de 26 de janeiro de 1545, em que se lhe concedem de padrão de juro e herdade cinco contos de réis, em virtude do contracto feito com o mesmo Rei D. João III que se acha inserto; e duas cartas expedidas á mesma Senhora Infante de privilegios, e jurisdição de suas terras, e sobre as fintas, e provimentos dos officios d’ellas em data de 2 de novembro do mesmo anno: o primeiro no Livro da Chancellaria do dito Rei a fol. 25, e os segundos no Livro 43 fol. 9, vers. e 14 verso. Creou n’este paço particular uma verdadeira Universidade de mulheres illustres em todo o genero de Sciencias e Artes, de que foi especial protectora; pois não só se encontrava quem se désse á lição dos Livros, e tocasse déstramente differentes instrumentos, mas quem com o pincel, e com a agulha procurasse nos primores da Pintura, e lavôr virtuosa emulação e seguisse os outros louvaveis exercicios: aos quaes ajuntava com tal reverencia, e edificação a pratica dos actos de piedade em todo o genero de virtudes, pela direcção de Fr. Francisco Foreiro, lustre da Ordem Dominicana, que parecia menos Paço Real, que Mosteiro reformado, que podia ser a Religiosas espelho, e doutrina de bem viver. Pela fama de tão Reaes qualidades foi pretendida para Espoza dos maiores Principes da Europa, como foram: o Delfim de França, filho de Francisco I; o Duque de Orleans, irmão do mesmo Delfim, a quem o Imperador Carlos V promettera a investidura do Ducado de Milão, ou do Condado de Flandres; e não se effeituando nenhum d’estes cazamentos, por morrerem ante tempo ambos estes Principes, El-Rei D. Fernando de Ungria, Rei dos Romanos, e depois Imperador enviou Embaixador a Portugal pedindo-a por mulher de Maximiliano seu filho; e ultimamente Filippe II de Hespanha, logo que enviuvou da Rainha D. Maria de Inglaterra. Permaneceu todavia até á morte no estado de Donzella, que havia consagrado a Deos com generoza rezolução, preferindo mais o amor da quietação de seu espirito, que a cobiça de reinar. No anno de 1558, sendo ja fallecido El-Rei D. João III, por comprazer aos dezejos da Rainha D. Leonor sua mãi que procurava anciozamente vê-la, se foi por Elvas a Badajoz com luzido acompanhamento; e demorando-se ahi com ella por espaço de vinte dias, e com a Rainha D. Maria de Ungria e Bohemia sua tia, que a receberam com muitas festas de prazer, se tornou para o Reino. Determinada a não sair de Portugal, e a não admittir propostas de despozorios continuou em religiozos exercicios praticando obras de muito louvor, como foram: a edificação do Convento magnifico de N. Senhora da Luz da Ordem de Christo, que dotou riquissimamente, com a grande obra do Hospital que lhe ficava fronteiro; o Mosteiro de Santa Helena do Calvario em Evora; o Convento de N. Senhora dos Anjos (mais conhecido hoje pelo convento do Barro), de Capuchos Arrabidos, junto da Villa de Torres Vedras, na qual teve ella seu palacio; e o Mosteiro de S. Bento na Villa de Santarem; e deixou em seu Testamento, com que se edificasse Mosteiro para as Commendadeiras de S. Bento de Aviz, que se fez em Lisboa com a invocação, como ella ordenára, de N. Senhora da Encarnação. Fundou mais a Igreja Parochial de Santa Engracia de Lisboa, alem de outras muitas obras de piedade em outras Igrejas, como no Convento da Graça da Ordem de Santo Agostinho, em que assistia muitas vezes com sua prezença e esmollas, quando vivia no Palacio do Castello, a Imagem da Senhora, cujo corpo mandou cobrir de prata primorosamente lavrada, e lhe mandou fazer Capella; e no Real Mosteiro de S. Bento, que então se fabricava, mandou fazer a Imagem grande deste Santo, que se vê no altar mór, e adornar sua Capella, e a de outros altares; e por via do Embaixador de Portugal na Côrte de Roma obteve uma Reliquia do mesmo Santo, que he uma parte da que estava no Mosteiro de S. Paulo daquella Cidade, para enobrecer este Mosteiro, e o de Santarem. Foi a Senhora D. Maria, como universal herdeira da Rainha D. Leonor sua mãi, Senhora Soberana de juro do Senescallado de Agenois em Gascunha, e dos opulentos Dominios de Verdum, e Rieux na Provincia de Languedoc; e alem de muitas baixellas de ouro, prata, joias de grande valor, de cem mil escudos que lhe pagavam os Reis de França, e Castella. Sua morte foi no anno de 1577 a 10 de outubro em idade de 56 annos, nos seus paços da Cidade de Lisboa extramuros junto do Mosteiro de Santos, deixando de si unico exemplo a todas as altas Princezas de virtude e honestidade. Tinha disposto de sua ultima vontade, como se podia esperar de sua muita sciencia, e Christandade, por Testamento de 17 de Julho do mesmo anno de 1577, e Condicillo de 31 de Agosto que fez approvar a 8 de Setembro, o que mais convinha a sua consciencia, determinando muitas obras de piedade por todo o Reino com grandes soccorros para pobres, viuvas, donzellas, orfãos, enfermos, e cativos com tamanha profusão que não houve quazi genero de pessoa, que não experimentasse a caridade, e mizericordia desta Princeza, sem faltar em nada á familia de seus criados, e a todos a quem por qualquer via era devedora de serviços passados, que a todos satisfez larguissimamente: e emquanto a seu enterro foi a primeira clauzula, que se acabasse sua vida, primeiro que estivesse concluida a Capella de N. Senhora da Luz no Convento dos Padres de Christo, que ella havia destinado, e mandára edificar para seu jazigo, a depozitassem, emquanto se acabava, no Mosteiro da Madre de Deos de Lisboa. Seu corpo foi depozitado no Capitulo do dito Mosteiro da Madre de Deos, junto da Rainha D. Leonor, mulher do Senhor Rei D. João II, e celebraram-se-lhe exequias com grande pompa, como convinha á grandeza de sua pessoa, com assistencia d’El-Rei D. Sebastião oito mezes antes de partir para Africa, do Cardial D. Henrique, e de todos os grandes do Reino. Sendo passados quazi vinte annos, por determinação de Filippe I foi trasladada para a sobredita Capella de N. Senhora da Luz a 30 de Junho de 1597. Jaz em o pavimento da Capella mór, em sepultura pouco levantada no meio della, e sem nenhuma letra, ou diviza, symbolizando-se por este signal de humildade a muita que esta Princeza guardou em seu coração por toda a vida. No meio do Cruzeiro ao lado do Evangelho se lê em pouca altura na parede uma Inscripção, gravada de letras pretas romanas em uma pedra de marmore branco de tres palmos de alto, e cinco de largo, a qual diz assim:


—A Capella moor deste Mosteiro de N. Senhora da Luz e este Cruzeiro são da sepultura da Serenissima Infanta Dona Maria que Deos tem filha d’El-Rei Dom Manoel, e da Rainha Dona Lianor sua mulher na qual Capella e Cruzeiro se não dará sepultura a pessoa alguma de qualquer calidade que seja nem em tempo algum se fara nhum Deposito nem nhum litereiro por assi estar asentado por Sua Magestade e por contrato solene e celebrado que se fez co o Padre Prior e Padres desta Casa confirmado pelo Padre Dom Prior e mais Padres do seu Convento de Tomar cujo trelado esta na Torre do Tombo e nesta Caza de Nossa Senhora. Faleceo a dez Doutubro de 1577.—

Esta biographia vem na obra—Retratos e elogios dos varões e donas, que illustraram a nação portugueza. (Lisboa, 1817).

S. Sebastião do Paço do Lumiar

A ermida de S. Sebastião está isolada em alegre terreiro, moldurado de bons predios, alguns antigos, no logar do Paço do Lumiar.

Este logar é continuação do Lumiar propriamente dito, para o lado da Luz e Bemfica.

Partindo do amplo largo da Luz segue-se uma estrada entre boas quintas á Horta Nova; já proximo do Paço ha boas construcções modernas á beira do caminho.

A ermida é muito simples; chama principalmente a attenção a porta em estilo manuelino, elegante e bem conservada.

O exterior da pequenina egreja mostra que a primitiva obra do começo do seculo XVI, soffreu grandes concertos depois. Na cruz de azulejos que está no lado norte lê-se Anno 1628; a mesma data se mostra no azulejo que fórra o interior; houve pois grande obra alli n’esse tempo. As volutas d’alvenaria e os pinaculos lateraes do frontispicio levam-nos a crer que mais tarde, no meado do seculo XVIII, talvez depois do terremoto de 1755, houve novo e importante concerto.

Temos aqui azulejos datados d’uma época interessante, do periodo philippino, 1628. São de desenho geometrico na maioria, emquadrando porém bons trabalhos em figura.

O corpo do templo é dividido da capella por um arco e na face d’este arco estão as imagens em azulejo de S. Francisco, S. Pedro, S. Antonio e S. Paulo; sobre a porta lateral está um famoso S. Christovão empunhando respeitavel bordão, com o Menino sobre o hombro. O artista empregava varias tintas, amarello, roxo, além dos tons vulgares. Nas paredes da capella ha pequenos quadros tambem em azulejo, azul sobre branco, representando phases da vida de S. Sebastião, muito mais modernos que os do corpo do templo.

É nos azulejos do arco divisorio, infra, que está em grandes algarismos a data 1628, quasi encoberta pelos estrados de madeira.

No alizar d’este arco, ha flores pintadas com mimo; assim como no pequeno côro se vêem caixotões com pinturas.

O ladrilho é antigo e bom; com azulejos brancos entre os tijolos vermelhos. As portas são de excellente madeira, em almofadas de boa execução.

O tecto da ermida soffreu alguma ruina, talvez pelo terremoto, mas conserva ainda boas pinturas antigas, entre estuques mais modernos.

Tem alguns lettreiros em sepulturas, uns bem legiveis, outros gastos pela passagem dos devotos, o que mostra que em tempos foi esta ermida frequentada; agora poucas vezes ha alli missas.

Transcreverei algumas inscripções.

—Aqui jaz sepultado o padre Joaquim Jorge faleceo a 9 de novembro de 1783.

—S.ᵃ do P.ᵉ Antonio Pinheiro capelão que foi d’esta hirmida o qual faleceu na era de 1705.

—S.ᵃ do capitão Estevão Soares de Alvergaria cavaleiro da ordem de Christo faleceu a 11 de dezembro de 1644 e de sua molher Anna de Masedo da Maia e de sua mãi Madalena da Maia....

Tem seu escudo gravado; a cruz fioreteada, com orla de escudos, elmo e paquifes.

Outra campa é do—P.ᵉ Antonio Mamede bemfeitor desta irmida, que morreu em 1 de abril de 1791.

Em outra muito gasta pareceu-me vêr o nome Rodrigo Diniz Moreira.

Sobre a torre dos sinos ergue-se no eirado um campanario onde está o sino das horas; porque tem seu relogio a pequena ermida, com mostrador voltado para norte.

Ha na frontaria quatro argolas de ferro que serviam para segurar um grande toldo na occasião das festas.

Quando fiz o esboceto do frontispicio estive a conversar com um velhote que antigamente tratava do relogio, e armava o toldo, que era quasi sempre uma vela de navio emprestada pelo arsenal de marinha.

Embora humilde e acanhado tem o pequeno templo uma certa importancia por ser anterior ao grande terremoto de 1755, e por nos conservar além do gracioso portal manuelino, pinturas e azulejos do seculo XVII, em bom estado de conservação.

Lumiar. Quinta do Sr. Duque de Palmella

Esta egreja de S. João Baptista do Lumiar é freguezia muito antiga.

A disposição do templo mostra a sua remota fundação, grandiosa, em tres naves; mas as reconstrucções e concertos deram-lhe um aspecto moderno.

Consta que foi esta egreja fundada em 1267. Eram padroeiras as freiras de Odivellas, por doação de D. Thereza Martins, viuva de D. Affonso Sanches, filho bastardo d’el-rei D. Diniz.

Não pára aqui a historia. D. Affonso III possuia aqui uma casa de campo com sua quinta; esta propriedade pertenceu depois a D. Diniz.

Em terreno da quinta foi edificada a egreja. A posse passou ao bastardo de D. Diniz, o infante D. Affonso Sanches, e então se chamou á casa de campo o Paço de Affonso Sanches.

Este entrou nas luctas d’aquella época atormentada, os bens foram-lhe confiscados, e D. Affonso IV, o irmão, chamou-lhe o Paço do Lumiar. Mais tarde a propriedade deixou de pertencer á corôa, mas conservou sempre o nome de Paço do Lumiar; por alli se ergueram casas, fez-se povoação, e ao fim d’ella uma ermida dedicada a S. Sebastião.

O marquez de Angeja, D. Francisco de Noronha, em fins do seculo XVIII edificou o actual palacio, hoje pertencente á Casa Palmella.

O duque de Palmella, D. Pedro, homem de espirito cultissimo e fino gosto, gostava immenso da sua quinta, augmentou-a com a que pertencera á casa dos marquezes de Olhão, depois ao conde da Povoa, e algumas de menor importancia, e assim formou a grandiosa quinta actual, com o seu palacio, e grande pavilhão, jardins, estufas, avenidas de grandes arvoredos, obras de arte de merecimento.

Sendo de forte declive o terreno da quinta tiveram de fazer grandes socalcos, sustentados por fortissimas muralhas o que dá effeitos raros, perspectivas inesperadas a edificios e arvoredos. Ha ahi bellos exemplares vegetaes, a Araucaria excelsa é a primeira plantada em Portugal, o dragoeiro, ainda que um pouco mutilado é bello exemplar, a Araucaria brasileira compara-se á celebre do jardim botanico de Coimbra; cedros, platanos, e ulmeiros seculares alastram fechadas sombras. Nesta quinta se deram luzidas festas no tempo do 1.ᵒ duque, e aqui se guarda, bem ordenada e conservada, a grande e preciosa livraria Palmella.

Mas dos tempos de Affonso Sanches, de Diniz? Nada, nem vestigio; nem uma pedra toscamente lavrada, ou singelo lettreiro, nada recorda esses tempos antigos.

Terremotos

Esta formosa cidade de Lisboa tem sido victima dos terremotos; impossivel calcular o trabalho perdido, a extensão e a intensidade de tanta ruina.

Em certos pontos da cidade a camada de entulhos, caliças, fragmentos de tijolos, é de 3 a 4 metros; pela abertura de cabôcos, e installação de canalisações, e muito se tem escavado nos ultimos annos por todos os arruamentos, descobrem-se na baixa, no Rocio, por exemplo, trechos de canos antigos abandonados e sobrepostos, ainda a profundidade maior.

De tremores muito antigos, e dos da alta idade média ha tradições.

O de 24 d’agosto de 1356 destruiu parte da Sé, e causou enorme devastação na cidade.

Em janeiro de 1531 houve terremotos a seguir, sendo maior e mais destruidor o de 26 d’esse mez.

O de 28 de janeiro de 1551 derribou muitos predios.

Em 27 de julho de 1597 uma parte do monte de Santa Catharina escorregou para o rio, ficando aquelle alteroso monte dividido em dois, Chagas e Santa Catharina; tres arruamentos desappareceram por completo.

Em 1755 a cidade estava maior, mais povoada; o terremoto de 1 de novembro fez muitas victimas, grande parte da cidade ficou arrasada, e o incendio causou incalculavel prejuizo.

Mencionam-se terremotos em 1598, 1699, 1724, fortes mas sem causar grande damno; os abalos de 1761, 1796, 1807; o de 11 de novembro de 1858 muito sensivel, em Setubal foi destruidor, matando gente e derribando casas.

O sr. Paulo Choffat tem trabalhos publicados sobre os ultimos abalos de terra sentidos na capital.

É certo que Lisboa está n’uma zona perigosa; devemos reparar n’isto. Nada de concentrar tudo em Lisboa, guardem-se algumas cousas em sitios mais garantidos.

E todavia ha aqui consideraveis construcções que atravessaram no seu logar e prumo essas medonhas convulsões; por exemplo uma parte consideravel das muralhas do Castello, Santa Luzia e a sua muralha, as capellas orientaes do Carmo, os arcos do Borratem, a casa dos Bicos, a frontaria da Conceição Velha; bastantes edificios anteriores ao abalo de 1755 estão de pé; alguns palacios aguentaram as suas linhas, e o labyrintho das viellas de Alfama conserva a planta medieval.

Mas basta olhar as paredes mais antigas do Carmo e da Sé para perceber pedras de anteriores construcções, fragmentos de lettreiros e lavores, empregados na enxilharia ordinaria. Na vetusta parede norte da Sé ha pedras mettidas no muro que mostram lavor bysantino. No Carmo bocados de campas com lettreiros em gothico, em diversos pontos do edificio, estão empregados como pedra vulgar de construcção. É raro encontrar nos arrabaldes de Lisboa pedras de antigo lavor, da idade média, do ogival, mesmo da primeira renascença no seu logar; Odivellas é uma excepção, assim como o casal da Quintan com o seu muro de ameias. É preciso ir a Cintra, a Torres Vedras, a Santarem para vêr algo antigo de certa importancia.

Na ultima folha de pergaminho do codice n.ᵒ 61 da collecção alcobacense da Bibliotheca Nacional de Lisboa um monge deixou noticia do grande abalo de 24 de agosto da era de Cesar 1394 (1356); fez grandes estragos prostrando castellos e torres em muitos pontos do paiz; em Alcobaça a egreja soffreu muito, no mosteiro houve ruinas, e cahiram muralhas do castello. Foi ao pôr do sol.

Outro monge na mesma pagina escreveu a memoria do terremoto de janeiro de 1531; por mais de 15 dias sentiram tremer a terra; mas no dia 26, antes do nascer do sol, foi o grande tremor; conta que em Lisboa houve grande estrago; no mosteiro houve muita ruina, não escapando a parte superior do claustro.


O abalo de terra de 1755 foi violentissimo, mas escriptores e artistas ainda lhe augmentam as culpas. Este terremoto e a invasão dos francezes são motivos fundamentaes para explicar o desapparecimento de muita cousa, uma rica mina para encobrir o desleixo, a estupidez, a mania de estragar que é muito da raça portugueza.

No tomo 3.ᵒ da==Collecçam Universal de todas as obras que tem sahido ao publico sobre os effeitos que cauzou o terramoto nos reinos de Portugal e Castella no primeiro de novembro de 1755 (Bibl. Nac. de Lisboa, Gabinete de livros reservados), ha alguns opusculos de polemica sobre a grandeza da tremenda catastrophe: ==Carta em que hum amigo dá noticia a outro do lamentavel successo de Lisboa==Está assignada por José de Oliveira Trovão e Sousa (1755).

==Resposta á carta de José de Oliveira Trovam e Sousa em que se dá noticia do lamentavel sucesso de Lisboa. É de 1756; assignada por Antonio dos Remedios.

==Verdade vindicada ou resposta a huma carta escrita de Coimbra. Por José Acursio de Tavares (Lisboa, 1756). De taes escriptos conclue-se que o terremoto destruiu bem a terça parte de Lisboa e que o incendio que se lhe seguiu foi terrivelmente devastador; mas fóra da area de grande intensidade do abalo, e além do espaço que o fogo alcançou, muitos predios, bastantes palacios, grandes arruamentos ficaram salvos; agora é bem raro encontrar uma frontaria, uma janella, uma grade de varanda anterior ao terremoto. No final do seculo XVIII e no seculo XIX a transformação foi completa; basta a vulgarisação da vidraça e o desapparecimento da rotula para modificar o aspecto da cidade. Em povoações onde o terremoto não foi tão destruidor, apenas se sentiu, a transformação foi analoga. É que na verdade o portuguez é bem fraco conservador. Aqui pelos arrabaldes de Lisboa direi mesmo que é destruidor. Por isto eu dou toda a attenção ao que me parece antigo, me demoro com o anterior ao seculo XVIII, e quasi pasmo quando me surge um fragmento do seculo XVI.

Folheando qualquer Illustração estrangeira se vê o carinho, o amor com que em paizes muito mais atormentados que o nosso se guardam antigos edificios, casas particulares de aspecto artistico, objectos de uso vulgar consagrados pela idade, qualquer cousa que seja documento do antigo viver. Os terremotos são damninhos, mas a indifferença, o desleixo, a ignorancia são grandes causas de destruição.


Este caminho entre varzeas ferteis, arvoredos mansos, collinas de grandes curvas com terras de semeadura e verdes pinhaes, por onde vamos encontrando gente do campo, scenas da vida popular, é a via tragica na historia de Portugal, brados de victoria e rumores de desespero, marchas de tropas em dias de lucta, por aqui passaram entre estas paisagens que só lembram agora frescas aguarellas; patuleias e cartistas; miguelistas e pedristas, columnas de Junot e de Wellington; castelhanos que vieram cercar Lisboa, portuguezes voltando de Aljubarrota; e provavelmente cavalleiros de Affonso Henriques, e dos mouros, dos godos e dos romanos; porque é esta a estrada que leva a Lisboa, a antiga e nobre cidade, o grande porto maritimo.

Na ida para o Correio-Mór, perto da Povoa de Santo Adrião, reparei em certa pedra lavrada de aspecto raro; na volta parei e fui vê-la; é

Uma ara romana.

Ha um poço coberto, encravado no muro, a poucos metros da estrada; sobre um pequeno arco um nicho com a imagem de S. Pedro; perto um poial, alto, e no chão uma pedra lavrada, com funda cavidade. É um parallelepipedo de oito decimetros de comprido, por tres de altura, proximamente, de pedra vidraço; um cordão de forte relevo divide os lados em duas fachas; na superior um lavor geometrico, curvas em grega torneando saliencias circulares; na facha inferior quatro rosas entre curvas symetricas. Creio que é uma ara romana. Salvou-se junto da fonte d’agua com virtude, guardada pela tradição. Por aquelles sitios teem apparecido antiguidades romanas, ainda que são muito menos numerosas as inscripções que nos arredores de Cintra. Como esta pedra lavrada atravessou intacta tantos seculos, n’este paiz de estragados!


—Versos novos?!

—Umas liras! diga já, frei Simão!

Estavam no jardim, na meia laranja da cascata, á sombra do platano alteroso. Linda manhã de junho. Era o dia anniversario da senhora morgada; visitas de Lisboa animavam o palacio. A missa tinha sido ás 7, e o almoço terminára ás 9. Alguns dos senhores partiram para a tapada, outros para o picadeiro vêr os dois cavallos novos que o conde trouxera de Sevilha.

O apparecimento de frei Simão, frade jeronymo, que viera de Belem em ruidosa e balouçante caleça, foi saudado com alvoroço; o frade tinha sempre a contar anecdotas facetas, algumas muito repetidas mas que elle contava com certa graça, e noticias da gente palaciana, sempre saboreadas com delicia.

Frei Simão avançou devagar, até perto da morgada, muito serio, fez uma cortezia reverendissima, e recitou o soneto de parabens pelo feliz anniversario; era composição nova; vinha escripto em primorosa lettra num papel, com sua inicial floreada, enrolado e atado com fita de seda branca.

Depois deixando o tom ceremonioso, pondo-se muito risonho, annunciou os versos novos, umas sonóras, não umas liras...

—Diga, diga.

—É a segunda vez que as leio...

—E nós a julgarmos que tinhamos a primicia...

—A primeira vez só uma pessoa, alta pessoa, as ouviu. Por isto posso dizer a primicia.

—Quem seria a alta pessoa?

—Eu digo, senhora morgada; foi el-rei que Deus Guarde.

—Bravo! foi ao Paço? teve audiencia?

—Foi na rua, antes na estrada. El-rei viu-me passando pela estrada de Pedrouços; mandou parar o coche. E bradou-me:

—Então, oh! Santa Catharina, fizeste a resenha?

—Sim, meu senhor, e está em verso; ia levá-la a Vossa Real Magestade.

—Não precisas ir mais longe; dize lá.

Acheguei-me á porta do coche e li os versos. Eu já me sentia acanhado porque a lira é comprida, e o coche ali parado na estrada. Mas el-rei D. João V gosta de versos jocosos; não imaginam como elle ria.

—E como soube elle que Vossa Reverencia fizera a lira?

—Ora, foi assim. Em Belem, no nosso mosteiro, pela festa de S. Jeronymo, costuma haver lauto jantar, com convidados; ao jantar da casa, jantar de festa, juntam-se muitos presentes; enche-se o grande refeitorio; o d’este anno foi estrondoso. El-rei soube e encontrando-me ha dias em palacio, disse-me para lhe fazer a noticia dos pratos; e eu puz a lista em verso; fiz a lira!

—Diga, diga.

—Eu começo; frei Simão de Santa Catharina collocou-se em frente das damas; limpou lentamente a fronte, a bocca e o nariz com o lenço cheiroso a agua de rosas.

Monarcha Soberano
Pois Vossa Magestade assim me ordena
O jantar deshumano
Irá cantando a Musa pouco amena
E em ser só se verá que foi diverso
No refeitorio em prosa e aqui em verso.

A lira vae descrevendo o grande refeitorio, o adorno das janellas com estatuas, festões, grinaldas de flores naturaes, os aparadores carregados de pratas, o chão atapetado de flores.

Estava o refeitorio num brinco.

Em cada logar da vasta meza havia os appetites, as pequenas iguarias, com seus adornos.

Cobria o cuvilhete
um papel retalhado, com acerto
que inda que pequenete
como grande queria estar coberto.
Na marmelada vinha, guaposito
guarnecido de flores um palito.
Em cada assento havia
garfo, faca, colher e guardanapo
dois pães, com bizarria
melancia excellente, melão guapo
figos, uvas, limões, pecegos, peras
sem graça, o cesto enchiam, mui devéras.
A ilharga da salceira
um bom tassenho de presunto havia
tão magro e tão lazeira
que a mim me pareceu ser porcaria
tambem tinha azeitonas e alguem disse
que foram d’Elvas.

Estes eram os appetites que adornavam os logares dos commensaes. Agora os pratos.

Foi o primeiro prato uma tijella
cheia em demazia
de caldo de gallinha com canella
que da gallinha trouxe a propriedade
porque o caldo tinha ovo na verdade.
Foi o segundo prato
uma bem feita sopa á portuguesa
que dava de barato
O filis e o primor que ha na franceza.


Por algum grão delito
foram muitos perús esquartejados
uns vêm com sambenito
outros vinham sómente afogueados.


Outro prato de assado
que era lombo de vacca mui tenrinho.
Comia afadigado
outro leigo mui gordo meu visinho
rollos e pombos ensopados.

Seguiram-se as frigideiras com linguas e miolos. Os coristas que serviam á meza eram muitos e andavam lestos. Appareceram as empanadas inglezas; tinham:

Ade, perdiz, gallinha, frangalhada
E disto vinha a olha enchouriçada.
Apoz isto algumas doze tortas.


Cinco ou seis pratos de ovos
De pão de ló por dentro recheados
Outros mal entrouxados
Outros ovos tambem com corôa regia
De almojavanas conto
A duas mui grandes por cabeça
Em assucar em ponto.